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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Terreiro Ilê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo"

É com muito pesar que noticiamos o falecimento do Babalorixá Edinho de Oxóssi, será muito justo neste momento, republicarmos a história do Terreiro lIê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo", um local com que o nosso babalorixá tem suas intimidades reveladas. Sabendo que seria do agrado de muitos maragogipanos que desejam conhecer a nossa história, resolvi publicar esse texto e uma entrevista concedida pelo Babalorixá Edinho de Oxóssi encontrada no site (http://alabaxe.xpg.uol.com.br/)

Oxóssi


O Terreiro lIê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo"  
A cada ano, após a colheita, o rei de Ijexá saudava a abundancia de alimentos com uma festa, oferecendo à população inhame, milho e côco. O rei comemorava com sua família e seus súditos só as feiticeiras não eram convidadas. Furiosas com a desconsideração enviaram à festa um pássaro gigante que pousou no teto do palácio, encobrindo-o e impedindo que a cerimônia fosse realizada.

O rei mandou chamar os melhores caçadores da cidade. O primeiro tinha vinte flechas. Ele lançou todas elas, mas nenhuma acertou o grande pássaro. Então o rei aborreceu-se, mas mandou-o embora.

Um segundo caçador se apresentou este com quarenta flechas o fato repetiu-se novamente e o rei mandou prendê-lo. Bem próximo dali vivia Oxóssi, um jovem que costumava caçar à noite, antes do sol nascer ele usava apenas uma flecha vermelha. O rei mandou chamá-Io para dar fim ao pássaro. Sabendo da punição imposta aos outros caçadores, a mãe de Oxóssi, temendo pela vida do filho, consultou um babalaô e os obis mostraram que, se fosse feita uma oferenda para as feiticeiras, ele teria sucesso.

A oferenda consistia em sacrificar uma galinha. E na hora da entrega, dizer três vezes: que o peito do pássaro receba esta oferenda! Nesse exato momento, Oxóssi deveria atirar sua única flecha. E assim o fez, acertando o pássaro bem no peito. O povo então gritava: Oxó Wussi (Oxó = popular), passando a ser conhecido por Oxóssi.

O rei, agradecido pelo feito, deu ao caçador metade de sua riqueza e a cidade de Kêto "terra dos panos vermelhos", onde Oxóssi governou até sua morte, tornando-se depois um orixá.

Manoel Rufino
No candomblé existe o fundamento, que corresponde a todo conteúdo simbólico para o entendimento da religião. É neste espaço que se dá o domínio, o uso e a utilização de um elemento fundamental - o Axé , força vital produzida pela sabedoria daqueles que fazem a mediação entre o sagrado e o mundo dos homens. A transmissão desse Axé acontece de forma hierarquizada, onde a relação entre os orixás e seus filhos possibilita a troca desta força vital, traçando e determinando destinos. Como cita Monique Augras: "Recebe-se o Axé das mãos e do hálito dos mais antigos (pessoas que conservam os textos sagrados na memória), de pessoa a pessoa, numa relação interpessoal dinâmica e viva. Recebe-se através do corpo e em todos os níveis da personalidade, atingindo os planos mais profundos pelo sangue, os frutos, as ervas, as oferendas rituais e as palavras pronunciadas". (1983, p.68).

É neste contexto que se dá a criação do Terreiro Ilê Alabaxé, regido pelo orixá Oxossi.

A linhagem ancestral do llê Axé Alabaxé tem origem no momento em que Miguel Arcanjo, do Orixá Xangô Airá, do Terreiro llê Amoraxó, inicia o sr. Manoel Rufino de Oxum - lyaminkilanje, cuja dijina era Urudasamba, do Jlê Axé Tomin Bokun, de "nação" bantu, situado no Beiro e falecido em 21 de maio de 1983.

Em 10 de Janeiro de 1952, na localidade de São Francisco do Paraguaçu, no município de Cachoeira, no Terreiro llê Jitundê, Sr. Lício de Souza Moraes foi iniciado pelo Sr. Manoel Rufino (Foto Acima) para o orixá Omolú.

O Ilê Jitundê foi fundado em 1921, pelo Babalorixá Lício ainda quando abiã (noviço), onde realizava suas festas há mais de quinze anos antes da sua iniciação. O Ilê Jitundê, após o falecimento do Babalorixá Lício em 26 de outubro de 1986, continua mantido pelo Babalorixá Edinho, conservando o calendário de festas juntamente com seus irmãos. Verger. Pierre. Lendas Africanas dos Orixás, Editora Corrupio, São Paulo, 1987.

Segundo Pai Edinho, depois que Pai Lício faleceu, ele assumiu a posição de Babalorixá no Ilê Jitundê, pois Pai Lício havia registrado na Federação de Culto Afro o cargo de sucessão dele. Portanto, todas as obrigações realizadas no Ilê Jitundê têm Pai Edinho à frente. Pai Lício sempre foi um amigo, segundo relata Pai Edinho. Nas obrigações que eram realizadas no Ilê Jitundê ele se fazia presente, assim como nas obrigações que eram realizadas no Ilê Alabaxé, Pai Lício também participava. O calendário de festas do llê Jitundê mantém-se nas mesmas datas: 10 de Janeiro acontece a festa para o orixá Omolu dia de Santa Cruz ou Corpus Christi se realiza a festa para Oxossi e no dia 29 de Junho, dia de São Pedro, acontece a festa para Xangô.

Pai Edinho foi iniciado pelo Babalorixá Lício de Souza Moraes em 2 de Fevereiro de 1964, aos 17 anos, sendo o dofono (primeiro iyaô na iniciação) de um barco de três iyaôs - Oxossi, Nanã e Obaluaê. Cumpriu todas as obrigações de 01,03,07 e 14 anos com Pai Lício.

Em 2 de fevereiro de 1971, pai Edinho torna-se Babalorixá e em 1973 funda o Terreiro Ilê Axé Alabaxé, de "nação" Kêto, situado no município de Maragojipe, no Recôncavo da Bahia. Segundo Pai Edinho, tudo aconteceu a partir de um problema de saúde, quando mandaram que ele procurasse uma casa. Lá, ele fez os trabalhos e a primeira obrigação.

Permaneceu por dois anos como abiã (não iniciado), estava com 14 anos, sem que melhorasse a sua saúde. Após a iniciação os problemas foram sanados, o que possibilit.ou Pai Edinho trabalhar, pagando as obrigações. Após os sete anos de iniciado, instalou-se onde atualmente é o Ilê Alabaxé "

Era ainda um chalé, uma casinha humilde, eu consertei, reformei e trouxe o meu santo. Com dois anos de iniciado eu comprei, era dia 13 de junho. É aqui a minha morada. Eu quis fazer para o meu Orixá".

As dificuldades apontadas por Pai Edinho não o desanimaram, pois contou com a cooperação de pessoas a ele ligadas por laços de afetividade, como Sr. Domingos, que exerce o cargo de Axogum, Nunga, Dona Mô e Sr. Hermano, que o apoiaram durante seu resguardo na iniciação e durante a sua trajetória religiosa. Segundo relata Pai Edinho, quando ele fundou o Terreiro teve que arranjar fio de telefone, para colocar luz. No barracão as pessoas comiam e dormiam, a cozinha e o banheiro eram cobertos de lona. Houve muita dificuldade, mas sente-se vencedor.

Hoje o Ilê Alabaxé é uma referência religiosa no município de Maragojipe e em outras localidades, pois conta com mais de 200 filhos, em Maragojipe, Salvador, Sapeaçu, Cruz das Almas, Feira de Santana, Alagoinhas, Candeias, Madre de Deus, Rio de Janeiro, São Paulo, Belém do Pará, Minas, Rio Grande do Sul e Estados Unidos.

A relação familiar existente entre Pai Edinho, seus irmãos e filhos, baseada principalmente no respeito aos preceitos religiosos, faz com que os laços se tornem mais sólidos e por isso o companheirismo e a solidariedade se fazem presentes no Ilê Alabaxé.

Segundo Vivaldo da Costa Lima. (2003p 161): "Os laços familiares criados no candomblé através da iniciação no santo não são apenas uma série de compromissos aceitos dentro de uma regra mais ou menos estrita, como nas ordens monásticas e fraternais laicas, iniciáticas ou não são laços muito mais amplos no plano das obrigações recíprocas e muito mais densos no âmbito psicológico das emoções e do sentimento. São laços efetivamente familiares: de obediência e disciplina de proteção e assistência de gratificação e sanções de tensões e atritos - tudo isso existe numa família e tudo isto existe no candomblé".

A convivência entre as pessoas que fazem parte do Ilê Alabaxé é retratada através do relato de Pai Edinho: "Eu tenho clientes de 40 anos que ainda me acompanham. Minhas três primeiras filhas continuam comigo, vão fazer no dia 06 de Agosto próximo 33 anos de santo. São minhas amigas, uma vai fazer 80 anos em fevereiro, já está se arrumando para a festa. Nós tínhamos urna Ekede-Iyabassé (zeladora da cozinha para os orixás) Maria Gertrudes da Conceição.

Tombamento do Terreiro de Candomblé Ilê Axé Alabaxé
Entrevista:
Babalorixá Edson dos Santos ( Pai Edinho do Alabaxé )

P. Quem foi Miguel Arcanjo?

Miguel Arcanjo
R. Miguel Arcanjo foi uma pessoa muito importante pra a minha vida. Porque foi a pessoa, o Babalorixá, que deu iniciação ao meu Avô de Santo, Rufino do Beiru. Mjguel Arcanjo deixou uma parte muito rica de Filhos, porque ele teve uma mão abençoada por Olorum e que todos os Filhos que ele botou no mundo tiveram progresso na vida e tiveram uma virtude muito grande e muito importante no Axé. Foi ai que ele fez o senhor Rufino do Beiru, d'Oxum, que veio reinar no Beiro, foi muito conhecido por todos os Babalorixás e lalorixás importantes, como dona Menininha do Gantois, que era pessoa que dava muito amor, muito carinho à seu Rufino. E outras lalorixás, Babalorixás. Ele era muito respeitado na sua religião e na sua maneira de ser. E de lá do Beiro ele trouxe o Axé da Casa dele e veio trazer ao meu Pai de Santo, em São Francisco, Lício de Souza Moraes. Lício foi iniciado em São Francisco do Paraguaçu, pelo Babalorixá Rufino d'Oxum.

