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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Biografia da Professora Nardy Nunes da Silva Seixas

Por Cristoval Seixas

Há muito tempo tenho vontade de abordar junto ao povo de Nagé um tema que, tenho certeza, será apreciado por todos. Entretanto tratando-se de um comentário sobre uma pessoa de minha família, imaginava exercer tal iniciativa. Todavia com o incentivo de amigos e parentes, resolvi fazê-lo. 


Muitos sabem que sou filho da Professora Nardy Nunes da Silva Seixas e do Sr. Domingos Rodrigues Seixas. Moramos por muitos anos na terrinha querida. Nossa família sempre manteve um convívio de amizade junto à comunidade. Os mais jovens certamente não conhecem esta história, entretanto, meus contemporâneos e pessoas de várias gerações àquela época, devem guardar estas recordações. Portanto Monica, o que estou pretendendo é solicitar licença e atenção a todos, para relembrar junto ao povo, a convivência e participação de minha mãe na vida de Nagé. Você na sua juventude certamente não conhece esta história, entretanto acredito já ter ouvido falar na Professora Nardy, Dona Nardy, Tia Nardy, ou ainda Tia Dady como era chamada por parentes, alunos e amigos. 

É difícil encontrar o nageense daquela época não foi aluno da Professora Nardy! Isto foi das maiores satisfações para ela, junto às centenas de afilhados que sempre cultivou e lembrou por toda vida. Professora Nardy foi mestra dedicada, orientadora religiosa, enfermeira incansável, parteira nas horas de emergência, conselheira nas aflições. Estava sempre junto dos amigos. Muitos patrícios nasceram nos braços dela. Muitos foram alentados por ela. Ela com toda certeza fez parte da história de Nagé.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Hamilton Leite, um maragogipano de coração

por Zevaldo Sousa


Você conhece um homem que pode lhe dar diversas informações sobre a história dessa cidade? Se a sua resposta é não, vamos começar a te dar dicas. Temos tantos e um deles é maragogipano de coração. Esse mar-grandense foi por algum tempo, considerado um nome para governar esta cidade, mas sempre indicou o nome de Bento Miranda Guedes. Vendia tapetes e diversos outros objetos, por isso, corria o mundo, sendo um bom vendedor de porta-em-porta, de comércio-em-comércio, enfeitava a casa de milhares de pessoas. Mas seu coração permaneceu nesta cidade, e são mais de 50 anos amando e prestando a devida atenção que poucos se dão conta. Para ele, Maragogipe necessitava e ainda necessita ser olhada com mais carinho e amor, pois será somente assim que ela dará bons frutos. E qual cidade não é assim, caro maragogipano?

Se você já sentou na Praça Conselheiro Antônio Rebouças, sei que já reparou um senhor que na maioria das vezes usa roupas brancas e fica a admirar aquela cidade que tanto ama, com seus amigos, e os movimentos marcantes das novidades inconsistentes. Admirado por muitos, inclusive, daqueles que desconhece a história e a sua história. Esse já merece, já faz um bom tempo, uma homenagem digna de cidadão maragogipano.

Estou a falar do amigo Hamilton Leite que sempre que pode prestou serviços à essa comuna, foi ele inclusive que ao perceber que Maragogipe não comemorava o seu dia maior, procurou Osvaldo Sá e perguntou os motivos e o dia do aniversário, pois nas suas viagens, em todas as cidades que ele passava comemoravam o dia da cidade e ele não entendia os motivos que levaram aos maragogipanos essa falta com a história de sua própria cidade. O seu amor foi tanto, que começou com uma festa singela e ela foi crescendo e tomando o porte atual. Aqui, vai um daqueles pedidos, pois sei que o curioso gosta de saber e pesquisar e o amigo Hamilton, assim como outros ainda vive para contar belas histórias e merece muito mais destaque, por ele não pensar só em si, mas num coletivo, estando preocupado com os rumos da nossa sociedade e toda vez que surge a oportunidade para emitir sua opinião, não tem medo. Ele realmente é cidadão maragogipano de coração. Parabéns Maragogipe, por produzir um sentimento que ainda vive em constante movimento no coração daqueles amam essa terra de verdade.

Diógenes Monteiro Guimarães, o grande Didi da Baiana

Por: Joilson Santana

Diógenes Monteiro Guimarães nasceu na cidade Heróica em 1º de julho de 1931. Trabalhava seu Didi como era chamado, na Companhia de Navegação Baiana e em 1962 foi transferido para Maragogipe onde viveu ate o dia de sua morte. Compositor, poeta e músico de primeira ganhou várias premiações pelas suas composições em muitas cidades da Bahia.

Era seu Didi da Baiana um grande maragogipano, mesmo tido nascido e vivido em Cachoeira por 31 anos tinha ele com certeza um amor incondicional por esta terra e pela festas da cidade, mostrando isso em um documentário sobre a festa de São Bartolomeu onde disse: “Estou aqui a 40 anos e ainda não perdi uma Lavagem depois que aqui cheguei.”

Com sua boa viola de baixo do braço alegrou muita gente com suas serestas, e tocou corações com seus grandes poemas. Era sem dúvida um grande instrumentista, digo isso por ter presenciado ensaios do quarteto de chorinho de fazia parte juntamente com Dica, Edson Soares e Roque Adson, onde dava seus acordes e ao mesmo tempo dava mordidas na língua como se estivesse saboreando o que estava tocando.

O grande mestre deixou a sua querida terra no dia 29 de maio de 2010, e tristemente perdemos uma parte de nossa cidade. Assim se foi Didi da Baiana ao som de tradicionais músicas de grandes autores e de sua própria autoria em um sepultamento emocionante. A Tribuna Popular homenageiou esse homem que fez história e que nunca será esquecido.

Fonte: Tribuna Popular, edição 3, publicada no dia 07 de junho de 2010.

Heráclio Paraguassú Guerreiro - Mestre Imortal

Por: Joilson Santana

Heráclio Paraguassú Guerreiro nasceu na cidade de Maragogipe, em 13 de março de 1877 e faleceu na mesma em 18 de maio de 1950, filho do senhor João Primo Guerreiro. Com 12 anos de idade, entrou na escola de música da Filarmônica Terpsícore Popular de Maragogipe em que discretamente começou a aprender a arte musical contrariando a vontade de seus pais. A caixa foi o seu primeiro instrumento depois de um ano. Em 1895 fundou, aos 18 anos o grupo “Harpa Mariana” a qual foi regente. Autodidata, mas com potencial espetacular, Heráclio destaca-se mais e mais quando inicia as suas composições.

Em 10 de setembro de 1910, quando agravou o estado de saúde do senhor Theodoro Borges da Silva que foi um dos fundadores, primeiro e atual regente da Terpsícore na época, foi concedida a Heráclio a posse da regência, tendo ele fundido o grupo “Harpa Mariana” a Terpsícore, criando então nova fase com progresso para a filarmônica que regeu por quase 40 anos.

Suas composições são indiscutivelmente exímias obras de arte, tendo Heráclio chegado a compor mais de 600 partituras entre elas dobrados, marchas, fantasias, novenas, rapsódias, valsas, boleros, sinfonias, e etc. Em sua obra temos como destaque algumas de suas composições como: O Rebate, Ronaldo Souza, Cap. Juracy Magalhães, O Registrado, Oscar Guerreiro, Hybernon Guerreiro, Ao Passeio, Filoca Santana, Liliu, Chuva de Ouro, Bendita, Virgem de Sión, dobrado “América” que no meio do trio tem o canto do sabiá , dobrado “Os corujas” que em meio a sua execução tem o gorjeio da coruja, O Rabi da Galiléia e a Canção no Saara que ganharam premiações na Alemanha. A música do nosso compositor é conhecida nacionalmente e internacionalmente, ouvida no Norte da América e pela Europa.

Muitos maestros baianos comentam de forma impressionante o trabalho desse mestre, por exemplo, o maestro Fred Dantas que com toda a sua etno-musicologia define bem a importância de Heráclio para a musica de filarmônica: “Não há música mais simples, ou menos bonita, de Guerreiro, dono de um estilo vigoroso e severo, que não lhe impediu de ser um dos que estabeleceram a marcação em tangado. Depois de introduções e cantos com divisões bem definidas entre palhetas e metais, normalmente surgem, nos dobrados de Heráclio Guerreiro, os trios mais belos da música baiana, nos quais há um equilíbrio místico entre o canto, com clarinetas, o contracanto de um bombardino solista e a marcação obstinada da tuba e do sax barítono.”(Curso Mestres)

Introduziu-se na dramaturgia, escrevendo peças teatrais, onde a operata “Íris” fez grande sucesso em 1942 nas cidades de Nazaré e Cachoeira. A cidade Heróica recebeu a caravana que compunha a “bandeira São Pedro” com muita gentileza e assim fazendo mais uma jornada de fé o grupo de senhorinhas se apresentou no C.T.C., para angariar fundos para reconstrução da Igreja “Matriz” de São Bartolomeu, sendo abrilhantada pela filarmônica “Lira Ceciliana “. Outro drama de autoria de heráclio foi também bem sucedido na cidade de Cruz das Almas, a peça “Escrava Grega”.

