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sábado, 1 de dezembro de 2012

Padres da Paróquia de São Bartolomeu de Maragogipe


A história de Maragogipe está ligada ao culto de São Bartolomeu que data dos primórdios da sua vida, da época em que iniciava a sua formação, quando saía das trevas da vida selvagem para iniciar a sua marcha gloriosa na senda do progresso sob o signo o abençoado da Cruz Redentora.

A devoção dos maragogipanos para com o Glorioso Apóstolo vem também dos seus primeiros dias, do tempo em que era ainda uma fazenda pertencente ao luso Bartolomeu Gato, e nela, encontramos o primeiro vigário da Paróquia de São Bartolomeu. A lista abaixo retrata um pouco desta história, as datas ao lado do nome é o ano de início de sua vida enquanto evangelizador. Todavia, em diversos nomes nós não encontramos a data específica, pois somente há deduções. Caso o leitor possa estar contribuindo com a mudança desta lista, pois ainda sim, acreditamos que esteja faltando alguns nomes, será muitíssimo interessante. Agradecemos antecipadamente. (Leia mais sobre "O Culto de São Bartolomeu", escrito por Odilardo Uzeda Rodrigues)

  1. Manoel Coelho Gatto (1682)
  2. Manoel Lopes de Miranda (Falecido em 1728)
  3. Manoel Pereira de Souza (1728)
  4. Joaquim Gonçalves dos Santos
  5. João dos Santos
  6. Antônio Andrade da Silva
  7. Florêncio Alves
  8. Manoel José da Silva
  9. Francisco Ferreira Pacheco (1778)
  10. João Dário de Andrade 
  11. Manoel José da Silva Reis
  12. José Osório Francisco de Andrade (1806)
  13. Francisco A. Ferreira
  14. José Joaquim Andrade (1822)
  15. José da Mota Brandão
  16. Pedro Vieira dos Santos (1831)
  17. Pedro da Silva Freire
  18. Inácio Joaquim Pinto (1842)
  19. Fernando Meireles Pinto Barreto (1850)
  20. Antônio Florêncio de Abreu Contreiras (1860)
  21. José de Araújo Mato Grosso (1862)
  22. Leopoldo Gonçalves Costa
  23. João Pinto Barreto
  24. Inácio Aniceto de Souza
  25. Manoel Antônio de Oliveira (1891)
  26. Roberto da Costa Cerqueira
  27. Adolfo José da Costa Cerqueira (1902)
  28. Zacarias Mato Grosso (1929)
  29. Florêncio Sizínio Vieira (1929)
  30. Frei Julião Ortiz A. R. (1930)
  31. José Gomes Loureiro
  32. Florisvaldo José de Souza (1942)
  33. Carlos Antônio Fuertes Bacelar (1962)
  34. Francisco Muniz Barreto (1976)
  35. Carlos Rubens da Silva Araújo (1981)
  36. Roberto José Gonçalves (1985)
  37. Reginaldo Almeida Morais - pároco  (05 de maio de 1990) 
  38. Matheus de Lima Leal - vigário paroquial 

domingo, 25 de novembro de 2012

Documentário 'Casa de Santo' mostra história do Terreiro do Pinho, em Maragogipe



CASA DE SANTO

Documentário dirigido por Antonio Pastori mostra, pela primeira vez, 
terreiro fundado no século XVII em Maragojipe, no Recôncavo da Bahia

O documentário premiado Casa de Santo, dirigido por Antonio Pastori, leva ao telespectador a uma grandiosa e empolgante viagem pelos terreiros de candomblé de Maragojipe, no Recôncavo da Bahia. O diretor registra, pela primeira vez, o interior de terreiros que nunca haviam permitido a presença das câmeras e descobre indícios que podem mudar a forma como a História descreve a diáspora africana para o Brasil.

Um pouco de Casa de Santo
Poucas regiões brasileiras possuem a característica religiosa do Recôncavo da Bahia. A terra que circunda Baía de Todos os Santos e bate às portas do Sertão tem forte influência do Candomblé, religião trazida ao Brasil pelos africanos escravizados na época da colonização brasileira.

Casa de Santo, documentário dirigido por Antonio Pastori, traz como tema chave esta influência a partir dos rituais desses terreiros de Candomblé, preservados pelo povo negro que acredita na força de sua religião. As quatro nações da religiosidade de matriz africana estão retratadas com fidelidade e emoção. O filme percorre os principais terreiros das nações Jeje, Ketu e Angola e registra uma Festa de Caboclo, onde a raiz africana se mistura a influências indígenas e européias. Uma engenhosa tradução da diversidade étnica e cultural desta região da Bahia.

O filme tem cenas inéditas de rituais que nunca haviam sido mostradas de forma tão fiel, em uma reconstituição histórica. Terreiros que não haviam aberto as portas mesmo para os fotógrafos, deram licença para as câmeras deste documentário que mostra como os segmentos de cada nação são diferenciados pelo dialeto utilizado nos rituais, a liturgia e o toque dos atabaques.

É em Casa de Santo que Pastori documenta pela primeira vez, o Terreiro do Pinho, que segue os preceitos Jeje e foi fundado em 25 de dezembro de 1658 numa área que hoje pertence ao município de Maragojipe, a 133 km de Salvador. A equipe pôde registrar o lugar onde fica o que pode ser o terreiro mais antigo do Brasil, de linhagem Jeje – o que muda a forma de contar a história da diáspora africana.

“Na verdade, o Jeje é o povo Ewe Fon. Nós nos acostumamos a relacioná-los a como eles eram chamados na época, pela expressão Jeje, que na verdade significa ‘estrangeiro’. Era um povo altivo e conquistador, o que explica esta espécie de apelido”, explica Pastori.

O candomblé assume um importante papel na formação da identidade cultural, étnica e religiosa do Recôncavo, é fortemente marcado pelo ritmo e pela música que embala cada Orixá. Casa de Santo mostra esta essência só encontrada no Recôncavo, a sua origem derivada dos candomblés implantados lá desde muito tempo com a chegada dos escravos, e como isto influência na vida das pessoas de lá, transporta-nos a um ambiente mágico através dos toques inspiradores e contagiantes, da música africana.


Musicalidade
A cultura do lugar, basicamente negra misturada aos toques do atabaque e do bongô componentes da música africana e presentes em todo o decorrer do documentário, nos faz observar o quanto é essencial a relação entre música e imagem no cinema. No documentário, o relato da religiosidade da cidade de Maragojipe traz precisão e comunhão com esta musicalidade.

A equipe extraiu da cultura do povo de santo, a essência da sua religiosidade com elementos desse próprio meio com destaque para os instrumentos utilizados nas casas de santo o Rum, o Rumpi e o Le, atabaques sagrados e tocados por alabês.

A técnica de combinar os sons, é o que leva o espectador a “participar” dessa cultura, entender e compreender a sua linguagem. A dita casa de santo é onde está a mistura da natureza que se junta com a mistura de raças, onde o povo negro escravizado busca até hoje manter e viver fielmente a sua religião, o candomblé.


A cultura afro-brasileira está expressa também pela capoeira. “O Canto dos Escravos” aguça a sensibilidade do espectador diante das imagens mostradas no documentário. Ecoam as vozes benguelas em um arranjo com apenas voz e percussão. Além disso, contribui para o clima de proximidade evocado pelo canto, contrastando, assim, com a idéia de diversas manifestações culturais de matriz africana que constituem a raiz da cultura popular brasileira.

Em Casa de Santo, a trilha tem justamente esse papel, de nos aproximar daquela realidade, de passar um pouco da energia e da sensação de estar imerso em um ritual do candomblé, e cumpre maravilhosamente bem seu papel de fazer do cinema o resultado de um emaranhado de expressões artísticas, potencializando aquilo que talvez seja mais significativo em sua existência, nos tocar de alguma maneira.

É no terreiro, com luz iluminando a Mãe de Santo, que gira e dança. Que recebe e trabalha. É ali: os orixás se manifestam, a energia pulsa ao som dos tambores, a casa é de santo. Imperdível.