P. Qual era o Orixá de Miguel Arcanjo?

R.Airá. a arixá de cabeça dele era Airá. Ele era do Terreiro Amoraxó, conhecido como o Babalorixá do Amoraxó, em Salvador. O Terreiro d'Oxum, de seu Manoel Rufino, vai de 80 a 90 anos de fundado.

Lício de Souza - Ilê Jitundê
P. a senhor poderia falar do Terreiro Jitundê?

R. O Ilê Jitundê foi fundado pelo Babalorixá Lício de Souza Moraes, ainda sendo Abiã. Ele tinha roça de candomblé, já tàzia as suas festas há mais de 15 anos. É quando o senhor Manoel Rufino veio pra São Francisco do Paraguaçu recolher ele. Que veio com Zinho Peixeiro - que é vivo ainda. Mutimuzambi, que já foi, foi Mãe Pequena dele e o Santo foi feito ai em São Francisco do Paraguaçu, em 1° do ano de 1952. Meu Pai de Santo foi iniciado em 1952, mas já tinha Casa aberta quando o senhor Manoel Rufino veio fazer o Santo dele. E de lá ele veio ter outros Filhos de Santo, antes de mim. Meu Barco foi em 64, com 3 Iyaô. Barco de 3: Dofono d'Oxossi, que sou eu minha Dofonitinha de Nanã, Nair, e minha Fomo d'Obaluaê. O nome do Orixá foi no dia 2 de fevereiro de ]964. Eu tinha 17 anos.

P. Porque o senhor se iniciou?

R. Por doença, por necessidade própria, eu tive de recorrer ao candomblé. Destino da vida. E eu fui à Casa de uma pessoa que eu nem conhecia. E Ia foi o Santo. O lugar que o Orixá quis, aceitou. E eu fiz o Orixá. Iniciei fazendo Santo, cumpri minha obrigação de 1 ano, 3 anos, 7 anos, 14 anos, 21 anos, com o mesmo Pai de Santo. Eu só tive um Babalorixá. Cumpri todas as minhas obrigações, foi meu amigo até a hora que Deus levou. Quando ele ia recolher Iaô eu ia pra a Casa dele. Quando eu ia recolher Iaô ele vinha pra a minha Casa. Às vezes ele viajava, deixava-me tomando conta dos filhos de Santo dele, eu ainda Iaô. E depois que eu tomei o cargo eu trouxe meu Santo e dei continuidade a Roça. Nunca faltei a uma festa na Casa de seu Lício.

Falando sobre a mãe:

Minha mãe sofreu muito por não tratar. Chegou ao ponto de ir pra uma Casa, em Salinas, de dona Vitória, pra fazer as obrigações. Fazer alguma coisa. E quando meu pai tomou conhecimento que ela ia raspar a cabeça, meu pai foi e tirou ela. Não deixou fazer a obrigação. Nisso, minha mãe ai começou se acabando. Bebia de cair na rua, eu garotinho saia pra ir buscar minha mãe. Eu a panhava levava pra casa, ela saia de novo pra ir beber e ai pronto: passou pegar um escravo. O escravo bebia, depois quebrava a garrafa, comia aquele vidro, que era um sufoco na família. É ninguém gostava e ninguém aceitava. Ela não deixava a gente ir em candomblé ver nada. Ela não deixava. E minha mãe, tinha uma parte que ela não aceitava, mas na mesma hora ela sabia que existia um negócio que pegava ela. Ela perdia os sentidos, mas sabia que pegava. Ela não desfazia, mas não aceitava. Quando foi no dia 2 de julho, primeiro ela teve um derrame, que ficou 3 anos em cima da cama, aleijada. Eu, com 8 anos, trabalhava pra sustentá-Ia. Eu ia pro mangue tirar marisco, tirar madeira de mangue pra o povo fazer chouriça. Ela trabalhava na Suerdieck, não pôde mais trabalhar. Eu ia ver a pesada de fumo e trazia pra casa eu que abria e levava. Eu era de menor e não podia, mas, por eu ser o filho que estava sustentando a mãe então era feito, na Suerdieck. Trabalhava em casa de fazer chouriça, carne de fumeiro, essas coisas casa 9ue fazia vinagre, eu ia fazer entrega de vinagre nas vendas, pra ganhar dinheiro. Aqui tem um l~gar que chama Japão, Ladeira do Japão. Então aquelas casas não tinham água encanada. Eu saía com lata na cabeça- carregando, enchendo os barris, eram barris de madeira. Enchendo pra no sábado ter aquele dinheiro pra fazer uma feirinha pra sustentar minha mãe. Até o dia que ela pediu, queria que eu entrasse na Escola de Menores, porque sabia que ela ia morrer e eu ia ficar à toa. Chorou muito, sabia que eu ia ficar à toa. Quando foi 2 de julho eu fui pra uma casa em Itacaré, quando eu fui ver a Escola de Capanema, de escrever. Ai me falaram que tinha um candomblé em ltacaré e eu passei. E nesse candomblé que eu passei esse caboclo me pegou, 2 de julho, e disse que não ia embora. Que não ia embora por que ele disse que era da minha mãe e minha mãe só teve vida até aquele dia. Que ele já tinha me pego e que ia ficar comigo. Isso foi em 2 de julho - ele não foi embora - de 1961. No dia 3 (tinha uma novela Bianca, que era no radio) ela tava escutando quando ela passou maL Ela chamou minha irmã: ''Tonha, me segure aqui que eu estou morrendo". Tonha disse: "mãe, a senhora" . "Tô, minha filha. Panhe a vela de São Jorge e bote na minha mão. É verdade. “Edinho tão longe e eu estou morrendo”. Ela morreu 9 horas da noite, de 61 3 de julho. Ele ficou comigo do dia 2 de julho até o dia 9, sem ir embora. Sem eu beber, sem comer, sem acordar, sem nada. Quando eu acordei, foi embora. "Diga a ele que vá". Ai eu vim pra aqui pra Maragojipe. Tomei um impacto, porque eu não sabia de nada. Foi aquele desespero e tal. Ai tomei ódio, não quis mais entrar no candomblé.

P. Onde ela morreu?

R. Aqui em Maragojipe. Ela morava aqui em Maragojipe. Ai eu não queria mais entrar em candomblé. Nisso, houve um temporal muito forte em Salvador e me chamaram. Caiu um paredão na rua do Céu e me chamaram pra tirar aquele cascalho, pra me dar um dinheiro. Eu fui. Peguei o dinheiro que ganhei e fui, comprei uma roupa preta, comprei uma calça, camisa, botei luto e outra pessoa me chamou. Quando me chamou e eu fui, tomei um corte muito grande e tive inicio de tétano e fui esbarrar no Pronto Socorro, que era no Canela. E achei um médico, que na hora de amputar a perna disse: "gente vocês acreditam em espiritismo? Vá numa Casa ai pra ver alguma coisa". E foram numa Casa, me trouxeram uma coisa, passaram em mim, eu comecei a febre ceder e não cortaram a minha perna. Ai mandaram que eu procurasse uma Casa. Ai eu fui na mesma Casa que eu tinha feito o serviço e ai fiz uma obrigação, que eu fiquei 2 anos na Casa dela dando obrigação, como Abiã. Eu tinha 14 anos. Quando depois de 3 anos, ai o Santo queria ser feito mas ela não raspava. Ela fazia obrigação, mas raspar ela não raspava. Foi ai que depois eu vim tendo doença, tendo crise, passando momentos, dormi na rua em Maragojipe por não ter onde dormir, porque minha família não me aceitava, por causa do candomblé. Passava fome. Mas eu na minha. Eu lavava roupa de noite pra vestir de dia. Mas eu permanecia firme, e dizia: “Eu não o meu Santo. Vou passar o que tiver de passar, mas não deixo meu Santo. Mas depois que eu fiz, passei isso tudo, ai Oxóssi foi pra essa Casa, me levou pra essa casa e na casa que eu fiz o santo na casa do seu Lício.No dia que eu sai da casa de Santo, nunca mais passei fome, nunca mais dormi na rua, e nunca mais vim passar desespero na vida. Agora, vim trabalhar. Quando eu saí do Santo, trabalhei aqui numa fábrica de tapete, de seu Hamilton Leite depois vim trabalhar vim trabalhar na padaria que o pai dele (Seu Domingos) tinha padaria e eu fui trabalhar no balcão e nesse balcão eu aprendi fazer bolo, fazer doce e eu fazia muito doce pra vender, muito bombocado, muito doce de banana. Aquelas tachas de cobre eu batia aqueles doces, fazia 2, 3 tachos. Eu ia pra São Francisco criar Iaô, levava as sacas de açúcar, genipapo, e eu fazia os doces pra vender. Dei muito duro, mas ... porque as vezes o povo faz Santo e quer que o Santo dê na mão. Não é isso. Tem que trabalhar pra o Santo ajudar. E eu trabalhei e o Santo me ajudou.

P. Quem ajudou ao senhor?

R. Quando eu sai do Santo, que eu tirei o meu Kelê, eu vim pra Maragojipe sem saber pra onde eu ia. Sabia que eu ia tirar o Kelê e naquele dia 31 de março de 64, da Revolução, os sinos dobrando em Maragojipe, eu sem saber, cheguei aqui em Maragojipe, fiquei numa casinha, e Mingo foi de moto, de motocicleta, me buscar.

