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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Hamilton Leite, um maragogipano de coração

por Zevaldo Sousa


Você conhece um homem que pode lhe dar diversas informações sobre a história dessa cidade? Se a sua resposta é não, vamos começar a te dar dicas. Temos tantos e um deles é maragogipano de coração. Esse mar-grandense foi por algum tempo, considerado um nome para governar esta cidade, mas sempre indicou o nome de Bento Miranda Guedes. Vendia tapetes e diversos outros objetos, por isso, corria o mundo, sendo um bom vendedor de porta-em-porta, de comércio-em-comércio, enfeitava a casa de milhares de pessoas. Mas seu coração permaneceu nesta cidade, e são mais de 50 anos amando e prestando a devida atenção que poucos se dão conta. Para ele, Maragogipe necessitava e ainda necessita ser olhada com mais carinho e amor, pois será somente assim que ela dará bons frutos. E qual cidade não é assim, caro maragogipano?

Se você já sentou na Praça Conselheiro Antônio Rebouças, sei que já reparou um senhor que na maioria das vezes usa roupas brancas e fica a admirar aquela cidade que tanto ama, com seus amigos, e os movimentos marcantes das novidades inconsistentes. Admirado por muitos, inclusive, daqueles que desconhece a história e a sua história. Esse já merece, já faz um bom tempo, uma homenagem digna de cidadão maragogipano.

Estou a falar do amigo Hamilton Leite que sempre que pode prestou serviços à essa comuna, foi ele inclusive que ao perceber que Maragogipe não comemorava o seu dia maior, procurou Osvaldo Sá e perguntou os motivos e o dia do aniversário, pois nas suas viagens, em todas as cidades que ele passava comemoravam o dia da cidade e ele não entendia os motivos que levaram aos maragogipanos essa falta com a história de sua própria cidade. O seu amor foi tanto, que começou com uma festa singela e ela foi crescendo e tomando o porte atual. Aqui, vai um daqueles pedidos, pois sei que o curioso gosta de saber e pesquisar e o amigo Hamilton, assim como outros ainda vive para contar belas histórias e merece muito mais destaque, por ele não pensar só em si, mas num coletivo, estando preocupado com os rumos da nossa sociedade e toda vez que surge a oportunidade para emitir sua opinião, não tem medo. Ele realmente é cidadão maragogipano de coração. Parabéns Maragogipe, por produzir um sentimento que ainda vive em constante movimento no coração daqueles amam essa terra de verdade.

Diógenes Monteiro Guimarães, o grande Didi da Baiana

Por: Joilson Santana

Diógenes Monteiro Guimarães nasceu na cidade Heróica em 1º de julho de 1931. Trabalhava seu Didi como era chamado, na Companhia de Navegação Baiana e em 1962 foi transferido para Maragogipe onde viveu ate o dia de sua morte. Compositor, poeta e músico de primeira ganhou várias premiações pelas suas composições em muitas cidades da Bahia.

Era seu Didi da Baiana um grande maragogipano, mesmo tido nascido e vivido em Cachoeira por 31 anos tinha ele com certeza um amor incondicional por esta terra e pela festas da cidade, mostrando isso em um documentário sobre a festa de São Bartolomeu onde disse: “Estou aqui a 40 anos e ainda não perdi uma Lavagem depois que aqui cheguei.”

Com sua boa viola de baixo do braço alegrou muita gente com suas serestas, e tocou corações com seus grandes poemas. Era sem dúvida um grande instrumentista, digo isso por ter presenciado ensaios do quarteto de chorinho de fazia parte juntamente com Dica, Edson Soares e Roque Adson, onde dava seus acordes e ao mesmo tempo dava mordidas na língua como se estivesse saboreando o que estava tocando.

O grande mestre deixou a sua querida terra no dia 29 de maio de 2010, e tristemente perdemos uma parte de nossa cidade. Assim se foi Didi da Baiana ao som de tradicionais músicas de grandes autores e de sua própria autoria em um sepultamento emocionante. A Tribuna Popular homenageiou esse homem que fez história e que nunca será esquecido.

Fonte: Tribuna Popular, edição 3, publicada no dia 07 de junho de 2010.

