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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

RESENHA: Movimento e pensamento operário antes de Marx, na obra de Osvaldo Coggiola

Por Zevaldo Sousa

Segundo Osvaldo Cogiolla “a classe operária moderna é o produto do desenvolvimento do modo de produção capitalista” (COGGIOLLA, p.7). Pra que essa classe fosse formada, precisou ter condições econômicas necessárias, para que, houvesse uma mudança nas formas de apropriação privada do trabalho. Essa mudança implicava na obrigação de trabalhar para outrem, ou seja, a essência do moderno sistema econômico do capitalismo é a compra/venda da força de trabalho em troca de um salário. Foi aproximadamente na segunda metade do século XVI e começo do XVII, que esse sistema nasceu e começou a crescer e se fixar. O crescimento decisivo desse sistema ocorrerá, a partir do século XVIII, quando a “Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, com a qual o capitalismo consolidaria seu domínio da produção e criaria as bases da sua expansão em escala mundial” (COGGIOLLA, p.11). Esse momento será transitório, de uma fase mais imatura e primitivo do capitalismo, para uma outra, em que, irá ser criada sua própria forma de produção, levando em conta a divisão do trabalho para o interior da fábrica. A partir desse momento, existirá a fábrica, o operário e os meios de produção.

As bases para a incorporação dos progressos técnicos à produção em larga escala só estariam lançadas quando além de tudo isso, a população começasse a crescer, e com a diminuição do índice de mortalidade infantil, controle de doenças epidêmicas, generalização de práticas higiênicas, etc. O sistema estaria definitivamente implantado.

É dentro das fábricas que surgem a nove classe social, a classe operária, submetida nesta fase inicial a esgotantes jornadas de trabalho” (COGGIOLLA, p.15). Michelle Perrot, irá dizer que, nesta fase, os donos estariam muito preocupados em combater o furto de matérias-primas e controle de qualidade de seus produtos. Várias regras surgiriam, ela citará três princípios básicos que regiam a organização de uma fábrica: O político, denotaria poder; o técnico, racionalidade na industria e por fim, a vigilância constante, tanto de pessoas, como de produtos. A fábrica precisa de regras, e regulamentos com proibições tanto para que a fábrica tivesse um bom funcionamento, quanto morais, evitando confusões, para isso, as penalidades não eram leves, e cada caso, tinha a sua especificidade na hora de punir.

A família aqui neste momento era fundamental, o chefe, segundo Perrot, era o próprio pai, pois se os empregados se revoltassem, estariam se revoltando contra seu próprio pai, e todos seriam punidos, era tudo ou nada, a união para não morrer de fome, levava todos da família a trabalhar. O paternalismo já estava se firmando, e grande parte dos funcionários queria esse sistema, mas este tinha seus problemas, e logo perderiam seu lugar. Até porque, leis contra o trabalho infantil, começariam a ser criadas.

Hobsbawn descreverá que a Revolução Industrial será o processo de transformação mais radical das condições de vida e afetará a todos os níveis da sociedade, inclusive a família. Serão homens e mulheres “livres” e despojados de toda posse, que seriam obrigados a trabalhar, vender sua força, transformando-se em operários modernos. Aliás, não somente homens e mulheres adultos, mais jovens e crianças, o que gerará uma grande quantidade de mão-de-obra, que levariam ao crescimento da indústria têxtil e metalúrgica. Há neste momento um processo de disciplinamento constante. Alguns trabalhadores ganharam certa autonomia, principalmente os metarlúrgicos, devido uma questão prática, que só era revelada para os seus filhos, como forma de mantê-los empregados, e também como forma de refrear a produção. Sendo assim, diversas leis começariam a ser criadas, para controlar essas classes “ditas” perigosas, havia uma preocupação com a subsistência dessas. A consolidação do sistema capitalista, dará com a absorção da mão-de-obra de reserva por parte das inovações tecnológicas, principalmente com construções de navios e estradas de ferro, que transformará esse operariado em fixo e hereditário.

Mas quando surgiu o movimento operário? E o que é movimento operário? Cogiolla cita palavras de Blanqui, revolucionário democrático francês, “É a profissão de 30 milhões de franceses que vivem do seu trabalho e são despojados de seus direitos públicos” (COGIOLLA, p.23). Aqui esse conceito aparecerá, no seu antigo sentido, no da república romana. Segundo Cogiolla, se seguirmos esse sentido, podemos estar de acordo com Thompson, que afirmará que: “a classe operária formou-se a si própria tanto quanto foi formada”. (COGGIOLA, p.23).

Segundo Cogiolla, “o erro desse autor foi enfatizar unilateralmente o primeiro termo (o “fazer-se” da classe operária), operando uma cisão improcedente entre a existência e a consciência da classe: “a experiência da classe é determinada pelas relações de produção nas quais os homens nasceram, ou entraram involutariamente.” (COGIOLLA, p. 23-4)

Tanto Perrot, como Cogiolla, irão enfatizar que foi no século XIX que surgiram rebeliões, greves, inclusive com destruição de fábricas, lutas. A situação tornaria insustentável e criou as possibilidades para o surgimento de movimentos trabalhistas e socialistas.

Marx irá dizer que os operários são a única potência social, devido o seu número, contudo a sua desorganização e desunião, é quem atrapalha no processo de modificação. Todavia esse processo mudaria, ao poucos, em 1838, foi lançado a Carta, também conhecida como cartismo, lançará pois, um programa democrático, organizando massas de trabalhadores. Em 1847, segundo Cogiolla “a primeira vitória histórica da classe operária foi produto de um movimento claramente político.” (COGIOLLA, p.36) eles conquistariam a jornada de 10 horas.

Em 1864, quando aconteceu a Primeira Internacional Operária, a questão do sufrágio universal, que já existia desde o cartismo, seria componente central dessa onda revolucionária. Já na Internacional Socialista ou Segunda Internacional, será a redução da jornada de trabalho, a grande campanha.

O pensamento operário, surgirá principalmente de duas correntes, o socialismo e o comunismo. O Socialismo “foi uma palavra para designar aqueles que acreditam na origem contratual de uma sociedade de homens livres e iguais” (COGIOLLA, p.39-40). Três utopistas surgiriam: Saint Simon, Fourier, e Owen, cada um buscará meios para resolver os problemas da sociedade, de maneiras diferenciadas, tendo como traço comum, agirem como representantes do operariado, que segundo Cogiolla, já haviam surgido como produto histórico.

O comunismo seria segundo Cogiolla, “a tendência radical das revoluções democráticas, caracterizada pelas suas propostas igualitárias.” (COGIOLLA, p.50). Engels, dirá que o comunismo “é um sistema segundo o qual a terra deve ser bem comum dos homens. Cada um deve trabalhar e produzir de acordo com as suas capacidades, e gozar e consumir de acordo com as suas forças” (COGIOLLA, p.51). O Socialismo segundo Marx e Engels, será a primeira fase do sistema comunista, essa é mais moderada.

Engels escreverá que a democracia é o comunismo e que essa se tornou em principio proletário, de massas. A Liga dos Justos, em 1847, lançará programa redigido por Marx e Engels, o Manifesto Comunista, “nascia assim como movimento político organizado e internacional.” (COGIOLLA, p.58)

Referências:
COGIOLLA, Osvaldo. “Movimento e pensamento operário antes de Marx”. Editora Brasiliense,1991.
PERROT, Michelle. “As três eras da disciplina industrial na França do século XIX”. In: Os Excluídos da História, operário, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1988

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Resenha do Livro: Introdução à História, de Marc Bloch

Por: Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa

Resenha

Referência Bibliográfica:
Estudo de Obra (Obra Completa) BLOCH, Marc. Introdução à História. Lisboa: Europa-América. S/d.

“Aprendendo a Convencer”


Este Livro inacabado é um ato completo de história.” (BLOCH: 2001,34), palavras de Jacques Le Goff no prefácio da Edição Francesa. Apesar de ser o primeiro livro sobre metodologia da história que li, este é um livro que muitos consideram como o melhor sobre o assunto já escrito, por sua amplitude e por pegar todas as pontas do guarda-chuva do trabalho do historiador. Perceba nas palavras de Bloch um pré-enuncio daquilo que, para ele parecia impossível, acabar com este livro. “... O que é inacabado se tende constantemente a ultrapassar-se, tem, para todo espírito ardoroso, por pouco que o seja, uma sedução que vale bem o êxito mais perfeito...” (P. 84).

A Segunda Guerra Mundial freou o desenvolvimento do debate que Marc Bloch propôs, pois ele morreu, deixando uma obra incompleta sobre a Teoria da História, que futuramente foi editada com o titulo de Apologia da história, ou ofício de historiador (2001). Buscando definir a utilidade da historia, este texto discute a complexidade do tempo histórico, as relações entre passado-presente, a construção do discurso e, principalmente, a exigência de uma ética da história do historiador. A História aparece como busca e escolha, não sendo o passado seu objeto: a idéia de que o passado como tal possa ser objeto de ciência é errada. O objeto da história, segundo Marc Bloch, é o fazer da história a ciência “dos homens, no tempo” (BLOCH: 2001,55).