Documentário Completo
Agora que você leu, poderá assistir ao documentário completo e compartilhar essas informações para seus amigos.


FICHA TÉCNICA
Casa de Santo
Duração: 44 minutos
Fotografia: Aristides Jr. e Antonio Pastori Assistência de Produção: Jomar Lima
Roteiro, Pesquisa, Edição e Narração: Antonio Pastori
Pesquisa e Produção: Manoel Passos Pereira
Direção: Antonio Pastori

TV E Bahia
Domingo, 13 de maio
Horário 19 horas

Contatos para entrevista
(71) 9182 5063
ou mandando perguntas para
casadoverso@gmail.com

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Profecia Maia do ‘fim do mundo em 2012′ é desvendada por cientistas

Arqueólogos de diversos países se reuniram no Estado de Chiapas, uma área repleta de ruínas maias no sul do México, para discutir a teoria apocalíptica de que essa antiga civilização previra o fim do mundo em 2012.

A teoria, amplamente conhecida no país e contada aos visitantes tanto no México como na Guatemala, Belize e outras áreas onde os maias também se estabeleceram, teve sua origem no monumento nº 6 do sítio arqueológico de Tortuguero e em um ladrilho com hieróglifos localizado em Comalcalco, ambos centros cerimoniais em Tabasco, no sudeste do país.

O primeiro faz alusão a um evento místico que ocorreria no dia 21 de dezembro de 2012, durante o solstício do inverno, quando Bahlam Ajaw, um antigo governante do lugar, se encontra com Bolon Yokte´, um dos deuses que, na mitologia maia, participaram do início da era atual.

Até então, as mensagens gravadas em “estelas” – monumentos líticos, feitos em um único bloco de pedra, contendo inscrições sobre a história e a mitologia maias – eram interpretadas como uma profecia maia sobre o fim do mundo.


Entretanto, segundo o Instituto Nacional de Antropologia e História (Inah), uma revisão das estelas pré-hispânicas indica que, na verdade, nessa data de dezembro do ano que vem os maias esperavam simplesmente o regresso de Bolon Yokte´.

“(Os maias) nunca disseram que haveria uma grande tragédia ou o fim do mundo em 2012″, disse à BBC o pesquisador Rodrigo Liendo, do Instituto de Pesquisas Antropológicas da Universidade Autônoma do México (Unam).

“Essa visão apocalíptica é algo que nos caracteriza, ocidentais. Não é uma filosofia dos maias.”

Novas interpretações
Durante o encontro realizado em Palenque, que abriga uma das mais impressionantes ruínas maias de toda a região, o pesquisador Sven Gronemeyer, da Universidade australiana de Trobe, e sua colega Bárbara Macleod fizeram uma nova interpretação do 6º monumento de Tortuguero.

Para eles, os hieróglifos inscritos na estela se referem à culminação dos 13 baktunes, os ciclos com que os maias mediam o tempo. Cada um deles era composto por 400 anos.

“A medição do tempo dos maias era muito completa”, explica Gronemeyer. “Eles faziam referência a eventos no futuro e no passado, e há datas que são projetadas para centenas, milhares de anos no futuro”, afirma.

Para a jornalista Laura Castellanos, autora do livro 2012, Las Profecias del Fin del Mundo, o sucesso da teoria apocalíptica junto à cultura ocidental se deve a uma “onda milenarista” que, segundo ela, “antecipa catástrofes ou outros acontecimentos cada vez que se completam dez séculos”.

Para Castellanos, esse tipo de efeméride é reforçada por uma “crise ideológica, religiosa e social”.

Ela observa que as profecias sobre 2012 não têm somente uma “vertente catastrófica”, mas também uma linha que “prognostica o despertar da consciência e o renascimento de uma nova humanidade, mais equitativa”.

Crença no final
A asséptica explicação científica e histórica vai de encontro à crença popular no México, um país onde há quem procure adquirir os conhecimentos necessários para sobreviver com seu próprio cultivo de alimentos em caso de uma catástrofe mundial.

Muitos dos que vivem fora procuram regressar ao país porque sentem que precisam estar em casa em 2012, e há empresas que oferecem espaço em bunkeres subterrâneos, com todas as comodidades.

Afinal, o possível fim do mundo também é negócio. O próprio governo mexicano lançou uma campanha para promover o turismo no sudeste do país, onde estão localizados os sítios arqueológicos maias.

Muitos governos dos Estados onde existem ruínas da antiga civilização maia já estão registrando aumento na chegada de turistas.

BBC

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

FICHAMENTO: Inquisição, pacto com o demônio e ‘Magia’ africana em Lisboa no século XVIII


LAHON, Didier, Inquisição, pacto com o demônio e ‘Magia’ africana em Lisboa no século XVIII. TOPOI, v. 5, n. 8, jan-jun. 2004, pp. 9-70

FICHAMENTO

Por Zevaldo Sousa

Práticas mágicas na população negra da capital” portuguesa “e a possibilidade de que traços e crenças de origens africanas tivessem sobrevivido, adaptando-se e inserindo-se nas práticas locais”. (LAHON, p. 9, 2004). Essa é a principal questão, ao qual o autor irá dar grande relevância, pois, esta área não é muito conhecida e também não é muito estudada, por isso, procurar enxergar além do que é encontrado nos processos sobreviventes da inquisição portuguesa do século XVIII, é um desafio para o autor e para o conhecimento das práticas africanas em Lisboa e seus arredores. Cabe ressaltar que neste momento

a escravidão chegou ao seu apogeu em Portugal, especialmente em Lisboa, até 1761, um milhar de cativos africanos ou talvez mais, por ano, desembarca no cais da capital. Vêm diretamente da África ou do Brasil onde residiram alguns anos. Começa para eles um longo processo de adaptação, de reconstrução da identidade e do imaginário.” (IDEM, p.69)

Os arquivos da inquisição são fontes fundamentais para o estudo deste campo. Contudo o ângulo de estudo ao qual o autor se propõe é muito divergente dos escritos deixados pela Santa Inquisição Portuguesa, é necessário com isso, procurar encontrar significados além do que foi escrito pela inquisição, signos que estão por trás de um texto, e que estão inseridos num contexto que vai muito além dos limites impostos pela Igreja. Por isso, ao tentarmos examinar a composição da heterodoxia em Portugal. É preciso saber diversos fatos que ocorriam em Portugal e no contexto religioso da época, exemplo disso:

·      Quando um processo diz respeito a um negro ele perde o caráter de confrontação econômica ou política que, sobre fundo religioso, opõe regularmente a Inquisição aos cristãos novos e mouriscos que afirmam a crença dos seus antepassados às vezes até a morte.” (IDEM, p. 9).
·      Um negro, quer africano, quer natural da metrópole ou do Brasil, era tratado como um cristão velho: respeitou ou transgrediu as regras e dogmas da religião e da igreja.” (IDEM, p. 10). Por isso, os “atos que lhes são imputados são considerados como cometidos sob influencia do demônio com quem o acusado teria feito um pacto” (IDEM, p. 10).
·      No século XVII e XVIII, foi marcado pela ideologia do pacto diabólico, como diz José Pedro Paiva.