Foi o Guerreiro, poeta e jornalista, sendo um dos principais redatores desse jornal nas décadas de 30 e 40 juntamente com Odilardo Uzeda Rodrigues, Dr. George Oliver e Lourival V. Vivas. Trabalhou na portaria do “Cine Lourdes” e era também funcionário da Coletoria Estadual sendo afastado do cargo inesperadamente, moveu uma ação contra o estado e foi readmitido.

Enterro de Heráclio Paraguaçu Guerreiro
Homem simples e múltiplo ficou imortalizado com os seus feitos que são de muita importância para a nossa maragogipe que em 18 de maio 1950 lamentou tristemente a sua morte e que nessa mesma data agora em 2010 completou-se 60 anos do seu falecimento. 

Texto publicado no Jornal Tribuna Popular, 2ª edição, no dia 24 de maio de 2010. Naquela semana estavamos fazendo uma homenagem para um dos redatores do Tribuna Popular, Heráclio Paraguassu Guerreiro.

domingo, 27 de maio de 2012

Bento de Araújo Lopes Villas Boas, o Barão de Maragogipe

O barão de MARAGOGIPE foi Bento de Araújo Lopes Villas Boas que faleceu na Baia em 28 de Junho de 1850.Era Cavaleiro da Imperial Ordem de Cristo.

Colaboradora Regina Cascão

Bento de Araújo Lopes Vilas Boas - agraciado com o título ( Dec 12.10.1825 ) de Barão de Maragogipe. Título de origem toponímica, tomado da cidade do mesmo nome, no estado da Bahia. Nascido em 1760 e falecido a 28.06.1850 na Bahia. Casado com Cândida Luiza Vilas Boas. Seus descendentes fizeram aliança, entre outras, com as famílias Bettencourt, Berenguer César, Barros Pimentel, Pires de Albuquerque, Ferrão de Pina e Mello, Moreira de Pinho ( família do conde Sebastião Pinho ), Carvalho de Menezes, Waitz e Pinto Soares.

Fonte: Dicionário das Famílias Brasileiras, de Carlos Eduardo Barata e AH Cunha Bueno Verbetes: Maragogipe, Barão de; família Vilas Boas

Bento de Araújo Lopes Villas-Boas nasceu na então Vila de São Francisco da Barra do Sergipe do Conde, Recôncavo Baiano. Filho do Capitão de Milícias Luiz Lopes Villas-Boas e de sua mulher D. Ana Joaquina de Araujo e Azevedo. Batizado na Sé Primacial do Brasil a 2 de agosto de 1775, faleceu em Salvador a 28 de junho de 1850. Casou-se a 8 de janeiro de 1828, então homem maduro, com D. Cândida Angélica Rosa Ribeiro Sanches, Baronesa de Maragogipe, nascida e falecida também na Capital da Província da Bahia, filha de Ladislau Ribeiro Sanches e de sua mulher, D. Eufemia Ursula Ribeiro Sanches, deixando descendência. (...) Coronel de Milícias. (...) Foi vereador da Câmara de S. Francisco do Conde em vários mandatos e foi membro do Conselho Geral da Província de 1828 a 1830 e de 1831 a 1834. Cavaleiro fidalgo da Casa Real Portuguesa, fidalgo cavaleiro da Casa Imperial, comendador da Imperial Ordem de Cristo e dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro. (...) Senhor dos Engenhos Santo Antônio, herdado dos pais, Bom Gosto e Pimentel, estes em São Sebastião do Passé (...).

Fonte: artigo "Ascendência Varonil do Barão de Maragogipe (1775-1850) - Herói da Independência da Bahia" , de autoria de Caio César Tourinho-Marques, Procurador Federal e Presidente da Seção do Brasil Setentrional da Associação da Nobreza Histórica do Brasil. In "Revista do Instituto Genealógico da Bahia", nº 24/2010, Edição Comemorativa - 65 anos, pp. 91 e ss.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Biografia de Juarez Guerreiro, in MEMÓRIA DE MARAGOGIPE

Por Carlos Laranjeiras

Não houve na história de Maragogipe – e certamente não há ainda – político mais importante do que Juarez Guerreiro. Símbolo de uma época, cujo prestígio pessoal influenciava no resultado de eleições, atraia a Maragogipe candidatos a governador, deputado federal e deputado estadual, que lhe beijavam a mão.

Por causa da sua influência política, Maragogipe recebeu a visita de Régis Pacheco, medico de Vitória Conquista, eleito para o governo do estado em 1951 e de Antônio Balbino, sucessor de Regis no governo da Bahia em 1955. Balbino foi também deputado federal, senador e ministro de dois governos: Getúlio Vargas e João Goulart.

Ao chegar a Maragogipe, Antônio Balbino era recebido na “ponte do navio” pela Filarmônica Terpsícore Popular e hospedava-se na casa de Juarez, no Caminho do Caijá (ou Cajá?), a qual atraia tanta gente que mais parecia igreja em dias de festas de São Bartolomeu (Caijá ou Cajá suscitaram uma boa discussão pelos jornais nos anos 60, mas quem venceu foi Bartolomeu Americano, a qual pretendo lembrar em breve).

Juarez era do PSD, legenda também de Regis Pacheco, Antônio Balbino e Waldir Pires, que viriam a integrar na Bahia o MDB, mas se vivesse até o final dos anos 60, quando os militares já se encontravam à frente do governo da República, dificilmente integraria o Movimento Democrático Brasileiro. Porque esse maragogipano alto, moreno e corpulento, era personalista. Ele exerceu durante mais da metade da vida o controle da política municipal, razão pela qual germinou a família mais numerosa da cidade.

Juarez simbolizava a figura do coronel: protegia e oferecia sustento a aqueles que lhe juravam fidelidade ou lhe tinham consideração e respeito, apadrinhava casamentos, arranjava-lhes emprego e dinheiro, providenciava-lhes médicos e internações, batizava-lhes os filhos, dava-lhes refeições, impedia que a polícia os prendesse e se recolhidos à prisão fossem, providenciava-lhes a soltura. Esse chefe da política municipal durante a ditadura Vargas e os governos estaduais de Regis Pacheco e Antônio Balbino dava a impressão de ser em Maragogipe, além de prefeito, o advogado, o médico, o delegado, o escrivão ou o padre.

Ele transmitia a sensação de não ter vocação para ser mandado e sim para mandar, então seria difícil a sua presença no Movimento Democrático Brasileiro, que era uma legenda de idealistas que lutavam para expulsar do poder central os militares. Alguns membros dessa legenda, como o então deputado estadual Marcelo Duarte, filho do jurista Nestor Duarte, esforçava-se também para acabar com as velhas oligarquias inclusive com a que Juarez Guerreiro representou em Maragogipe, a qual não prosperou com a sua morte a despeito de ele haver deixado discípulos como Cid Seixas Fraga e Antomeu Brito Souza.

Para melhor compreensão deste texto, leia também o de Plínio Guedes.

Carlos Laranjeira é jornalista. Nascido em Maragogipe, reside em São Bernardo do Campo, SP.

domingo, 10 de julho de 2011

A biografia de Mário Carvalho e o Cine Lourdes

CARLOS LARANJEIRA faz um passeio pelo mundo das artes cinematográficas que por esta terra teve importância na difusão da cultura e das visões do cinema mundial. O Cine Lourdes foi um importante ponto de encontro que até hoje, muitos maragogipanos lembram e sentem saudades. Atualmente, a Prefeitura Municipal inaugurou um Centro de Saúde (Foto ao lado) no local onde o Cine Lourdes permaneceu por um bom tempo, confira o texto do escritor:

por: Carlos Laranjeiras
Bons tempos aqueles do Cine Lourdes, de propriedade de Mário Carvalho. Entre o Bar de Ariston e o Saboeiro, aproximou as pessoas, promoveu amizades e nos anos 50 e 60 infundiu na cabeça de meninos como eu pensamentos de que a arte pode comunicar alegria, tristeza, comover, impressionar e narrar histórias.

No Cine Lourdes, testemunhei o gênio de Charles Chaplin mudo, só com gestos, mostrar como se faz uma graça tão perfeita que os barulhentos programas de televisão de hoje, com mais de 100 participantes, não conseguem imitá-lo nem de longe. Vi John Wayne, Gary Cooper e Gregório Peck transportarem os horrores da II Guerra.

Com esses dois olhinhos que Deus me deu, percebi pela visão Sophia Loren, com sua beleza exótica, apresentar o drama de uma mulher cujo marido não retorna com as tropas em Os Girassóis da Rússia. Destemida, ela vai a esse país procurá-lo e o encontra. O filme me mostrou a virtude da persistência, que acaba o desânimo e o medo.