É preciso entender a importância deste livro, seu discurso possui um caráter contemporâneo para a história, na época e nas circunstâncias em que foi criado, para isso nos perguntamos. Qual a sua importância para o ensino e a escrita da história na atualidade? Para você que está iniciando o curso de história, ou melhor, para você leitor desta resenha, para entender o que estou falando é necessário saber: Quem foi Marc Bloch?

Marc Léopold Benjamim Bloch foi historiador, fundador da Escola dos Annales com Lucien Febvre, que buscou contrapor a historiografia positivista, que privilegiava a análise política, propondo uma história: crítica, analítica e problematizadora, dando maior privilégio aos fatores, econômicos e sociais na história e cuja linha de estudos por sua vez influenciaria a Nova História e a História das Mentalidades. Eles concretizaram o projeto de publicar uma revista que oferecesse espaço para estes novos apontamentos: No primeiro momento da revista, são bastante claros os ataques aos especialistas simplistas e empiricistas. Tal revista sofre grande influência da escola Durkheimiana e também da geografia Vidaliana, entre outras. O que propiciou a Bloch, o estudo da história de uma forma bem peculiar, incrementando novos conceitos e paradigmas nas pesquisas. Fazendo isso o autor buscou ampliar largamente o diálogo da história com outras áreas do conhecimento (interdisciplinaridade), isso foi um fator essencial para a construção de uma nova história, isso foi fundamental para fazer uma História Total, mostrando que através de um objeto específico podemos fazer inter-relações com diversas áreas do conhecimento.

Ele participou das duas grandes guerras, e foi na segunda guerra que foi preso e onde escreveu Apologia da História, obra essa inacabada devido à sua morte. Ele é considerado o maior medievalista de todos os tempos. Como se não bastasse, foi um dos grandes responsáveis pelas inovações do pensamento histórico, defendendo o abandono de seqüências pouco úteis de nomes e datas e uma maior reflexão dos acontecimentos e seus fatores anteriores e posteriores. Seu último livro Uma Estranha Derrota, era uma avaliação da derrota francesa a partir da invasão alemã, Mas também foi “uma crítica muito lúcida das insuficiências, dos ocultamentos do discurso histórico dos Annales”(DOSSE: 1992,64-65)

Pois bem, como você pode ver Marc Bloch era engajado em tudo que propunha desde o seu ofício até á sua pátria. Ao escrever este livro na prisão ele propõe diversos assuntos que para ele precisam ser colocados em prática pelo historiador. Bloch faz da história uma história-problema e para isso ele fez este livro para a confirmação daquilo pensa e como nós percebemos parece que este livro foi uma espécie de despedida, um testamento legado para toda a humanidade que quer conhecer e buscar a verdade.

Este é um livro composto por uma guisa de dedicatória, uma introdução e cinco capítulos (o capítulo V - incompleto). Na guisa de dedicatória Marc Bloch agradece ao seu amigo Lucien Febvre por tudo o que passaram e como uma espécie de despedida dedica este livro a ele.

Na Introdução, Marc Bloch vai mostrar que, um historiador de verdade não deve seguir necessariamente seus mestres, mas criticá-los naquilo que achar necessário, deve ser sincero e mostra que o progresso dos estudos é feito com a contradição necessária entre as várias gerações de investigadores. A problematização da pergunta “Pai, diga-me lá para que serve a história”(p.75). É o que ele vai chamar de Legitimidade da História e vai ser a idéia principal para o desenvolvimento do livro.

Posso dizer que por motivos relevantes Bloch se opõe, ao escrever sobre livros e sobre autores sem ter uma fonte de pesquisa, não por ter sido ingênuo ao escrever sem querer saber o que estas pessoas escreviam ou falavam na verdade, mas ele faz um esforço sem comparação para se aproximar muito daquilo que essas pessoas defendiam. Mostra entre muitas coisas que: O trabalho do historiador é saber interrogar bem o seu passado; A mescla de memória com a História; Que a história pode ser uma distração, mas para escrevê-la devemos gostar do nosso ofício para isso, é necessário vocação; que o ser humano procura saber e não compreender, e que deve ser o contrário; Que a História não é, apenas, útil. Ela é legítima como ciência. Ciro Flamariom Cardoso mostra em seu livro “Uma introdução à História” que a história ainda está caminhando para ser ciência, pois, “a conquista do seu método ainda não está completa” (CARDOSO. 1981, 49). Este é um assunto muito debatido durante por muitos historiadores, creio eu que a História é ciência, pois não temos o que discutir quando colocarmos na balança o seu valor como disciplina e como fins políticos, religiosos, etc. Por Fim, Marc Bloch encerra esta introdução lamentando por não ter feito melhor o livro, o não acesso a nenhuma biblioteca ou seus livros, deixou o texto vazado, cheios de lacunas que ele ainda tinha a esperança de poder completar, assim ele escreveu esse texto só com o seu saber, somente com suas notas.

No capítulo um Marc Bloch vai tratar da História, os homens e o tempo, ele divide este capítulo em cinco partes. A primeira parte fala da opção do historiador onde fala da sociologia Durkheimiana e discute sobre os obstáculos existentes na pesquisa histórica. Na segunda parte ele fala da História e os homens onde critica a historiografia tradicional, que narram os grandes feitos, grandes homens e coloca a serviço da história à interdisciplinaridade. Na terceira parte, ele comenta o tempo histórico onde o historiador é definitivamente, influenciado pelo seu tempo, ou seja, pela sociedade em que vive, sendo impossível ser imparcial com a realidade a sua volta. A História é a ciência dos homens no tempo onde o historiador elabora sua pesquisa, de acordo com as preocupações e os interesses do seu quotidiano. Bloch chama a atenção a respeito da importância em saber a data exata dos acontecimentos históricos. Isso porque tal compreensão do tempo indica a respeito da realidade de cada sociedade. Segundo o autor, o tempo não é apenas uma seqüência de fatos. O tempo histórico é a capacidade de identificar-se com a historicidade. O conhecimento histórico, não é apenas uma causa linear, as coisas não são simplesmente causas e efeitos, pois são movimentos coletivos, jogos de interesses entre classes, porque a sociedade é muito mais complexa do que uma associação de fatos ao longo do tempo. Na parte quatro fala sobre “o ídolo das origens” o crédito que os historiadores dão as origens de um processo histórico, questionando essa idéia de mostrar que em muitas realidades históricas tal pressuposto é impalpável. Na quinta parte fala sobre o passado e o presente onde mostra que para o historiador entender o passado é preciso compreender o presente, pois há muita permanência na História, ou seja, aquilo que muda de forma mais lenta como, por exemplo, a cultura. O autor mostra que as sociedades não são iguais e por isso não basta estudar uma só. É necessário conhecer outras realidades para se ter uma noção mais completa. Isso é muito debatido e Collingwood concorda com Bloch neste sentido, para ele “O passado que o historiador estuda não é um passado morto, mas um passado que, em algum sentido, está ainda vivo no presente.” (CARR, 1999, 22), ou seja, estudamos o passado para compreender o presente.

No capítulo dois Marc Bloch vai tratar da observação histórica, ele divide este capítulo em três partes onde a primeira parte fala dos caracteres gerais da observação histórica que segundo Bloch a construção do passado, elaborado pelo historiador é geralmente feita através da observação de outros sujeitos. “Toda a narrativa de coisas vistas assenta, numa boa metade, em coisas vistas por outrem” (P. 104), ou seja, na observação histórica, o pesquisador remonta sua teoria, com base nos relatos e na percepção de alguns indivíduos. Também mostra que muitos vestígios históricos, proporcionam um contato direto com o passado um exemplo é a maioria dos testemunhos não-literários, e até mesmo a de uma grande parte das narrativas. Com isso o passado só poderá ser compreendido, através dos vestígios encontrados no presente. O passado é uno, sendo um fato verídico, contudo o entendimento desse modifica-se e é aperfeiçoado. Na segunda parte fala dos testemunhos, que para Bloch as fontes narrativas permanecem ainda com grande importância na investigação histórica, mas também os testemunhos que não tiveram a intenção de deixarem registros para posteridade. Aí entra a história-problema proposta por Bloch onde o especialista interroga suas fontes e mantém um verdadeiro diálogo entre elas, sendo este o primeiro passo para se fazer uma pesquisa histórica. Na terceira parte ele fala da transmissão dos testemunhos ele cita que é “Uma das tarefas mais difíceis do historiador é reunir os documentos de que pensa ter necessidade. Ser-lhe-ia difícil consegui-lo sem o socorro de diversos guias: inventários de arquivos ou de bibliotecas, catálogos de museus, repertórios bibliográficos de todas as espécies...” (P. 116). Esse é sem dúvida um trabalho árduo e desgastoso, mas apesar de algumas pessoas fazerem esse tipo de trabalho, ele não é valorizado, e muitas vezes não é nem publicado. Marc Bloch mostra que para se fazer este tipo de trabalho, os investigadores devem antecipadamente conhecer o que ira explorar, os documentos não são fáceis de achar, o técnico deve conhecer um pouco de tudo para poder encontra este tipo de documento e mais ainda ele deve saber interpretá-lo. Mas como bom historiador ele deve conquistar o público, deve seduzi-lo e para isso ele deve passar o seu conhecimento aos leitores. Fazendo que esses tenham o prazer da investigação, da análise profunda dos documentos, do saber interrogá-los. Afinal, como disse Bloch “O espetáculo da investigação, com os seus sucessos e seus revezes, raramente enfastia. A coisa passada é que provoca o tédio” (P. 118).