Vale dizer que “os inquisidores procuravam de maneira obsessiva o menor sinal do pacto com o diabo.” (IDEM, p. 10), e por isso, se tornou o “fio condutor da instrução do processo, o único filtro que permitia analisar a lógica dos acontecimentos e do comportamento do réu”. (IDEM, p. 10). A grande busca da inquisição era a confissão, por isso, praticava-se uma diversidade de meios, com os quais se poderia obtê-la, “na maioria dos casos, o acusado entrava no molde que lhe era imposto, quer por medo, tivesse sido ou não torturado, quer por compreender que era do seu interesse”. (IDEM, p. 11). Contudo, mesmo que o acusado tenha confessado seu “suposto crime”, ou seja, o pacto com o diabo, esses negros escravos ou forros, poderiam ou não, renegar Deus e a Igreja, mesmo assim, quando a renegação era admitida, eles procuravam uma desculpa. Até por que, estes já estavam acostumados a dobrarem-se à vontade de seus senhores, e por isso, quando os autos-de-fé eram anunciados, estes já se preparavam.
Mas, existem casos e casos, e por isso não devemos generalizar. Um exemplo disso é a existência casos em que o réu recusava confessar e sua renegação a Deus e à Igreja, como também de ter feito o pacto com o Demônio. Por isso devemos ter um cuidado especial, em torno desta questão que, ao que parece, eram pontos pertinentes e que não deviam ignorá-las. Contudo,

esse conhecimento mesmo que intuitivo, juntava-se uma espécie de cegueira ou surdez ideológica da parte dos inquisidores, que causa dificuldades aos investigadores para encontrar elementos abertamente africanos nas confissões... reduzindo-os a manifestações de ordem diabólica”. (IDEM, p. 12).

“Socorro, meu diabo”: o recuso dos humilhados

O caso de Catarina Maria foi um acontecimento que deixou “transparecer um fundo africano.” (IDEM, p. 13), pois, ele nos legou um aspecto interessante que foi a “prova que alguns escravos, dos dois sexos, eram portadores de conhecimentos tradicionais apesar de crianças na altura do cativeiro” (IDEM, p. 13), que “podia ser completada em cativeiro por um escravo mais antigo” (IDEM, p. 13). Com isso, percebemos que não havia uma desligação completa de sua região materna, eles estavam ligados a ela através dos laços culturais básicos que tinham aprendido enquanto criança, seja nascida em África, sejam nascidos na Metrópole ou Colônia, eles mantinham através de contatos com os mais velhos à sua origem africana.
O autor põe-se a relatar o caso de Florinda Maria e Catarina Maria, dando uma pincelada no caso de Josefa Maria, porém o mais interessante destes relatos é o contato de Catarina com o Diabo, e por isso, ela consegue fazer coisas inexplicáveis, como, por exemplo, a sua ida, por uma hora, aproximadamente, para a sua terra (Angola), onde encontrava a antiga criada da casa (Josefa).
Cabe ressaltar que “os diabos são freqüentemente pretos” (IDEM, p. 16), e que mesmo que este assumisse uma característica branca, tinha aparência de mulher, e isto têm uma significação simbólica, pois,

na cultura dos povos da região Congo-Angola, o branco é o símbolo da morte: os homens são pretos, os espíritos são brancos. Além disso... nesta região... o trafico de escravos era considerado como uma viagem para a morte, e que a terra dos brancos era identificada como a dos mortos” (IDEM, p. 16).

Por isso, não devemos admitir, como se fosse evidência, que estes escravos negros ou mulatos, “tinham interiorizado a cor preta como símbolo e representação do mal.” (IDEM, p. 16).
Outra ênfase, que merece destaque é a referência ao sabá no processo da escrava Maria de Jesus, como relatou Laura de Mello e Souza. Contudo,

“os inquisidores preocuparam-se muito mais de provar o pacto individual com o diabo, e as torpezas sexuais que isso implicava, do que associar a este o tema do sabá no qual o elemento da travessia aquática inscrevia-se tão pouco que ‘na literatura portuguesa, o sabá, o vôo e a metamorfose das bruxas são aspectos quase omissos.” (IDEM, p. 18)

Com isso, se seguirmos o pensamentos de Laura, veremos que o imaginário dos africanos seria mais permeável às concepções européias que a maioria dos réus portugueses. O medo e a coação estavam presentes neste contexto e por isso, devemos agir com cautela, no processo de análise das evidências. Ainda assim, “quando se fala de permeabilidade, é necessário pôr na balança as influências recíprocas entre a metrópole e a colônia” (IDEM, p. 19). As influências trançavam-se num tecido em que estavam imbricados os valores culturais lusos, brasileiros e africanos, formando-se uma “verdadeira rede de passadores de valores culturais, materiais e espirituais cuja existência percebe-se de maneira incontestável embora fugaz e rara nos documentos” (IDEM, p. 20), ou seja, uma “corrente de troca ligada ao comércio” e que “longe de viver num universo fechado, num único espaço geográfico e simbólico”, que revela uma evolução “no meio de um processo de mestiçagem cultural complexo no qual são ao mesmo tempo agentes e objetos”. (IDEM, p. 20).
Cabe salientar, que “são as testemunhas que revelam a extensão das redes de sociabilidade implicando um número considerável de pessoas das quais podemos duvidar da ortodoxia religiosa” (IDEM, p. 20).

Curandeiros e feiticeiros negros de Lisboa
Francisco Antônio, negro, gordo, aleijado e curandeiro

Entre todos os processos, o de Francisco Antônio é o exemplo da dificuldade para distinguir o que na prática de um ‘mágico’ africano diz respeito à tradição ocidental assimilada, embora conservando alguns traços da tradição de origem, tanto no ritual como na cura.” (IDEM, p. 21).

O fato é que o autor buscará com o exemplo de Francisco Antônio, mostrar que as testemunhas revelam realmente a extensão das redes de sociabilidade do “mágico” africano, mesmo que sejam somente pessoas de cor branca.
O exemplo de Bárbara Mana traz a tona esta rede e, sobretudo o medo das pessoas de se tratarem com estes indivíduos, que eram o “último recurso contra as enfermidades de origem maléfica quando a medicina e os exorcismos falhavam”. (IDEM, p. 21). Sendo assim, não podemos dizer que estas práticas ficavam às escuras, ou seja, em segredo, pois todas as pessoas sabiam e recomendavam quando não tinha mais meios de cura.
Este caso revela também, como o “mágico” africano procedia em seus rituais de cura, revelando também que “seguindo a expressão de P. Bordieu, comportava-se como um pequeno empresário independente.” (IDEM, p. 22). Não obstante a revelação dos rituais de cura exposta pelas testemunhas nos mostrará que as diversidades culturais apropriadas pelo curandeiro englobavam métodos e meios comparáveis com os dos curandeiros brancos da metrópole. Porém

as declarações das testemunhas revelam que o ritual e a cura diferenciavam-se em vários aspectos das práticas conhecidas no mundo cristão. A começar precisamente pela ausência de referências explícitas a qualquer símbolo ou objeto consagrado da religião católica, sempre utilizados pelos ‘mágicos’ da península.” (IDEM, p. 25).

Mesmo assim, essas características anômalas referidas “fazem pensar numa imbricação de valores religiosos africanos e de práticas e crenças ocidentais.” (IDEM, p. 26).

As bolsas de mandingas
José Francisco Perreira: escravo Mina e mandingueiro

Didier Lahon procurará neste momento falar das origens das bolsas de mandinga, de quem as utilizava, o que continha nelas, para que servia, às suas referências, e principalmente apresentar este assunto e esta bolsa que foi muito difundida em Lisboa e em outros lugares, e que representa - através dos processos e denúncias - uma parte muito pequena daquilo que realmente ocorreu em Portugal.

José Francisco Perreira: entre o terror e o sincretismo

Entre os processos pelo uso da bolsa de mandinga, um apresenta excepcional interesse por oferecer a enumeração detalhada de seu conteúdo e de ter salvaguardado várias páginas das orações e dos grafismos que a acompanhava. Trata-se mais precisamente de dois processos” (IDEM, p. 28).

o de José Francisco Pereira (acusado de uma falta bastante banal na época e o lugar: fabrico, uso e comércio de bolsas de mandinga compostas de orações), e o de José Francisco Pedroso (companheiro de Pereira e exercia um papel secundário, executando as ordens do primeiro. Nestes casos percebemos que

embora os interrogatórios fossem orientados essencialmente para conseguir dos réus o reconhecimento do seu pacto com o diabo, as confissões contêm alguns elementos que não parecem corresponder a um delírio, provocado pelo medo da tortura ou sob o seu efeito”. (IDEM, p. 280.)

