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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Cultura e Gastronomia Brasileira é tema da Feira de Conhecimentos do CESF



Amanhã, dia 26 de setembro, acontecerá a Feira de Conhecimentos no Centro Educacional "Simões Filho" que discutirá sobre a cultura e a gastronomia brasileira em todos os sentidos. 

Os estudantes prepararam seus stands como muito zelo e dedicação e aguardam ansiosamente pelos visitantes.

Como degustação, postamos um aperitivo do que está esperando por você:
STAND MARAGOGIPE (Alunos do 1º ao 5º ano)
STAND REGIÃO CENTRO OESTE (Alunos do 6º ano)
STAND REGIÃO NORDESTE (Alunos do 7º ano)
STAND REGIÃO SUDESTE (Alunos do 8º ano)
STAND REGIÃO NORTE (Alunos do 9º ano)
STAND REGIÃO SUL (Alunos do 1º e 2º EM)
STAND INFLUÊNCIAS ESTRANGEIRAS (Alunos do 3º ano)

Confira a programação:
Manhã
08h - Hasteamento da Bandeira e Apresentação da FANCESF
10h - Apresentação dos Stands

Tarde:
14h - Apresentação dos Stands

domingo, 26 de maio de 2013

Documentos antigos de Maragogipe podem ser encontrados na Hemeroteca Digital Brasileira

Sabemos o quanto é difícil a busca de documentos originais (fontes) que revelem uma pouco da História de Maragogipe,  todavia em uma rápida pesquisa no site da Biblioteca Nacional encontramos os serviços da Hemeroteca Digital Brasileira e nela, encontramos quase 3000 citações de Maragogipe (com o grafema G) e seus distritos, em documentos do século XVII até o século XX. Vale a pena conferir.

Clique em HEMEROTECA DIGITAL BRASILEIRA para entrar no site

Vale lembrar que você deve pesquisar não somente em arquivos da Bahia, mas de outros estados e em nível nacional e internacional. Além do espaço, você pode escolher a temporalidade, o periódico e outras funcionalidades. Esta é uma ótima fonte para você que é pesquisador da História de Maragogipe e de outras localidades.



Leia a introdução da própria instituição BN:
A Fundação Biblioteca Nacional oferece aos seus usuários a HEMEROTECA DIGITAL BRASILEIRA, portal de periódicos nacionais que proporciona ampla consulta, pela internet, ao seu acervo de periódicos – jornais, revistas, anuários, boletins etc. – e de publicações seriadas.

Na HEMEROTECA DIGITAL BRASILEIRA pesquisadores de qualquer parte do mundo passam a ter acesso, inteiramente livre e sem qualquer ônus, a títulos que incluem desde os primeiros jornais criados no país – como o Correio Braziliense e a Gazeta do Rio de Janeiro, ambos fundados em 1808 – a jornais extintos no século XX, como o Diário Carioca e Correio da Manhã, ou que não circulam mais na forma impressa, caso do Jornal do Brasil.

Entre as publicações mais antigas e mesmo raras do século XIX estão, por exemplo, O Espelho, Reverbero Constitucional Fluminense, O Jornal das Senhoras, O Homem de Cor, Marmota Fluminense, Semana Illustrada, A Vida Fluminense, O Mosquito, A República, Gazeta de Notícias, Revista Illustrada, O Besouro, O Abolicionista, Correio de S. Paulo, Correio do Povo, O Paiz, Diário de Notícias, e também os primeiros jornais das províncias do Império.

Quanto ao século XX, podem ser consultados revistas de grande importância como Careta, O Malho, O Gato, Revista da Semana, Klaxon, Revista Verde, Diretrizes e jornais que marcaram fortemente a história da imprensa no Brasil, como A Noite, Correio Paulistano, A Manha, A Manhã e Última Hora.

Periódicos de instituições científicas também compõem um segmento especial do acervo já disponível. São alguns deles os Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto, O Progresso Médico, a Revista Médica Brasileira, os Annaes de Medicina Brasiliense, o Boletim da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, a Revista do Instituto Polytechnico Brasileiro, a Rodriguesia: revista do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Jornal do Agricultor, entre muitos outros. O pesquisador pode consultar também outras modalidades de publicação, como o Boletim da Illustríssima Câmara Municipal da Corte, os Relatórios dos Presidentes das Províncias (no Império) o Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, a Revista do Archivo Público Mineiro, a Gazeta dos Tribunaes: dos juízes e factos judiciaes, do foro e da jurisprudência (Rio de Janeiro) etc.

A consulta, possível a partir de qualquer aparelho conectado à internet, é plena e avançada. Pode ser realizada por título, período, edição, local de publicação e palavra(s). A busca por palavras é possível devido à utilização da tecnologia de Reconhecimento Ótico de Caracteres (Optical Character Recognition – OCR), que proporciona aos pesquisadores maior alcance na pesquisa textual em periódicos. Outra vantagem do portal é que o usuário pode também imprimir em casa as páginas desejadas.

Além da chancela do MINISTÉRIO DA CULTURA, a HEMEROTECA DIGITAL BRASILEIRA é reconhecida pelo MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA e tem o apoio financeiro da FINANCIADORA DE ESTUDOS E PROJETOS – FINEP, o que tornou possível a compra dos equipamentos necessários e a contratação de pessoal para a sua criação e manutenção. Neste momento do lançamento do portal – julho de 2012 –, são cinco milhões de páginas digitalizadas de periódicos raros ou extintos à disposição dos pesquisadores, número que se multiplicará com a continuidade da reprodução digital.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Mapas Históricos de Maragogipe na Biblioteca Digital Mundial da UNESCO

Encontrar mapas históricos sobre a região do recôncavo da Bahia é um pouco difícil, mas dedicação e muita paciência pode resolver nosso problema. Pesquisando na net, me deparei com uma Biblioteca Digital Mundial que disponibiliza diversos mapas históricos, além de outros tipos de publicações, como: livros, manuscritos, registros fonográficos, etc... Esta Biblioteca tem o apoio e colaboração das Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO).

É, sem sombras de dúvidas um acervo interessantíssimo, principalmente, com relação a mapas e imagens do nosso interesse. Nele podemos encontrar alguns dos mapas do Brasil como:
  • A Baía de Todos os Santos; (Nosso interesse maior)
  • Região compreendida entre o rio Amazonas e São Paulo;
  • Fortaleza do Brum em Pernambuco;
  • Carta do Império do Brasil;
  • Guiana, ou, o Reino do Amazonas;
  • O Maranhão ou Rio Amazonas com a Missão da Companhia de Jesus
  • Mapa da Batalha de Catalão: Datado de 4 Janeiro de 1817;
  • Mapa da Baía de Todos os Santos no Sul do Brasil;
  • Mapa Geográfico do Brasil;
  • O Curso do Rio do Amazonas, Segundo Relatos de Christopher d’Acugna.
Confira agora, alguns recortes dos mapas relacionados a Maragogipe e região. Precisei recortar os mapas, pois quando baixava para o computador, a resolução diminuía o que prejudicava a visualização de alguns dados interessantes. Todavia, para ver o mapa completo é interessante visitar o site: Biblioteca Digital Mundial.

Neste recorte abaixo, você encontra as terras do Engenho Novo e o Rio da Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Este recorte pertence ao "Mapa da Baía de Todos os Santos no Sul do Brasil" (Ver mapa completo).

Descrição: Este mapa de navegação espanhol mostra a Baía de Todos os Santos, ao largo da costa do Brasil. Indicadas no mapa estão medições da profundidade da água na baía, ilhas e fortificações costeiras e outros marcos.
Data de Criação: 1800 d.C. e 1899 d.C.
Idioma: Espanhol
Título no Idioma Original: Plano de la Bahia de Todos os Santos situada en la orla meridional del Brasil Descrição Física: 1 mapa manuscrito ; 46 x 55 centímetros

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Nos três mapas subsequentes, encontramos parte do Recôncavo Baiano, suas trilhas e estradas, as vias de Maragogipe, Nagé, Capanema, São Roque e outras. Estes recorte encontram-se no "Mapa Topográfico de Parte do Distrito de Ilhéus" (Ver mapa completo)

Descrição: Este mapa topográfico do início de século XVIII mostra o distrito de Ilhéus, no nordeste do estado brasileiro da Bahia. A região, também conhecida como IIhéus e São Jorge dos Ilhéus, foi o centro da produção açucareira do Brasil durante o período colonial. 
Criador: Teixeira, Manoel Rodriguez 
Data de Criação: 1700 d.C. e 1799 d.C. 
Idioma: Português 
Título no Idioma Original: Planta topographica em que se comprehende parte da comarca dos Ilheos 
Descrição Física: 1 mapa manuscrito : colorido ; 107 x 67 centímetros

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Este recorte do mapa retrata parte do Recôncavo da Bahia, e é perceptível a visualização de Capanema, Maragogipe, Cachoeira, São Félix, Nagé, São Tiago do Iguape, e outros. Ele é um recorte do "Mapa do Distrito da Bahia de Todos os Santos e sua Continuação para o Ocidente". (Ver mapa completo)

Descrição: Este mapa manuscrito, do início de século XVIII, mostra o interior do estado brasileiro da Bahia, nessa época, ainda inexplorado em sua maior parte. Os portugueses começaram a explorar esta região já em 1501 e logo a transformaram em um centro de cultivo e processamento de açúcar. O açúcar era exportado de várias cidades costeiras da Bahia, a mais importante das quais era Salvador. Salvador foi a primeira capital do Brasil, até 1763, quando Rio de Janeiro tornou-se a capital. 
Data de Criação: 1700 d.C. e 1799 d.C. 
Idioma: Português 
Título no Idioma Original: Mapa da Comarca da Bahia de Todos os Santos seguindo a continuação della para o poente 
Descrição Física: 1 mapa manuscrito ; de 42.5 x 53.5 centímetros


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Outros mapas históricos de Maragogipe você poderá ver na nossa página do Facebook.
Mais mapas do Brasil e Mundo, basta visitar a Biblioteca Digital Mundial.

domingo, 25 de novembro de 2012

Documentário 'Casa de Santo' mostra história do Terreiro do Pinho, em Maragogipe



CASA DE SANTO

Documentário dirigido por Antonio Pastori mostra, pela primeira vez, 
terreiro fundado no século XVII em Maragojipe, no Recôncavo da Bahia

O documentário premiado Casa de Santo, dirigido por Antonio Pastori, leva ao telespectador a uma grandiosa e empolgante viagem pelos terreiros de candomblé de Maragojipe, no Recôncavo da Bahia. O diretor registra, pela primeira vez, o interior de terreiros que nunca haviam permitido a presença das câmeras e descobre indícios que podem mudar a forma como a História descreve a diáspora africana para o Brasil.

Um pouco de Casa de Santo
Poucas regiões brasileiras possuem a característica religiosa do Recôncavo da Bahia. A terra que circunda Baía de Todos os Santos e bate às portas do Sertão tem forte influência do Candomblé, religião trazida ao Brasil pelos africanos escravizados na época da colonização brasileira.

Casa de Santo, documentário dirigido por Antonio Pastori, traz como tema chave esta influência a partir dos rituais desses terreiros de Candomblé, preservados pelo povo negro que acredita na força de sua religião. As quatro nações da religiosidade de matriz africana estão retratadas com fidelidade e emoção. O filme percorre os principais terreiros das nações Jeje, Ketu e Angola e registra uma Festa de Caboclo, onde a raiz africana se mistura a influências indígenas e européias. Uma engenhosa tradução da diversidade étnica e cultural desta região da Bahia.

O filme tem cenas inéditas de rituais que nunca haviam sido mostradas de forma tão fiel, em uma reconstituição histórica. Terreiros que não haviam aberto as portas mesmo para os fotógrafos, deram licença para as câmeras deste documentário que mostra como os segmentos de cada nação são diferenciados pelo dialeto utilizado nos rituais, a liturgia e o toque dos atabaques.

É em Casa de Santo que Pastori documenta pela primeira vez, o Terreiro do Pinho, que segue os preceitos Jeje e foi fundado em 25 de dezembro de 1658 numa área que hoje pertence ao município de Maragojipe, a 133 km de Salvador. A equipe pôde registrar o lugar onde fica o que pode ser o terreiro mais antigo do Brasil, de linhagem Jeje – o que muda a forma de contar a história da diáspora africana.

“Na verdade, o Jeje é o povo Ewe Fon. Nós nos acostumamos a relacioná-los a como eles eram chamados na época, pela expressão Jeje, que na verdade significa ‘estrangeiro’. Era um povo altivo e conquistador, o que explica esta espécie de apelido”, explica Pastori.

O candomblé assume um importante papel na formação da identidade cultural, étnica e religiosa do Recôncavo, é fortemente marcado pelo ritmo e pela música que embala cada Orixá. Casa de Santo mostra esta essência só encontrada no Recôncavo, a sua origem derivada dos candomblés implantados lá desde muito tempo com a chegada dos escravos, e como isto influência na vida das pessoas de lá, transporta-nos a um ambiente mágico através dos toques inspiradores e contagiantes, da música africana.


Musicalidade
A cultura do lugar, basicamente negra misturada aos toques do atabaque e do bongô componentes da música africana e presentes em todo o decorrer do documentário, nos faz observar o quanto é essencial a relação entre música e imagem no cinema. No documentário, o relato da religiosidade da cidade de Maragojipe traz precisão e comunhão com esta musicalidade.

A equipe extraiu da cultura do povo de santo, a essência da sua religiosidade com elementos desse próprio meio com destaque para os instrumentos utilizados nas casas de santo o Rum, o Rumpi e o Le, atabaques sagrados e tocados por alabês.

A técnica de combinar os sons, é o que leva o espectador a “participar” dessa cultura, entender e compreender a sua linguagem. A dita casa de santo é onde está a mistura da natureza que se junta com a mistura de raças, onde o povo negro escravizado busca até hoje manter e viver fielmente a sua religião, o candomblé.


A cultura afro-brasileira está expressa também pela capoeira. “O Canto dos Escravos” aguça a sensibilidade do espectador diante das imagens mostradas no documentário. Ecoam as vozes benguelas em um arranjo com apenas voz e percussão. Além disso, contribui para o clima de proximidade evocado pelo canto, contrastando, assim, com a idéia de diversas manifestações culturais de matriz africana que constituem a raiz da cultura popular brasileira.

Em Casa de Santo, a trilha tem justamente esse papel, de nos aproximar daquela realidade, de passar um pouco da energia e da sensação de estar imerso em um ritual do candomblé, e cumpre maravilhosamente bem seu papel de fazer do cinema o resultado de um emaranhado de expressões artísticas, potencializando aquilo que talvez seja mais significativo em sua existência, nos tocar de alguma maneira.

É no terreiro, com luz iluminando a Mãe de Santo, que gira e dança. Que recebe e trabalha. É ali: os orixás se manifestam, a energia pulsa ao som dos tambores, a casa é de santo. Imperdível.

Documentário Completo
Agora que você leu, poderá assistir ao documentário completo e compartilhar essas informações para seus amigos.


FICHA TÉCNICA
Casa de Santo
Duração: 44 minutos
Fotografia: Aristides Jr. e Antonio Pastori Assistência de Produção: Jomar Lima
Roteiro, Pesquisa, Edição e Narração: Antonio Pastori
Pesquisa e Produção: Manoel Passos Pereira
Direção: Antonio Pastori

TV E Bahia
Domingo, 13 de maio
Horário 19 horas

Contatos para entrevista
(71) 9182 5063
ou mandando perguntas para
casadoverso@gmail.com

sábado, 24 de novembro de 2012

Para acadêmicos, América Latina teve 'mudanças modestas' com esquerda no poder

Por Daniela Fernandes (BBC Brasil)

Especialistas do renomado Instituto de Estudos Políticos (IEP) de Paris, que acabam de publicar o livro A Esquerda na América Latina, 1998-2012 - Primeiro Balanço, afirmam que a América Latina teve apenas reformas modestas com a esquerda no poder.

Hugo Chaves (Venezuela) e Evo Morales (Bolívia)

O livro, escrito por mais de uma dezena de autores, analisa as ações dos diferentes governos da região a partir da primeira eleição do presidente Hugo Chávez, da Venezuela.

Esta eleição marca, segundo os autores, "o início de uma impressionante série de 24 vitórias da esquerda em 13 países diferentes".

Apenas o México, a Costa Rica, o Panamá e a Colômbia, e também Belize, República Dominicana, Suriname e a Guiana, não tiveram governos de esquerda no período analisado.

"Entre as grandes reformas realizadas na América Latina em pouco mais de uma década, constatamos que poucas podem ser atribuídas exclusivamente à esquerda", disse à BBC Brasil o professor Olivier Dabène, coordenador da publicação e presidente do Observatório Político da América Latina e do Caribe do IEP.

No caso do Brasil, dizem os autores, o Partido do Trabalhadores (PT), que chegou ao poder com a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, acentuou e ampliou políticas econômicas e sociais que já haviam sido iniciadas no governo anterior, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

"Cardoso iniciou várias reformas e lutou contra a inflação, que é uma importante política social", afirmou Dabène. "A estabilidade econômica tem um grande impacto social."


Programas de renda
Na opinião do coordenador do livro, a "ruptura" entre o governo anterior e o de Lula também "não é tão evidente" em outras áreas, como a educação.

"No Brasil, os atores de direita ou de esquerda não estão claramente identificados. O PT sempre foi um partido de esquerda antes de chegar ao poder, mas as gestões de Cardoso e Lula não foram tão diferentes", afirmou Laurence Whitehead, professor da Universidade de Oxford.

"Cardoso iniciou programas de aumento da renda, no estilo do Bolsa Família, que foram depois ampliados no governo de Lula", disse Whitehead.

"A pobreza está diminuindo em toda a América Latina e não apenas nos países com governos de esquerda", acrescentou Dabène.

Para os autores do livro, muitos partidos de esquerda que chegaram ao poder na região renunciaram à ideia de reformar as políticas neoliberais dos anos 1990, que eles tanto haviam criticado.

A esquerda, em muitos países, incluindo o Brasil, também passou a privilegiar o controle das contas públicas e a impor medidas de rigor quando necessárias.

Papel político
Mas apesar das políticas neoliberais dos anos 80 e 90 passarem a ser vistas como um fato consumado, os governos de esquerda da região "souberam reabilitar o papel político dos Estados na promoção do desenvolvimento e da luta contra a probreza", avaliam os especialistas.

"A esquerda na América Latina não provocou uma ruptura brutal com o período neoliberal. Mas ela também não renunciou às suas ambições reformadoras", afirma a publicação.

O livro também analisa se a esquerda poderia receber os "méritos" do forte crescimento econômico da América Latina na última década.

Para Dabène, o crescimento da região no período pode ser atribuído ao aumento das exportações, principalmente de matérias-primas, provocado pela maior demanda de países como a China.

Segundo os autores, a reeleição de governos de esquerda na América Latina a partir de 2006 (caso de países como o Brasil, Argentina e Equador) correspondem a "votos de reconhecimento em um contexto econômico muito favorável".

Fonte: BBC Brasil

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Visita da Família Real a Maragogipe

DO BLOG: Este é um fragmento do Jornal Cachoeira exposto no livro de Fernando Sá descrevendo a solene recepção que os maragogipanos fizeram ao Imperador Dom Pedro II, em 09 de novembro de 1859, depois que os mesmos chegaram no vapor Pirajá.

Vale ressaltar que, no livro de Fernando Sá, ele troca o nome Maragogipe, com o grafema "G", para Maragojpe com o grafema "J" e essa troca é um erro. Em minhas pesquisas, descobri que parte desse texto está no livro "Diário da Viagem ao Norte do Brasil" escrito pelo próprio D. Pedro II. E lá, Maragogipe está escrito com o grafema "G". Outros detalhes vou preferi que o leitor descubra por si, pois vale a análise do documento. Por fim, será interessante ler alguns comentários sobre o mesmo.

Eram três horas mais ou menos, quando avistou-se o vapor que conduzia os augustos visitantes; indo ao seu encontro, em uma canoa ricamente preparada, o juiz municipal, para receber as determinações imperiais; voltou pouco depois que a boa nova de que S.S.M.M. desembarcariam já.

Logo que o escaler imperial chegou ao lugar Cajá, foi passado por entre alas de canoas todas embandeiradas e tripuladas por homens vestidos de alvo, cintos escarlates e bonéis azuis, os quis não cessavam de dar vivas e atirar foguetes.

Chegado este cortejo marítimo ao porto do mesmo nome, foi recebido por música que tocava o hino nacional, havendo por essa ocasião uma salva de 101 granadas que simulavam perfeitamente tiros de canhão.

O escaler seguiu rio acima até o Porto Grande, onde ao aproximar-se S.M. o Imperador mostrou-se de pé, o que produziu no imenso povo que o esperava a mais incompreensível emoção, o mais frenético entusiasmo, traduzido perfeitamente pelo grito uníssono de – Viva o Imperador – Viva a Imperatriz – que soava de todos os lados.

Este lugar estava elegantemente preparado. Em toda extensão da ponte que se prolonga até o Porto das Vagas se viam tremular das diversas nações aliadas e envolta com outras nacionais, o que produzia um não sei que de majestoso ao completar-se o matiz que faziam ao espaço com o alvor da mesma ponte, toda caiada de novo.

No centro do cais estendia-se até o meio do rio, uma larga escadaria tapetizada de amarelo, havendo ao lado desta escada corrimões de gradaria que espaçados por bonitos pedestais, onde descansavam vasos bem talhados plantados de craveiros naturais que se curvam com o peso da flor pendentes de todas as hastes. O mesmo se via em toda frente do cais, no qual balançavam-se bandeiras imperiais. Terminada a escada, elevava-se pouco adiante, um arco de cetim carmesim semeado de rosas brancas, tendo no centro uma coroa imperial descansada sobre um losango, no meio do qual se lia o seguinte:

De Maragogipe o povo
Com respeito o mais profundo
Saúda a Imperatriz
Saúda a Pedro Segundo

Em seguida a este arco estavam formadas em alas vinte meninas vestidas de alvo, com cestinhas cheias de flores, as quais representavam as vinte províncias, como se via na fita verde que cada uma trazia a tiracolo com o nome da província em letras de ouro. Uma delas, a Bahia, aproximou-se de S.M. a Imperatriz lhe espargiu flores, o que imitaram as outras, recitando aquela, com voz firme e maviosa, o seguinte soneto:

Submissão, respeito, amor, saudade,
Guiam meus passos nessa doce empresa:
Venho oferta-vos, ínclita Princesa,
Este raminho, símbolo de amizade.

Despido da lisonja e da vaidade,
Nele achareis somente singeleza:
É sem ornato e pobre de beleza,
Mas rica de infantil simplicidade.

Simples raminho, pura gratidão,
Vai sumisso, segue sem receio
Para, ante o trono, beijar a augusta mão

Acolhei-o Senhora, em vosso seio,
Daí-lhe, benigna, vossa aceitação
Que em vossos gestos já contemplo e vejo.

Mais adiante estavam meninos vestidos também de alvo e com fitas escarlates e tiracolo lendo-se nela os nomes dos rios mais notáveis do Império. Um deles, o Paraguaçu, chegando-se a S.M. o Imperador, entregou-lhe um ramalhete de cravos, enquanto os mais o cobriam de rosas dizendo aquele a poesia que segue:

Eis, Senhor, vassalos vossos
Que para vos defender
Brasileiros pequeninos
Estão aprendendo a ler.

S.S.M.M. receberam estas demonstrações de inocência com a mais cordial satisfação. A seis passos de distância estava o pavilhão para a cerimônia do Pax Tecum – para onde S.S.M.M. se encaminharam e depois de beijarem a Cruz, o Presidente da Câmara passou a entregar as chaves da cidade, recitando um bem elaborado discurso que atentamente foi ouvido por S.S.M.M., ao qual dignou-se responder, S.M. o Imperador: “Agradeço sobremaneira à Câmara da cidade de Maragogipe”.

Este barracão estava muito bem preparado. Sustentava o seu teto forrado de cetim branco, seis colunas dóricas, forradas de cetim azul claro, tomadas por festões de flores artificiais. No frontispício estavam dois anjos que sustentavam uma bandeira com a inscrição: “Viva o Imperador do Brasil”. Daí seguiram S.S.M.M. em baixo do palio, levados pelos membros da Câmara, para a Igreja Matriz. Em todo este trânsito as flores caíam constantemente sobre S.S.M.M. e os vivas confundidos com os repiques dos sinos, o estoirar dos foguetes e a melodia da música faziam o que há de mais belo e majestoso.

S.S.M.M. fizeram oração na capela do S.S. Sacramento. A igreja estava decente; o trono do altar-mor todo aceso, e do mesmo modo todos os altares. Voltaram depois para o Paço da Câmara, onde estava arvorado o pavilhão imperial. Logo que aí chegaram, S.M. o Imperador, disse para os da sua comitiva: “Maragogipe é uma cidade importante, não é possível ser vista em hora e meia, portanto está alterado o programa por culpa de quem me iludiu; durmo aqui.

O regozijo que causou esta resolução não é possível explicar. Não se via senão o povo correr cheio de entusiasmo pelas ruas repetindo a notícia agradável de que S.M. tinha resolvido dormir nesta cidade! Era uma confusão, era um labirinto de alegria.

Dez cavalos ricamente ajaezados esperavam S.M. e a sua comitiva, além de outros menos enfeitados. S.M. montando, seguiu caminho do hospital. Na extremidade de uma rua que abre caminho para o mesmo hospital havia um arco todo alvo, ornado de folhas e flores naturais, tendo seu frontispício o seguinte:

Das Secílias a – Estrela
Veio ao Norte do Brasil
Prodigalizar bondade
Dar a nós venturas mil

Chegando ao hospital, encaminhou-se à capela que estava ricamente coberta de cetim e galões, sendo recebido pelo provedor e mais membros da mesa. Fez oração, percorrendo depois toda a casa, no que mostrou-se satisfeito. Consolou e conversou com os doentes e, especialmente com um preto velho de cento e tantos anos, a quem S.M. ouviu por muito tempo. Entregou ao provedor, para esmola da casa, um conto de réis. Daí foi ao lugar que serve de cemitério. O seu coração paternal enterneceu-se à vista deste lugar coberto de mato que serve de asilo aos mortos e sabendo que havia um projeto para construir-se um cemitério decente, deu 500$000 para a obra; e o Presidente da Província aí se achava prometeu satisfazer essa necessidade pública.

Voltando para a cidade, visitou as aulas públicas de primeiras letras e latim, demorando-se algum tempo na do ensino primário do sexo masculino, onde, ao entrar os meninos entoaram o – Viva a S.S.M.M. -. Pediu o livro de matrícula, no qual estavam matriculados 60 meninos. Exigiu as escritas, que lhe foram presentes, examinando-as minuciosamente; mandou ler a dois meninos; ditou uma conta de repartir que foi feita pelos alunos; mandou o professor interrogá-los em doutrina, e este o fez na História Sagrada, tomando por ponto o Dilúvio, o nome do primeiro homem, etc. Findo o que S.M. perguntou a um dos meninos: ”- Onde está Jesus Cristo?” que lhe foi respondido belamente. S.M. dando mostra de inteira satisfação deu por finda a visita neste lugar.

Foi a capela do Cajá, à qual deu 200$000, fazendo o mesmo no altar do S. Coração de Jesus. É escusado dizer que nuvens de povo se achavam apinhadas em todos os caminhos vitoriando os augustos visitantes.

Foi também à coletoria geral que estava toda iluminada e cheia de bandeiras imperiais; porém, sendo já noite determinou ao Exmo Presidente para exigir do coletor um relatório do seu movimento.

Eram mais de 7 horas quando voltava ao – Paço - onde chegando a uma das janelas contemplou o bonito dêste lugar. 

De feito, a praça de Maragogipe estava elegante. Aplainada, como ainda está, se via nos quatro ângulos do seu quadrado, elevarem-se arcos triunfais cobertos de cetim e flores artificiais, suspendendo-se no centro de todos eles a bandeira nacional que garbosa se balançava para aqui e ali côo que mais orgulhosa, afrontando rajadas de vento sul que não cessavam de soprar com alguma intensidade.

A cor amarela com que estavam caiadas todas as casas da praça harmonizava-se otimamente com o verde das bandeiras das janelas e portas; e esse quadro mais resplandecia quando, à noite, todas se iluminaram bem como o resto da cidade. A praça de Maragogipe estava verdadeiramente imperial. S.S.M.M. se dignaram dar beija-mão, seguindo-se depois o jantar, para o qual tiveram a honra de ser convidados, o deputado e suplente deste círculo, Câmara Municipal, comandante superior juiz municipal e senhoras que se achavam no Paço.

Findo o jantar, S.M. procurou saber do Presidente da Câmara e estado da sua receita e despesa, determinando-lhe que fizesse disto um relatório e nele declarasse quais os melhoramentos que precisava este município. Mandou vir à sua presença o carcereiro, do qual indagou sobre as prisões, asseio e conservação delas, número de presos, sexos, crimes tempos de prisão, se estavam todos processados, quando teve lugar a última visita; procurando o livro respectivo que lhe foi apresentado, S.M. mostrou-se insatisfeito, pois via ter-se visitando no último de julho, quando há obrigação de ser todos os meses.

Indagou do comandante do batalhão no 34 quantas praças tinha o seu corpo, quantas se apresentaram naquele dia, se havia armamento. Ouvindo em resposta à primeira pergunta: 575, a segunda 144 1 a última: nenhum. Mandou entregar ao Presidente da Câmara e Juiz Municipal 500$000 para os pobres. S.M. a Imperatriz, determinou que se levasse para bordo água de Maragogipe, pois muito tinha gostado dela.

A Sociedade Filarmônica de S. Felipe veio da roça render homenagem aos augustos hospedes, postando-se na praça e tocando diversas de harmonia até alta noite. O mesmo fez a música do Batalhão no 52 que estava de guarda de honra. Houve muitas poesias; S.M. o Imperador assistia a este regozijo do povo em uma das janelas do Paço com muita satisfação. A cidade, nesta noite, ficou em completo dia; não se dormiu, animando mas prazer a lua estava brilhando.

Às quatro horas da madrugada, de 10, foi anunciada a partida de S.S.M.M. Poucas pessoas tiveram de aprontar-se. S.S.M.M., depois de tomarem café, seguiram, acompanhadas da mesma forma do dia anterior, para o embarque, onde deixaram este povo envolto na mais pungente saudade. Muitas lágrimas foram vertidas nestas ocasião. Tiveram a honra de acompanhar S.S.M.M. até a bordo do vapor, a Câmara Municipal, Juiz Municipal, comandante do Corpo do Exército e várias pessoas gradas.

Fonte: Fernando Sá. In: Maragogipe no tempo e no espaço. 2000

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Histórico do Forte de Santa Cruz do Paraguaçu, em Maragogipe

Foto: Zevaldo Sousa
O Forte de Santa Cruz do Paraguaçu localiza-se na margem direita da foz do rio Paraguaçu, na altura da atual cidade de Maragojipe, no estado da Bahia, dominando o acesso ao Recôncavo baiano.

Antecedentes
Foto: Zevaldo Sousa
Um documento datado de 1659 dá conta da existência de três fortes na região, o mais importante dos quais o Forte Real de Paraguaçu (SOUZA, 1983:105). Também conhecido como Forte de Santa Cruz do Paraguaçu, Forte da Barra do Paraguaçu ou Fortinho do Paraguaçu, não existe consenso entre os estudiosos quanto aos seus construtores. A sua forma atual data provávelmente do início do século XVIII, erguido sobre uma estrutura anterior, remontando à primeira metade do século XVII.

No contexto da segunda das Invasões holandesas do Brasil (1630-1654), em conjunto com o Fortim da Forca na margem oposta do rio, com quem cruzava fogos, tinha a função de impedir o acesso de invasores ao sertão do Iguape e seus engenhos de açúcar, e às vilas de Maragojipe e Cachoeira. Fortificação tipicamente de marinha, era flanqueado por água em três dos seus seis lados, levantada em alvenaria de pedra com guaritas de tijolos nos vértices. 

O século XVIII
Foto: Zevaldo Sousa
Um levantamento efetuado pelo Engenheiro José Antônio Caldas, informa que, em 1759, o forte possuía sete peças de artilharia desmontadas, e os seus quartéis em ruínas (SOUZA, 1983:105). O mesmo profissional nos legou iconográfia da estrutura (Planta e fachada do forte de Sta. Cruz do Paraguasû. in: Cartas topográficas contem as plantas e prospectos das fortalezas que defendem a cidade da Bahia de Todos os Santos e seu reconcavo por mar e terra, c. 1764. Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa), que apresenta planta no formato de um polígono hexagonal irregular, com cinco ângulos salientes e um reentrante e parapeitos à barbeta. Sobre o terrapleno, pelo lado da entrada, edificação de um pavimento abrigava as dependências de serviço (Casa de Comando, Quartel da Tropa, Casa de Palamenta, e outras). Estava guarnecido por um Capitão (BARRETTO, 1958:182), acredita-se que neste período.

Foi restaurado em 1762 pelo governo da Capitania da Bahia, provavelmente por João de Abreu de Carvalho Contreiras. Após nova inspeção, em 1772, pelo mesmo Engenheiro José Antônio Caldas, procedeu-se à restauração da Casa do Comando, do Quartel da Tropa e da Casa da Pólvora.

O século XIX
Foto: Zevaldo Sousa
No contexto da Guerra Peninsular, diante da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, com receio de uma possível retaliação francesa, procederam-se trabalhos de limpeza nas instalações do forte (1809).

A partir de 1816 foi considerado sem importância militar, tendo sido desativado e entrando em processo de ruína (SOUZA, 1983:105). Foi percebido em 1859 pelo Imperador D. Pedro II (1840-1889), que registrou em seu diário de viagem:
"4 de Novembro - (...) 2 e 40' - Na margem esquerda [do rio Paraguaçu] vê-se a antiga bica d'água, onde os navios da Bahia vinham fazer aguada. Na margem direita um pouco adiante estão sobre uma ponta de terra as ruínas do fortim chamado de Paraguaçu.
2 3/4 - Na margem esquerda o sítio do Alemão (...)" (PEDRO II, 2003:191) Estando omitidos os dias de 7 a 19 de novembro no Diário do Imperador, existe uma outra referência a esta estrutura na "Narração dos preparativos, festejos e felicitações que tiveram lugar na província da Bahia", publicada por Epiphanio Pessoa ainda em 1859, relativos a essa Viagem:"(...) Às 9 1/2 [do dia 10 de novembro de 1859] passou a esquadrilha pelo 'Fortim', pequeno reduto hoje em abandono, situado à margem direita do rio, e célebre por ter impedido nas lutas da Independência que fosse retomado pelos portugueses um navio de que os cachoeiranos se haviam apoderado." (PEDRO II, 2003:304)
SOUZA (1885) atribui-lhe planta pentagonal, artilhado com sete peças, e em estado de ruína à época (1885) (op. cit., p. 98).

O século XX
Foto: Zevaldo Sousa
Bem imóvel de propriedade da União, as suas ruínas encontram-se tombadas desde 1938 pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Em 1959 foi elaborado um projeto para estabilização e restauração do monumento, porém não chegou a ser implementado. Atualmente restam os vestígios dos muros de pedra do terrapleno e de uma guarita de forma circular, recoberta com cúpula, e um velho canhão (SOUZA, 1983:105).

Existiu um outro forte, à época, na região, com o nome de Forte do Paraguaçu.

Bibliografia:
BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368 p.
FALCÃO, Edgard de Cerqueira. Relíquias da Bahia (Brasil). São Paulo: Of. Gráficas Romili e Lanzara, 1940. 508 p. il. p/b
GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
OLIVEIRA, Mário Mendonça de. As Fortificações Portuguesas de Salvador quando Cabeça do Brasil. Salvador: Omar G., 2004. 264 p. il.
PEDRO II, Imperador do Brasil. Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe, Alagoas, 1859-1860 (2ª ed.). Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras e Expressões, 2003. 340 p. il.
ROHAN, Henrique de Beaurepaire. Relatorio do Estado das Fortalezas da Bahia, pelo Coronel de Engenheiros Henrique de Beaurepaire Rohan, ao Presidente da Província da Bahia, Cons. Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, em 3 de Agosto de 1863. RIGHB. Bahia: Vol. III, nr. 7, mar/1896. p. 51-63.
SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.

Texto retirado: Wikipédia

terça-feira, 26 de julho de 2011

Somos todos da Idade Média, por Hilário Franco Júnior

Pouca gente se dá conta, mas muitos hábitos, conceitos e objetos tão presentes no nosso dia-a-dia, inclusive o próprio idioma que falamos, vêm daquela época.

Muitos professores consideram especialmente árdua a tarefa de ensinar História Medieval. A distância que separa os alunos de época tão remota, argumentam alguns, seria um dos principais obstáculos. Como despertar seu interesse por tema tão antigo? Como passar às novas gerações conceitos, idéias e fatos que, aparentemente, têm tão pouco a ver com o mundo de hoje? Mas seria bem diferente se eles mostrassem a seus discípulos que, como veremos a seguir, e embora muita gente não se dê conta, nosso próprio cotidiano está impregnado de hábitos, costumes e objetos que vêm de muito mais longe do que se pode imaginar.

Ao tratarmos da História do Brasil, por exemplo, a tendência é começar no dia 22 de abril de 1500, quando Pedro Álvares Cabral e os tripulantes de sua esquadra “descobriram” nossa terra. Mas aqueles homens não traziam atrás de si, dentro de si, toda uma história? Não trouxeram para cá amplo conjunto de instituições, comportamentos e sentimentos? Aquilo que é até hoje o Brasil não tem boa parte da sua identidade definida pela longa história anterior de seus “descobridores”? Dizendo de outro modo, nossas raízes são medievais, percebamos ou não este fato.

Calças do século IV,
encontradas no pântano
Thorsberg, Alemanha
Pensemos num dia comum de uma pessoa comum. Tudo começa com algumas invenções medievais: ela põe sua roupa de baixo (que os romanos conheciam mas não usavam), veste calças compridas (antes, gregos e romanos usavam túnica, peça inteiriça, longa, que cobria todo o corpo), passa um cinto fechado com fivela (antes ele era amarrado). A seguir, põe uma camisa e faz um gesto simples, automático, tocando pequenos objetos que também relembram a Idade Média, quando foram inventados, por volta de 1204: os botões. Então ela põe os óculos (criados em torno de 1285, provavelmente na Itália) e vai verificar sua aparência num espelho de vidro (concepção do século XIII). Por fim, antes de sair olha para fora através da janela de vidro (outra invenção medieval, de fins do século XIV) para ver como está o tempo.

Ao chegar na escola ou no trabalho, ela consulta um calendário e verifica quando será, digamos, a Páscoa este ano: 23 de março de 2008. Assim fazendo, ela pratica sem perceber alguns ensinamentos medievais. Foi um monge do século VI que estabeleceu o sistema de contar os anos a partir do nascimento de Cristo. Essa data (25 de dezembro) e o dia de Páscoa (variável) também foram estabelecidos pelos homens da Idade Média. Mais ainda, ao escrever aquela data – 23/3/2008 –, usamos os chamados algarismos arábicos, inventados na Índia e levados pelos árabes para a Europa, onde foram aperfeiçoados e difundidos desde o começo do século XIII. O uso desses algarismos permitiu progressos tanto nos cálculos cotidianos quanto na matemática, por serem bem mais flexíveis que os algarismos romanos anteriormente utilizados. Por exemplo, podemos escrever aquela data com apenas sete sinais, mas seria necessário o dobro em algarismos romanos (XXIII/III/MMVIII).

Livro Medieval: Bridwell Library
Para começar a trabalhar, a pessoa possivelmente abrirá um livro para procurar alguma informação, e assim homenageará de novo a Idade Média, época em que surgiu a idéia de substituir o incômodo rolo no qual os romanos escreviam. Com este, quando se queria localizar certa passagem do texto, era preciso desenrolar metros de folhas coladas umas nas outras. Além disso, o rolo desperdiçava material e espaço, pois nele se escrevia apenas de um lado das folhas. O formato bem mais interessante do livro ficou ainda melhor com a invenção da imprensa, em meados do século XV, que permitiu multiplicar os exemplares e assim barateá-los. Tendo encontrado o que queria, a pessoa talvez pegue uma folha em branco para anotar e, outra vez, faz isso graças aos medievais. Deles recebemos o papel, inventado anteriormente na China, mas popularizado na Europa a partir do século XII. Mesmo ao passar suas idéias para o computador, a pessoa não abandona a herança medieval. O formato das letras que ali aparecem, assim como em jornais, revistas, livros e na nossa caligrafia, foi criado por monges da época de Carlos Magno.

Relógio Medieval de Praga,
 por Emilia Duarte
Sentindo fome, a pessoa levanta os olhos e consulta o relógio na parede da sala, imitando gesto inaugurado pelos medievais. Foram eles que criaram, em fins do século XIII, um mecanismo para medir o passar do tempo, independentemente da época do ano e das condições climáticas. Sendo hora do almoço, a pessoa vai para casa ou para o restaurante e senta-se à mesa. Eis aí outra novidade medieval! Na Antiguidade, as pessoas comiam recostadas numa espécie de sofá, apoiadas sobre o antebraço. Da mesma forma que os medievais, pegamos os alimentos com colher (criada aproximadamente em 1285) e garfo (século XI, de uso difundido no XIV). Terminada a refeição, a pessoa passa no banco, que, como atividade laica, nasceu na Idade Média. Depois, para autenticar documentos, dirige-se ao cartório, instituição que desde a Alta Idade Média preservava a memória de certos atos jurídicos (“escritura”), fato importante numa época em que pouca gente sabia escrever.

À noite, enfim, a pessoa vai à universidade, instituição que em pleno século XXI ainda guarda as características básicas do século XII, quando surgiu. As aulas, com freqüência, são dadas a partir de um texto que é explicado pelo professor e depois debatido pelos alunos. Alguns deles recebem um auxílio financeiro para poderem estudar, como no colégio fundado pelo cônego Roberto de Sorbon (1201-1274) e que se tornaria o centro da Universidade de Paris. Depois de mais um dia de trabalho e estudo, algumas pessoas querem relaxar um pouco e passam na casa de amigos para jogar cartas, divertimento criado em fins do século XIV, como lembram os desenhos dos naipes e a existência de reis, rainhas e valetes. Outros preferem manter a mente bem ativa e vão praticar xadrez, jogo muito apreciado pela nobreza feudal, daí a presença de peças como os bispos, as torres e as rainhas.

Peças de jogo de xadrez de Carlos Magno
Durante todas essas atividades, pensamos, falamos, lemos e escrevemos em português, sem, na maioria das vezes, nos darmos conta de que esse elemento central do patrimônio cultural brasileiro vem da Idade Média. E não só porque a nossa língua nasceu em Portugal medieval. Como qualquer língua, com o passar do tempo o português falado na sua terra de origem foi se alterando bastante. Muitas características do idioma falado hoje em dia em Portugal – inclusive o que chamamos de sotaque daquele povo – são do século XIX. Mas no Brasil aquele idioma foi introduzido no século XVI por colonos que falavam da mesma forma que cem ou duzentos anos antes, isto é, como em Portugal medieval. Além disso, sendo o Brasil muito vasto e muito distante da metrópole portuguesa, as lentas transformações na língua demoravam mais para chegar aqui. Em resumo, falamos hoje um português mais parecido com o da Idade Média do que com o de Portugal moderno.

Estudos recentes mostraram que idosos analfabetos do interior de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo usavam, em fins do século XX, formas do português dos séculos XIII-XVI. Essas pessoas ainda falam esmolna em vez de “esmola”, pessuir e não “possuir”, despois no lugar de “depois”, preguntar para dizer “perguntar”. Contudo, não se trata propriamente de erros, e sim de exemplos de manutenção de formas antigas, levadas àqueles locais pelos bandeirantes nos séculos XVI e XVII. Devido ao isolamento e à pobreza daquelas regiões, esse modo de falar prolongou-se pelos séculos seguintes.

Basta uma rápida olhada em qualquer aglomerado humano no Brasil, seja no metrô, num estádio de futebol ou simplesmente nas ruas, para se constatar o que todos sabemos: a população brasileira tem alto grau de mestiçagem. Nada estranho, já que a terra era habitada por diferentes tribos indígenas quando os portugueses aqui chegaram, e logo foram introduzidos muitos escravos africanos. O que se ignora com freqüência, porém, é que se os dominadores portugueses aceitaram com facilidade a mestiçagem, é porque ela fazia parte da sua prática social havia muito tempo. Eles resultavam da mistura entre celtas, romanos, germanos, berberes (população do norte africano), árabes, judeus e negros. Importantes historiadores já afirmaram que, pelo menos até o século XIV, os mouros não devem ser considerados uma etnia, e sim uma minoria religiosa, porque, em termos raciais, não havia diferença entre portugueses cristãos e portugueses muçulmanos. Portanto, os portugueses já eram mestiços ao chegarem à América, o que facilitou a mistura racial na colônia.

Estudar História – de qualquer época e de qualquer local – não deve ser tarefa utilitarista, não deve “servir” para alguma coisa específica. A função de seu estudo é mais ampla e importante; é desenvolver o espírito crítico, é exercitar a cidadania. Ninguém pode atingir plenamente a maturidade sem conhecer a própria história, e isso inclui, como não poderia deixar de ser, as fases mais recuadas do nosso passado. Assim, estudar História Medieval é tão legítimo quanto optar por qualquer outro período. Mas não se deve, é claro, desprezar pedagogicamente a relação existente entre a realidade estudada e a realidade do estudante. Neste sentido, pode ser estimulante mostrar que, mesmo no Brasil, a Idade Média, de certa forma, continua viva.


Hilário Franco Júnior é professor da Universidade de São Paulo e autor de A Idade Média, nascimento do Ocidente (Brasiliense, 2006) e de “Raízes medievais do Brasil” (Revista USP, 2008). 
Texto retirado de “Revista de História da Biblioteca Nacional”, publicado em 01/03/2008.

sábado, 14 de agosto de 2010

No Brasil Império, toma lá dá cá garantia vitória do governo

Fonte: Terra
Rosane Soares Santana

O uso da máquina pública para garantir a vitória do partido do governo foi um dos aspectos mais marcantes das eleições no Brasil Império, além da fraude e da violência. A distribuição de cargos, a substituição de juízes, o aumento de salários de servidores e a nomeação de novos presidentes de província - aos quais cabia comandar, com mão de ferro, o processo eleitoral - foram rituais repetidos nas 18 eleições ocorridas durante todo o Segundo Reinado (1840-1889).

Um dos mais destacados estudiosos do Brasil Império, o brasilianista Richard Graham (Clientelismo e Política no Século XIX, Editora UFRJ) observou que a troca de favores entre os políticos e suas clientelas locais e regionais foi o caminho para a realização de eleições pacíficas, sem uso da força. A distribuição de cargos públicos, inclusive na cooptação de lideranças-chave da oposição, foi fundamental para garantir a ordem e assegurar uma aparência de legalidade ao processo eleitoral, possibilitando inserir o País no contexto das nações civilizadas e adeptas da democracia representativa.

O presidente da província era figura estratégica no processo eleitoral, cabendo a ele garantir a vitória do governo no pleito. Com o poder de afastar, substituir e até determinar a aposentadoria antecipada de juízes, anular resultado das apurações e preencher atas eleitorais com nomes de sua preferência, eles conseguiam, quase sempre, garantir a vitória de parlamentares afinados com o poder central.

"O gabinete esforçava-se nomeando presidentes (de província) e chefes de polícia de sua confiança, removendo juízes de direito e dando as comarcas aos seus protegidos, demitindo alguns empregados, reintegrando outros (...) procedendo a todos os atos preparatórios, necessários ao bom êxito da eleição", observa Graham.

O caso baiano

Na Bahia esta prática é anterior ao Segundo Reinado. Em 1835, por exemplo, após a proclamação dos resultados da primeira eleição para a Assembléia Provincial, o presidente da província Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, mandou proceder uma recontagem de votos, que acabou com a inclusão, entre os deputados eleitos, dos nomes dos bacharéis André Corsino Pinto Chichorro da Gama, parente de Antonio Pinto Chichorro da Gama, ex-ministro do Império, e Luiz Barbalho Muniz Fiúza Barreto, futuro Barão de Monjardim. Ambos filhos de famílias proprietárias de engenho no recôncavo baiano, nata da elite política imperial.

Outro exemplo claro de uso da máquina pública nas eleições para favorecimento de aliados governistas, na Bahia imperial, foi o caso de Ignácio Anicleto de Souza, padre, proprietário de engenho, presidente da Câmara de Vereadores(1835) e juiz de paz na localidade de Maragogipe, também na região do recôncavo. Ele concentrava em suas mãos, a um só tempo, poder eclesiástico, econômico, judicial e político, sendo, portanto, peça-chave para garantir a vitória do governo em qualquer eleição.

Em 1838, já secretário da Câmara de Vereadores, quatro meses depois da eleição para a terceira legislatura da Assembléia Provincial, solicitou e teve seu salário equiparado aos salários dos secretários das Câmara de Feira de Santana, segunda vila mais importante da província, e Santo Amaro, que, seguramente, auferiam maiores rendas do que a vila de Maragogipe.

Seu salário simplesmente dobrou, passando para 500 mil réis anuais, cerca de 50% das despesas da Câmara, orçadas em 1.180 mil réis. Isso atesta o imenso poder de barganha do padre-mandão junto à presidência da província, porque possuía poderes para controlar fatia significativa do eleitorado local.

A política de favorecimento era praticada em todos os escalões do governo imperial, com a nomeação de apadrinhados políticos para os cargos da burocracia. Fazia parte da cultura política e não havia quem pudesse vencer uma eleição sem o "toma lá dá cá". Sem alternativa e para manter a longa paz no Império, durante todo o seu reinado D. Pedro II permitiu que, para posições de confiança, fossem negligenciadas as qualificações.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Maragogipe e a Independência da Bahia, o Dois de Julho

Por: Osvaldo Sá
Fotos: Zevaldo Sousa
Retirado do Livro Histórias Menores

A luta pela Independência, na Bahia, foi movimento genuinamente popular, iniciado nas Câmaras de Vereadores de todo o Recôncavo. O combate se processou símile ao dos gregos em Tróia, até, na época, o aspeto de Salvador lembrava a xilogravura da cidade de Príamo, exibida em 1493, na edição de Koberger. Os Heróis de Agámenon iam à recuperação de Helena - a formosa mulher, e os baianos à conquista da Liberdade - a adorável deusa.

O bloqueio da Bahia, pelas forças libertárias, se fez em forma de hemiciclo, de São Francisco do Conde a Jaguaripe. Itaparica foi um ponto avançado, onde se desencadearam grandes pelejas, com o heroísmo de seus bravos marujos improvisados.

As Câmaras, ainda naqueles dias épicos, eram poder excepcional, conquanto houvessem já perdido parte dele para que se fortalecesse, na colônia, o ímpeto controlador da Metrópole.

Logo, porém, que os santamarenses se rebelaram e jorrou generoso o sangue dos cachoeiranos, as Câmaras das demais vilas da circuvizinhança, secundando o anseio do povo, também se insurgiram contra a Côrte Lisbonense, representada na Bahia, pela arrogância militar do general Madeira de Melo, que ali arrotava braveza amparado pela burra dos altos comerciantes lusos, balofos e endinheirados.

Já no início de 1822, os deputados baianos em Lisboa, se não curvaram ao poder colonizador e, às Câmaras desta então Província, enviaram mensagem, indagando delas qual o governo que preferiam, e foi a resposta imediata de que um autônomo e, destarte, logo apoiaram o príncipe regente, quando se insurbodinara este contra os que, no longínquo Portugal, tentavam promover a continuação do Brasil-Colônia, com as mesmas ganas de antes da chegada, aqui, da família real apavorada com a arrancada, na velha Europa, da soldadesca napoleônica.

No governo brasileiro que se constitui em Cachoeira, lá estava o representante da Câmara maragogipana, Capitão-mor Manuel da Silva Coimbra, depois que se decidiu o nosso povo, incondicionalmente, pela emancipação brasileira. Mas, muito mais do que isso, foi a atuação daquele modesto e talentoso, preclaro e bravo, Antonio Pereira Rebouças, na época simples escrevente de cartório, e elevado a Secretário da Junta de Defesa que se constitui na Cachoeira Heróica. E foi ele, sem dúvida, a mola maestra daquela Corporação, com a sua atividade incansável em aliciar elementos para a gloriosa batalha, inclusive de vários maragogipanos seus conterrâneos. Dentre estes, merece relevo Manuel Maurício Rebouças, valoroso até a consumação da guerra e que, consoante notícias veiculadas em velhos jornais, dirigiu um comando a desoras, que assaltou posto inimigo nas imediações da Barra Falsa, defronte à Itaparica, e ali aprendeu diversos barris de pólvora depositados por contingente do birrento Madeira.

Também em território maragogipano, na Barra do Paraguaçu, instalara-se um forte de emergência e, na ação ou vigilância constante que se desenvolveu nesta região, o Fortinho do Paraguaçu, ou Santa Cruz, que se mantinha atento, impossibilitara, na hora precisa, com o pipocar de seu canhoneio, que pressurosa escuna lusa socorresse àquela derrotada em Cachoeira, momentos em que o maragogipano José Pereira de Brito, orientando canoeiros e pescadores nossos, se sobressai em auxílio à comunicação entre comandos da Liberdade.


Fortinho do Paraguaçu - Visão interna do Forte
A vila era toda um frêmito em favor da pátria que nascia. Armas se preparavam, tronchas mas úteis, de feitios vários e primitivos, nas mãos dos brasileiros que se aprimoravam nas oficinas de engenhos de cana e em tendas de ferreiros, que caprichavam na feitura delas.

Entrementes, destituído do comando das forças rebeladas, já em 20 de maio de 1823, foi, procedente do Engenho Canguruçu, em Pirajá, conduzido preso a esta então vila, o general Pedro Labatut, que algum tempo permaneceu na masmorra local, demonstrando isso o alto crédito que o novo comandante das forças de libertação depositava no patriotismo e na bravura dos maragogipanos pela causa da Independência.

É de notar que, mais distante, nos campos de Pirajá, bem jovem ainda, Domingos Rodrigues Seixas, lídima vocação de patriota, se empenhava com denodo, nas batalhas decisivas, acompanhando diversos conterrâneos seus, maragogipanos de sangue forte, que residiam em Nagé. Foi ele, pela sua disposição de luta, agraciado com várias comendas do Império, como também, posteriormente, pelo seu valoroso desempenho na guerra contra o ditador López.

Reportando-nos a tais acontecimentos da pugna memorável, cortejamos que Maragogipe não se inferioriza no quadro verde-amarelo das vilas que mais se valorizaram na luta pela nossa emancipação política. Do pujante ardor de nosso povo, veio-lhe mais tarde à cidade, o título honorífico de "Patriótica". Nenhum mais belo e mais expressivo. O Patriotismo é o heroísmo continuado, permanente. O Heroísmo pode ser o ato de bravura impetuosa de um momento, rápido, fulminante. Já o patriotismo nasce de ação continua e consciente, e, por isto, subsiste, perdura.

Não se devem os baianos do Recôncavo, degladiar em contendas pelo galardão de primeiros libertadores. Primazia de que? Se nas batalhas todos se irmanavam para viver a hora apoteótica da Liberdade! Se o 2 de Julho, o dia em que o general Madeira se mandou do Brasil para Portugal, pertence a todos os baianos, muito mais aos habitantes das então vilas do Recôncavo, e se nos dias da sangrenta epopéia mais vilas houvera mais se rebelariam. O 2 de Julho não é privilégio, é sim um símbolo vivo, agora e sempre, para a conquista de novos triunfos à Liberdade, "a peregrina esposa do Porvir - a noiva do Sol", do hino eterno cantado pelo genial Poeta da Raça.

ESPECIAL: Independência da Bahia, o 2 de Julho

ESPECIAL do A TARDE recria jornal de um ano depois da data histórica.


2 de Julho - Revolta nas ruas da cidade

Um caboclo sobre uma carroça, armado com lança, representando o bravo lutador da guerra, seguido dos ex-combatentes e do povo, abrirá alas ao longo do mesmo percurso do ano passado, quando entraram pela Estrada das Boiadas, passando pela Lapinha, Pelourinho, até o Terreiro de Jesus. Este ano, porém, o que deveria ser motivo de comemoração será manifesto de insatisfação. Quem assistiu à entrada do Exército de Libertação há exato um ano viu um bando de soldados maltrapilhos e famintos — muitos, inclusive, em más condições de saúde —, eufóricos pela liberdade, depois de tanta labuta e derramamento de sangue. Mas, agora, o cortejo é uma forma de reivindicar aquilo que acreditam lhes ser de direito. Refazendo o trajeto da “vitória”, querem “gritar” que, na verdade, para eles, nada mudou. Há rumores, também, de que o movimento não deve parar por aí. Os mais radicais pretendem finalizar o dia com um mata-marotos* , por isso, os portugueses devem estar prevenidos para possíveis emboscadas.

Traição

A revolta dos brasileiros não é ao acaso. O clima na cidade, deste o 2 de julho do ano passado é de revolução e convulsão social. A imagem da capital da Província em paz e alegre logo se desfez, como todos sabem. Enquanto se formava um governo, reiniciaram a tensão e insubordinação do povo. Em média acontece um motim ou sublevação por mês e os mata-marotos são cada vez mais freqüentes. A realidade da população não mudou em nada: brancos pobres, negros escravos e soldados cobram o que lhes foi prometido, sentem-se traídos.

Aqueles que lutaram, porém, não se calam diante dessa realidade. Treinados durante a guerra e armados, representam para o poder instituído um perigo constante e têm feito por onde atemorizá-lo. A maioria civil deseja que o comércio da capital, dominado pelos portugueses que aqui permaneceram, seja comandado por brasileiros. Afinal, dizem, não foi contra os portugueses que lutamos?

Os soldados baianos, a maioria de voluntários, querem ser incorporados às tropas de primeira linha, onde podem ter garantia de certa inserção social do Exército. No caso das tropas arregimentadas sertão afora, como a Encourados do Pedrão, cujo papel na luta foi fundamental, nada de terra ou outros benefícios.

Escravos

Já os escravos exigem a alforria prometida por seus senhores. Como foi noticiado ao longo de todos esses meses, alguns chegaram até a matar seus proprietários. Essa é apenas uma parte da dívida adquirida por aqueles que patrocinaram ideais de liberdade na vida da população, convencendo-os a entrar na guerra.

Para se ter uma idéia, fomos informados por alguns escravos de que muitos senhores de engenho do Recôncavo, por exemplo, durante a guerra, fardaram e armaram multidões de negros e gente do povo, prometendo-lhes terras e/ou alforria. A grande maioria, porém, nada viu até agora. No caso dos escravos, a situação parece ser pior: o Brasil ficou independente, mas a escravidão continua firme por aqui. O ideal de liberdade de quem patrocinou a guerra certamente não é igual ao dos cativos. Estes, afinal, lutaram dos dois lados: dependeu de quem lhes ofereceram melhores vantagens. Mas grande parte, sem dúvida, lutou ao lado dos brasileiros.

A população de brancos pobres, revoltada, crê que a independência chegou para os comerciantes ricos da capital e as elites do Recôncavo. Acertaram e deixaram o povo de fora. Os que participarão do protesto do 2 de Julho, hoje, pretendem expressar a indignação diante de todo esse quadro.

Resumindo a situação: o contingente de soldados baianos, a maioria negra-mestiça, pressiona constantemente as autoridades para garantir sua efetivação. Insubordinações, deserções e rebeldia são constantes. Por sua vez, fatos indicam que as autoridades, logo após o 2 de julho do ano passado, estão interessadas em desmobilizá-los. Por esse motivo, também, mantêm por aqui tropas vindas de outras províncias, causando intranqüilidades entre ambas.

Interior

O clima de inquietação após a Independência não se limita à capital baiana. Desde o início do ano, por exemplo, é de conhecimento de todos as dificuldades pelas quais estão passando o povo do Recôncavo e cercanias, com malfeitores, ladrões e saqueadores. Alguns casos dão conta de ações cometidas por ex-combatentes.

Tivemos acesso à uma carta assinada pelo presidente Francisco Vianna, enviada ao Ouvidor Geral do Crime, datada de 11 de fevereiro deste ano, na qual cita a ação de ex-combatentes em Itaparica. Diz o seguinte: “Na Ilha de Itaparica tem havido algumas desordens das quais podem seguir-se grandes incovenientes e desassossego aos moradores daquela Ilha por se acharem divididos em partidos os habitantes dela, fomentados por oficiais de segunda Linha de sua guarnição”. O trecho deixa claro a participação dos soldados.

O atraso no pagamento dos soldos levou muitos dos soldados ex-combatentes a desertar. Esses desertores, debandados, também acabam sendo fonte de temores para a população das vilas dos interiores. Outro documento que chegou ao conhecimento deste jornal, é datado de 30 de janeiro também assinado pelo presidente Vianna, endereçado ao Capitão-Mor das Ordenanças da Vila de Cachoeira. Nesta correspondência ele responde à reclamação do Capitão, “de falta de gente que tem de ordenanças”, para conter a desordem.

Por aí se vê que a Independência da Bahia e do Brasil — como se sabe, os baianos crêem no 7 de setembro do Imperador D. Pedro como gesto burocrático —, no 2 de julho passado, ainda não trouxe benefícios efetivos a grande parte da população. Por isso, brancos pobres, negros, escravos e demais lutadores durante a guerra protestam.

2 de Julho - Entenda o caso

Do fatídico 3 de novembro de 1821, quando Madeira de Melo tomou o poder da cidade, até o aclamado 2 de julho do ano passado, a população da Cidade da Bahia e aqueles que vivem no Recôncavo e sertão foram testemunhas de uma guerra sangrenta. A guerra pela independência pode ser contada através de acontecimentos marcantes, os quais relembramos a seguir...

Fevereiro de 1822

Uma Carta Régia datada de 9 de dezembro de 1821 chegou a Salvador nomeando o Governador das Armas, o brigadeiro Luís Madeira de Melo, que assumiu plenos poderes na Província, em substituição ao brasileiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães. Madeira exigiu que todos os comandantes reconhecessem sua autoridade. O clima na cidade tornou-se tenso e ameaçador. Muitos migram para o interior.

junho de 1822

Batalha de Cachoeira. Enquanto celebravam o Te Deum na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a canhoeira de Madeira de Melo disparou o primeiro tiro contra a Vila.

Foi criada uma Junta Conciliadora de Defesa Interina para dirigir a reação nacionalista.

São convocados, a todo instante, pessoas de outras vilas para a criação de um Exército Brasileiro. São organizadas companhias como a Encourados e Voluntários do Príncipe, mais conhecida como Periquito, na qual luta a soldado Maria Quitéria.

Setembro e Outubro de 1822

No dia 7, D . Pedro I declara, em São Paulo, a Independência do Brasil, mas sabe que ainda há, na Bahia, forte resistência portuguesa.

O general francês Pedro Labatut, comandante do Exército Pacificador, chega à Bahia, a mando de D. Pedro I, com o intuito de organizar o Exército Brasileiro. Saiu do Rio a 14 de julho, junto com 38 oficiais, 260 soldados, seis canhões, cinco mil espingardas, 500 clavonetes, 500 pistolas, duas mil lanças e cinco mil sabres. Antes de chegar à Bahia, passou por Alagoas, Pernambuco e Sergipe, recrutando homens e armas. Logo na chegada, assumiu o comando do quartel improvisado de Pirajá. Tentou negociar paz com Madeira de Melo, sem êxito.

Labatut organizou o Exército em brigadas posicionadas numa espécie de triângulo, fechando o cerco às entradas de Salvador: Cabrito-Pirajá; Armações (depois de Itapuã) e Centro. Esta última comandada pelo tenente-coronel Joaquim José de Lima e Silva. A idéia era deixar padecer o Exército português nos limites da cidade. Labatut ganha a simpatia dos soldados, mas a aristocracia rural brasileira sabe que ele obedece a ordens de D. Pedro.

Novembro de 1822

No dia 8, Batalha de Pirajá. O conflito entre portugueses e o exército brasileiro (formado por negros livres, escravos, sertanejos, índios e portugueses “vira-casaca”) foi o mais sangrento até então. Para Madeira de Melo, derrubar Pirajá abriria caminhos para a Estrada das Boaiadas, que desemboca no Recôncavo.

A Batalha de Pirajá foi decisiva para o desfecho da guerra. Foi a partir dela que o cerco à cidade ficou completo. Isolados, os portugueses começaram a ter sérios problemas para o abastecimento de comida. Não se sabe ao certo detalhes da luta, mas a versão mais aceita é a da superação do Exército brasileiro. O que faltava em números às tropas nacionais sobrou em entusiasmo que lhes permitiu a vitória.

Março de 1823

Chega à Bahia o almirante Lord Cochrane, para comandar um exército mercantil. Ele foi enviado por José Bonifácio de Andrada e Silva. A esquadra era formada por uma nau, uma fragata, duas corvetas e dois brigues. Na capital da Bahia, o povo passa fome e privação de todo tipo, inclusive os portugueses.

Maio de 1823

General Labatut foi preso na noite do dia 20 de maio, pelo próprios brasileiros, depois de uma reunião entre comandantes das brigadas. O verdadeiro motivo para a deposição de Labatut foi o de impedi-lo de governar a Província tão logo os portugueses fossem derrotados — uma manobra da elite da cana-de-açúcar. Mas a alegação foi a de que ele estava usando de violência e brutalidade com seu exército. Ele ficou detido na Casa da Câmara para ser enviado ao Rio. O comando do Exército foi assumido por Lima e Silva, que criou batalhões de negros libertos e índios, em nome da liberdade do Brasil.

Junho de 1823

Negociações diplomáticas entre o Exército Brasileiro e Madeira de Melo, intermediadas por meio do rico industrial de óleo de baleia Inácio Cunha Menezes, o Visconde do Rio Vermelho, são freqüentes. Tanto os que vivem nos limites da capital da Bahia quanto o Exército Brasileiro passam por privações. Os brasileiros contam com 10 mil 139 homens; os portugueses não chegam a cinco mil homens e não têm suprimentos para mais de 40 dias.

julho de 1823

Madeira de Melo deixa a capital da Bahia na madrugada do dia 2 de julho, rumo ao Atlântico Sul. As tropas, companhias e batalhões, enfim, o Exército de Libertação Brasileiro, eufórico, rumou para Salvador e tomou a cidade, comandado por Lima e Silva. A cidade, efusiva e alegre, embora os tempos de privação, comemorou a saída dos portugueses e a entrada de seus heróis: índios, negros, caboclos, sertanejos. Passaram pela Lapinha, Soledade, Barbalho, Praça Barão do Triunfo, Carmo, Pelourinho até o Terreiro de Jesus.


2 de Julho - O fuxico

Portugal

Não estranhe se o seu vizinho que antes se chamava Manuel Pereira declarar-se agora Ubiraci Paraguaçu. Desde o ano passado vem sendo notado um fenômeno curioso, fruto do nacionalismo que toma conta da jovem pátria brasileira. Sobrenomes e nomes que lembrem o colonizador português estão sendo abandonados. Em seu lugar prevalecem, agora, denominações da geografia, fauna e flora brasileiras. Nomes indígenas são campeões. Faz-se apelo ao bom senso, principalmente na hora de honrar compromissos anteriormente assumidos.

Quando será?

A Bahia está em festa comemorando, hoje, a sua participação decisiva para que o Brasil consolidasse sua independência. Sangue baiano regou o solo, semeando os frutos de liberdade que se colhem agora. Pois bem! Quando a cidade do Salvador será, então, premiada com a visita da augusta pessoa do imperador? Nos bastidores da política baiana já correm rumores de que essa demora pode se desenrolar em crise séria.

Quem avisa...

Aliás, a tão respeitada imagem do imperador anda arranhada depois da publicação da Constituição em março deste ano. A magna carta da nação, que se esperava ser o espelho dos ideais libertários que sedimentaram a independência, acabou tomando a forma absolutista, inclusive, sem a participação da assembléia constituinte, dissolvida por sua majestade. A insatisfação que culminou na saída de José Bonifácio do governo tem crescido rapidamente.

Amigo é

Sua majestade precisa de melhores conselheiros. A corte tem sido sacudida por boatos da falta de atenção de D. Pedro com a sua esposa legítima, a imperatriz dona Leopoldina. Parece que a coroa imperial não suprimiu o gosto por variadas companhias do então princípe herdeiro. Há três anos, a casa de Bragança quase vai à loucura em busca da noiva ideal, afinal as monarquias européias não viam com bons olhos a união com a casa de Bragança, que não tinha lá uma biografia tão à altura do que eles consideravam hábitos típicos de sangue azul. Uma figura com muito trânsito na corte afirma que a situação está ficando insustentável.

A bela da serra

Diz-se na corte que o coração imperial tem batido mais forte quando apenas se menciona uma certa senhora. Os comentários venenosos, informa uma fonte palaciana, não têm razão de ser. Explica que os maldosos de plantão não se acostumaram ainda a hábitos novos, vindo de alguém de espírito liberal como o imperador que não vê mal algum em privar em seu círculo de amigos mais próximo de companhias femininas. Desde a sua visita a São Paulo, em cujo retorno deu o brado libertador, D. Pedro tem fortalecido seus laços de amizade com uma jovem senhora de 25 anos chamada Domitilia de Castro e Mello, a quem pensa seriamente em nomear Marquesa de Santos, devido à sua nobreza de caráter. O mais, afirma o informante, é fofoca.

Moderação

Os poderes absolutos dados ao imperador pela Constituição estão assanhando ânimos perigosos. Chega a notícia que em Pernambuco há risco de se repetir situação parecida com a de 1817, quando aconteceu um levante separatista por lá. Fala-se que, hoje, deve estourar um movimento fincado em ideais liberais que os descontentes dizem ter sido esquecido depois da consolidação da Independência. Eles investem em constituir uma República.


2 de Julho - Bravos de nossa pátria amada

Senhoras e senhores que conquistaram lugar cativo no diz-que-diz do meio social

Por onde anda Luís Lopes?

A Batalha de Pirajá, ocorrida em 8 de novembro de 1822, foi um dos conflitos mais importantes da guerra contra os portugueses. Foi essa vitória que consolidou o cerco a Salvador, pressionando o general português Madeira de Mello a deixar a cidade com suas tropas, no 2 de julho do ano passado. A notícia que chegou aos ouvidos do povo, repassada pelo conhecido poeta Titara, testemunha ocular do conflito, foi a da figura do corneteiro Luís Lopes. O corneta, segundo Titara, confundiu-se ou desobecedeu às ordens do general Barros Falcão, que pediu que desse o toque de recolher.

Lopes, porém, tocou os toques de “cavalaria avançar” e “cavalaria degolar”. Os portugueses fugiram. De vontade própria ou não, Lopes acabou por ser a peça fundamental na batalha. Tentamos contato com o general Barros Falcão, para esclarecer o episódio, mas ele se recusa a falar sobre o assunto. Depois de muito procurar, encontramos o corneteiro Luis Lopes morando em local recluso, o qual nos pede para não identificar. Com ele conversamos para tentar elucidar as dúvidas.

Perguntamos se ele desobedeceu às ordens de Barros Falcão ou se, na verdade, confundiu-se na hora de tocar sua corneta. Mas Lopes foi evasivo. Disse que o importante, de fato, foi a fuga dos portugueses, o que determinou, meses depois, a vitória do Exército de Libertação. Disse, também, que dá de ombros às pilhérias envolvendo seu nome e que o povo, afinal, acredita no que lhe soa melhor aos ouvidos.

Sentado numa cadeira, ao lado de sua companheira brasileira — o corneteiro é português, convertido aos ideiais brasileiros — e tomando água, Lopes finalizou nossa conversa com bom humor, dizendo que o juízo que dele fazem pouco importa, pois certamente ele, um mero corneteiro, será lembrado, nos próximos anos, quando o assunto for Independência da Bahia. Para um simples corneteiro, disse ainda, ser imortalizado ou até mesmo virar uma lenda será uma honra.

Moda feminina no Exército

Terror de pais e maridos, que temem ver seu exemplo de abraçar um ofício típico de homens vir a ser copiado por senhoras e senhoritas, dona Maria Quitéria de Jesus, heroína das guerras de independência, não segue todo o tempo o modelo militar. A leonina, que fará daqui a duas semanas 27 anos, revelou durante a própria batalha sua essência feminina por baixo da bravura do soldado.

Se a princípio usou a farda do cunhado para se alistar na frente de batalha, pois não havia precedentes de mulheres envolvidas em tais feitos, dona Quitéria, ao ser revelada sua verdadeira identidade, providenciou um uniforme diferente.

Ela deu um toque especial ao fardamento oficial. Criou um saiote, além de ter enfeitado seu capacete com um vistoso penacho. A moça, em agosto do ano passado, foi condecorada no Rio de Janeiro por sua majestade o imperador, Dom Pedro I, como “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro” e desde aquela data passou a receber o soldo de “alferes de linha”.

Embora muito reservada e de poucas palavras, ela deixou escapar, durante a cerimônia, que tem um noivo de nome Gabriel Pereira de Brito, o que significa um casamento à vista.

Quem viu Maria Quitéria de perto, como a inglesa Maria Graham, que fez questão de registrar o acontecimento em diário, ficou impressionado com a sua beleza de traços marcantes, típica do sertão da Bahia. Mas a discrição da heroína fala mais alto e, atualmente, ela anda recolhida, sem aparições dignas de registro.

Tambor Soledade

Neste primeiro aniversário da Independência, vale lembrar exemplos de heroísmo, como o do soldado
Soledade, que tinha por função passar ordens à tropa por meio dos toques do tambor. Caiu atingido por uma canhoneira portuguesa, em Cachoeira, enquanto as autoridades locais se refugiavam no prédio da Câmara Municipal.

Fica a lição do Tambor Soledade, como ficou conhecido o herói popular, que terminou servindo de escudo humano.

João das Botas

Outro bravo, o almirante João das Botas. Durante a batalha, ele sabia que tinha poucas chances contra a Marinha portuguesa, famosa por suas estratégias militares. No entanto, acreditava no chamado elemento surpresa. Armou alguns aparentemente inofensivos saveiros com canhoneiras e mandou bomba nos lusitanos, que sairam corridos pela flotilha itaparicana, como ficou conhecido o conjunto heróico de pequenas embarcações a vela.

Joana Angélica

A memória popular já reserva um espaço especial para manter acesa a admiração aos mártires da conquista da liberdade. Personagem de uma das mais tocantes histórias dessa saga, a religiosa Joana Angélica está envolta em mistério. Não se sabe ao certo se esse seria realmente o seu nome de batismo, pois as religiosas tinham o costume de assumir um outro depois de consagradas. Nem a Igreja, nem a Ordem das Religiosas Concepcionistas manifestaram-se sobre o assunto. A abadessa morreu tentando impedir a entrada de soldados portugueses no Convento da Lapa em 19 de fevereiro de 1822. Os lusitanos imaginavam conseguir uma passagem para atacar o quartel da Mouraria, vizinho ao claustro, que estava em poder brasileiro. A morte heróica da freira ainda hoje comove a cidade.

Thomas Cochrane

O termo Lord usado à frente do nome do almirante Thomas Cochrane não é de enfeite, mas real. O responsável pelo sucesso da estratégia brasileira no mar, durante a guerra da Independência na Bahia, tem o título de duque em seu país natal. Mas nem por isso ele exita em cumprir seu papel de guerreiro à risca. Diferentemente do francês Labatut, não se envolveu com as questões nacionais, nem criou nenhum tipo de laço com os brasileiros.

Inclusive, seguiu até Lisboa o séquito fugitivo do comandante português Madeira de Melo com a justificativa de que tinha parte no que os navios portugueses tivessem de valor, bem semelhante às pilhagens piratas.

Cipriano Barata

O baiano Cipriano José Barata de Almeida sabe realmente o que é incomodar. Embora esteja preso por ordem do imperador, ele é apontado como um dos idealistas que influenciam o levante que dizem estar pronto para explodir, hoje, na província de Pernambuco.

Ao seu lado estaria um ardoroso admirador das suas idéias, o frei carmelita Joaquim do Amor Divino, conhecido como frei Caneca (ele vendia esse objeto na infância). Cipriano Barata é um intelectual, tendo estudado em Coimbra onde recebeu as influências liberais que nortearam os revolucionários da França. Por aqui esteve metido na Conjuração Baiana de 1798, conhecida como “Revolução dos Alfaiates”. Em Pernambuco, participou ativamente do movimento separatista de 1817.

Chegou a ser deputado nas Cortes de Lisboa e na Assembléia Constituinte, dissolvida em novembro do ano passado por Dom Pedro I. Tem se destacado como um jornalista combativo na defesa dos valores liberais e já é chamado de “o homem de todas as revoluções”.

A briga de um general

Responsável pela estratégia que deu vitória às tropas do Exército Libertador na Bahia, o francês Pedro Labatut tem lutado para ser reincorporado ao Exército brasileiro e receber proventos de acordo com a posição de general que ocupou à frente das tropas desde novembro de 1822.

A briga promete ser longa, pois Labatut é visto como pessoa não grata junto às autoridades militares. É a história de um herói que virou vilão em questão de meses.

Labatut veio ao Brasil contratado pelo imperador Dom Pedro I, pois na Bahia sobrava fervor de batalha e faltavam estratégia e treino militar. Conhecido por impor rigor e disciplina, assim que chegou organizou o Exército em três brigadas.

Além de ter vencido uma batalha em 8 de novembro de 1822, a estratégia de Labatut submeteu as tropas do português Madeira de Melo às dificuldades de abastecimento o que o obrigou a abandonar a cidade em 2 de julho de 1823.

Mas Labatut não pôde ver o resultado do seu trabalho. Estava preso, em Maragogipe, desde maio, quando foi deposto de sua função de comandante. Dentre as acusações de ser rigoroso com a tropa à beira da violência, estava até a de que ele incitava a rebelião de escravos por ter comandado pelotões onde havia a presença de negros. Mas há quem diga que o seu afastamento foi apenas para que um estrangeiro não entrasse à frente dos brasileiros na cidade vitoriosa.

Passado um ano das lutas da Independência, já há na cidade quem demonstre uma certa simpatia pelo francês que, diferentemente do Lord Cochrane, também contratado por Dom Pedro para ajudar na guerra organizando a esquadra, acabou envolvido emocionalmente com a causa.


2 de Julho - Estamos à beira de uma guerra civil

Asituação política na cidade da Bahia é preocupante. Bem diferente do ano passado, quando se chegava ao término da gloriosa campanha pela liberdade, há muita tensão e crescimento de boatos sobre a possível eclosão de uma guerra civil

CLEIDIANA RAMOS

As lideranças que tornaram possível a independência da Bahia já não se entendem. Tanto no poder militar, como no civil, formados por grandes proprietários rurais — donos de engenho e plantadores de fumo, cana e algodão — sobram ainda divergências que têm como ponto central a posição que a Bahia deve ter em relação ao poder sediado no Rio de Janeiro.

Para muitos que militaram pela causa da Independência, as províncias deveriam fazer parte de uma só nação, mas manter sua autonomia. Os que têm esse entendimento são minoria, é certo, mas não se conformam com os rumos tomados pelo Império do Brasil, onde as decisões são cada vez mais centralizadas na corte, sediada no Rio.

A proclamação da Constituição há quatro meses aumentou o descontentamento dos que pensam dessa forma. Por meio do Poder Moderador, sua majestade imperial está dotada de uma força política absoluta*.

Já uma outra parte das lideranças considera que a união do Império é o melhor remédio contra o risco sempre presente de levantes populares. As lutas da Independência acenderam anseios, como a libertação dos escravos, que têm preocupado muito as autoridades em relação à manutenção da ordem pública.

A tropa que deveria ser motivo de sossego é a maior preocupação. Muitos dos militares residentes em Salvador são de outras províncias e aguardam o retorno para as suas terras de origem, mas o governo não abre mão da sua presença, considerada um seguro contra a insatisfação dos soldados nativos. Muitos desses são mestiços e querem que as autoridades lhes dêem os mesmos direitos que os outros têm.

É uma situação de risco, pois ao mesmo tempo em que as tropas de outras províncias são usadas pelas autoridades como segurança, há o temor de que ocorram tumultos entre elas e as formadas por nativos.

O pior é que os problemas não se resumem à capital, mas se estendem pelas vilas circunvizinhas O presidente da província, Francisco Vicente Viana, tem enviado correspondências a locais como Maragogipe e Cachoeira exortando as autoridades locais a adotarem providências contra atos de desordem que, inclusive, envolvem ex-combatentes.

O meio militar baiano é um setor onde a agitação já é rotina e de onde, a qualquer momento, pode eclodir um movimento de conotações políticas graves.

Crescem os rumores de que Portugal, comandado pelo governo absolutista de dom Miguel, tem planos de invadir a Bahia. A decisão do imperador de chamar de volta ao Rio de Janeiro uma esquadra que bloqueava a entrada do porto do Recife tem sido interpretada, em Pernambuco e na Bahia, como um certo auxílio de Dom Pedro à idéia de invasão. Já começa a incomodar a nacionalidade portuguesa do imperador, num clima em que a animosidade contra lusitanos tem gerado vários tumultos na cidade desde a entrada das tropas libertadoras.

Na província de Pernambuco, essa notícia de uma possível invasão portuguesa, somada ao descontentamento pelo formato constitucional que dá plenos poderes a sua majestade imperial, transformou-se num barril de pólvora. Há rumores de que, ainda hoje, pode eclodir por lá um movimento que é estruturado sobre uma palavra que causa calafrios nas autoridades brasileiras: República.

Neste levante, inclusive, estaria envolvido o baiano e conhecido participante de várias agitações, Cipriano Barata, e o frei carmelita, que participou do movimento separatista registrado naquela localidade em 1817, Joaquim do Amor Divino, mais conhecido como Frei Caneca.

Medo

Na cidade da Bahia, já não é necessária uma desculpa como invasão para que portugueses que aqui ficaram depois da partida de Madeira de Melo e nativos troquem insultos.

Essas ofensas não ficam apenas no campo verbal, mas muitas vezes terminam em quebra-quebra de lojas e pancadaria.

Os tumultos se repetem nos quartéis onde a agitação política junta-se ao descontentamento por motivos vários, inclusive atraso de soldos. O 3º Batalhão de Caçadores começa a se transformar numa crescente fonte de preocupação para o governo da província.

Já incomoda a fidelidade incondicional da tropa ao comandante José Antônio da Silva Castro, seu líder na guerra da Independência. Na avaliação das autoridades, um comando militar forte numa tropa surgida do meio do povo (inclusive sua denominação anterior era a de Voluntários do Princípe Dom Pedro) é um risco. Conhecidos como Periquitos, devido à farda verde, depois da Guerra eles foram incorporados ao Exército com o nome de Batalhão de Caçadores.

Comenta-se que o 3º Batalhão tem força para arregimentar outros e que só aguardam um pretexto para promover uma rebelião, o que pode acontecer caso o governador de armas Felisberto Gomes Caldeira insista num propósito que dizem já ter como firme, o de destituir o comandante Castro.

Além disso, Caldeira é tido não só por soldados, mas também por oficiais, como um homem chegado ao despotismo e tirania. Enfim, não será surpresa se essa cidade da Bahia terminar o ano mergulhada em um levante de proporções, das quais só o Senhor do Bonfim poderá nos proteger.


2 de Julho - A Constituição de 1824

O repúdio à Carta vem, principalmente, dos grupos que esperavam maior autonomia para as 19 províncias que formam agora o Brasil. Esse princípio perdeu qualquer chance de se tornar realidade já em novembro do ano passado, quando o imperador dissolveu a Assembléia Constituinte. Ali estava a deixa de que uma centralização do poder estava a caminho.

Embora Dom Pedro I tenha declarado que o conteúdo seria duas vezes mais liberal do que o proposto pela constituinte, o que se viu foi o resultado do trabalho dos integrantes de um Conselho de Estado totalmente nomeado por ele.

O que mais tem incomodado, principalmente os proprietários rurais de províncias como Bahia e Pernambuco, é o sentimento de que estão sendo deixados de lado na, cada vez maior centralização do poder no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Não custa lembrar que o Brasil ainda está começando seu caminho como uma nação e que ainda são muito fortes as identidades regionais, principalmente no Nordeste. Há, por exemplo, aqueles que se sentem bem mais baianos do que propriamente brasileiros.

O poder no Brasil

Poder Moderador

Representado pelo imperador Dom Pedro I. Tem função de árbitro sobre os outros três e plenos poderes sobre eles

Poder Executivo

Formado pelos ministros de Estado é chefiado pelo imperador

Poder Legislativo

Formado por duas Câmaras- dos Deputados e Senadores- tem como principal função fazer as leis

Poder Judicial

Formado pelos Tribunais de Justiça e seus juízes

A Pessoa do Imperador é inviolável, e Sagrada: Ele não está sujeito a responsabilidade alguma”.

Poder

A nova Constituição dá plenos poderes ao imperador. Sua majestade imperial conseguiu recuperar o que em sua augusta avaliação a constituinte queria lhe tomar. E ganhou muito mais do que sonhou.

Pela nova carta, além dos poderes Executivo, Legislativo e Judicial, foi criado o Poder Moderador. Ele é exercido por Dom Pedro. Em teoria, deve ser exercido com neutralidade para garantir que os outros três trabalhem em harmonia.

Mas, na prática, se houver uma questão envolvendo Legislativo e Executivo, à qual o imperador, que exerce o segundo citado, dará razão? Enfim, o Moderador é de fato o núcleo do poder, o que dá a Dom Pedro um instrumento, para o exercício da sua vontade pessoal ou, melhor, do seu absolutismo.

Cabe ao Poder Moderador aprovar ou não as medidas do Legislativo, dissolver a Câmara dos Deputados e nomear senadores vitalícios, bem como escolher e demitir os presidentes das províncias. É ainda de competência do imperador nomear ou demitir os juízes, o que coloca o Judicial sob o seu controle.

Uma outra questão de profundo desagrado é o comando do Exército. Uma parcela considerável do Legislativo gostaria de ter ingerência sobre ele, mas é o imperador quem tem esse poder.

Até os homens da religião estão submetidos a Dom Pedro, pois a Constituição, que declarou o catolicismo como religião oficial do Estado brasileiro, estabeleceu o regime de padroado. Dessa forma, os clérigos são pagos pelo governo, o que os torna funcionários públicos. O imperador pode nomear sacerdotes para cargos eclesiásticos e lhes dar consentimento prévio para a aplicação das decisões que vierem do papado.

Cidadãos

É certo que a Constituição desagradou e muito. Mas também há aqueles que consideram a Lei um grande avanço ao menos para a concessão de algumas garantias aos cidadãos brasileiros. Há, por exemplo, a determinação de respeito à inviolabilidade dos direitos civis e políticos, instituindo a segurança individual e a propriedade.

A Constituição estabelece uma religião oficial para o império — a Católica, Apostólica Romana — mas dá liberdade de convicção religiosa e do culto privado contanto que haja respeito à crença oficial do Estado e respeito à moral pública.

Está assegurada a liberdade de pensamento e sua expressão, inclusive por meio da imprensa, sem censura, devendo os excessos ser respondidos na forma da Lei. A prisão só acontecerá por ordem escrita de autoridade legítima, exceto em caso de flagrante delito, inclusive com punição para abuso de poder.

O lar do cidadão brasileiro é inviolável e todos são considerados iguais perante a lei. Estão proibidas penas cruéis como açoites, tortura e marca de ferro quente. As penalidades de cada pessoa são próprias, não existindo a possibilidade de que elas passem para os seus familiares.

Nenhum tipo de trabalho, cultura, indústria ou comércio pode ser proibido desde que não ofenda os costumes públicos, segurança e saúde dos cidadãos. O segredo das cartas é inviolável e a Administração dos
Correios passa a ser responsabilizada por qualquer infração a esse princípio.

À primeira vista, pode parecer um grande avanço para a incipiente cidadania brasileira, mas há que se levar em consideração o que significa, atualmente, ser cidadão. Nesta categoria, segundo a própria Constituição, são os nascidos no Brasil, mas escravos — a não ser os já nascidos livres ou aqueles com liberdade assegurada — não estão reconhecidos nesse particular.

Os escravos perdem nesse quesito até para os nascidos em Portugal e suas possessões. Estes são considerados cidadãos brasileiros desde que à época da Independência já tivessem com residência em território brasileiro e adesão à causa libertadora de forma explícita ou implícita, neste último caso, pela sua permanência.

Não custa lembrar que muitos negros aderiram às lutas sonhando com a liberdade, o que não aconteceu até agora. Pelo contrário, os proprietários rurais defendem um sistema que mantenha a situação dessa categoria exatamente como estava antes da Independência.

A Constituição assegura, por exemplo, o voto para escolha de deputados, mas o exercício desse direito é limitadíssimo. Primeiro porque a escolha é indireta. Elege-se inicialmente um corpo eleitoral que, posteriormente, vai escolher os membros da Câmara.

O principal critério para votar e ser votado é a renda, o que já exclui de forma considerável a população brasileira. No Brasil, não há meio termo entre elite e povo. Ou se é de um ou de outro. A primeira categoria é formada por quem tem considerável renda. Já a segunda é composta por homens livres e pobres. Os escravos não são sequer levados em consideração.

Se, formalmente, a Constituição estabelece cidadãos, na prática, diante da configuração política que ela oferece, o que existe de fato são os súditos de um império absolutista. Resta saber como se dará a relação entre essa realidade e as idéias de maior liberdade que estão longe de ter se acomodado no Brasil.

O brasil segundo a constituição

O Império do Brasil é associação política dos cidadãos brasileiros. Eles formam uma nação livre e independente.

O território do Brasil está dividido em províncias na forma em que atualmente se acha. Elas podem ser subdivididas a bem do Estado.

O governo é monárquico*, hereditário, constitucional e representativo.

A dinastia imperante é a do Senhor Dom Pedro I atual Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil

A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras têm culto permitido, desde que seja doméstico ou particular em casas para isso destinadas e que não tenham forma exterior de templo.


2 de Julho - A cidade

1824

Porto das Américas. Nossa Cidade da Bahia é parada obrigatória para o abastecimento, aguada, estaleiro e hospital para todas as embarcações que partem da Europa para o Oriente. Daqui partem com os nossos açúcar, fumo, café, algodão. Aqui se encontra gente vinda de todas as partes, o que faz o fervilhar das ruas, vielas ou grandes bailes nobres. A cidade dos ricos comerciantes, negros escravos ou forros, mestiços, baianos.

"A gente fina e rica (ingleses, franceses, parte dos portugueses) estendia-se em direção a São Bento, à Vitória,ao Desterro, à Saúde e a Santo Antônio Além do Carmo"

"A grandeza da povoação não consistia no corpo dela, mas em seis famosos bairros, de ruas largas e asseadas, o principal dos quais, o maior e mais aprazível era o de S. Bento. A Vila Velha e a Vitória eram cheias de quintas de residência e veraneio, rodeadas de casinhas humildes dos pescadores e roceiros"

"Os pescadores faziam as suas casas no salgado, perto da ermida de N. Sra. da Conceição"

"Em torno das fontes, situadas no sopé das numerosas ladeiras, surgiam as hortas, as ruas habitadas pelos sapateiros, pelos ourives, pelos algibebes"

"A gentinha adensava-se, com os mercadores, que não ocupavam uma posição social importante, na Praia (...). A Praia, embora habitada por muitos ricos mercadores (...), era um labirinto de vielas estreitas e sujas; na parte eminente é que ficava a dilatada cidade, com capacíssimas ruas, grandes edifícios, templos e casas públicas"

Diário de viagem

"O comércio da Bahia é muito ativo; essa cidade serve de entreposto para os produtos do sertão, que por ela se exportam para as diversas partes do mundo; motivo pelo qual se encontram em seu porto navios de todas as nacionalidades" 
Príncipe de Wied-Neuwied Maximiliano, "Viagens ao Brasil nos anos de 1815 a 1817"

"Há um ativo e colorido comércio de lojas sortidas, de fazendas inglesas, chapéus, cutelaria, artigos franceses de moda, linhos alemães, ferragens, produtos de Nuremberg e tecidos de algodão grosseiro"
Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich Phillip von Martius, "Viagem ao Brasil"

"Os portugueses que ganharam dinheiro no negócio do açúcar, do fumo, do gado, os altos funcionários públicos, os magistrados, os mercadores de logea, os reis do tráfico negreiro, os chefes das grandes casas de importação, todos os que não quiseram atirar-se à aventura do ouro e dos diamantes, à fundação dos novos currais, à abertura de caminhos para o oeste, faziam da "povoação grande forte" de Tomé de Souza, um centro aristocrático de imperturbável estabilidade"
Povoamento da Cidade do Salvador - Thales de Azevedo

Fonte: "Povoamento da Cidade do Salvador", Thales de Azevedo, 1949.