Assisti Brigitte Bardot, Kirk Douglas, Johnny Weissmuller, Burt Lancaster, Randolph Scott, Roy Rogers, Charles Starret com metade do rosto coberto pelo lenço negro e chanchadas com Ankito, Grande Otelo, Oscarito e Zé Trindade, baiano de Salvador, mas dizia em filmes ter nascido em Maragogipe.

E os documentários com os compactos de jogos de futebol do Rio de Janeiro, exibidos antes dos filmes, quem não lembra? No Cine Lourdes tive contato com a obra de Plínio Marcos, que eu viria conhecer em Santo André e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, quem Glauber Rocha considerou um dos gênios do cinema. Também vi Ângela Maria e Waldick Soriano.

Se existe uma família que preciso pedir desculpas em público pelo que fiz é a de Mário Carvalho, um homem baixo, pele morena, magro, já de idade, mas ágil. Em Maragogipe, passei todo tipo de decepções e humilhações porque a maioria das pessoas não me entendia, outras me entenderam e perdoaram, então não tenho vergonha em dizer que aos 11, 12 anos, entrava no Cine Lourdes por baixo da grade no lado da Praça do Saboeiro ou passava na confusão que se formava na entrada sem pagar. Mário chamava o delegado Bortolomeu Americano e o soldado PM Góes que me retiravam do cinema. Tanto Americano quanto Góes tornaram-se amigos quando cresci. Devo muito também a Leleco, filho de Osvaldino Malaquias, fabricante de doces, de quem papai, Bartolomeu Laranjeira, era cliente. Leleco cansou de pagar minhas entradas.

Essa experiência me ensinou muito, além de me despertar o gosto pela arte inclusive pela arte de escrever.

Carlos Laranjeira é jornalista.
Comentários: politika@uol.com.br

A biografia de Gerhard Meyer Suerdieck

Dívida deve ser paga e essa é uma delas, apesar da demora. Como havia dito que iria escrever um pouco sobre o aniversário do Colégio Estadual Gerhard Meyer Suerdieck, estou fazendo o mesmo e espero que gostem. Como sei que a maioria dos meus leitores gostam da cultura e, sobretudo, da história desse município. Resolvi falar um pouco da história desse homem, que no seu tempo, era considerado um grande amigo de Maragogipe. Alemão, naturalizado brasileiro por desejo e vontade.

"Em 1923, Heinrich Suerdieck morreu de pneumonia, na Suíça, aos 47 anos, quando passeava de férias. Suportou os rigores tropicais, mas sucumbiu ao seu próprio inverno. Para o lugar dele, August convidou o cunhado Gerhard Meyer, então com 36 anos. Uma vez no recôncavo, Gerhard não resistiu ao côncavo e ao convexo das mulheres da região. Afinal, costumava-se dizer, na época, que Maragogipe tinha sete mulheres para cada honrem. Que o fumo tinha propriedades afrodisíacas, é algo controverso, mas a verdade foi que, lidando com o produto, Gerhard teve dois filhos com uma maragogipana e um terceiro com outra, até se casar com uma operária de sua fábrica, Tibúrcia Pereira Guedes. Com Tibúrcia teve mais quatro filhos, dentre eles Geraldo Meyer Suerdieck, o homem que viria a comandar a empresa por 27 anos, em sua melhor fase." (César, Correio da Bahia - via texto de Elisabete Silva)

Nascido no dia 4 de dezembro, Gerhard Meyer Suerdieck gostava de passar seus finais de ano, na Alemanha, com seus familiares. Em seu retorno a Maragogipe sempre trazia as novidades correntes na Europa e foi com esse espírito incorporador de novidades que o mesmo criava as devidas possibilidades para o crescimento de sua empresa, a então fábrica de charutos "Suerdieck & Cia".

Somente para se ter uma idéia de suas possibilidades de crescimento e de ganhos, foi ele que no dia 02 de agosto de 1931, logo no início do Governo de Anísio Malaquias, inaugurou a "Companhia Maragogipana de Eletricidade S.A." que instalaria, em anos subsequentes, os serviços de iluminação pública e privada, assim como também de força motriz para fins industriais. (Redenção - 01/08/1931). Fernanda Reis discutirá essa questão em sua tese de mestrado na UFBa, em seu tratamento do Culto da Festa de São Bartolomeu de Maragogipe.

Vale ressaltar que Gerhard Meyer Suerdieck herda o foro de chefe da fábrica, que contará com prédios em funcionamento em Maragogipe, São Félix, Cachoeira e Cruz das Almas, em 1923, depois da morte de Ferdinand Suerdieck. Aliás, a "Suerdieck & Cia" é o resultado da fusão em 1914, das firmas de Ferdinand Suerdieck e Augusto Suerdieck, o primeiro com prédio em frente à Terpsícore Popular e o segundo com prédio na rua do Fogo.

Segundo Elisabete Silva, "em 1930, o sócio-chefe August Suerdieck faleceu na Alemanha, assumindo a direção da firma a sua viúva , D. Hermine Suerdieck que também faleceu no ano seguinte. Formando, então uma nova organização o sócio Gerhard Meyer Suerdieck, já naturalizado brasileiro, sua esposa Sr.ª D. Tibúrcia Guedes Meyer Suerdieck e o Sr. Karl Horn, antigo colaborador, este, mais tarde foi afastado por suspeita nazista e a Suerdieck , então, nacionalizada."

Em 1938, com a expansão do negócios, a sede da Suerdieck foi transferida de Maragogipe para Salvador e Gerhard Meyer Suerdieck passa a figurar como único chefe. Em 1946 a Suerdieck passa a ser chamada somente de Suerdieck S/A (Sociedade Anônima). Em 1950, com sua morte. D. Tibúrcia Pereira Guedes assume o cargo de diretora-presidente das fábricas.

Durante sua vida, Gerhard Meyer Suerdieck sempre esteve em ativa troca com a comunidade. Na sua administração a Fábrica Suerdieck esteve em seu auge e foi com essa grande quantidade recursos que ele comprou diversos terrenos na cidade de Maragogipe.

A biografia de Benedito Lopes, o Bamba


Carteira de Benedito Lopes

Benedito Lopes nasceu em Maragojipe, no ano de 1911, foi um menino como tantos outros, porém teve uma infância e adolescência muito difícil, pois logo cedo perdera seu pai. Devido sua responsabilidade pela familia ser grande, abandona os estudos e se torna-se alfaiate, na tenda de Paizinho. Os modelos de paletó, costurados pelo Benedito, eram tão perfeitos que ficavam expostos à visitação pública, num manequim, na porta da própria tenda. 

Foi nesse mesmo espaço, nas suas conversas com colegas socialistas, que o Benedito começou a se interessar por política, passando, junto com Plinio Guedes a ser simpatizante do Partido Comunista. Nessa época ele teve que se refugiar no Guaí diversas vezes para se livrar das perseguições da Ditadura Militar. 

O tempo passou e ele tornou-se funcionário público, na função de Vigilante Sanitário, mas por vocação, ele gostava mesmo era de ser emfermeiro. No posto de saúde, aplicava injeções, aferia pressões e fazia curativos, procedimentos que continuou fazendo na cidade gratuitamente, mesmo aposentado, a domicílio de casa em casa, até os úlimos dias de sua vida. Era um autodidata das letras, escrevia poemas, sonetos, fazia charadas e as trocava com Antídio Carvalho, Dr. Ronaldo Souza e outros. 

Na política, a sua principal vocação, foi parceiro e amigo de vários políticos, como: Plinio Guedes, Bartolomeu Teixeira, Domingos Melo, Arivaldo Vieira e tantos outros. Foi o vereador que mais exerceu mandatos em Maragojipe, um total de 60 anos de vida pública. Por diversas vezes foi presidente da Câmara e secretário da mesa, em quase todas as legislaturas. Era cognominado "O BAMBA" e já tinha cadeira cativa na legislativo maragojipano. No entender de muitos, foi um legendário, uma lenda viva no meio de políticos maragojipanos.

Em outubro de 2003, depois de ter lutado pela sua vida durante muitos dias, partiu para perto de Deus, deixando uma familia grande, entre filhos, netos e bisnetos. Benedito Lopes entra para os anais da história politica de Maragojipe, como um dos politicos mais éticos, firme em suas decisões, uma pessoa de caráter e personalidade forte. É exemplo para as gerações que os sucederão.

Sem sombra de duvidas, Maragojipe reverencia e revenciará Benedito Lopes, o eterno "O BAMBA"

Fonte: Augusto Lopes

sábado, 15 de janeiro de 2011

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Osvaldo Sá, o socialista - Parte II

Carlos Laranjeira

Entre os filhos mais ilustres das letras de Maragogipe, Osvaldo Sá deve ser compreendido como historiador, pois na arte de narrar histórias ele não tem comparação nos limites da cidade e provavelmente em todo o Recôncavo.

