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sábado, 1 de dezembro de 2012

Padres da Paróquia de São Bartolomeu de Maragogipe


A história de Maragogipe está ligada ao culto de São Bartolomeu que data dos primórdios da sua vida, da época em que iniciava a sua formação, quando saía das trevas da vida selvagem para iniciar a sua marcha gloriosa na senda do progresso sob o signo o abençoado da Cruz Redentora.

A devoção dos maragogipanos para com o Glorioso Apóstolo vem também dos seus primeiros dias, do tempo em que era ainda uma fazenda pertencente ao luso Bartolomeu Gato, e nela, encontramos o primeiro vigário da Paróquia de São Bartolomeu. A lista abaixo retrata um pouco desta história, as datas ao lado do nome é o ano de início de sua vida enquanto evangelizador. Todavia, em diversos nomes nós não encontramos a data específica, pois somente há deduções. Caso o leitor possa estar contribuindo com a mudança desta lista, pois ainda sim, acreditamos que esteja faltando alguns nomes, será muitíssimo interessante. Agradecemos antecipadamente. (Leia mais sobre "O Culto de São Bartolomeu", escrito por Odilardo Uzeda Rodrigues)

  1. Manoel Coelho Gatto (1682)
  2. Manoel Lopes de Miranda (Falecido em 1728)
  3. Manoel Pereira de Souza (1728)
  4. Joaquim Gonçalves dos Santos
  5. João dos Santos
  6. Antônio Andrade da Silva
  7. Florêncio Alves
  8. Manoel José da Silva
  9. Francisco Ferreira Pacheco (1778)
  10. João Dário de Andrade 
  11. Manoel José da Silva Reis
  12. José Osório Francisco de Andrade (1806)
  13. Francisco A. Ferreira
  14. José Joaquim Andrade (1822)
  15. José da Mota Brandão
  16. Pedro Vieira dos Santos (1831)
  17. Pedro da Silva Freire
  18. Inácio Joaquim Pinto (1842)
  19. Fernando Meireles Pinto Barreto (1850)
  20. Antônio Florêncio de Abreu Contreiras (1860)
  21. José de Araújo Mato Grosso (1862)
  22. Leopoldo Gonçalves Costa
  23. João Pinto Barreto
  24. Inácio Aniceto de Souza
  25. Manoel Antônio de Oliveira (1891)
  26. Roberto da Costa Cerqueira
  27. Adolfo José da Costa Cerqueira (1902)
  28. Zacarias Mato Grosso (1929)
  29. Florêncio Sizínio Vieira (1929)
  30. Frei Julião Ortiz A. R. (1930)
  31. José Gomes Loureiro
  32. Florisvaldo José de Souza (1942)
  33. Carlos Antônio Fuertes Bacelar (1962)
  34. Francisco Muniz Barreto (1976)
  35. Carlos Rubens da Silva Araújo (1981)
  36. Roberto José Gonçalves (1985)
  37. Reginaldo Almeida Morais - pároco  (05 de maio de 1990) 
  38. Matheus de Lima Leal - vigário paroquial 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Exercícios de História Medieval: Do Feudalismo à Crise do Século XIV (Ensino Médio)


Sabendo que grande parte dos professores e estudantes buscam pelas soluções dos seus problemas na Internet, resolvi postar neste espaço alguns exercícios retirados de provas de vestibulares. Vale ressaltar que será muito mais importante, o professor modificar os exercícios de acordo com o que foi ensinado na sala de aula. Afinal de contas, cabe ao professor ter o conhecimento da realidade da turma que leciona.

Veja também:

Questões de ENEM e Vestibular
Questão 01. (Fatec-SP) Uma das características a ser reconhecida no feudalismo europeu é:

a) A economia do feudo era dinâmica, estando voltada para o comércio dos feudos vizinhos.
b) A sociedade feudal era semelhante ao sistema de castas.
c) As relações de produção eram escravocratas.
d) Os ideais de honra e fidelidade vieram das instituições dos hunos.
e) Os servos estavam presos a várias obrigações, entre elas o pagamento anual da capitação, talha e banalidades.

Questão 02. (UFPA) Nas relações de suserania e vassalagem dominantes durante o feudalismo europeu, é possível observar que:

a) A servidão representou, sobretudo na França e na Península Ibérica, um verdadeiro renascimento da escravidão conforme existia na Roma imperial.
b) As principais instituições sociais que sustentavam as relações entre senhores e servos eram de origem muçulmana, oriundos da longa presença árabe na Europa Ocidental.
c) Mesmo dispondo de grandes propriedades territoriais, os suseranos eclesiásticos não mantinham a servidão nos seus domínios, mas sim o trabalho livre.
d) O sistema de impostos incidia de forma pesada sobre os servos. O imposto da mão morta, por exemplo, era pago pelos herdeiros de um servo que morria para que continuassem nas terras pertencentes ao suserano.
e) Os suseranos leigos, formados pela grande nobreza fundiária, distinguiam juridicamente os servos que trabalhavam nos campos dos que produziam nas cidades.

Questão 03. (UFU-MG) A Alta Idade Média (Século V a X) tem como uma de suas características singulares, que a define historicamente:

a) A consolidação e generalização do trabalho servil.
b) A formação das cruzadas para combater os infiéis do Islã.
c) O desaparecimento dos reinos germânicos no Ocidente.
d) O desenvolvimento, com posterior centralização do poder real.
e) O renascimento comercial, que reorienta a vida econômica feudal.

Questão 04. (UFJF-MG) O islamismo, religião fundada por Maomé e de grande importância na Unidade Árabe, tem como fundamento:

a) A concepção do islamismo vinculado exclusivamente aos árabes, não podendo ser professado pelos povos inferiores.
b) O culto dos santos e profetas através de imagens e ídolos.
c) O monoteísmo, influência do cristianismo e do judaísmo, observado por Maomé entre os povos que seguiam essas religiões.
d) O politeísmo, isto é, a crença em muitos deuses, dos quais o principal é Alá.
e) O princípio da aceitação dos desígnios de Alá em vida e a negação de uma vida pós-morte.

Questão 05. (Vunesp-SP) O islamismo, ideologia difundida a partir da Alta Idade Média em que o poder político confunde-se com o poder religioso, era dotado de certa heterogeneidade, o que pode ser constatado na existência de seitas rivais como:

a) Cristãos e Muezins
b) Politeístas e Monoteístas
c) Sunitas e Cristãos
d) Sunitas e Xiitas
e) Xiitas e Politeístas

Questão 06. (FGV-SP) A hégira, um dos eventos mais importantes do islamismo e que marca o início do calendário islâmico, corresponde:

a) À entrada triunfal de Maomé em Meca em 630.
b) À fuga de Maomé e seus seguidores de Meca para Medina.
c) À revelação de Maomé que lhe foi transmitida pelo arcanjo Gabriel.
d) Ao casamento de Maomé com uma rica viúva, dona de camelos.
e) Ao grande incêndio da Caaba em Meca em 615.

Questão 07. (Fuvest-SP) As feiras na Idade Média constituíram-se:

a) Áreas exclusivas de câmbio das diversas moedas europeias.
b) Instituições carolíngias para renascimento do comércio abalado com as invasões no Mediterrâneo.
c) Instrumentos de comércio local das cidades para abastecimento cotidiano dos seus habitantes.
d) Locais de comércio de amplitude continental que dinamizaram a economia da época.
e) Locais fixos de comercialização da produção dos feudos.

