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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Biografia de Juarez Guerreiro, in MEMÓRIA DE MARAGOGIPE

Por Carlos Laranjeiras

Não houve na história de Maragogipe – e certamente não há ainda – político mais importante do que Juarez Guerreiro. Símbolo de uma época, cujo prestígio pessoal influenciava no resultado de eleições, atraia a Maragogipe candidatos a governador, deputado federal e deputado estadual, que lhe beijavam a mão.

Por causa da sua influência política, Maragogipe recebeu a visita de Régis Pacheco, medico de Vitória Conquista, eleito para o governo do estado em 1951 e de Antônio Balbino, sucessor de Regis no governo da Bahia em 1955. Balbino foi também deputado federal, senador e ministro de dois governos: Getúlio Vargas e João Goulart.

Ao chegar a Maragogipe, Antônio Balbino era recebido na “ponte do navio” pela Filarmônica Terpsícore Popular e hospedava-se na casa de Juarez, no Caminho do Caijá (ou Cajá?), a qual atraia tanta gente que mais parecia igreja em dias de festas de São Bartolomeu (Caijá ou Cajá suscitaram uma boa discussão pelos jornais nos anos 60, mas quem venceu foi Bartolomeu Americano, a qual pretendo lembrar em breve).

Juarez era do PSD, legenda também de Regis Pacheco, Antônio Balbino e Waldir Pires, que viriam a integrar na Bahia o MDB, mas se vivesse até o final dos anos 60, quando os militares já se encontravam à frente do governo da República, dificilmente integraria o Movimento Democrático Brasileiro. Porque esse maragogipano alto, moreno e corpulento, era personalista. Ele exerceu durante mais da metade da vida o controle da política municipal, razão pela qual germinou a família mais numerosa da cidade.

Juarez simbolizava a figura do coronel: protegia e oferecia sustento a aqueles que lhe juravam fidelidade ou lhe tinham consideração e respeito, apadrinhava casamentos, arranjava-lhes emprego e dinheiro, providenciava-lhes médicos e internações, batizava-lhes os filhos, dava-lhes refeições, impedia que a polícia os prendesse e se recolhidos à prisão fossem, providenciava-lhes a soltura. Esse chefe da política municipal durante a ditadura Vargas e os governos estaduais de Regis Pacheco e Antônio Balbino dava a impressão de ser em Maragogipe, além de prefeito, o advogado, o médico, o delegado, o escrivão ou o padre.

Ele transmitia a sensação de não ter vocação para ser mandado e sim para mandar, então seria difícil a sua presença no Movimento Democrático Brasileiro, que era uma legenda de idealistas que lutavam para expulsar do poder central os militares. Alguns membros dessa legenda, como o então deputado estadual Marcelo Duarte, filho do jurista Nestor Duarte, esforçava-se também para acabar com as velhas oligarquias inclusive com a que Juarez Guerreiro representou em Maragogipe, a qual não prosperou com a sua morte a despeito de ele haver deixado discípulos como Cid Seixas Fraga e Antomeu Brito Souza.

Para melhor compreensão deste texto, leia também o de Plínio Guedes.

Carlos Laranjeira é jornalista. Nascido em Maragogipe, reside em São Bernardo do Campo, SP.

domingo, 10 de julho de 2011

A biografia de Mário Carvalho e o Cine Lourdes

CARLOS LARANJEIRA faz um passeio pelo mundo das artes cinematográficas que por esta terra teve importância na difusão da cultura e das visões do cinema mundial. O Cine Lourdes foi um importante ponto de encontro que até hoje, muitos maragogipanos lembram e sentem saudades. Atualmente, a Prefeitura Municipal inaugurou um Centro de Saúde (Foto ao lado) no local onde o Cine Lourdes permaneceu por um bom tempo, confira o texto do escritor:

por: Carlos Laranjeiras
Bons tempos aqueles do Cine Lourdes, de propriedade de Mário Carvalho. Entre o Bar de Ariston e o Saboeiro, aproximou as pessoas, promoveu amizades e nos anos 50 e 60 infundiu na cabeça de meninos como eu pensamentos de que a arte pode comunicar alegria, tristeza, comover, impressionar e narrar histórias.