Se eu tivesse de encontrar um historiador brasileiro para procurar relações de semelhança com ele citaria Caio Prado Júnior, a despeito de Osvaldo não ter saído de família rica e influente e não ter tido a formação acadêmica do autor de A Formação do Brasil Contemporâneo, mas do ponto de vista ideológico são parecidos, sim.

Ambos eram socialistas e críticos do capitalismo que concentra a riqueza nas mãos de poucos e a pobreza e a miséria entre muitos, faziam a defesa do marxismo e a posse da terra a todos os brasileiros indiferentemente de religião, partidos ou raça.

Esse maragogipano, nascido no distrito de Guaí e falecido em 2002 aos 94 anos, podia ter sido um historiador de projeção nacional com a fama de Caio Prado Júnior se, ao transferir-se para o Rio de Janeiro em 1929 em busca de espaço para as suas idéias, não tivesse sido prejudicado pela revolução de 30, a qual levou Getúlio Vargas ao poder.

Essa revolução empastelou o Correio Paulistano, em São Paulo, A Manhã, de Mario Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro e, posteriormente, com a ditadura do Estado Novo impôs censura à imprensa, tornando escasso o número de vagas nas redações de jornais e de publicações de livros.

Osvaldo então teve de retornar a Maragogipe, onde viria a ser o primeiro socialista digno de influência. A sua doutrina de reforma da sociedade capitalista para diminuir as desigualdades opunha-se ao integralismo, um princípio de tendência nacionalista e de exaltação aos símbolos nacionais concebido por Plínio Salgado.

Defensores mais notórios do princípio integralista em Maragogipe foram Monsenhor Florisvaldo José de Souza, o Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues, Manoel Lucas Laranjeira (o Bibi Laranjeira) e Onésimo Barbosa, (o Nésio corcunda), mas, a despeito de não se entenderem com Osvaldo no campo das idéias políticas, respeitavam-no.

Nos anos 60, Osvaldo Sá influiu nas ideias de um grupo de jovens maragogipanos entre eles os ginasianos Carlos Alberto dos Santos, o Charli, filho de Pule e Romildo Azevedo, o Mimiu, do Cajá, dos quais guardo em minha memória boas recordações. Mimiu, que viria a ser funcionário da agência do INSS, tornou-se um socialista exaltado, mas era uma pessoa agradável, de conversa cativante, quem eu, Carlos Alberto e Jorge Manta Malaquias levamos para o Centro de Cultura e Ação (Ceca) e por essa razão acabamos expulsos com ele do Centro.

Talvez em respeito à maioria católica de Maragogipe, Osvaldo não fazia propaganda ruidosa nem do socialismo nem do marxismo, ou melhor, das idéias de Karl Marx integrantes do pensamento socialista. Essas ideias sustentam ser o homem feito de matéria e a matéria única realidade, em contradição com o catolicismo, que segue os ensinamentos de Jesus Cristo.

Osvaldo Sá e Caio Prado Júnior assemelhavam-se nas idéias filosóficas e políticas. Mas, deixando de lado a política e a filosofia de ambos, há de se reconhecer neles algumas contradições: Caio viveu da venda de livros, era como historiador superior a Sérgio Buarque de Hollanda (pai de Chico) e só não deu aulas na Universidade de São Paulo por causa dos militares, à época, donos do poder. Osvaldo foi um autodidata, razão pela qual não deu aulas em ginásios ou faculdades nem viveu da venda de livros e sim do trabalho como escrivão do Juizado de Maragogipe, mas realizou uma obra de natureza histórica digna de ser imitada. Então, todo estudioso da história de Maragogipe há de se concentrar na figura de Osvaldo Sá como historiador, para depois tratá-lo como poeta e folclorista.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros. Nascido em Maragogipe, encontra-se em São Bernardo do Campo desde 1973.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Osvaldo Sá - Parte 1

Carlos Laranjeira

O poeta da preferência da maioria dos jovens de hoje, Osvaldo Sá, foi historiador e prosador dos melhores que a cidade teve. A sua poesia trouxe benefícios a muitos rapazes e moças para se iniciarem no mundo das letras (a mim, foi útil a prosa), mas ele prestou mais serviços à cidade como historiador.

Nos dias que antecediam a Festa de São Bartolomeu, o jornal A Tarde tinha por hábito enviar repórter e fotógrafo a Maragogipe para entrevista-lo e dele recolher histórias, inclusive da construção da Igreja do Padroeiro São Bartolomeu, cuja frente fica em direção à Rua Nova.

Lembro como hoje: quando Osvaldo explicou o motivo pelo qual a igreja foi construída com a frente para a Rua Nova, e não para o Largo onde se concentram milhares de pessoas durante as celebrações ao Padroeiro, gerou uma repercussão que ultrapassou os limites da cidade.

Ele deu a seguinte explicação: a Rua Nova foi a primeira a ser pavimentada com pedras miúdas, e para ela afluíam pessoas, essa convergência estimulou a proliferação de casas para comprar e vender produtos e assim (a Rua Nova) virou centro comercial.

Então, ao ser construída em 1730, a frente do templo foi direcionada para essa rua, não para a área que fica atrás da igreja, pois nela só havia mato. Mas, com o transcorrer dos anos, essa área hoje chamada de Largo da Igreja recebeu melhoramentos públicos e, com a instalação das fábricas de charutos Dannemann e Suerdieck, ocorreu uma explosão demográfica, a cidade expandiu-se para todos os lados, mas alterar a posição da frente da igreja não seria mais possível.

O poeta mais importante de Maragogipe não é Osvaldo Sá e sim Durval de Moraes, que viveu entre a Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, não se envolveu com modernistas como Mário de Andrade e Cassiano Ricardo, manteve-se fiel ao simbolismo, movimento por meio do qual o autor penetra fundo no mundo invisível e impalpável do ser humano e faleceu aos 64 anos, em 1948. Durval de Moraes será focalizado com mais detalhes em outro texto.

Osvaldo publicou em jornais bastantes poesias que, posteriormente, reuniria em livros. Os jornais que as publicavam (Arquivo, de Maragogipe; O São Félix, de São Félix; A Cachoeira, de Cachoeira e de outras cidades) deram –lhe popularidade, mas estudioso da história local transformou-se numa fonte de clareza de informações e casos obscuros, por essa razão jornais diários da influência de A Tarde deslocavam repórteres de Salvador a Maragogipe para entrevistá-lo e recolher histórias.

Osvaldo ficava indignado no instante em que professoras mandavam alunos procura-lo em busca de informações de natureza histórica. Eu mesmo assisti a uma dessas indignações em sua biblioteca assim que estudantes bateram à porta da casa:

-Por que as professoras não pedem para os alunos comprarem o livro, elas não entendem que o escritor, o historiador ou seja lá quem for depende da venda de seus produtos para sobreviver?

A venda tem sido uma luta persistente do autor e quando vende o produto o lucro não é suficiente para sustentá-lo, por essa razão a maioria dos autores sobrevive de empregos públicos, de aulas em colégios e faculdades, produção de textos para rádio, teatro e TV, venda de artigos a revistas de circulação nacional ou, se a fama justifica, cobra por cada entrevista.

Nos tempos áureos da fábrica de charutos Suerdieck, que adquiriu a Dannemann, Maragogipe era uma cidade romântica sob a luz fraca da Companhia de Eletricidade. O fornecimento de luz era quase toda noite interrompido e a escuridão, sob o clarão da lua, excitava os poetas e os contadores de casos.

Continua.

Atenção: em alusão ao artigo anterior, esclareço: Bartolomeu Americano morava no fundo de sua propriedade, ao lado da casa de Juarez Guerreiro e não no fundo da casa de Juarez Guerreiro.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros. Nascido em Maragogipe, encontra-se em São Bernardo do Campo desde 1973.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Dr. Odilardo

Carlos Laranjeira

Manhã de domingo de sol quente: eu jogava rebatida com Edmilson de Jesus Pacheco, o Edil Pacheco, no largo do Porto Grande. Entre o final dos anos 50 e o início da década de 60, o largo era coberto por uma grama rasteira, propícia à prática desse esporte, bastante apreciado pelos adultos e no qual se utilizava a bola de pano.

Ouvimos gritos provenientes do Beco, em seguida Alemão, o pai de Edil, começou a correr pela Rua General Pedra, em direção à Praça Municipal. Continuamos a chutar e pegar a bola, mas os gritos de desespero prosseguiram e, em decorrência do movimento de pessoas, logo percebi: vinham da casa de Napinho.

De short e sem camisa, fui à casa de pintura amarela e vi Napinho estirado no sofá, na sala de entrada, sem respirar. Em minutos, adentrou um homem alto, alentado, de pele morena, com o estetoscópio, instrumento para verificar as reações do paciente, acompanhado do pai de Edil, que indagou;

-Então, doutor, o que dá para fazer?