Heráclio Paraguassú Guerreiro - Mestre Imortal

Por: Joilson Santana

Heráclio Paraguassú Guerreiro nasceu na cidade de Maragogipe, em 13 de março de 1877 e faleceu na mesma em 18 de maio de 1950, filho do senhor João Primo Guerreiro. Com 12 anos de idade, entrou na escola de música da Filarmônica Terpsícore Popular de Maragogipe em que discretamente começou a aprender a arte musical contrariando a vontade de seus pais. A caixa foi o seu primeiro instrumento depois de um ano. Em 1895 fundou, aos 18 anos o grupo “Harpa Mariana” a qual foi regente. Autodidata, mas com potencial espetacular, Heráclio destaca-se mais e mais quando inicia as suas composições.

Em 10 de setembro de 1910, quando agravou o estado de saúde do senhor Theodoro Borges da Silva que foi um dos fundadores, primeiro e atual regente da Terpsícore na época, foi concedida a Heráclio a posse da regência, tendo ele fundido o grupo “Harpa Mariana” a Terpsícore, criando então nova fase com progresso para a filarmônica que regeu por quase 40 anos.

Suas composições são indiscutivelmente exímias obras de arte, tendo Heráclio chegado a compor mais de 600 partituras entre elas dobrados, marchas, fantasias, novenas, rapsódias, valsas, boleros, sinfonias, e etc. Em sua obra temos como destaque algumas de suas composições como: O Rebate, Ronaldo Souza, Cap. Juracy Magalhães, O Registrado, Oscar Guerreiro, Hybernon Guerreiro, Ao Passeio, Filoca Santana, Liliu, Chuva de Ouro, Bendita, Virgem de Sión, dobrado “América” que no meio do trio tem o canto do sabiá , dobrado “Os corujas” que em meio a sua execução tem o gorjeio da coruja, O Rabi da Galiléia e a Canção no Saara que ganharam premiações na Alemanha. A música do nosso compositor é conhecida nacionalmente e internacionalmente, ouvida no Norte da América e pela Europa.

Muitos maestros baianos comentam de forma impressionante o trabalho desse mestre, por exemplo, o maestro Fred Dantas que com toda a sua etno-musicologia define bem a importância de Heráclio para a musica de filarmônica: “Não há música mais simples, ou menos bonita, de Guerreiro, dono de um estilo vigoroso e severo, que não lhe impediu de ser um dos que estabeleceram a marcação em tangado. Depois de introduções e cantos com divisões bem definidas entre palhetas e metais, normalmente surgem, nos dobrados de Heráclio Guerreiro, os trios mais belos da música baiana, nos quais há um equilíbrio místico entre o canto, com clarinetas, o contracanto de um bombardino solista e a marcação obstinada da tuba e do sax barítono.”(Curso Mestres)

Introduziu-se na dramaturgia, escrevendo peças teatrais, onde a operata “Íris” fez grande sucesso em 1942 nas cidades de Nazaré e Cachoeira. A cidade Heróica recebeu a caravana que compunha a “bandeira São Pedro” com muita gentileza e assim fazendo mais uma jornada de fé o grupo de senhorinhas se apresentou no C.T.C., para angariar fundos para reconstrução da Igreja “Matriz” de São Bartolomeu, sendo abrilhantada pela filarmônica “Lira Ceciliana “. Outro drama de autoria de heráclio foi também bem sucedido na cidade de Cruz das Almas, a peça “Escrava Grega”.

Foi o Guerreiro, poeta e jornalista, sendo um dos principais redatores desse jornal nas décadas de 30 e 40 juntamente com Odilardo Uzeda Rodrigues, Dr. George Oliver e Lourival V. Vivas. Trabalhou na portaria do “Cine Lourdes” e era também funcionário da Coletoria Estadual sendo afastado do cargo inesperadamente, moveu uma ação contra o estado e foi readmitido.

Enterro de Heráclio Paraguaçu Guerreiro
Homem simples e múltiplo ficou imortalizado com os seus feitos que são de muita importância para a nossa maragogipe que em 18 de maio 1950 lamentou tristemente a sua morte e que nessa mesma data agora em 2010 completou-se 60 anos do seu falecimento. 