No Cine Lourdes, testemunhei o gênio de Charles Chaplin mudo, só com gestos, mostrar como se faz uma graça tão perfeita que os barulhentos programas de televisão de hoje, com mais de 100 participantes, não conseguem imitá-lo nem de longe. Vi John Wayne, Gary Cooper e Gregório Peck transportarem os horrores da II Guerra.

Com esses dois olhinhos que Deus me deu, percebi pela visão Sophia Loren, com sua beleza exótica, apresentar o drama de uma mulher cujo marido não retorna com as tropas em Os Girassóis da Rússia. Destemida, ela vai a esse país procurá-lo e o encontra. O filme me mostrou a virtude da persistência, que acaba o desânimo e o medo.

Assisti Brigitte Bardot, Kirk Douglas, Johnny Weissmuller, Burt Lancaster, Randolph Scott, Roy Rogers, Charles Starret com metade do rosto coberto pelo lenço negro e chanchadas com Ankito, Grande Otelo, Oscarito e Zé Trindade, baiano de Salvador, mas dizia em filmes ter nascido em Maragogipe.

E os documentários com os compactos de jogos de futebol do Rio de Janeiro, exibidos antes dos filmes, quem não lembra? No Cine Lourdes tive contato com a obra de Plínio Marcos, que eu viria conhecer em Santo André e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, quem Glauber Rocha considerou um dos gênios do cinema. Também vi Ângela Maria e Waldick Soriano.

Se existe uma família que preciso pedir desculpas em público pelo que fiz é a de Mário Carvalho, um homem baixo, pele morena, magro, já de idade, mas ágil. Em Maragogipe, passei todo tipo de decepções e humilhações porque a maioria das pessoas não me entendia, outras me entenderam e perdoaram, então não tenho vergonha em dizer que aos 11, 12 anos, entrava no Cine Lourdes por baixo da grade no lado da Praça do Saboeiro ou passava na confusão que se formava na entrada sem pagar. Mário chamava o delegado Bortolomeu Americano e o soldado PM Góes que me retiravam do cinema. Tanto Americano quanto Góes tornaram-se amigos quando cresci. Devo muito também a Leleco, filho de Osvaldino Malaquias, fabricante de doces, de quem papai, Bartolomeu Laranjeira, era cliente. Leleco cansou de pagar minhas entradas.

Essa experiência me ensinou muito, além de me despertar o gosto pela arte inclusive pela arte de escrever.

Carlos Laranjeira é jornalista.
Comentários: politika@uol.com.br

sábado, 15 de janeiro de 2011

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Osvaldo Sá, o socialista - Parte II

Carlos Laranjeira

Entre os filhos mais ilustres das letras de Maragogipe, Osvaldo Sá deve ser compreendido como historiador, pois na arte de narrar histórias ele não tem comparação nos limites da cidade e provavelmente em todo o Recôncavo.

Se eu tivesse de encontrar um historiador brasileiro para procurar relações de semelhança com ele citaria Caio Prado Júnior, a despeito de Osvaldo não ter saído de família rica e influente e não ter tido a formação acadêmica do autor de A Formação do Brasil Contemporâneo, mas do ponto de vista ideológico são parecidos, sim.

Ambos eram socialistas e críticos do capitalismo que concentra a riqueza nas mãos de poucos e a pobreza e a miséria entre muitos, faziam a defesa do marxismo e a posse da terra a todos os brasileiros indiferentemente de religião, partidos ou raça.

Esse maragogipano, nascido no distrito de Guaí e falecido em 2002 aos 94 anos, podia ter sido um historiador de projeção nacional com a fama de Caio Prado Júnior se, ao transferir-se para o Rio de Janeiro em 1929 em busca de espaço para as suas idéias, não tivesse sido prejudicado pela revolução de 30, a qual levou Getúlio Vargas ao poder.

