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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

RESENHA: Movimento e pensamento operário antes de Marx, na obra de Osvaldo Coggiola

Por Zevaldo Sousa

Segundo Osvaldo Cogiolla “a classe operária moderna é o produto do desenvolvimento do modo de produção capitalista” (COGGIOLLA, p.7). Pra que essa classe fosse formada, precisou ter condições econômicas necessárias, para que, houvesse uma mudança nas formas de apropriação privada do trabalho. Essa mudança implicava na obrigação de trabalhar para outrem, ou seja, a essência do moderno sistema econômico do capitalismo é a compra/venda da força de trabalho em troca de um salário. Foi aproximadamente na segunda metade do século XVI e começo do XVII, que esse sistema nasceu e começou a crescer e se fixar. O crescimento decisivo desse sistema ocorrerá, a partir do século XVIII, quando a “Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, com a qual o capitalismo consolidaria seu domínio da produção e criaria as bases da sua expansão em escala mundial” (COGGIOLLA, p.11). Esse momento será transitório, de uma fase mais imatura e primitivo do capitalismo, para uma outra, em que, irá ser criada sua própria forma de produção, levando em conta a divisão do trabalho para o interior da fábrica. A partir desse momento, existirá a fábrica, o operário e os meios de produção.

As bases para a incorporação dos progressos técnicos à produção em larga escala só estariam lançadas quando além de tudo isso, a população começasse a crescer, e com a diminuição do índice de mortalidade infantil, controle de doenças epidêmicas, generalização de práticas higiênicas, etc. O sistema estaria definitivamente implantado.

É dentro das fábricas que surgem a nove classe social, a classe operária, submetida nesta fase inicial a esgotantes jornadas de trabalho” (COGGIOLLA, p.15). Michelle Perrot, irá dizer que, nesta fase, os donos estariam muito preocupados em combater o furto de matérias-primas e controle de qualidade de seus produtos. Várias regras surgiriam, ela citará três princípios básicos que regiam a organização de uma fábrica: O político, denotaria poder; o técnico, racionalidade na industria e por fim, a vigilância constante, tanto de pessoas, como de produtos. A fábrica precisa de regras, e regulamentos com proibições tanto para que a fábrica tivesse um bom funcionamento, quanto morais, evitando confusões, para isso, as penalidades não eram leves, e cada caso, tinha a sua especificidade na hora de punir.

A família aqui neste momento era fundamental, o chefe, segundo Perrot, era o próprio pai, pois se os empregados se revoltassem, estariam se revoltando contra seu próprio pai, e todos seriam punidos, era tudo ou nada, a união para não morrer de fome, levava todos da família a trabalhar. O paternalismo já estava se firmando, e grande parte dos funcionários queria esse sistema, mas este tinha seus problemas, e logo perderiam seu lugar. Até porque, leis contra o trabalho infantil, começariam a ser criadas.

Hobsbawn descreverá que a Revolução Industrial será o processo de transformação mais radical das condições de vida e afetará a todos os níveis da sociedade, inclusive a família. Serão homens e mulheres “livres” e despojados de toda posse, que seriam obrigados a trabalhar, vender sua força, transformando-se em operários modernos. Aliás, não somente homens e mulheres adultos, mais jovens e crianças, o que gerará uma grande quantidade de mão-de-obra, que levariam ao crescimento da indústria têxtil e metalúrgica. Há neste momento um processo de disciplinamento constante. Alguns trabalhadores ganharam certa autonomia, principalmente os metarlúrgicos, devido uma questão prática, que só era revelada para os seus filhos, como forma de mantê-los empregados, e também como forma de refrear a produção. Sendo assim, diversas leis começariam a ser criadas, para controlar essas classes “ditas” perigosas, havia uma preocupação com a subsistência dessas. A consolidação do sistema capitalista, dará com a absorção da mão-de-obra de reserva por parte das inovações tecnológicas, principalmente com construções de navios e estradas de ferro, que transformará esse operariado em fixo e hereditário.

Mas quando surgiu o movimento operário? E o que é movimento operário? Cogiolla cita palavras de Blanqui, revolucionário democrático francês, “É a profissão de 30 milhões de franceses que vivem do seu trabalho e são despojados de seus direitos públicos” (COGIOLLA, p.23). Aqui esse conceito aparecerá, no seu antigo sentido, no da república romana. Segundo Cogiolla, se seguirmos esse sentido, podemos estar de acordo com Thompson, que afirmará que: “a classe operária formou-se a si própria tanto quanto foi formada”. (COGGIOLA, p.23).

Segundo Cogiolla, “o erro desse autor foi enfatizar unilateralmente o primeiro termo (o “fazer-se” da classe operária), operando uma cisão improcedente entre a existência e a consciência da classe: “a experiência da classe é determinada pelas relações de produção nas quais os homens nasceram, ou entraram involutariamente.” (COGIOLLA, p. 23-4)

Tanto Perrot, como Cogiolla, irão enfatizar que foi no século XIX que surgiram rebeliões, greves, inclusive com destruição de fábricas, lutas. A situação tornaria insustentável e criou as possibilidades para o surgimento de movimentos trabalhistas e socialistas.