Mingo é Domingos, que é meu irmão de criação. Então ai me trouxe, mas o pai não era ligado a candomblé, assim como a família toda que não era ligada, mas respeitava. E nisso eu vim, primeiro fiquei num biombo uns 8 dias escondido do velho. A mãe sabia. Não tinha energia, não tinha nada, fiquei ali praticamente escondido, até passar, o velho tomar conhecimento. Mas a velha sabia. A empregada que ela tinha foi mulher de um Pai de Santo aqui em Maragojipe, Nunga. Ai botou ela pra cozinhar pra mim. Essa velha ficou cozinhando no meu resguardo. Porque eu levei 1 ano de resguardo. Foi o tempo que eu trabalhei no tapete, de Hamilton Leite. Logo depois Nunga morreu, era velhinho, ai dona Mô passou a fazer a minha comida. Ai veio a me ensinar a fazer os doces e tudo foi normalizando. Eu com 7 anos fiz meu cordão de Axé de 1 a 7 anos, lá nesse biombo que eu morava. Ai botei luz, já cimentei, já melhorei as coisas, e ai as coisas foram melhorando pra mim. Eu tinha interesse em trabalhar, minha irmã já veio morar comigo nesse biombo, separou do marido. Terminei de criar os filhos dela. E ela também, até hoje, ainda vive. Porque quando eu fui fazer Santo eu já trabalhava. Abiã mesmo, que já fazia algumas coisas que meu caboclo era que vinha fazer, não era eu. Se tinha uma pessoa no sanatório, na cadeia, morrendo, era ele quem ia e tirava. Eu não fazia. Esse trabalho grande era ele quem fazia. Quem me ajudou muito foi meu caboclo. Tive a proteção de dona Mô, de seu Hermano, dele eu tinha uma casa pra morar, tinha comida, porque apesar de eu trabalhar mas passei ... fazia parte da família. A velha, mãe dele, (Domingos ).dizia: "O que meus filhos tem direito você também tem". E nós viemos tomando conta e honrando meu Santo, meu Orixá, valorizando, e nisso eu fui trabalhando, vim chegando, paguei as minhas obrigações de 7 anos e foi ai que eu vim pra aqui, ainda um chalé, uma casinha humilde. Eu consertei o chalé, reformei e trouxe meu Santo pra aqui. Com 2 anos de Santo aqui, ai eu comprei. Mas o pai dele (Domingos) fez o que pra mim? Passou a escritura em meu nome. Como eu tinha comprado, isso em 73, ai eu comprei e com essa escritura eu fui no banco e tomei um empréstimo. No BANEB, em Salvador. Paguei com 2 anos, 22 mil cruzeiros. No dia 13 de junho. Ai a velha fez uma promessa a Santo Antonio. Se eu conseguisse comprar isso aqui, porque o velho tinha um débito do INAMPS e ele tinha que vender isso aqui pra pagar as dívidas dos empregados. E eu tinha que ter esse dinheiro, porque ... e ele: ''você vai conseguir, você vai conseguir o dinheiro". E a velha disse, se eu conseguisse pagar, ela: ia rezar 13 novenas pra Santo Antonio. Eu cheguei dia 13, Santo Antonio, era encerrando a dela, que ela rezava do dia 1° até o dia 13. No dia 13 eu chegava com 22 mil e entregava. Ai ela continua as 13 novenas e passei a ser dono do Alabaxé , desta Casa. E ai eu fui lutando, construindo, carregando pedra, meu povo todo, muita gente em Maragojipe me ajudou, vinham aqui, a gente fazia aquela feijoada e o povo vinha trabalhar dia de domingo. Comecei primeiro aqui de madeira, casa de barro. E veio, fui fazendo, fui construindo, fui lutando ... eu não tenho casa fora, mas tenho minha casa do meu Santo. Aqui é a minha morada. Eu quis fazer pra meu Orixá. A dele eu me cubro também com a casa que eu fiz pra ele, porque tudo que eu tenho quem me deu foi o Orixá. E ai nós estamos nessa vida. Eu luto e quero que todos façam com o Orixá como eu faço. Dê amor, carinho, respeito a religião. Porque o Orixá quando ele veio não escolheu, nem preto nem branco. O Orixá gostou da pessoa, ele se ... porque nós temos que valorizar nossa origem, nossa terra. Na minha família houve. Meus antepassados, que meu tataravô foi africano, era escravo, trabalhou nesse engenho. Minha tataravó foi índia. Mas meu tataravô era negro. Eu tenho sangue negro nas veias. E o Orixá é tudo na minha vida.

P. Porque o nome Alabaxé?

R. Ilê Alabaxé foi eu, que em jogo que fui procurei ver e saiu. Alabaxé é o Axé. O Alá é aquilo que cobre tudo. E a outra tradução: Ilê Alabaxé é aquilo que põe e dispõe de tudo e eu construi essa Casa.

P. Qual o orixá que rege o Ilê Jitundê?

R. Omolú

P. E qual o que rege esta Casa?

R. Oxóssi

P. Quantos Filhos de Santo tem no Ilê Alabaxé?

R. O llê Alabaxé tem mais de 200 Filhos de Santo. Tem muitos daqui de Maragojipe, Salvador, Sapeaçú, Cruz das Almas, Feira de Santana, Alagoinhas, Candeias, Madre de Deus, Rio de Janeiro, São Paulo, Belém do Pará, Minas, Rio- Grande.do Sul, Estados Unidos ...

P. Quando o senhor se tornou Babalorixá?

R. Em 1971. No dia 2 de fevereiro de 1971 recebi o cargo de Babalorixá, do meu Babalorixá Licio de Souza Moraes.

P. O Ilê Alabaxé tem projetos sociais?

Roberval e Pai Edinho
R. Tem, sim. (Fala Roberval): Nós damos aula de Iorubá, nós damos aulas de cânticos nós damos aulas de atabaque tem um grupo de capoeira que faz treinamento aqui, constituído aqui por nós. Edinho, praticamente uma vez no mês, da comida a essa população mais carente, aonde mais de 100 a 200 pessoas vem aqui buscar comida. Edinho tem projeto de construir uma creche, que começou ali (numa área do terreiro), mas não teve condição de terminar. Edinho tem um projeto de fazer na Casa o Lar dos Velhos, que é uma coisa que Edinho se dedica muito com crianças, com velhos. Então, essa coisa é ampla. A gente tem vontade de realizar algumas coisas, mas os subsídios ... O Ilê Alabaxé é mantido só por uma pessoa, que é o Babalorixá Edinho. Edinho não tem recursos federais, estadual, municipal. Tudo isso é feito por Edinho.

P. O senhor continua mantendo contato com o Terreiro Ilê Jitundê?

R. Continuo. O Ilê Jitundê, depois que meu Babalorixá morreu, eu assumi a posição de Babalorixá dado por ele, antes dele faltar. Ele já deixou isso na Federação e eu assumi o cargo e estou dando continuidade à Roça. Todas as obrigações é passada pela minha mão. Tudo é feito por mim. Não se faz nada na Roça sem a minha presença. De carrego ao axexê, de tudo. Tudo é passado por mim. Agora mesmo, tem uns dois meses, se foi um Ogê da Casa, velho nós fomos fazer o carrego. Tem Ogãs, tem tudo, mas quem vai fazer sou eu.

P. Quantos Filhos de Santo tem o Jitundê?

R. O Jitundê tem poucos filhos porque a maioria, muita gente, já foi embora. Tem uns 30 filhos ainda vivos.

P. Quantos anos tem que ele faleceu?

R. Fazem 19 anos agora em 26 de outubro. P. Qual o ciclo de festas do Jitundê? Continua havendo?

R. 1° do ano é o Olubajê. Todo ano ele fazia, eu dou continuidade. Nos 50 anos de Santo dele eu fiz uma festa muito bonita e veio vários Babalorixás, Ialorixás de vários lugares pra a festa. 1° do ano é Omolú 3 de maio, dia de Santa Cruz, é a festa de Oxóssi e São Pedro é a fogueira de Xangô. Só tem isso.

No dia do Tombamento
P. E o calendário de festas Alabaxé?

R. A primeira festa é em 2 de fevereiro. Uma homenagem que nós fazemos a Oxóssi. Depois vem a festa de Oxóssi, Corpus Christi. Varia entre maio e junho. Depois vem a festa do caboclo, no primeiro sábado de julho. Quando coincide o encerramento de Oxóssi ser no primeiro sábado de julho, conseqüentemente a festa do caboclo fica pro 2° sábado de julho. Depois, no dia 10 de agosto, é obrigação em louvor ao Orixá de minha Mãe, que é Irôko, Tempo. Depois, a festa de Oyá, que é o 1° sábado de dezembro. Ai encerra.

P. Quem freqüenta essas festas?

R. A comunidade e muita gente de fora, muitas pessoas importante. Ajuíza, que era daqui de Maragojipe, ela, o pai, a mãe, todos vinham. O Promotor, que hoje já não existe, Dr. Nélio ... Quem abriu aqui em Maragojipe pra vim um promotor e uma juíza fui eu, porque não iam nos candomblés. Começaram a vir aqui em Casa, ai começaram. Porque o povo tinha aquele receio de ir a candomblé. Mas aqui vem várias pessoas importantes: o Pastor Romário, da Assembléia de Deus, o Padre, muitos professores, muita gente importante, pessoas de outros Estados, de outros países que vem nas festas.

P. E a convivência com a Igreja Universal do Reino de Deus?

R. É uma religião que agride a nossa. A mim, eu nunca ... mas agride a meus irmãos está agredindo a mim também. A Universal é a pior religião que tem, porque o catolicismo ela não respeita. Ela não respeita ninguém. Então, se não respeita o candomblé não respeita a mim, não respeita ninguém. Então eu não gosto.

P. O senhor sabe o número de Terreiros que tem em Maragojipe? Qual o mais antigo?

R. Tem mais de 30, mas registrados tem 14 ou 15. Todos me respeitam, por sinal sou mais velho do que eles e são meus Irmãos de Santo.