No capítulo três Marc Bloch vai tratar da crítica, ele divide este capítulo em três partes onde a primeira parte fala do Esboço de uma história do método crítico onde Bloch mostra que não se deve acreditar cegamente naquilo que as testemunhas dizem, pois, “nem todos os relatos são verídicos e os vestígios materiais podem ser também falsificados” (P. 122). Quando se busca regras para definir se o documento é falso ou verdadeiro, quando há dúvidas sobre a veracidade dos documentos e quando essa dúvida se tomou um jeito examinador, essas regras se enquadram à crítica do documento. Para isso o historiador deve saber indicar de onde o documento vem? Por que e por quem foi escrito? Seu valor para o seu tempo? E outras perguntas mais. Para Marc Bloch o modo correto de dizer se um documento é falso ou não, é perceber os anacronismos e outros detalhes de um documento. Na segunda parte ele mostra que existem duas formas de se verificar se um documento é falso ou não, a busca da mentira e do erro, é como ele disse “De todos os venenos capazes de viciar um documento, o mais virulento, é a impostura” (P. 130). Para Bloch, quando você pega um documento para analisar à sua veracidade, você deve antes de tudo ter um senso crítico para analisá-lo de forma correta, buscar nele a verdade e se o descobrir se esse for falso, deve se perguntar por que fizeram este documento? Qual o objetivo da criação dele? E outras.

Mas é verdade que também os testemunhos se enganam, esse é o momento de o historiador aproveitar para aplicar os conhecimentos da disciplina: a psicologia do testemunho. Ela é aplicada em casos cujo “... os erros iniciais da percepção correm sempre o risco de se confundir com os erros de memória, dessa fluida, dessa coleante memória, denunciada já por um dos nossos juristas” (P.137), o caso é que muitos testemunhos utilizaram à sua memória para contar fatos ocorridos e por ele vistos, mas que, por não terem sidos escritos literalmente no momento acontecido, ficam a mercê de erros de boa fé, mas erros históricos, que modificam o que ocorreu literalmente. Na terceira parte ele faz um ensaio de uma lógica do método crítico onde mostra como o método crítico é baseado em comparações, pela série de objetos, documentos e outros vestígios encontrados ao longo de uma série de escavações, achados e etc., analisamos o documento que está em nossa mão. Quando não podemos comparar, não podemos descrever o seu período, ou seja, não podemos contextualizar o documento. “... Na base de quase toda a crítica inscreve-se em trabalho de comparação” (P. 143). Por fim Bloch vai mostrar que a história tem o direito de contar que entre as suas glórias, já tem elaborado a sua técnica para entendimento do documento, o método crítico assim abriu um caminho novo para aquilo que é certo, verdadeiro e justo.

No capítulo quatro Bloch vai tratar da análise histórica, ele divide este capítulo em quatro partes onde a primeira parte inicia com um debate se a história deve julgar ou compreender? A analise histórica é um processo que começa com a compreensão. Marc Bloch diz “Uma palavra, em suma, domina e ilumina os nossos estudos: Compreender...” (P. 163), é através da compreensão e não do julgamento que o historiador deve analisar os fatos. Na segunda parte ele fala da diversidade dos fatos humanos à unidade das consciências onde aborda que não é só compreensão. Para se construir uma ciência é necessário duas coisas: Um homem e a matéria. A realidade humana, como a realidade física são muito complexas. Os documentos já são um recorte do passado, é preciso então o historiador escolher e separar os documentos que lhes são necessários, para em seguida, analisá-los. É claro o homem age sobre as coisas e vice-versa. É aí que entra o papel da ciência, ela “... só recompõe o real para melhor o poder observar, graças a um jogo de fogos cruzados cujos raios constantemente se combinam e se interpenetram...” (P. 167). É necessário a combinação de ciências para um melhor observar, a análise é complexa, e exige muito por parte do historiador, este tem seus limites e precisa de outros pensadores para lhe ajudar neste empreendimento.  Na terceira parte Bloch fala da nomenclatura que é ponto-chave do estudo do documento, evitar anacronismos é um detalhe importante para quem escreve História. Temos de nos preparar para um outro esforço no processo de análise, devemos distinguir as diversas instituições de determinadas épocas sem denegrir á sua imagem. Com tudo, Marc Bloch diz que um dia depois de uma série de entendimentos, poderemos afiná-la, pois ainda não temos um método para lidar com ela. Na quarta parte ele comenta que divisões cronológicas já são inseridas no contexto, é um conhecimento que o historiador deve saber antes de escrever. Que os vestígios históricos, já são um recorte do passado, pois, nós não temos como saber literalmente, como aconteceu os fatos, o que chega até nós só é, essas seleções que são transmitidas através de várias seleções consecutivas, e que devemos investigá-las. A historiografia que herdamos, conta a história não dos reinos, mais de reis e generais. O pensamento voltairiano influenciou a cabeça de muitos historiógrafos que propiciaram uma revolução no contexto histórico, passam então a inverter o modo como escreviam, em vez de escreverem apenas sobre reis e seus feitos, passaram a escrever muito mais sobre as classes mais baixas da sociedade, principalmente a arte, a literatura, a ciência que entraram nesse contexto devido a seus vários progressos. Outro ponto importante é o da periodicidade das gerações, não tem nada para se regular, existem em História gerações longas (civilizações) e curtas (fase, um período). Conclui-se que para classificarmos a história devemos levar em conta os recortes já feitos no passado e tentarmos aproximarmos estes dos outros recortes que não foram feitos nele. Com isso tentarei entender o passado através e aproximações, generalizações e outros meios.

No capítulo cinco não se sabe ao certo qual o título que ele daria No prefácio de Jacques Le Goff têm uma parte que diz “... sem dúvida teria sido sobre “a explicação em história”...”. Mas nós sabemos que Bloch foi uma das vítima de Klaus Barbie, fuzilado, calou-se um francês, mas não o francês que escreveu este livro e que entrou para História como a pessoa que conseguiu colocar num só livro. O melhor jeito de aplicar os conhecimentos de um historiador na prática, este é sem sombras de dúvidas, o melhor livro de metodologia feito e, serve inclusive, para quem está começando os estudos acadêmicos. É neste capítulo que Bloch fala somente da causa, ele queria escrever mais, não pôde. Quando Bloch fala da causa ele faz mais uma crítica ao positivismo que ele menciona “... pretendeu eliminar da ciência a idéia de causa...” (P. 191). Ele mostra também que as causas da história não é um problema de motivos. Para Bloch a monocausalidade deve ser refutada, ao se escrever História, devemos levar em conta uma multiplicidade de causas, e seus efeitos, isso é indiscutível. Por isso não devemos fazer que as causas sejam reduzidas sempre a um problema de motivos. Por fim, Marc Bloch, termina o texto numa frase que sem dúvidas é um resumo de tudo que ele falou sobre causas: “... Numa palavra, as causas, em História como de resto em qualquer outro domínio, não se postulam. Investigam-se” (P.195).

Em suma, posso dizer que este estudo sobre a obra de Bloch e os conhecimentos adquiridos com a experiência de outros autores, mostrou que um historiador deve saber convencer seu público, conquistá-lo, a História não é só ciência, ela também é arte, vida e conhecimento, ela completa o homem e o homem a completa, fazendo assim um jogo em que não há vencedores e sim os vencedores. Uma prova disso é que os historiadores não se contentam na primeira resposta, há sempre a necessidade de outras respostas, ou seja, a História se adequou a humanidade com o passar dos tempos, fazendo isso, ela progrediu e continua em progresso assim como a humanidade, ou seja, a vitória da humanidade o seu progresso é também o progresso da história, pois, se a história fosse uma ciência dura como a Matemática, a Física e a Química, ela seria uma disciplina de esquizofrênicos fazendo que se tornasse indispensável, mas devido sua maleabilidade ela é empolgante, irresistível e importantíssima para explicar e transformar o mundo em que vivemos.

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Bibliografia:
BLOCH, Marc. Apologia da História, ou o Ofício do Historiador, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2001
CARDOSO, Ciro Flamarion. Uma Introdução à História. São Paulo: Brasiliense, 1981.
CARR, E. Mallet. O que é história. São Paulo, Paz e Terra, 1999.
DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à nova história. São Paulo/Campinas, Ensaio/Ed. UNICAMP, 1992

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Revolução Iraniana foi uma revolução Islâmica?