Texto publicado no Jornal Tribuna Popular, 2ª edição, no dia 24 de maio de 2010. Naquela semana estavamos fazendo uma homenagem para um dos redatores do Tribuna Popular, Heráclio Paraguassu Guerreiro.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Biografia de Juarez Guerreiro, in MEMÓRIA DE MARAGOGIPE

Por Carlos Laranjeiras

Não houve na história de Maragogipe – e certamente não há ainda – político mais importante do que Juarez Guerreiro. Símbolo de uma época, cujo prestígio pessoal influenciava no resultado de eleições, atraia a Maragogipe candidatos a governador, deputado federal e deputado estadual, que lhe beijavam a mão.

Por causa da sua influência política, Maragogipe recebeu a visita de Régis Pacheco, medico de Vitória Conquista, eleito para o governo do estado em 1951 e de Antônio Balbino, sucessor de Regis no governo da Bahia em 1955. Balbino foi também deputado federal, senador e ministro de dois governos: Getúlio Vargas e João Goulart.

Ao chegar a Maragogipe, Antônio Balbino era recebido na “ponte do navio” pela Filarmônica Terpsícore Popular e hospedava-se na casa de Juarez, no Caminho do Caijá (ou Cajá?), a qual atraia tanta gente que mais parecia igreja em dias de festas de São Bartolomeu (Caijá ou Cajá suscitaram uma boa discussão pelos jornais nos anos 60, mas quem venceu foi Bartolomeu Americano, a qual pretendo lembrar em breve).

Juarez era do PSD, legenda também de Regis Pacheco, Antônio Balbino e Waldir Pires, que viriam a integrar na Bahia o MDB, mas se vivesse até o final dos anos 60, quando os militares já se encontravam à frente do governo da República, dificilmente integraria o Movimento Democrático Brasileiro. Porque esse maragogipano alto, moreno e corpulento, era personalista. Ele exerceu durante mais da metade da vida o controle da política municipal, razão pela qual germinou a família mais numerosa da cidade.

Juarez simbolizava a figura do coronel: protegia e oferecia sustento a aqueles que lhe juravam fidelidade ou lhe tinham consideração e respeito, apadrinhava casamentos, arranjava-lhes emprego e dinheiro, providenciava-lhes médicos e internações, batizava-lhes os filhos, dava-lhes refeições, impedia que a polícia os prendesse e se recolhidos à prisão fossem, providenciava-lhes a soltura. Esse chefe da política municipal durante a ditadura Vargas e os governos estaduais de Regis Pacheco e Antônio Balbino dava a impressão de ser em Maragogipe, além de prefeito, o advogado, o médico, o delegado, o escrivão ou o padre.

Ele transmitia a sensação de não ter vocação para ser mandado e sim para mandar, então seria difícil a sua presença no Movimento Democrático Brasileiro, que era uma legenda de idealistas que lutavam para expulsar do poder central os militares. Alguns membros dessa legenda, como o então deputado estadual Marcelo Duarte, filho do jurista Nestor Duarte, esforçava-se também para acabar com as velhas oligarquias inclusive com a que Juarez Guerreiro representou em Maragogipe, a qual não prosperou com a sua morte a despeito de ele haver deixado discípulos como Cid Seixas Fraga e Antomeu Brito Souza.

Para melhor compreensão deste texto, leia também o de Plínio Guedes.

Carlos Laranjeira é jornalista. Nascido em Maragogipe, reside em São Bernardo do Campo, SP.

domingo, 10 de julho de 2011

A biografia de Mário Carvalho e o Cine Lourdes

CARLOS LARANJEIRA faz um passeio pelo mundo das artes cinematográficas que por esta terra teve importância na difusão da cultura e das visões do cinema mundial. O Cine Lourdes foi um importante ponto de encontro que até hoje, muitos maragogipanos lembram e sentem saudades. Atualmente, a Prefeitura Municipal inaugurou um Centro de Saúde (Foto ao lado) no local onde o Cine Lourdes permaneceu por um bom tempo, confira o texto do escritor:

por: Carlos Laranjeiras
Bons tempos aqueles do Cine Lourdes, de propriedade de Mário Carvalho. Entre o Bar de Ariston e o Saboeiro, aproximou as pessoas, promoveu amizades e nos anos 50 e 60 infundiu na cabeça de meninos como eu pensamentos de que a arte pode comunicar alegria, tristeza, comover, impressionar e narrar histórias.