Questão 08. (FVP-SP)A teoria segundo a qual “Deus predestina uma parte do gênero humano a salvar-se e abandona o restante à perdição” foi defendida, na Idade Média, por:

a) Santo Agostinho
b) Santo Tomás de Aquino
c) São Clemente
d) São Gregório Magno
e) São Jerônimo

Questão 09. (Fuvest-SP) Do Grande Cisma do Oriente sofrido pelo cristianismo no século XI, resultou:

a) A divisão da Igreja em Católica Romana e Ortodoxa Grega.
b) A heresia dos Albigenses, condenada pelo papa Inocêncio II.
c) A Querela das Investiduras, que proibia a investidura de clérigos por leigos.
d) A Reforma protestante, que levou à quebra da unidade da Igreja Católica na Europa Ocidental.
e) O estabelecimento dos tribunais da Inquisição pela Igreja Católica.

Questão 10. (Vunesp-SP) A partir do século XII, em algumas regiões europeias, nas cidades em crescimento, comerciantes, artesãos e bispos aliaram-se para a construção de catedrais cm grandes pórticos, vitrais e rosáceas, produzindo uma “poética da luz”, abóbadas e torres elevadas que dominavam os demais edifícios urbanos. O estilo da arte da época é denominado:

a) Barroco.
b) Bizantino.
c) Gótico.
d) Renascentista.
e) Românico.

Questão 11. (Cescem-SP) As corporações de ofício eram organizadas com o objetivo de:

a) Aplicar os princípios religiosos às atividades cotidianas.
b) Combater os senhores feudais.
c) Defender os interesses dos artesãos diante dos patrões.
d) Proporcionar formação profissional aos jovens fidalgos.
e) Proteger os ofícios contra a concorrência e controlar a produção.

Questão 12. (FEI-SP) Os problemas das heranças feudais, que haviam confundido destinos e províncias, tornaram inevitável a Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra. A eclosão desse conflito:

a) Deu-se no primeiro quartel do século XI, a partir de problemas na sucessão do trono francês sobre o qual a Inglaterra tinha fortes interesses.
b) Teve como causa principal a disputa pela região de Flandes que, feudatária da França, atraía fortes interesses econômicos da Inglaterra.
c) Ocorreu na primeira metade do século XIV, a partir da disputa entre os dois países sobre inúmeros territórios flamengos e italianos.
d) Foi provocada pelas disputas políticas entre a Rosa Vermelha (de Lancaster) e a Rosa Branca (de York)
e) Aconteceu devido a interesses manufatureiros da França sobre Flandes, região feudatária da Inglaterra.

Questão 13. (FGV-Adm) A chamada “crise do século XIV”, na Europa Ocidental, caracterizou-se por um conjunto de fatores como más colheitas, fome, epidemias, rebeliões camponesas e guerras. Pode-se dizer que tais elementos

a) abalaram o sistema feudal, provocando uma acentuada queda demográfica, num processo inverso ao da expansão verificada entre os séculos XI e XIII.
b) contribuíram para o aumento relativo da população das cidades, onde os índices de mortalidade eram menores que no campo.
c) fizeram diminuir as taxas e obrigações senhoriais que recaíam sobre os servos e levaram à adoção da escravidão de africanos nos senhorios feudais.
d) fortaleceram as instituições medievais, principalmente o caráter internacional das universidades.
e) provocaram um enfraquecimento geral da cristandade, sobretudo na península Ibérica, o que permitiu uma nova ofensiva islâmica na região.

Questão 14. (FMABC-SP) “[A peste negra] era transmitida essencialmente pelos parasitas, principalmente as pulgas e os ratos. Era uma doença exótica, contra a qual os organismos dos europeus não tinham defesas. Veio da Ásia pela rota da seda. Veja: a epidemia, essa catástrofe, é, portanto, também um dos efeitos do progresso, do crescimento.”
Georges Duby. Ano 1000 Ano 2000. Na pista de nossos medos.
São Paulo: Editora da Unesp, 1998, p. 80

A partir do texto, que trata do aparecimento da peste negra na Europa do século XIV, podemos dizer que

a) a integração entre regiões diferentes do planeta, provocada pelo comércio e por intercâmbios culturais, também pode contribuir para a disseminação de doenças.
b) as doenças ficam em geral confinadas ao local de manifestação original e quando se alastram para outras áreas não provocam grandes problemas nem geram epidemias.
c) epidemias, como a peste negra, são provocadas pela ira divina e não podem ser tratadas pelos homens, a não ser que a medicina recorra a procedimentos religiosos.
d) más condições de higiene e a falta de um sistema unificado de atendimento médico foram os principais responsáveis pela proliferação dos parasitas que provocaram a peste negra.
e) problemas de saúde, como a peste negra, derivam sempre da miséria social e as epidemias avançam apenas em períodos de crise econômica e conflitos sociais.

Questão 15. (ENEM 2001) O texto abaixo reproduz parte de um diálogo entre dois personagens de um romance.

- Quer dizer que a Idade Média durou dez horas? – Perguntou Sofia.
- Se cada hora valer cem anos, então sua conta está certa. Podemos imaginar que Jesus nasceu à meia-noite, que Paulo saiu em peregrinação missionária pouco antes da meia-noite e meia e morreu quinze minutos depois, em Roma. Até as três da manhã a fé cristã foi mais ou menos proibida. (…) Até as dez horas as escolas dos mosteiros detiveram o monopólio da educação. Entre dez e onze horas são fundadas as primeiras universidades.
(Adaptado de GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia, 


Romance da História da Filosofia. São Paulo: Cia das Letras, 1997).

O ano de 476 d.C., época da queda do Império Romano do Ocidente, tem sido usado como marco para o início da Idade Média. De acordo com a escala de tempo apresentada no texto, que considera como ponto de partida o início da Era Cristã, pode-se afirmar que

a) as Grandes Navegações tiveram início por volta das quinze horas.
b) a Idade Moderna teve início um pouco antes das dez horas.
c) o Cristianismo começou a ser propagado na Europa no início da Idade Média.
d) as peregrinações do apóstolo Paulo ocorreram após os primeiros 150 anos da Era Cristã.
e) os mosteiros perderam o monopólio da educação no final da Idade Média.


Questões para Redação e Reflexões Conceituais
Questão 01. (Fuvest-SP) A partir do século XI, na Europa ocidental, os poderes monárquicos foram lentamente se reconstituindo e em torno deles surgiram os diversos Estados nacionais. Explique as razões desse processo de centralização política.

Questão 02. (Vunesp) A Idade Média pode ser caracterizada por um longo processo de desenvolvimento e de lenta dissolução das relações servis de produção. Relacione os fatores históricos estruturais e conjunturais que contribuíram e influíram na formação do sistema medieval.

Questão 03. Como se estruturava a sociedade medieval?

Questão 04. (Mauá-SP) Qual a diferença entre as obrigações de um vassalo e as de um servo, na sociedade medieval?

Questão 05. (Fuvest - 2008) Se, para o historiador, a Idade Média não pode ser reduzida a uma “Idade das Trevas”, para o senso comum, ela continua a ser lembrada dessa maneira, como um período de práticas e instituições “bárbaras”. Com base na afirmação acima, indique e descreva:

a) duas contribuições relevantes da Idade Média.

b) duas práticas ou instituições medievais lembradas negativamente.