Essa revolução empastelou o Correio Paulistano, em São Paulo, A Manhã, de Mario Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro e, posteriormente, com a ditadura do Estado Novo impôs censura à imprensa, tornando escasso o número de vagas nas redações de jornais e de publicações de livros.

Osvaldo então teve de retornar a Maragogipe, onde viria a ser o primeiro socialista digno de influência. A sua doutrina de reforma da sociedade capitalista para diminuir as desigualdades opunha-se ao integralismo, um princípio de tendência nacionalista e de exaltação aos símbolos nacionais concebido por Plínio Salgado.

Defensores mais notórios do princípio integralista em Maragogipe foram Monsenhor Florisvaldo José de Souza, o Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues, Manoel Lucas Laranjeira (o Bibi Laranjeira) e Onésimo Barbosa, (o Nésio corcunda), mas, a despeito de não se entenderem com Osvaldo no campo das idéias políticas, respeitavam-no.

Nos anos 60, Osvaldo Sá influiu nas ideias de um grupo de jovens maragogipanos entre eles os ginasianos Carlos Alberto dos Santos, o Charli, filho de Pule e Romildo Azevedo, o Mimiu, do Cajá, dos quais guardo em minha memória boas recordações. Mimiu, que viria a ser funcionário da agência do INSS, tornou-se um socialista exaltado, mas era uma pessoa agradável, de conversa cativante, quem eu, Carlos Alberto e Jorge Manta Malaquias levamos para o Centro de Cultura e Ação (Ceca) e por essa razão acabamos expulsos com ele do Centro.

Talvez em respeito à maioria católica de Maragogipe, Osvaldo não fazia propaganda ruidosa nem do socialismo nem do marxismo, ou melhor, das idéias de Karl Marx integrantes do pensamento socialista. Essas ideias sustentam ser o homem feito de matéria e a matéria única realidade, em contradição com o catolicismo, que segue os ensinamentos de Jesus Cristo.

Osvaldo Sá e Caio Prado Júnior assemelhavam-se nas idéias filosóficas e políticas. Mas, deixando de lado a política e a filosofia de ambos, há de se reconhecer neles algumas contradições: Caio viveu da venda de livros, era como historiador superior a Sérgio Buarque de Hollanda (pai de Chico) e só não deu aulas na Universidade de São Paulo por causa dos militares, à época, donos do poder. Osvaldo foi um autodidata, razão pela qual não deu aulas em ginásios ou faculdades nem viveu da venda de livros e sim do trabalho como escrivão do Juizado de Maragogipe, mas realizou uma obra de natureza histórica digna de ser imitada. Então, todo estudioso da história de Maragogipe há de se concentrar na figura de Osvaldo Sá como historiador, para depois tratá-lo como poeta e folclorista.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros. Nascido em Maragogipe, encontra-se em São Bernardo do Campo desde 1973.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Osvaldo Sá - Parte 1

Carlos Laranjeira

O poeta da preferência da maioria dos jovens de hoje, Osvaldo Sá, foi historiador e prosador dos melhores que a cidade teve. A sua poesia trouxe benefícios a muitos rapazes e moças para se iniciarem no mundo das letras (a mim, foi útil a prosa), mas ele prestou mais serviços à cidade como historiador.

Nos dias que antecediam a Festa de São Bartolomeu, o jornal A Tarde tinha por hábito enviar repórter e fotógrafo a Maragogipe para entrevista-lo e dele recolher histórias, inclusive da construção da Igreja do Padroeiro São Bartolomeu, cuja frente fica em direção à Rua Nova.

Lembro como hoje: quando Osvaldo explicou o motivo pelo qual a igreja foi construída com a frente para a Rua Nova, e não para o Largo onde se concentram milhares de pessoas durante as celebrações ao Padroeiro, gerou uma repercussão que ultrapassou os limites da cidade.

Ele deu a seguinte explicação: a Rua Nova foi a primeira a ser pavimentada com pedras miúdas, e para ela afluíam pessoas, essa convergência estimulou a proliferação de casas para comprar e vender produtos e assim (a Rua Nova) virou centro comercial.