Marx irá dizer que os operários são a única potência social, devido o seu número, contudo a sua desorganização e desunião, é quem atrapalha no processo de modificação. Todavia esse processo mudaria, ao poucos, em 1838, foi lançado a Carta, também conhecida como cartismo, lançará pois, um programa democrático, organizando massas de trabalhadores. Em 1847, segundo Cogiolla “a primeira vitória histórica da classe operária foi produto de um movimento claramente político.” (COGIOLLA, p.36) eles conquistariam a jornada de 10 horas.

Em 1864, quando aconteceu a Primeira Internacional Operária, a questão do sufrágio universal, que já existia desde o cartismo, seria componente central dessa onda revolucionária. Já na Internacional Socialista ou Segunda Internacional, será a redução da jornada de trabalho, a grande campanha.

O pensamento operário, surgirá principalmente de duas correntes, o socialismo e o comunismo. O Socialismo “foi uma palavra para designar aqueles que acreditam na origem contratual de uma sociedade de homens livres e iguais” (COGIOLLA, p.39-40). Três utopistas surgiriam: Saint Simon, Fourier, e Owen, cada um buscará meios para resolver os problemas da sociedade, de maneiras diferenciadas, tendo como traço comum, agirem como representantes do operariado, que segundo Cogiolla, já haviam surgido como produto histórico.

O comunismo seria segundo Cogiolla, “a tendência radical das revoluções democráticas, caracterizada pelas suas propostas igualitárias.” (COGIOLLA, p.50). Engels, dirá que o comunismo “é um sistema segundo o qual a terra deve ser bem comum dos homens. Cada um deve trabalhar e produzir de acordo com as suas capacidades, e gozar e consumir de acordo com as suas forças” (COGIOLLA, p.51). O Socialismo segundo Marx e Engels, será a primeira fase do sistema comunista, essa é mais moderada.

Engels escreverá que a democracia é o comunismo e que essa se tornou em principio proletário, de massas. A Liga dos Justos, em 1847, lançará programa redigido por Marx e Engels, o Manifesto Comunista, “nascia assim como movimento político organizado e internacional.” (COGIOLLA, p.58)

Referências:
COGIOLLA, Osvaldo. “Movimento e pensamento operário antes de Marx”. Editora Brasiliense,1991.
PERROT, Michelle. “As três eras da disciplina industrial na França do século XIX”. In: Os Excluídos da História, operário, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1988

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Resenha do Livro: Introdução à História, de Marc Bloch

Por: Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa

Resenha

Referência Bibliográfica:
Estudo de Obra (Obra Completa) BLOCH, Marc. Introdução à História. Lisboa: Europa-América. S/d.

“Aprendendo a Convencer”


Este Livro inacabado é um ato completo de história.” (BLOCH: 2001,34), palavras de Jacques Le Goff no prefácio da Edição Francesa. Apesar de ser o primeiro livro sobre metodologia da história que li, este é um livro que muitos consideram como o melhor sobre o assunto já escrito, por sua amplitude e por pegar todas as pontas do guarda-chuva do trabalho do historiador. Perceba nas palavras de Bloch um pré-enuncio daquilo que, para ele parecia impossível, acabar com este livro. “... O que é inacabado se tende constantemente a ultrapassar-se, tem, para todo espírito ardoroso, por pouco que o seja, uma sedução que vale bem o êxito mais perfeito...” (P. 84).

A Segunda Guerra Mundial freou o desenvolvimento do debate que Marc Bloch propôs, pois ele morreu, deixando uma obra incompleta sobre a Teoria da História, que futuramente foi editada com o titulo de Apologia da história, ou ofício de historiador (2001). Buscando definir a utilidade da historia, este texto discute a complexidade do tempo histórico, as relações entre passado-presente, a construção do discurso e, principalmente, a exigência de uma ética da história do historiador. A História aparece como busca e escolha, não sendo o passado seu objeto: a idéia de que o passado como tal possa ser objeto de ciência é errada. O objeto da história, segundo Marc Bloch, é o fazer da história a ciência “dos homens, no tempo” (BLOCH: 2001,55).

É preciso entender a importância deste livro, seu discurso possui um caráter contemporâneo para a história, na época e nas circunstâncias em que foi criado, para isso nos perguntamos. Qual a sua importância para o ensino e a escrita da história na atualidade? Para você que está iniciando o curso de história, ou melhor, para você leitor desta resenha, para entender o que estou falando é necessário saber: Quem foi Marc Bloch?

Marc Léopold Benjamim Bloch foi historiador, fundador da Escola dos Annales com Lucien Febvre, que buscou contrapor a historiografia positivista, que privilegiava a análise política, propondo uma história: crítica, analítica e problematizadora, dando maior privilégio aos fatores, econômicos e sociais na história e cuja linha de estudos por sua vez influenciaria a Nova História e a História das Mentalidades. Eles concretizaram o projeto de publicar uma revista que oferecesse espaço para estes novos apontamentos: No primeiro momento da revista, são bastante claros os ataques aos especialistas simplistas e empiricistas. Tal revista sofre grande influência da escola Durkheimiana e também da geografia Vidaliana, entre outras. O que propiciou a Bloch, o estudo da história de uma forma bem peculiar, incrementando novos conceitos e paradigmas nas pesquisas. Fazendo isso o autor buscou ampliar largamente o diálogo da história com outras áreas do conhecimento (interdisciplinaridade), isso foi um fator essencial para a construção de uma nova história, isso foi fundamental para fazer uma História Total, mostrando que através de um objeto específico podemos fazer inter-relações com diversas áreas do conhecimento.

Ele participou das duas grandes guerras, e foi na segunda guerra que foi preso e onde escreveu Apologia da História, obra essa inacabada devido à sua morte. Ele é considerado o maior medievalista de todos os tempos. Como se não bastasse, foi um dos grandes responsáveis pelas inovações do pensamento histórico, defendendo o abandono de seqüências pouco úteis de nomes e datas e uma maior reflexão dos acontecimentos e seus fatores anteriores e posteriores. Seu último livro Uma Estranha Derrota, era uma avaliação da derrota francesa a partir da invasão alemã, Mas também foi “uma crítica muito lúcida das insuficiências, dos ocultamentos do discurso histórico dos Annales”(DOSSE: 1992,64-65)

Pois bem, como você pode ver Marc Bloch era engajado em tudo que propunha desde o seu ofício até á sua pátria. Ao escrever este livro na prisão ele propõe diversos assuntos que para ele precisam ser colocados em prática pelo historiador. Bloch faz da história uma história-problema e para isso ele fez este livro para a confirmação daquilo pensa e como nós percebemos parece que este livro foi uma espécie de despedida, um testamento legado para toda a humanidade que quer conhecer e buscar a verdade.

Este é um livro composto por uma guisa de dedicatória, uma introdução e cinco capítulos (o capítulo V - incompleto). Na guisa de dedicatória Marc Bloch agradece ao seu amigo Lucien Febvre por tudo o que passaram e como uma espécie de despedida dedica este livro a ele.

Na Introdução, Marc Bloch vai mostrar que, um historiador de verdade não deve seguir necessariamente seus mestres, mas criticá-los naquilo que achar necessário, deve ser sincero e mostra que o progresso dos estudos é feito com a contradição necessária entre as várias gerações de investigadores. A problematização da pergunta “Pai, diga-me lá para que serve a história”(p.75). É o que ele vai chamar de Legitimidade da História e vai ser a idéia principal para o desenvolvimento do livro.

Posso dizer que por motivos relevantes Bloch se opõe, ao escrever sobre livros e sobre autores sem ter uma fonte de pesquisa, não por ter sido ingênuo ao escrever sem querer saber o que estas pessoas escreviam ou falavam na verdade, mas ele faz um esforço sem comparação para se aproximar muito daquilo que essas pessoas defendiam. Mostra entre muitas coisas que: O trabalho do historiador é saber interrogar bem o seu passado; A mescla de memória com a História; Que a história pode ser uma distração, mas para escrevê-la devemos gostar do nosso ofício para isso, é necessário vocação; que o ser humano procura saber e não compreender, e que deve ser o contrário; Que a História não é, apenas, útil. Ela é legítima como ciência. Ciro Flamariom Cardoso mostra em seu livro “Uma introdução à História” que a história ainda está caminhando para ser ciência, pois, “a conquista do seu método ainda não está completa” (CARDOSO. 1981, 49). Este é um assunto muito debatido durante por muitos historiadores, creio eu que a História é ciência, pois não temos o que discutir quando colocarmos na balança o seu valor como disciplina e como fins políticos, religiosos, etc. Por Fim, Marc Bloch encerra esta introdução lamentando por não ter feito melhor o livro, o não acesso a nenhuma biblioteca ou seus livros, deixou o texto vazado, cheios de lacunas que ele ainda tinha a esperança de poder completar, assim ele escreveu esse texto só com o seu saber, somente com suas notas.

No capítulo um Marc Bloch vai tratar da História, os homens e o tempo, ele divide este capítulo em cinco partes. A primeira parte fala da opção do historiador onde fala da sociologia Durkheimiana e discute sobre os obstáculos existentes na pesquisa histórica. Na segunda parte ele fala da História e os homens onde critica a historiografia tradicional, que narram os grandes feitos, grandes homens e coloca a serviço da história à interdisciplinaridade. Na terceira parte, ele comenta o tempo histórico onde o historiador é definitivamente, influenciado pelo seu tempo, ou seja, pela sociedade em que vive, sendo impossível ser imparcial com a realidade a sua volta. A História é a ciência dos homens no tempo onde o historiador elabora sua pesquisa, de acordo com as preocupações e os interesses do seu quotidiano. Bloch chama a atenção a respeito da importância em saber a data exata dos acontecimentos históricos. Isso porque tal compreensão do tempo indica a respeito da realidade de cada sociedade. Segundo o autor, o tempo não é apenas uma seqüência de fatos. O tempo histórico é a capacidade de identificar-se com a historicidade. O conhecimento histórico, não é apenas uma causa linear, as coisas não são simplesmente causas e efeitos, pois são movimentos coletivos, jogos de interesses entre classes, porque a sociedade é muito mais complexa do que uma associação de fatos ao longo do tempo. Na parte quatro fala sobre “o ídolo das origens” o crédito que os historiadores dão as origens de um processo histórico, questionando essa idéia de mostrar que em muitas realidades históricas tal pressuposto é impalpável. Na quinta parte fala sobre o passado e o presente onde mostra que para o historiador entender o passado é preciso compreender o presente, pois há muita permanência na História, ou seja, aquilo que muda de forma mais lenta como, por exemplo, a cultura. O autor mostra que as sociedades não são iguais e por isso não basta estudar uma só. É necessário conhecer outras realidades para se ter uma noção mais completa. Isso é muito debatido e Collingwood concorda com Bloch neste sentido, para ele “O passado que o historiador estuda não é um passado morto, mas um passado que, em algum sentido, está ainda vivo no presente.” (CARR, 1999, 22), ou seja, estudamos o passado para compreender o presente.