R. Do Ketu é o nosso.

P. E no geral?

R. É o Pinho. Casa do Jêje. Rumpa Oaomé é o 1° candomblé de Maragojipe. Foi fundado em 25 de dezembro de 1658.

P. Também tem Terreiro Bantu?

R O Banto que tem aqui só é um. Eu sou o Pai de Santo de Ia. Eu que faço as obrigações da lalorixá. A obrigação dela de 14 anos quem fez foi eu, a de 21 anos quem fez foi eu, os netos quem confirmou foi eu, a neta, que é feita de Angorô, quem raspou foi eu. Na Casa dela só eu faço as obrigações. Tem outros terreiros aqui que eu vou fazer as obrigações, porque depois que meu pai de santo cufô (morreu), a maioria dos Filhos de Santo ficaram eu dando as obrigações.

R. Fevereiro de 1921.

P. O senhor sabe a data de fundação do Terreiro Jitundê?

P. O senhor tem apoio de algum órgão oficial?

R. Não, nunca tive. Eu comecei fazendo a base da creche. Tem alvenaria, tem tudo, mas não deu pra eu continuar. Aqui eu fazia funeral pra muita gente, fim de ano e inicio de ano: colégio, livros, vem às matrículas, vem a nota de livros, eu vou eu compro. Dia das Crianças eu faço presente, faço também carurú, já fiz caruru aqui no Dia das Crianças de 10.000 quiabos, pra atender as crianças, vem todas as crianças de Maragojipe.

P. Como é a relação do senhor com a Prefeitura de Maragojipe?

R. Boa. Muito boa. Também nunca fui procurar ele, nem também eles nunca me trouxeram nada. São meus amigos.

P. Quantos Filhos de Santo o senhor tem?

R. Eu tenho mais de 200. Entre Abiã e tudo vai a 300 filhos. Mas feitos, eu tenho mais de 200.

P. O que significa ser Pai de Santo na terra em que o Senhor nasceu?

R. Pra mim, eu acho assim: Eu sou respeitado na minha religião, de velho a criança me tomam a bênção onde eu passo. E eu acho muito importante, porque tenho sido muito bem visto como Babalorixá. Fui paranifo 5 vezes de colégio aqui. De formatura de magistério, de administração. Fui do Simões Filhos, 2 vezes fui do Polivalente 2 vezes e fui do Estadual umas 5 vezes. Afilhado de batismo eu tenho mais de 300 afilhados. Padrinho de casamento, mais de 50 vezes já fui. Eu tenho diploma de Irmão de São Bartolomeu. Aqui em Maragojipe eu nunca fui criticado. Todos me abraçam, todos confiam em mim.

P. Fale sobre as dificuldades que o senhor teve no começo do Terreiro aqui.

R. Quando eu vim pra cá eu arranjei fio de telefone, emendei pra colocar luz aqui. Fio de telefone da rua pra aqui, porque era muito caro. Pra ter aquela luz pro 1° candomblé que eu toquei aqui, que foi no mês de abril. No Barracão a gente comia, botava a esteira no chão, mas sempre tinha uma mesa pra as pessoas que vinha, mas eu com todos meus Filhos de Santo eu comia junto com eles. Eu ia pro Barracão, me sentava, botava comida deles na esteira, ficava ali sentado no banco comendo com eles. A cozinha era coberta de lona. O banheiro, a porta era de lona. Pra ir pra à parte aonde a gente dormia, a parte era de lona também. Todo mundo aqui bonitinho, tinha comida certinha, eu ia pra cozinha fazer comida, eu ajudava também o povo, todo mundo se dava bem, todo mundo achava bonito aquilo, todo mundo irmão. Quando chegava pessoas estranhas eu ia na casa de Domingos ver os talheres e voltava para fazer a mesa bonita pra servir o povo.

Ai a velha mandava os pratos dela, as coisas boas e eu servia aquele povo todo. Eu tenho cliente de 40 anos que ainda me acompanha. Muita gente que iniciou comigo continua comigo. Minhas 3 primeiras Filhas continuam comigo. Vão fazer agora, dia 6 de agosto, 33 anos de Santo, contínua comigo. O Santo aqui na Roça. São minhas amigas. Uma vai fazer agora 80 anos, em fevereiro. Já ta se arrumando pra fazer a festa. Não pode perder a minha presença, porque é loucura. E, realmente, as comidas daqui, temos as pessoas que cozinham bem aqui. Nos tínhamos uma Ekédi da Casa, que eu deixava na mão dela. Ela vendia fato. Foi uma das fundadoras comigo lqui. Cal'l'~a,va telha e tijolo pra a gente construir aqui. Gertrudes. Ela vendia fato. E ela vinha sábado, quando ele saia do fato ela vinha pra aqui pra botar a feijoada pra domingo, que tinha um adjuntório pra o povo vim me ajudar fazer as coisas. Passava o dia aqui e todo mundo comia. O mundo igual. Era fogo de lenha ai no quintal. Fazia aquelas melhores comidas. O povo diz por onde eu ando o quiabo me acompanha. Que aonde eu vou tem que ter quiabo. Porque ipre eu gostava de fazer um carurú. O povo já sabia que meu prato era carurú.

P. Quem lhe ajuda aqui no Terreiro?

R. Existe aqui esse, que é meu irmão, Domingos de MeIo Albuquerque, que é uma pessoa que me acompanha desde a hora que eu nascí no Santo. Ele é o Axogum da Roça. Ele que corta pra o meu Orixá. Desde que eu trouxe o meu Orixá pra ca ele é que corta o meu Orixá. E esse daqui, e é o meu Filho, Antonio Roberval França da Mata. É Babalossam da Roça. Eu viajo, ele toma conta da Casa. A mãe dele é feita também aqui: Diná. Já tem obrigações pagas. Ele veio, daqui ele se formou, daqui ele casou, já tem filhos, tudo aqui. Vereador pelo 3° mandato aqui e é uma pessoa, dentro do candomblé, que eu entrego tudo a ele. Se eu viajo, ou se eu não posso viajar, só ele sabe comprar o que eu quero, porque outra pessoa não compra como eu quero. E ele é uma pessoa que toma conta de tudo. Ele arruma ,o Barracão, ele que arruma quarto de Santo, ele que arruma as obrigações todas. Quando eu chego, eu desço, já é pra cortar pra o Santo, porque meus Filhos, todos, quem corta sou eu. Apesar de ter o Axogum da Roça, ele só corta pra o meu Santo. Ou então ele corta pra pessoas que eu não posso cortar, como no caso de marido de uma Filha de Santo minha ou uma pessoa assim, os 2 da mesma casa, então ele corta. Mas livrando disso, todos os meus Filhos de Santo quem corta sou eu. Barco de 12, Barco de 10, eu corto. O Obé (faca) vem pra minha mão, eu só entrego depois que eu termino de cortar. Terminei ali, depois que eu faço a entrega do Orixá e tal, tal e tal. Ai eu passo pra os outros Ogãs vim arrumar. Mas quem corta sou eu.

P. Maria Gertrudes da Conceição era Ekédi?

R. Ekédi.

P. Era do Orixá do Senhor?

R. Do meu Orixá, Oxóssi. Ekédi de Oxóssi.

P. Fale sobre os cargos daqui do Terreiro.

R. Domingos é o Axogum Roberval é o Babalossam Rosa é lalaxé da Roça Mãe Gertrudes era Iabassé da Roça. Nena é a Ekédi. Ta viva ainda. Já não anda, mas é a mulher da maior responsabilidade desta Casa. Ela arrumava tudo pra mim e me entregava em minhas mãos. Iniciou comigo hoje ela mora aqui ainda, em Maragojipe. Doutor Marcos, Ojuôbá Renato, que é Ojuôbá também. E tem Osvaldinho, é do Axogum esse mora no Rio Grande do Norte. Renato é Aboatum de Xangô e doutor Marcos é Abolossí, ou seja, o braço direito e o braço esquerdo de Xangô.

P. Quantas pessoas moram aqui no Terreiro?

R. 18 pessoas, fixas, residem aqui.

P. O senhor que mantém essas pessoas?

R. Sim

P. Qual a importância do tombamento do Terreiro Ilê Alabaxé?

R. O tombamento do Terreiro vai ser uma coisa muito importante na minha vida. Porque toda a minha vida foi dedicada a esse candomblé. Eu envelheci construindo esta Casa. E eu vou ter a maior felicidade, vivo ainda, vendo a minha Casa tombada. E sei que Oxóssi não vai ser jogado fora. Oxóssi vai ser eterno ai, tomando conta da Casa dele que eu construí. Que ele me deu direito. É a maior riqueza pra mim, vai ser a maior felicidade. Nunca vou esquecer vocês, nunca vou esquecer doutor Júlio Braga e as pessoas que estão olhando pra isso e me dando o direito de amanhã eu gritar e dizer: Oxossi é eterno, ele vai ficar e ninguém vai despachar ele, porque não vai ter briga, o que eu tinha que dar ao meu povo já dei. Dei casa a um, dei casa a outro, minhas irmãs eu ajudei. Meus netos, minhas sobrinhas, todas tem casa, tem tudo. Casa em Salvador. O que eu pude ajudar minha família eu ajudei. Ali embaixo eu tirei uma faixa, (de terra) vários lotes já dei, porque vou deixar a Roça dos Orixás. Isso aqui vai ser o Mundo dos Orixás. E vai ser eterno, se eu tiver esse direito. Eu vou agradecer muito, vocês nunca vão sair da minha memória.

P. O que significa a natureza para o senhor?

R. Tudo, porque Orixá é a natureza. Orixá é a vida e os matos, as folhas, é o que nos da vida, força e muito Axé, porque sem a folha nós não temos Axé. É a folha quem nos levanta e nos sustenta a nossa cumeeira. Sem as folhas nós não somos nada. Tratamos essas folhas com carinho e amor. Sem as folhas não existe nada, porque terra é mato, é quem sustenta os Orixás. Os Orixás são cobertos pelas folhas, porque das folhas vêm o domínio do Axé, da bondade. As folhas servem pra tudo dentro do candomblé. Tanto pra vida como pra morte.

P. E a água?

R. A água é tudo na vida, também. Porque sem a água nós não podemos purificar os Orixás. A água purifica e lava todas as maldades, tira todos os negativos de cima de todos nós. A água purifica. É muito importante a água. Sem a água a gente não vive.