Por isso,

a confissão de Francisco Pedroso, tal como a de Maria de Jesus, contém alguns detalhes completamente alheios ao esquema tradicional do sabá que, integrados a este, permitiram ao acusado quer aliviar a sua consciência quer satisfazer a espera dos inquisidores. Mas deste ‘delírio’ estes retiveram apenas o que esperavam ouvir e correspondia ao caráter das assembléias demoníacas e orgíacas.” (IDEM, p. 28).

O autor então transcorre, demonstrando alguns envolvidos, conteúdos da bolsa e principalmente a “distinção entre dois tipos de mandingas: aquela que trazia e uma outra, conhecida como mandinga do campo.” (IDEM, p. 29).
·      A primeira, era obra de Deus, pois era feita para preservar a vida e as pessoas que utilizavam-na poderiam entrar nas igrejas e cumprir seus deveres cristãos.
·      A segunda, necessitava da intercessão do demônio e os que a possuíam não poderiam entrar nas igrejas.
Para a Inquisição, a mandinga seja ela qual for é coisa do demônio e por isso eles vão até o fim numa série de questionamentos que revelam seus preconceitos. Uma dessas questões seria:

Como ele [José Francisco] podia pensar que a mandinga era uma coisa de Deus, ‘dado que via que só os pretos utilizavam, e com muita precaução e que assim a dita mandinga não podia parecer-lhe lícita e boa?” (IDEM, p. 29).

O autor então parte para a análise do objeto do delito. Percebendo que este “era o caso, de uma prática mágica que associava dois métodos de proteção que se reforçavam mutuamente: a bolsa, quer seja ou não de mandinga, e a carta de tocar”. (IDEM, p. 30). contudo nada nos permitir mostrar que a bolsa tinha um caráter especificamente africano, pois continha elementos considerados tipicamente europeus para a época, como orações portuguesas aos mais diversos santos católicos. Porém, a presença do símbolo de Salomão “introduz uma ambigüidade, se não uma dúvida” (IDEM, p. 31). Questionamentos sobre este símbolo são de especial destaque em pesquisa de Francisco Bethencourt e Leite de Vasconcelos. “É de resto significativo que os inquisidores não parecem ter-se preocupado com o teor das orações que não podiam ignorar. Foi sobre os ingredientes da bolsa... em outros processos, que os inquisidores orientaram a acusação.” (IDEM, p. 31).
O autor segue procurando saber dos espaços onde se realizavam as reuniões, concluindo que “pelos fatos descritos, nomeadamente o caráter coletivo das assembléias com a presença do diabo ou de espíritos malignos, levou a Inquisição a identificar estas reuniões como sabás.” (IDEM, p. 32). Contudo, cabe ressaltar que

“tanto os dados do processo como as equivalências prováveis ou as analogias relevantes entre os dois sistemas culturais de representações são deveras numerosas para que, satisfazendo o imaginário inquisitorial, as confissões dos réus não tenham entrado em contradição com a sua própria crença ou mesmo com os fatos” (IDEM, p. 32).

Pedra de Ara versus Aroun Ara: as equivalências simbólicas

O autor num primeiro momento irá mostrar que enquanto para os inquisidores o bode representava o mal, “ao diabo, à bruxaria e à lúxuria” (IDEM, p. 33), para os africanos ele teria outra conotação, perdendo “seu caráter negativo, ganhando freqüentemente o de força tutelar.” (IDEM, p. 33), ele é “o animal simbólico oferecido,... , ao orixá conhecido como Exú para os primeiros [Iorubas], Legba para os segundos [Fons].” (IDEM, p. 33). Sabemos que

“Exú/Legba foi assimilado ao diabo pelos missionários em razão destas características notoriamente fálicas e por ser às vezes representados com chifres no Daomé, mas provavelmente também porque um culto das encruzilhadas era-lhe rendido. No imaginário católico, simbolizou tudo que é maldade, perversão e abjeção.” (IDEM, p. 34).

Porém, na África Exu/Legba tomará outra particularidade. Características estas que conduzem aos adeptos a participarem de “cerimônias celebradas aos deuses, e em certas regiões, quando acompanhavam as de Xangô.” (IDEM, p. 35).

uma curiosa coincidência, de ordem lingüística e simbólica, poderia fazer de Xangô um ator presente no caso que nos preocupa, como em muitos outros em que a bolsa era condicionada ou utilizada por indivíduos oriundos da costa dos escravos.” (IDEM, p. 35).

E esta coincidência irá se refletir na pedra de altar também chamada de pedra de ara em português, e a pedra de corisco também chamada em iorubá de pedra-de-raio de Xangô ou Edoun Ara, ara significa ‘corpo’ tendo “correspondência, a equivalência simbólica entre a pedra de altar do culto católico e o sacrifício realizado sobre ela como sobre o altar consagrado a Xangô.” (IDEM, p. 35). Outro elemento de equivalência e de dupla interpretação é o olho-de-gato, também demonstrado de forma negativa para os cristãos, enquanto par os africanos tomam características diferentes dependendo da região.
O autor termina com o exame de um dos desenhos da bolsa, encontrando três principais características:
·      A primeira, diz respeito ao uso do sangue,
·      A segunda, a elementos da Paixão de Cristo,
·      E a terceira, a elementos alheios a Paixão.
Para o autor, a preservação de certos valores e crenças africanas, deveu-se principalmente, à proibição precoce do tráfico para Portugal e pelo caráter notadamente urbano da escravidão. E esses valores e crenças manifestaram-se principalmente no terreno da magia,

já alterados, misturando-se frequentemente, na forma de conteúdo, às tradições populares portuguesas, sem contudo abdicarem totalmente – de modo consciente ou não – da sua memória cultural. É por isso que, embora proibidas, as suas práticas nunca foram completamente secretas. Inscreviam-se numa rede de sociabilidade e de trocas complexas da qual participaram as diferentes castas de escravos e libertos mas igualmente os brancos das categorias sociais mais desfavorecidas.” (IDEM, p. 44).

Contudo, tanto brancos, quanto negros, compartilhavam de um mesmo sistema de pensamento, ao qual o regime do terror imposto pela Inquisição, levava a denunciar aquele com quem partilhavam abertamente, durante algum tempo, da mesma crença considerada heterodoxa.

“As confissões deixam aparecer as relações bastante conflituosas entre senhores e escravos e as dificuldades de sobreviver para os libertos. Porém, quando presos, desaparece a diferença entre eles e os cristãos velhos que caem nas garras da Inquisição por motivos idênticos. Para todos, magia e religião popular são dois sistemas de pensamentos simbólicos que não somente não se excluem mas se completam frequentemente, em especial quando se trata de lutar contra a doença, a desgraça, o inexplicável, quando o demônio invade o cotidiano e parece mais presente e mais acessível que Deus. (IDEM, p. 45).

Curandeiros e mandingueiros negros no sistema mágico religioso português

“Na medida me que as pessoas recorrem a Francisco Antônio para tratar uma doença orgânica, mas sobretudo a manifestação de uma desgraça de origem diabólica, diagnosticada como tal tanto pelo médico como pelo exorcista, os doentes introduzem uma nova figura no campo dos práticos da eficácia simbólica: o mágico e, neste caso preciso, o curandeiro. Este, embora reconhecido pela crença e a vox populi não tinha qualquer estatuto legítimo, ao inverso do médico e do padre.” (IDEM, p. 45-6).

Procurando logo em seguida, explicitar bem resumidamente as diferenças entre magia e religião e magia e milagre.

Da cura simbólica e do uso adequado do santo, do exorcista e do curandeiro

Percebe-se que o objetivo da população portuguesa era a cura, e não vai lhes interessar como. Um exemplo disso é que, mesmo sem ter conseguido curar-se com o médico e nem com o exorcista, eles continuam procurando a quem recorrer. Surge assim como meios dessa possível cura o curandeiro e os santos.
Quando Francisco Antônio (curandeiro) está preso nos cárceres da Inquisição, as pessoas do Bairro do Mocambo e arredores que se consultavam-no recorreram a

Fr. Antônio de Lumiar, Venerável falecido em 1746 no Convento da Serra Arrábida. Já considerado como santo quando ainda vivo, em razão dos numerosos prodígios, profecias e milagres realizados junto de pessoas de todas as condições sociais, o seu poder especializou-se de maneira característica, após a sua morte, na cura taumatúrgica.” (IDEM, p. 46).