No capítulo dois Marc Bloch vai tratar da observação histórica, ele divide este capítulo em três partes onde a primeira parte fala dos caracteres gerais da observação histórica que segundo Bloch a construção do passado, elaborado pelo historiador é geralmente feita através da observação de outros sujeitos. “Toda a narrativa de coisas vistas assenta, numa boa metade, em coisas vistas por outrem” (P. 104), ou seja, na observação histórica, o pesquisador remonta sua teoria, com base nos relatos e na percepção de alguns indivíduos. Também mostra que muitos vestígios históricos, proporcionam um contato direto com o passado um exemplo é a maioria dos testemunhos não-literários, e até mesmo a de uma grande parte das narrativas. Com isso o passado só poderá ser compreendido, através dos vestígios encontrados no presente. O passado é uno, sendo um fato verídico, contudo o entendimento desse modifica-se e é aperfeiçoado. Na segunda parte fala dos testemunhos, que para Bloch as fontes narrativas permanecem ainda com grande importância na investigação histórica, mas também os testemunhos que não tiveram a intenção de deixarem registros para posteridade. Aí entra a história-problema proposta por Bloch onde o especialista interroga suas fontes e mantém um verdadeiro diálogo entre elas, sendo este o primeiro passo para se fazer uma pesquisa histórica. Na terceira parte ele fala da transmissão dos testemunhos ele cita que é “Uma das tarefas mais difíceis do historiador é reunir os documentos de que pensa ter necessidade. Ser-lhe-ia difícil consegui-lo sem o socorro de diversos guias: inventários de arquivos ou de bibliotecas, catálogos de museus, repertórios bibliográficos de todas as espécies...” (P. 116). Esse é sem dúvida um trabalho árduo e desgastoso, mas apesar de algumas pessoas fazerem esse tipo de trabalho, ele não é valorizado, e muitas vezes não é nem publicado. Marc Bloch mostra que para se fazer este tipo de trabalho, os investigadores devem antecipadamente conhecer o que ira explorar, os documentos não são fáceis de achar, o técnico deve conhecer um pouco de tudo para poder encontra este tipo de documento e mais ainda ele deve saber interpretá-lo. Mas como bom historiador ele deve conquistar o público, deve seduzi-lo e para isso ele deve passar o seu conhecimento aos leitores. Fazendo que esses tenham o prazer da investigação, da análise profunda dos documentos, do saber interrogá-los. Afinal, como disse Bloch “O espetáculo da investigação, com os seus sucessos e seus revezes, raramente enfastia. A coisa passada é que provoca o tédio” (P. 118).

No capítulo três Marc Bloch vai tratar da crítica, ele divide este capítulo em três partes onde a primeira parte fala do Esboço de uma história do método crítico onde Bloch mostra que não se deve acreditar cegamente naquilo que as testemunhas dizem, pois, “nem todos os relatos são verídicos e os vestígios materiais podem ser também falsificados” (P. 122). Quando se busca regras para definir se o documento é falso ou verdadeiro, quando há dúvidas sobre a veracidade dos documentos e quando essa dúvida se tomou um jeito examinador, essas regras se enquadram à crítica do documento. Para isso o historiador deve saber indicar de onde o documento vem? Por que e por quem foi escrito? Seu valor para o seu tempo? E outras perguntas mais. Para Marc Bloch o modo correto de dizer se um documento é falso ou não, é perceber os anacronismos e outros detalhes de um documento. Na segunda parte ele mostra que existem duas formas de se verificar se um documento é falso ou não, a busca da mentira e do erro, é como ele disse “De todos os venenos capazes de viciar um documento, o mais virulento, é a impostura” (P. 130). Para Bloch, quando você pega um documento para analisar à sua veracidade, você deve antes de tudo ter um senso crítico para analisá-lo de forma correta, buscar nele a verdade e se o descobrir se esse for falso, deve se perguntar por que fizeram este documento? Qual o objetivo da criação dele? E outras.

