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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

São Bartolomeu de Maragogipe: 366 anos de história e fé


Por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa

Neste Ano Jubilar da Divina Misericórdia refletimos durante o novenário de São Bartolomeu de Maragogipe sobre tema importantíssimo e que na maioria das vezes, nos esquecemos. Poucas pessoas são misericordiosas como o Pai e por este motivo, há necessidade de reflexões. Foram nove noites motivadas pela Misericórdia Divina e nelas, aprendemos mais uma vez, que atitudes simples e cotidianas transformam vidas. Dar de comer aos famintos, Dar de beber aos sedentos, Vestir os nus, Acolher os peregrinos, Assistir aos enfermos, Visitar os presos, Enterrar os mortos, Aconselhar aos indecisos e Consolar os aflitos são motivações e atitudes cristãs que devemos ter ao longo de nossa vida sem a necessidade de pedir nada em troca. Fazer o bem sem olhar a quem!

Hoje, dia 27 de agosto de 2016, gostaria de deixar esta simples mensagem visando a construção de uma identidade religiosa e popular.


A Igreja de São Bartolomeu de Maragogipe tem história tricentenária que merece destaque. Para comprovar tal afirmação, viajo na história trazendo à luz desta mensagem a opinião do mestre Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues, meu avô, que proferiu palestra no Cine Lourdes, em 28 de novembro de 1950, na sessão de homenagem a D. Augusto, para encerramento das festas tricentenárias da Igreja Matriz. Vale lembrar que naquele ano, Maragogipe comemorou o primeiro centenário de sua elevação à categoria atual, com a denominação de Patriótica Cidade, e em 12 de setembro deveria ter comemorado o tricentenário de inauguração da sua Matriz, o que entretanto, veio a fazê-lo no mês de novembro. As festividades comemorativas do terceiro século de existência da Casa do Senhor, erigida nesta terra abençoada, sob a invocação do Glorioso Apóstolo, teve a figura exemplar do Padre Florisvaldo José de Souza como líder da Comissão diretora e foi uma festa espetacular. Ressaltamos que, em 1989* foi substituída as comissões de festas do padroeiro, eleitas anualmente, que haviam sido incorporadas a Mesa Administrativa desde 1912, por uma Comissão de Festas escolhida pelos membros da Igreja de São Bartolomeu com o intuito de evitar conflitos que ocorriam por causa das eleições.

Mas aqui, cabe perguntar, quando São Bartolomeu tornou-se o padroeiro desta maravilhosa terra? Há diversas interpretações, mas não vamos nos prolongar. A história religiosa indica que os moradores desta terra tinham como principal protetor - São Gonçalo -, e após uma aparição de um homem alto, todo ensanguentado com uma adaga na mão sobre uma pedra no meio de uma pequena floresta para um escravo no período colonial fez surgir um sentimento novo na Fazenda do Capitão Bartolomeu Gatto que já era devoto de deste Apóstolo de Cristo e indicou para a comunidade que aquela aparição era uma manifestação Divina o que acabou por convencer a maioria da população e ao Rei de Portugal que os habitantes deste lugar deveriam construir este magnífico templo dedicado a São Bartolomeu.

Historiadores indicam que a construção teve início por volta do ano de 1640, mas dúvidas ainda pairam em torno da data de sua inauguração. Todavia, no testamento do Capitão Bartolomeu Gatto datado de 16 de dezembro de 1650 e revogado por novas disposições em 20 de outubro de 1651 faz referência a Igreja Matriz. Na época, o Padre Paulo de Sam Payo assina o referido documento como uma das testemunhas o que pode ser indício de que a Igreja Matriz de São Bartolomeu recentemente construída já estava em funcionamento. Por este motivo, aceitamos a ideia de que neste ano de 2016, Maragogipe comemorará no dia 12 de setembro, o 366º aniversário da Igreja Matriz de São Bartolomeu (sem contar os anos de debate e construção), data esta que deve ser comemorada todos os anos.