-Nada mais, está morto.

Foi a minha primeira visão da morte: Napinho, pai de Alemão e avô de Edil, um homem cujo corpo forte foi moldado pelo impulso que dava com o remo às canoas, embarcações utilizadas na pesca inclusive do camarão, com a qual ergueu uma das famílias mais numerosas e ativas do bairro, estava ali estirado, inerte, sem vida.

E o homem alto, de pele morena (o qual, com uma autoridade que não suscitava desconfiança, disse: “está morto”), quem era? Se nesse momento de aflição foi pronunciado o seu nome, não escutei. Ao mudar o olhar de direção, na casa apinhada de gente, não notei mais a sua presença entre as dezenas de pessoas inquietas e agoniadas.

Meses depois, creio, quando fazia a Primeira Comunhão com a dona Ziza, irmã do Padre Florisvaldo José de Souza, eu descia a ladeira da Enseada, com uma pedra à mão e o mesmo homem alto, moreno e corpulento, andar desaprumado, dirigiu-se a mim e pediu:

-Menino, dê-me essa pedra.

Dei-lhe.

Creio que a partir desse dia ele soube de quem eu era filho, eu também quem ele era: Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues, que dividia com o Dr. Barreto, morador na Rua Cel. Felipe de Melo, ao lado da casa de Alfrelice Guerreiro, o Nelson do Café, as glórias do bom êxito da prática da medicina numa cidade carente de recursos de aparelhos médicos. Certo dia, de tanto jogar bola na prainha ao lado da ponte que liga o Porto Grande ao Porto Pequeno e nadar no braço do rio Paraguaçu, o coração pareceu-me descompassado, falei com mamãe que pediu ao Dr. Odilardo para consultar-me em seu escritório, quase ao lado da Associação Atlética, da qual ele seria presidente.

- Vá, menino, você não tem nada.

O Dr. Odilardo era mais do que um médico: professor, diretor do Ginásio Simões Filho e orador público cuja voz que escapava dos lábios, do alto do coreto da Praça da Igreja Matriz sem o auxílio de amplificadores, podia-se ouvir até 500 metros de distância. Nos desfiles dos alunos do ginásio e do curso normal, ele também marchava à frente dos tambores e das caixas de repique e marcação, e encerrava-os sempre nessa praça, onde subia ao coreto e realizava manifestações verbais. O seu discurso não era lento nem apressado, obedecia a um ritmo em que ele sabia fazer a alternância vocal, ouvido em religiosa atenção. Em certos instantes da oratória, ele vibrava as mãos no ar, virava-se em direção à igreja e como se dirigisse ao padroeiro São Bartolomeu, com um temperamento abrasador animado pelos seus sentimentos religiosos, era dominado pelo êxtase e com este encanto arrancava arrepios do público.

Sempre que ia comprar à noite o jornal A Tarde na banca do Corujinha, depois do Moreno, para ler para o meu pai acamado, vítima de derrame cerebral, eu o via a percorrer com a vista o mesmo jornal no bar de Ariston Pimentel Vieira, que havia sido prefeito e Odilardo seu secretário. As páginas do jornal esparramavam-se à mesa e ele, sentado ao lado, lia-o quase inteiro, assim eu acreditava, pois muitas vezes encontrava papai a dormir e ao retornar à praça ele ainda não havia concluído a leitura.

Anos depois, já no JORNAL DA BAHIA e na Rádio Cruzeiro, papai faleceu num sábado ao cair da tarde. Alertado ao telefone pelo primo Jahvé Laranjeira cheguei a Maragogipe domingo de manhãzinha, indaguei de mamãe que médico o considerou morto.

-Foi Dr. Odilardo.

-Ele informou o preço?

-Não. Eu perguntei e ele disse que não era nada.

Naquele homem alto, alentado, de pele morena, jorrava uma alma generosa, com a qual aprendi muito na arte da palavra, sem ter sido seu aluno e na maneira de oferecer favores com uma mão, sem alardeá-los em trombetas com outra.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros.

terça-feira, 25 de março de 2008

Vida e Obra de Edil Pacheco

A INFÂNCIA

Eu me chamo Edmilson de Jesus Pacheco. Nasci no dia 1º de junho do ano de 1945 na cidade de Maragogipe, última cidade do Recôncavo baiano.

A minha infância foi normal como a de todo garoto de interior daquela época, jogando futebol, soltando pipas e outras traquinagens da idade. A música passou a entrar na minha vida a partir do que eu ouvia no rádio, especialmente Luís Gonzaga, Nelson Gonçalves, Luis Vieira, Jackson do Pandeiro e outros. Tinha também as informações do folclore da redondeza, como o bumba-meu-boi, o samba de roda, especialmente nas festas da padroeira de Maragogipe que tinha uma participação muito grande do povo nessas cantorias. Foi isso aí.

A MÚSICA

A música para mim, até então, era uma coisa espontânea, natural. Comecei a me interessar especialmente por tocar um instrumento, no caso, o violão, que eu não tinha condições de ter um. Certo dia chegou às minhas mãos, através de um companheiro chamado José Messias, apelidado Zé Coco, um velho violão que ele havia ganhado de um rapaz que, parece que estava namorando sua irmã. O pai do José Messias não quis o instrumento em sua casa, resultando daí que esse violão foi parar nas minhas mãos. Estava muito maltratado, por isso eu confiei a um amigo marceneiro, chamado Carlito, que o restaurou completamente.

Foi com esse instrumento, ainda precário, que eu comecei a aprender os primeiros acordes. Lembro-me que minha mãe falava que eu não ia conseguir aprender a tocar. Comecei utilizando um método para violão, e, ainda no interior, eu ficava atento, quando surgia alguém tocando, para observar e melhorar o que eu já sabia. Dessa forma eu aprendi um pouquinho de cada uma dessas pessoas que eu vi tocar. Inicialmente eu utilizava na mão direita apenas dois dedos, o polegar e o indicador, depois, à medida que fui vendo essas pessoas executando o instrumento, fui utilizando os outros dedos. Hoje tenho uma maneira toda pessoal de tocar.

AS PRIMEIRAS COMPOSIÇÕES

Quanto a fazer música, compor; eu, obviamente, comecei cantando o que tocava na época no rádio, porém, quando vim para Salvador e comecei a me envolver com o pessoal que fazia música, tinha como objetivo a diversão e arrumar umas namoradinhas, sem nenhuma pretensão de ser profissional. Foi aí que eu conheci o Batatinha, isso foi lá entre os anos de 1963 e 1964.

Lembro-me bem que, em 1965, ele (Batatinha) ia fazer um show e me convidou para acompanhá-lo ao violão. Durante os ensaios ele me pediu que fizesse alguma coisa e eu terminei fazendo duas canções "Protetor do Samba" e "Experiência Própria", que acabaram entrando nesse show que foi intitulado "Eu Sou, Tu És, Nós Somos: Gente", produzido e dirigido pelo jornalista Vieira Neto, que era um colunista muito importante do jornal A TARDE, aqui de Salvador. Foi nesse espetáculo que fui batizado como compositor.

A partir dessa iniciação, continuei com Batatinha, que me levava para acompanhá-lo, como instrumentista, em diversos lugares, como por exemplo, o programa semanal Improviso, realizado no teatro Vila Velha. Passei desde então a ser requisitado para acompanhar também outros cantores, me enturmando, cada vez mais, nesse mundo da música e do samba que se fazia na Bahia.

Comecei aí, então, a tomar gosto pela composição de canções e, nessa época, fui morar num pensionato na Palma, onde eu era colega de quarto do jornalista Fernando Vita, que trabalhava no Jornal da Bahia. Foi o Vita, que também é meu parceiro - temos uma canção, "O Maquinista", gravada por Luis Vieira - a primeira pessoa que me incentivou a mostrar as minhas canções, pois, inicialmente, eu fazia as minhas músicas, mas não acreditava que servissem para serem gravadas.

Quando em 1969, a cantora Eliana Pittman, esteve em Salvador para participar do filme chamado "Capitães de Areia" (uma produção francesa rodada aqui sobre a obra de Jorge Amado), ela quis conhecer compositores novos; daí, o Vita insistiu tanto que terminou me levando onde ela estava hospedada, no antigo hotel Oxumaré, que ficava na ladeira do São Bento. Chegando lá, eu deixei com a Eliana duas canções num gravador, as quais ela viria a gravar algum tempo depois. As músicas foram "Fim de Tarde" com Luiz Galvão (dos Novos Baianos) e "Passatempo", parceria minha com Batatinha e o poeta Cid Seixas, aliás, essa última, foi cortada do disco por problemas com a censura, que encontrou conotações políticas na letra, não me lembro de detalhes, mas na época, existia uma repressão muito grande. Foi aí o meu batismo como compositor gravado em disco.