Mas é verdade que também os testemunhos se enganam, esse é o momento de o historiador aproveitar para aplicar os conhecimentos da disciplina: a psicologia do testemunho. Ela é aplicada em casos cujo “... os erros iniciais da percepção correm sempre o risco de se confundir com os erros de memória, dessa fluida, dessa coleante memória, denunciada já por um dos nossos juristas” (P.137), o caso é que muitos testemunhos utilizaram à sua memória para contar fatos ocorridos e por ele vistos, mas que, por não terem sidos escritos literalmente no momento acontecido, ficam a mercê de erros de boa fé, mas erros históricos, que modificam o que ocorreu literalmente. Na terceira parte ele faz um ensaio de uma lógica do método crítico onde mostra como o método crítico é baseado em comparações, pela série de objetos, documentos e outros vestígios encontrados ao longo de uma série de escavações, achados e etc., analisamos o documento que está em nossa mão. Quando não podemos comparar, não podemos descrever o seu período, ou seja, não podemos contextualizar o documento. “... Na base de quase toda a crítica inscreve-se em trabalho de comparação” (P. 143). Por fim Bloch vai mostrar que a história tem o direito de contar que entre as suas glórias, já tem elaborado a sua técnica para entendimento do documento, o método crítico assim abriu um caminho novo para aquilo que é certo, verdadeiro e justo.

No capítulo quatro Bloch vai tratar da análise histórica, ele divide este capítulo em quatro partes onde a primeira parte inicia com um debate se a história deve julgar ou compreender? A analise histórica é um processo que começa com a compreensão. Marc Bloch diz “Uma palavra, em suma, domina e ilumina os nossos estudos: Compreender...” (P. 163), é através da compreensão e não do julgamento que o historiador deve analisar os fatos. Na segunda parte ele fala da diversidade dos fatos humanos à unidade das consciências onde aborda que não é só compreensão. Para se construir uma ciência é necessário duas coisas: Um homem e a matéria. A realidade humana, como a realidade física são muito complexas. Os documentos já são um recorte do passado, é preciso então o historiador escolher e separar os documentos que lhes são necessários, para em seguida, analisá-los. É claro o homem age sobre as coisas e vice-versa. É aí que entra o papel da ciência, ela “... só recompõe o real para melhor o poder observar, graças a um jogo de fogos cruzados cujos raios constantemente se combinam e se interpenetram...” (P. 167). É necessário a combinação de ciências para um melhor observar, a análise é complexa, e exige muito por parte do historiador, este tem seus limites e precisa de outros pensadores para lhe ajudar neste empreendimento.  Na terceira parte Bloch fala da nomenclatura que é ponto-chave do estudo do documento, evitar anacronismos é um detalhe importante para quem escreve História. Temos de nos preparar para um outro esforço no processo de análise, devemos distinguir as diversas instituições de determinadas épocas sem denegrir á sua imagem. Com tudo, Marc Bloch diz que um dia depois de uma série de entendimentos, poderemos afiná-la, pois ainda não temos um método para lidar com ela. Na quarta parte ele comenta que divisões cronológicas já são inseridas no contexto, é um conhecimento que o historiador deve saber antes de escrever. Que os vestígios históricos, já são um recorte do passado, pois, nós não temos como saber literalmente, como aconteceu os fatos, o que chega até nós só é, essas seleções que são transmitidas através de várias seleções consecutivas, e que devemos investigá-las. A historiografia que herdamos, conta a história não dos reinos, mais de reis e generais. O pensamento voltairiano influenciou a cabeça de muitos historiógrafos que propiciaram uma revolução no contexto histórico, passam então a inverter o modo como escreviam, em vez de escreverem apenas sobre reis e seus feitos, passaram a escrever muito mais sobre as classes mais baixas da sociedade, principalmente a arte, a literatura, a ciência que entraram nesse contexto devido a seus vários progressos. Outro ponto importante é o da periodicidade das gerações, não tem nada para se regular, existem em História gerações longas (civilizações) e curtas (fase, um período). Conclui-se que para classificarmos a história devemos levar em conta os recortes já feitos no passado e tentarmos aproximarmos estes dos outros recortes que não foram feitos nele. Com isso tentarei entender o passado através e aproximações, generalizações e outros meios.

No capítulo cinco não se sabe ao certo qual o título que ele daria No prefácio de Jacques Le Goff têm uma parte que diz “... sem dúvida teria sido sobre “a explicação em história”...”. Mas nós sabemos que Bloch foi uma das vítima de Klaus Barbie, fuzilado, calou-se um francês, mas não o francês que escreveu este livro e que entrou para História como a pessoa que conseguiu colocar num só livro. O melhor jeito de aplicar os conhecimentos de um historiador na prática, este é sem sombras de dúvidas, o melhor livro de metodologia feito e, serve inclusive, para quem está começando os estudos acadêmicos. É neste capítulo que Bloch fala somente da causa, ele queria escrever mais, não pôde. Quando Bloch fala da causa ele faz mais uma crítica ao positivismo que ele menciona “... pretendeu eliminar da ciência a idéia de causa...” (P. 191). Ele mostra também que as causas da história não é um problema de motivos. Para Bloch a monocausalidade deve ser refutada, ao se escrever História, devemos levar em conta uma multiplicidade de causas, e seus efeitos, isso é indiscutível. Por isso não devemos fazer que as causas sejam reduzidas sempre a um problema de motivos. Por fim, Marc Bloch, termina o texto numa frase que sem dúvidas é um resumo de tudo que ele falou sobre causas: “... Numa palavra, as causas, em História como de resto em qualquer outro domínio, não se postulam. Investigam-se” (P.195).

Em suma, posso dizer que este estudo sobre a obra de Bloch e os conhecimentos adquiridos com a experiência de outros autores, mostrou que um historiador deve saber convencer seu público, conquistá-lo, a História não é só ciência, ela também é arte, vida e conhecimento, ela completa o homem e o homem a completa, fazendo assim um jogo em que não há vencedores e sim os vencedores. Uma prova disso é que os historiadores não se contentam na primeira resposta, há sempre a necessidade de outras respostas, ou seja, a História se adequou a humanidade com o passar dos tempos, fazendo isso, ela progrediu e continua em progresso assim como a humanidade, ou seja, a vitória da humanidade o seu progresso é também o progresso da história, pois, se a história fosse uma ciência dura como a Matemática, a Física e a Química, ela seria uma disciplina de esquizofrênicos fazendo que se tornasse indispensável, mas devido sua maleabilidade ela é empolgante, irresistível e importantíssima para explicar e transformar o mundo em que vivemos.

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Bibliografia:
BLOCH, Marc. Apologia da História, ou o Ofício do Historiador, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2001
CARDOSO, Ciro Flamarion. Uma Introdução à História. São Paulo: Brasiliense, 1981.
CARR, E. Mallet. O que é história. São Paulo, Paz e Terra, 1999.
DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à nova história. São Paulo/Campinas, Ensaio/Ed. UNICAMP, 1992

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Revolução Iraniana foi uma revolução Islâmica?

Para fazer esse resumo sobre a Revolução Iraniana, trabalharemos com o décimo livro da Coleção Revoluções do Século 20 que é organizada e dirigida pela historiadora Emília Viotti da Costa. O livro intitulado Revolução Iraniana é escrito por Osvaldo Cogiolla que é graduado em História pela Universite de Paris VIII (1977) e em Economia também pela Universite de Paris VIII (1979). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e professor nos cursos de jornalismo e economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Essa coleção pretende montar um quadro amplo das revoluções contemporâneas e já conta com títulos: A Revolução Boliviana, A Revolução Salvadorenha, A Revolução Alemã, A Revolução Chinesa, A Revolução Cubana, A Revolução Guatemalteca, As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético, A Revolução Nicaragüense e A Revolução Vietnamita.

Todos os livros da coleção tem uma orientação marxista. Aborda muito bem o tema trabalhado e traz uma visão da revolução iraniana que ainda não tinha visto em lugar nenhum, demonstrando clareza e podendo ser usado, tanto como forma de instrução ou apenas de conhecimento sobre esse fato que marca a história. Devido a fácil linguagem, explicando cada momento e internacionalizando o acontecimento, demonstrando que a história de um lugar, não está sintetizada no mesmo, principalmente, no século XX, com todo esse contexto, industrialização, globalização, informatização e maior espaço de sociabilização dos acontecimentos por parte dos meios de comunicações.

A Revolução Iraniana foi, no final do ano de 1978, a primeira revolução televisionada ao vivo em um Irã espremido entre a autocracia, a corrupção e anseios modernizadores. O mundo assistia perplexo a um espetáculo surpreendente: as ruas das principais cidades do Irã eram inundadas por uma população enfurecida que exigia a saída do Xá Reza Pahlevi. (Veja abaixo o mapa interativo do Irã atual - Google Maps)


Além das intervenções russa e britânica, no começo do século XX, e posteriormente da norte-americana, Coggiola elenca os motivos que a população iraniana tinha para derrubar o regime comandado pelo Xá, entre eles, a vertiginosa desigualdade social, seu posicionamento frente a questões religiosas e a repressão selvagem levada a cabo pela polícia política, a Savak. No entanto, o que mais chama a atenção é como o processo é modificado quando a ação passa da burguesia nativa para o proletariado: na revolução passada em “tempo real” para o mundo, o povo que oferecia seu peito às balas era inspirado pelos ensinamentos de um personagem religioso do século VII, o profeta Maomé.

Entendo que a religião é a característica principal da revolução, mas sinto falta da mesma no livro de Osvaldo Cogiolla, não vejo um aprofundamento acerca da questão religiosa, que acredito que deveria ser melhor aproveitada. Vale ressaltar que o simples fato de termos um país, em que a maioria da população é islâmica, não fundamenta a tese de que uma revolução neste país tenha sido Islâmica, por mais que tenha se desejado a todo o custo uma República Islâmica. Devemos estar atentos aos processos que ocorreram antes mesmo da revolução. Acredito que antes deveria ter pelo menos um capítulo com algumas explicações básicas de como o Islã entrou naquele país, o que é xiismo, sunismo e o que representa suas respectivas seitas dentro do mundo islã, até como forma de explicar, exemplo o porque do Irã estar apoiando EUA e Israel na guerra do Yom-Kippur, em que a maioria dos países árabes apoiaram a invasão de Israel. O Irã é o país que tem a maior população islâmica (xiitas), e esses acreditam que somente os descendentes do genro de Maomé, Ali, com sua filha Fátima, podem governar. Cabe ressaltar que apenas 9% das pessoas que tem o islamismo por religião, são xiitas, enquanto que no Irã mais da metade da população é xiita. Essa é uma das explicações para essa união. Aliás o Irã, quer dominar a região, e é um ponto estratégico para os EUA, esses aliás estavam envolvidos diretamente, com a venda de armas e o comércio do petróleo.

Retirada de AFP
Vemos, pois, um povo tão agitado que quando o Xá Reza Pahlevi, toma decisão de tornar o Estado laico, ele não consegue enxergar, os sofrimentos de uma população que, além de sofrer, por causa da economia e dos mandos e desmandos políticos. Aliás, esse não fazia questão nenhuma de enxergar essa população, chegando ao ponto de perguntar ao chefe do Instituto Pesquisa Social de Teerã Elisam Narighi sobre as origens das agitações. Esse respondera que a origem estaria... no próprio Xá. Este ficou surpreso com a resposta, pois acreditava piamente, que ele iria dizer que eram comunistas, palestinos, americanos, Khomeini, ou qualquer outro. Isso significa dizer que o xá Reza Pahlevi, não estava nem aí, para a população, cada vez mais sem previsão de um futuro. Somente a religião, era seu aporte, o seu lugar.

Sendo assim, as diversas promessas de República Islâmica oferecidas, pelas cópias de fitas contrabandeadas, estavam iludindo toda uma população, inclusive sunita. O que estava por vir, ninguém esperava, nem mesmo os revolucionários. As várias ondas, as greves do operariado, me faz pensar naquilo que Marx dizia, e que o próprio Cogiolla em seu livro “Movimento e pensamento operário antes de Marx” citará “a única potência social que operários possuem é seu numero. Mas a quantidade é anulada pela desunião, que se engendra e se perpetua por uma concorrência inevitável” (COGIOLLA, 1991, p.31). Na primeira fase, essa frase se encaixaria muito bem, depois os rumos da revolução irão mudar e aí, não cabe dizer que é uma revolução islâmica, já que vários islâmicos estarão fora do processo, principalmente os curdos, que em sua maioria é sunita. As eleições marcadas para dezembro de 1979, mostraria que parte da população não queria o regime do Aiatolá Khomeini, mujahedeem, fedayin e frente nacional, boicotaram o plebiscito para a nova constituição, que colocava no parlamento, as minorias religiosas (cristãos, judeus e zoroastrisnos) e excluiria do processo os sunitas. É essa que é uma revolução islâmica?

A primeira fase da revolução é também uma parte importante do nosso questionamento. Cogiolla poderia dar também, mais ênfase ao papel dos grupos marxistas-leninistas Fedayin. O próprio citará que o “seu quartel-general era a Universidade de Teerã e foram eles, na verdade, os que tomaram a dianteira nos combates de rua. Também conquistaram posições entre os trabalhadores dos campos petrolíferos.” (COGIOLLA, 2008, p.83). O papel dos estudantes e dos professores da universidade de Teerã era tanto, que os xiitas, matariam depois da primeira fase, todos que se manifestassem contra o regime. A ação do Partido Republicano Iraniano, seria cruel contra todos aqueles que eram contra o regime que estava sendo implantado.

Retirada do Brasil Escola
Todo esse processo abriu o caminho para a ascensão do aiatolá Khomeini e alterou o equilíbrio no Oriente Médio, gerando resquícios em outros países como a Arábia Saudita. Coggiola chama atenção para as múltiplas raízes históricas e políticas que ficam ocultas quando a simplificação racionalista qualifica a revolução iraniana de islâmica, apresentando-a como um evento basicamente reacionário. Por isso, a necessidade também de se entender as contradições de um pais complexo, assim como uma visão geopolítica mais abrangente, oferecendo por fim um contraponto à atual visão apresentada na cruzada mundial contra o “terrorismo islâmico”.

Mostrar, também o papel da mídia e dos EUA no processo revolucionário e, logo depois dele, colocando todos os muçulmanos, árabes e islâmicos no mesmo saco, fazendo com que a maioria das pessoas olhe esses paises de maneira diferenciada, não conseguindo entender suas particularidades e ver que os principais agentes destruidores dessa cultura, e do modo como eles estão vendo o ocidente, foi a política aplicada, principalmente, pelos americanos.

Concluo, dizendo que este livro é muito importante para o entendimento da revolução iraniana, e depois da ditadura xiita, acredito que esse último conceito, está mais próximo da realidade esboçada na segunda fase.



Referências:
COGIOLLA, Osvaldo. A Revolução Iraniana. Editora UNESP, 2008. In: Revoluções do Século 20/Emília Viotti da Costa.
COGIOLLA, Osvaldo. Movimento e pensamento operário antes de Marx. Editora Brasiliense,1991.

domingo, 1 de junho de 2008

História: análise do passado e projeto social de Josep Fontana


Segundo Josep Fontana, para entender a formação da “nova história econômica” é preciso acompanhar uma dupla linha evolutiva. De um lado temos o reencontro da história econômica e da teoria econômica e de outro temos a crise da história progressista norte-americana pós-segunda guerra mundial. A partir de então Josep Fontana vai traçar essa dupla linha que se seguiu até a chamada “novíssima história econômica”.

Na sua primeira citação, Fontana irá referir-se a Simon Kuznets adepto da primeira linha, “ele propunha a necessidade de voltar à análise do crescimento econômico, esquecido pelos economistas marginalistas, que se haviam limitado aos problemas que propõe a explicação de um equilíbrio estático.” (p. 187). No final da Segunda Guerra, surge Gunnar Myrdal, Celso Furtado e W.W. Rostow que levaram um novo casamento da história e teoria, por causa das suas preocupações com os problemas do crescimento econômico. O primeiro procurou estudar os problemas econômicos no contexto demográfico, social e político; o segundo dedicou-se ao "enfoque histórico uma parte inteira da sua teoria e política do desenvolvimento econômico" (p. 188) e por fim, Rostow procurou desenvolver "uma espécie de modelo universal de crescimento, como arma de luta contra o marxismo" (p. 188). O autor fala que "mais além dessa utilização instrumental da história pelos economistas tem-se que assinalar um terreno de coincidência mais amplo, do que é um bom exemplo o economista norte-americano" (p. 188-9), Alexander Gerschenkron que escreveu "sobre os problemas metodológicos e filosóficos da História e fez afirmações explicitas sobre o valor do enfoque histórico para o estudo dos problemas econômicos" (p. 189).

Contudo, Josep Fontana falará que para melhor compreensão das razões que explicam o auge da "nova história econômica" tem que voltar-se para a segunda questão e para isso Fontana citará Frederick Jackson Turner que falará “do significado da fronteira na história norte-americana” (p. 189), para ele “a fronteira tornou possível que os imigrantes se americanizassem rapidamente e forjou o caráter do pioneiro: independente do resto do mundo, auto-suficiente, capaz de criar as suas próprias instituições à margem do governo central.” (p. 189). Turner seria, portanto um dos primeiros a utilizar da nova história econômica para firmar a ascensão da história progressista.

Nesta linha do progressismo houve uma tentativa de construir uma “interpretação econômica da história”. Tal será o caso de Edwin R.A. Seligman, segundo Fontana ele sustenta “que o fator econômico foi da maior importância na história” (p. 190), outro autor citado por Fontana é Charles A. Beard que defendeu uma interpretação econômica da constituição norte-americana. Para Fontana “a obra de Beard ficava numa posição equívoca, entre a sociologia política e um determinismo econômico grosseiro, que sustentava que ‘aquele que deixa as pressões econômicas fora da História, ou fora da discussão das questões políticas, está em perigo mortal de substituir a realidade por uma mitologia’” (p. 191).
Outros dois autores Alfred H. Conrad e John R. Meyer atacaram a “distinção que pretendia separar a História da teoria econômica e do que pode ser qualificado como ciência, em geral, assim como a tese de que o objeto da História é o único e individual, e mostravam que também o historiador ocupa-se da busca de nexos causais, usando algumas regras científicas semelhantes às de outras disciplinas” (p. 192). Esses dois autores utilizariam suas técnicas na investigação sobre a economia do escravismo no sul dos Estados Unidos. Segundo Fontana, Robert W Fogel faria um espetacular estudo na mesma linha de Conrad e Meyer em que irá por a “prova a tese de que a ferrovia tinha sido um elemento indispensável para o crescimento da economia norte-americana” (p. 193).

Uma outra questão que Fontana põe a amostra é o isolamento que a história econômica teve e seu desejo e tentativas de aproximação com o resto dos historiadores. Para isso ele falará do Journal Of Economic History e de Ralph W Hidy, além de Fogel e Engerman que produziriam um projeto que resultaria um livro chamado de Time on the cross que tinha o propósito de aproximar e em certo sentido “pertubar” o leitor, contudo este não foi o caso e na realidade ele limitou-se aos meios profissionais.

Fontana a partir de então resumirá os postulados que definem a metodologia da nova história econômica, para isso ele utilizará as palavras de Fogel “a sua ênfase sobre a medição e o reconhecimento da íntima relação que existe entre medição e teoria” (p. 195). A medição exigiria, portanto métodos matemáticos, enquanto a teoria conduziria o uso de modelos econométricos. Contudo o autor irá flar que “alguns de seus cultivadores quiseram fazer da nova história econômica uma mera disciplina auxiliar da teoria econômica” (p.196), alegando que a disciplina não teria capacidade de oferecer “uma visão global satisfatória da evolução social” (p. 196), porém isso não quer dizer que ela não contribuiu em nada para a questão, cabe ressaltar que não importa a orientação teórica do historiador, o que deve ser realçado é o seu papel no tratamento da aplicação de modelos econométricos à investigação histórico-econômica, resultando na melhor da hipóteses – e aqui vai depender de como o historiador e ou economicista eira tratar a fontes por ele estudadas -, um trabalho mais elaborado e detalhado.

O surgimento da novíssima história econômica irá marcar uma distinção entre a nova história econômica, a primeira procurou “explicar a totalidade da mudança social em termos de esquemas elementares de teoria econômica neo-clássica, resolveria o problema, ao permitir-se prescindir de contribuições externas à própria disciplina e oferecer-se, em contrapartida, como explicação universal que resolve todos os enigmas da evolução humana” (p. 199) e terá como exemplos citados por Fontana, Hartwell, Douglas C. North, Henri Lepage e outros.

FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. “A Reconstrução. II: A Nova História Econômica”. Trad. Luiz Roncari. Bauru, SP: EDUSC, 1998