Assim o autor procura traçar um perfil das pessoas que são atendidas e que foram curadas pelo Venerável, dizendo, através dos escritos de seu hagiógrafo, que, quando “comparadas com as categorias sociais que comparecem no processo de Francisco Antônio, as da hagiografia são, de modo geral, de um nível superior.” (IDEM, p. 47) e os “comportamentos de alguns devotos,... , revela um dos traços do pensamento religioso e mágico da época: uma fé superior nas forças tutelares que nos médicos e seus remédios.(IDEM, p. 47). E esta fé, superava os limites do simples toque, pois como sabemos o Venerável, mesmo depois de morto continuou operando milagres através por exemplo da terra – relíquia inesgotável – da sua sepultura. Que curava qualquer tipo de doença, é interessante ressaltar que ,tanto no caso de Francisco Antônio, quanto no do Venerável a

“maioria dos casos o doente conseguia uma melhoria rápida do seu estado, às vezes a cura era quase instantânea, às vezes necessitava de alguns dias. Raramente assistia-se a uma recaída, mas quando isto acontecia era atribuída a pouca fé do paciente.” (IDEM, p. 48).

Contudo o autor vai trazer a tona um aspecto que era predominante na época e que deve ser realçado aqui.

“Apresentar o milagre como o  recurso de última instância era sem dúvida fazer obra pedagógica mas era igualmente esquecer a lição da igreja sobre a origem divina, por conseguinte sobrenatural, da doença, pois da mesma maneira que as epidemias ou as catástrofes naturais – que afligiam o conjunto de uma população – eram apresentadas como um aviso e um castigo celestial sancionando um desregramento social, a doença individual também era percebida como um aviso ou um castigo de Deus. Conseqüentemente, era a Deus, diretamente ou através os seus santos, que o homem devia dirigir-se m primeiro lugar para curar a sua alma e, como reflexo desta, o seu corpo em perdição, corpo que deve se esforçar para tratar aproveitando-se de todos os meios lícitos.” (IDEM, p. 48-9).

Contudo

nenhum dos operadores culturais, encarregados de ‘fazer compreender ao paciente que a sua perturbação é provocada por uma ruptura das suas relações com o sagrado e que só ela pode restabelecê-las’, conseguiu mobilizar o seu potencial emocional que lhe permite superar o mal.” (IDEM, p. 50)

Cabe ressaltar que o mágico curandeiro ou mandingueiro africano estava inserido dentro de um sistema simbólico mágico-religioso estranho ao seu. E que apesar de parecer paradoxal, revela-se através dos mecanismos utilizados pela sutilezas teológicas que foram os mesmos que proporcionaram a inserção destes, no sistema, com o uso e abuso das causas e efeitos produzidos pelo diabo na terra.

Diabo familiar contra Diabo do Outro

“Estrangeiro, Francisco Antonio o era, social, territorialmente e culturalmente.” (IDEM, p. 53) Por isso, as pessoas o procuravam, sem conhecê-los, as pessoas pensavam que deveriam eles conhecer poderes mágicos diferentes, quando não superiores, pois apesar deles serem batizados, as pessoas ainda consideravam sempre suspeitos de conservar laços com as forças diabólicas, que os brancos não conheciam ou esqueceram.

domingo, 14 de agosto de 2011

LIVRO: Boa Morte - Das memórias de filhinha às Litogravuras de Maragogipe, por Sebastião Heber Vieira Costa


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Em seu Livro BOA MORTE - Das memórias de filhinhas às Litogravuras de Maragogipe, Sebastião Heber Vieira Costa explica como se deu uma das Festas mais populares da Bahia, no município de Maragogipe. Leia um texto-resumo que fiz baseado nos escritos de Sebastião Costa.

Na Terra de São Bartolomeu e da Boa Morte, na Igreja da Matriz de São Bartolomeu de Maragogipe há um altar com a imagem dessa devoção, isto é Maria está deitada num esquife mortuário.

A Irmandade da Boa Morte se constituíu de mulheres negras, escravas alforriadas, o que fez com que, pouco a pouco, as Filhas de Maria ocupassem esses lugares na Irmandade.

E a posse de determinados objetos em mãos de descendentes das antigas integrantes da Boa Morte, confirmam a antiga presença daquela irmandade em Maragogipe. Por outro lado, o “achamento” dessas duas gravuras do século XIX, confirma a existência pregressa da Irmandade no local.

O Pe. Sadoc foi o primeiro a falar com Sebastião Costa sobre importância histórica de Maragogipe, da bela e grandiosa igreja que tem como patrono São Bartolomeu, pois a cada 24 de agosto ele é convidado para pregar no dia daquele santo.

A convite do Pe. Mateus de Lima Leal, vigário paroquial, Sebastião Costa foi chamado para passar o carnaval deste ano. "Fui com minha mãe e ficamos hospedados na casa paroquial que é uma construção de
1875. E fiquei encantado com a cidade. Lá tudo cheira à história." diz Sebastião Costa.

A paróquia indicou o estudante de pedagogia, Sócrates Fernandes de Araújo, que é restaurador de imagens antigas e que conhece bem os meandros da história da cidade. A igreja matriz foi construída de 1630 a 1753. Aliás, o nome do patrono foi dado em homenagem ao proprietário da sesmaria, Bartolomeu Gato. A
cidade foi elevada à categoria de Vila em 16/06/1724 e recebeu o título de Patriótica Cidade em 08/03/1860. A Santa Casa de Misericórdia é de 1850. 

A cidade foi sede de muitas Irmandades e há algumas que estão ainda em pleno funcionamento. A Irmandade do Santíssimo Sacramento foi fundada em 31/01/1700 e ainda está atuante. A Irmandade de Nossa Senhora da Conceição é de 1704. A de S. Bartolomeu é de 1851. A das Santas Almas Benditas é de 1667 (esses dados estão no Arquivo Público da Cidade). 

A cidade é ainda enriquecida por duas Filarmônicas: há a Terpsícore Popular, fundada em 13/08/1880 – na mitologia grega, Terpsícore é a musa da poesia lírica, da dança e dos coros, e ela toca a lira para animar a alma. Também há a antiga Filarmônica Menimosina – na mitologia grega é a deusa da memória – e teve como fundador o professor Teodoro Borges da Silva.

Também o estudante-pesquisador, Sócrates, apresentou um quadro, uma litogravura, que precisava ser restaurado, com uma estampa referente a Nossa Senhora da Boa Morte, com os dizeres: ”Nossa Senhora da Boa Morte que se venera na cidade de Maragogipe - 1879”, e que pertence a Conceição Maria Cardoso. Há ainda uma outra gravura que pertence a Luis Cláudio Nunes Laranjeiras, que herdou do avô, Manuel Lucas Laranjeiras, conhecido como Bibi. Ambas foram restauradas e estão sendo apresentadas nesse trabalho.



O autor descreve que "Ambas as gravuras foram restauradas pela Oficina AM Restauro, a cargo da Drª Ana Maria Villar e Natalie Roth, auxiliadas por Igor Souza e Larissa Barros. A primeira gravura foi feita pela técnica da litogravura e tem como autor Jourian e é datada de 1879. Na base do trabalho há uma inscrição: Lith a vapor (que também poderia ser: a vaper ou, a vapir – refere-se isso à técnica?) de Jourian. Também se vê dois números: 238 e 316. Como hipótese, pode-se perguntar se eles se referem à quantidade de litogravuras que foram feitas. A segunda tem na parte inferior um titulo em italiano: Sepolcro di Maria e a técnica é a de reprodução serigráfica sobre papel, não tem data, mas contém um número (5005), que, certamente indica a quantidade de cópias reproduzidas. A restauração foi feita por Natalie Roth e auxiliada por Igor Souza." Sebastião Costa

O professor Sócrates, jovem pesquisador deu informações preciosas sobre o desaparecimento dessa devoção naquela cidade. O Pe. Manoel de Oliveira Lopes, que se tornou Bispo, em 1887 fundou a Pia União das Filhas de Maria. Este foi substituído pelo Cônego Adolfo José da Costa Cerqueira, falecido em 11/04/1929. Ele era um homem que tinha fama de santidade, usava cilício e todos os seus irmãos e irmãs se tornaram padres e freiras.