P. E os animais?

R. Os animais, no caso as criações - bodes, essas coisas - nós usamos bode, cabra, essas coisas, porque hoje estão condenando se usar sangue, Ejé, em cima do ibá (assentamento), mas eu encontrei isso dos meus antepassados e eu não posso mudar a minha origem que eu aprendi, que eu encontrei. Então, se o bode é pra o Orixá, é o bode, é os galos, pato, conquém, pombo, isso tudo entra pra a obrigação, porque o que acontece: todas as minhas obrigações que eu participei e tudo isso que eu recebi foi levado pelo meu Orixá. O Orixá recebeu. Então hoje eu não posso mudar pros meus filhos, tirar tudo que recebi. Eu sei que eu consegui muito Axé com as coisas que meu Pai fez pra mim. Porque eu vou tirar dos meus Filhos? Eu' quero que eles também cresçam como eu cresci. Então os animais pra mim, no candomblé, são sagrados. Existe. A obrigação existe, sim. Não pode acontecer é que muitas Casas, muito tem sido feito com os animais, porque tem animais que não entra em uma obrigação. Um bode môcho, vai ver qual o Orixá que pega aquele bode môcho. Nem todo Orixá aceita aquele bode.

P. E a respeito do carneiro?

R. É porque na nossa Casa, Iansã, o poder é de Iansã, é o meu Ajuntó, é o segundo Orixá nessa Casa. Iansã comanda essa Casa. Ela é a Mãe da Casa, ela é quem segura e é a maior Kizila, é o maior Ó, numa Casa de Iansã, é um carneiro, é um agutã (carneiro) cortar. E nós não cortamos. Nem um tapete com couro de agutã na minha Casa não entra. Porque é um Orixá que nós respeitamos, é um Orixá que faz parte da minha vida. Mas, a parte certa tem que ser se obrigação é bode, se é cabra, eu não deixo de fazer as obrigações. Agora, tem parte de Orixá, como Obaluaê, tem Obaluaê que come porco. Pra a gente fazer uma obrigação dessa tem que ter muito cuidado. São animais que precisa muito carinho, muito respeito, pra ir numa obrigação dessa. Porque tem pessoas que vem de uma obrigação e não quer manter aquele resguardo. Então, é preferível não cortar esse animal para o seu Santo. Pra você fazer e não cumprir seu resguardo, então não corte um Eledé pra botar... do seu Santo. É um animal que precisa muito respeito pra não ter uma decepção grande e não dar errado a vida. A gente quer fazer a obrigação de um Filho e quer ver ele prosperar e não se arriar.

P. Qual a clientela do curso de Yorubá?

R. Nós atendemos não só as pessoas daqui do Ilê Alabaxé como também de outros Terreiros. Da mais ou menos 70 pessoas, grande parte de pessoas idosas. 80% é de jovens, Ogãs e Ekédis, que estão iniciando agora, começando agora aqui na Casa, na Casa de Rosete, na Casa de Jaci, na própria Casa de Kissassi, que é Terreiro de Angola, mas está presente. A Filha Chica. Então é em torno de 70 a 80 pessoas.

P. Quais são os dias desse curso?

R. Nós começamos, geralmente, no período de festas do Babalorixá. Nós damos assim uma vez no mês. O mês de maio e junho a gente da intensivo, o curso não pára. Agosto a gente não da, porque é período de festas em Maragojipe. A partir de novembro a gente começa até dezembro. São períodos. Capoeira, são duas a 3 vezes no mês. Tudo é feito no Barracão. Agora, tem um detalhe: a gente só ensaia com pessoas do Axé. Todo, curso de Iorubá, todo curso de cântico, todo curso de atabaque, é pra pessoas do Axé, iniciantes. E só pra a comunidade do candomblé.

P. Como se dá à convivência dos jovens com os mais velhos aqui?

R. Há um respeito muito grande. Até porque a gente envolve os jovens no trabalho social. A gente envolve os jovens pra dar comida à comunidade, pra estar atendendo, pra estar despachando. No cântico, a gente envolve as pessoas pra ter mais vontade de cantar, tem mais desenvoltura. Hoje os jovens respeitam muito mais.

P. O senhor atende muitas pessoas aqui em Maragojipe?

R. Atendo. Muita gente, porque esse povo precisa e chega dia de quinta-feira, ai vem um e pergunta: qual é o dia que o senhor fez caridade? Eu digo: meu filho, eu faço todos os dias. No que precisar, pode vim que eu atendo. Eu atendo muita gente.

P. Os Alabês são mais jovens ou mais idosos?

R. Mais idosos.

P.Tem jovens se interessando em ser Alabê?

R. Tem, também. Aqui tem muitos se interessando pra aprender. Por sinal, nós temos aqui meninos que tocam muito bem. Meu neto mesmo, tem 20 anos, toca muito bem. Tem outros jovens que toca muito bem. Agora, pra arrumar o cargo de Alabê tem que ser uma pessoa com mais idade, porque impõe mais respeito.

Agradecimentos do Pai Edinho
P. O senhor joga búzios?

R. Jogo, sim.

P. É verdade que somente quem é Babalaô pode jogar?

R. Búzio não é uma advinhação. Nós nascemos com dom de ser Oluô, o Babalorixá, porque nem todos tiveram a felicidade de ter esse dom de búzios. Porque o búzio é um dom e quando a pessoa traz o dom não precisa ser Babalaô Oluô. O Babalorixá, ele sente, ele vai pra o jogo, ele vai saber o que vem. Porque não é jogar búzio, contar búzio e advinhar. Não existe advinhação. Existe, sim, dom. Porque nós temos juramento. Nem caluniar e nem mentir. Tem que sair e ver aquilo que vem. Porque pra você ser um bom Oluô, você tem que corresponder aquilo que o Orixá lhe dá. Nós recebemos algo superior que a gente não sabe de onde vem. Então, é uma mensagem que você recebe. Isso é muito importante. Antes, realmente, era escolhido um Oluô. Preparava para jogar. Existia, você recolhia um Iaô, você tinha que ir pra outra Casa jogar pra fazer. É como o Axêxê: você que faz o Orixá, você tem que ta preparado pra vida e pra morte. Porque não é possível que eu faça o Orixá e vem ou faz uma Filha de Santo pra procurar uma outra pra vir botar o Axêxê. Se eu fiz aquele, se a gente tem um filho, a gente tem que ta preparado para a alegria e pra a tristeza. Graças a Deus, aqui na nossa Casa, eu nunca precisei de trazer ninguém de fora. Se for pessoas que eu possa arriar a cuia, eu arreio a cuia e eles executam o Azerim. Eles cantam, eles fazem. Eu faço tudo. Se for uma pessoa que eu não posso arriar a cuia, eu pego um Ogã da Casa e mando arriar a cuia. Um superior a mim. O meu Pai de Santo mesmo, tem os Ogãs dele e a primeira irmã dele, que era Kauíze, que morou comigo, arriar a cuia, porque eu não podia pegar, era meu Pai eu não podia pegar em nada. Mas eu participei até a hora do Obí. Ele tinha que ta na frente pra ver se tava jogando certo. E acompanhei, estou aqui até hoje. E o jogo é a coisa mais importante dentro do candomblé. O Babalorixá tem que ter a sua mão de jogo. Tem que saber contar o jogo.

P. E Pai Lício? Qual era a formação dele?

R. Ele era pedreiro. Um bom pedreiro. Por sinal, aquela igreja de São Francisco, muitos trabalhos ele faz ali. Além de ser um bom pedreiro, ele era mestre de acabamento. Ele também costurava muito. Ele fazia casa de abelha, tudo isso ele fazia. Quando eu fiz 25 anos de Santo ele me deu uma camisa toda aberta em beju. Costurava muito. Fazia muito licor pra vender. Fazia aquele mundo de licor de maracujá pra vender aqui em Maragojipe. Ele era de Maragojipe, mas já morava há mais de 60 anos lá em São Francisco do Paraguaçu. Quando ele adoeceu ele veio embora, morreu aqui em casa. Quando meu Pai de Santo morreu eu já tinha feito a obrigação de 21 anos. Já estava com 25 anos de Santo. A minha obrigação de 21 anos foi engraçada: veio muita gente de fora. Muita Ialorixá, do Rio de Janeiro, muita gente da Casa de seu Zezinho do Portão, gente do Gantois, gente do Alaketo, muita gente de fora. lalorixá, Babalorixá. E quem veio cantar foi o Alabê da Casa de seu Manoel Rufino. E meu Pai de Santo já estava muito doente. E ele me pediu, me chamou e disse: "meu filho, eu sei o que você ta gastando, pelo amor de Deus! Eu não vou pegar na sua obrigação". Eu disse: O que meu Pai? O senhor não vai pegar? Ele disse: "não, eu não vou pegar. Você me garante?" eu disse: garantir o que? "Se você não aceitar eu vou embora não fico com a sua obrigação. Meu filho, que adianta eu fazer a sua obrigação hoje e amanhã eu morrer?" eu disse: meu Pai, se você fizer a minha obrigação hoje e morrer amanhã, eu vou gritar, vou chorar, mas estou satisfeito porque outra mão não botou na minha cabeça. No dia da festa, um mundo de gente nesta casa, que era menor, um corredor comprido, até lá embaixo, dos mais velhos aos mais novos sentados. Meus Filhos de Santo, minhas Irmãs de Santo, a Família do Santo toda aqui completa. Na hora, no quarto do Santo, eu disse: não quero ninguém no quarto de Oxalá, na hora do meu Borí. Só vai ficar a Mãe Criadeira , que me criou quando eu fiz Santo - Mãe Luz - ele, Mingo, e Nena, assistindo. Eu disse: meu Pai, o senhor começou termine. Não foi o senhor que começou? Termine. Entreguei minha cabeça e falei: se o senhor for embora amanhã eu estou satisfeito,foi o senhor que concluiu a obrigação. Eu fui pra a sua Casa com uma sandália havaiana, amarrada de arame, fazer o Santo. Hoje eu tenho pra dar. Ai ele me olhou, chorando. Eu disse: Faça a minha obrigação. Ele fez a minha obrigação. Uma obrigação muito bonita. Quando saiu da obrigação, eu disse: olhe o senhor não esqueça que quando eu entrei na sua casa eu levei 2 calças e uma camisa, enrolada com papel e uma sandália calçado. Eu vim de roupa, foi o senhor que me deu. Eu não gastei 1 centavo com meu Pai de Santo. Ele me deu tudo. Agora, minha despesa ia da casa da mãe de Mingo ia aos balaios. Mas tudo do Axé foi meu Pai de Santo que me deu. Tudo quem me deu foi ele. Eu fui muito feliz com o Pai de Santo que tive. Saiu da minha casa. Ele tem terreno comprado pra ninguém arrancar ele. Comprei o chão, foi enterrado aqui em Maragojipe. Ta lá, no cantinho dele. Ninguém tira. É perpétua, a sepultura dele. Saiu daqui cantando. da minha Casa até o cemitério, acompanhado por todos os meus Filhos, que vieram todos. Todos vieram, participaram, me deram aquele amor, aquele calor. Ele era muito bom pra os meus Filhos de Santo e meus Filhos também pra ele. Quando ele fez 25 anos de Santo eu reuni todos seus Filhos de Santo pra arrumar a Casa dele, que lá não tinha energia. No dia que ele botou luz eu levei uma geladeira, encaixotada. Levamos mobília de quarto, cadeira-do-papai, uma máquina de costura. Fiz aquela festa, aquelas lembranças todas. Foi uma festa bonita. Ele chorou, ele me abraçou. Agora, ele falava porque eu tirei um bendito colchão de capim que ele dormia. Me xingou todo porque eu tirei o colchão de capim. Joguei o colchão fora, toquei logo fogo. Quando ele voltou, tava o colchão de mola. Ele saiu procurando onde eu tinha escondido. Mãe Bárbara disse: "Você ta chorando de barriga cheia! Ele já queimou. Você é feliz com o filho que você tem, Lício". Mas era assim a gente terminava em graça, mas eu cumpria as minhas obrigações e nunca deixei meu Pai de Santo faltar nada. Qualquer coisa que tinha, eu pegava uma canoa e ia ver ele. Consegui aposentar ele nos reunimos e aposentamos ele. Quando foi embora já estava aposentado. Foi um amigo, irmão, pai.