Para fazer esse resumo sobre a Revolução Iraniana, trabalharemos com o décimo livro da Coleção Revoluções do Século 20 que é organizada e dirigida pela historiadora Emília Viotti da Costa. O livro intitulado Revolução Iraniana é escrito por Osvaldo Cogiolla que é graduado em História pela Universite de Paris VIII (1977) e em Economia também pela Universite de Paris VIII (1979). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e professor nos cursos de jornalismo e economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Essa coleção pretende montar um quadro amplo das revoluções contemporâneas e já conta com títulos: A Revolução Boliviana, A Revolução Salvadorenha, A Revolução Alemã, A Revolução Chinesa, A Revolução Cubana, A Revolução Guatemalteca, As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético, A Revolução Nicaragüense e A Revolução Vietnamita.

Todos os livros da coleção tem uma orientação marxista. Aborda muito bem o tema trabalhado e traz uma visão da revolução iraniana que ainda não tinha visto em lugar nenhum, demonstrando clareza e podendo ser usado, tanto como forma de instrução ou apenas de conhecimento sobre esse fato que marca a história. Devido a fácil linguagem, explicando cada momento e internacionalizando o acontecimento, demonstrando que a história de um lugar, não está sintetizada no mesmo, principalmente, no século XX, com todo esse contexto, industrialização, globalização, informatização e maior espaço de sociabilização dos acontecimentos por parte dos meios de comunicações.

A Revolução Iraniana foi, no final do ano de 1978, a primeira revolução televisionada ao vivo em um Irã espremido entre a autocracia, a corrupção e anseios modernizadores. O mundo assistia perplexo a um espetáculo surpreendente: as ruas das principais cidades do Irã eram inundadas por uma população enfurecida que exigia a saída do Xá Reza Pahlevi. (Veja abaixo o mapa interativo do Irã atual - Google Maps)


Além das intervenções russa e britânica, no começo do século XX, e posteriormente da norte-americana, Coggiola elenca os motivos que a população iraniana tinha para derrubar o regime comandado pelo Xá, entre eles, a vertiginosa desigualdade social, seu posicionamento frente a questões religiosas e a repressão selvagem levada a cabo pela polícia política, a Savak. No entanto, o que mais chama a atenção é como o processo é modificado quando a ação passa da burguesia nativa para o proletariado: na revolução passada em “tempo real” para o mundo, o povo que oferecia seu peito às balas era inspirado pelos ensinamentos de um personagem religioso do século VII, o profeta Maomé.

Entendo que a religião é a característica principal da revolução, mas sinto falta da mesma no livro de Osvaldo Cogiolla, não vejo um aprofundamento acerca da questão religiosa, que acredito que deveria ser melhor aproveitada. Vale ressaltar que o simples fato de termos um país, em que a maioria da população é islâmica, não fundamenta a tese de que uma revolução neste país tenha sido Islâmica, por mais que tenha se desejado a todo o custo uma República Islâmica. Devemos estar atentos aos processos que ocorreram antes mesmo da revolução. Acredito que antes deveria ter pelo menos um capítulo com algumas explicações básicas de como o Islã entrou naquele país, o que é xiismo, sunismo e o que representa suas respectivas seitas dentro do mundo islã, até como forma de explicar, exemplo o porque do Irã estar apoiando EUA e Israel na guerra do Yom-Kippur, em que a maioria dos países árabes apoiaram a invasão de Israel. O Irã é o país que tem a maior população islâmica (xiitas), e esses acreditam que somente os descendentes do genro de Maomé, Ali, com sua filha Fátima, podem governar. Cabe ressaltar que apenas 9% das pessoas que tem o islamismo por religião, são xiitas, enquanto que no Irã mais da metade da população é xiita. Essa é uma das explicações para essa união. Aliás o Irã, quer dominar a região, e é um ponto estratégico para os EUA, esses aliás estavam envolvidos diretamente, com a venda de armas e o comércio do petróleo.

Retirada de AFP
Vemos, pois, um povo tão agitado que quando o Xá Reza Pahlevi, toma decisão de tornar o Estado laico, ele não consegue enxergar, os sofrimentos de uma população que, além de sofrer, por causa da economia e dos mandos e desmandos políticos. Aliás, esse não fazia questão nenhuma de enxergar essa população, chegando ao ponto de perguntar ao chefe do Instituto Pesquisa Social de Teerã Elisam Narighi sobre as origens das agitações. Esse respondera que a origem estaria... no próprio Xá. Este ficou surpreso com a resposta, pois acreditava piamente, que ele iria dizer que eram comunistas, palestinos, americanos, Khomeini, ou qualquer outro. Isso significa dizer que o xá Reza Pahlevi, não estava nem aí, para a população, cada vez mais sem previsão de um futuro. Somente a religião, era seu aporte, o seu lugar.

Sendo assim, as diversas promessas de República Islâmica oferecidas, pelas cópias de fitas contrabandeadas, estavam iludindo toda uma população, inclusive sunita. O que estava por vir, ninguém esperava, nem mesmo os revolucionários. As várias ondas, as greves do operariado, me faz pensar naquilo que Marx dizia, e que o próprio Cogiolla em seu livro “Movimento e pensamento operário antes de Marx” citará “a única potência social que operários possuem é seu numero. Mas a quantidade é anulada pela desunião, que se engendra e se perpetua por uma concorrência inevitável” (COGIOLLA, 1991, p.31). Na primeira fase, essa frase se encaixaria muito bem, depois os rumos da revolução irão mudar e aí, não cabe dizer que é uma revolução islâmica, já que vários islâmicos estarão fora do processo, principalmente os curdos, que em sua maioria é sunita. As eleições marcadas para dezembro de 1979, mostraria que parte da população não queria o regime do Aiatolá Khomeini, mujahedeem, fedayin e frente nacional, boicotaram o plebiscito para a nova constituição, que colocava no parlamento, as minorias religiosas (cristãos, judeus e zoroastrisnos) e excluiria do processo os sunitas. É essa que é uma revolução islâmica?

A primeira fase da revolução é também uma parte importante do nosso questionamento. Cogiolla poderia dar também, mais ênfase ao papel dos grupos marxistas-leninistas Fedayin. O próprio citará que o “seu quartel-general era a Universidade de Teerã e foram eles, na verdade, os que tomaram a dianteira nos combates de rua. Também conquistaram posições entre os trabalhadores dos campos petrolíferos.” (COGIOLLA, 2008, p.83). O papel dos estudantes e dos professores da universidade de Teerã era tanto, que os xiitas, matariam depois da primeira fase, todos que se manifestassem contra o regime. A ação do Partido Republicano Iraniano, seria cruel contra todos aqueles que eram contra o regime que estava sendo implantado.

Retirada do Brasil Escola
Todo esse processo abriu o caminho para a ascensão do aiatolá Khomeini e alterou o equilíbrio no Oriente Médio, gerando resquícios em outros países como a Arábia Saudita. Coggiola chama atenção para as múltiplas raízes históricas e políticas que ficam ocultas quando a simplificação racionalista qualifica a revolução iraniana de islâmica, apresentando-a como um evento basicamente reacionário. Por isso, a necessidade também de se entender as contradições de um pais complexo, assim como uma visão geopolítica mais abrangente, oferecendo por fim um contraponto à atual visão apresentada na cruzada mundial contra o “terrorismo islâmico”.

Mostrar, também o papel da mídia e dos EUA no processo revolucionário e, logo depois dele, colocando todos os muçulmanos, árabes e islâmicos no mesmo saco, fazendo com que a maioria das pessoas olhe esses paises de maneira diferenciada, não conseguindo entender suas particularidades e ver que os principais agentes destruidores dessa cultura, e do modo como eles estão vendo o ocidente, foi a política aplicada, principalmente, pelos americanos.

Concluo, dizendo que este livro é muito importante para o entendimento da revolução iraniana, e depois da ditadura xiita, acredito que esse último conceito, está mais próximo da realidade esboçada na segunda fase.



Referências:
COGIOLLA, Osvaldo. A Revolução Iraniana. Editora UNESP, 2008. In: Revoluções do Século 20/Emília Viotti da Costa.
COGIOLLA, Osvaldo. Movimento e pensamento operário antes de Marx. Editora Brasiliense,1991.

sábado, 10 de abril de 2010

Orun-aiyê: imagens e (re) leituras da cultura africana por meio da mitologia afro-brasileira de José Carlos Limeira e Landê Onawale

Por: Leandro Alves de Araújo

 “Cada ancião que morre na África é uma biblioteca que se perde.”
 (Hampate Bá, 1977).2
O presente trabalho insere-se na discussão sobre a essencial questão dos estudos afro-brasileiros na atualidade: quais as imagens da poética negra hoje? Quais os seus construtos contemporâneos? Quem são seus autores e autoras? E de qual cotidiano falariam? Sendo assim, tal comunicação, por meio da pesquisa e estudo de certas obras literárias que não pertencem ao cânone, e que ainda não estão incluídas no currículo escolar, tenta estabelecer uma relação com outras linguagens e figurações de sentidos revisitados em memórias, oralidade, tradições, militância e ancestralidade que se expressem em torno de aspectos étnicos e identitários.