Mas ele repudiava o candomblé. O contexto histórico da Igreja Católica, na época, era o do Ultramontanismo, movimento da segunda metade do século XIX que refletia a tendência centralizadora do Catolicismo, com tendência a controlar com mão forte, sob a égide dela (Papa, Bispos e Padres/Vigários) todos os movimentos. As Irmandades sempre representaram uma tendência leiga, de independência e sempre houve conflitos entre “os administradores oficiais do sagrado” (HOONAERT, 2001,p.39) com elas.

DO BLOG: Espero ter contribuído para que você leia esse livro maravilhoso sobre a História da Boa Morte no Recôncavo Baiano, em especial, em Maragogipe.

Para quem ficou interessado, o IPAC disponibilizou gratuitamente outro livro BOA MORTE - Clique AQUI para baixar.



domingo, 24 de julho de 2011

2 Processos Inquisitoriais com moradores de Maragogipe na Torre do Tombo

Pesquisando no Arquivo Nacional da Torre do Tombo descobri 2 Processos Inquisitoriais com moradores de Maragogipe, do século XVII e XVIII. Mesmo sem registro, deu para visualizar os documentos, mas é interessante que você se registre no site.

Veja os Processos:

PROCESSO 1: MANUEL LEME DA SILVA

NÍVEL DE DESCRIÇÃO: Documento composto
CÓDIGO DE REFERÊNCIA: PT/TT/TSO-IL/028/10018
DATAS DE PRODUÇÃO: 1694-12-11 a 1701-07-19
DIMENSÃO E SUPORTE: 111 fl.; papel
ÂMBITO E CONTEÚDO:
Idade: 30 anos
Crime/Acusação: bigamia
Cargos, funções, actividades: oleiro, vaqueiro
Naturalidade: ilha de Porto Santo, bispado do Funchal
Morada: freguesia de São Bartolomeu de Maragogipe, arcebispado da Baía de Todos-os-Santos, Brasil
Pai: Bartolomeu de Cabreira
Mãe: Gregória da Silva
Estado civil: casado
Cônjuge: Catarina de Sousa
Data da prisão: 27/10/1699
Sentença: auto-de-fé de 11/08/1700. Abjuração de leve, cárcere a arbítrio dos inquisidores, instrução na fé católica, açoitado publicamente, degredo para as galés, onde serviria ao remo, sem soldo, por sete anos, penitências espirituais, pagamento de custas.
O réu casou segunda vez com Maria Rodrigues, terceira vez com Catarina Martins e, já no Brasil, casou quarta vez com Luzia Ferreira.
Por despacho de 17/06/1701, foi-lhe comutada a pena de degredo nas galés para Castro Marim.

PROCESSO 2: JOÃO PINTO COELHO

NÍVEL DE DESCRIÇÃO: Documento composto
CÓDIGO DE REFERÊNCIA: PT/TT/TSO-IL/028/08573
DATAS DE PRODUÇÃO: 1727-07-03 a 1729-03-30
DIMENSÃO E SUPORTE: 84 fl.; papel
ÂMBITO E CONTEÚDO:
Estatuto social: cristão-velho
Idade: 30 anos
Crime/Acusação: abuso do sacramento da Ordem
Cargos, funções, actividades: clérigo "in minoribus", mestre de capelas
Naturalidade: Porto
Morada: Maragogipe, arcebispado da Baía, Brasil
Pai: Manuel Pinto Coelho, procurador de causas
Mãe: Isabel Francisca
Estado civil: solteiro
Data da prisão: 03/07/1727
Sentença: auto-de-fé de 25/07/1728. Abjuração de leve, inabilitado para ser promovido a qualquer Ordem, ser açoitado publicamente, degredo para as galés, por oito anos, instrução na fé católica, penitências espirituais, pagamento de custas.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 8573

Museu Virtual O Santo Sepulcro, uma visitação sem sair de casa

Hoje, resolvi incrementar este blog que era somente regional, mas agora começarei a tratar de outros temas relevantes à nossa vida.

Sempre quis visitar O Santo Sepulcro, mas ainda não tive a oportunidade de ir pessoalmente a Jerusalém. Pesquisando sobre museus virtuais, descobri o Museu Virtual The Holy Sepulchre, que utiliza a fotografia e faz com que o usuário se sinta dentro dos espaços selecionados, apenas com o clique do mouse.

Clique na imagem para ir ao Museu
Na visitação você tem informações sobre o local, em inglês (use Google Tradutor se precisar).

Visite e deixe o seu comentário aqui

sábado, 10 de abril de 2010

Orun-aiyê: imagens e (re) leituras da cultura africana por meio da mitologia afro-brasileira de José Carlos Limeira e Landê Onawale

Por: Leandro Alves de Araújo

 “Cada ancião que morre na África é uma biblioteca que se perde.”
 (Hampate Bá, 1977).2
O presente trabalho insere-se na discussão sobre a essencial questão dos estudos afro-brasileiros na atualidade: quais as imagens da poética negra hoje? Quais os seus construtos contemporâneos? Quem são seus autores e autoras? E de qual cotidiano falariam? Sendo assim, tal comunicação, por meio da pesquisa e estudo de certas obras literárias que não pertencem ao cânone, e que ainda não estão incluídas no currículo escolar, tenta estabelecer uma relação com outras linguagens e figurações de sentidos revisitados em memórias, oralidade, tradições, militância e ancestralidade que se expressem em torno de aspectos étnicos e identitários.

Os anos cinqüenta do Século XX retratou, no campo da pesquisa acadêmica, o nascimento de um período especial, no que diz respeito à construção de estudos voltados para a identidade e valorização da cultura negra, principalmente dirigida às questões afro-brasileiras. Desenvolveu-se a historiografia que privilegiava a valorização dos ritos, o resgate das tradições africanas, a oralidade, as memórias e as influências do negro nos costumes brasileiros. As novas temáticas transcenderam as questões que durante muito tempo caracterizaram as concepções sobre temas afro-brasileiros, voltados exclusivamente para a construção da sociedade escravista. 

Os estudos sistematizados sobre a cultura africana, suas formas de organização social e a chegada desses costumes ao cotidiano brasileiro, revelaram a possibilidade de novas temáticas e formas de expressão para o resgate da cultura negra brasileira. A literatura brasileira debruçou-se nesta oportunidade, nascendo na Bahia uma significativa produção literária voltada para as questões e situações dos grupos raciais de origem africana no Brasil, os afro-descendentes brasileiros ou afro-brasileiros. Neste contexto nasce a sustentável produção de autores baianos dedicados ao tema em questão, tendo, como principais expoentes, nomes como Jônatas Conceição da Silva, José Carlos Limeira, Landê Onawale, Hamilton Borges, Edson Conceição e Nelson Maca. 
  
        “É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é mais desenvolvida, mas também a ligação entre o homem e a Palavra é mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado à palavra que profere. Está
        comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo que ele é. A própria coesão da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra.” (Hampate Bá, 1977). 
Conjecturar a respeito de tradições na história africana significa, a priori, falar de tradição oral. Para Hampaté nenhuma tentativa de penetrar na história e na alma dos povos africanos é válida, se não se apóia nessa herança de conhecimentos de tal espécie, transmitida pacientemente de boca a ouvido e de mestre a discípulo através dos tempos.

As formas de expressão se consolidaram como elementos característicos das resistências do negro no Brasil. A oralidade foi à primeira forma e a mais representativa ação de resistência do negro no Brasil, numa sociedade na qual lhe tomou o direito de ter conhecimento dos processos de alfabetização. Somente após a crise do modelo escravista, o negro, mesmo de forma restrita e por “viagens solitárias”, teve acesso à expressão escrita. A literatura negra brasileira passou a desempenhar a função de resistência, balanceando a conservação da cultura oral sobre a forma da palavra escrita. A literatura afro-brasileira no Brasil, principalmente a desenvolvida por autores soteropolitanos, dedicou-se ao ideal de igualdade de gêneros e respeito na expressão das suas particularidades religiosas, ultrapassando os espaços do público e privado; os espaços da casa e da rua. A literatura de Landê Onawale se configura como um dos principais exemplos dessa contínua literatura afro-brasileira na contemporaneidade, marcada como expressão dissonante e metafórica do mundo, constituída por sentimento ávidos que corroboram na captação de relatos, fragmentos e imagens do cotidiano desse mundo negro.

A virada nos estudos referentes aos relatos da importância memorial do negro na formação da cultura brasileira iniciou-se com o trabalho de Pierre Verger, fotógrafo e posteriormente escritor de obras voltadas para o rigor antropológico.  Na década de 30, o francês Pierre Verger passou dedicar a sua vida ao ofício da fotografia, viajando por diferentes partes do mundo.  A fase mais significativa do trabalho de Verger deu-se com a sua chegada ao Brasil, especificamente na Bahia, no ano de 1949, enveredando-se por um intenso estudo, com a proposta de retratar a cultura e os ritos afros, existentes no Brasil.

Os estudos de Pierre Fatumbi Verger iniciaram-se em 1948, por meio de inúmeras viagens à África Ocidental, em terras Iorubas, durante dezessete anos. A profundidade dos estudos de Verger se mostra com a sua inserção religiosa aos cultos africanos. Tornou-se babalaô em Kêtu no ano de 1950, recebendo de seu mestre Oluwo, o nome de Fatumbi, “aquele que nasceu de novo (pela graça de Ifá)”. O trabalho de Pierre Fatumbi Verger se dedicou ao conhecimento dos fundamentos históricos, mitológicos, a descrição de rituais e explicação da profunda afinidade cultural entre a África, na região do Golfo de Benin, com o Brasil, referenciando a cidade de Salvador na Bahia. 3

A obra de Verger tem como objeto de estudo e investigação relatar o culto dos orixás, deuses dos Iorubas em seus lugares de origem, na África, principalmente na Nigéria e no Novo Mundo, no Brasil e nas Antilhas. A pesquisa foi desenvolvida pelas observações que relatavam à trajetória de grupos negros arrebatados do seu meio natural e trazidos para a América, para serem a mão-de-obra explorada do sistema escravista. 4 A obra “Os Orixás”, narra com profundidade aspectos esquecidos referentes à cultura negra no cenário acadêmico. A cosmologia vergeriana dedica-se aos ritos de iniciação africana e afro-brasileira, as cerimônias, suas memórias ancestrais, aos princípios da hierarquia e perpetuação do conhecimento mediante a oralidade, bem como suas construções mitológicas e representações religiosas (Exu, Ogum, Oxossi, Ossain, Orunmilá, Oranian, Iansã, Oxum, Obá, Oxumaré, Obaluaê, Nana, Xangô, Yemanjá e Oxalá.

Os estudos históricos, sociológicos e principalmente antropológicos se aprofundaram na questão voltada para as identidades da cultura africana. Pesquisas desenvolvidas em períodos recentes acentuaram a proximidade entre Brasil e África, ressaltando a semelhança entre “costumes tradicionais dos Iorubas, (independente de religião) e as cerimônias de Candomblés Kêtu no Brasil”. 5 Observaram-se as semelhanças entre antigos hábitos, o comportamento dos adeptos das religiões de matriz africana e valores religiosos presentes tanto na África como no Brasil, a exemplo dos sentimentos de temor, profundo respeito e cuidado com a sua cultura.  

A cultura negra no Brasil, em períodos contemporâneos foi marcada pela incessante busca de reconhecimento de valores étnicos e demonstração de plena consciência das relações sociais que envolvem o negro na sociedade brasileira. A cultura negra passa a cada dia por um processo de reconhecimento conquistado por grupos comprometidos com reflexões cada vez mais amplas. Pode-se citar em relação ao reconhecimento social que:
         “Com certeza, se é verdade que qualquer atividade humana possa ser cultura, dela não o é necessariamente ou não é ainda forçosamente reconhecida como tal. Para que haja verdadeiramente cultura, não basta ser autor de práticas sociais; é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza”. 6
As reflexões do cientista social francês, Michel Certeau contribui ao entendimento de como se poderia tornar realidade à concretização e reconhecimento da cultura negra. A formação de uma cultura negra, o seu reconhecimento, não se resume na autoria de práticas sociais e a produção de bens culturais (autores de livros, depoimentos ou obras de arte). O reconhecimento da cultura negra passa por um processo de reconhecimento da sua riqueza, os próprios grupos raciais brasileiros reconhecerem a necessidade de preservação da sua cultura e desenvolver a partir desta ideologia a sua militância e atuação em diversos campos do conhecimento.

Os anos 70 representaram no Brasil, o momento de nascimento de uma consciência voltada para a reflexão do negro na sociedade brasileira. Nasce neste período uma literatura engajada, consciente, motivada pelo ideal de independência dos países africanos, que passariam a ter como língua oficial o português, ampliando as relações entre brasileiros e o continente africano. 7 O outro exemplo de inovação ocorrido nos anos 70 foi o nascimento dos Cadernos Negros, pioneiro nos movimentos de militância, consciência política, visibilidade e oportunidade de trabalho para autores negros brasileiros. 8

A década de 70 marcou o início dos escritores negros que proclamaram a sua africanidade. A cultura afro-brasileira passou a não se pautar nos modelos de cultura dominante, de uma sociedade que foi norteada pela ideologia do branqueamento. 9 Os autores desse período expressaram por meio da literatura a afirmação cultural dos grupos afro-brasileiros. Constituiu-se o ideal no qual, refletia-se “não somente o pão de comer, mas o pão de ser”. 10

O contexto abordado criou metáforas para falar do negro no cenário econômico e social, refletindo sobre longa data, quando se iniciou o processo de coisificação do escravo quando “A Princesa esqueceu-se de assinar nossas carteiras de trabalho”. 11 Relataram-se dados importantes sobre a escravidão e a situação dos escravizados, mesmo após o processo de abolição, em 1888. Tal período foi acentuadamente marcado pela retomada das idéias e, sobretudo das discussões a cerca da identidade ancestral de raízes africanas. 

Eu sou a África
uma bandeira negra
 a tremular no espaço
Eu sou a África
o esteio do Universo
e a confiança no porvir
Eu sou a terra virgem
que todos beijarão amanhã
  Eu sou a África
uma bandeira a tremular no espaço12 

A África passava a espelhar a origem, o troco ancestral que com suas profundas raízes, reafirmavam não apenas um local, mas uma história que se tentou apagar por inúmeras maneiras. A bandeira que balança os versos de Bésilva é mesma que aponta para uma identidade que foi esquecida durante séculos, como marca de uma sociedade escravista que excluiu o negro por pelo menos três séculos, de atuar efetivamente na construção da identidade brasileira. A poesia negra do Brasil contemporâneo resgatou o orgulho e as origens africanas, como forma de se definir o seu lugar de fala frente aos demais grupos raciais que constituem o povo brasileiro.