É claro que a Igreja de São Bartolomeu de Maragogipe sofreu inúmeros reparos ao longo do tempo, sendo ampliada, para que pudesse suportar galhardamente a ação iconoclasta do tempo e continuasse a ser o sacrário bendito onde a alma maragogipana pudesse se abeberar do consolo necessário para suas dores sob seu teto abençoado. Na leitura de documentos históricos verificamos que dos orçamentos da Província da Bahia nos anos de 1845, 53, 59, 81 e 88, consta a consignação de verbas nos valores para obras na Matriz de São Bartolomeu. Em 1941, sob os auspícios da comunidade e orientação do SPHAN foi renovada a pintura do forro da Igreja de São Bartolomeu de Maragogipe. Neste mesmo ano, a SPHAN tombou a Igreja de São Bartolomeu de Maragogipe, sob o nº 155 do livro de História, fl. 26, e sob o nº 296 do livro de Belas Artes, fl. 51. Ao longo do tempo, outras obras foram realizadas e até hoje, a beleza deste magnífico e glorioso Templo necessita de reparos constantes. A dificuldade é grande, mas com a ajuda da comunidade católica cristã o grandioso Templo de São Bartolomeu de Maragogipe se mantém firme e é destaque Arquitetônico Brasileiro. Preservar este Templo e cuidar para que a história deste Patrimônio não perca sua identidade, é dever de toda a comunidade católica maragogipana, priorizando também as características religiosas da Festa de São Bartolomeu.

Falando em Festa de São Bartolomeu – outro patrimônio histórico, cultural e religioso do povo maragogipano que precisa ser preservado e imaterializado, por ser parte da cultura popular sacra e profana da comunidade maragogipana, poucos são os dados encontrados da data de início da Festa de São Bartolomeu que tem sua história narrada, principalmente, por Fernanda Reis dos Santos, historiadora e amante da nossa rica história. Mas o pouco que sabemos é visto e sentido pela comunidade maragogipana ao longo do mês de agosto, nosso mês Maior.

A cultura popular e religiosa maragogipana nos lega sentimentos especiais. O pregão avisa a comunidade maragogipana em julho que o mês de agosto se aproxima. No primeiro domingo de agosto, o Bando Anunciador percorre as principais ruas da cidade distribuindo o programa da festa religiosa, e neste dia, cavaleiros e amazonas desfilam pela cidade com a participação especial da comissão de festas, filarmônicas, autoridades e toda a comunidade maragogipana envolvida com as festividades. Antigamente, o Bando anunciava para os habitantes das cidades e vilas próximas que no mês de agosto aconteceria a grandiosíssima Festa de São Bartolomeu.


No segundo domingo, acontece à purificação das almas através da secular Lavagem do Templo remontando o mutirão realizado no ano da inauguração da Igreja Matriz. O novenário de São Bartolomeu acontece sempre com muita fé e energias positivas para a comunidade cristã acompanhada da melodia glorificante do Coro e Orquestra Maria Imaculada Conceição.


No terceiro domingo, em uma festividade que marca o sagrado e o profano, num ato ecumênico, acontece a Lavagem Popular das ruas de São Bartolomeu.


O dia 24 de agosto é espetacular. Dia do Excelso e Insígne Padroeiro de Maragogipe – São Bartolomeu. Nele, renovamos sentimentos e a esperança da construção de uma sociedade mais justa, mais humana e mais misericordiosa, sem a necessidade de perseguições e devaneios de suas lideranças. O quarto e último domingo é o momento ímpar especial para toda comunidade cristã, nela celebramos o Domingo da Festa com Solene Concelebração Eucarística. Na Segunda da Festa, uma imponente Procissão percorre as principais ruas maragogipanas demonstrando a fé, o amor e a confiança que a comunidade cristã católica maragogipana tem com São Bartolomeu e Nossa Senhora da Conceição.

Para descrever cada detalhe da Igreja e da Festa de São Bartolomeu é imprescindível a produção de livro, mídia ou preservação da farta documentação existente e espalhada pelo mundo em um Arquivo Histórico. Diversos autores já se debruçaram nesta tarefa maravilhosa – Osvaldo Sá, Fernando Sá, Odilardo Rodrigues, Ronaldo Souza dentre tantos outros que deixaram marcas indeléveis de fé sem deixar de lado a questão histórica e racional. Hoje, vivemos incomodados com a falta de documentação histórica apesar de tantas produções. A comunidade maragogipana precisa ajudar neste processo de resgate histórico e religioso, principalmente, relatando suas histórias, memórias e relações de crença e fé na intercessão de São Bartolomeu. A musicalidade da Festa merece destaque especial com a produção de mídia e a história precisa ser contada nas escolas para que nossos jovens conheçam sua história para aprender a preservá-la.

Que São Bartolomeu interceda por toda a comunidade maragogipana para que os cidadãos de bem desta terra saibam escolher pessoas compromissadas com este Patrimônio, que merece ser Patrimônio da Humanidade.

Por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela UFRB


*Obs.: Data alterada devido a erro histórico. No documento original constava 1995, mas o fato aconteceu em 1989.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Culto de São Bartolomeu em Maragogipe

Por: Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues

Foto antiga da Igreja Matriz de São Bartolomeu
O culto de São Bartolomeu nesta abençoada terra das Palmeiras, data dos primórdios da sua vida, da época em que iniciava a sua formação, quando saía das trevas da vida selvagem para iniciar a sua marcha gloriosa na senda do progresso sob o signo o abençoado da Cruz Redentora.

A devoção dos maragogipanos para com o Glorioso Apóstolo vem também dos seus primeiros dias, do tempo em que era ainda uma fazenda pertencente ao luso Bartolomeu Gato.

Cristão sincero e ardente, como todos os seus contemporâneos, o proprietário fez erigir nas suas terras uma igreja onde pusesse, juntamente com os de sua família e agregados, cultuar a sublime religião do Mártir do Golgota, invocando o nome de São Bartolomeu para Padroeiro da nova célula cristã que nascia nas dadivosas terras do gigante sul-americano.

A razão da escolha deste Santo reside no fato de que o mesmo Bartolomeu Gato já era seu devoto e à sua proteção fora posto pelos maiores, como o atesta o seu onomástico.

Maragogipe, célula cristã das mais fervorosas, não deixou jamais de cultuar o nome sagrado do Fiel Discípulo, conservando-o através dos séculos como seu Padroeiro querido.

O autor destas linhas, embora reconhecendo que lhe falece autoridade de historiador, pensa ser muito mais razoável aceitar esta explicação da razão de ser São Bartolomeu o Padroeiro da cidade, do que aquela outra que diz estar no fato de ter aparecido uma imagem do Santo, naquela pedra, que ainda se vê, em frente da igreja.

Esta explicação não passa de fantasia do espírito popular, sempre inclinado a dar origem misteriosas ao objeto do seu culto; nada mais é do que uma lenda, muito semelhante a tantas outras referentes a localidades vizinhas e seus padroeiros, mesmo porque aquela pedra ainda ali está porque representa um dos marcos delimitadores dos terrenos pertencentes à igreja, pois conforme o costume tradicional, delimita-se o terreno que pertencia a um templo toda vez que era erigido, em qualquer localidade, para que o mesmo fizesse parte de seu patrimônio.

A Igreja de São Bartolomeu de Maragogipe é multissecular datando a sua inauguração de 18 de novembro de 1658.

Há 333 anos1 que naquele mesmo templo, Ele recebe as homenagens fervorosas e sinceras deste povo eternamente reconhecido à intérmina messe de bens que Ele esparge sobre as suas almas, pelo cuidado carinhoso com que o ampara nos momentos mais difíceis da sua atribulada existência.

Até o ano de 1764 a Igreja pertencia aos herdeiros de Bartolomeu Gato, por cuja indicação eram nomeados os vigários da Freguesia; mas, em virtude de um acordo do Tribunal neste citado ano, deixou de pertencer ao espólio da família, independente da autoridade do Morgado que o dirigisse, passando a nomeação a ser feita diretamente pelas autoridades eclesiásticas competentes, sem intervenção de pessoa alguma estranha ao clero; a sua administração queremos crer que ficasse desde então, entregue à Irmandade de São Bartolomeu que parece existir desde aquela época; dizemos, parece existir, porque não nos foi possível precisar a época da organização desta importantíssima associação religiosa da cidade, que bem pode merecer a classificação de primeira entre todas.

Bando Anunciador
A Igreja de São Bartolomeu, além de muitas outras preciosidades pertencentes ao seu formidável patrimônio, possui como maior entre todas, pelo seu alto significado cristão, uma relíquia vinda diretamente de Roma, capital do cristianismo universal, e é representada por um pedaço do SANTO LENHO.

A festa celebrada anualmente em louvor do idolatrado Padroeiro conserva ainda hoje o seu aspecto tradicional.2

O primeiro brado de alerta para ela é dado no primeiro sábado de julho, com a distribuição nas ruas da cidade, do pregão do Bando Anunciador, cuja saída triunfal ao som alegre e rítmico de sonoras fanfarras, no primeiro domingo do mês de agosto, convoca a alma cristã da cidade para sua maior festa, despertanto o seu entusiasmo que atingirá o zênite no dia 24.

Com a saída do Bando Anunciador, que em lindos versos revela o que serão os dias consagrados ao culto do Padroeiro, tem início a maior festa de Maragogipe.

Foto interna da Igreja da Matriz
O espaço de tempo que medeia entre a saída do Bando e o início do novenário é vivido ansiosamente pela população da cidade que se prepara caprichosamente para cooperar no maior fulgor o maior dia de Maragogipe.

Inicia-se o novenário. Maragogipe inteiro acorre ao templo todas as noites, genuflexo, homenageando São Bartolomeu e finda a parte sacra, espalha-se pela praça da Matriz para ouvir os sons harmoniosos destas duas grandes espessões do seu passado glorioso: Terpsícore Popular e 2 de Julho, que se sucedem alternadamente no coreto, emprestando também o seu concurso para maior brilhantismo da festa. Estas noites do novenário constituem um espetáculo grandioso e encanador, pois durante elas, a mulher maragogipana deixa extravasar todo o seu sentimento artístico, a sensibilidade da sua cândida e pura, na ornamentação dos altares da secular matriz, ora substituindo-as por outras que as suas níveas mãos tão sabiamente executam.

No domingo que antecede ao dia da festa a cidade é tomada de assalto pela alegria ruidosa das ruas, nas quais o seu povo humilde, vibrando de entusiasmo, brinca extraordinariamente na tradicional lavagem.

Finalmente desponta a aurora do dia 24, tão ansiosamente esperado, e com ela, a celebração de uma missa, à qual comparecem os velhos recordando a infância e também as digníssimas senhoras, cujas obrigações do lar, impedem o comparecimento à missa festiva.

Desde o alvorecer, a cidade, de fisionomia alegre e sorridente, com os seus lares de portas abertas, começa a receber no seio amigo toda corte dos passeantes que de todos os recantos aqui aportam, sequiosos de prestar a sua homenagem ao Milagroso São Bartolomeu.

Maragogipe, nesse dia, converte-se na capital do cristianismo no Recôncavo baiano; as suas ruas engalanadas de bandeirinhas, balançando ao sopro ameno da brisa dos leques farfalhantes das suas palmeiras garridas dão as boas vindas aos irmãos das outras plagas; intenso é o movimento no interior dos lares, onde a família maragogipana desdobra-se na faina de cumular gentilezas aos seus hóspedes.

Às 10 horas do dia, com a maior pompa é celebrado o Santo Sacrifício da Missa, assistindo piedosamente por toda a multidão que invade o augusto templo, que vibra de emoção ouvindo sempre a palavra mágica do pregador sacro discorrendo sobre a vida do Padroeiro.

O espetáculo é digno de ser contemplado na nave do templo, lá está a família maragogipana representada pelas suas lindas filhas irmanadas às suas irmãs recém-chegadas; as filarmônicas locais também irmanadas às suas coirmãs comparecem pra encher os ares com as notas maviosas das lindas peças dos seus repertórios.
Finda a missa, a multidão espraia-se pelas ruas da cidade e durante a tarde, Maragogipe – verdadeira metrópole – vive horas de intensa alegria, que vai esmaecendo à medida que chega o momento do retorno das luzidas delegações, que partem deixando na alma boníssima dos maragogipanos uma saudade infinda, apenas consolada pela lembrança de que no ano vindouro retornarão.

São Bartolomeu saindo da Igreja em Procissão
Na segunda-feira, à tarde, vem à rua em artística charola, acompanhado por toda a multidão dos seus fiéis devotos e ao som dos acordes musicais da Terpsícore Popular e 2 de Julho, a imagem sacrosanta ao Apóstolo querido que mais uma vez recebe, ao passar pelas artérias da cidade, as homenagens sinceras de todos os seus filhos. É sempre incalculável o número de fiéis que acompanham a procissão.

Na terça-feira, último dia dos festejos, é queimado no largo da Matriz, artístico fogo de planta, com o qual encerra-se a festa, deixando no coração dos maragogipanos a certeza de ter cumprido um dever sagrado e o desejo de cumpri-lo novamente no ano seguinte, com maior zelo e fulgor, pois a única diferença notada nas festas que sucedem anualmente é o desejo sempre vivo de superar o ano que passou.

Glória a São Bartolomeu! Hosanas a Jesus Redentor, que revelou ao mundo cristão a personalidade augusta do Padroeiro de Maragogipe!

Notas: (por: Zevaldo Sousa)
  1. Esse texto foi adaptado ao contexto em que foi publicado no livro “A Vida de São Bartolomeu” (Obra Póstuma - 1991), sendo escrito antes de 1983. Ano do falecimento de Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues.
  2. Devido as circunstâncias em que o texto foi escrito, cabe aqui salientar que, a festa perdeu muito de sua característica tradicional, sendo incorporado shows e outros eventos que não faziam parte dos festejos.

terça-feira, 23 de março de 2010

Como tirava fotos na Festa de São Bartolomeu

Fonte: Continhos para cão dormir

Êta! Quando a Festa de São Bartolomeu era boa, tinha até foto com a Igreja especial, quem lembra?

Continhos para cão dormir - 1985
Essa foto está postada em um Blog pessoal, e que me fez relembrar momentos marcantes da Festa de São Bartolomeu.

Se você tem alguma foto pessoal e deseja colocá-la neste Blog, é só enviar um e-mail: zevaldo.sousa@gmail.com

quinta-feira, 13 de março de 2008

Tempo de Relembranças, por Ronaldo Souza

Quando corria a primeira metade do século XVII, era grande a agitação em volta da construção que se edificava naquela colina. Por ordem da coroa portuguesa (1000 cruzados por cada ano trabalhado), os homens de Maragojipe erguiam aquele que viria a ser o suntuoso e magnífico templo de Bartolomeu, dado como Padroeiro por ser o nome de rico proprietário luso e escudado no forte amparo do primeiro padre, Manoel Coelho gato, seu irmão.

Os mais velhos, os que não mais podiam carregar a areia lavada do Paraguaçu e Cachoeirinha, que não mais suportavam o peso das grandes latas de óleo de baleia e de cascalho recolhido na fimbria dos mangues, estes, os mais velhos, demoravam-se em prolongadas conversas vespertinas, vendo o trabalho ingente dos negros luzidios de suor e ouvindo as ordens do mestre-de-obras, o sargento Fernandes Cazado.

Era e é costume cultural maragojipense, o de observar obras, mesmo não sendo suas, como o fazem os engenheiros ou desocupados.

Os três amigos, dois já de cãs, outro vergado pelo peso dos anos sofridos, eram o negro Elesbão, que veio da África como escravo, onde era chamado Okomirô; o outro, de pele tisnada de sol e acobreada, descendia dos tupinambás, primeiros nativos maragojipanos, era Ubiratan, conhecido em sua antiga e extinta tribo como o filho do ria-mar. O terceiro dos amigos, era o branco Martin, cujos pais vieram nas primeiras viagens de colonização lusa e tinha traços e feições européias. os três conversavam, olhavam a obra monumental e, a mais das vezes, olhavam para lugar nenhum, deixavam seus olhos se espraiarem pelo mangal que cincundava a vila, verdadeiro supermercado gratuito da população,. onde vivia abundante e saborosa faunaou então os olhares se perdiam para os longes do Guaí, no extremo norte do lugar. Falavam pouco, como manda a educação dos idosos, sentidos gastos, mas aguçados para as belezas do local, os sons, as cores, os cheiros. Falou-se, empós, da igreja que se alevantava e o índio disse:

- Vai ser do arco-íris, de Karobitã, nosso Deus! Disse e bateu a cabeça no solo ou quase isso, o que lhe permitia as juntas cansadas.

- Nada disso, falou Elesbão, cor de ébano e do tamanho de um baobá. Aqui vai morar Oxumaré, aquele que leva a água da terra para o céu, orrobobô, arrobobô, disse numa reverência, levando as pontas dos dedos à testa e à nuca.

- A igreja é de Natanael, filho de Tolomeu, Bartolomeu, Apóstolo de Cristo, assim proclamou Martin, o branco, depositário das raízes do catolicismo português e de toda Península Ibérica. Disse e fez o sinal da cruz, persignando-se.

Assim contaram os mais velhos, que passaram estas conversas de geração para as outras que lhes sucederam. Assim contaram os sábios que se assentam nos fundos da matriz, um senado conspícuo e eticamente bem melhor que muitos dos que conhecemos. Assim se constrói a história ou se inventa a lenda, nos dois casos evidencia-se a cultura, alma dos povos.

Cobram-me escritos atuais, taxam-me de saudosista, como se relembrar o passado fosse algo danoso ou feio. Como se os memorialistas não tivessem seu valor literário. Esta cobrança, este patrulhamento intelectual, por certo, advém da inaptidão daqueles que são incapazes de fazer, embora se reconheça, pelo autor pífio, serem estas linhas desprovidas de encanto e mérito.

Anos e anos depois, a igreja pronta e majestosa, eram outros os três amigos e chamavam-se Orlando, Mix e Marechal, mosquiteiros de Baco, inseparáveis nos folguedos da bola e do copo. Estavam em barraca tosca e animada e nessas primeiras horas da alvorada, discutiam sobre importantes e graves problemas nacionais, as invenções trabalhistas de Getúlio. Esses amigos mudavam de nomes e de épocas, mas eram sempre a síntese da convivência fraterna do maragojipense, a alma terna a boa das gentes do lugar, a picardia de Bobôco, sábio sem nenhuma letra, generoso e com seu cetro transformado em pandeiro; Mãe Pissu aparando as crianças em seu profícuo ofício de obstetrícia aprendido na faculdade da vida; Euzébio e sua pirotecnia com seus foguetes que levavam mensagens ao céu estrelejado.

A síntese da essência vital maragojipana passa pelo samba-de-roda de Aurinho e Memeu de Chica, pela sabedoria de Antigdó e Arlindo, de Campeão e Merete, de Benedito Lopes e João de Braúlio, somente para citar alguns dos Bambas do Cajá, porta do mar, reduto de pescadores, com suas redes de pesca e poesia. Passa por Juquinha e Marotão, por Bibi Laranjeiras e Antônio Garangau, expoentes literários.