P. Fale sobre Pai Rufino.

R. Ele falava que aos 13 anos ele vendia fato, botava gamela na cabeça e ia vender fato. Espichava o cabelo, porque o cabelo era muito duro, e ele passava um negócio pra o cabelo ficar liso. Foi quando ele veio fazer o Santo, e fez o Santo, e que ai todo mundo tinha um diploma disso e daquilo e ele não tinha. Ai ele foi, pagou a uma pessoa pra tirar um diploma dele de datilografia, que ele nunca foi, mas ele pagou porque queria um diploma na parede, porque todo mundo tinha e ele não tinha. Ele batalhou muito, ele foi preso ... ele recolheu um Barco. Morava na Quitanda do Capim. O Barco dele acho que foi de 7 yaô. E foram presos, quebraram tudo. Quebraram a Bacia de Oxum, que era de Macau. Me lembro que ele me contava e chorava. Quebraram a Bacia de Oxum e foi todo mundo preso. Na hora quando a carrocinha - que chamavam - que foram presos, Oxalá pegou uma das yaôs, dentro da cadeia. Ai o investigador deu ordem de que não era pra ter prendido o candomblé de seu Manoel Rufino. Mas ele bateu em Rufino, eles quebraram os Ibás de Santo. Esta pessoa se acabou na Ladeira do Canto da Cruz. A gente descia de bonde, da Liberdade, e passava ali. Ele descia comigo pra fazer compras. Ele de chapéu, de óculos. Ai tinha aquele homem sentado, num calhamaço, com uma cuia. Ele ai tirava uma moeda, batia assim e dizia: " Olhe sou eu, Rufino, aquele que você quebrou a Bacia de Oxum, tem aqui uma moeda para você”. Ele dizia que era pra ele lembrar que estava dando à ele. "Ele hoje esta precisando de meu dinheiro pra comprar um pão". Se acabou na Ladeira. E outras coisas. Ele (Rufino) sempre foi dono de si. Tinha uma natureza forte, mas ele tinha um coração bom, se você chegasse e dissesse:Eu vim ver Oxum, eu vim bater a cabeça para Oxum pronto, ele já se derretia, porque foi ver a Mãe dele. Ele podia esta brigando com quem fosse, a pessoa batia a cabeça e chamava por Oxum, acabava a briga. Mas ele foi muito perseguido pela policia, na Liberdade. Depois ele foi pro Beiru e ai conseguiu a Roça, que era uma das maiores Roças na Bahia. Depois acabou, foi uma tristeza pra gente. Nós pegamos o Axexê, porque todo ano eu ajudo, mando alguma coisa pra a obrigação de Oxum. No dia 13 de dezembro tem a obrigação de Oxum, lá. E aqui também eu dou comida a Oxum dele. Todo 13 de dezembro eu arreio uma oferenda pra o Oxum dele aqui em Casa e eu sou correspondido, eu sei que eu sou correspondido. Teve um ano, que eu vi alguém dizer assim. "Tantos anos de Pai Rufino de morto e Edinho faz essa obrigação pra Oxum". Eu disse: Oh, minha Mãe! Prove que você esta aqui comigo. O cordão da bandeira caiu no Barracão, assim, nos meus pés. Bati a cabeça no chão, pedi a bênção à ela pois sabia que ela estava presente, me ouvindo. Rufino foi uma pessoa que respeitou muito o candomblé, mas ele não era muito ligado às outras Casas não. Ele ia ajudar e tudo, mas ele sempre foi reservado. Só dona Menininha era que tinha um laço muito grande com ele. Tanto assim, que as 3 filhas dele ele deu pra ela fazer o Santo.

domingo, 14 de agosto de 2011

LIVRO: Boa Morte - Das memórias de filhinha às Litogravuras de Maragogipe, por Sebastião Heber Vieira Costa


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Em seu Livro BOA MORTE - Das memórias de filhinhas às Litogravuras de Maragogipe, Sebastião Heber Vieira Costa explica como se deu uma das Festas mais populares da Bahia, no município de Maragogipe. Leia um texto-resumo que fiz baseado nos escritos de Sebastião Costa.

Na Terra de São Bartolomeu e da Boa Morte, na Igreja da Matriz de São Bartolomeu de Maragogipe há um altar com a imagem dessa devoção, isto é Maria está deitada num esquife mortuário.

A Irmandade da Boa Morte se constituíu de mulheres negras, escravas alforriadas, o que fez com que, pouco a pouco, as Filhas de Maria ocupassem esses lugares na Irmandade.

E a posse de determinados objetos em mãos de descendentes das antigas integrantes da Boa Morte, confirmam a antiga presença daquela irmandade em Maragogipe. Por outro lado, o “achamento” dessas duas gravuras do século XIX, confirma a existência pregressa da Irmandade no local.

O Pe. Sadoc foi o primeiro a falar com Sebastião Costa sobre importância histórica de Maragogipe, da bela e grandiosa igreja que tem como patrono São Bartolomeu, pois a cada 24 de agosto ele é convidado para pregar no dia daquele santo.

A convite do Pe. Mateus de Lima Leal, vigário paroquial, Sebastião Costa foi chamado para passar o carnaval deste ano. "Fui com minha mãe e ficamos hospedados na casa paroquial que é uma construção de
1875. E fiquei encantado com a cidade. Lá tudo cheira à história." diz Sebastião Costa.

A paróquia indicou o estudante de pedagogia, Sócrates Fernandes de Araújo, que é restaurador de imagens antigas e que conhece bem os meandros da história da cidade. A igreja matriz foi construída de 1630 a 1753. Aliás, o nome do patrono foi dado em homenagem ao proprietário da sesmaria, Bartolomeu Gato. A
cidade foi elevada à categoria de Vila em 16/06/1724 e recebeu o título de Patriótica Cidade em 08/03/1860. A Santa Casa de Misericórdia é de 1850. 

A cidade foi sede de muitas Irmandades e há algumas que estão ainda em pleno funcionamento. A Irmandade do Santíssimo Sacramento foi fundada em 31/01/1700 e ainda está atuante. A Irmandade de Nossa Senhora da Conceição é de 1704. A de S. Bartolomeu é de 1851. A das Santas Almas Benditas é de 1667 (esses dados estão no Arquivo Público da Cidade). 

A cidade é ainda enriquecida por duas Filarmônicas: há a Terpsícore Popular, fundada em 13/08/1880 – na mitologia grega, Terpsícore é a musa da poesia lírica, da dança e dos coros, e ela toca a lira para animar a alma. Também há a antiga Filarmônica Menimosina – na mitologia grega é a deusa da memória – e teve como fundador o professor Teodoro Borges da Silva.

Também o estudante-pesquisador, Sócrates, apresentou um quadro, uma litogravura, que precisava ser restaurado, com uma estampa referente a Nossa Senhora da Boa Morte, com os dizeres: ”Nossa Senhora da Boa Morte que se venera na cidade de Maragogipe - 1879”, e que pertence a Conceição Maria Cardoso. Há ainda uma outra gravura que pertence a Luis Cláudio Nunes Laranjeiras, que herdou do avô, Manuel Lucas Laranjeiras, conhecido como Bibi. Ambas foram restauradas e estão sendo apresentadas nesse trabalho.