OS PRIMEIROS SUCESSOS

Em 1970, através do compositor e cantor, já falecido, Tião Motorista, conheci o Jair Rodrigues (cantor). O Tião havia me levado para acompanhá-lo em uns sambas que ele iria mostrar ao Jair. Depois de duas ou três horas que o Tião cantou inúmeros sambas seus, o Jair me perguntou se eu não tinha também alguma composição para mostrar. Aí eu cantei "Alô Madrugada" e o Jair terminou gravando esse samba, que foi, inclusive, um grande sucesso, aliás, meu primeiro grande sucesso junto com o parceiro Ederaldo Gentil.

A partir de então não parei mais. Graças a Deus, já gravei mais de 250 canções, passando por essa turma que eu falei como Jair (Rodrigues), (Wilson) Simonal, Luís Vieira e João Nogueira. Logo depois da gravação de "Alô Madrugada, a Gal Costa, em 1972, registrou em sua voz, a nossa, "Estamos Aí", minha e do Paulinho Diniz. O Simonal gravou Tristeza não insista em querer ficar (cantarola a música Tristeza), que é minha e do saudoso Carlos Lacerda, além de um outro samba intitulado "Até o Dia de São Nunca", meu e do Paulinho Diniz, esse samba, inclusive, também seria gravado pela Alcione, em seu primeiro LP.

Bem, foram essas as minhas primeiras gravações, isso lá pelos idos de 1973 a 1974, daí, mais para frente, depois dos cantores citados, vieram a Fafá de Belém ("Sirie"), João Nogueira e a Clara Nunes. Na seqüência, outros intérpretes como, Margareth (Menezes), Luís Caldas, Lazzo, Agepê, Baby Consuelo (agora do Brasil), Elimar Santos, Alcione, Luís Melodia, Beth Carvalho, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Elza Soares e o Trio Elétrico Dodô e Osmar, me honraram gravando minhas composições. Eu fiz uma relação outro dia, rapaz, e encontrei 57 artistas que já registraram minhas músicas, por isso, nesse aspecto, eu não posso me queixar.

A ESTRÉIA CANTANDO EM DISCO

Eu, pessoalmente, gravei pela primeira vez como cantor, participando de um compacto duplo, Gravadora Polygram, 1972, que trazia cinco canções da peça de Jorge Amado "A Morte de Quincas Berro D'Água". Dessas cinco composições da peça, uma era minha, "Ensinança" c/ João Augusto, e as demais de outros autores como o Dorival Caymmi, Gereba e Fernando Lona. Esta, então, foi a primeira vez que cantei em disco, porém não me lembro bem em que ano foi isso.

Agora, meu primeiro disco solo mesmo, aconteceu em 1977, foi um LP, pela Polygram, cujo título era "Pedras Afiadas". Depois, em 1984, gravei outro (LP) chamado "Estamos Aí", também pela gravadora Polygram. Em 1988, em parceria com Paulinho (César) Pinheiro, registrei um novo trabalho em disco, intitulado "Afros e Afoxés da Bahia", onde a gente abordava sobre os blocos afros e afoxés da Bahia, esse disco, inclusive, nos deu prêmios e tudo. A propósito disto, quatro das canções do "Afros e Afoxés da Bahia", foram regravadas agora, uma pelo Gil (Gilberto) e três pela Virgínia Rodrigues. Já mais recentemente, na era do CD, eu gravei o "Dom de Passarinho", que é o meu último trabalho foi gravado pela VELAS em 1996.
Estou agora a meio caminho andado de um outro CD, "O Samba me Pegou", que é um projeto que eu estou fazendo, somente com sambas, e que deverá estar pronto até o final do ano.

A INFLUÊNCIA NORDESTINA

Quanto às minhas incursões pelos ritmos nordestinos, acontece que, quando eu era menino em Maragogipe, fiquei bem doente, com alguma coisa que ninguém sabia bem o que era. Levei uma semana inteira assim, o pessoal me dava remédio para tudo e eu não melhorava. Daí me trouxeram para Salvador, com o fim de fazer um exame para identificar o problema. Logo que cheguei, fiz imediatamente esse exame, e foi então identificado que eu tinha um tumor interno.
Naquela mesma hora fui operado, e, segundo o médico, caso demorassem mais duas ou três horas, eu não teria mais chances de vida.

Logo depois desse fato, no período de convalescença e tratamento, eu fiquei hospedado na casa de uns parentes meus, que moravam no Largo de Amaralina. Lembro-me bem, que eu ia lá para cima da laje (terraço), e ficava ouvindo um serviço de alto-falantes do bairro que tocava Luiz Gonzaga, pra caramba. Eu também gostava de olhar o pessoal do quartel do Exército em Amaralina jogar bola, ou então, ficava por lá brincando de soltar pipa (papagaio). Tudo isto, sempre tendo como fundo musical, Luiz Gonzaga, Luís Vieira, Jackson do Pandeiro e tantos outros cantores de sucesso da época.

Quando eu ainda estava no interior, em Maragogipe, não havia rádio em minha casa, porém, todos os sábados, eu ouvia na casa de um senhor chamado Teotônio, um enfermeiro bastante conhecido na cidade, que tinha um rádio, o programa do Luís Vieira, na Rádio Nacional, onde se apresentavam artistas como Luiz Gonzaga e Carmélia Alves. Então, essa coisa do forró sempre esteve comigo, e apesar de ser assim, com muito orgulho, um sambista da Bahia, eu também faço essas investidas por outros caminhos como, no caso, o forró. Eu acho que, quem sabe fazer um samba, digamos assim, bem postado, bem... um samba direito, pode fazer outras coisas.

OS TEMAS DE INSPIRAÇÃO AFRO

No caso das minhas ligações com temas de inspiração afro, na verdade, vem de há muito tempo, embora, no início da minha vida, quando a minha mãe me levava, às vezes, nas festas de Candomblé, eu tivesse medo. Depois comecei a conviver mais, a gostar e a admirar muito o culto, sendo que hoje sou mais admirador do Candomblé do que do próprio Catolicismo, não tenho nada contra. Então, passei a me interessar mais pelo tema, e em 1977, eu fiz uma música, "Os olhos de Nana", que já era um ijexá, gravada pelo Jair Rodrigues nesse mesmo ano (Nota: Nesse disco do Jair Rodrigues, "Estou com o Samba e não Abro", Philips 6349 342, essa canção está na contra-capa creditada corretamente a Edil Pacheco e Eustáquio de Oliveira, porem no selo do disco, constam, equivocadamente, como autores Ederaldo Gentil e Eustáquio de Oliveira).

Naquela época eu não sabia, até então, que ijexá era um ritmo, pois todo mundo falava do ijexá como se fosse um afoxé, e o afoxé não é um gênero musical. Afoxés são entidades que cultuam o ijexá, porem essa coisa eu só viria a saber tempos depois. Por exemplo, quando eu estava pensando em fazer o disco "Estamos Aí", me deu a idéia de compor um "afoxé", pois até então eu não sabia o que era um afoxé. Por isso fui ler alguma coisa, e descobri que os afoxés são as entidades, e o ritmo do qual se dizia ser afoxé era, na verdade, o ijexá. Deste modo, eu fiz uma pesquisa e compus a primeira canção, "Ijexá", já totalmente dentro dessa temática. Isto se deu por volta de 1981 a 1982, eu gravei a canção em 1981, e a Clara (Nunes) em 1982, sendo que o lançamento dela se deu antes do meu, e graças a Deus, estourou nacionalmente em sua voz.

Fora esses primeiros contatos com o assunto, eu também viajei junto com o Gilberto Gil, o Caribé, Arlete Soares, a turma do Ilê (bloco), e também mãe Stella de Oxóssi, para uma excursão cultural pelo Benin (África), inclusive, fomos fazer o carnaval de lá. (Não me lembro bem o ano, sou ruim de gravar datas). Foi muito proveitosa a viagem, e quando eu voltei, passei a me interessar mais pelo temas afros.

Depois da canção "Ijexá", onde eu falo em alguns nomes de blocos afros de Salvador, surgiu uma cobrança saudável, de componentes de outros blocos, que não foram por mim citados. Eram cobranças do tipo "você não citou a nossa agremiação", etc. Isso ficou em minha mente; acontece que, quando a Clara Nunes veio aqui em Salvador, e que nós saímos juntos na Lavagem do Bonfim (uma das maiores festas da Bahia, depois do Carnaval), a atriz Gesse & Gesse, que era madrinha do Araketu (bloco afro), juntamente com a Vera Lacerda, cobraram a não citação do Araketu na música "Ijexá". No momento, em cima do caminhão onde estávamos, inclusive também com o Paulinho (César) Pinheiro, nos comprometemos a fazer uma música para o Araketu. Logo que isso foi possível, fizemos o tema para o Araketu, depois vieram outros para o Olodum, para o Ilê Ayê e demais blocos. Logo a gravadora Polygram se interessou por esse projeto, o que nos levou a fazer o disco chamado "Afros e Afoxés da Bahia" com base nessas composições.

A partir dessa época eu procuro então, na minha obra, dentro do possível, não utilizar os termos que são das manifestações específicas do culto. No meu trabalho não tem nada de, por exemplo, pegar alguns trechos melódicos, ou mesmo temáticos de expressões utilizadas no candomblé, para colocar em minhas músicas. Isso eu não faço! (enfático) Eu procuro criar dentro de uma outra esfera, valorizando essas coisas, porem sem interferir nisso que eu acho grandioso e misterioso, dentro do candomblé.

O PARCEIRO PAULINHO DINIZ

O meu primeiro parceiro foi o Paulinho Diniz. Na época eu trabalhava na Padaria Moderna, no Largo 2 de Julho, e ele sempre aparecia por lá. Como sabia que eu tocava violão, ele me mostrou duas letras, que eu terminei musicando, uma delas se chamava "Lua Cheia e Armação", bem no estilo do Chico Buarque, que estava na moda, na época. Terminamos fazendo uma série de outras músicas como "Siriê", com a qual ganhamos o Festival de Sambas do Rio de Janeiro de 1976, e que seria depois gravada por Fafá de Belém. "Estamos Aí" foi uma outra composição dessa safra. A Alcione gravou da nossa autoria "Lua Menina" (cantarola: "Diana menina me leva / Me ensina esse teu cintilar"). Ainda com o Paulinho, fizemos muita coisa, uma série de canções bonitas. Enfim, comecei fazendo músicas com as pessoas que estavam mais perto de mim, porém, mais tarde eu ampliaria essa relação dos meus parceiros.

No início eu fazia apenas a melodia, hoje já me arvoro em fazer algumas letras, às vezes já dou letra e música da primeira parte para o parceiro. Agora mesmo estou fazendo um samba com o João Bosco, uma idéia que surgiu quando ele esteve aqui em Salvador na festa do Dia do Samba. Ele ficou tão empolgado com o clima que propôs que fizéssemos uma música para aquele momento. Dias depois eu fiz essa primeira parte (pega o violão e canta: "Eu vou pro samba no Terreiro de Jesus / Beber a luz / Rever os bambas...."), que estou enviando para o João Bosco concluir fazendo uma segunda parte desse samba.

A FESTA DO DIA DO SAMBA

Em relação ao Dia do Samba, eu comecei a participar desde o ano de 1972, quando ainda era uma festa chamada "A Noite do Samba e Dendê". Nesse ano, inclusive, houve a participação do Gilberto Gil, que estava bem magrinho, e que voltava do exílio londrino. Essa festa se repetiu até o ano de 1986, quando, então, deixou de ser comemorada. No ano seguinte, em 1987, eu, juntamente com Ederaldo (Gentil) e Batatinha, reivindicamos junto ao governo do estado, a continuidade da apresentação dessa importante festa do samba para o estado da Bahia. O Gilberto Gil, que na época era presidente da Fundação Gregório de Matos, nos ajudou muito na viabilização dos recursos para o projeto. De lá para cá, temos comemorado, ininterruptamente, o Dia do Samba na Bahia.

Já trouxemos para essa festa artistas como Chico Buarque, Caetano (Veloso), Martinho da Vila, João Nogueira, Moraes Moreira, João Bosco, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Elza Soares, Luis Melodia, Antonio Carlos e Jocáfi, Leci Brandão, Jair Rodrigues, D. Ivone de Lara; praticamente, todo o pessoal do mundo do samba, além dos sambistas ligados ao samba e que permanecem em atuação na Bahia.

O Dia do Samba é comemorado sempre no dia 2 de dezembro. As pessoas pensam que essa data foi escolhida por ser o aniversário do compositor mineiro, o nosso grandioso Ary Barroso. Na verdade, isto se deu por um projeto de um vereador aqui de Salvador, chamado Luis Monteiro da Costa, em homenagem à data em que o Ary (Barroso) veio a Salvador para ser homenageado no Largo de São Miguel, com uma placa, pois ele tinha feito a música "Na Baixa dos Sapateiros", segundo informações, sem conhecer a cidade.

O TRIO ELÉTRICO DO SAMBA

No tocante ao projeto do trio elétrico do samba, este já vem sendo desenvolvido há algum tempo, porem, ainda não deu para fazer como eu quero. No ano passado tentei implementar, mas como eu estava saindo em parceria com Paulinho Boca (de Cantor), achei difícil viabilizar uma banda que fizesse o estilo que eu tinha em mente.

Esse ano (2000) eu saí sozinho, montei uma banda específica, com dois violões, um cavaquinho, flauta e piano; enfim, fizemos um carnaval que eu achei muito embasado e senti que houve uma reciprocidade boa do público. Acho que a Bahia está precisando disso e eu estou investindo nessa idéia.

Espero, muito em breve, no carnaval de 2001, ter um trio de samba, não somente para sair com o Edil Pacheco e convidados tocando samba, porem, nesse mesmo trio, existir o suporte para blocos como, por exemplo, o "Alerta Geral", de Nelson Rufino, sair na quinta feira, às ruas, com dignidade. Esse projeto também deverá servir para o Waltinho Queiroz mostrar o seu trabalho, junto aos associados de seu bloco, o "Chegando Bonito".

Em suma, a idéia é essa, resgatar o carnaval para que a gente fique com a semente de um espaço alternativo, e que as novas gerações conheçam um outro lado da música que se faz na Bahia. Talvez isso tenha também uma função pedagógica para o carnaval, eu acho que, a essa altura, já posso ensinar alguma coisa. Nesse projeto não queremos esquecer ninguém, como Roberto Mendes, por exemplo, com a questão das "chulas" e o samba de roda de Santo Amaro da Purificação.

AS FESTAS JUNINAS E OS NOVOS PROJETOS

Quanto às festas de S. João, eu, esse ano, por absoluta falta de tempo, não pude participar. No tocante à música de forró, como eu comecei há alguns anos com a canção "Forró em Cachoeira" (gravada pelo Paulinho Boca de Cantor), ainda tenho uma idéia de realizar um projeto somente de músicas nordestinas, especialmente o forró. Depois do trabalho que o Gilberto Gil fez nesse sentido, senti reacender em mim esse desejo que guardo há tempos.

Acho que o público está carente desse tipo de música que fazemos, e estamos trabalhando bastante para mostrar esse trabalho. Agora mesmo estou com um projeto chamado "O Samba Nasceu na Bahia", que redundará num show e um CD, baseados no espetáculo homônimo que eu, Ederaldo Gentil e Batatinha, fizemos na década de 70, no teatro do Senac (Pelourinho) e que teve uma boa repercussão.

Estou também finalizando o meu novo disco individual, intitulado "O Samba Me Pegou", que deverá estar na praça agora nesse segundo semestre. (Nota do entrevistador - Sobre esse trabalho, o livreto do projeto traz a seguinte informação: "Nesse CD, O Samba da Bahia, traduzido em canções inéditas de Edil, será mostrado em suas diversas vertentes desde o samba de roda do recôncavo até o samba rasgado, passando pelo samba canção de harmonias sofisticadas).

Uma outra empreitada nossa é que, estamos em andamento com um CD duplo que terá o título "100 Anos de Música Baiana - Do Lundu ao Axé", trabalho de produção e pesquisa, em parceria com o Paulinho Boca de Cantor, que deverá também estar no mercado nessa segunda metade do ano. Esse CD contará a história musical do nosso estado, começando com o cantor do séc. XIX, Xisto Bahia, passando por Dorival Caymmi, Assis Valente, Gordurinha, Batatinha, Caetano Veloso até a Timbalada de Carlinhos Brown. O disco terá a participação de quase todos os artistas baianos, que estão em atividade, e que se afinaram com esse projeto. (Nota do entrevistador: Esse disco foi lançado no dia 14 de novembro de 2000, inicialmente em edição brinde do grupo patrocinador do projeto)

NELSON RUFINO

Os meus parceiros são todos muito especiais (aqueles que eu não destaquei aqui, peço perdão, foi apenas pela dificuldade de se falar com detalhes de todos). Entretanto eu gostaria de homenagear a figura de Nelson Rufino. Eu o conheci logo no início quando comecei a caminhar com o Batatinha. A afinidade foi natural, fizemos muitos trabalhos juntos, shows etc. Estamos com algumas músicas novas e inéditas. Para mim ele é um dos mais importantes compositores do samba, um dos mais genuínos que a Bahia tem. Já fizemos muito sucesso juntos como compositores em canções, como por exemplo, Luandê com Alcione, que saiu no primeiro disco dela. Outro sucesso nosso é A Lã e o Carneiro, gravado pelo nosso amigo Walmir Lima em seu disco LP de 1981 pela gravadora K-TELL. No meu primeiro disco solo há uma composição nossa, Pranto Natural.
Muita gente canta sambas de Nelson Rufino e nem sabe que é dele. Agora com o seu CD A Verdade de Nelson Rufino, finalmente ele começa a ser mais conhecido do grande público, visto que no mundo do samba ele já é um ídolo há longas datas.
No carnaval ele tem um histórico, começou há alguns anos, com o bloco Alerta Mocidade, hoje transformado no Alerta Geral, que continua saindo as quintas-feiras do carnaval com muito sucesso


Depoimento concedido a
Lourival Augusto
Salvador-Ba, 30/05/2000.
Atualizado em 16/02/2001

Retirado de Samba & Choro

quinta-feira, 13 de março de 2008

Biografia de André Rebouças

Por Profª. Ms. Hileia Araujo de Castro

André Rebouças
André Rebouças descendeu do alfaiate português Gaspar Pereira Rebouças que, em fins do século XVIII, chegou a Salvador e casou-se com a negra Rita Basília dos Santos, provavelmente uma escrava alforriada. Dessa união nasceram nove filhos, dos quais tenho notícias dos quatro homens. José, o mais velho, obteve o título de mestre em Harmonia pelo Conservatório de música de Bolonha e, quando retornou da Europa, assumiu o posto de Maestro da Orquestra do Teatro de Salvador. Manuel tornou-se funcionário da administração da justiça em Salvador. Maurício trabalhou em cartórios e acumulou recursos para estudar em Paris, bacharelando-se em Artes e Ciências e doutorando-se em Medicina.

Em 1832, tornou-se catedrático de Botânica e Zoologia na Escola de Medicina da Bahia1. Antônio, pai de André, não se dedicou ao estudo superior por opção e também pelo fato de não existir faculdade de Direito em Salvador. Transferiu sua residência para Cachoeira, no recôncavo, em 1822, no auge da luta contra a resistência portuguesa. Ali ajudou na organização da Junta Interina Conciliatória e de Defesa que se constituiu numa força de resistência ao domínio das Cortes Portuguesas em Salvador. Em 1823, quando D. Pedro I passou pela Bahia, foi condecorado com o título de Cavaleiro Imperial da Ordem do Cruzeiro. Em 1824 foi designado secretário de governo da Província de Sergipe e depois, eleito deputado, para a sessão de 1843, à Assembléia Geral do Governo pelo Partido Conservador e Conselheiro Geral da Província2.

Após anos de trabalho como rábula, conquistou o direito de advogar por determinação imperial em 4 de setembro de 1847. Definia-se como representante da população mulata brasileira, e em sua vida parlamentar pregou a inserção deste grupo no conselho da Coroa, visto que, da mesma forma que nas Cortes portuguesas houvera distinção entre os naturais de Portugal e os do Brasil, era conveniente ao país conhecer a opinião de todos os brasileiros, objetivando assegurar a unidade nacional e a defesa da monarquia constitucional3. Casou-se nesse período com Carolina Pinto da Silveira, filha do comerciante André Pinto da Silveira.

André Pinto Rebouças foi o primogênito dessa união, nascendo na cidade de Cachoeira a 13 de janeiro de 1838, em plena luta da Sabinada. Em fevereiro de 1846, a família de Antonio Rebouças transferiu-se para o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, André e seu irmão Antonio, nascido um ano após ele, estudaram português, caligrafia e matemática elementar no colégio de Camilo Tertuliano Valdetaro. Em 1849, fizeram os estudo complementares no colégio Curiacio e em 1855 sentaram praça como voluntários no 1º Batalhão de Artilharia a pé. Matricularam-se em 1859 na Escola Militar de Aplicação, depois Escola Central, Politécnica e atual Faculdade de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Em 1860, encaminharam requisição para estudar na Europa. Aprovada, partiram em fevereiro de 1861, com licença para dois anos de teoria e prática em engenharia civil, com os mesmos vencimentos que teriam se continuassem estudando na Escola Central. Visitaram, nessa viagem, instituições de ensino, obras, fábricas, arsenais e portos na França e Inglaterra. Retornaram ao Rio de Janeiro em novembro de 1862, dando início a suas publicações de cunho técnico. André esteve vinculado à carreira militar até 1866. Em 1863, conforme seu Diário, obteve sua primeira nomeação para examinar as fortalezas desde Santos até Santa Catarina. Engenheiro militar com a patente de tenente, mesmo quando não designado para obras específicas recebia pequenos soldos mensais. Durante esse ano dirigiu, com seu irmão Antonio, obras nas fortalezas de Cananéa, Paranaguá e Santa Cruz. Alistou-se como voluntário na guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai.

Quando retornou, em 1866, por motivo de doença, pediu sua exoneração do Exército e conseguiu, em outubro, sua nomeação pelo Conselheiro Zacarias para a direção das obras da Alfândega do Rio de Janeiro no lugar do engenheiro inglês Charles Neate. Ao mesmo tempo em que dirigia essas obras, iniciava suas atividades como empresário, ensinava latim, francês e inglês ao seu irmão Juca, dava aulas no Instituto Aquino e na Escola Central, procurava apoio financeiro para que Carlos Gomes retornasse à Itália, batia-se junto a ministros e políticos por diversas leis e companhias como a lei geral para doca e companhia da Alfândega do Rio de Janeiro, lei geral sobre Caminhos de Ferro, Cia das Docas do Maranhão, Cabedelo, Recife, Bahia, entre outras, conseguindo criar as empresas: Cia das Docas da Alfândega do Rio de Janeiro, Cia das Docas de D. Pedro II (RJ) e Cia Florestal Paranaense. Essas companhias eram fundadas com capital privado, nacional e estrangeiro, por um número de acionistas com uma garantia de juros de 5% ao ano sobre o capital aplicado.

Além da concessão para o estabelecimento da companhia, o governo tinha que aprovar a sua utilização. A Cia das Docas de D. Pedro II teve enormes prejuízos com a negativa do embarque de café por seu porto. Foi secretário do Instituto Politécnico e redator geral de sua Revista. Este instituto durou mais de sessenta anos e foi uma espécie de predecessor da Academia Brasileira de Ciências. Dedicava-se a divulgar as conquistas da ciência em diversos terrenos. Atuou como membro do Clube de Engenharia através do qual foi muitas vezes designado para receber engenheiros estrangeiros em suas visitas ao Brasil, tanto por seus conhecimentos técnicos como por sua facilidade em falar inglês e francês. Participou da Associação Brasileira de Aclimação e defendeu a adaptação de produtos agrícolas não produzidos no Brasil, como o trigo, e o melhor preparo e acondicionamento dos produzidos aqui, para melhor concorrerem no mercado internacional. Foi responsável ainda pela seção de Maquinas e Aparelhos na Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN).4

Ajudou a criar a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, ao lado de Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e outros, da qual foi eleito tesoureiro. Participou também da Confederação Abolicionista e redigiu os estatutos da Associação Central Emancipadora, o que me permite constatar o trânsito de Rebouças nas diversas tendências abolicionistas. Publicou diversos artigos em jornais contra a escravidão, inserindo sua defesa na conciliação entre as classes e buscando convencer os senhores da maior produtividade do trabalho assalariado e da injustiça para com o negro, nos moldes advogados por Joaquim Nabuco5.

Participou da Sociedade Central de Imigração, juntamente com o Visconde de Taunay. Esse grupo preconizava a vinda de europeus como colonos divulgando a importância desse elemento na composição racial do povo brasileiro, nos moldes do evolucionismo social e combatendo a imigração de chineses, considerados por eles degenerados e incivilizáveis. Monarquista convicto, Rebouças seguiu para o exílio com D. Pedro II. No exílio, passou um tempo em Lisboa, foi a Marselha visitar o Imperador, percorreu alguns países da Europa, e seguiu para a África. Ali morou em Lourenço Marques, em Barbeton, e em Funchal, na Ilha da Madeira, onde permaneceu até o suicídio em maio de 1898.

NOTAS:
1 SPITZER, Leo. Assimilação, Marginalidade, Identidade: Os dois Mundos de André Rebouças, Cornelius May e Stephan Zweig. ESTUDOS AFRO-ASIÁTICOS. Rio de Janeiro: Fundação Cândido Mendes, 1980, (3) p. 42.
2 CARVALHO, Maria Alice Rezende de. O Quinto Século.André Rebouças e a Construção do Brasil. Tese, IUPRJ, mim, 1997, p. 53-54.
3 REBOUÇAS, Antonio Pereira. Recordações da Vida Parlamentar. In: NABUCO, Joaquim. Um Estadista do Império. Nabuco de Araujo. Tomo I, p. 39-40.
4 SANTOS, Sydney M. G. dos Santos. André Rebouças e seu tempo. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1985, p. 263.
5 NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 71.

Profª. Ms. Hileia Araujo de Castro
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