Os anos cinqüenta do Século XX retratou, no campo da pesquisa acadêmica, o nascimento de um período especial, no que diz respeito à construção de estudos voltados para a identidade e valorização da cultura negra, principalmente dirigida às questões afro-brasileiras. Desenvolveu-se a historiografia que privilegiava a valorização dos ritos, o resgate das tradições africanas, a oralidade, as memórias e as influências do negro nos costumes brasileiros. As novas temáticas transcenderam as questões que durante muito tempo caracterizaram as concepções sobre temas afro-brasileiros, voltados exclusivamente para a construção da sociedade escravista. 

Os estudos sistematizados sobre a cultura africana, suas formas de organização social e a chegada desses costumes ao cotidiano brasileiro, revelaram a possibilidade de novas temáticas e formas de expressão para o resgate da cultura negra brasileira. A literatura brasileira debruçou-se nesta oportunidade, nascendo na Bahia uma significativa produção literária voltada para as questões e situações dos grupos raciais de origem africana no Brasil, os afro-descendentes brasileiros ou afro-brasileiros. Neste contexto nasce a sustentável produção de autores baianos dedicados ao tema em questão, tendo, como principais expoentes, nomes como Jônatas Conceição da Silva, José Carlos Limeira, Landê Onawale, Hamilton Borges, Edson Conceição e Nelson Maca. 
  
        “É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é mais desenvolvida, mas também a ligação entre o homem e a Palavra é mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado à palavra que profere. Está
        comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo que ele é. A própria coesão da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra.” (Hampate Bá, 1977). 
Conjecturar a respeito de tradições na história africana significa, a priori, falar de tradição oral. Para Hampaté nenhuma tentativa de penetrar na história e na alma dos povos africanos é válida, se não se apóia nessa herança de conhecimentos de tal espécie, transmitida pacientemente de boca a ouvido e de mestre a discípulo através dos tempos.

As formas de expressão se consolidaram como elementos característicos das resistências do negro no Brasil. A oralidade foi à primeira forma e a mais representativa ação de resistência do negro no Brasil, numa sociedade na qual lhe tomou o direito de ter conhecimento dos processos de alfabetização. Somente após a crise do modelo escravista, o negro, mesmo de forma restrita e por “viagens solitárias”, teve acesso à expressão escrita. A literatura negra brasileira passou a desempenhar a função de resistência, balanceando a conservação da cultura oral sobre a forma da palavra escrita. A literatura afro-brasileira no Brasil, principalmente a desenvolvida por autores soteropolitanos, dedicou-se ao ideal de igualdade de gêneros e respeito na expressão das suas particularidades religiosas, ultrapassando os espaços do público e privado; os espaços da casa e da rua. A literatura de Landê Onawale se configura como um dos principais exemplos dessa contínua literatura afro-brasileira na contemporaneidade, marcada como expressão dissonante e metafórica do mundo, constituída por sentimento ávidos que corroboram na captação de relatos, fragmentos e imagens do cotidiano desse mundo negro.

A virada nos estudos referentes aos relatos da importância memorial do negro na formação da cultura brasileira iniciou-se com o trabalho de Pierre Verger, fotógrafo e posteriormente escritor de obras voltadas para o rigor antropológico.  Na década de 30, o francês Pierre Verger passou dedicar a sua vida ao ofício da fotografia, viajando por diferentes partes do mundo.  A fase mais significativa do trabalho de Verger deu-se com a sua chegada ao Brasil, especificamente na Bahia, no ano de 1949, enveredando-se por um intenso estudo, com a proposta de retratar a cultura e os ritos afros, existentes no Brasil.

Os estudos de Pierre Fatumbi Verger iniciaram-se em 1948, por meio de inúmeras viagens à África Ocidental, em terras Iorubas, durante dezessete anos. A profundidade dos estudos de Verger se mostra com a sua inserção religiosa aos cultos africanos. Tornou-se babalaô em Kêtu no ano de 1950, recebendo de seu mestre Oluwo, o nome de Fatumbi, “aquele que nasceu de novo (pela graça de Ifá)”. O trabalho de Pierre Fatumbi Verger se dedicou ao conhecimento dos fundamentos históricos, mitológicos, a descrição de rituais e explicação da profunda afinidade cultural entre a África, na região do Golfo de Benin, com o Brasil, referenciando a cidade de Salvador na Bahia. 3

A obra de Verger tem como objeto de estudo e investigação relatar o culto dos orixás, deuses dos Iorubas em seus lugares de origem, na África, principalmente na Nigéria e no Novo Mundo, no Brasil e nas Antilhas. A pesquisa foi desenvolvida pelas observações que relatavam à trajetória de grupos negros arrebatados do seu meio natural e trazidos para a América, para serem a mão-de-obra explorada do sistema escravista. 4 A obra “Os Orixás”, narra com profundidade aspectos esquecidos referentes à cultura negra no cenário acadêmico. A cosmologia vergeriana dedica-se aos ritos de iniciação africana e afro-brasileira, as cerimônias, suas memórias ancestrais, aos princípios da hierarquia e perpetuação do conhecimento mediante a oralidade, bem como suas construções mitológicas e representações religiosas (Exu, Ogum, Oxossi, Ossain, Orunmilá, Oranian, Iansã, Oxum, Obá, Oxumaré, Obaluaê, Nana, Xangô, Yemanjá e Oxalá.

Os estudos históricos, sociológicos e principalmente antropológicos se aprofundaram na questão voltada para as identidades da cultura africana. Pesquisas desenvolvidas em períodos recentes acentuaram a proximidade entre Brasil e África, ressaltando a semelhança entre “costumes tradicionais dos Iorubas, (independente de religião) e as cerimônias de Candomblés Kêtu no Brasil”. 5 Observaram-se as semelhanças entre antigos hábitos, o comportamento dos adeptos das religiões de matriz africana e valores religiosos presentes tanto na África como no Brasil, a exemplo dos sentimentos de temor, profundo respeito e cuidado com a sua cultura.  

A cultura negra no Brasil, em períodos contemporâneos foi marcada pela incessante busca de reconhecimento de valores étnicos e demonstração de plena consciência das relações sociais que envolvem o negro na sociedade brasileira. A cultura negra passa a cada dia por um processo de reconhecimento conquistado por grupos comprometidos com reflexões cada vez mais amplas. Pode-se citar em relação ao reconhecimento social que:
         “Com certeza, se é verdade que qualquer atividade humana possa ser cultura, dela não o é necessariamente ou não é ainda forçosamente reconhecida como tal. Para que haja verdadeiramente cultura, não basta ser autor de práticas sociais; é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza”. 6
As reflexões do cientista social francês, Michel Certeau contribui ao entendimento de como se poderia tornar realidade à concretização e reconhecimento da cultura negra. A formação de uma cultura negra, o seu reconhecimento, não se resume na autoria de práticas sociais e a produção de bens culturais (autores de livros, depoimentos ou obras de arte). O reconhecimento da cultura negra passa por um processo de reconhecimento da sua riqueza, os próprios grupos raciais brasileiros reconhecerem a necessidade de preservação da sua cultura e desenvolver a partir desta ideologia a sua militância e atuação em diversos campos do conhecimento.

Os anos 70 representaram no Brasil, o momento de nascimento de uma consciência voltada para a reflexão do negro na sociedade brasileira. Nasce neste período uma literatura engajada, consciente, motivada pelo ideal de independência dos países africanos, que passariam a ter como língua oficial o português, ampliando as relações entre brasileiros e o continente africano. 7 O outro exemplo de inovação ocorrido nos anos 70 foi o nascimento dos Cadernos Negros, pioneiro nos movimentos de militância, consciência política, visibilidade e oportunidade de trabalho para autores negros brasileiros. 8

A década de 70 marcou o início dos escritores negros que proclamaram a sua africanidade. A cultura afro-brasileira passou a não se pautar nos modelos de cultura dominante, de uma sociedade que foi norteada pela ideologia do branqueamento. 9 Os autores desse período expressaram por meio da literatura a afirmação cultural dos grupos afro-brasileiros. Constituiu-se o ideal no qual, refletia-se “não somente o pão de comer, mas o pão de ser”. 10

O contexto abordado criou metáforas para falar do negro no cenário econômico e social, refletindo sobre longa data, quando se iniciou o processo de coisificação do escravo quando “A Princesa esqueceu-se de assinar nossas carteiras de trabalho”. 11 Relataram-se dados importantes sobre a escravidão e a situação dos escravizados, mesmo após o processo de abolição, em 1888. Tal período foi acentuadamente marcado pela retomada das idéias e, sobretudo das discussões a cerca da identidade ancestral de raízes africanas. 