Os relatos sobre a efetivação de uma negritude ganham uma amplitude cada vez maior, principalmente pelo comprometimento de um grupo cada vez mais extenso, engajados nas lutas sociais pelo o direito de oportunidades. A África torna-se tema constante e Oliveira Silveira canta:
      Tuas tetas - vulcão,
       leite-lava,  unhas e dentes - tuas feras,
  tuas veias Zambeze, Níger, Congo,
      cascatas - gargalhadas.
      Tua savana - ventre
       e a selva - cabelos, pentelhos.
  Bem ai, mãe, eu quero me repor dentro de ti.13

Se consolida por Oliveira Silveira a proposta de uma narrativa, de uma poesia enaltecedora, resgatando a África como um local de notável exuberância natural. Inicia-se uma poesia descritiva voltada para relatar a beleza e riqueza de um continente que, com o passar dos séculos, torna-se problemático, devido às ações do colonizador. A África, durante a década de 70, a descolonização e as lutas pela independência, na concepção de Oliveira Silveira, resgataria a formosura da sua beleza original. A beleza do seu povo passa a ser valorizada e comparada ao belo continente, com olhos e dentes fortes, como a terra que resistiu ao processo de exploração.  

A identidade afro-brasileira é por vezes revisitada através da poética negra; realçando características culturais especificamente africanas como os instrumentos de percussão, os batuques, tambores e a ginga. Mas é, sobretudo, através dos ritos ancestrais que permeiam a religião do candomblé (culto de matriz africana), que os mesmos mantiveram viva e dinâmica a sua memória, concomitantemente a sua ligação com a África.

Podemos perceber tal ligação por meio do fragmento, reproduzido aqui, do poema Kalunga de Landê Onawale14:

A memória do mar me atravessa...
Está cravada em mim
Como os ferros da grande árvore inesquecível,
São meus poros,
São as voltas da muzenza contornando os cemitérios
- e, é  claro, são mistérios. 
Balança o mar...balança numa jinga interminável
Das florestas de Matamba aos serrados dos brasis.
Balança o mar...balança numa dança incansável com o futuro
(exercício da destreza necessária). 
Balança o mar...balança...
É o colo de Kayala que me embala,
São os braços de Kyanda
- onde entrego minhas forças para sair tão renovado! 

No poema citado, o poeta Landê Onawale nos apresenta, por meio das lembranças que compõem a sua memória, fotografias do seu universo sagrado - talvez mítico – comprometido com as vivências, representações e imagens que se dissipam em palavras e formam no mar um espectro cultural e identitário de um povo.

Pertence ao saudoso poeta Jônatas Conceição, a “faca afiada”, que instiga por uma militância literária e que penetra as entranhas de uma sociedade ainda racista, abrindo e demarcando espaços por uma proposta de equidade de direitos ao seu povo preto.

Segundo o poeta Jônatas Conceição (Vozes Quilombolas, 2006) "Forjado não mais para guerrear com armas bélicas, o quilombo
contemporâneo e urbano cumpre a função de, a partir de referenciais
históricos, promover um debate permanente no seio da sociedade”.

O mesmo vai pensar o conceito de Quilombo na contemporaneidade a partir de um debate discursivo travado nos mais diversos espaços da sociedade.

É de fato, tênue, a linha que separa os espaços utilizados e/ou reinventado pelos sujeitos em questão. Até que ponto a literatura negra é ficção ou a ficcionalização destes autores/sujeitos não seria real? Como pode estar completamente comprometida e vinculada a construção da identidade, nessa trama de relações subjetivas?

Trazendo tal discussão para a luz dos estudos da identidade em Stuart Hall (Da Diáspora, Identidade e Mediações Culturais/2003), o mesmo vai partir de um questionamento a cerca de que tipo de momento é este para se colocar a questão da identidade negra? Para o autor, esses momentos são sempre conjunturais. Eles têm sua especificidade histórica; e embora sempre exibam semelhanças e continuidades com outros momentos, eles nunca são os mesmos momentos.

A reinvenção desses sujeitos - poetas negros e negras - se transmite nas multiplicidades de “artimanhas” ou habilidades em dar um novo sentido, as suas práticas, as suas ações, e por fim a sua história de vida. São homens e mulheres que emprestam as suas sensibilidades para transmitirem os anseios, queixas e toda a sorte de (des) assistência que as periferias sociais da Bahia e do Brasil se encontram. São poemas que falam de verdades, da dor e do drama cotidiano a que são acometidos. Falam também das delícias e peculiaridades desses lugares. Mas há o poeta, também, que crê na força alentadora e contagiante dos seus versos para desalienar seus semelhantes do conformismo, do complexo de inferioridade, da negação de si próprio.

A liberdade e sua discussão tornam-se temas de constantes reflexões, na poesia afro-brasileira. Valorizou-se como expressão metafórica das transformações que estavam ocorrendo no Brasil e no mundo, descrevendo-se no exemplo representativo, que sintetiza a liberdade na poesia afro-brasileira como: 

Quando você  acreditar
 Que é livre e pode
     Empreender o vôo da realidade
 Procure não pensar
 Nas correntes da consciência.15

Os relatos de José Carlos Limeira revelam uma dualidade de relações que interliga dois continentes; Brasil e África. De um lado, na África reflete-se sobre as amarras da escravidão ainda existentes. As amarras africanas iniciam-se com o período da colonização, no decorrer do Século XV, se estendendo aos dias atuais, movidos pelas violentas ditaduras e regimes opressores. As semelhanças poéticas entre América e África declaram que ao longo dos anos 70 e iniciar dos anos 80, ambos os continentes estão marcados por violentas ditaduras que suprimem as liberdades individuais e coletivas.

O ideal de liberdade simboliza o vôo, a aspiração de um sonho de liberdade que se deve a todo instante resgatar os ideais políticos e sociais, com o intuito de transformar a sociedade vigente no país; transformar as heranças da escravidão e inserir o negro com oportunidades iguais. A liberdade seria a ruptura com o passado escravista que aplicou sérias penas e castigos aos grupos marginalizados afro-brasileiros, ao longo da história brasileira, por pelo menos três Séculos de escravidão efetiva, perpetuando as suas heranças, ao Brasil do tempo presente. É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.

É bastante relevante discutir sobre tais sistemas, para que possamos avaliar os diversos meios de exclusão legitimados por discursos ideológicos oriundos de uma sociedade branca, racista, eurocentrica e homofóbica. Não precisa grandes análises para perceber que os negros são minorias na tradição literária do país. Quando os mesmos são retratados, são introjetados em papéis cômicos, de pouca relevância ou ainda, o que julgo pior, caricaturados de forma inferiorizantes. É fácil perceber que os autores e autoras negras no Brasil, travam uma luta desigual para fazerem ecoar as suas vozes no cenário literário e social.

A poética negra contemporânea na Bahia tem um compromisso com a valorização da cultura negra e com os valores que corroboram para afirmação das identidades negras que assumem em tempos atuais, diversas formas de expressões literárias, passando pela estética da poesia, da prosa, bem como da relação entre música e poesia através do Hip Hop. A expressão escrita e a sua relação com a oralidade negra, é uma forma de registro e resistência da cultura negra, em diferentes momentos históricos.

Destarte, percebe-se que a poética negra contemporânea situa-se no entre – lugar da realidade e da ficção. Não se trata da arte pela arte, nem de escritos evasivos ou ainda manuais de conduta cívica e moral. A literatura negra é uma arma pungente, viva, latente e denunciadora das “faltas” e das irreparações sofridas pelo povo negro. A poesia negra ficcionaliza o cotidiano desses sujeitos, aproximando-os da tênue linha divisória entre o real e o irreal. Trata-se de uma escrita comprometida com a sua verdade, a sua lógica, as suas ideologias. Não se pode fazer poesia negra de fora do gueto. Mesmo sendo preto. A literatura negra fala de um lugar específico, pois nasce em um lugar estratégico. Ainda que a mesma se propague por outros espaços – e, é essa a proposta. 

Referências
ALMEIDA, Maria Inez Couto de. Cultura Iorubá: costumes e tradições.  Rio de Janeiro: Dialogarts, 2006.
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
CERTEAU, Michel. A cultura no plural. São Paulo: Papirus, 1995.
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