O autor descreve que "Ambas as gravuras foram restauradas pela Oficina AM Restauro, a cargo da Drª Ana Maria Villar e Natalie Roth, auxiliadas por Igor Souza e Larissa Barros. A primeira gravura foi feita pela técnica da litogravura e tem como autor Jourian e é datada de 1879. Na base do trabalho há uma inscrição: Lith a vapor (que também poderia ser: a vaper ou, a vapir – refere-se isso à técnica?) de Jourian. Também se vê dois números: 238 e 316. Como hipótese, pode-se perguntar se eles se referem à quantidade de litogravuras que foram feitas. A segunda tem na parte inferior um titulo em italiano: Sepolcro di Maria e a técnica é a de reprodução serigráfica sobre papel, não tem data, mas contém um número (5005), que, certamente indica a quantidade de cópias reproduzidas. A restauração foi feita por Natalie Roth e auxiliada por Igor Souza." Sebastião Costa

O professor Sócrates, jovem pesquisador deu informações preciosas sobre o desaparecimento dessa devoção naquela cidade. O Pe. Manoel de Oliveira Lopes, que se tornou Bispo, em 1887 fundou a Pia União das Filhas de Maria. Este foi substituído pelo Cônego Adolfo José da Costa Cerqueira, falecido em 11/04/1929. Ele era um homem que tinha fama de santidade, usava cilício e todos os seus irmãos e irmãs se tornaram padres e freiras.

Mas ele repudiava o candomblé. O contexto histórico da Igreja Católica, na época, era o do Ultramontanismo, movimento da segunda metade do século XIX que refletia a tendência centralizadora do Catolicismo, com tendência a controlar com mão forte, sob a égide dela (Papa, Bispos e Padres/Vigários) todos os movimentos. As Irmandades sempre representaram uma tendência leiga, de independência e sempre houve conflitos entre “os administradores oficiais do sagrado” (HOONAERT, 2001,p.39) com elas.

DO BLOG: Espero ter contribuído para que você leia esse livro maravilhoso sobre a História da Boa Morte no Recôncavo Baiano, em especial, em Maragogipe.

Para quem ficou interessado, o IPAC disponibilizou gratuitamente outro livro BOA MORTE - Clique AQUI para baixar.



sábado, 10 de abril de 2010

Orun-aiyê: imagens e (re) leituras da cultura africana por meio da mitologia afro-brasileira de José Carlos Limeira e Landê Onawale

Por: Leandro Alves de Araújo

 “Cada ancião que morre na África é uma biblioteca que se perde.”
 (Hampate Bá, 1977).2
O presente trabalho insere-se na discussão sobre a essencial questão dos estudos afro-brasileiros na atualidade: quais as imagens da poética negra hoje? Quais os seus construtos contemporâneos? Quem são seus autores e autoras? E de qual cotidiano falariam? Sendo assim, tal comunicação, por meio da pesquisa e estudo de certas obras literárias que não pertencem ao cânone, e que ainda não estão incluídas no currículo escolar, tenta estabelecer uma relação com outras linguagens e figurações de sentidos revisitados em memórias, oralidade, tradições, militância e ancestralidade que se expressem em torno de aspectos étnicos e identitários.

Os anos cinqüenta do Século XX retratou, no campo da pesquisa acadêmica, o nascimento de um período especial, no que diz respeito à construção de estudos voltados para a identidade e valorização da cultura negra, principalmente dirigida às questões afro-brasileiras. Desenvolveu-se a historiografia que privilegiava a valorização dos ritos, o resgate das tradições africanas, a oralidade, as memórias e as influências do negro nos costumes brasileiros. As novas temáticas transcenderam as questões que durante muito tempo caracterizaram as concepções sobre temas afro-brasileiros, voltados exclusivamente para a construção da sociedade escravista. 

Os estudos sistematizados sobre a cultura africana, suas formas de organização social e a chegada desses costumes ao cotidiano brasileiro, revelaram a possibilidade de novas temáticas e formas de expressão para o resgate da cultura negra brasileira. A literatura brasileira debruçou-se nesta oportunidade, nascendo na Bahia uma significativa produção literária voltada para as questões e situações dos grupos raciais de origem africana no Brasil, os afro-descendentes brasileiros ou afro-brasileiros. Neste contexto nasce a sustentável produção de autores baianos dedicados ao tema em questão, tendo, como principais expoentes, nomes como Jônatas Conceição da Silva, José Carlos Limeira, Landê Onawale, Hamilton Borges, Edson Conceição e Nelson Maca. 
  
        “É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é mais desenvolvida, mas também a ligação entre o homem e a Palavra é mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado à palavra que profere. Está
        comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo que ele é. A própria coesão da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra.” (Hampate Bá, 1977). 
Conjecturar a respeito de tradições na história africana significa, a priori, falar de tradição oral. Para Hampaté nenhuma tentativa de penetrar na história e na alma dos povos africanos é válida, se não se apóia nessa herança de conhecimentos de tal espécie, transmitida pacientemente de boca a ouvido e de mestre a discípulo através dos tempos.

As formas de expressão se consolidaram como elementos característicos das resistências do negro no Brasil. A oralidade foi à primeira forma e a mais representativa ação de resistência do negro no Brasil, numa sociedade na qual lhe tomou o direito de ter conhecimento dos processos de alfabetização. Somente após a crise do modelo escravista, o negro, mesmo de forma restrita e por “viagens solitárias”, teve acesso à expressão escrita. A literatura negra brasileira passou a desempenhar a função de resistência, balanceando a conservação da cultura oral sobre a forma da palavra escrita. A literatura afro-brasileira no Brasil, principalmente a desenvolvida por autores soteropolitanos, dedicou-se ao ideal de igualdade de gêneros e respeito na expressão das suas particularidades religiosas, ultrapassando os espaços do público e privado; os espaços da casa e da rua. A literatura de Landê Onawale se configura como um dos principais exemplos dessa contínua literatura afro-brasileira na contemporaneidade, marcada como expressão dissonante e metafórica do mundo, constituída por sentimento ávidos que corroboram na captação de relatos, fragmentos e imagens do cotidiano desse mundo negro.

A virada nos estudos referentes aos relatos da importância memorial do negro na formação da cultura brasileira iniciou-se com o trabalho de Pierre Verger, fotógrafo e posteriormente escritor de obras voltadas para o rigor antropológico.  Na década de 30, o francês Pierre Verger passou dedicar a sua vida ao ofício da fotografia, viajando por diferentes partes do mundo.  A fase mais significativa do trabalho de Verger deu-se com a sua chegada ao Brasil, especificamente na Bahia, no ano de 1949, enveredando-se por um intenso estudo, com a proposta de retratar a cultura e os ritos afros, existentes no Brasil.

Os estudos de Pierre Fatumbi Verger iniciaram-se em 1948, por meio de inúmeras viagens à África Ocidental, em terras Iorubas, durante dezessete anos. A profundidade dos estudos de Verger se mostra com a sua inserção religiosa aos cultos africanos. Tornou-se babalaô em Kêtu no ano de 1950, recebendo de seu mestre Oluwo, o nome de Fatumbi, “aquele que nasceu de novo (pela graça de Ifá)”. O trabalho de Pierre Fatumbi Verger se dedicou ao conhecimento dos fundamentos históricos, mitológicos, a descrição de rituais e explicação da profunda afinidade cultural entre a África, na região do Golfo de Benin, com o Brasil, referenciando a cidade de Salvador na Bahia. 3

A obra de Verger tem como objeto de estudo e investigação relatar o culto dos orixás, deuses dos Iorubas em seus lugares de origem, na África, principalmente na Nigéria e no Novo Mundo, no Brasil e nas Antilhas. A pesquisa foi desenvolvida pelas observações que relatavam à trajetória de grupos negros arrebatados do seu meio natural e trazidos para a América, para serem a mão-de-obra explorada do sistema escravista. 4 A obra “Os Orixás”, narra com profundidade aspectos esquecidos referentes à cultura negra no cenário acadêmico. A cosmologia vergeriana dedica-se aos ritos de iniciação africana e afro-brasileira, as cerimônias, suas memórias ancestrais, aos princípios da hierarquia e perpetuação do conhecimento mediante a oralidade, bem como suas construções mitológicas e representações religiosas (Exu, Ogum, Oxossi, Ossain, Orunmilá, Oranian, Iansã, Oxum, Obá, Oxumaré, Obaluaê, Nana, Xangô, Yemanjá e Oxalá.

Os estudos históricos, sociológicos e principalmente antropológicos se aprofundaram na questão voltada para as identidades da cultura africana. Pesquisas desenvolvidas em períodos recentes acentuaram a proximidade entre Brasil e África, ressaltando a semelhança entre “costumes tradicionais dos Iorubas, (independente de religião) e as cerimônias de Candomblés Kêtu no Brasil”. 5 Observaram-se as semelhanças entre antigos hábitos, o comportamento dos adeptos das religiões de matriz africana e valores religiosos presentes tanto na África como no Brasil, a exemplo dos sentimentos de temor, profundo respeito e cuidado com a sua cultura.  

A cultura negra no Brasil, em períodos contemporâneos foi marcada pela incessante busca de reconhecimento de valores étnicos e demonstração de plena consciência das relações sociais que envolvem o negro na sociedade brasileira. A cultura negra passa a cada dia por um processo de reconhecimento conquistado por grupos comprometidos com reflexões cada vez mais amplas. Pode-se citar em relação ao reconhecimento social que:
         “Com certeza, se é verdade que qualquer atividade humana possa ser cultura, dela não o é necessariamente ou não é ainda forçosamente reconhecida como tal. Para que haja verdadeiramente cultura, não basta ser autor de práticas sociais; é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza”. 6
As reflexões do cientista social francês, Michel Certeau contribui ao entendimento de como se poderia tornar realidade à concretização e reconhecimento da cultura negra. A formação de uma cultura negra, o seu reconhecimento, não se resume na autoria de práticas sociais e a produção de bens culturais (autores de livros, depoimentos ou obras de arte). O reconhecimento da cultura negra passa por um processo de reconhecimento da sua riqueza, os próprios grupos raciais brasileiros reconhecerem a necessidade de preservação da sua cultura e desenvolver a partir desta ideologia a sua militância e atuação em diversos campos do conhecimento.