Eu sou a África
uma bandeira negra
 a tremular no espaço
Eu sou a África
o esteio do Universo
e a confiança no porvir
Eu sou a terra virgem
que todos beijarão amanhã
  Eu sou a África
uma bandeira a tremular no espaço12 

A África passava a espelhar a origem, o troco ancestral que com suas profundas raízes, reafirmavam não apenas um local, mas uma história que se tentou apagar por inúmeras maneiras. A bandeira que balança os versos de Bésilva é mesma que aponta para uma identidade que foi esquecida durante séculos, como marca de uma sociedade escravista que excluiu o negro por pelo menos três séculos, de atuar efetivamente na construção da identidade brasileira. A poesia negra do Brasil contemporâneo resgatou o orgulho e as origens africanas, como forma de se definir o seu lugar de fala frente aos demais grupos raciais que constituem o povo brasileiro.

Os relatos sobre a efetivação de uma negritude ganham uma amplitude cada vez maior, principalmente pelo comprometimento de um grupo cada vez mais extenso, engajados nas lutas sociais pelo o direito de oportunidades. A África torna-se tema constante e Oliveira Silveira canta:
      Tuas tetas - vulcão,
       leite-lava,  unhas e dentes - tuas feras,
  tuas veias Zambeze, Níger, Congo,
      cascatas - gargalhadas.
      Tua savana - ventre
       e a selva - cabelos, pentelhos.
  Bem ai, mãe, eu quero me repor dentro de ti.13

Se consolida por Oliveira Silveira a proposta de uma narrativa, de uma poesia enaltecedora, resgatando a África como um local de notável exuberância natural. Inicia-se uma poesia descritiva voltada para relatar a beleza e riqueza de um continente que, com o passar dos séculos, torna-se problemático, devido às ações do colonizador. A África, durante a década de 70, a descolonização e as lutas pela independência, na concepção de Oliveira Silveira, resgataria a formosura da sua beleza original. A beleza do seu povo passa a ser valorizada e comparada ao belo continente, com olhos e dentes fortes, como a terra que resistiu ao processo de exploração.  

A identidade afro-brasileira é por vezes revisitada através da poética negra; realçando características culturais especificamente africanas como os instrumentos de percussão, os batuques, tambores e a ginga. Mas é, sobretudo, através dos ritos ancestrais que permeiam a religião do candomblé (culto de matriz africana), que os mesmos mantiveram viva e dinâmica a sua memória, concomitantemente a sua ligação com a África.

Podemos perceber tal ligação por meio do fragmento, reproduzido aqui, do poema Kalunga de Landê Onawale14:

A memória do mar me atravessa...
Está cravada em mim
Como os ferros da grande árvore inesquecível,
São meus poros,
São as voltas da muzenza contornando os cemitérios
- e, é  claro, são mistérios. 
Balança o mar...balança numa jinga interminável
Das florestas de Matamba aos serrados dos brasis.
Balança o mar...balança numa dança incansável com o futuro
(exercício da destreza necessária). 
Balança o mar...balança...
É o colo de Kayala que me embala,
São os braços de Kyanda
- onde entrego minhas forças para sair tão renovado! 

No poema citado, o poeta Landê Onawale nos apresenta, por meio das lembranças que compõem a sua memória, fotografias do seu universo sagrado - talvez mítico – comprometido com as vivências, representações e imagens que se dissipam em palavras e formam no mar um espectro cultural e identitário de um povo.

Pertence ao saudoso poeta Jônatas Conceição, a “faca afiada”, que instiga por uma militância literária e que penetra as entranhas de uma sociedade ainda racista, abrindo e demarcando espaços por uma proposta de equidade de direitos ao seu povo preto.

Segundo o poeta Jônatas Conceição (Vozes Quilombolas, 2006) "Forjado não mais para guerrear com armas bélicas, o quilombo
contemporâneo e urbano cumpre a função de, a partir de referenciais
históricos, promover um debate permanente no seio da sociedade”.

O mesmo vai pensar o conceito de Quilombo na contemporaneidade a partir de um debate discursivo travado nos mais diversos espaços da sociedade.

É de fato, tênue, a linha que separa os espaços utilizados e/ou reinventado pelos sujeitos em questão. Até que ponto a literatura negra é ficção ou a ficcionalização destes autores/sujeitos não seria real? Como pode estar completamente comprometida e vinculada a construção da identidade, nessa trama de relações subjetivas?

Trazendo tal discussão para a luz dos estudos da identidade em Stuart Hall (Da Diáspora, Identidade e Mediações Culturais/2003), o mesmo vai partir de um questionamento a cerca de que tipo de momento é este para se colocar a questão da identidade negra? Para o autor, esses momentos são sempre conjunturais. Eles têm sua especificidade histórica; e embora sempre exibam semelhanças e continuidades com outros momentos, eles nunca são os mesmos momentos.

A reinvenção desses sujeitos - poetas negros e negras - se transmite nas multiplicidades de “artimanhas” ou habilidades em dar um novo sentido, as suas práticas, as suas ações, e por fim a sua história de vida. São homens e mulheres que emprestam as suas sensibilidades para transmitirem os anseios, queixas e toda a sorte de (des) assistência que as periferias sociais da Bahia e do Brasil se encontram. São poemas que falam de verdades, da dor e do drama cotidiano a que são acometidos. Falam também das delícias e peculiaridades desses lugares. Mas há o poeta, também, que crê na força alentadora e contagiante dos seus versos para desalienar seus semelhantes do conformismo, do complexo de inferioridade, da negação de si próprio.

A liberdade e sua discussão tornam-se temas de constantes reflexões, na poesia afro-brasileira. Valorizou-se como expressão metafórica das transformações que estavam ocorrendo no Brasil e no mundo, descrevendo-se no exemplo representativo, que sintetiza a liberdade na poesia afro-brasileira como: 

Quando você  acreditar
 Que é livre e pode
     Empreender o vôo da realidade
 Procure não pensar
 Nas correntes da consciência.15

Os relatos de José Carlos Limeira revelam uma dualidade de relações que interliga dois continentes; Brasil e África. De um lado, na África reflete-se sobre as amarras da escravidão ainda existentes. As amarras africanas iniciam-se com o período da colonização, no decorrer do Século XV, se estendendo aos dias atuais, movidos pelas violentas ditaduras e regimes opressores. As semelhanças poéticas entre América e África declaram que ao longo dos anos 70 e iniciar dos anos 80, ambos os continentes estão marcados por violentas ditaduras que suprimem as liberdades individuais e coletivas.

O ideal de liberdade simboliza o vôo, a aspiração de um sonho de liberdade que se deve a todo instante resgatar os ideais políticos e sociais, com o intuito de transformar a sociedade vigente no país; transformar as heranças da escravidão e inserir o negro com oportunidades iguais. A liberdade seria a ruptura com o passado escravista que aplicou sérias penas e castigos aos grupos marginalizados afro-brasileiros, ao longo da história brasileira, por pelo menos três Séculos de escravidão efetiva, perpetuando as suas heranças, ao Brasil do tempo presente. É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.

É bastante relevante discutir sobre tais sistemas, para que possamos avaliar os diversos meios de exclusão legitimados por discursos ideológicos oriundos de uma sociedade branca, racista, eurocentrica e homofóbica. Não precisa grandes análises para perceber que os negros são minorias na tradição literária do país. Quando os mesmos são retratados, são introjetados em papéis cômicos, de pouca relevância ou ainda, o que julgo pior, caricaturados de forma inferiorizantes. É fácil perceber que os autores e autoras negras no Brasil, travam uma luta desigual para fazerem ecoar as suas vozes no cenário literário e social.

A poética negra contemporânea na Bahia tem um compromisso com a valorização da cultura negra e com os valores que corroboram para afirmação das identidades negras que assumem em tempos atuais, diversas formas de expressões literárias, passando pela estética da poesia, da prosa, bem como da relação entre música e poesia através do Hip Hop. A expressão escrita e a sua relação com a oralidade negra, é uma forma de registro e resistência da cultura negra, em diferentes momentos históricos.

Destarte, percebe-se que a poética negra contemporânea situa-se no entre – lugar da realidade e da ficção. Não se trata da arte pela arte, nem de escritos evasivos ou ainda manuais de conduta cívica e moral. A literatura negra é uma arma pungente, viva, latente e denunciadora das “faltas” e das irreparações sofridas pelo povo negro. A poesia negra ficcionaliza o cotidiano desses sujeitos, aproximando-os da tênue linha divisória entre o real e o irreal. Trata-se de uma escrita comprometida com a sua verdade, a sua lógica, as suas ideologias. Não se pode fazer poesia negra de fora do gueto. Mesmo sendo preto. A literatura negra fala de um lugar específico, pois nasce em um lugar estratégico. Ainda que a mesma se propague por outros espaços – e, é essa a proposta. 

Referências
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BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
CERTEAU, Michel. A cultura no plural. São Paulo: Papirus, 1995.
CHARTIER, Roger. A história hoje: dúvidas, desafios, propostas. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro: Cpdoc/FGV, vol. 7, nº 13, 1994, p. 97-113.
COLINA, Paulo. A noite não pede licença. São Paulo: Roswitha Kempff Ed, 1988.
EL FAR, Alessandra. Páginas de Sensação: Literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1824). São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.30.
FONSECA, Maria Nazareth Soares, Literatura negra, literatura afro-brasileira: Como responder a polêmica? In: Literatura Afro-brasileira /organização Florentina Souza, Maria Nazaré Lima. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.
FOUCAULT, Michel. A ordem do Discurso. Rio de Janeiro: Edições Loyola, 2000.
FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. São Paulo: Editora Global, 2008
HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG: Representações da UNESCO no Brasil, 2003.
______. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2002
LIMEIRA, José  Carlos & SEMOG, Éle. O arco-íris negro. Rio de Janeiro, Ed dos Autores, 1978.
OLIVEIRA, Silvera. Roteiro dos Tantãs. Porto Alegre: Edições do autor, 1981.
OLIVEIRA, Sílvio Roberto dos Santos.  Luiz Gama: O poeta como um certo tipo de homem. In: http://www.salvadornegroamor.org.br
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SILVA, Luiz. Poemas da Carapinha. Porto Alegre: Edição do autor, 1978.
SOARES, Arlete. Apresentação. In: VERGER, Pierre Fatumbi. Os Orixás. São Paulo: Editora Corrupio, 2001.
VERGER, Pierre Fatumbi. Os Orixás. São Paulo: Corrupio, 2001.

domingo, 1 de junho de 2008

Análise da "Transição de Feudalismo ao Capitalismo – Dobb & Sweezy"

Segundo Paul Sweezy, Maurice Dobb define feudalismo como sendo servidão e esta seria “uma obrigação ao produtor pela força, independente de sua vontade, no sentido de cumprir certas exigências econômicas de um senhor, quer sob forma de serviços a serem prestadas ou de tributos a serem pagos em dinheiro ou espécie.” (p. 33), esta definição foi retirada do texto de Maurice Dobb Studies in the development of capitalism, em que Dobb, segundo Sweezy utilizará praticamente como equivalente os dois termos.

Para Sweezy essa definição é falha, pois não identifica o Feudalismo como um Sistema de Produção, é segundo ele, uma má leitura de Marx, o termo servidão não pode ser considerado, portanto, congruente com Feudalismo, pois “alguma forma de servidão pode existir em sistemas que nada tem de feudal; e mesmo como relação dominante de produção, a servidão tem estado associada com diferentes formas de organização econômica em diferentes épocas e em diferentes regiões” (p.33). Citando Engels e Marx ele refutará a tese de Dobb, e dirá que “o que Dobb está definindo não é em verdade um sistema social, mas uma família de sistemas sociais, todos baseados na servidão” (p. 33), não obstante, segundo Sweezy é preciso identificar qual membro da família Dobb está estudando. Este está bem claro e é o Feudalismo na Europa Ocidental, mas especificamente a região à qual se delimita hoje à Inglaterra.

Maurice Dobb em sua Réplica, rejeitará essa teoria. A definição por servidão pode não ser “apenas a prestação de serviços compulsórios mas a exploração do produtor mediante coação direta político-legal” (p. 57), definição que Paul Sweezy rejeita, pois para ele pode-se “encontrar elementos de coação direta político-legal sobre o trabalho em períodos” (p.57) diferentes. Contudo, ao citar Paul Sweezy que considera a definição de Dobb do Feudalismo como virtualmente idêntico à servidão, abrangindo com isso, algo mais amplo e sendo assim deve ser analisado com cuidado. Porém, quando Sweezy se refere a um Sistema de Produção pondo em contraste este a um modo de produção segundo Marx, Dobb refutará dizendo se assim o for a característica do feudalismo segundo Sweezy seria “um sistema de produção para uso” (p. 58), diferente de Dobb.

Com o declínio do feudalismo as cidades começam a reaparecer, a superexploração da força de trabalho, fez com que houvesse um colapso no feudalismo, segundo a teoria de Dobb, “os servos desertaram das propriedades senhorias em masse, e os que permaneceram eram muitos poucos e demasiadamente sobrecarregados para permitir que o sistema se mantivesse na sua antiga base.” (p.37). Essa fuga de servos para as cidades que segundo a Teoria de Dobb, ocorreu e que caracterizou-se como uma causa importante na declínio das relações feudais, assim esta pode ser explicada como se este processo fosse interno ao sistema feudal.

Contudo Paul Sweezy irá discordar e dirá que “os servos não podiam simplesmente desertar das senhorias, não importa quão severos pudessem tornar-se seus senhores, a menos que tivessem para onde ir” (p. 39). Aí está a chave da questão para Paul Sweezy, que considera que o processo não pode ser considerado interno e sim, externo, para ele com o crescimento do comércio de longa distância como parte externa da desarticulação, o feudalismo declinou, e tomando de empréstimo alguns dos argumentos de Maurice Dobb, irá dizer que, com a entrada de produtos cada vez mais sofisticados, a superexploração da força de trabalho aumentou, gerando assim uma fuga de servos para as cidades. O que ele acrescenta a tese de Dobb é que somente com liberdade de emprego e a melhoria da posição social esses servos poderiam fugir para as cidades, ou seja, somente quando os “burgueses, necessitando de maiores contingentes de mão-de-obra e de mais soldados para fortalecer seu poderio militar” (p. 39), poderia fazer com que esses servos deixassem sua condição jurídica, evadindo o campo, invadindo as cidades. Esta seria uma questão fundamental que para Paul Sweezy, Maurice Dobb não pensou ou prestou pouca atenção. Com essa teoria o desenvolvimento das cidades, segundo Sweezy, apareceria como uma conseqüência natural, tendo seus agentes internos, sem deixar os aspectos externos da teoria de Sweezy, para ele “a opressão de que fala Dobb foi um fator importante a predispor os servos à fuga, mas por si mesma difilcimente teria originado uma emigração de grandes proporções.” (p. 40). Para completar Sweezy fala a teoria de Dobb poderia ser salva se fosse possível uma comprovação “que a ascensão das cidades foi um processo interno ao sistema feudal” (p. 40), contudo, ele não afirmou e finaliza dizendo que “ele toma uma posição eclética sobre a questão da origem das cidades medievais, mas reconhece que seu crescimento em geral guardava proporção com sua importância como centros de comércio” (p. 40). Aqui se encontra o que Paul Sweezy deseja “comércio”, para ele palavra-chave para dizer que Dobb não poderia sustentar a sua tese, pois o comércio não pode ser considerado de forma alguma como economia feudal e por isso, o desenvolvimento da vida urbana não pode ser considerado como conseqüência de causas feudais internas.

Em sua Réplica Maurice Dobb falará que não se preocupa em discutir “se esta fuga de servos deveu-se mais à atração desses imãs urbanos... ou à força de repulsão exercida pela exploração feudal. Evidentemente ambas as forças agiram, com pesos diferentes, em diferentes locais e épocas. O efeito específico dessa fuga, porém, deveu-se ao caráter específico da relação entre servo e explorador.” (p. 60). Com isso, Dobb não concorda com a idéia de Sweezy em “obrigar” Maurice Dobb a mostrar que a fuga de servos pode ser explicada por forças que atuavam dentro do sistema feudal e que a ascensão das cidades foi um processo interno, mostrando suas razões, Dobb completará dizendo que “Sweezy se equivoca ao afirmar que existe uma correlação necessária entre a desintegração feudal e a proximidade dos centros de comércio” (p. 60). Para Dobb, Sweezy peca ao afirmar isso e ele mostra dois exemplos que ele citou no Studies deixando claro que essa relação não pode ser descrita, mas sim a relação “entre proximidade dos mercados e o fortalecimento da servidão” (p. 61)

O papel das cidades como local para onde os servos iam é claro e senso comum nos dois casos, o que está implícito aqui é como estes servos foram para as cidades, neste caso os dois autores discordam em certos aspectos, o olhar de cada autor estará ligada a sua formação teórico-metodológica.

Pelo que se percebe com o crescimento das cidades, uma classe de trabalhadores especializados começam a surgir e com isso, o artesanato que antes era para consumo próprio toma agora uma característica comercial, com o excedente produzido. O que cabe aqui é saber como cada autor pensa a esse respeito.

Para Paul Sweezy, o comércio de longa distância faria entrar no sistema feudal produtos sofisticados que faria os senhores feudais aumentar a carga de trabalho dos servos, pois estes queriam mais dinheiro para poder comprar estes produtos, essa carga de trabalho excessiva resultaria na fuga de servos para as cidades, atraídos por uma série de imãs urbanos tendo conseqüência o aumento do trabalho expendido nos servos restantes, estes não suportariam esse aumento na carga de trabalho e por isso, continuavam fugindo resultando assim na crise do sistema feudal, as cidades ficariam cheias de trabalhadores e os burgueses aproveitariam esta mão-de-obra para aumentar seus lucros com o comércio interno e externo, para isso eles teriam que produzir cada vez mais produtos nas próprias cidades. Citando Sweezy “Quando... começou a implicar o estabelecimento de centros de comércio e entrepostos locais um fator qualitativamente novo surgiu, pois esses centros, ainda que baseados no comércio a longa distância, tornaram-se inevitavelmente geradores de produção de mercadorias, por si próprios.” (p. 41). Assim o seu artesanato, “que era a concretização de uma forma de especialização e de divisão de trabalho superior ao que a economia senhorial jamais conhecera, não apenas fornecia os bens de que necessitava a própria população urbana, como ainda fornecia os que a população rural podia comprar com o produto das vendas no mercado da cidade” (p. 41-2). Com isso, o comércio de longa distância é quem impulsionou o comércio interno, deixando com o tempo o lugar de papel primário nas economias urbanas, ele é, portanto, a força motriz e criativa da mudança de um sistema de produção de uso para o de troca.

Sweezy ainda completará seu discurso citando quatro correntes de influência dessa mudança: a primeira é a ineficiência da organização senhorial de produção; a segunda seria a mera existência do valor de troca como um fato econômico de vulto tende a transformar a atitude dos produtores; em terceiro estaria à evolução dos gostos da classe feudal dominante e em quarto estará o desenvolvimento das cidades.

Dobb não negará “que o crescimento das cidades mercantis e do comércio desempenharam importante papel na aceleração da desintegração do antigo modo de produção. O que afirmo é que o comércio exerceu sua influência na medida em que acentuou os conflitos internos no antigo modo de produção” (p. 60), ou seja, conflitos internos no antigo modo de produção seriam o fator preponderante, no qual resultaria um processo de mudança no sistema feudal, fazendo com que as cidades crescessem, incorporando com isso um comércio, começando a surgir assim uma diferenciação social neste pequeno modo de produção. Vale ressaltar que somente com o surgimento das cidades que o artesanato, através das guildas começa a ganhar ares de produção para troca, antes disso ele tinha um caráter de produção para uso, percebe-se, portanto que os dois autores concordam neste ponto, a sua diferença persiste no força motriz desse processo de transição.

Por outro lado, quando se refere ao capital mercantil Paul Sweezy citando Dobb, irá demonstrar que, como há uma falta de provas referentes a este tema, Dobb utilizará em massa dos escritos de Marx e Engels, contudo ele fará uma má leitura destes escritos, cita Sweezy.

Segundo Sweezy, Dobb citará o capítulo de Marx sobre o “Capital Mercantil (III, Cap. 20) em apoio à sua opinião de que o capital industrial se desenvolve por duas maneiras principais”. A primeira seria “a via realmente revolucionária” e a segunda é que “uma parte da classe mercantil existente começou a ‘apossar-se diretamente da produção’, portanto ‘servindo historicamente como modo de transição’” (p. 52). Para Sweezy, Marx em nenhum momento falará em “capitalistas emergindo das fileiras dos produtores artesãos” (p. 54) mas que “o produtor torna-se portanto um mercador e capitalista” (p. 54).

Dobb em sua réplica, falará que ele crer ter bastante provas sobre a questão que Sweezy demonstrou, citando o seu livro Studies e outros, para ele “isso fornece, a meu ver, a chave para a compreensão dos alinhamentos de classe da revolução burguesa: em particular, a razão pela qual o capital mercantil, longe de desempenhar sempre um papel progressista, era freqüentemente aliado à reação feudal” (p. 64). Isto ficará mais claro quando se pensar no feudalismo da parte oriental da Europa, enquanto a parte ocidental estava em processo de transição os laços feudais se fechavam ou ressurgiam cada vez mais na parte oriental da Europa, um reforço, ou melhor, uma reação do feudalismo.

A transição do feudalismo para o capitalismoTraduzido por Isabel Didonnet. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. 247 p. (Pensamento crítico; 18).

Análise da História Econômica através de Fragoso

Em seu texto, “Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil”, João Fragoso expõe a público que a sua avaliação sobre a história econômica nacional e internacional mudou um pouco. Ele dirá que “na época, apresentamos (Fragoso e Florentino, 1997: 27-43) um balanço bastante cético sobre os destinos das pesquisas neste campo.” (Fragoso, 2002: 1). Através de uma crítica avassaladora como ele mesmo diz, e em alguns casos injustamente, que foram feitas à “história serial francesa, os modismos da historiografia brasileira e, com eles, a redução brutal do número de investigações econômicas feitas nas pós-graduações.” (Fragoso, 2002: 1).

Realmente em seu primeiro texto feito em conjunto com Manolo Florentino eles estavam prevendo uma derrocada da história econômica, pelo simples fato da redução brutal do número de investigações econômicas. No entanto, eles buscaram fundamentar sua tese, através de variações percentuais, o que difere em muito das variações quantitativas de textos produzidos. O que eles não viram ou não quiseram ver neste momento é que o número de artigos produzidos de história econômica aumentou ou se manteve estável, não obstante o que se percebe, e eles têm razão nisso, é que havia “uma preocupação com a longa duração e a ênfase nas estruturas econômicos-sociais para a compreensão das sociedades, locus privilegiado até mesmo para a compreensão da política e da cultura.” (Fragoso e Florentino, 1997: 29) Completando o texto dizendo que “Do ponto de vista da praxeologia histórica, daí derivava a constante preocupação com a utilização de fontes propícias à quantificação e à seriação” (Fragoso e Florentino, 1997: 29). Percebe-se, portanto, uma forte influência da Escola dos Annales e da historiografia marxista.

O que Florentino e Fragoso sentiram foi o aparecimento contínuo de críticas ao modo como a história econômica abordava os conteúdos históricos e ao tipo de reflexão em meio ao qual era produzido. O que eles não queriam entender neste momento, é o surgimento de novos problemas, novos paradigmas, novos interesses que apareciam naquela sociedade e que a história econômica não tinha as ferramentas para tal explicação, contudo ele não concordará com esse fato.

O artigo de Fragoso “Para que serve a história econômica?” fará um rápido balanço das tendências recentes da história econômica nacional e internacional, em particular, das pesquisas sobre as sociedades pré-industriais. Em seguida, analisará a concentração de renda no Brasil contemporâneo e abordará as possíveis contribuições da história econômica para o entendimento desse fenômeno.

Nele ele irá perceber que “as críticas à história social e econômica feita na tradição de Labrousse (1933-1955) continuaram. Insiste-se em duvidar das investigações que procuram apreender as regularidades observáveis e, com isso, construir quadros explicativos. Acredita-se, ainda, que essa ‘decrépita’ abordagem deixaria os comportamentos e o acaso, isto é, a experiência social, de fora.” (Fragoso, 2002: 1). Para os críticos da história econômica, cujo eixo original são os Annales, a investigação quantitativa pode obscurecer ou distorcer os fatos, o que se percebe neste tipo de explicação é que “a vida real é largamente posta à margem e a visão de longo período pode gerar uma abstrata e homogeneizada história social desprovida de carne e sangue, e não convincente apesar de seu estatuto científico” (Fragoso e Florentino, 1997: 30). O que eles não percebem ou não queriam ver, segundo Fragoso é “que a apreensão de tais conflitos e solidariedades como características da vida dos grupos sociais pressupõe o estudo da regularidade daqueles fenômenos. Somente com isso seria possível elaborar teorias, explicar o porquê dos conflitos, e do acaso no ‘cotidiano’ dos grupos sociais” (Fragoso, 2002: 1). Com isso, Fragoso reforça o caráter crítico a história serial francesa feita no primeiro texto, e ainda pergunta-se sobre a utilidade da história serial nos dias atuais.

Traçando um rápido quadro explicativo sobre a historiografia brasileira e internacional, procurando revelar “as conseqüências interpretativas sobre as sociedades ultramarinas” (Fragoso, 2002: 5). Ele procurará revelar que a exclusão social no Brasil atual é resultado de uma série de políticas, mudanças sociais e econômicas que a sociedade brasileira escravista nos legou e que nós mantivemos e ampliamos com o término da estrutura escravista.

Na conclusão de seu texto Fragoso abordará as possíveis contribuições da história econômica para o entendimento desse fenômeno, constatando que “a permanência das fortes desigualdades sociais ao longo de quinhentos anos de Brasil é compreender que, nesses séculos, a sociedade brasileira viveu mudanças..., porém o fosso entre os mais ricos e os mais pobres permaneceu. Cabe, portanto, ao historiador, estudar os diferentes mecanismos – econômicos, culturais, etc. – que resultaram nesse fosso. E nisso a pesquisa econômica teria um papel decisivo, com suas séries de preços e faixas de fortuna.” (Fragoso, 2002: 19).

O que se percebe nestes dois textos é que apesar dele no início do segundo texto está se retratando vendo que foi injusto em certos pontos, ele continua defendendo a história econômica como forma explicativa da história. Uma mudança ocorrida foi a sua percepção que a história econômica não estava decadente como ele diz no primeiro artigo, mas ainda permanece, através da incorporação de novos métodos, resultado do embate com a história econômica e social, cujo eixo principal seria a escola dos Annales, sentindo-se, portanto capaz de poder explicar as variações que a sociedade traz. Um exemplo disso seria seu artigo sobre a exclusão social.

FRAGOSO, J. L. R. Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil. Revista de Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 29, p. 3-28, 2002.
FRAGOSO, J. L. R. & FLORENTINO, Manolo. “História Econômica”, em CARDOSO, Ciro & VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História. Rio de Janeiro, Campus, 1997.