Passa por Nou, músico exemplar, por Nené e os Bahia, os Mato Grosso, os Rosário, os Guerreiros. A alma da terra e do povo está nas festas da Associação, todos de paletó, festas de gala, aos sons sempiternos de Almério e seu pistom, Odilon e seu sax, Britinho na bateria e Galo Cego fazendo malabarismos com seu pandeiro.

Maragojipe passa e perpassa no Largo da Matriz, de tantos nomes, mas eternamente e sempre conhcido como sendo o da Matriz, da imponente basílica, onde se edificou esta peça valiosa da arquitetura colonial e onde se louva, e canta, e glorifica-se BARTOLOMEU, o santo da pele esfolada, manto de sangue enrolado no braço e a adaga do seu martírio atroz. Somente Michelângelo poderá exprimir, como o fez, a cena do juízo final, nos afrescos da capela Sixtina, no Vaticano, a magnificência e simbologia da mensagem pictórica, pois enquanto todos discorrem sobre seus feitos e sofrimentos, BARTOLOMEU nada fala, fica mudo, mas mostra a pele de seu corpo sangrento e somente basta para que Deus o escolha e o acolha no Seu Reino da glória!

A alma dessa gente, de índole boa, só tem o defeito de ser ingênua e acreditar nos pulhas, naqueles de caráter deformado pela maldade ou pelas circunstâncias de interesses pessoais e escursos. Essa gente sempre crê, e é fácil de ser seduzida pelos engodos e promessas do demo que se traveste em egocêntricos pilantras que só pensam na projeção de suas imagens, embora distorcidas pela fraude, pela mentira e pela perfídia. No entanto, afora acreditar até no que não presta, esta gente maragojipana é leal, amiga e feliz, como um drible de Besouro, uma jogada de Bibiu, a dança de Paca, o dobrado de Heráclio e toda elegância e correção moral de Lalaque, um cavalheiro, sobrinho do maestro e paradigma da cultura e fraternidade de Maragojipe. Esta terra nos deu Durval de Moraes e seus versos inigualáveis; nos deu Heráclio e Alfredo Rocha, glórias da música; a oratória sacra de Dom Macedo Costa; a inteligência de Antônio Rebouças, conselheiro imperial; o barão do Desterro, nominado João José de Almeida Couto e o Brigadeiro Seixas, e o almirante Vieira de Melo e outros nomes inesquecíveis.

E nos oferece, agora nestes tempos de novo século e milênio, a musicalidade de Edil Pacheco, poeta-cantor de todos nós e a cultura fulgurante de Cid Seixas Filho e uma plêiade de artistas do povo, gênios do violão como Dica e Didi da Bahiana (e seus filhos), como Ismael e Social, os toques dos tambores afros, os timbaus, os atabaques de preceitos dos candomblés, os cantos sacros, as bandas, as filarmônicas, os caretas, as comidas, os licores, os doces cristalizados, as balizas, filhas e mães-de-santo, ateus e católicos,heréticos e sacrílegos, santos e loucos, e os poetas, toda essa gente misturada formando a síntese de uma comunidade que confia e crê, que espera e tem fé. De meninas formosas, como Atir que nunca mais a vi, os fulvos cabelos de raios de sol e que continua viva em minhas retinas fatigadas; como um verso de hesrai, a mais bela deusa do oriente com seu trajar de muçulmana da Pedra Branca; como as famílias distintas e tradicionais edificadas sob a égide do amor, com dores e alegrias divididas; como os lavradores que aram das marés e a navalha das ostras para irem buscar o sustento de seus filhos; como as ruínas da fábrica que continua apitando sua sirene de socorro; como o navio que continua chamando muitos para a última viagem...

Assim é Maragojipe, com suas rezas e ladainhas, com seus poemas e canções e com este escriba senil e doente que teima em cantar sua terra acima de todas as coisas. Que esta é minha missão, bem ou mal eu a faço como uma oração latejada ou como uma prece de amor nunca dita Relembraças, nada mais. YOLESHMAN CRISBELES!


Maragojipe, agosto de 2002
Ronaldo Souza