Respostas

Questões de ENEM e Vestibular
Questão 01. Letra E
Questão 02. Letra D
Questão 03. Letra B
Questão 04. Letra C
Questão 05. Letra D
Questão 06. Letra B
Questão 07. Letra D
Questão 08. Letra A
Questão 09. Letra A
Questão 10. Letra C
Questão 11. Letra E
Questão 12. Letra B
Questão 13. Letra A
Questão 14. Letra A
Questão 15. Letra A


Questões para Redações e Reflexões Conceituais
Questão 01. O processo de centralização política ocorreu sob a forma de monarquias nacionais: a burguesia e o rei se aliavam para acabar com os entraves ao comércio e aumentar o poder real. Desde o renascimento comercial e urbano, no século XI, os sistema feudal era um obstáculo ao desenvolvimento comercial, com vários pedágios e tributos, pesos e medidas diferentes de feudo para feudo.

Questão 02. Espera-se que o aluno descreva que o sistema feudal foi resultado da lenta integração, ocorrida entre os séculos V e IX, de estruturas romanas e germânicas. As bases romanas do feudalismo encontra-se no processo de ruralização do Império, surgimento de vilas (origem dos feudos) e na relação de trabalho chamada de colonato (origem da servidão). As bases germânicas são as relações de suserania e vassalagem, originados do comitatus germânico, e por fim, o direito consuetudinário que era baseado nos costumes e não na lei escrita.

Questão 03. A sociedade feudal era estamental, ou seja, não havia mobilidade social. Haviam três ordens, como descrito no "Documentos da Idade Média: Das três ordens ao comércio na China": O clero, os nobres e os servos. Os senhores feudais (que podem ser representantes do Clero e da Nobreza) eram os proprietários dos feudos. A maioria da população era composta de servos e vilões. Os servos eram camponeses semilivres, presos à terra. Os vilões não estavam presos à terra, mas deviam várias obrigações ao senhor feudal.

Questão 04. O vassalo pertencia à nobreza feudal e, em troca da doação de uma parcela de terra, devia ao suserano (o doador) obrigações, como colocar seu exército à disposição dele, dar-lhes hospedagem e contribuir para o dote de seus filhos. Um servo trabalhava nas terras de um senhor feudal, fosse suserano ou vassalo. O servo devia, pelo uso de um lote do feudo, a corveia, a talha e a banalidade.

Questão 05.
a) Contribuições relevantes: arquitetura gótica, representada sobretudo pelas catedrais e caracterizada pela monumentalidade, verticalidade e novos recursos arquitetônicos, com destaque para o arco ogival ou gótico; e as “grandes invenções” – pólvora, bússola, papel e imprensa – que, embora parcialmente de origem chinesa, foram introduzidas na Europa e aperfeiçoadas na Idade Média; tais invenções tiveram extraordinária importância para o desenvolvimento intelectual e para a expansão geográfica que floresceriam no início dos tempos modernos. 
b) Práticas ou instituições lembradas negativamente: a prática da bruxaria, em decorrência da ignorância predominante na época; e a instituição do Tribunal da Inquisição, com o emprego sistemático da tortura em seus interrogatórios.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A origem da Igreja Matriz de São Bartolomeu de Maragogipe

Por Luiz Antônio dos Santos Souza

A atual matriz de São Bartolomeu, antiga Igreja cuja construção durou 15 anos, teve seu principio por volta do ano 1643, terminando as obras no ano de 1658. Essas obras foram mandadas executar pelo português Bartolomeu Gatto de Castro, senhor abastado e dono por assim dizer, das terras de Maragogipe, que naquela época era um simples arraial, com um comercio muito resumido.

A imagem menor de São Bartolomeu, que se encontra no altar mor, presume-se que seja da mesma época da inauguração da igreja, de vez que o Senhor Bartolomeu Gatto de Castro, vido certamente pela expressão do seu nome e a fé ao Santo, fez erigir a igreja sob a invocação do referido Santo milagroso.

Igreja de São Bartolomeu de Maragogipe
No ano seguinte, resolveu o devoto português criar a confraria de São Bartolomeu, que naturalmente evoluiu, transformando-se na atual Irmandade de São Bartolomeu. A segunda imagem, a maior a que sai em procissão, quando das suas brilhantes festividades foi oferta de um português muito religioso de nome Jacinto de Souza, que residia em Salvador ao seu dedicado amigo José Francisco de Vasconcelos, então tesoureiro da Irmandade. Esta imagem veio da Europa, por intermédio daquele que aqui chegou no mês de agosto no ano de 1853.

Quando falamos um pouco da origem da nossa Matriz, perguntamos: Porque não manter-se viva a tradição da Irmandade de São Bartolomeu? Vemos que o nosso Município tem um mal maior; o qual impossibilita o seu crescimento em vários aspectos, Maragojipe ganhou até o título de terra do já teve. A tradicional Irmandade da Boa Morte de Cachoeira é mantida viva com todos seus direitos, mantendo viva e forte suas tradições.

Esse mal está agora nos dando um novo conhecimento, vejam vocês; diversas entidades estão deixando de existirem em nosso Município e seus bens estão passando há pertencer a quem não comprou, não construiu e por vai.

Temos ainda esse mal transformando pessoas como proprietárias de diversas entidades, não vou citar exemplos, mais estão aí para apreciação de todos. Existem até os que já dizem, daqui não saio, daqui ninguém me tira.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

FICHAMENTO: Inquisição, pacto com o demônio e ‘Magia’ africana em Lisboa no século XVIII


LAHON, Didier, Inquisição, pacto com o demônio e ‘Magia’ africana em Lisboa no século XVIII. TOPOI, v. 5, n. 8, jan-jun. 2004, pp. 9-70

FICHAMENTO

Por Zevaldo Sousa

Práticas mágicas na população negra da capital” portuguesa “e a possibilidade de que traços e crenças de origens africanas tivessem sobrevivido, adaptando-se e inserindo-se nas práticas locais”. (LAHON, p. 9, 2004). Essa é a principal questão, ao qual o autor irá dar grande relevância, pois, esta área não é muito conhecida e também não é muito estudada, por isso, procurar enxergar além do que é encontrado nos processos sobreviventes da inquisição portuguesa do século XVIII, é um desafio para o autor e para o conhecimento das práticas africanas em Lisboa e seus arredores. Cabe ressaltar que neste momento

a escravidão chegou ao seu apogeu em Portugal, especialmente em Lisboa, até 1761, um milhar de cativos africanos ou talvez mais, por ano, desembarca no cais da capital. Vêm diretamente da África ou do Brasil onde residiram alguns anos. Começa para eles um longo processo de adaptação, de reconstrução da identidade e do imaginário.” (IDEM, p.69)

Os arquivos da inquisição são fontes fundamentais para o estudo deste campo. Contudo o ângulo de estudo ao qual o autor se propõe é muito divergente dos escritos deixados pela Santa Inquisição Portuguesa, é necessário com isso, procurar encontrar significados além do que foi escrito pela inquisição, signos que estão por trás de um texto, e que estão inseridos num contexto que vai muito além dos limites impostos pela Igreja. Por isso, ao tentarmos examinar a composição da heterodoxia em Portugal. É preciso saber diversos fatos que ocorriam em Portugal e no contexto religioso da época, exemplo disso:

·      Quando um processo diz respeito a um negro ele perde o caráter de confrontação econômica ou política que, sobre fundo religioso, opõe regularmente a Inquisição aos cristãos novos e mouriscos que afirmam a crença dos seus antepassados às vezes até a morte.” (IDEM, p. 9).
·      Um negro, quer africano, quer natural da metrópole ou do Brasil, era tratado como um cristão velho: respeitou ou transgrediu as regras e dogmas da religião e da igreja.” (IDEM, p. 10). Por isso, os “atos que lhes são imputados são considerados como cometidos sob influencia do demônio com quem o acusado teria feito um pacto” (IDEM, p. 10).
·      No século XVII e XVIII, foi marcado pela ideologia do pacto diabólico, como diz José Pedro Paiva.

Vale dizer que “os inquisidores procuravam de maneira obsessiva o menor sinal do pacto com o diabo.” (IDEM, p. 10), e por isso, se tornou o “fio condutor da instrução do processo, o único filtro que permitia analisar a lógica dos acontecimentos e do comportamento do réu”. (IDEM, p. 10). A grande busca da inquisição era a confissão, por isso, praticava-se uma diversidade de meios, com os quais se poderia obtê-la, “na maioria dos casos, o acusado entrava no molde que lhe era imposto, quer por medo, tivesse sido ou não torturado, quer por compreender que era do seu interesse”. (IDEM, p. 11). Contudo, mesmo que o acusado tenha confessado seu “suposto crime”, ou seja, o pacto com o diabo, esses negros escravos ou forros, poderiam ou não, renegar Deus e a Igreja, mesmo assim, quando a renegação era admitida, eles procuravam uma desculpa. Até por que, estes já estavam acostumados a dobrarem-se à vontade de seus senhores, e por isso, quando os autos-de-fé eram anunciados, estes já se preparavam.
Mas, existem casos e casos, e por isso não devemos generalizar. Um exemplo disso é a existência casos em que o réu recusava confessar e sua renegação a Deus e à Igreja, como também de ter feito o pacto com o Demônio. Por isso devemos ter um cuidado especial, em torno desta questão que, ao que parece, eram pontos pertinentes e que não deviam ignorá-las. Contudo,

esse conhecimento mesmo que intuitivo, juntava-se uma espécie de cegueira ou surdez ideológica da parte dos inquisidores, que causa dificuldades aos investigadores para encontrar elementos abertamente africanos nas confissões... reduzindo-os a manifestações de ordem diabólica”. (IDEM, p. 12).

“Socorro, meu diabo”: o recuso dos humilhados

O caso de Catarina Maria foi um acontecimento que deixou “transparecer um fundo africano.” (IDEM, p. 13), pois, ele nos legou um aspecto interessante que foi a “prova que alguns escravos, dos dois sexos, eram portadores de conhecimentos tradicionais apesar de crianças na altura do cativeiro” (IDEM, p. 13), que “podia ser completada em cativeiro por um escravo mais antigo” (IDEM, p. 13). Com isso, percebemos que não havia uma desligação completa de sua região materna, eles estavam ligados a ela através dos laços culturais básicos que tinham aprendido enquanto criança, seja nascida em África, sejam nascidos na Metrópole ou Colônia, eles mantinham através de contatos com os mais velhos à sua origem africana.
O autor põe-se a relatar o caso de Florinda Maria e Catarina Maria, dando uma pincelada no caso de Josefa Maria, porém o mais interessante destes relatos é o contato de Catarina com o Diabo, e por isso, ela consegue fazer coisas inexplicáveis, como, por exemplo, a sua ida, por uma hora, aproximadamente, para a sua terra (Angola), onde encontrava a antiga criada da casa (Josefa).
Cabe ressaltar que “os diabos são freqüentemente pretos” (IDEM, p. 16), e que mesmo que este assumisse uma característica branca, tinha aparência de mulher, e isto têm uma significação simbólica, pois,

na cultura dos povos da região Congo-Angola, o branco é o símbolo da morte: os homens são pretos, os espíritos são brancos. Além disso... nesta região... o trafico de escravos era considerado como uma viagem para a morte, e que a terra dos brancos era identificada como a dos mortos” (IDEM, p. 16).

Por isso, não devemos admitir, como se fosse evidência, que estes escravos negros ou mulatos, “tinham interiorizado a cor preta como símbolo e representação do mal.” (IDEM, p. 16).
Outra ênfase, que merece destaque é a referência ao sabá no processo da escrava Maria de Jesus, como relatou Laura de Mello e Souza. Contudo,

“os inquisidores preocuparam-se muito mais de provar o pacto individual com o diabo, e as torpezas sexuais que isso implicava, do que associar a este o tema do sabá no qual o elemento da travessia aquática inscrevia-se tão pouco que ‘na literatura portuguesa, o sabá, o vôo e a metamorfose das bruxas são aspectos quase omissos.” (IDEM, p. 18)

Com isso, se seguirmos o pensamentos de Laura, veremos que o imaginário dos africanos seria mais permeável às concepções européias que a maioria dos réus portugueses. O medo e a coação estavam presentes neste contexto e por isso, devemos agir com cautela, no processo de análise das evidências. Ainda assim, “quando se fala de permeabilidade, é necessário pôr na balança as influências recíprocas entre a metrópole e a colônia” (IDEM, p. 19). As influências trançavam-se num tecido em que estavam imbricados os valores culturais lusos, brasileiros e africanos, formando-se uma “verdadeira rede de passadores de valores culturais, materiais e espirituais cuja existência percebe-se de maneira incontestável embora fugaz e rara nos documentos” (IDEM, p. 20), ou seja, uma “corrente de troca ligada ao comércio” e que “longe de viver num universo fechado, num único espaço geográfico e simbólico”, que revela uma evolução “no meio de um processo de mestiçagem cultural complexo no qual são ao mesmo tempo agentes e objetos”. (IDEM, p. 20).
Cabe salientar, que “são as testemunhas que revelam a extensão das redes de sociabilidade implicando um número considerável de pessoas das quais podemos duvidar da ortodoxia religiosa” (IDEM, p. 20).

Curandeiros e feiticeiros negros de Lisboa
Francisco Antônio, negro, gordo, aleijado e curandeiro

Entre todos os processos, o de Francisco Antônio é o exemplo da dificuldade para distinguir o que na prática de um ‘mágico’ africano diz respeito à tradição ocidental assimilada, embora conservando alguns traços da tradição de origem, tanto no ritual como na cura.” (IDEM, p. 21).

O fato é que o autor buscará com o exemplo de Francisco Antônio, mostrar que as testemunhas revelam realmente a extensão das redes de sociabilidade do “mágico” africano, mesmo que sejam somente pessoas de cor branca.
O exemplo de Bárbara Mana traz a tona esta rede e, sobretudo o medo das pessoas de se tratarem com estes indivíduos, que eram o “último recurso contra as enfermidades de origem maléfica quando a medicina e os exorcismos falhavam”. (IDEM, p. 21). Sendo assim, não podemos dizer que estas práticas ficavam às escuras, ou seja, em segredo, pois todas as pessoas sabiam e recomendavam quando não tinha mais meios de cura.
Este caso revela também, como o “mágico” africano procedia em seus rituais de cura, revelando também que “seguindo a expressão de P. Bordieu, comportava-se como um pequeno empresário independente.” (IDEM, p. 22). Não obstante a revelação dos rituais de cura exposta pelas testemunhas nos mostrará que as diversidades culturais apropriadas pelo curandeiro englobavam métodos e meios comparáveis com os dos curandeiros brancos da metrópole. Porém

as declarações das testemunhas revelam que o ritual e a cura diferenciavam-se em vários aspectos das práticas conhecidas no mundo cristão. A começar precisamente pela ausência de referências explícitas a qualquer símbolo ou objeto consagrado da religião católica, sempre utilizados pelos ‘mágicos’ da península.” (IDEM, p. 25).

Mesmo assim, essas características anômalas referidas “fazem pensar numa imbricação de valores religiosos africanos e de práticas e crenças ocidentais.” (IDEM, p. 26).

As bolsas de mandingas
José Francisco Perreira: escravo Mina e mandingueiro

Didier Lahon procurará neste momento falar das origens das bolsas de mandinga, de quem as utilizava, o que continha nelas, para que servia, às suas referências, e principalmente apresentar este assunto e esta bolsa que foi muito difundida em Lisboa e em outros lugares, e que representa - através dos processos e denúncias - uma parte muito pequena daquilo que realmente ocorreu em Portugal.

José Francisco Perreira: entre o terror e o sincretismo

Entre os processos pelo uso da bolsa de mandinga, um apresenta excepcional interesse por oferecer a enumeração detalhada de seu conteúdo e de ter salvaguardado várias páginas das orações e dos grafismos que a acompanhava. Trata-se mais precisamente de dois processos” (IDEM, p. 28).

o de José Francisco Pereira (acusado de uma falta bastante banal na época e o lugar: fabrico, uso e comércio de bolsas de mandinga compostas de orações), e o de José Francisco Pedroso (companheiro de Pereira e exercia um papel secundário, executando as ordens do primeiro. Nestes casos percebemos que

embora os interrogatórios fossem orientados essencialmente para conseguir dos réus o reconhecimento do seu pacto com o diabo, as confissões contêm alguns elementos que não parecem corresponder a um delírio, provocado pelo medo da tortura ou sob o seu efeito”. (IDEM, p. 280.)

Por isso,

a confissão de Francisco Pedroso, tal como a de Maria de Jesus, contém alguns detalhes completamente alheios ao esquema tradicional do sabá que, integrados a este, permitiram ao acusado quer aliviar a sua consciência quer satisfazer a espera dos inquisidores. Mas deste ‘delírio’ estes retiveram apenas o que esperavam ouvir e correspondia ao caráter das assembléias demoníacas e orgíacas.” (IDEM, p. 28).

O autor então transcorre, demonstrando alguns envolvidos, conteúdos da bolsa e principalmente a “distinção entre dois tipos de mandingas: aquela que trazia e uma outra, conhecida como mandinga do campo.” (IDEM, p. 29).
·      A primeira, era obra de Deus, pois era feita para preservar a vida e as pessoas que utilizavam-na poderiam entrar nas igrejas e cumprir seus deveres cristãos.
·      A segunda, necessitava da intercessão do demônio e os que a possuíam não poderiam entrar nas igrejas.
Para a Inquisição, a mandinga seja ela qual for é coisa do demônio e por isso eles vão até o fim numa série de questionamentos que revelam seus preconceitos. Uma dessas questões seria:

Como ele [José Francisco] podia pensar que a mandinga era uma coisa de Deus, ‘dado que via que só os pretos utilizavam, e com muita precaução e que assim a dita mandinga não podia parecer-lhe lícita e boa?” (IDEM, p. 29).

O autor então parte para a análise do objeto do delito. Percebendo que este “era o caso, de uma prática mágica que associava dois métodos de proteção que se reforçavam mutuamente: a bolsa, quer seja ou não de mandinga, e a carta de tocar”. (IDEM, p. 30). contudo nada nos permitir mostrar que a bolsa tinha um caráter especificamente africano, pois continha elementos considerados tipicamente europeus para a época, como orações portuguesas aos mais diversos santos católicos. Porém, a presença do símbolo de Salomão “introduz uma ambigüidade, se não uma dúvida” (IDEM, p. 31). Questionamentos sobre este símbolo são de especial destaque em pesquisa de Francisco Bethencourt e Leite de Vasconcelos. “É de resto significativo que os inquisidores não parecem ter-se preocupado com o teor das orações que não podiam ignorar. Foi sobre os ingredientes da bolsa... em outros processos, que os inquisidores orientaram a acusação.” (IDEM, p. 31).
O autor segue procurando saber dos espaços onde se realizavam as reuniões, concluindo que “pelos fatos descritos, nomeadamente o caráter coletivo das assembléias com a presença do diabo ou de espíritos malignos, levou a Inquisição a identificar estas reuniões como sabás.” (IDEM, p. 32). Contudo, cabe ressaltar que

“tanto os dados do processo como as equivalências prováveis ou as analogias relevantes entre os dois sistemas culturais de representações são deveras numerosas para que, satisfazendo o imaginário inquisitorial, as confissões dos réus não tenham entrado em contradição com a sua própria crença ou mesmo com os fatos” (IDEM, p. 32).

Pedra de Ara versus Aroun Ara: as equivalências simbólicas

O autor num primeiro momento irá mostrar que enquanto para os inquisidores o bode representava o mal, “ao diabo, à bruxaria e à lúxuria” (IDEM, p. 33), para os africanos ele teria outra conotação, perdendo “seu caráter negativo, ganhando freqüentemente o de força tutelar.” (IDEM, p. 33), ele é “o animal simbólico oferecido,... , ao orixá conhecido como Exú para os primeiros [Iorubas], Legba para os segundos [Fons].” (IDEM, p. 33). Sabemos que

“Exú/Legba foi assimilado ao diabo pelos missionários em razão destas características notoriamente fálicas e por ser às vezes representados com chifres no Daomé, mas provavelmente também porque um culto das encruzilhadas era-lhe rendido. No imaginário católico, simbolizou tudo que é maldade, perversão e abjeção.” (IDEM, p. 34).

Porém, na África Exu/Legba tomará outra particularidade. Características estas que conduzem aos adeptos a participarem de “cerimônias celebradas aos deuses, e em certas regiões, quando acompanhavam as de Xangô.” (IDEM, p. 35).

uma curiosa coincidência, de ordem lingüística e simbólica, poderia fazer de Xangô um ator presente no caso que nos preocupa, como em muitos outros em que a bolsa era condicionada ou utilizada por indivíduos oriundos da costa dos escravos.” (IDEM, p. 35).

E esta coincidência irá se refletir na pedra de altar também chamada de pedra de ara em português, e a pedra de corisco também chamada em iorubá de pedra-de-raio de Xangô ou Edoun Ara, ara significa ‘corpo’ tendo “correspondência, a equivalência simbólica entre a pedra de altar do culto católico e o sacrifício realizado sobre ela como sobre o altar consagrado a Xangô.” (IDEM, p. 35). Outro elemento de equivalência e de dupla interpretação é o olho-de-gato, também demonstrado de forma negativa para os cristãos, enquanto par os africanos tomam características diferentes dependendo da região.
O autor termina com o exame de um dos desenhos da bolsa, encontrando três principais características:
·      A primeira, diz respeito ao uso do sangue,
·      A segunda, a elementos da Paixão de Cristo,
·      E a terceira, a elementos alheios a Paixão.
Para o autor, a preservação de certos valores e crenças africanas, deveu-se principalmente, à proibição precoce do tráfico para Portugal e pelo caráter notadamente urbano da escravidão. E esses valores e crenças manifestaram-se principalmente no terreno da magia,

já alterados, misturando-se frequentemente, na forma de conteúdo, às tradições populares portuguesas, sem contudo abdicarem totalmente – de modo consciente ou não – da sua memória cultural. É por isso que, embora proibidas, as suas práticas nunca foram completamente secretas. Inscreviam-se numa rede de sociabilidade e de trocas complexas da qual participaram as diferentes castas de escravos e libertos mas igualmente os brancos das categorias sociais mais desfavorecidas.” (IDEM, p. 44).

Contudo, tanto brancos, quanto negros, compartilhavam de um mesmo sistema de pensamento, ao qual o regime do terror imposto pela Inquisição, levava a denunciar aquele com quem partilhavam abertamente, durante algum tempo, da mesma crença considerada heterodoxa.

“As confissões deixam aparecer as relações bastante conflituosas entre senhores e escravos e as dificuldades de sobreviver para os libertos. Porém, quando presos, desaparece a diferença entre eles e os cristãos velhos que caem nas garras da Inquisição por motivos idênticos. Para todos, magia e religião popular são dois sistemas de pensamentos simbólicos que não somente não se excluem mas se completam frequentemente, em especial quando se trata de lutar contra a doença, a desgraça, o inexplicável, quando o demônio invade o cotidiano e parece mais presente e mais acessível que Deus. (IDEM, p. 45).

Curandeiros e mandingueiros negros no sistema mágico religioso português

“Na medida me que as pessoas recorrem a Francisco Antônio para tratar uma doença orgânica, mas sobretudo a manifestação de uma desgraça de origem diabólica, diagnosticada como tal tanto pelo médico como pelo exorcista, os doentes introduzem uma nova figura no campo dos práticos da eficácia simbólica: o mágico e, neste caso preciso, o curandeiro. Este, embora reconhecido pela crença e a vox populi não tinha qualquer estatuto legítimo, ao inverso do médico e do padre.” (IDEM, p. 45-6).

Procurando logo em seguida, explicitar bem resumidamente as diferenças entre magia e religião e magia e milagre.

Da cura simbólica e do uso adequado do santo, do exorcista e do curandeiro

Percebe-se que o objetivo da população portuguesa era a cura, e não vai lhes interessar como. Um exemplo disso é que, mesmo sem ter conseguido curar-se com o médico e nem com o exorcista, eles continuam procurando a quem recorrer. Surge assim como meios dessa possível cura o curandeiro e os santos.
Quando Francisco Antônio (curandeiro) está preso nos cárceres da Inquisição, as pessoas do Bairro do Mocambo e arredores que se consultavam-no recorreram a

Fr. Antônio de Lumiar, Venerável falecido em 1746 no Convento da Serra Arrábida. Já considerado como santo quando ainda vivo, em razão dos numerosos prodígios, profecias e milagres realizados junto de pessoas de todas as condições sociais, o seu poder especializou-se de maneira característica, após a sua morte, na cura taumatúrgica.” (IDEM, p. 46).

Assim o autor procura traçar um perfil das pessoas que são atendidas e que foram curadas pelo Venerável, dizendo, através dos escritos de seu hagiógrafo, que, quando “comparadas com as categorias sociais que comparecem no processo de Francisco Antônio, as da hagiografia são, de modo geral, de um nível superior.” (IDEM, p. 47) e os “comportamentos de alguns devotos,... , revela um dos traços do pensamento religioso e mágico da época: uma fé superior nas forças tutelares que nos médicos e seus remédios.(IDEM, p. 47). E esta fé, superava os limites do simples toque, pois como sabemos o Venerável, mesmo depois de morto continuou operando milagres através por exemplo da terra – relíquia inesgotável – da sua sepultura. Que curava qualquer tipo de doença, é interessante ressaltar que ,tanto no caso de Francisco Antônio, quanto no do Venerável a

“maioria dos casos o doente conseguia uma melhoria rápida do seu estado, às vezes a cura era quase instantânea, às vezes necessitava de alguns dias. Raramente assistia-se a uma recaída, mas quando isto acontecia era atribuída a pouca fé do paciente.” (IDEM, p. 48).

Contudo o autor vai trazer a tona um aspecto que era predominante na época e que deve ser realçado aqui.

“Apresentar o milagre como o  recurso de última instância era sem dúvida fazer obra pedagógica mas era igualmente esquecer a lição da igreja sobre a origem divina, por conseguinte sobrenatural, da doença, pois da mesma maneira que as epidemias ou as catástrofes naturais – que afligiam o conjunto de uma população – eram apresentadas como um aviso e um castigo celestial sancionando um desregramento social, a doença individual também era percebida como um aviso ou um castigo de Deus. Conseqüentemente, era a Deus, diretamente ou através os seus santos, que o homem devia dirigir-se m primeiro lugar para curar a sua alma e, como reflexo desta, o seu corpo em perdição, corpo que deve se esforçar para tratar aproveitando-se de todos os meios lícitos.” (IDEM, p. 48-9).

Contudo

nenhum dos operadores culturais, encarregados de ‘fazer compreender ao paciente que a sua perturbação é provocada por uma ruptura das suas relações com o sagrado e que só ela pode restabelecê-las’, conseguiu mobilizar o seu potencial emocional que lhe permite superar o mal.” (IDEM, p. 50)

Cabe ressaltar que o mágico curandeiro ou mandingueiro africano estava inserido dentro de um sistema simbólico mágico-religioso estranho ao seu. E que apesar de parecer paradoxal, revela-se através dos mecanismos utilizados pela sutilezas teológicas que foram os mesmos que proporcionaram a inserção destes, no sistema, com o uso e abuso das causas e efeitos produzidos pelo diabo na terra.

Diabo familiar contra Diabo do Outro

“Estrangeiro, Francisco Antonio o era, social, territorialmente e culturalmente.” (IDEM, p. 53) Por isso, as pessoas o procuravam, sem conhecê-los, as pessoas pensavam que deveriam eles conhecer poderes mágicos diferentes, quando não superiores, pois apesar deles serem batizados, as pessoas ainda consideravam sempre suspeitos de conservar laços com as forças diabólicas, que os brancos não conheciam ou esqueceram.

domingo, 14 de agosto de 2011

LIVRO: Boa Morte - Das memórias de filhinha às Litogravuras de Maragogipe, por Sebastião Heber Vieira Costa


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Em seu Livro BOA MORTE - Das memórias de filhinhas às Litogravuras de Maragogipe, Sebastião Heber Vieira Costa explica como se deu uma das Festas mais populares da Bahia, no município de Maragogipe. Leia um texto-resumo que fiz baseado nos escritos de Sebastião Costa.

Na Terra de São Bartolomeu e da Boa Morte, na Igreja da Matriz de São Bartolomeu de Maragogipe há um altar com a imagem dessa devoção, isto é Maria está deitada num esquife mortuário.

A Irmandade da Boa Morte se constituíu de mulheres negras, escravas alforriadas, o que fez com que, pouco a pouco, as Filhas de Maria ocupassem esses lugares na Irmandade.

E a posse de determinados objetos em mãos de descendentes das antigas integrantes da Boa Morte, confirmam a antiga presença daquela irmandade em Maragogipe. Por outro lado, o “achamento” dessas duas gravuras do século XIX, confirma a existência pregressa da Irmandade no local.

O Pe. Sadoc foi o primeiro a falar com Sebastião Costa sobre importância histórica de Maragogipe, da bela e grandiosa igreja que tem como patrono São Bartolomeu, pois a cada 24 de agosto ele é convidado para pregar no dia daquele santo.

A convite do Pe. Mateus de Lima Leal, vigário paroquial, Sebastião Costa foi chamado para passar o carnaval deste ano. "Fui com minha mãe e ficamos hospedados na casa paroquial que é uma construção de
1875. E fiquei encantado com a cidade. Lá tudo cheira à história." diz Sebastião Costa.

A paróquia indicou o estudante de pedagogia, Sócrates Fernandes de Araújo, que é restaurador de imagens antigas e que conhece bem os meandros da história da cidade. A igreja matriz foi construída de 1630 a 1753. Aliás, o nome do patrono foi dado em homenagem ao proprietário da sesmaria, Bartolomeu Gato. A
cidade foi elevada à categoria de Vila em 16/06/1724 e recebeu o título de Patriótica Cidade em 08/03/1860. A Santa Casa de Misericórdia é de 1850. 

A cidade foi sede de muitas Irmandades e há algumas que estão ainda em pleno funcionamento. A Irmandade do Santíssimo Sacramento foi fundada em 31/01/1700 e ainda está atuante. A Irmandade de Nossa Senhora da Conceição é de 1704. A de S. Bartolomeu é de 1851. A das Santas Almas Benditas é de 1667 (esses dados estão no Arquivo Público da Cidade). 

A cidade é ainda enriquecida por duas Filarmônicas: há a Terpsícore Popular, fundada em 13/08/1880 – na mitologia grega, Terpsícore é a musa da poesia lírica, da dança e dos coros, e ela toca a lira para animar a alma. Também há a antiga Filarmônica Menimosina – na mitologia grega é a deusa da memória – e teve como fundador o professor Teodoro Borges da Silva.

Também o estudante-pesquisador, Sócrates, apresentou um quadro, uma litogravura, que precisava ser restaurado, com uma estampa referente a Nossa Senhora da Boa Morte, com os dizeres: ”Nossa Senhora da Boa Morte que se venera na cidade de Maragogipe - 1879”, e que pertence a Conceição Maria Cardoso. Há ainda uma outra gravura que pertence a Luis Cláudio Nunes Laranjeiras, que herdou do avô, Manuel Lucas Laranjeiras, conhecido como Bibi. Ambas foram restauradas e estão sendo apresentadas nesse trabalho.



O autor descreve que "Ambas as gravuras foram restauradas pela Oficina AM Restauro, a cargo da Drª Ana Maria Villar e Natalie Roth, auxiliadas por Igor Souza e Larissa Barros. A primeira gravura foi feita pela técnica da litogravura e tem como autor Jourian e é datada de 1879. Na base do trabalho há uma inscrição: Lith a vapor (que também poderia ser: a vaper ou, a vapir – refere-se isso à técnica?) de Jourian. Também se vê dois números: 238 e 316. Como hipótese, pode-se perguntar se eles se referem à quantidade de litogravuras que foram feitas. A segunda tem na parte inferior um titulo em italiano: Sepolcro di Maria e a técnica é a de reprodução serigráfica sobre papel, não tem data, mas contém um número (5005), que, certamente indica a quantidade de cópias reproduzidas. A restauração foi feita por Natalie Roth e auxiliada por Igor Souza." Sebastião Costa

O professor Sócrates, jovem pesquisador deu informações preciosas sobre o desaparecimento dessa devoção naquela cidade. O Pe. Manoel de Oliveira Lopes, que se tornou Bispo, em 1887 fundou a Pia União das Filhas de Maria. Este foi substituído pelo Cônego Adolfo José da Costa Cerqueira, falecido em 11/04/1929. Ele era um homem que tinha fama de santidade, usava cilício e todos os seus irmãos e irmãs se tornaram padres e freiras.

Mas ele repudiava o candomblé. O contexto histórico da Igreja Católica, na época, era o do Ultramontanismo, movimento da segunda metade do século XIX que refletia a tendência centralizadora do Catolicismo, com tendência a controlar com mão forte, sob a égide dela (Papa, Bispos e Padres/Vigários) todos os movimentos. As Irmandades sempre representaram uma tendência leiga, de independência e sempre houve conflitos entre “os administradores oficiais do sagrado” (HOONAERT, 2001,p.39) com elas.

DO BLOG: Espero ter contribuído para que você leia esse livro maravilhoso sobre a História da Boa Morte no Recôncavo Baiano, em especial, em Maragogipe.

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terça-feira, 26 de julho de 2011

Somos todos da Idade Média, por Hilário Franco Júnior

Pouca gente se dá conta, mas muitos hábitos, conceitos e objetos tão presentes no nosso dia-a-dia, inclusive o próprio idioma que falamos, vêm daquela época.

Muitos professores consideram especialmente árdua a tarefa de ensinar História Medieval. A distância que separa os alunos de época tão remota, argumentam alguns, seria um dos principais obstáculos. Como despertar seu interesse por tema tão antigo? Como passar às novas gerações conceitos, idéias e fatos que, aparentemente, têm tão pouco a ver com o mundo de hoje? Mas seria bem diferente se eles mostrassem a seus discípulos que, como veremos a seguir, e embora muita gente não se dê conta, nosso próprio cotidiano está impregnado de hábitos, costumes e objetos que vêm de muito mais longe do que se pode imaginar.

Ao tratarmos da História do Brasil, por exemplo, a tendência é começar no dia 22 de abril de 1500, quando Pedro Álvares Cabral e os tripulantes de sua esquadra “descobriram” nossa terra. Mas aqueles homens não traziam atrás de si, dentro de si, toda uma história? Não trouxeram para cá amplo conjunto de instituições, comportamentos e sentimentos? Aquilo que é até hoje o Brasil não tem boa parte da sua identidade definida pela longa história anterior de seus “descobridores”? Dizendo de outro modo, nossas raízes são medievais, percebamos ou não este fato.

Calças do século IV,
encontradas no pântano
Thorsberg, Alemanha
Pensemos num dia comum de uma pessoa comum. Tudo começa com algumas invenções medievais: ela põe sua roupa de baixo (que os romanos conheciam mas não usavam), veste calças compridas (antes, gregos e romanos usavam túnica, peça inteiriça, longa, que cobria todo o corpo), passa um cinto fechado com fivela (antes ele era amarrado). A seguir, põe uma camisa e faz um gesto simples, automático, tocando pequenos objetos que também relembram a Idade Média, quando foram inventados, por volta de 1204: os botões. Então ela põe os óculos (criados em torno de 1285, provavelmente na Itália) e vai verificar sua aparência num espelho de vidro (concepção do século XIII). Por fim, antes de sair olha para fora através da janela de vidro (outra invenção medieval, de fins do século XIV) para ver como está o tempo.

Ao chegar na escola ou no trabalho, ela consulta um calendário e verifica quando será, digamos, a Páscoa este ano: 23 de março de 2008. Assim fazendo, ela pratica sem perceber alguns ensinamentos medievais. Foi um monge do século VI que estabeleceu o sistema de contar os anos a partir do nascimento de Cristo. Essa data (25 de dezembro) e o dia de Páscoa (variável) também foram estabelecidos pelos homens da Idade Média. Mais ainda, ao escrever aquela data – 23/3/2008 –, usamos os chamados algarismos arábicos, inventados na Índia e levados pelos árabes para a Europa, onde foram aperfeiçoados e difundidos desde o começo do século XIII. O uso desses algarismos permitiu progressos tanto nos cálculos cotidianos quanto na matemática, por serem bem mais flexíveis que os algarismos romanos anteriormente utilizados. Por exemplo, podemos escrever aquela data com apenas sete sinais, mas seria necessário o dobro em algarismos romanos (XXIII/III/MMVIII).

Livro Medieval: Bridwell Library
Para começar a trabalhar, a pessoa possivelmente abrirá um livro para procurar alguma informação, e assim homenageará de novo a Idade Média, época em que surgiu a idéia de substituir o incômodo rolo no qual os romanos escreviam. Com este, quando se queria localizar certa passagem do texto, era preciso desenrolar metros de folhas coladas umas nas outras. Além disso, o rolo desperdiçava material e espaço, pois nele se escrevia apenas de um lado das folhas. O formato bem mais interessante do livro ficou ainda melhor com a invenção da imprensa, em meados do século XV, que permitiu multiplicar os exemplares e assim barateá-los. Tendo encontrado o que queria, a pessoa talvez pegue uma folha em branco para anotar e, outra vez, faz isso graças aos medievais. Deles recebemos o papel, inventado anteriormente na China, mas popularizado na Europa a partir do século XII. Mesmo ao passar suas idéias para o computador, a pessoa não abandona a herança medieval. O formato das letras que ali aparecem, assim como em jornais, revistas, livros e na nossa caligrafia, foi criado por monges da época de Carlos Magno.

Relógio Medieval de Praga,
 por Emilia Duarte
Sentindo fome, a pessoa levanta os olhos e consulta o relógio na parede da sala, imitando gesto inaugurado pelos medievais. Foram eles que criaram, em fins do século XIII, um mecanismo para medir o passar do tempo, independentemente da época do ano e das condições climáticas. Sendo hora do almoço, a pessoa vai para casa ou para o restaurante e senta-se à mesa. Eis aí outra novidade medieval! Na Antiguidade, as pessoas comiam recostadas numa espécie de sofá, apoiadas sobre o antebraço. Da mesma forma que os medievais, pegamos os alimentos com colher (criada aproximadamente em 1285) e garfo (século XI, de uso difundido no XIV). Terminada a refeição, a pessoa passa no banco, que, como atividade laica, nasceu na Idade Média. Depois, para autenticar documentos, dirige-se ao cartório, instituição que desde a Alta Idade Média preservava a memória de certos atos jurídicos (“escritura”), fato importante numa época em que pouca gente sabia escrever.

À noite, enfim, a pessoa vai à universidade, instituição que em pleno século XXI ainda guarda as características básicas do século XII, quando surgiu. As aulas, com freqüência, são dadas a partir de um texto que é explicado pelo professor e depois debatido pelos alunos. Alguns deles recebem um auxílio financeiro para poderem estudar, como no colégio fundado pelo cônego Roberto de Sorbon (1201-1274) e que se tornaria o centro da Universidade de Paris. Depois de mais um dia de trabalho e estudo, algumas pessoas querem relaxar um pouco e passam na casa de amigos para jogar cartas, divertimento criado em fins do século XIV, como lembram os desenhos dos naipes e a existência de reis, rainhas e valetes. Outros preferem manter a mente bem ativa e vão praticar xadrez, jogo muito apreciado pela nobreza feudal, daí a presença de peças como os bispos, as torres e as rainhas.

Peças de jogo de xadrez de Carlos Magno
Durante todas essas atividades, pensamos, falamos, lemos e escrevemos em português, sem, na maioria das vezes, nos darmos conta de que esse elemento central do patrimônio cultural brasileiro vem da Idade Média. E não só porque a nossa língua nasceu em Portugal medieval. Como qualquer língua, com o passar do tempo o português falado na sua terra de origem foi se alterando bastante. Muitas características do idioma falado hoje em dia em Portugal – inclusive o que chamamos de sotaque daquele povo – são do século XIX. Mas no Brasil aquele idioma foi introduzido no século XVI por colonos que falavam da mesma forma que cem ou duzentos anos antes, isto é, como em Portugal medieval. Além disso, sendo o Brasil muito vasto e muito distante da metrópole portuguesa, as lentas transformações na língua demoravam mais para chegar aqui. Em resumo, falamos hoje um português mais parecido com o da Idade Média do que com o de Portugal moderno.

Estudos recentes mostraram que idosos analfabetos do interior de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo usavam, em fins do século XX, formas do português dos séculos XIII-XVI. Essas pessoas ainda falam esmolna em vez de “esmola”, pessuir e não “possuir”, despois no lugar de “depois”, preguntar para dizer “perguntar”. Contudo, não se trata propriamente de erros, e sim de exemplos de manutenção de formas antigas, levadas àqueles locais pelos bandeirantes nos séculos XVI e XVII. Devido ao isolamento e à pobreza daquelas regiões, esse modo de falar prolongou-se pelos séculos seguintes.

Basta uma rápida olhada em qualquer aglomerado humano no Brasil, seja no metrô, num estádio de futebol ou simplesmente nas ruas, para se constatar o que todos sabemos: a população brasileira tem alto grau de mestiçagem. Nada estranho, já que a terra era habitada por diferentes tribos indígenas quando os portugueses aqui chegaram, e logo foram introduzidos muitos escravos africanos. O que se ignora com freqüência, porém, é que se os dominadores portugueses aceitaram com facilidade a mestiçagem, é porque ela fazia parte da sua prática social havia muito tempo. Eles resultavam da mistura entre celtas, romanos, germanos, berberes (população do norte africano), árabes, judeus e negros. Importantes historiadores já afirmaram que, pelo menos até o século XIV, os mouros não devem ser considerados uma etnia, e sim uma minoria religiosa, porque, em termos raciais, não havia diferença entre portugueses cristãos e portugueses muçulmanos. Portanto, os portugueses já eram mestiços ao chegarem à América, o que facilitou a mistura racial na colônia.

Estudar História – de qualquer época e de qualquer local – não deve ser tarefa utilitarista, não deve “servir” para alguma coisa específica. A função de seu estudo é mais ampla e importante; é desenvolver o espírito crítico, é exercitar a cidadania. Ninguém pode atingir plenamente a maturidade sem conhecer a própria história, e isso inclui, como não poderia deixar de ser, as fases mais recuadas do nosso passado. Assim, estudar História Medieval é tão legítimo quanto optar por qualquer outro período. Mas não se deve, é claro, desprezar pedagogicamente a relação existente entre a realidade estudada e a realidade do estudante. Neste sentido, pode ser estimulante mostrar que, mesmo no Brasil, a Idade Média, de certa forma, continua viva.


Hilário Franco Júnior é professor da Universidade de São Paulo e autor de A Idade Média, nascimento do Ocidente (Brasiliense, 2006) e de “Raízes medievais do Brasil” (Revista USP, 2008). 
Texto retirado de “Revista de História da Biblioteca Nacional”, publicado em 01/03/2008.