Os anos 70 representaram no Brasil, o momento de nascimento de uma consciência voltada para a reflexão do negro na sociedade brasileira. Nasce neste período uma literatura engajada, consciente, motivada pelo ideal de independência dos países africanos, que passariam a ter como língua oficial o português, ampliando as relações entre brasileiros e o continente africano. 7 O outro exemplo de inovação ocorrido nos anos 70 foi o nascimento dos Cadernos Negros, pioneiro nos movimentos de militância, consciência política, visibilidade e oportunidade de trabalho para autores negros brasileiros. 8

A década de 70 marcou o início dos escritores negros que proclamaram a sua africanidade. A cultura afro-brasileira passou a não se pautar nos modelos de cultura dominante, de uma sociedade que foi norteada pela ideologia do branqueamento. 9 Os autores desse período expressaram por meio da literatura a afirmação cultural dos grupos afro-brasileiros. Constituiu-se o ideal no qual, refletia-se “não somente o pão de comer, mas o pão de ser”. 10

O contexto abordado criou metáforas para falar do negro no cenário econômico e social, refletindo sobre longa data, quando se iniciou o processo de coisificação do escravo quando “A Princesa esqueceu-se de assinar nossas carteiras de trabalho”. 11 Relataram-se dados importantes sobre a escravidão e a situação dos escravizados, mesmo após o processo de abolição, em 1888. Tal período foi acentuadamente marcado pela retomada das idéias e, sobretudo das discussões a cerca da identidade ancestral de raízes africanas. 

Eu sou a África
uma bandeira negra
 a tremular no espaço
Eu sou a África
o esteio do Universo
e a confiança no porvir
Eu sou a terra virgem
que todos beijarão amanhã
  Eu sou a África
uma bandeira a tremular no espaço12 

A África passava a espelhar a origem, o troco ancestral que com suas profundas raízes, reafirmavam não apenas um local, mas uma história que se tentou apagar por inúmeras maneiras. A bandeira que balança os versos de Bésilva é mesma que aponta para uma identidade que foi esquecida durante séculos, como marca de uma sociedade escravista que excluiu o negro por pelo menos três séculos, de atuar efetivamente na construção da identidade brasileira. A poesia negra do Brasil contemporâneo resgatou o orgulho e as origens africanas, como forma de se definir o seu lugar de fala frente aos demais grupos raciais que constituem o povo brasileiro.

Os relatos sobre a efetivação de uma negritude ganham uma amplitude cada vez maior, principalmente pelo comprometimento de um grupo cada vez mais extenso, engajados nas lutas sociais pelo o direito de oportunidades. A África torna-se tema constante e Oliveira Silveira canta:
      Tuas tetas - vulcão,
       leite-lava,  unhas e dentes - tuas feras,
  tuas veias Zambeze, Níger, Congo,
      cascatas - gargalhadas.
      Tua savana - ventre
       e a selva - cabelos, pentelhos.
  Bem ai, mãe, eu quero me repor dentro de ti.13

Se consolida por Oliveira Silveira a proposta de uma narrativa, de uma poesia enaltecedora, resgatando a África como um local de notável exuberância natural. Inicia-se uma poesia descritiva voltada para relatar a beleza e riqueza de um continente que, com o passar dos séculos, torna-se problemático, devido às ações do colonizador. A África, durante a década de 70, a descolonização e as lutas pela independência, na concepção de Oliveira Silveira, resgataria a formosura da sua beleza original. A beleza do seu povo passa a ser valorizada e comparada ao belo continente, com olhos e dentes fortes, como a terra que resistiu ao processo de exploração.  

A identidade afro-brasileira é por vezes revisitada através da poética negra; realçando características culturais especificamente africanas como os instrumentos de percussão, os batuques, tambores e a ginga. Mas é, sobretudo, através dos ritos ancestrais que permeiam a religião do candomblé (culto de matriz africana), que os mesmos mantiveram viva e dinâmica a sua memória, concomitantemente a sua ligação com a África.

Podemos perceber tal ligação por meio do fragmento, reproduzido aqui, do poema Kalunga de Landê Onawale14:

A memória do mar me atravessa...
Está cravada em mim
Como os ferros da grande árvore inesquecível,
São meus poros,
São as voltas da muzenza contornando os cemitérios
- e, é  claro, são mistérios. 
Balança o mar...balança numa jinga interminável
Das florestas de Matamba aos serrados dos brasis.
Balança o mar...balança numa dança incansável com o futuro
(exercício da destreza necessária). 
Balança o mar...balança...
É o colo de Kayala que me embala,
São os braços de Kyanda
- onde entrego minhas forças para sair tão renovado! 

No poema citado, o poeta Landê Onawale nos apresenta, por meio das lembranças que compõem a sua memória, fotografias do seu universo sagrado - talvez mítico – comprometido com as vivências, representações e imagens que se dissipam em palavras e formam no mar um espectro cultural e identitário de um povo.

Pertence ao saudoso poeta Jônatas Conceição, a “faca afiada”, que instiga por uma militância literária e que penetra as entranhas de uma sociedade ainda racista, abrindo e demarcando espaços por uma proposta de equidade de direitos ao seu povo preto.

Segundo o poeta Jônatas Conceição (Vozes Quilombolas, 2006) "Forjado não mais para guerrear com armas bélicas, o quilombo
contemporâneo e urbano cumpre a função de, a partir de referenciais
históricos, promover um debate permanente no seio da sociedade”.

O mesmo vai pensar o conceito de Quilombo na contemporaneidade a partir de um debate discursivo travado nos mais diversos espaços da sociedade.

É de fato, tênue, a linha que separa os espaços utilizados e/ou reinventado pelos sujeitos em questão. Até que ponto a literatura negra é ficção ou a ficcionalização destes autores/sujeitos não seria real? Como pode estar completamente comprometida e vinculada a construção da identidade, nessa trama de relações subjetivas?

Trazendo tal discussão para a luz dos estudos da identidade em Stuart Hall (Da Diáspora, Identidade e Mediações Culturais/2003), o mesmo vai partir de um questionamento a cerca de que tipo de momento é este para se colocar a questão da identidade negra? Para o autor, esses momentos são sempre conjunturais. Eles têm sua especificidade histórica; e embora sempre exibam semelhanças e continuidades com outros momentos, eles nunca são os mesmos momentos.

A reinvenção desses sujeitos - poetas negros e negras - se transmite nas multiplicidades de “artimanhas” ou habilidades em dar um novo sentido, as suas práticas, as suas ações, e por fim a sua história de vida. São homens e mulheres que emprestam as suas sensibilidades para transmitirem os anseios, queixas e toda a sorte de (des) assistência que as periferias sociais da Bahia e do Brasil se encontram. São poemas que falam de verdades, da dor e do drama cotidiano a que são acometidos. Falam também das delícias e peculiaridades desses lugares. Mas há o poeta, também, que crê na força alentadora e contagiante dos seus versos para desalienar seus semelhantes do conformismo, do complexo de inferioridade, da negação de si próprio.

A liberdade e sua discussão tornam-se temas de constantes reflexões, na poesia afro-brasileira. Valorizou-se como expressão metafórica das transformações que estavam ocorrendo no Brasil e no mundo, descrevendo-se no exemplo representativo, que sintetiza a liberdade na poesia afro-brasileira como: 

Quando você  acreditar
 Que é livre e pode
     Empreender o vôo da realidade
 Procure não pensar
 Nas correntes da consciência.15

Os relatos de José Carlos Limeira revelam uma dualidade de relações que interliga dois continentes; Brasil e África. De um lado, na África reflete-se sobre as amarras da escravidão ainda existentes. As amarras africanas iniciam-se com o período da colonização, no decorrer do Século XV, se estendendo aos dias atuais, movidos pelas violentas ditaduras e regimes opressores. As semelhanças poéticas entre América e África declaram que ao longo dos anos 70 e iniciar dos anos 80, ambos os continentes estão marcados por violentas ditaduras que suprimem as liberdades individuais e coletivas.

O ideal de liberdade simboliza o vôo, a aspiração de um sonho de liberdade que se deve a todo instante resgatar os ideais políticos e sociais, com o intuito de transformar a sociedade vigente no país; transformar as heranças da escravidão e inserir o negro com oportunidades iguais. A liberdade seria a ruptura com o passado escravista que aplicou sérias penas e castigos aos grupos marginalizados afro-brasileiros, ao longo da história brasileira, por pelo menos três Séculos de escravidão efetiva, perpetuando as suas heranças, ao Brasil do tempo presente. É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.

É bastante relevante discutir sobre tais sistemas, para que possamos avaliar os diversos meios de exclusão legitimados por discursos ideológicos oriundos de uma sociedade branca, racista, eurocentrica e homofóbica. Não precisa grandes análises para perceber que os negros são minorias na tradição literária do país. Quando os mesmos são retratados, são introjetados em papéis cômicos, de pouca relevância ou ainda, o que julgo pior, caricaturados de forma inferiorizantes. É fácil perceber que os autores e autoras negras no Brasil, travam uma luta desigual para fazerem ecoar as suas vozes no cenário literário e social.

A poética negra contemporânea na Bahia tem um compromisso com a valorização da cultura negra e com os valores que corroboram para afirmação das identidades negras que assumem em tempos atuais, diversas formas de expressões literárias, passando pela estética da poesia, da prosa, bem como da relação entre música e poesia através do Hip Hop. A expressão escrita e a sua relação com a oralidade negra, é uma forma de registro e resistência da cultura negra, em diferentes momentos históricos.

Destarte, percebe-se que a poética negra contemporânea situa-se no entre – lugar da realidade e da ficção. Não se trata da arte pela arte, nem de escritos evasivos ou ainda manuais de conduta cívica e moral. A literatura negra é uma arma pungente, viva, latente e denunciadora das “faltas” e das irreparações sofridas pelo povo negro. A poesia negra ficcionaliza o cotidiano desses sujeitos, aproximando-os da tênue linha divisória entre o real e o irreal. Trata-se de uma escrita comprometida com a sua verdade, a sua lógica, as suas ideologias. Não se pode fazer poesia negra de fora do gueto. Mesmo sendo preto. A literatura negra fala de um lugar específico, pois nasce em um lugar estratégico. Ainda que a mesma se propague por outros espaços – e, é essa a proposta. 

Referências
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