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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Definição do Fenômeno Religioso e da Religião, Émile Durkheim

O objetivo do autor é “saber qual a religião mais primitiva e a mais simples” (p. 3), para isso ele busca definir, o que convém entender por religião, para não sairmos por aí chamando de religião qualquer “sistema de idéias e práticas que nada teria de religioso, ou deixar de lado fatos religiosos sem perceber sua verdadeira natureza” (p. 3).

Para isso, devemos ter cuidado ao procurarmos definir uma religião como a primeira e também devemos ter cuidado ao definir um sistema de idéias como religioso, a saber, é imprescindível e aceitável que podemos apontar um número de sinais exteriores, que permita estar reconhecendo os fenômenos religiosos onde quer que se encontrem, e impedindo que os confundamos com outros, na verdade é que os seres humanos foram obrigados a criar a noção do que é religião e religioso, mesmo que não acreditemos em alguma religião, nós precisamos “representar de alguma maneira as coisas no meio das quais vivemos, sobre as quais a todo o momento emitimos juízos e que precisamos levar em conta em nossa conduta.” (p. 4). Com isso, o autor propõe uma comparação de todos os sistemas religiosos que conhecemos, mas para isso devemos deixar de lado nossas concepções usuais que pode não deixar ver as coisas como devemos vê-las.

Durkheim refuta a idéia de que tudo que é religioso deve vir do sobrenatural, e por isso, vem de um mundo do mistério, incognoscível, enigmático, incompreensível. Se tomássemos como base essa idéia mostraríamos que a religião é “uma espécie de especulação sobre tudo o que escapa à ciência e, de maneira geral, ao pensamento claro” (p. 5). Essa idéia da religião como algo misterioso e inexplicável faz com que sinta-nos  obrigados a tentar dar uma explicação.

Por isso, ao longo do texto Durkheim tentará, com a ajuda das ciências positivas e da sociologia refutar essa idéia. De início ele demonstra que esse conceito é recente, para o determinismo universal a idéia do sobrenatural está assim exposta, se existem certos fatos que são sobrenaturais, é porque sentimos “que existe uma ordem natural das coisas, ou seja, que os fenômenos do universo estão ligados entre si segundo relações necessárias chamadas leis” (p. 7), e se algo esta fora dessas leis, também está fora da natureza, e com efeito também da razão, pois só entendemos como racional aquilo que está presente na natureza, o argumento utilizado contra é que “os acontecimentos mais maravilhosos nada possuíam que não parecesse perfeitamente concebível” (p. 8), eles não viam nessas maravilhas uma condição de “acesso a um mundo misterioso que a razão não pode penetrar” (idem). Devemos entender que “foi a ciência, e não a religião, que ensinou aos homens que as coisas são complexas e difíceis de compreender” (p. 9), é através dela que conseguimos nos libertar das nossas concepções usuais. Por fim, ele mostrará que a idéia do sobrenatural não tem nada de original, pois foi o homem que a criou ao mesmo tempo em que criava uma idéia contrária.

Outra idéia que qual o autor refuta é o conceito de Deus e Deuses, em que a concepção de divindade ou como ele prefere chamar “ser espiritual”, deixa de lado grande quantidade de manifestações religiosas, como exemplo, “As almas aos mortos, os espíritos de toda espécie e de toda ordem” (p. 11). Sendo assim incluiremos no nosso estudo várias concepções religiosas de diversas culturas, não reduzindo apenas a culturas que tem como determinação o sentimento de vínculo com um Deus.

E como podemos saber o que pode ser religião ou não neste tipo de idéia?


Este conceito acerca da religião, mostra que é um sistema de procedimentos psicológicos, que tem por base o convencimento e a comoção por meio das palavras, seja por oferendas ou sacrifícios, para um ser espiritual, ou seja, “só poderia haver religião onde há preces, sacrifícios, ritos propiciatórios, etc. Teríamos, assim, um critério muito simples que permitiria distinguir o que é religioso do que não é” (p. 12). Mas Durkheim vai utilizar o seguinte argumento para mostrar que essa idéia é falaciosa apesar de ser uma boa definição. Dando o exemplo do Budismo ele mostra que existe religiões e até grandes religiões onde o conceito de deuses e seres espirituais está ausente ou ocupa um papel secundário dentro da religião. “Eis aí grandes religiões em que as invocações, as propiciações... estão muito longe de ter uma posição preponderante” (p. 16), assim ele mostra que a religião vai muito além do conceito de divindade e de seres espirituais, logo não podemos definir excepcionalmente em função desta última.

Durkheim mostra o conceito do Folclore abrange um maior número de exemplos de religiões, pois esse conceito vai além da idéia de um culto formal e comunitário, ele abrange também o culto pessoal, ele mostra que apesar de uma comunidade ou sociedade “aceitar” certa religião, essas ainda preservam rituais folclóricos anteriores a religião dominante e que estas até absorvem e assimilam estas práticas moldando-as aos seus princípios. Mesmo assim ainda existem ritos folclóricos que tem uma relativa autonomia, assim, “uma definição que não levasse isso em conta não compreenderia, portanto, tudo que é religioso.” (p. 19).

Para o autor, existe uma divisão no conceito do folclore, em que como fenômeno religioso, classifica-se em ritos e crenças:

  1. Os ritos “só podem ser definidos e distinguidos das outras práticas humanas, notadamente das práticas morais, pela natureza especial de seu objeto” (p. 19), assim precisamos da crença para definirmos os ritos. 
  2. As crenças por sua vez, simples ou complexas, “apresentam um mesmo caráter comum: supõe uma classificação das coisas, reais ou ideais, que os homens concebem, em duas classes” (p. 19), o sagrado e o profano, faz-se então uma divisão do mundo onde as coisas sagradas são quaisquer objetos que tenham sido revelados, seja essa revelação um deus, uma pedra, ou até uma simples palavra. “um rito pode ter esse caráter” (p. 20), 
No budismo, por exemplo, “as verdades santas e as práticas que delas derivam” (p. 20) são uma coisa sagrada. As coisas profanas são determinadas muitas vezes, com aspectos de inferioridade em relação às coisas profanas, mas “se é verdade que o homem depende de seus deuses, a dependência é recíproca” (p. 21), sem os homens os deuses morreriam. Mas é através da heterogeneidade que podemos diferenciar mais claramente as coisas profanas das coisas sagradas, pois ela é como diz o autor “muito particular: ela é absoluta” (p. 22), as coisas (profanas e sagradas) são consideradas “pelo espírito humano como gêneros separados, como dois mundos entre os quais nada existe em comum.” (p. 22), apesar disso, existe uma possibilidade de um ser passar (em uma verdadeira metamorfose) de um mundo para o outro, através de ritos de iniciação e outros. Essa heterogeneidade mostra que “as coisas” também são hostis e rivais, tendo em vista que para um ser passar para o outro mundo ele deve sair completamente do seu, conclusão:
Temos, desta vez, um primeiro critério das crenças religiosas. Claro que, no interior desses dois gêneros fundamentais, há espécies secundárias que, por sua vez, são mais ou menos incompatíveis umas com as outras. Mas o característico do fenômeno religioso é que ele supõe sempre uma divisão bipartida do universo conhecido e conhecível em dois gêneros que compreendem tudo o que existe, mas que se excluem radicalmente. As coisas sagradas são aquelas que as proibições protegem e isolam; as coisas profanas, aquelas a que se aplicam essas proibições e que devem permanecer à distância das primeiras. As crenças religiosas são representações que exprimem a natureza das coisas sagradas e as relações que elas mantêm, seja entre si, seja com as coisas profanas. Enfim, os ritos são regras de conduta que prescrevem como o homem deve comportar-se com as coisas sagradas.” (p. 24)
Mas para o autor esta definição ainda não é completa, pois ainda existem duas ordens que devem ser diferenciadas, temos a magia e a religião, onde a primeira, assim como a segunda tem seus ritos, crenças, mitos e dogmas, mas há uma diferença a magia não se preocupa com especulações, mas como podemos separar uma da outra se elas interagem? O simples fato de uma repugnar a outra é uma fator relevante, outro fator é que “a magia tem uma espécie de prazer profissional em profanar as coisas sagradas” (p. 27) e a religião, por sua vez “se nem sempre condenou e proibiu os ritos mágicos, os vê geralmente com desagrado” (p. 27); outro fator é que as crenças religiosas têm uma necessidade de estar ligada intimamente aos homens através das suas práticas, enquanto a magia não precisa dessa ligação, ou seja, para os adeptos da magia não há necessidade de se ligar a outros praticantes, nem os mágicos tem uma necessidade de si ligar a outros mágicos, assim como também não precisam de uma igreja mágica, já a religião precisa de todos esses aspectos, precisa de interação comunidade x comunidade; comunidade x igreja e igreja x igreja, fator essencial para uma continuidade religiosa.

Por fim, o autor diz que “uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a elas aderem.” (p. 32). Sendo assim, esse segundo argumento complementa o primeiro, pois é na coletividade que mostramos a idéia de religião.

Obrigado por sua atenção!
Atualizado: 17 de Janeiro de 2011


DURKHEIM, Émile. Definição do Fenômeno Religioso e da Religião. In: DURKHEIM, Émile. "As formas elementares da vida religiosa". São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Por Zevaldo Luiz

O conceito de fronteiras na África Negra, Wolfgang Döpcke

Entender a África nos bancos escolares atuais é muito complicado, por causa da nossa formação de vida e escolar, por isso, resolvi colocar este resumo do texto do Döpcke que irá explicar alguns detalhes sobre a formação das fronteiras africanas.

O autor começa o texto delimitando os objetivos do seu trabalho, estudando as fronteiras políticas na África Negra nas suas dimensões históricas e atuais. Explicando a noção de fronteira, e diferenciando-a da noção americana e européia, pois conceitos como esses devem ser analisados antes de aplicá-lo ao contexto africano. Com essa análise, o autor sugere que o conceito europeu deve ser aplicado por ter maior semelhança com o conceito africano, demostrando que o conceito de "linhas", ao invés do de "zonas", é o melhor jeito para se entender o conceito africano de "fronteiras", assim “descrito nas palavras em um tratado, e/ou mostrado em um mapa ou em uma carta, e/ou marcado na terra pelos indicadores físicos [...]. Um limite não tem nenhuma largura e uma reunião dos limites [...] envolve um ponto e não uma zona de soberania comum.” (DÖPCKE,1999, p. 77). Ou seja, o conceito de "zonas" não tem como ser aplicado no contexto africano, o autor defendo que o conceito de "linhas" foi bem utilizado, pois no contexto histórico africano essa noção já era utilizada, mesmo antes da divisão européia, com isso ele definirá o conteúdo do seu trabalho neste setor, conferindo e discutindo os mitos que por ele foram definidos sobre as fronteiras africanas. Argumentando que na África pré-colonial existiam claras noções de limites dos espaços políticos; que a ação da Conferência de Berlim na delimitação das fronteiras foi muito limitada; e que a população africana que vivia perto das fronteiras tentou aproveitar-se das mesmas e manipulá-las para melhor convir aos seus interesses e que as fronteiras não representaram um fator importante nos conflitos entre os Estados.

Döpcke dividirá sua argumentação em cinco mitos, que serão resumidamente explicitados, espero ajudar e aguardo comentários.

Mito 1: O conceito de fronteira política é alheio às comunidades africanas pré-coloniais e foi “importado” do contexto cultural ocidental

Dois argumentos importantes que são amplamente discutidos nos debates acerca do assunto, mostra elementos que contradizem o autor, contudo ele irá refutar, dizendo que o estado era definido politicamente.

O primeiro destes argumentos foi “um aspecto importante do argumento de que as fronteiras modernas do continente africano são “artificiais” é a afirmação de que ou as fronteiras políticas em si mesmas, ou o conceito de fronteira como linha reta, não existiam na África pré-colonial” (Idem, p. 78). Com isso, vemos que um argumento da diferença entre fronteiras é a teoria que, o homem era o ‘bem escasso’ na época pré-colonial, e não a terra, mas esse argumento é problemático, pois os africanos precisavam de terras para sobreviver, “existem nas mais diversas fontes, fortes indícios de que sociedades africanas tinham uma clara noção de territorialidade, inclusive de fronteiras” (Idem, p. 79), dando fortes exemplos dessa característica.

O segundo argumento fala "sobre o desconhecimento do conceito de fronteira na África pré-colonial se refere ao tipo de fronteira” (Idem, p. 80). Com esse argumento, o autor quer mostrar que o as populações africanas antes do colonialismo conheciam o conceito de fronteira tipo zona e não linha, mas os exemplos que o autor dar e outros que ele cita refuta não completamente esse argumento, pois segundo o autor: “é importante sublinhar que, para o continente como um todo, a fronteira ‘importada’ não representava uma novidade absoluta” (Idem, p. 81).

Contudo as fronteiras pré-coloniais separavam entidades políticas, de diversos tamanhos, e não entidades lingüísticas, étnicas ou culturais. “Em regra, as entidades políticas, sejam elas pequenas chefias ou grandes impérios, eram menores ou maiores do que as identificações étnicas ou culturais.” (Idem). Por fim, dentro das fronteiras de alguns estados ou impérios não existia apenas um “identidade cultural”, mas continham outras, o Estado era contudo definido politicamente e não culturalmente.

Mito 2: As fronteiras coloniais – e, por conseqüência, modernas – foram delimitadas na Conferência de Berlim de 1884/85. Naquela Conferência, as potências coloniais concordaram, também, em estabelecer regras fixas e consensuais que depois orientariam a chamada Partilha da África

A Conferência de Berlim encontrar-se entre os eventos históricos mais bem explanados. Mas, erroneamente, lhes é atribuído um papel significativo e absoluto para a Partilha da África. A visão popular tem as suas origens, na encenação do acontecimento, “idéias populares e públicas de que na Conferência foi realizada a Partilha da África, e de que os delegados desenharam no grande mapa com uma régua as linhas retas que delimitaram as esferas de influência entre as potências européias foram influenciadas por esta encenação.” (Idem, p. 82). Outro mito acerca da Conferência esta na idéia “que foram ali estabelecidas regras e princípios claros para a Partilha da África que se condensariam no chamado princípio da ‘ocupação efetiva’” (Idem).

Para o autor o que realmente ocorreu na Conferência foi a recusa da França e da Alemanha em reconhecerem o acordo anglo-português de junho de 1884, assim Bismarck, descrente da idéia colonial e do livre comércio na África, viu na desavença entre a Inglaterra e a França uma oportunidade de aproximação com a França. Embora limitando o engajamento alemão, ele pensava na dimensão estratégica européia. “Para ele, as aquisições na África, assim como a Conferência, somente serviam para impedir o surgimento de um campo inimigo na Europa dirigido contra a Alemanha.” (Idem, p. 83). Com isso vemos que Bismarck definiu as três metas da Conferência que era “a garantia de liberdade de comércio e da navegação nos rios Congo e Níger e a conclusão de um acordo sobre os critérios de futuras anexações na África” (Idem). Deixando claro que a reunião não trataria de questões de soberania ou de reivindicações territoriais.

O autor argumenta que os dois primeiros pontos eram mais “anticoloniais que coloniais. Procediam do liberalismo comercial e se destinavam contra o monopólio do comércio colonial.”(Idem) e que “o terceiro ponto criou uma resolução contraditória ... que foi ultrapassada pela realidade, já na época da Conferência” (Idem). Segue-se então que a Conferência não ficou sem impacto popularizando-se junto à opinião pública acelerando assim a corrida pela a África. “O princípio da ‘ocupação efetiva’, que a Conferência limitou à costa, adquiriu certa importância durante a partilha do interior do continente. O princípio, portanto, não foi inventado pela Conferência. Há muito existia. No entanto, ainda que só houvesse sido formulado para o litoral, a aplicação do princípio estendeu-se, na prática, ao interior da África e aos protetorados.”(Idem, p. 84)

Assim ele irá mostrar que a maioria das fronteiras “entre os futuros territórios coloniais, foram estabelecidas consensualmente em acordos bilaterais após a Conferência de Berlim”. (Idem, p. 85), estes acordos delimitaram o percurso fronteiriço entre as chamadas esferas de influência de forma superficial. Foram seguidos por tratados que estipulavam o local exato da fronteira. Mas em muitos setores o trabalho de demarcação não foi realizado, provocando, divergências na interpretação da delimitação fronteiriça levando, em alguns casos, a tensões entre os Estados africanos.

Mito 3: As fronteiras coloniais foram transformadas automaticamente e sem contestação em fronteiras dos Estados africanos independentes



Ainda que seja verdadeiro notar que o atual trajeto das linhas retas divisórias entre os Estados africanos tem sua origem no período colonial, a mudança das fronteiras coloniais não ocorreu sem contestação. Ela resulta “de um processo político que se desdobrou principalmente entre 1956 e 1963, envolvendo a nova elite africana bem como as potências coloniais. Conceitos alternativos que rejeitavam a divisão colonial do continente africano como um modelo para o futuro foram articulados especialmente durante este período chave da descolonização.” (Idem, p. 86) Assim, as contestações contrárias a emprego das divisões coloniais como fronteiras de uma África independente partiram de perspectivas distintas. “Em primeiro lugar, os nacionalistas contestaram a delimitação das fronteiras coloniais como algo contrário aos interesses da população local, muitas vezes etnicamente dividida por fronteiras entre os Estados... Em segundo lugar, lutava-se em favor da preservação das grandes federações coloniais francesas na África... e contra a “balcanização” destes territórios em Estados separados. Em terceiro lugar, a tradição pan-africanista de unidade africana,... lutava pela superação da divisão política do continente e em favor de uma União dos Estados, na qual as fronteiras de então só teriam a função de divisões administrativas internas”. (Idem).

Mito 4: Por causa da sua artificialidade, as fronteiras modernas são ignoradas na vida cotidiana e na consciência dos homens comuns. Ou, alternativamente: as fronteiras modernas inibem, efetivamente, o movimento das pessoas e, assim, acabaram com a tradição pré-colonial de migração, contato e intercâmbio das populações

Há avaliações relativas às seqüelas trazidas pelas fronteiras modernas para as populações africanas. “De um lado, argumenta-se que as fronteiras internacionais obstruíam os movimentos da população... De outro lado, afirma-se que as novas fronteiras não teriam tido nenhum impacto sobre a vida cotidiana das populações fronteiriças” (Idem, p. 94). Para o autor “a última citação está mais próxima à realidade, tanto em relação à época colonial como à pós-colonial”(Idem). Para ele “seria mais correto dizer que os africanos se apropriaram das novas fronteiras, já que pouco separavam e ofereciam diversas oportunidades.” (Idem)

Esse impacto das fronteiras no cotidiano pode ser abordado em dois sentidos. Em primeiro lugar, pode ser estudado o impacto “nas populações que vivem nas proximidades das fronteiras e que, muitas vezes, foram divididas entre duas colônias.”(Idem), Em segundo “a alegação de que as fronteiras coloniais e pós-coloniais impediriam a migração das comunidades africanas que tanto caracterizava a situação pré-colonial.” (Idem, p. 95).

Contudo “as fronteiras modernas na África não representaram na época colonial, nem representam hoje, barreiras efetivas para os movimentos de população. Eram e são permeáveis, são mais zonas de contato do que de exclusão. Porém, não estão ausentes da mente e da identificação dos povos. As fronteiras representam uma realidade na vida das pessoas. Elas são apropriadas, utilizadas e, no seu significado, permanentemente renegociadas, em vez de simplesmente ignoradas.” (Idem, p. 97)

Mito 5: A delimitação “artificial” das fronteiras na África representa uma das principais causas de conflito entre os Estados e dentro deles



Para o autor explicar a instabilidade política da África, em função do impacto das fronteiras herdadas do colonialismo não é certo. “As fronteiras seriam “artificiais”, argumenta-se, por isso causam conflitos entre os Estados ou dentro deles” (Idem, p.97). Esta teoria será tratada de dois modos. Em primeiro lugar, “será questionada a utilidade do conceito de “artificialidade” na caracterização das fronteiras africanas. Posteriormente, será mostrado que disputas e conflitos fronteiriços não representaram um problema grave nas relações internacionais dos Estados africanos independentes” (Idem).

O conceito de artificialidade uma vez aplicado às fronteiras é problemático. “As barreiras naturais não representam fronteiras no espaço cultural, político ou econômico, criado pelas sociedades humanas mas, pelo contrário, muitas vezes, vias de comunicação e interligação.” (Idem), assim, há uma necessidade “de relacionar a caracterização de uma fronteira com as articulações das atividades humanas no espaço” (Idem). Por isso, é comum argumentar “que as fronteiras africanas são artificiais porque elas foram delimitadas, desrespeitando os espaços culturais, políticos e econômicos criados pelas sociedades africanas na época pré-colonial”(Idem).

A segunda parte refere-se aos conflitos fronteiriços na África contemporânea. “Em relação à freqüência de conflitos, podemos afirmar que, desde a época da descolonização, a África foi o continente com o maior número de conflitos armados... Embora muitas destas guerras internas tenham uma forte dimensão regional em termos de simpatia e apoio de combatentes por países vizinhos, raramente aconteceu um pleno confronto militar entre dois Estados africanos. Até mais raramente, isto é, somente em dois ou três casos” (Idem, p. 99-100)

Conclusão: enfim, porque as linhas retas sobreviveram com tanto sucesso?

Por fim, o autor mostrará que: “em primeiro lugar, que as fronteiras modernas na África têm a sua origem no processo da Partilha do continente entre as potências coloniais européias mas que o papel da Conferência de Berlim de 1884-5 foi muito limitado nesta divisão. Em segundo lugar, foi demonstrado que a aceitação das fronteiras coloniais durante a descolonização não era automática, mas o resultado de um processo político complexo, que articulava várias alternativas e opções. No final deste processo conflituoso de posicionamento entre os Estados africanos recém-nascidos, temos a ampla confirmação do status quo territorial e a quase universal adesão ao princípio de uti possidetis juris, isto é, um consenso entre os Estados, simbolizado e reforçado pela formação da Organização da Unidade Africana em 1963.” (Idem, p. 101)

Certamente, as normas internacionais, a política da OUA e o consenso entre os Estados africanos no sentido de manter o status quo a qualquer custo explicam em parte a dureza das fronteiras.”(Idem, p. 102), mas o argumento utilizado, “acerca da função de fronteiras na África pré-colonial e do caráter das entidades políticas antes da chegada dos europeus, é igualmente importante”.(Idem).

Outro argumento é “a falta de alternativas às fronteiras existentes. Uma vez que a África decidiu se integrar à comunidade internacional na forma de Estados soberanos, foi inevitável, devido ao grande número de etnias, que estes Estados fossem compostos por várias etnias e culturas... Neste sentido, as fronteiras atuais, bem como as coloniais, representam uma resposta racional à necessidade da África de participar no sistema internacional do século XX. (Idem).

Percebemos com isso, vários aspectos que dominam o contexto africano e que não podemos agir sem pensar, ver África hoje, não é somente ver um continente de desgraças, mas de uma população que sabe se virar para enfrentar seus problemas.

Obrigado por sua atenção.
Atualização: 17 de Janeiro de 2010


Livro Utilizado
DÖPCKE, Wolfgang. “A vinda longa das linhas retas: cinco mitos sobre as fronteiras na África Negra.” In Revista Brasileira de Política Internacional, 42 (1): 77-109, 1999.

Por: Zevaldo Sousa

As Ciências Sociais e o Processo Histórico, de Lemos Filho

Chegou a hora de estudar um pouco. Neste texto você encontrará um resumo do texto As Ciências Sociais e o Processo Histórico, das páginas 19 à 28.

Fique a vontade:

O objetivo deste texto, "é analisar o processo histórico do aparecimento das Ciências Sociais, isto é, mostrar o momento em que os fenômenos sociais começaram a ser objeto científico e estudar os fatos históricos que propiciaram o surgimento e a formação destas ciências". (p.19)

Na Antiguidade os estudos dos fenômenos sociais eram fragmentários: eram reflexões que os pensadores tomavam como objeto, um fator isolado de conhecimento, ou seja, uma parte da vida social, como a política ou a moral, com perspectiva normativa e finalista.

Na Idade Média os pensadores prendiam-se à discussões metafísicas que justificavam a fé cristã. Os dogmas da Igreja Católica impediam o desenvolvimento da investigação científica. A filosofia nesse período compreendia-se à fonte de preparação da salvação da alma.

Durante o Renascimento a influência teológica perde seu lugar para uma perspectiva que abre a livre discussão para a investigação racional. O novo conhecimento caracterizava-se por objetividade e realismo que definiram a separação nítida do pensamento do passado. Os fenômenos da natureza eram investigados pelo método da experimentação, e a ciência substitui a filosofia, e o mesmo método científico que investigava a natureza também se volta para o mundo da natureza humana e suas relações sociais.

Na Idade Moderna com a criação da sociedade capitalista, os pensadores esforçaram-se em aplicar o método científico para explicar as transformações que ocorreram nessa sociedade, transformações essas que geraram uma crise social na época.

Os fatores intelectuais se explicam pela nova forma de pensar da sociedade, pelo método da razão em substituição a teologia. Pensadores como Maquiavel contribuíram com essa nova forma de pensamento.

Para a formação das Ciências Sociais a Filosofia da História foi responsável por uma nova concepção de sociedade e a distinção entre Estado e Sociedade Civil.

Viagens do Descobrimento e a Revolução Francesa, contribuíram na formação do caráter científico das Ciências Sociais, promoveram o convívio com outras culturas, crises e desordens na organização da sociedade, proporcionando o positivismo (viam a sociedade regida por leis rigorosas).

O surgimento do positivismo, fez com que houvessem crises que provocaram no entendimento das Ciências Humanas e Sociais, pois estas "não possuíam" métodos, leis ou conceitos rígidos que desse para aplicar no entendimento da sociedade, por isso, , elas deveriam seguir o exemplo das “Ciências da Natureza”, que até aquele momento, se consideravam os únicos capazes de explicar o desenvolvimento e as crises da sociedade. Ou seja, houve a necessidade de se desenvolver técnicas racionais para a formação das Ciências Sociais.

Surge então, várias áreas no segmento humano-social, e cada uma delas, especializada em um ramo da vida social. De início elas eram absorvidas pela Sociologia que tornou-se uma ciência da sociedade industrial, com cunho científico e ideológico.

Atualmente, as Ciências Sociais tem objeto de estudo específico e se relacionam mutuamente. Partindo dessas constatações de que maneiras os teóricos clássicos das Ciências Sociais respondem a questão da organização social das relações entre os homens?

Três teóricos são amplamente divulgados devido ao alto teor de suas teorias: Émile Durkheim preocupou-se em estabelecer um método e definir o objeto da sociologia; Max Weber delimita a sociologia dentro da noção de “ação social”, por fim, Karl Marx concebe a organização da sociedade como resultante das relações de produção e toma as relações de classe como objeto próprio da Sociologia.

Até hoje, as propostas defendidas por esses teóricos clássicos tem sido objeto de estudo de muitos outros cientistas sociais, pois apesar de ter ocorrido muitas mudanças no mundo depois deles, como por exemplo, guerras, revoluções, desenvolvimento da tecnologia da informação, e outros, às suas técnicas ainda continuam sendo aplicavéis na explicação da sociedade. Essas mudanças são o objeto de estudo das Ciências Sociais, trazendo questionamentos básicos sobre à nossa existência. Hoje, as Ciências Sociais beneficiam, mas também, mantém uma postura crítica da ideologia dominante, trazendo como conseqüências perseguições e incompreensões. Com isso, o conhecimento renova-se continuamente, não definindo-se como uma ciência definitiva, mas ela tem encontrado o seu lugar no quadro das ciências ao longo de um processo histórico.


Livro Utilizado
LEMOS FILHO, Arnaldo. “As Ciências Sociais e o Processo Histórico” IN: Marcelino, Nelson C. (Org) Introdução às Ciências Sociais. 3ª Ed., Campinas/SP, Papirus, 1989. p. 19 a 28.

Por Zevaldo Luiz