No Cine Lourdes, testemunhei o gênio de Charles Chaplin mudo, só com gestos, mostrar como se faz uma graça tão perfeita que os barulhentos programas de televisão de hoje, com mais de 100 participantes, não conseguem imitá-lo nem de longe. Vi John Wayne, Gary Cooper e Gregório Peck transportarem os horrores da II Guerra.

Com esses dois olhinhos que Deus me deu, percebi pela visão Sophia Loren, com sua beleza exótica, apresentar o drama de uma mulher cujo marido não retorna com as tropas em Os Girassóis da Rússia. Destemida, ela vai a esse país procurá-lo e o encontra. O filme me mostrou a virtude da persistência, que acaba o desânimo e o medo.

Assisti Brigitte Bardot, Kirk Douglas, Johnny Weissmuller, Burt Lancaster, Randolph Scott, Roy Rogers, Charles Starret com metade do rosto coberto pelo lenço negro e chanchadas com Ankito, Grande Otelo, Oscarito e Zé Trindade, baiano de Salvador, mas dizia em filmes ter nascido em Maragogipe.

E os documentários com os compactos de jogos de futebol do Rio de Janeiro, exibidos antes dos filmes, quem não lembra? No Cine Lourdes tive contato com a obra de Plínio Marcos, que eu viria conhecer em Santo André e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, quem Glauber Rocha considerou um dos gênios do cinema. Também vi Ângela Maria e Waldick Soriano.

Se existe uma família que preciso pedir desculpas em público pelo que fiz é a de Mário Carvalho, um homem baixo, pele morena, magro, já de idade, mas ágil. Em Maragogipe, passei todo tipo de decepções e humilhações porque a maioria das pessoas não me entendia, outras me entenderam e perdoaram, então não tenho vergonha em dizer que aos 11, 12 anos, entrava no Cine Lourdes por baixo da grade no lado da Praça do Saboeiro ou passava na confusão que se formava na entrada sem pagar. Mário chamava o delegado Bortolomeu Americano e o soldado PM Góes que me retiravam do cinema. Tanto Americano quanto Góes tornaram-se amigos quando cresci. Devo muito também a Leleco, filho de Osvaldino Malaquias, fabricante de doces, de quem papai, Bartolomeu Laranjeira, era cliente. Leleco cansou de pagar minhas entradas.

Essa experiência me ensinou muito, além de me despertar o gosto pela arte inclusive pela arte de escrever.

Carlos Laranjeira é jornalista.
Comentários: politika@uol.com.br

A biografia de Gerhard Meyer Suerdieck

Dívida deve ser paga e essa é uma delas, apesar da demora. Como havia dito que iria escrever um pouco sobre o aniversário do Colégio Estadual Gerhard Meyer Suerdieck, estou fazendo o mesmo e espero que gostem. Como sei que a maioria dos meus leitores gostam da cultura e, sobretudo, da história desse município. Resolvi falar um pouco da história desse homem, que no seu tempo, era considerado um grande amigo de Maragogipe. Alemão, naturalizado brasileiro por desejo e vontade.

"Em 1923, Heinrich Suerdieck morreu de pneumonia, na Suíça, aos 47 anos, quando passeava de férias. Suportou os rigores tropicais, mas sucumbiu ao seu próprio inverno. Para o lugar dele, August convidou o cunhado Gerhard Meyer, então com 36 anos. Uma vez no recôncavo, Gerhard não resistiu ao côncavo e ao convexo das mulheres da região. Afinal, costumava-se dizer, na época, que Maragogipe tinha sete mulheres para cada honrem. Que o fumo tinha propriedades afrodisíacas, é algo controverso, mas a verdade foi que, lidando com o produto, Gerhard teve dois filhos com uma maragogipana e um terceiro com outra, até se casar com uma operária de sua fábrica, Tibúrcia Pereira Guedes. Com Tibúrcia teve mais quatro filhos, dentre eles Geraldo Meyer Suerdieck, o homem que viria a comandar a empresa por 27 anos, em sua melhor fase." (César, Correio da Bahia - via texto de Elisabete Silva)

Nascido no dia 4 de dezembro, Gerhard Meyer Suerdieck gostava de passar seus finais de ano, na Alemanha, com seus familiares. Em seu retorno a Maragogipe sempre trazia as novidades correntes na Europa e foi com esse espírito incorporador de novidades que o mesmo criava as devidas possibilidades para o crescimento de sua empresa, a então fábrica de charutos "Suerdieck & Cia".

Somente para se ter uma idéia de suas possibilidades de crescimento e de ganhos, foi ele que no dia 02 de agosto de 1931, logo no início do Governo de Anísio Malaquias, inaugurou a "Companhia Maragogipana de Eletricidade S.A." que instalaria, em anos subsequentes, os serviços de iluminação pública e privada, assim como também de força motriz para fins industriais. (Redenção - 01/08/1931). Fernanda Reis discutirá essa questão em sua tese de mestrado na UFBa, em seu tratamento do Culto da Festa de São Bartolomeu de Maragogipe.

Vale ressaltar que Gerhard Meyer Suerdieck herda o foro de chefe da fábrica, que contará com prédios em funcionamento em Maragogipe, São Félix, Cachoeira e Cruz das Almas, em 1923, depois da morte de Ferdinand Suerdieck. Aliás, a "Suerdieck & Cia" é o resultado da fusão em 1914, das firmas de Ferdinand Suerdieck e Augusto Suerdieck, o primeiro com prédio em frente à Terpsícore Popular e o segundo com prédio na rua do Fogo.

Segundo Elisabete Silva, "em 1930, o sócio-chefe August Suerdieck faleceu na Alemanha, assumindo a direção da firma a sua viúva , D. Hermine Suerdieck que também faleceu no ano seguinte. Formando, então uma nova organização o sócio Gerhard Meyer Suerdieck, já naturalizado brasileiro, sua esposa Sr.ª D. Tibúrcia Guedes Meyer Suerdieck e o Sr. Karl Horn, antigo colaborador, este, mais tarde foi afastado por suspeita nazista e a Suerdieck , então, nacionalizada."

Em 1938, com a expansão do negócios, a sede da Suerdieck foi transferida de Maragogipe para Salvador e Gerhard Meyer Suerdieck passa a figurar como único chefe. Em 1946 a Suerdieck passa a ser chamada somente de Suerdieck S/A (Sociedade Anônima). Em 1950, com sua morte. D. Tibúrcia Pereira Guedes assume o cargo de diretora-presidente das fábricas.

Durante sua vida, Gerhard Meyer Suerdieck sempre esteve em ativa troca com a comunidade. Na sua administração a Fábrica Suerdieck esteve em seu auge e foi com essa grande quantidade recursos que ele comprou diversos terrenos na cidade de Maragogipe.

sábado, 15 de janeiro de 2011

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Osvaldo Sá, o socialista - Parte II

Carlos Laranjeira

Entre os filhos mais ilustres das letras de Maragogipe, Osvaldo Sá deve ser compreendido como historiador, pois na arte de narrar histórias ele não tem comparação nos limites da cidade e provavelmente em todo o Recôncavo.

Se eu tivesse de encontrar um historiador brasileiro para procurar relações de semelhança com ele citaria Caio Prado Júnior, a despeito de Osvaldo não ter saído de família rica e influente e não ter tido a formação acadêmica do autor de A Formação do Brasil Contemporâneo, mas do ponto de vista ideológico são parecidos, sim.

Ambos eram socialistas e críticos do capitalismo que concentra a riqueza nas mãos de poucos e a pobreza e a miséria entre muitos, faziam a defesa do marxismo e a posse da terra a todos os brasileiros indiferentemente de religião, partidos ou raça.

Esse maragogipano, nascido no distrito de Guaí e falecido em 2002 aos 94 anos, podia ter sido um historiador de projeção nacional com a fama de Caio Prado Júnior se, ao transferir-se para o Rio de Janeiro em 1929 em busca de espaço para as suas idéias, não tivesse sido prejudicado pela revolução de 30, a qual levou Getúlio Vargas ao poder.

Essa revolução empastelou o Correio Paulistano, em São Paulo, A Manhã, de Mario Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro e, posteriormente, com a ditadura do Estado Novo impôs censura à imprensa, tornando escasso o número de vagas nas redações de jornais e de publicações de livros.

Osvaldo então teve de retornar a Maragogipe, onde viria a ser o primeiro socialista digno de influência. A sua doutrina de reforma da sociedade capitalista para diminuir as desigualdades opunha-se ao integralismo, um princípio de tendência nacionalista e de exaltação aos símbolos nacionais concebido por Plínio Salgado.

Defensores mais notórios do princípio integralista em Maragogipe foram Monsenhor Florisvaldo José de Souza, o Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues, Manoel Lucas Laranjeira (o Bibi Laranjeira) e Onésimo Barbosa, (o Nésio corcunda), mas, a despeito de não se entenderem com Osvaldo no campo das idéias políticas, respeitavam-no.

Nos anos 60, Osvaldo Sá influiu nas ideias de um grupo de jovens maragogipanos entre eles os ginasianos Carlos Alberto dos Santos, o Charli, filho de Pule e Romildo Azevedo, o Mimiu, do Cajá, dos quais guardo em minha memória boas recordações. Mimiu, que viria a ser funcionário da agência do INSS, tornou-se um socialista exaltado, mas era uma pessoa agradável, de conversa cativante, quem eu, Carlos Alberto e Jorge Manta Malaquias levamos para o Centro de Cultura e Ação (Ceca) e por essa razão acabamos expulsos com ele do Centro.

Talvez em respeito à maioria católica de Maragogipe, Osvaldo não fazia propaganda ruidosa nem do socialismo nem do marxismo, ou melhor, das idéias de Karl Marx integrantes do pensamento socialista. Essas ideias sustentam ser o homem feito de matéria e a matéria única realidade, em contradição com o catolicismo, que segue os ensinamentos de Jesus Cristo.

Osvaldo Sá e Caio Prado Júnior assemelhavam-se nas idéias filosóficas e políticas. Mas, deixando de lado a política e a filosofia de ambos, há de se reconhecer neles algumas contradições: Caio viveu da venda de livros, era como historiador superior a Sérgio Buarque de Hollanda (pai de Chico) e só não deu aulas na Universidade de São Paulo por causa dos militares, à época, donos do poder. Osvaldo foi um autodidata, razão pela qual não deu aulas em ginásios ou faculdades nem viveu da venda de livros e sim do trabalho como escrivão do Juizado de Maragogipe, mas realizou uma obra de natureza histórica digna de ser imitada. Então, todo estudioso da história de Maragogipe há de se concentrar na figura de Osvaldo Sá como historiador, para depois tratá-lo como poeta e folclorista.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros. Nascido em Maragogipe, encontra-se em São Bernardo do Campo desde 1973.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Osvaldo Sá - Parte 1

Carlos Laranjeira

O poeta da preferência da maioria dos jovens de hoje, Osvaldo Sá, foi historiador e prosador dos melhores que a cidade teve. A sua poesia trouxe benefícios a muitos rapazes e moças para se iniciarem no mundo das letras (a mim, foi útil a prosa), mas ele prestou mais serviços à cidade como historiador.

Nos dias que antecediam a Festa de São Bartolomeu, o jornal A Tarde tinha por hábito enviar repórter e fotógrafo a Maragogipe para entrevista-lo e dele recolher histórias, inclusive da construção da Igreja do Padroeiro São Bartolomeu, cuja frente fica em direção à Rua Nova.

Lembro como hoje: quando Osvaldo explicou o motivo pelo qual a igreja foi construída com a frente para a Rua Nova, e não para o Largo onde se concentram milhares de pessoas durante as celebrações ao Padroeiro, gerou uma repercussão que ultrapassou os limites da cidade.

Ele deu a seguinte explicação: a Rua Nova foi a primeira a ser pavimentada com pedras miúdas, e para ela afluíam pessoas, essa convergência estimulou a proliferação de casas para comprar e vender produtos e assim (a Rua Nova) virou centro comercial.

Então, ao ser construída em 1730, a frente do templo foi direcionada para essa rua, não para a área que fica atrás da igreja, pois nela só havia mato. Mas, com o transcorrer dos anos, essa área hoje chamada de Largo da Igreja recebeu melhoramentos públicos e, com a instalação das fábricas de charutos Dannemann e Suerdieck, ocorreu uma explosão demográfica, a cidade expandiu-se para todos os lados, mas alterar a posição da frente da igreja não seria mais possível.

O poeta mais importante de Maragogipe não é Osvaldo Sá e sim Durval de Moraes, que viveu entre a Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, não se envolveu com modernistas como Mário de Andrade e Cassiano Ricardo, manteve-se fiel ao simbolismo, movimento por meio do qual o autor penetra fundo no mundo invisível e impalpável do ser humano e faleceu aos 64 anos, em 1948. Durval de Moraes será focalizado com mais detalhes em outro texto.

Osvaldo publicou em jornais bastantes poesias que, posteriormente, reuniria em livros. Os jornais que as publicavam (Arquivo, de Maragogipe; O São Félix, de São Félix; A Cachoeira, de Cachoeira e de outras cidades) deram –lhe popularidade, mas estudioso da história local transformou-se numa fonte de clareza de informações e casos obscuros, por essa razão jornais diários da influência de A Tarde deslocavam repórteres de Salvador a Maragogipe para entrevistá-lo e recolher histórias.

Osvaldo ficava indignado no instante em que professoras mandavam alunos procura-lo em busca de informações de natureza histórica. Eu mesmo assisti a uma dessas indignações em sua biblioteca assim que estudantes bateram à porta da casa:

-Por que as professoras não pedem para os alunos comprarem o livro, elas não entendem que o escritor, o historiador ou seja lá quem for depende da venda de seus produtos para sobreviver?

A venda tem sido uma luta persistente do autor e quando vende o produto o lucro não é suficiente para sustentá-lo, por essa razão a maioria dos autores sobrevive de empregos públicos, de aulas em colégios e faculdades, produção de textos para rádio, teatro e TV, venda de artigos a revistas de circulação nacional ou, se a fama justifica, cobra por cada entrevista.

Nos tempos áureos da fábrica de charutos Suerdieck, que adquiriu a Dannemann, Maragogipe era uma cidade romântica sob a luz fraca da Companhia de Eletricidade. O fornecimento de luz era quase toda noite interrompido e a escuridão, sob o clarão da lua, excitava os poetas e os contadores de casos.

Continua.

Atenção: em alusão ao artigo anterior, esclareço: Bartolomeu Americano morava no fundo de sua propriedade, ao lado da casa de Juarez Guerreiro e não no fundo da casa de Juarez Guerreiro.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros. Nascido em Maragogipe, encontra-se em São Bernardo do Campo desde 1973.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Dr. Odilardo

Carlos Laranjeira

Manhã de domingo de sol quente: eu jogava rebatida com Edmilson de Jesus Pacheco, o Edil Pacheco, no largo do Porto Grande. Entre o final dos anos 50 e o início da década de 60, o largo era coberto por uma grama rasteira, propícia à prática desse esporte, bastante apreciado pelos adultos e no qual se utilizava a bola de pano.

Ouvimos gritos provenientes do Beco, em seguida Alemão, o pai de Edil, começou a correr pela Rua General Pedra, em direção à Praça Municipal. Continuamos a chutar e pegar a bola, mas os gritos de desespero prosseguiram e, em decorrência do movimento de pessoas, logo percebi: vinham da casa de Napinho.

De short e sem camisa, fui à casa de pintura amarela e vi Napinho estirado no sofá, na sala de entrada, sem respirar. Em minutos, adentrou um homem alto, alentado, de pele morena, com o estetoscópio, instrumento para verificar as reações do paciente, acompanhado do pai de Edil, que indagou;

-Então, doutor, o que dá para fazer?

-Nada mais, está morto.

Foi a minha primeira visão da morte: Napinho, pai de Alemão e avô de Edil, um homem cujo corpo forte foi moldado pelo impulso que dava com o remo às canoas, embarcações utilizadas na pesca inclusive do camarão, com a qual ergueu uma das famílias mais numerosas e ativas do bairro, estava ali estirado, inerte, sem vida.

E o homem alto, de pele morena (o qual, com uma autoridade que não suscitava desconfiança, disse: “está morto”), quem era? Se nesse momento de aflição foi pronunciado o seu nome, não escutei. Ao mudar o olhar de direção, na casa apinhada de gente, não notei mais a sua presença entre as dezenas de pessoas inquietas e agoniadas.

Meses depois, creio, quando fazia a Primeira Comunhão com a dona Ziza, irmã do Padre Florisvaldo José de Souza, eu descia a ladeira da Enseada, com uma pedra à mão e o mesmo homem alto, moreno e corpulento, andar desaprumado, dirigiu-se a mim e pediu:

-Menino, dê-me essa pedra.

Dei-lhe.

Creio que a partir desse dia ele soube de quem eu era filho, eu também quem ele era: Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues, que dividia com o Dr. Barreto, morador na Rua Cel. Felipe de Melo, ao lado da casa de Alfrelice Guerreiro, o Nelson do Café, as glórias do bom êxito da prática da medicina numa cidade carente de recursos de aparelhos médicos. Certo dia, de tanto jogar bola na prainha ao lado da ponte que liga o Porto Grande ao Porto Pequeno e nadar no braço do rio Paraguaçu, o coração pareceu-me descompassado, falei com mamãe que pediu ao Dr. Odilardo para consultar-me em seu escritório, quase ao lado da Associação Atlética, da qual ele seria presidente.

- Vá, menino, você não tem nada.

O Dr. Odilardo era mais do que um médico: professor, diretor do Ginásio Simões Filho e orador público cuja voz que escapava dos lábios, do alto do coreto da Praça da Igreja Matriz sem o auxílio de amplificadores, podia-se ouvir até 500 metros de distância. Nos desfiles dos alunos do ginásio e do curso normal, ele também marchava à frente dos tambores e das caixas de repique e marcação, e encerrava-os sempre nessa praça, onde subia ao coreto e realizava manifestações verbais. O seu discurso não era lento nem apressado, obedecia a um ritmo em que ele sabia fazer a alternância vocal, ouvido em religiosa atenção. Em certos instantes da oratória, ele vibrava as mãos no ar, virava-se em direção à igreja e como se dirigisse ao padroeiro São Bartolomeu, com um temperamento abrasador animado pelos seus sentimentos religiosos, era dominado pelo êxtase e com este encanto arrancava arrepios do público.

Sempre que ia comprar à noite o jornal A Tarde na banca do Corujinha, depois do Moreno, para ler para o meu pai acamado, vítima de derrame cerebral, eu o via a percorrer com a vista o mesmo jornal no bar de Ariston Pimentel Vieira, que havia sido prefeito e Odilardo seu secretário. As páginas do jornal esparramavam-se à mesa e ele, sentado ao lado, lia-o quase inteiro, assim eu acreditava, pois muitas vezes encontrava papai a dormir e ao retornar à praça ele ainda não havia concluído a leitura.

Anos depois, já no JORNAL DA BAHIA e na Rádio Cruzeiro, papai faleceu num sábado ao cair da tarde. Alertado ao telefone pelo primo Jahvé Laranjeira cheguei a Maragogipe domingo de manhãzinha, indaguei de mamãe que médico o considerou morto.

-Foi Dr. Odilardo.

-Ele informou o preço?

-Não. Eu perguntei e ele disse que não era nada.

Naquele homem alto, alentado, de pele morena, jorrava uma alma generosa, com a qual aprendi muito na arte da palavra, sem ter sido seu aluno e na maneira de oferecer favores com uma mão, sem alardeá-los em trombetas com outra.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros.