Mostrando postagens com marcador Estudos Históricos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estudos Históricos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Resenha do Livro: Introdução à História, de Marc Bloch

Por: Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa

Resenha

Referência Bibliográfica:
Estudo de Obra (Obra Completa) BLOCH, Marc. Introdução à História. Lisboa: Europa-América. S/d.

“Aprendendo a Convencer”


Este Livro inacabado é um ato completo de história.” (BLOCH: 2001,34), palavras de Jacques Le Goff no prefácio da Edição Francesa. Apesar de ser o primeiro livro sobre metodologia da história que li, este é um livro que muitos consideram como o melhor sobre o assunto já escrito, por sua amplitude e por pegar todas as pontas do guarda-chuva do trabalho do historiador. Perceba nas palavras de Bloch um pré-enuncio daquilo que, para ele parecia impossível, acabar com este livro. “... O que é inacabado se tende constantemente a ultrapassar-se, tem, para todo espírito ardoroso, por pouco que o seja, uma sedução que vale bem o êxito mais perfeito...” (P. 84).

A Segunda Guerra Mundial freou o desenvolvimento do debate que Marc Bloch propôs, pois ele morreu, deixando uma obra incompleta sobre a Teoria da História, que futuramente foi editada com o titulo de Apologia da história, ou ofício de historiador (2001). Buscando definir a utilidade da historia, este texto discute a complexidade do tempo histórico, as relações entre passado-presente, a construção do discurso e, principalmente, a exigência de uma ética da história do historiador. A História aparece como busca e escolha, não sendo o passado seu objeto: a idéia de que o passado como tal possa ser objeto de ciência é errada. O objeto da história, segundo Marc Bloch, é o fazer da história a ciência “dos homens, no tempo” (BLOCH: 2001,55).

É preciso entender a importância deste livro, seu discurso possui um caráter contemporâneo para a história, na época e nas circunstâncias em que foi criado, para isso nos perguntamos. Qual a sua importância para o ensino e a escrita da história na atualidade? Para você que está iniciando o curso de história, ou melhor, para você leitor desta resenha, para entender o que estou falando é necessário saber: Quem foi Marc Bloch?

Marc Léopold Benjamim Bloch foi historiador, fundador da Escola dos Annales com Lucien Febvre, que buscou contrapor a historiografia positivista, que privilegiava a análise política, propondo uma história: crítica, analítica e problematizadora, dando maior privilégio aos fatores, econômicos e sociais na história e cuja linha de estudos por sua vez influenciaria a Nova História e a História das Mentalidades. Eles concretizaram o projeto de publicar uma revista que oferecesse espaço para estes novos apontamentos: No primeiro momento da revista, são bastante claros os ataques aos especialistas simplistas e empiricistas. Tal revista sofre grande influência da escola Durkheimiana e também da geografia Vidaliana, entre outras. O que propiciou a Bloch, o estudo da história de uma forma bem peculiar, incrementando novos conceitos e paradigmas nas pesquisas. Fazendo isso o autor buscou ampliar largamente o diálogo da história com outras áreas do conhecimento (interdisciplinaridade), isso foi um fator essencial para a construção de uma nova história, isso foi fundamental para fazer uma História Total, mostrando que através de um objeto específico podemos fazer inter-relações com diversas áreas do conhecimento.

Ele participou das duas grandes guerras, e foi na segunda guerra que foi preso e onde escreveu Apologia da História, obra essa inacabada devido à sua morte. Ele é considerado o maior medievalista de todos os tempos. Como se não bastasse, foi um dos grandes responsáveis pelas inovações do pensamento histórico, defendendo o abandono de seqüências pouco úteis de nomes e datas e uma maior reflexão dos acontecimentos e seus fatores anteriores e posteriores. Seu último livro Uma Estranha Derrota, era uma avaliação da derrota francesa a partir da invasão alemã, Mas também foi “uma crítica muito lúcida das insuficiências, dos ocultamentos do discurso histórico dos Annales”(DOSSE: 1992,64-65)

Pois bem, como você pode ver Marc Bloch era engajado em tudo que propunha desde o seu ofício até á sua pátria. Ao escrever este livro na prisão ele propõe diversos assuntos que para ele precisam ser colocados em prática pelo historiador. Bloch faz da história uma história-problema e para isso ele fez este livro para a confirmação daquilo pensa e como nós percebemos parece que este livro foi uma espécie de despedida, um testamento legado para toda a humanidade que quer conhecer e buscar a verdade.

Este é um livro composto por uma guisa de dedicatória, uma introdução e cinco capítulos (o capítulo V - incompleto). Na guisa de dedicatória Marc Bloch agradece ao seu amigo Lucien Febvre por tudo o que passaram e como uma espécie de despedida dedica este livro a ele.

Na Introdução, Marc Bloch vai mostrar que, um historiador de verdade não deve seguir necessariamente seus mestres, mas criticá-los naquilo que achar necessário, deve ser sincero e mostra que o progresso dos estudos é feito com a contradição necessária entre as várias gerações de investigadores. A problematização da pergunta “Pai, diga-me lá para que serve a história”(p.75). É o que ele vai chamar de Legitimidade da História e vai ser a idéia principal para o desenvolvimento do livro.

Posso dizer que por motivos relevantes Bloch se opõe, ao escrever sobre livros e sobre autores sem ter uma fonte de pesquisa, não por ter sido ingênuo ao escrever sem querer saber o que estas pessoas escreviam ou falavam na verdade, mas ele faz um esforço sem comparação para se aproximar muito daquilo que essas pessoas defendiam. Mostra entre muitas coisas que: O trabalho do historiador é saber interrogar bem o seu passado; A mescla de memória com a História; Que a história pode ser uma distração, mas para escrevê-la devemos gostar do nosso ofício para isso, é necessário vocação; que o ser humano procura saber e não compreender, e que deve ser o contrário; Que a História não é, apenas, útil. Ela é legítima como ciência. Ciro Flamariom Cardoso mostra em seu livro “Uma introdução à História” que a história ainda está caminhando para ser ciência, pois, “a conquista do seu método ainda não está completa” (CARDOSO. 1981, 49). Este é um assunto muito debatido durante por muitos historiadores, creio eu que a História é ciência, pois não temos o que discutir quando colocarmos na balança o seu valor como disciplina e como fins políticos, religiosos, etc. Por Fim, Marc Bloch encerra esta introdução lamentando por não ter feito melhor o livro, o não acesso a nenhuma biblioteca ou seus livros, deixou o texto vazado, cheios de lacunas que ele ainda tinha a esperança de poder completar, assim ele escreveu esse texto só com o seu saber, somente com suas notas.

No capítulo um Marc Bloch vai tratar da História, os homens e o tempo, ele divide este capítulo em cinco partes. A primeira parte fala da opção do historiador onde fala da sociologia Durkheimiana e discute sobre os obstáculos existentes na pesquisa histórica. Na segunda parte ele fala da História e os homens onde critica a historiografia tradicional, que narram os grandes feitos, grandes homens e coloca a serviço da história à interdisciplinaridade. Na terceira parte, ele comenta o tempo histórico onde o historiador é definitivamente, influenciado pelo seu tempo, ou seja, pela sociedade em que vive, sendo impossível ser imparcial com a realidade a sua volta. A História é a ciência dos homens no tempo onde o historiador elabora sua pesquisa, de acordo com as preocupações e os interesses do seu quotidiano. Bloch chama a atenção a respeito da importância em saber a data exata dos acontecimentos históricos. Isso porque tal compreensão do tempo indica a respeito da realidade de cada sociedade. Segundo o autor, o tempo não é apenas uma seqüência de fatos. O tempo histórico é a capacidade de identificar-se com a historicidade. O conhecimento histórico, não é apenas uma causa linear, as coisas não são simplesmente causas e efeitos, pois são movimentos coletivos, jogos de interesses entre classes, porque a sociedade é muito mais complexa do que uma associação de fatos ao longo do tempo. Na parte quatro fala sobre “o ídolo das origens” o crédito que os historiadores dão as origens de um processo histórico, questionando essa idéia de mostrar que em muitas realidades históricas tal pressuposto é impalpável. Na quinta parte fala sobre o passado e o presente onde mostra que para o historiador entender o passado é preciso compreender o presente, pois há muita permanência na História, ou seja, aquilo que muda de forma mais lenta como, por exemplo, a cultura. O autor mostra que as sociedades não são iguais e por isso não basta estudar uma só. É necessário conhecer outras realidades para se ter uma noção mais completa. Isso é muito debatido e Collingwood concorda com Bloch neste sentido, para ele “O passado que o historiador estuda não é um passado morto, mas um passado que, em algum sentido, está ainda vivo no presente.” (CARR, 1999, 22), ou seja, estudamos o passado para compreender o presente.

No capítulo dois Marc Bloch vai tratar da observação histórica, ele divide este capítulo em três partes onde a primeira parte fala dos caracteres gerais da observação histórica que segundo Bloch a construção do passado, elaborado pelo historiador é geralmente feita através da observação de outros sujeitos. “Toda a narrativa de coisas vistas assenta, numa boa metade, em coisas vistas por outrem” (P. 104), ou seja, na observação histórica, o pesquisador remonta sua teoria, com base nos relatos e na percepção de alguns indivíduos. Também mostra que muitos vestígios históricos, proporcionam um contato direto com o passado um exemplo é a maioria dos testemunhos não-literários, e até mesmo a de uma grande parte das narrativas. Com isso o passado só poderá ser compreendido, através dos vestígios encontrados no presente. O passado é uno, sendo um fato verídico, contudo o entendimento desse modifica-se e é aperfeiçoado. Na segunda parte fala dos testemunhos, que para Bloch as fontes narrativas permanecem ainda com grande importância na investigação histórica, mas também os testemunhos que não tiveram a intenção de deixarem registros para posteridade. Aí entra a história-problema proposta por Bloch onde o especialista interroga suas fontes e mantém um verdadeiro diálogo entre elas, sendo este o primeiro passo para se fazer uma pesquisa histórica. Na terceira parte ele fala da transmissão dos testemunhos ele cita que é “Uma das tarefas mais difíceis do historiador é reunir os documentos de que pensa ter necessidade. Ser-lhe-ia difícil consegui-lo sem o socorro de diversos guias: inventários de arquivos ou de bibliotecas, catálogos de museus, repertórios bibliográficos de todas as espécies...” (P. 116). Esse é sem dúvida um trabalho árduo e desgastoso, mas apesar de algumas pessoas fazerem esse tipo de trabalho, ele não é valorizado, e muitas vezes não é nem publicado. Marc Bloch mostra que para se fazer este tipo de trabalho, os investigadores devem antecipadamente conhecer o que ira explorar, os documentos não são fáceis de achar, o técnico deve conhecer um pouco de tudo para poder encontra este tipo de documento e mais ainda ele deve saber interpretá-lo. Mas como bom historiador ele deve conquistar o público, deve seduzi-lo e para isso ele deve passar o seu conhecimento aos leitores. Fazendo que esses tenham o prazer da investigação, da análise profunda dos documentos, do saber interrogá-los. Afinal, como disse Bloch “O espetáculo da investigação, com os seus sucessos e seus revezes, raramente enfastia. A coisa passada é que provoca o tédio” (P. 118).

No capítulo três Marc Bloch vai tratar da crítica, ele divide este capítulo em três partes onde a primeira parte fala do Esboço de uma história do método crítico onde Bloch mostra que não se deve acreditar cegamente naquilo que as testemunhas dizem, pois, “nem todos os relatos são verídicos e os vestígios materiais podem ser também falsificados” (P. 122). Quando se busca regras para definir se o documento é falso ou verdadeiro, quando há dúvidas sobre a veracidade dos documentos e quando essa dúvida se tomou um jeito examinador, essas regras se enquadram à crítica do documento. Para isso o historiador deve saber indicar de onde o documento vem? Por que e por quem foi escrito? Seu valor para o seu tempo? E outras perguntas mais. Para Marc Bloch o modo correto de dizer se um documento é falso ou não, é perceber os anacronismos e outros detalhes de um documento. Na segunda parte ele mostra que existem duas formas de se verificar se um documento é falso ou não, a busca da mentira e do erro, é como ele disse “De todos os venenos capazes de viciar um documento, o mais virulento, é a impostura” (P. 130). Para Bloch, quando você pega um documento para analisar à sua veracidade, você deve antes de tudo ter um senso crítico para analisá-lo de forma correta, buscar nele a verdade e se o descobrir se esse for falso, deve se perguntar por que fizeram este documento? Qual o objetivo da criação dele? E outras.

Mas é verdade que também os testemunhos se enganam, esse é o momento de o historiador aproveitar para aplicar os conhecimentos da disciplina: a psicologia do testemunho. Ela é aplicada em casos cujo “... os erros iniciais da percepção correm sempre o risco de se confundir com os erros de memória, dessa fluida, dessa coleante memória, denunciada já por um dos nossos juristas” (P.137), o caso é que muitos testemunhos utilizaram à sua memória para contar fatos ocorridos e por ele vistos, mas que, por não terem sidos escritos literalmente no momento acontecido, ficam a mercê de erros de boa fé, mas erros históricos, que modificam o que ocorreu literalmente. Na terceira parte ele faz um ensaio de uma lógica do método crítico onde mostra como o método crítico é baseado em comparações, pela série de objetos, documentos e outros vestígios encontrados ao longo de uma série de escavações, achados e etc., analisamos o documento que está em nossa mão. Quando não podemos comparar, não podemos descrever o seu período, ou seja, não podemos contextualizar o documento. “... Na base de quase toda a crítica inscreve-se em trabalho de comparação” (P. 143). Por fim Bloch vai mostrar que a história tem o direito de contar que entre as suas glórias, já tem elaborado a sua técnica para entendimento do documento, o método crítico assim abriu um caminho novo para aquilo que é certo, verdadeiro e justo.

No capítulo quatro Bloch vai tratar da análise histórica, ele divide este capítulo em quatro partes onde a primeira parte inicia com um debate se a história deve julgar ou compreender? A analise histórica é um processo que começa com a compreensão. Marc Bloch diz “Uma palavra, em suma, domina e ilumina os nossos estudos: Compreender...” (P. 163), é através da compreensão e não do julgamento que o historiador deve analisar os fatos. Na segunda parte ele fala da diversidade dos fatos humanos à unidade das consciências onde aborda que não é só compreensão. Para se construir uma ciência é necessário duas coisas: Um homem e a matéria. A realidade humana, como a realidade física são muito complexas. Os documentos já são um recorte do passado, é preciso então o historiador escolher e separar os documentos que lhes são necessários, para em seguida, analisá-los. É claro o homem age sobre as coisas e vice-versa. É aí que entra o papel da ciência, ela “... só recompõe o real para melhor o poder observar, graças a um jogo de fogos cruzados cujos raios constantemente se combinam e se interpenetram...” (P. 167). É necessário a combinação de ciências para um melhor observar, a análise é complexa, e exige muito por parte do historiador, este tem seus limites e precisa de outros pensadores para lhe ajudar neste empreendimento.  Na terceira parte Bloch fala da nomenclatura que é ponto-chave do estudo do documento, evitar anacronismos é um detalhe importante para quem escreve História. Temos de nos preparar para um outro esforço no processo de análise, devemos distinguir as diversas instituições de determinadas épocas sem denegrir á sua imagem. Com tudo, Marc Bloch diz que um dia depois de uma série de entendimentos, poderemos afiná-la, pois ainda não temos um método para lidar com ela. Na quarta parte ele comenta que divisões cronológicas já são inseridas no contexto, é um conhecimento que o historiador deve saber antes de escrever. Que os vestígios históricos, já são um recorte do passado, pois, nós não temos como saber literalmente, como aconteceu os fatos, o que chega até nós só é, essas seleções que são transmitidas através de várias seleções consecutivas, e que devemos investigá-las. A historiografia que herdamos, conta a história não dos reinos, mais de reis e generais. O pensamento voltairiano influenciou a cabeça de muitos historiógrafos que propiciaram uma revolução no contexto histórico, passam então a inverter o modo como escreviam, em vez de escreverem apenas sobre reis e seus feitos, passaram a escrever muito mais sobre as classes mais baixas da sociedade, principalmente a arte, a literatura, a ciência que entraram nesse contexto devido a seus vários progressos. Outro ponto importante é o da periodicidade das gerações, não tem nada para se regular, existem em História gerações longas (civilizações) e curtas (fase, um período). Conclui-se que para classificarmos a história devemos levar em conta os recortes já feitos no passado e tentarmos aproximarmos estes dos outros recortes que não foram feitos nele. Com isso tentarei entender o passado através e aproximações, generalizações e outros meios.

No capítulo cinco não se sabe ao certo qual o título que ele daria No prefácio de Jacques Le Goff têm uma parte que diz “... sem dúvida teria sido sobre “a explicação em história”...”. Mas nós sabemos que Bloch foi uma das vítima de Klaus Barbie, fuzilado, calou-se um francês, mas não o francês que escreveu este livro e que entrou para História como a pessoa que conseguiu colocar num só livro. O melhor jeito de aplicar os conhecimentos de um historiador na prática, este é sem sombras de dúvidas, o melhor livro de metodologia feito e, serve inclusive, para quem está começando os estudos acadêmicos. É neste capítulo que Bloch fala somente da causa, ele queria escrever mais, não pôde. Quando Bloch fala da causa ele faz mais uma crítica ao positivismo que ele menciona “... pretendeu eliminar da ciência a idéia de causa...” (P. 191). Ele mostra também que as causas da história não é um problema de motivos. Para Bloch a monocausalidade deve ser refutada, ao se escrever História, devemos levar em conta uma multiplicidade de causas, e seus efeitos, isso é indiscutível. Por isso não devemos fazer que as causas sejam reduzidas sempre a um problema de motivos. Por fim, Marc Bloch, termina o texto numa frase que sem dúvidas é um resumo de tudo que ele falou sobre causas: “... Numa palavra, as causas, em História como de resto em qualquer outro domínio, não se postulam. Investigam-se” (P.195).

Em suma, posso dizer que este estudo sobre a obra de Bloch e os conhecimentos adquiridos com a experiência de outros autores, mostrou que um historiador deve saber convencer seu público, conquistá-lo, a História não é só ciência, ela também é arte, vida e conhecimento, ela completa o homem e o homem a completa, fazendo assim um jogo em que não há vencedores e sim os vencedores. Uma prova disso é que os historiadores não se contentam na primeira resposta, há sempre a necessidade de outras respostas, ou seja, a História se adequou a humanidade com o passar dos tempos, fazendo isso, ela progrediu e continua em progresso assim como a humanidade, ou seja, a vitória da humanidade o seu progresso é também o progresso da história, pois, se a história fosse uma ciência dura como a Matemática, a Física e a Química, ela seria uma disciplina de esquizofrênicos fazendo que se tornasse indispensável, mas devido sua maleabilidade ela é empolgante, irresistível e importantíssima para explicar e transformar o mundo em que vivemos.

________
Bibliografia:
BLOCH, Marc. Apologia da História, ou o Ofício do Historiador, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2001
CARDOSO, Ciro Flamarion. Uma Introdução à História. São Paulo: Brasiliense, 1981.
CARR, E. Mallet. O que é história. São Paulo, Paz e Terra, 1999.
DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à nova história. São Paulo/Campinas, Ensaio/Ed. UNICAMP, 1992

domingo, 25 de setembro de 2011

DICAS: Como ler e interpretar um texto? - Orientações de Estudo

Existem muitas opções para aqueles que desejam realmente lidar com a informação, mas a sua maioria é técnica. Poucas são às opções didáticas, em simples resumos para que qualquer pessoa adquira pelo menos a mínima possibilidade para a interpretação do mundo que o rodeia.

Esta realidade aplicada à nossa sociedade gera em muitos casos, pouca reflexão o que ocasiona uma certa manipulação da pessoa que teve a intenção de escrever sobre aquela que está lendo. O estudo de história nos remete à uma solução para resolução dese problema e a Coleção Estudos de História, da FTD trouxe-nos um guia muito importante que orienta, sobretudo, os alunos na hora da interpretação. 

Confira agora as Orientações de Estudo para que você saiba Como ler e interpretar um texto?
Compre o livro clicando AQUI.

A leitura está presente em nossa vida de diferentes modos, porque lemos com diversos propósitos: lazer, informação, pesquisa, estudo etc. A nossa maneira de ler, contudo, dependerá do nosso objetivo. 

Aqui vão algumas dicas para você aproveitar bem a sua leitura com a finalidade de estudo.

  • A primeira leitura - O objetivo é reconhecer o tipo e o tema do texto e o autor. Serve também para levantar as dificuldades relativas à compreensão do vocabulário, dos fatos e dos conceitos apresentados. Ao fazê-la, recorra a um dicionário e pesquise o que for necessário para esclarecer todas as dúvidas. Em seguida, tente responder às seguintes perguntas: Que tipo de texto é este? Quem é o autor? Qual é o assunto do texto? O título tem relação direta com o tema?
  • A segunda leitura - É indicada na identificação de ideias e informações contidas no texto. Uma leitura atenta permitirá que você encontre tanto a ideia central do texto quanto a ideia principal e as secundárias de cada paragrafo. É hora também de perceber a forma e a sequência com que as informações são apresentadas. Perguntas que você deve fazer: Qual é o objetivo do autor? Ele levanta algum problema a ser investigado? O que é descrito ou narrado? O que é anterior, simultâneo ou posterior a um fato apresentado? Que relações de causalidade se podem perceber? Como o texto pode ser dividido? Há etapas ou tipos de algum fenômeno social? Quais os conceitos apresentados? Quais as palavras-chave do texto? Qual a conclusão? O autor defende alguma linha de pensamento? Feito isso, você pode reconstruir a linha de raciocínio do autor.
  • A terceira leitura - Deve levá-lo a tomar uma posição crítica em relação ao texto. Ele tem argumentos sólidos? É superficial ou profundo? Há uma lógica na apresentação das ideias e das informações? O que você considerou digno de mérito? Faltou alguma informação? O texto lhe suscitou alguma dúvida? O que você aprendeu? Você gosta do texto? Por quê?
  • As anotações - Podem ser feitas durante as leituras e servem para você se lembrar do conteúdo do texto e para ajudá-lo a organizar o seu trabalho de interpretação. Nem sempre você poderá marcar o texto; por isso, tenha sempre à mão papel para um rascunho. Depois você poderá passar suas anotações a limpo, no caderno ou no seu arquivo de computador.
Seguindo essas etapas de leitura para estudo, você terá condições de conhecer detalhadamente o conteúdo lido e poderá empregá-lo com segurança e crítica na elaboração de seus próprios textos. Mas nada impede você de retomar o texto, fazendo novas leituras. Afinal, quando relemos um texto depois de algum tempo, sempre descobrimos algo novo nele.

DO BLOG: Vale ressaltar que você não é obrigado a responder todas essas perguntas esboçadas nestas orientações, até porque o texto que você está lendo pode ser o primeiro de uma série de mesmo tema. Sendo assim, por exemplo, você pode não ser capaz de responder a questão: Faltou alguma informação? Pois você poderá não conhecer outras opiniões sobre o referido tema.

É necessário cuidados na execução da leitura, principalmente de textos históricos, pois ao identificar o autor, lembre-se sempre que ele tem interesses e que esses são comuns a todos. Pergunte-se sempre: Porque ele escreveu este texto? Quais as características da época? Quem ele estava representando? Quais eram os interesses de seu grupo de pertencimento? Etc.. 

Lembre-se: O historiador trabalha com investigação. Aprofunde-se e terás sucesso.

FICHA TÉCNICA DO LIVRO: Estudos de História - Três volumes
Cód FTD: 11637562 
Disciplina: História 
Nível: Ensino Médio 
ISBN: 978853227166-2 
Formato: 20,0 cm largura X 27,0 cm altura 
Peso: 0,64500 Páginas: 288 
Autor(es): Helena Guimaraes Campos, Mônica Liz Miranda e Ricardo de Moura Faria

sábado, 23 de julho de 2011

Dia 26 de junho de 1822, Maragogipe aclama D. Pedro único representante e exige fim das hostilidades portuguesas

Antes de qualquer explicação histórica gostaria de agradecer aos leitores Augusto Lopes e Hélio Tomita, é por causa do questionamento de vocês que estou escrevendo esse texto, para completar o artigo anterior.

Sou professor de História e estou me especializando em História de Maragogipe e do Recôncavo, discordo de muitas histórias que foram criadas movidas a interesses políticos por estas terras e sempre que puder eu estarei aqui para desconstruí-las. 

Como professor, digo sempre aos meus alunos que NUNCA concordem plenamente com a idéia ou a fala de outra pessoa, inclusive da minha, pois o que todas as pessoas fazem é escrever ou falar sobre uma verdade que elas entendem que é a verdade. Contudo, sabemos que NÃO EXISTE VERDADE ABSOLUTA e logo não existe imparcialidade em notícia, com isso, eles devem começar a pensar, refletir e buscar pelo saber, sem contudo desprezar o conhecimento do outro, afinal de contas, as descobertas só surgem partindo de uma contradição. Me diga quem não tem tendência e eu direi que ele estará morto, pois em vida ele tinha suas preferências. Com isso, viso ser verdadeiro, somente, não faço questão de defender A ou B, faço questão de dizer a verdade, aquela que eu entendo como verdade, e a que os documentos me remetem como verdade, através da interpretação rigorosa de fatos e acontecimentos ocorridos ao longo da história.

Sendo assim, posso primeiramente citar que a História de Maragogipe é uma das mais belas e mais vibrantes de todos os tempos e aos poucos eu vou contando neste blog, e guardo outras para meu Livro que estou escrevendo. Se eu tivesse recursos suficientes, esse estudo seria mais acelerado, mas como não tenho, sigo como a maioria dos historiadores seguem, sem patrocínio, pois o que a maioria das pessoas entendem somente que a História é Passado, eu entendo que a História é Presente - é somente com questões do presente que interrogamos o passado

"A história é o estudo dos homens no tempo e no espaço."
Marc Bloch

Agora que fiz essa introdução farei o detalhamento da seguinte questão, expressa na lei:
Art. 1 - Fica instituído feriado o dia 29 de junho tendo como motivo principal a data em que a Câmara de Vereadores aderiu a pedido de Cachoeira à atender ao pedido vindo do Rio de Janeiro para aclamar Dom Pedro de Alcântara, príncipe regente do Brasil, consolidando assim, um marco da independência do Brasil e posteriormente da Bahia. 
Art. 2 - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação. Revoga-se as disposições em contrário. Veja o vídeo.

Todos nós sabemos que a luta pela Independência tem como marco o dia 25 de junho de 1822, mas antes de tudo acontecer, os ânimos já acirravam a um bom tempo. Todavia, o dia 29 de setembro de 1821, quando Portugal decreta que o Brasil estaria subordinado ao Reino Português e marca o retorno do príncipe Regente, os brasileiros sentiram a oportunidade.

A partir daí, diversas situações ocasionaram um situação de conflito entre portugueses e brasileiros e Madeira de Melo conseguiu ocupar militarmente a cidade de Salvador. Madeira de Melo, inclusive, adota uma política que visava obter apoio local na Bahia unida a Portugal. No dia 18 de março de 1822 chega à Bahia o reforço português, esta tinha sido expulsa do Rio de Janeiro pelos acontecimentos do Fico e ordem do príncipe dom Pedro.

Diversas famílias começaram então a abandonar Salvador, direcionando-se para São Francisco do Conde, Cachoeira, Santo Amaro e Maragogipe. Em abril já existiam várias conspirações contra o brigadeiro Madeira de Melo.

De março a junho de 1822, atos direcionaram diversos proprietários de engenho e plantações de cana-de-açúcar, oficiais militares e intelectuais na posição a favor do reconhecimento da regência deixada no Rio de Janeiro pelo rei dom João VI e aceitação da autoridade do príncipe dom Pedro. Esse partidários tentaram, no dia 12 de junho de 1822 reconhecer a autoridade do príncipe na Câmara da cidade de Salvador, mas houve bloqueio das tropas portuguesas e a reunião foi proibida. Dois dias depois, em Santo Amaro reuniram-se diversas pessoas e a Câmara decidiu "Que haja no Brazil hum centro de Poder Executivo; que este Poder seja exercido por sua Alteza Real e Príncipe Regente".

A partir desse momento, é possível encontrar uma sequencia de preparativos em reconhecimento da autoridade do príncipe dom Pedro. No dia 24, em Belém, Cachoeira houve uma reunião secreta. O ato seguinte, no dia 25 de junho, foi a oficialização na Câmara de Cachoeira que decidiu aclamar S.A.R. por regente e Perpétuo defensor e protetor do Reino do Brasil. Foi lavrada a ata e quando celebravam o Te Deum a escuna canhoneira enviada por Madeira de Melo disparou o primeiro tiro contra a vila.

No dia 26 de junho, formou-se a primeira junta Interina, Conciliatória e de Defesa e nela Antônio Pereira Rebouças, maragogipano, já se fazia presente. Enviou-se mensageiros para todas as vilas e povoações para informa-lhes a aclamação do príncipe e as hostilidades portuguesas já declaradas pela escuna canhoneira. Neste mesmo dia, a Câmara de Maragogipe já ciente dos atos de hostilidades decidiu que "No reino do Brazil deve residir hum único Centro de Poder Executivo na Pessoa do Príncipe Real" (TAVARES, cap. XVI do livro História da Bahia) e como mostra o documento abaixo. Que demonstra inclusive, a insatisfação dos maragogipanos e o desejo de separação da vila de Jaguaripe, institui diversos artigos a serem colocados em prática pelo príncipe Regente e exige a retirada das hostilidades portuguesas e outros pontos mais. Leiam documento abaixo, depositado no site objdigital, nº 108 (Clique aqui para visualizá-lo completo):



No dia 29 de junho de 1822, os diversos representantes das vilas enviaram documento à Câmara da vila de Cachoeira propondo a ampliação das atribuições da Junta e se transformassem em governo militar e civil legítimo para todas as vilas do Recôncavo e neste dia aclamaram dom Pedro como regente constitucional do Brasil as Câmara de São Francisco do Conde e Santo Amaro.

O que o Blog Vapor de Cachoeira fez foi com base nos documentos que dispunha em mãos, colocar Maragogipe em evidência no dia 29, acontece que o documento reproduzido no blog, e depositado no site objdigital, nº 109 (Clique aqui para visualizar o documento completo) descreve:

  1. um pedido da Câmara de Maragogipe, e não o contrário, para que a Câmara da vila de Cachoeira aderisse ao pedido de aclamação do príncipe regente. E como todos já sabem, o mesmo já tinha ocorrido no dia 24 em reunião secreta e no dia 25 na Câmara de Cachoeira, em que se instalou a primeira junta a qual esse pedido foi anexado.
  2. ainda com referência a primeira ata, (perceba que o Blog Vapor de Cachoeira reproduz duas atas que estão localizadas na Gazeta do Rio, nº 109) a Câmara diz: "e por este foi dito que as instâncias do povo desta vila tinhão, e vinhão a requerer que se fizesse vereação, para o fim de que com a assistencia deste Senado se aclamasse S.A.R. o senhor príncipe D. Pedro Regente e Perpétuo defensor e Protetor do Brasil, na forma já aclamado no Rio de Janeiro". Perceba a marcação em vermelho, e leia bem, tinhão, e vinhão. Ou seja, a Câmara Maragogipana tinha tomado sua decisão antes do acontecimento e requeria que a Câmara de Cachoeira tomasse uma decisão, já tomada, claro e óbvio.
  3. a segunda ata, é novo pedido da Câmara de Maragogipe, e do povo presente na praça pública que se faça uma junta conciliatória de defesa para cuidar dos habitantes destas terras.
Percebe-se portanto, com a leitura dos dois documentos, apesar desta postagem só citar um, o outro está redirecionado. Que é a Câmara de Maragogipe que requereu da Câmara de Cachoeira uma tomada de decisão, acontece que naqueles tempos, a demora na entrega de documentos, faz com que decisões tomadas por um, choquem-se com as tomados por outra cidade, sendo assim, houve quase que simultaneamente o pedido entre Maragogipe e Cachoeira, o primeiro com um certo atraso, mas a sua importância foi tanta que ficou registrado nos autos da Gazeta do Rio (Clique aqui para visualizar todos os jornais do acervo digital do jornal Carioca de 1822)

Sendo assim, é no dia 26 de junho e não no dia 29 que Maragogipe aderiu a independência, exigindo inclusive, o fim das hostilidades portuguesas que já vinham bem antes do dia 25 de junho em Cachoeira.


Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Professor de História e estudante de história da UFRB
Especializando-se em História Reginal, 
focando seus estudos na cidade de Maragogipe

segunda-feira, 12 de abril de 2010

I Colóquio Regional de História Colonial

Fonte: UFRB

Os estudos acerca do período colonial têm sido gradativamente objeto de pesquisas e reflexões nas universidades públicas baianas. Com o objetivo de promover um maior estreitamento dos laços entre os pesquisadores dessas instituições e uma maior divulgação dos estudos que envolvam esta temática, será realizado nos dias 29 e 30 de Abril o I Colóquio Regional de História Colonial.

O Colóquio será realizado no Auditório do CAHL, veja abaixo a programação completa:




Programação:
1º dia – 29 de abril
09h00 – 09h30 – Abertura
09h30 – 11h30 – Mesa 1
História religiosa: práticas e instituições
Humberto José Fonseca (UESB) – Rituais da corte: ritualidade, sociabilidade e poder na América portuguesa
Evergton Sales Souza (UFBA) – As constituições primeiras do arcebispado da Bahia
Fabrício Lyrio Santos (UFRB) – As cartas de Nóbrega e a conversão do gentio
Camila Fernanda Guimarães Santiago (UFRB) – Produção, comércio e consumo de gravuras religiosas no mundo luso-brasileiro: incentivos e controle do Estado Português na segunda metade do século XVIII e início do XIX
Mediador: Leandro Antônio de Almeida (UFRB)

14h30 – 16h30 – Mesa 2
Modos de repressão no Império Colonial português
Roque Felipe Oliveira Filho (UESB) – Crimes e perdões na ordem jurídica colonial. Bahia (1750-1808)
Marco Antônio Nunes da Silva (UFRB) – A Bahia nos cadernos do Promotor: perspectivas de pesquisa
Grayce Bonfim Souza (UESB) – Pontas dos longos tentáculos: agentes do Santo Ofício português na Bahia setecentista
Suzana Severs (UNEB) – Relações de vizinhança: cotidiano da Bahia setecentista em processos inquisitoriais
Mediador: Antonio Liberac Cardoso (UFRB)

19h00 – Conferência I
Conferencista: Kalina Vanderlei Paiva da Silva (UPE)

2º dia – 30 de abril
09h00 – 11h00 – Mesa 3
Economia e relações de poder na América portuguesa
Caio Figueiredo Fernandes Adan (UEFS) – Soberania e territorialidade na América Portuguesa: a colonial comarca dos Ilhéus (1763-1808)
Luiz Antonio Araújo (UFRB) – Contratos, fiscalidade e comércio na Bahia (1641-1730): notas de pesquisa
Maria José Rapassi (UFBA) – Viver honradamente na Salvador do século XVIII
Avanete Pereira Sousa (UESB) – Poder, política e economia na Bahia colonial
Mediadora: Rita Almico (UFRB)

15h00 – 17h00 – Mesa 4
Escravidão e identidades afro-brasileiras
Adriana Dantas Reis Alves (UEFS) – Beleza negra, cultura sexual e escravidão
Carlos Eugênio Líbano Soares (UFBA) – Nações africanas na Bahia escravista
Lucilene Reginaldo (UEFS) – André Couto Godinho, preto, natural do Brasil, missionário no Congo: trânsitos atlânticos da “gente de cor” no Império Português (1779-1788)
Tânia Maria Pinto de Santana (UFRB) – Os negros e a devoção mariana na concepção do clero baiano colonial
Mediador: Walter Fraga (UFRB)


19h30 – Conferência II
Conferencista: Maria Hilda Baqueiro Paraíso (UFBA)

Comissão organizadora:
Marco Antônio Nunes da Silva (UFRB), Fabrício Lyrio Santos (UFRB), Tânia Maria Pinto de Santana (UFRB), Grayce Bonfim Souza (UESB) e Avanete Pereira Sousa (UESB).


domingo, 1 de junho de 2008

Análise da História Econômica através de Fragoso

Em seu texto, “Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil”, João Fragoso expõe a público que a sua avaliação sobre a história econômica nacional e internacional mudou um pouco. Ele dirá que “na época, apresentamos (Fragoso e Florentino, 1997: 27-43) um balanço bastante cético sobre os destinos das pesquisas neste campo.” (Fragoso, 2002: 1). Através de uma crítica avassaladora como ele mesmo diz, e em alguns casos injustamente, que foram feitas à “história serial francesa, os modismos da historiografia brasileira e, com eles, a redução brutal do número de investigações econômicas feitas nas pós-graduações.” (Fragoso, 2002: 1).

Realmente em seu primeiro texto feito em conjunto com Manolo Florentino eles estavam prevendo uma derrocada da história econômica, pelo simples fato da redução brutal do número de investigações econômicas. No entanto, eles buscaram fundamentar sua tese, através de variações percentuais, o que difere em muito das variações quantitativas de textos produzidos. O que eles não viram ou não quiseram ver neste momento é que o número de artigos produzidos de história econômica aumentou ou se manteve estável, não obstante o que se percebe, e eles têm razão nisso, é que havia “uma preocupação com a longa duração e a ênfase nas estruturas econômicos-sociais para a compreensão das sociedades, locus privilegiado até mesmo para a compreensão da política e da cultura.” (Fragoso e Florentino, 1997: 29) Completando o texto dizendo que “Do ponto de vista da praxeologia histórica, daí derivava a constante preocupação com a utilização de fontes propícias à quantificação e à seriação” (Fragoso e Florentino, 1997: 29). Percebe-se, portanto, uma forte influência da Escola dos Annales e da historiografia marxista.

O que Florentino e Fragoso sentiram foi o aparecimento contínuo de críticas ao modo como a história econômica abordava os conteúdos históricos e ao tipo de reflexão em meio ao qual era produzido. O que eles não queriam entender neste momento, é o surgimento de novos problemas, novos paradigmas, novos interesses que apareciam naquela sociedade e que a história econômica não tinha as ferramentas para tal explicação, contudo ele não concordará com esse fato.

O artigo de Fragoso “Para que serve a história econômica?” fará um rápido balanço das tendências recentes da história econômica nacional e internacional, em particular, das pesquisas sobre as sociedades pré-industriais. Em seguida, analisará a concentração de renda no Brasil contemporâneo e abordará as possíveis contribuições da história econômica para o entendimento desse fenômeno.

Nele ele irá perceber que “as críticas à história social e econômica feita na tradição de Labrousse (1933-1955) continuaram. Insiste-se em duvidar das investigações que procuram apreender as regularidades observáveis e, com isso, construir quadros explicativos. Acredita-se, ainda, que essa ‘decrépita’ abordagem deixaria os comportamentos e o acaso, isto é, a experiência social, de fora.” (Fragoso, 2002: 1). Para os críticos da história econômica, cujo eixo original são os Annales, a investigação quantitativa pode obscurecer ou distorcer os fatos, o que se percebe neste tipo de explicação é que “a vida real é largamente posta à margem e a visão de longo período pode gerar uma abstrata e homogeneizada história social desprovida de carne e sangue, e não convincente apesar de seu estatuto científico” (Fragoso e Florentino, 1997: 30). O que eles não percebem ou não queriam ver, segundo Fragoso é “que a apreensão de tais conflitos e solidariedades como características da vida dos grupos sociais pressupõe o estudo da regularidade daqueles fenômenos. Somente com isso seria possível elaborar teorias, explicar o porquê dos conflitos, e do acaso no ‘cotidiano’ dos grupos sociais” (Fragoso, 2002: 1). Com isso, Fragoso reforça o caráter crítico a história serial francesa feita no primeiro texto, e ainda pergunta-se sobre a utilidade da história serial nos dias atuais.

Traçando um rápido quadro explicativo sobre a historiografia brasileira e internacional, procurando revelar “as conseqüências interpretativas sobre as sociedades ultramarinas” (Fragoso, 2002: 5). Ele procurará revelar que a exclusão social no Brasil atual é resultado de uma série de políticas, mudanças sociais e econômicas que a sociedade brasileira escravista nos legou e que nós mantivemos e ampliamos com o término da estrutura escravista.

Na conclusão de seu texto Fragoso abordará as possíveis contribuições da história econômica para o entendimento desse fenômeno, constatando que “a permanência das fortes desigualdades sociais ao longo de quinhentos anos de Brasil é compreender que, nesses séculos, a sociedade brasileira viveu mudanças..., porém o fosso entre os mais ricos e os mais pobres permaneceu. Cabe, portanto, ao historiador, estudar os diferentes mecanismos – econômicos, culturais, etc. – que resultaram nesse fosso. E nisso a pesquisa econômica teria um papel decisivo, com suas séries de preços e faixas de fortuna.” (Fragoso, 2002: 19).

O que se percebe nestes dois textos é que apesar dele no início do segundo texto está se retratando vendo que foi injusto em certos pontos, ele continua defendendo a história econômica como forma explicativa da história. Uma mudança ocorrida foi a sua percepção que a história econômica não estava decadente como ele diz no primeiro artigo, mas ainda permanece, através da incorporação de novos métodos, resultado do embate com a história econômica e social, cujo eixo principal seria a escola dos Annales, sentindo-se, portanto capaz de poder explicar as variações que a sociedade traz. Um exemplo disso seria seu artigo sobre a exclusão social.

FRAGOSO, J. L. R. Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil. Revista de Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 29, p. 3-28, 2002.
FRAGOSO, J. L. R. & FLORENTINO, Manolo. “História Econômica”, em CARDOSO, Ciro & VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História. Rio de Janeiro, Campus, 1997.