Então, ao ser construída em 1730, a frente do templo foi direcionada para essa rua, não para a área que fica atrás da igreja, pois nela só havia mato. Mas, com o transcorrer dos anos, essa área hoje chamada de Largo da Igreja recebeu melhoramentos públicos e, com a instalação das fábricas de charutos Dannemann e Suerdieck, ocorreu uma explosão demográfica, a cidade expandiu-se para todos os lados, mas alterar a posição da frente da igreja não seria mais possível.

O poeta mais importante de Maragogipe não é Osvaldo Sá e sim Durval de Moraes, que viveu entre a Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, não se envolveu com modernistas como Mário de Andrade e Cassiano Ricardo, manteve-se fiel ao simbolismo, movimento por meio do qual o autor penetra fundo no mundo invisível e impalpável do ser humano e faleceu aos 64 anos, em 1948. Durval de Moraes será focalizado com mais detalhes em outro texto.

Osvaldo publicou em jornais bastantes poesias que, posteriormente, reuniria em livros. Os jornais que as publicavam (Arquivo, de Maragogipe; O São Félix, de São Félix; A Cachoeira, de Cachoeira e de outras cidades) deram –lhe popularidade, mas estudioso da história local transformou-se numa fonte de clareza de informações e casos obscuros, por essa razão jornais diários da influência de A Tarde deslocavam repórteres de Salvador a Maragogipe para entrevistá-lo e recolher histórias.

Osvaldo ficava indignado no instante em que professoras mandavam alunos procura-lo em busca de informações de natureza histórica. Eu mesmo assisti a uma dessas indignações em sua biblioteca assim que estudantes bateram à porta da casa:

-Por que as professoras não pedem para os alunos comprarem o livro, elas não entendem que o escritor, o historiador ou seja lá quem for depende da venda de seus produtos para sobreviver?

A venda tem sido uma luta persistente do autor e quando vende o produto o lucro não é suficiente para sustentá-lo, por essa razão a maioria dos autores sobrevive de empregos públicos, de aulas em colégios e faculdades, produção de textos para rádio, teatro e TV, venda de artigos a revistas de circulação nacional ou, se a fama justifica, cobra por cada entrevista.

Nos tempos áureos da fábrica de charutos Suerdieck, que adquiriu a Dannemann, Maragogipe era uma cidade romântica sob a luz fraca da Companhia de Eletricidade. O fornecimento de luz era quase toda noite interrompido e a escuridão, sob o clarão da lua, excitava os poetas e os contadores de casos.

Continua.

Atenção: em alusão ao artigo anterior, esclareço: Bartolomeu Americano morava no fundo de sua propriedade, ao lado da casa de Juarez Guerreiro e não no fundo da casa de Juarez Guerreiro.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros. Nascido em Maragogipe, encontra-se em São Bernardo do Campo desde 1973.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Dr. Odilardo

Carlos Laranjeira

Manhã de domingo de sol quente: eu jogava rebatida com Edmilson de Jesus Pacheco, o Edil Pacheco, no largo do Porto Grande. Entre o final dos anos 50 e o início da década de 60, o largo era coberto por uma grama rasteira, propícia à prática desse esporte, bastante apreciado pelos adultos e no qual se utilizava a bola de pano.

Ouvimos gritos provenientes do Beco, em seguida Alemão, o pai de Edil, começou a correr pela Rua General Pedra, em direção à Praça Municipal. Continuamos a chutar e pegar a bola, mas os gritos de desespero prosseguiram e, em decorrência do movimento de pessoas, logo percebi: vinham da casa de Napinho.

De short e sem camisa, fui à casa de pintura amarela e vi Napinho estirado no sofá, na sala de entrada, sem respirar. Em minutos, adentrou um homem alto, alentado, de pele morena, com o estetoscópio, instrumento para verificar as reações do paciente, acompanhado do pai de Edil, que indagou;

-Então, doutor, o que dá para fazer?

-Nada mais, está morto.

Foi a minha primeira visão da morte: Napinho, pai de Alemão e avô de Edil, um homem cujo corpo forte foi moldado pelo impulso que dava com o remo às canoas, embarcações utilizadas na pesca inclusive do camarão, com a qual ergueu uma das famílias mais numerosas e ativas do bairro, estava ali estirado, inerte, sem vida.

E o homem alto, de pele morena (o qual, com uma autoridade que não suscitava desconfiança, disse: “está morto”), quem era? Se nesse momento de aflição foi pronunciado o seu nome, não escutei. Ao mudar o olhar de direção, na casa apinhada de gente, não notei mais a sua presença entre as dezenas de pessoas inquietas e agoniadas.

Meses depois, creio, quando fazia a Primeira Comunhão com a dona Ziza, irmã do Padre Florisvaldo José de Souza, eu descia a ladeira da Enseada, com uma pedra à mão e o mesmo homem alto, moreno e corpulento, andar desaprumado, dirigiu-se a mim e pediu:

-Menino, dê-me essa pedra.

Dei-lhe.

Creio que a partir desse dia ele soube de quem eu era filho, eu também quem ele era: Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues, que dividia com o Dr. Barreto, morador na Rua Cel. Felipe de Melo, ao lado da casa de Alfrelice Guerreiro, o Nelson do Café, as glórias do bom êxito da prática da medicina numa cidade carente de recursos de aparelhos médicos. Certo dia, de tanto jogar bola na prainha ao lado da ponte que liga o Porto Grande ao Porto Pequeno e nadar no braço do rio Paraguaçu, o coração pareceu-me descompassado, falei com mamãe que pediu ao Dr. Odilardo para consultar-me em seu escritório, quase ao lado da Associação Atlética, da qual ele seria presidente.

- Vá, menino, você não tem nada.

O Dr. Odilardo era mais do que um médico: professor, diretor do Ginásio Simões Filho e orador público cuja voz que escapava dos lábios, do alto do coreto da Praça da Igreja Matriz sem o auxílio de amplificadores, podia-se ouvir até 500 metros de distância. Nos desfiles dos alunos do ginásio e do curso normal, ele também marchava à frente dos tambores e das caixas de repique e marcação, e encerrava-os sempre nessa praça, onde subia ao coreto e realizava manifestações verbais. O seu discurso não era lento nem apressado, obedecia a um ritmo em que ele sabia fazer a alternância vocal, ouvido em religiosa atenção. Em certos instantes da oratória, ele vibrava as mãos no ar, virava-se em direção à igreja e como se dirigisse ao padroeiro São Bartolomeu, com um temperamento abrasador animado pelos seus sentimentos religiosos, era dominado pelo êxtase e com este encanto arrancava arrepios do público.

Sempre que ia comprar à noite o jornal A Tarde na banca do Corujinha, depois do Moreno, para ler para o meu pai acamado, vítima de derrame cerebral, eu o via a percorrer com a vista o mesmo jornal no bar de Ariston Pimentel Vieira, que havia sido prefeito e Odilardo seu secretário. As páginas do jornal esparramavam-se à mesa e ele, sentado ao lado, lia-o quase inteiro, assim eu acreditava, pois muitas vezes encontrava papai a dormir e ao retornar à praça ele ainda não havia concluído a leitura.

Anos depois, já no JORNAL DA BAHIA e na Rádio Cruzeiro, papai faleceu num sábado ao cair da tarde. Alertado ao telefone pelo primo Jahvé Laranjeira cheguei a Maragogipe domingo de manhãzinha, indaguei de mamãe que médico o considerou morto.

-Foi Dr. Odilardo.

-Ele informou o preço?

-Não. Eu perguntei e ele disse que não era nada.

Naquele homem alto, alentado, de pele morena, jorrava uma alma generosa, com a qual aprendi muito na arte da palavra, sem ter sido seu aluno e na maneira de oferecer favores com uma mão, sem alardeá-los em trombetas com outra.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros.