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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Livro mostra realidade da cultura do tabaco no Recôncavo baiano

Salvador – Patrimônio histórico da Bahia, a cultura do fumo (ou tabaco) já não vive tempos áureos no estado. O setor enfrenta uma conjunção de fatores que impõem entraves ao seu desempenho, muito embora os charutos produzidos há quase 200 anos na região do Recôncavo estejam entre os melhores da América do Sul. Para se buscar a recuperação do segmento, é necessário investir em aspectos agrários, sociais e em inovação.

Uma nova visão da realidade da cultura e da indústria do tabaco e perspectivas para o futuro é a proposta do livro “Tabaco da Bahia”, de autoria do especialista Jean Baptiste Nardi, que será lançado nesta sexta-feira (dia 13), às 18 horas, na sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB).

Patrocinado pelo Sindicato da Indústria do Tabaco no Estado da Bahia (Sinditabaco), presidido por Odacir Tonelli Strada, o livro procura enfocar com olhar crítico a cadeia produtiva do fumo, procurando revelar as razões da decadência do setor na Bahia. De acordo com o autor, os limites do mercado de tabaco tipo Bahia e do charuto, as tarifas alfandegárias, as medidas não tarifárias e a política sanitária impostas por países compradores, contribuem para a crise atual do setor.

Jean Baptiste Nardi possui doutorado em Ciência Econômica pela Unicamp e é reconhecido como especialista na cadeia produtiva do fumo. No livro “Tabaco da Bahia” o autor observa que é “patente o desconhecimento da realidade da cultura e da indústria do fumo na Bahia e no Nordeste.”

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Documentos da Idade Média: Das três ordens ao comércio com a China

"Não há terra sem senhor nem senhor sem terra."

O período medieval foi um marco na história europeia que legou para a história mundial diversas relações econômicas, culturais, políticas, sociais e religiosas. É impossível deixar de falar na Idade Média na escola, pois o nosso cotidiano está marcado por usos e costumes do período como retratado no texto "Somos todos da Idade Média" de Hilário Franco Junior.

Com isso, iremos retratar através destes textos, dois momentos do período medieval com histórias contadas por quem viveu na época. O primeiro texto será de Adalberto, o Bispo de Laon escrito em plena Idade Média, descreve as três ordens ou estamentos da sociedade europeia centro-ocidental à época do apogeu do feudalismo: o clero, a nobreza e os camponeses. Leia:

Iluminura que representa as três ordens medievais
"A ordem eclesiástica forma um corpo só, mas a divisão da sociedade compreende três ordens. A lei humana distingue duas condições. O nobre e o não-livre não são governados por uma lei idêntica. Os nobres são os guerreiros, os protetores das igrejas. Defendem a todos os homens do povo, grandes e modestos, e também a si mesmos. A outra classe é a dos não-livres. Esta desgraçada raça nada possui sem sofrimento. Provisões, vestimentas são fornecidas para todos pelos não-livres, pois nenhum homem livre é capaz de viver sem eles. 

Por tanto a cidade de Deus, que se crê única, está dividida em três ordens: uns rezam, outros combatem e outros trabalham. Estas três ordens vivem juntas e não suportam uma separação. Os serviços de um permitem os trabalhos dos outros dois. Cada um, alternativamente, presta seu apoio a todos." 

ADALBERTO, bispo de Laon, na França, nos finais do século 10.
In: BOUTRUCHE, R. Señorio y Feudalismo. Madri: Sigilo Veintiuno, 1972.

O segundo texto tem datação aproximada de 1340, escrito por Francisco Balducci Pegolotti, que era um agente da família Bardis, banqueiros de Florença, que elaborou um manual para mercadores viajantes, demonstrando a existência de um comércio florescente. Neste documento, encontramos informações sobre o comércio com a China, entre elas a utilização de papel-moeda a importância de um dragomano (intérprete).


"Em primeiro lugar, deveis deixar a barba crescer e não vos barbeardes. E em Tana deveis contratar os serviços de um dragomano (intérprete). E não deveis tentar poupar dinheiro no que respeita a dragomanos escolhendo um mau em vez de um bom. Pois os honorários adicionais do bom não vos custarão tanto quanto poupareis por tê-lo. E além do dragomano será conveniente contratar pelo menos dois bons criados conhecedores da língua cumana. E se o mercardor gostar de levar uma mulher com ele de Tana, pode fazê-lo; se não gostar de levar, não será a tal obrigado, mas levando-a será tratado muito mais confortavelmente do que não a levando. Não obstante, se a levar, será conveniente que ela conheça a língua cumana, como os homens. [...]"
"Toda a quantidade de prata que os mercadores levarem com eles até Catai, o senhor de Catai lhes tirará e guardará no seu tesouro. E aos mercadores que assim levam prata dão aquele dinheiro de papel deles em troca. Este é de papel amarelo, com o selo do senhor atrás mencionado. E chama-se dinheiro; e com este dinheiro podeis comprar sem dificuldade seda e outra mercadoria que tiverdes desejo de comprar. E todas as pessoas do país são obrigadas a recebê-lo. E não pagareis um preço mais elevado pelas vossas mercadorias por o vosso dinheiro ser de papel. [...]"
"(E não esqueçais que se tratardes os funcionários de casa da alfândega com respeito e lhes oferecerdes um presente qualquer em mercadorias ou dinheiro, assim como aos seus empregados e dragomanos, eles se comportarão com grande civilidade e estarão sempre dispostos a avaliar os vossos produtos abaixo do seu valor real.)"

PEGOLOTTI, Francisco Baldussi. IN: BOORSTIN, Daniel J. Os descobridores: de como o homem procurou conhecer-se a si mesmo e ao mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989. p.137.

Um site interessante em que você poderá visualizar vários documentos antigos e medievais é Idade Média, mantido por Ricardo Costa.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fichamento: A guerra civil americana: a última revolução capitalista de Barrington Moore


Por Zevaldo Sousa

MOORE Jr., Barrington. “A guerra civil americana: a última revolução capitalista”. In: As origens sociais da ditadura e da democracia, 1913; Tradução de Maria Ludovina F. Couto. São Paulo, Martins Fontes, 1983.

Barrington Morre Jr. é considerado o precursor da sociologia histórica comparada. Em seu livro As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, Senhores e Camponeses na Construção do Mundo Moderno, ele desenvolve um nexo entre democracia e liberdade nas sociedades que entraram para a modernidade através de grandes rupturas revolucionárias ou de padrões de acomodação de uma ordem conservadora da propriedade rural.

O autor começa seu texto, falando das diferenças da sociedade americana e da sociedade européia, como forma de explicar que nos Estados Unidos da América, não houve uma Revolução, como na Inglaterra (Puritana) e na França (Francesa). Que a moderna democracia capitalista começa tardiamente e que os Estados Unidos não tiveram problemas para desmantelar uma sociedade agrária complexa.

A guerra civil americana é uma guerra que cindia a nação, entre as classes comerciantes e industriais do norte liberal, contra o sul escravocrata. A escravidão era o ponto de divergência que obstaculizava a unidade nacional. Do sul escravista vinha a maior parte dos integrantes das câmaras de representação, impondo um padrão conservador ao congresso.

Contrariando a visão tradicional, que considera “geralmente a Guerra Civil como um marco que dividiu violentamente as épocas agrárias e industrial da história americana.” (p. 116), o historiador Barrington Moore mostra que, apesar de divergentes, os dois sistemas econômicos foram desde a Independência complementares, sendo muito do desenvolvimento do capitalismo industrial devido aos lucros da economia agrária sulista. Se esses lucros eram provenientes de um sistema escravista e, ainda assim, beneficiavam a economia do Norte, nota-se que o escravismo não era o entrave econômico que anteriormente se via.

Por volta de 1860, teremos três regiões diferenciadas, cada uma com suas especificidades próprias. Desenvolvendo-se a partir de sistemas distintos, mas que se completavam. O Norte, segundo Moore, tem uma economia industrial capitalista, e vê um rápido avanço no processo de industrialização da região, principalmente, na indústria têxtil. Tornando-se, portanto, competidor da Inglaterra no setor que colocou a Inglaterra, como principal agente da industrialização, através da Revolução Industrial e que vê no Sul, um consumidor dos seus produtos.

Em contraposição o Sul era baseado numa economia agrária escravista, tem como principal produto o algodão, produto esse que o norte tanto deseja, para alimentar suas indústrias, como o Sul tem uma ligação com a Inglaterra muito forte, torna-se portanto, alvo de embargos econômicos dos empresários nortistas, que pressionam o governo. Como é no Norte, segundo Moore que se têm os principais portos da região, o sul fica, em certo ponto relacionado com o Norte, não havendo portanto, grandes problemas.

Só que nesse momento, o Oeste começa a ganhar peso, lá se desenvolve uma economia agrária familiar, em que as terras são tomadas por agricultores livres. Sendo assim, essas terras são vista pelos trabalhadores, como um meio para conquistar sua terra, seu pedacinho de chão. Os empresários do Norte vêem uma oportunidade de ganhar com o Oeste, mercado para seus produtos, e o Sul vêem no Oeste mais uma oportunidade de ampliação de suas terras e culturas. Nessa batalha o Norte “vence” devido suas articulações.

Todavia, tanto o Norte, quanto o Sul, tinha receio de perder sua mão-de-obra para essa nova região. Os primeiros queriam a libertação dos escravos no Sul, para que não sofressem tanto com essa perda, que estava acontecendo. E o Sul, não queria perder sua mão-de-obra, escrava e que já estava sendo perdido, devido às intervenções do governo inglês no comércio e no tráfico de escravos, não ter escravidão numa sociedade estava, portanto, se tornando uma questão moral.

Sendo assim, temos o Norte produzindo os produtos que tanto o Sul e o Oeste queriam, protegendo-se cada vez mais. O Sul perderá importância para o Oeste, dependendo cada vez mais do Norte. Já o Oeste, nasce com dependência dos produtos e políticas nortistas.

Mesmo visto como questão moral, não havia no Norte uma total repulsa pela escravidão. A nova perspectiva de Moore vai além desses conflitos específicos para olhar as causas políticas da Guerra Civil.

Para esse historiador, a questão chave do conflito se dá quando o aparelho de política federal se vê obrigado a favorecer somente um dos sistemas, nesse caso, o sistema econômico do Norte. Tal obrigação decorre do rompimento do equilíbrio anterior a partir da entrada dos novos estados do Oeste. Num primeiro momento se manteve a proporção na representatividade dos modelos escravista e não escravista. Porém, a aproximação Norte e Oeste deslocou o eixo de prioridades governamentais, que acabaram por favorecer o sistema dessas áreas. Também foi colocada em questão a autonomia dos estados frente à federação, uma vez que os interesses gerais não eram os mesmos.

O papel do político moderno é um questionamento importante visualizado neste texto de Moore, para ele o “político moderno democrático é especialmente paradoxal, pelo menos superficialmente. Faz aquilo que faz, para que a maior parte das pessoas não tenha de preocupar-se com a política.” Isso me remeteu, ao nosso caso, bem atual até. Aqui no Brasil se age muito assim, e os políticos vão muito mais além, de fazer com que as pessoas fiquem sem se preocupar com a política, cria-se sistemas, meios para não se ter um discurso político entre a população, tornando-os analfabetos políticos, que na maioria das vezes, são também, analfabetos funcionais e outros termos mais.

Para Moore, os pontos principais que causaram, em última instância a guerra foram:
  1. Desenvolvimento de sistemas econômicos diferentes que levaram a civilizações diferentes (mas sempre capitalistas) com posições incompatíveis em relação à escravatura. (p. 144)
  2. A ligação entre o capitalismo do Norte e a agricultura do Oeste ajudou a tornar desnecessária, durante algum tempo, a coligação reacionária característica entre as elites urbanas e as proprietárias de terra e, portanto, o único compromisso que poderia ter evitado a guerra. (p. 144)
  3. O futuro do Oeste surgia incerto, de modo a tornar incerta a distribuição do poder central, intensificando e aumentando, assim, todas as causas de desconfiança e disputa.
  4. As principais forças de coesão da sociedade americana, embora estivessem se consolidando, eram ainda muito fracas.

Em relação ao Impulso Revolucionário, O autor falará que não houve um levante radical na Guerra Civil Americana, diferente das revoluções francesa e puritana, por dois motivos:
  1. A existência de terras no Oeste reduziu o potencial explosivo.
  2. faltavam os elementos para uma conflagração de camponeses.

O que se pode considerar como um impulso revolucionário, provém do Capitalismo do Norte, especificamente em grupos republicanos radicais, que fundiram seus ideais abolicionistas com interesses fabris.

Ao terminar a Guerra, a discussão será: o que fazer com os derrotados? Várias serão os questionamentos e possíveis soluções. Todavia, o questionamento mais importante será: O que fazer com os negros libertos? Esses apesar de terem tido um acesso a terra, um tempo depois, perderiam logo em seguida, devido a vários fatores, os direitos civis dessas pessoas não serão dados em sua totalidade. A democracia plena, que abrange toda população (se considerarmos que tal democracia realmente existe) é um feito somente do século XX, com suas exceções particulares. Mas suas bases foram, em certa medida, lançadas com a Guerra Civil. Conflito que, apesar de não tornar todos cidadãos, conseguiu fazer com que todas as pessoas tivessem igualdade na categoria de “livres”.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O fumo no recôncavo baiano e a pobreza

Victor Rocha é médico do Posto de Saude Familia de São Roque - Maragogipe BA

“Nas fábricas de charutos não havia trabalho (para homem). Ali quase só mulheres pálidas e macilentas [...] fabricavam charutos caros para fins de banquetes ministeriais [...] .Mas eis que elas saem e são tristes e cansadas. Elas vêm tontas daquele cheiro de fumo que já impregnou nelas, que está nas suas mãos, nos seus vestidos, nos seus corpos, nos seus sexos [...] passam silenciosas como se estivessem bêbadas [...] entram pelas ruas estreitas que já escurecem e rumam para os becos sem iluminação no fundo da cidade.

São [...] fábricas brancas que tomam quarteirões inteiros , onde operárias sofriam no trabalho minucioso e dedicado da produção dos charutos, enquanto, no hotel, por outro lado, os filhos dos donos das fábricas, que eram alemães, divertiam-se.”

Jubiabá – Jorge Amado

Em meados do século XIX, a guerra civil nos EUA e em Cuba geram oportunidades de concorrência internacional no mercado do fumo. Inicialmente fumo servia para troca por escravos na áfrica e confecção artesanal de charutos. Associado a estes conflitos nos principais produtores da folha de fumo, estavam os comerciantes de Bremen-alemanha, que concorriam com os comerciantes dos EUA e viram no Brasil a possibilidade de avançar.

Dentro de um contexto de aumento do consumo mundial (charutos), a Bahia desponta como grande produtora a partir desta parceria com os alemães de Bremen e hamburgo. No início do Sec. XX eram 60 milhoes de charutos produzidos no Brasil, grande parte na Bahia. A situação de recém abolida escravidão singular do brasil, tratamento “igual” para segmentos sociais desiguais, condicionou que agricultores ex-escravos meeiros, e pequenos produtores fossem mão de obra para esta aposta comercial alemã. Estes comerciantes tinham o exato conhecimento dos preços internacionais, lucratividade , etc; para regularem os preços.


Desta forma, os produtores rurais, fortemente constituidos por mulheres e crianças recebiam baixa remuneração, desconhecendo a magnitude dos lucros que viabilizavam no porto de Bremen. Aos poucos, pequenas fábricas são montadas para produzir charutos (a exemplo da Suerdick e CIA, dentre vários outros). Cruz das almas se destaca pela produção fumageira agrícola e Maragogipe pela presença de fábrica suerdick e co e pela saída ao mar, através do rio Paraguaçu. Como se vê, tratavam-se de relações pre-capitalistas, onde o setor agrário era um anexo do setor comercial, não chegando a se constituir uma elite agrária voltada ao fumo. Os comerciantes baianos tem papel secundário.

Riqueza em Bremen e fome na Bahia, é a consequencia direta da produção do fumo baiano. Em 1924, um grande truste anglo americado chamado British-american tabaco co. Chega à Bahia e rapidamente leva os concorrentes baianos e alemães à falência. Os alemães ainda ficam com a exportação de fumo e fabricação de charutos, mas este produto já tinha entrado em desuso com o advento do cigarro. O Cigarro advem de produção industrial, por tanto, maior lucrativadade e potencial de distribuição. O Brasil não acompanha a mudança da preferência mundial pelo cigarro, e hoje só são produzidos 3 milhões de charutos, dos 60 mi do início do seculo XX. Em 1930, a Bahia, já sem a conexão alemã, perde a liderança no fumo para o Rio Grande do Sul e o Cacau surge como principal produto, produzido ao sul do estado.

A região do recôncavo hoje ainda padece de grande pobreza, o que foi agravada com o fim do ciclo do fumo. Cruz das Almas, por ser uma cidade passsagem para a BR 101 tem maiores potenciais no comércio do que Maragogipe, que fica expremida entre uma BA em regular estado de conservação e uma saída ao mar atualmente com pouco uso, seja para turismo seja para escoamento de produções. Discutir alternativas econômicas com enfoque na distribuição efetiva de renda é um desafio para a saúde das pessoas.

A construção do Estaleiro de São Roque, prevendo a construção de plataformas da Petrobrás (P 59 e P60), lança no ar qual seria esse desenvolvimento como pergunta já feita e repondida na contrução no novo plano diretor, por várias mãos. Resta fazer valer.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Feira do Caijá, uma feira de saveiros e de tudo que você imaginar


Uma fileira de 20 saveiros de vários calados, aguardavam a maré cheia para levantarem suas velas em direção a salvador, enquanto os mestres orientavam os estivadores no embarque de farinha, frutas, cerâmica, legumes, a produção do recôncavo baiano.

Esta feira que era antigamente dia de sexta-feira e passou para dia de quinta-feira nas suas primeiras horas em todas as semanas e o prédio do mercado municipal Alexandre Alves Peixoto, uma construção de 1959, ficava cheia de gente, mercadores de todos os tipos, velhos lobos do mar e biscateiros de toda parte. Era a Feira do Cajá, em Maragogipe, Bahia.


Um dos pontos que abasteciam os saveiros que levavam o de comer e beber do Recôncavo para a Feira de São Joaquim, em Salvador, por volta de uma hora da tarde os saveiristas já começavam a pensar em partir. Se o vento estivesse bom, ás 10 horas da noite estariam em Salvador. Se o tempo estivesse bom, sem ameaças de temporal, você poderia voltar a Salvador de saveiro, vindo de Maragogipe. Bastava uma permissão da capitania dos portos, em Maragogipe, agência orientadora e protetora dos direitos do povo do mar.

Desta forma você poderia viajar sobre a carga de saveiros como o vendaval, do mestre Nute e Daniel, ou o paraíso com cacau e frutos dourando o sol. Podia velejar ouvindo o barulho das ondas da baía de todos os santos, ou desfrutarem dos cantos de passarinhos nas gaiolas levava o saveiro tudo com deus. Carroças puxadas por bois e ao fundo os mastros do filho do sol e do capricho do destino. Pescadores arrastando a rede no braço do Paraguaçu e macaxeiras (aipim, mandioca) embarcando no Camacan e no Navegante Feliz. Milho verde para o Bom Jesus, quiabos e maxixe para o quero ver. Alto falantes com repertório rural, o rio novo, tupy no cais. Assim era a feira do cajá. Uma feira de saveiros e de tudo que você imaginar.

Viver bahia/. Publicado em 21 /12/1975

sábado, 30 de julho de 2011

Pequeno Histórico do Distrito de Guapira, em Maragogipe


Coordenadas: 12°44'7.59"S/ 39° 4'41.01"O

Povoados: Oitizero; Palmar/São Roque do Cumbe; Palmar de Cima; Batatan de Baixo (Serraria 2).

Histórico:
Dos pouquíssimos documentos encontrados sobre o distrito de Guapira, alguns trazem uma característica particular. Esse distrito sempre teve sua economia voltada para produtos de primeira necessidade. Em 29 de maio de 1880, pela lei provincial de no 1953 foi criado o distrito sob denominação de Caveiras. Acontece que em 30 de novembro de 1938, pelo decreto estadual no 11089, o distrito de Caveiras passa a ser chamado de Guapira e assim permanece até nossos dias. Os motivos da troca tão repentina de nomes, ainda não foram encontrados. Pois, na história do município nada foi encontrado sob essa denominação atual. Aliás, a história do distrito precisa ser melhor analisada devido ao pouco conhecimento que se tem de documentos, um pouco de história oral caberia bem para resolver esse problema, ou pelo menos, uma parte dele.

O seu potencial agrícola é conhecido desde o início do século XIX e até hoje, o distrito, que na época chamava-se Caveiras, dedicava especial importância a esse tipo de produção. Em um documento encontrado, registra-se uma sessão da Câmara de Vereadores do dia 20 de março de 1839, por exemplo, os juízes de paz (que eram eleitos na própria vila) de Caveiras, assim como Nagé, Coqueiro, São Felipe, Capela do Almeida e de Maragogipe, reuniram para ouvir ordenação e publicação de manual para melhor aproveitamento racional da agricultura.

A economia da vila foi centralizada na produção de farinha de mandioca, assim como em outros distritos. Maragogipe sempre foi obrigado a produzir o que a capital baiana queria, de acordo com os interesses também, de cachoeiranos e santamarenses. Nenhum investimento foi feito na região, até 1982, quando foi registrada uma casa de farinha modernizada, em Batatã, fundada através de financiamento do Banco do Brasil. O processo era automatizado através de quatro máquinas: duas para torrar, uma para cevar e um moedor. A produção aumentou dez vezes com relação à casa de farinha rudimentar. Essa farinha produzida no distrito abastecia encomendas de supermercados em Candeias e da CEASA.

A religiosidade do distrito de Guapira é marcada por dois momentos especiais, como a maioria dos seus habitantes são católicos, percebemos a devoção a Nossa Senhora de Santana e ao Deus Menino, todos dois na vila Guapira.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

sábado, 23 de julho de 2011

A história da Suerdieck, Epopéia do Gigante, por Ubaldo Marques Porto Filho

Discurso de Ubaldo Marques Porto Filho na Câmara - Maragojipe e a Suerdieck


A Suerdieck não parou mais de crescer. Foi então idealizado um novo prédio, edificado em 1920, pelo engenheiro Emílio Odebrecht, pioneiro das construções de cimento armado na Bahia. A interligação da fábrica nova com a antiga, separadas pela Rua das Flores, fez-se através de uma passarela de concreto, uma novidade em Maragojipe.

Mas essa novidade custou muito caro ao prefeito Elpídio da Paz Guerreiro, que sofreu uma campanha popular muito forte, por ter permitido a construção da “ponte da Suerdieck”, como o povo passou a chamar a passarela. É que o povo da zona rural acreditava numa crendice popular que assegurava dar azar a quem passasse por baixo de pontes. E durante muitos anos, os produtores que traziam produtos de suas roças, para vender na feira livre semanal, fizeram um longo rodeamento para evitar a “ponte da Suerdieck”.


Em 1928, a Vieira de Mello & Companhia, primeira fabricante de charutos em Maragojipe, foi arrendada à Suerdieck, que em 1942 comprou todas as instalações. Em 1949, ao comprar o acervo da Dannemann em Maragojipe, a Suerdieck passou a ser a única fabricante de charutos no município e emergiu como a maior produtora de charutos nacionais.

A Suerdieck tornou-se uma gigante, sendo a maior produtora mundial de charutos artesanais e Maragojipe a dona da maior fábrica de charutos do mundo. Na fase desse apogeu, Maragojipe muito se beneficiou do império charuteiro, por onde gravitava cerca de 80% da economia municipal. Somente na cidade de Maragojipe, a Suerdieck chegou a ter 2.052 empregados, fora a mão-de-obra temporária.

Como estava totalmente dependente da Suerdieck, a cidade sofreu muito quando adveio a grande crise de 1970, que quase provocou a falência da empresa. Maragojipe também entrou em período de grave crise socioeconômica. O ano de 1970, que marca o fim de um império charuteiro, registra igualmente o início do fim das riquezas geradas pela Suerdieck e o início de um processo que foi retirando de Maragojipe a condição de cidade símbolo dos charutos brasileiros, muito divulgada e conhecida no exterior, entre milhares e milhares de consumidores dos charutos Suerdieck espalhados por cinco continentes.

Mas todos os que aqui se encontram devem estar querendo saber quem sou eu, um não-maragojipano que vem à Câmara Municipal para falar da maior empresa que esta cidade teve em toda a sua história. Eu fui empregado da Suerdieck, onde trabalhei de agosto de 1965 até fevereiro de 1969, justamente no período final de um império formado por 16 empresas, que atuavam em todos os segmentos da escala produtiva: na cultura e beneficiamento do fumo, na confecção dos charutos, na produção das caixas de cedro e na distribuição dos charutos.


Das 16 empresas, quatro ficavam na Europa e uma, a Companhia Maragogipana de Eletricidade, foi a responsável pela chegada da energia elétrica, gerada na Usina de Bananeiras, até à fabrica de Maragojipe, um benefício que a Suerdieck logo estendeu para todas as casas comerciais e residenciais dessa cidade.

Fui admitido na Suerdieck aos 20 anos de idade, para trabalhar em seu escritório na sede de Salvador. Entrei como simples escriturário, e dentre as atribuições que me foram delegadas eu seria o responsável pelo balanço periódico de um depósito de charutos que ficava no subsolo do Edifício Suerdieck, a majestosa sede da empresa na Avenida Estados Unidos, no centro comercial e financeiro da capital baiana. Deram-me uma relação contendo o estoque do último balanço.

O diretor ao qual fiquei subordinado, senhor José Ruas Boureau, orientou-me dizendo: “Faça o balanço físico e devolva a lista assinada por você, atestando o que encontrou”. No depósito, na verdade uma enorme câmara frigorífica, cabiam milhares de caixas de charutos em tamanhos variados, de centenas de marcas. Após dois dias de contagem, a minha lista não bateu com a que havia recebido. A diferença era muito grande, indicativa de um desvio milionário. O senhor Boureau ficou atônito e não quis acreditar nos números encontrados por mim, com menos de trinta dias na empresa.

Fui obrigado a repetir o trabalho, desta vez acompanhado de um outro preposto da empresa. A nova contagem demonstrou que a primeira estava corretíssima. Levado o resultado ao conhecimento do presidente, senhor Geraldo Meyer Suerdieck, este determinou que a polícia fosse imediatamente acionada para descobrir o autor ou autores da fraude. As investigações chegaram a conclusão que os roubos de charutos vinham sendo praticados há cinco anos.

Agora, vejam vocês a potência que era a Suerdieck, pois o gigantismo dos números na produção dos charutos permitia manipulações sem que as fraudes fossem sentidas nos controles de produção das fábricas e saídas para as comercializações.

Com a descoberta e estancamento nos desvios, ganhei imediata projeção na empresa. Ganhei também um aumento no volume de serviços e virei controller estatístico, com a responsabilidade pela elaboração de uma estatística final, não apenas do depósito em Salvador, mas de toda a produção e vendas dos charutos, nos mercados nacional e internacional.

Enfim, fui transformado num empregado da confiança do alto escalão, passando a ter acesso direto ao Presidente. Passei inclusive a ter acesso aos dados confidenciais da empresa. Enfim, passei a conhecer as entranhas do gigante.

Passei inclusive a visitar com frequência as fábricas de charutos, para proceder os ajustes necessários aos novos controles determinados pelo Presidente, para possibilitar que ele tivesse balancetes de produção e vendas de charutos sem grande defasagens de tempo.

E dentro dessa nova missão na empresa, estive pela primeira vez em Maragojipe no final de 1965. Fiquei impressionado com o que vi. Era uma cidade dinâmica, rica e onde em cada esquina se respirava o ar da Suerdieck, o esteio da economia local.

Eu nunca havia pisado nessa cidade. Conhecia apenas a silueta de Maragojipe, vista à distância, de bordo dos navios da Bahiana, da linha Salvador-Cachoeira e vice-versa. Na minha adolescência, quando morei e estudei em Cachoeira, sempre viajava para passar os feriadões e as férias escolares de julho e do verão em Salvador, onde meu pai possuía uma casa, no bairro do Rio Vermelho.

O “Vapor de Cachoeira”, como era chamado pelo povo, fazia escalas nos portos de Maragojipe e São Roque, para desembarque e embarque de passageiros e cargas. Eram paradas rápidas e festivas, com o cais cheio de vendedores de peixe frito, milho assado, rolete de cana, frutas, doces, bolos e outras guloseimas. E nas paradas em Maragojipe eu não dispensava um sanduíche muito delicioso, de pão cacetinho com recheio de camarão cozido.

Tenho também a lembrança de que numa dessas viagens meu pai disse: “Temos um ancestral que nasceu em Maragojipe”. Tempos depois, consultando a árvore genealógica da nossa família, descobri que o ancestral maragojipano se chamava João Carlos Marques Porto. Nascido no dia 18 de julho de 1823, era filho do santamarense Manuel Marques de Souza Porto e da cachoeirana Maria Theodora das Virgens de Souza Porto, falecida em 12 de novembro de 1843, no Engenho Sinunga, de seu irmão, Manoel Maurício Coelho. Ela foi sepultada na Igreja Matriz de Maragojipe.

Depois de três anos e sete meses na Suerdieck, quando visitei Maragojipe diversas vezes, inclusive durante a Festa de São Bartolomeu, pedi demissão e fui cuidar dos estudos em tempo integral, na Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia.

Logo depois de formado, saiu o resultado do I Concurso Nacional de Turismo, certame promovido pela Embratur em 1970. Como obtive o primeiro lugar, senti-me no dever escrever um livro técnico, que denominei de “Turismo, Realidade Baiana e Nacional”. Para concluí-lo, levei cinco anos trabalhando, tendo viajado por todo o interior baiano. Estive em Maragojipe estudando o seu potencial turístico e dediquei-lhe um capítulo inteiro, o de número 17, onde relacionei sugestões para o desenvolvimento do turismo no município. O livro foi publicado em 1976.

Os analistas econômicos sabiam que a crise de 1970 na Suerdieck tinha sido o sinal de que o ciclo do fumo e dos charutos na Bahia estava chegando ao fim e que Maragojipe deveria procurar novos rumos para a sustentabilidade da sua economia.

E eu sabia que o turismo era uma das alternativas. Maragojipe tinha tudo para se transformar num centro de grande visitação, fundamentada em sua história, nos monumentos arquitetônicos, nos bens culturais, na história dos charutos e, sobretudo, em seus recursos naturais. Privilegiadamente localizada, num eixo fluvial navegável, Maragojipe possuía uma grande potencialidade náutica.

Infelizmente, Maragojipe encontra-se num Estado que nunca soube explorar os recursos turísticos dos municípios da Bacia do Paraguaçu, de forma organizada e empresarialmente falando. Se Maragojipe estivesse em qualquer país da Europa, ou nos Estados Unidos, a realidade seria outra. Não tenho nenhuma dúvida, Maragojipe seria hoje um grande centro turístico, visitada por milhares de turistas durante todos os meses. Está também provado e comprovado que o turismo é uma poderosa arma geradora de emprego e renda.

Digo isso com convicção profissional, de quem trabalhou durante três períodos na Bahiatursa, de quem foi gerente de marketing de produtos turísticos no Grupo Banco Econômico e de quem é autor de um segundo livro sobre turismo, “Bahia, Terra da Felicidade”, publicado em 2006.

Como administrador de empresas, trabalhei em diversas outras empresas importantes, sem jamais esquecer a Suerdieck, que foi uma escola no meu aprendizado prático. E prometi, a mim mesmo, que quando me aposentasse iria escrever a história da inesquecível Suerdieck, associada com a história da querida Maragojipe.

E foi o que fiz, a partir de 1997. Foram seis anos de trabalhos, pesquisando e entrevistando pessoas que trabalharam na Suerdieck. Nesse período, todo sábado pela manhã encontrava-me com o senhor Geraldo Meyer Suerdieck, o homem que comandou a Suerdieck durante 27 anos. O antigo “rei dos charutos” fraqueou-me o seu bem organizado arquivo de importantes documentos e contou tudo, inclusive os segredos profissionais, familiares e pessoais. O resultado foi o livro “Suerdieck, Epopéia do Gigante”.

Nascida em 1892, em Cruz das Almas, a Suerdieck agigantou-se em Maragojipe, a partir de julho de 1905, quando entrou na fabricação de charutos. Em novembro de 1992 fechou a sua grande fábrica nessa cidade e voltou a ficar restrita a Cruz das Almas, onde sete anos depois, em dezembro de 1999, encerrou totalmente suas atividades.

Toda a trajetória da Suerdieck, de 107 anos de vida, com 94 dedicados aos charutos e 87 com fábrica em Maragojipe, encontra-se no livro que há oito anos espera por um patrocínio para a sua impressão gráfica.

Em formato grande, o livro contém 400 páginas e tem como prefaciador o consagrado historiador Cid Teixeira, membro da Academia de Letras da Bahia. Conta também com uma apresentação de autoria de Mário Amerino Portugal, empresário do ramo de fumos e charutos e primeiro presidente da Câmara do Charuto da Bahia, que pôs o seguinte registro:
Além da excelência do conteúdo, que resgata a memória de uma das mais importantes empresas na história mundial dos charutos, o livro, que contém 611 citações de pessoas físicas, é também riquíssimo na programação visual. Encontra-se valorizado por 375 imagens e ilustrações contidas em vinhetas, mapas, tabelas e quadros.
Com tantas virtudes, a obra credencia-se a obter premiações nacionais e internacionais. E a primeira delas chega através da Câmara do Charuto da Bahia, que lhe confere um Selo de Qualidade Editorial.

Enfim, o livro “Suerdieck, Epopéia do Gigante” é também um retrato de Maragojipe, no período talvez da sua maior opulência econômica, em que teve a presença ativa da Suerdieck em sua vida.

Com recursos próprios, banquei todas as despesas na fase das pesquisas, quando realizei várias viagens pelos municípios da região fumageira do Recôncavo, onde ficavam os armazéns de fumo e as fábricas de charutos, localizadas em Maragojipe, Cruz das Almas e Cachoeira. Nessa fase das pesquisas contei com a inestimável colaboração de Bartolomeu Borges Paranhos, o mestre dos mestres charuteiros. Ele chefiou a fabricação de charutos em Maragojipe, sendo por décadas o responsável pela excelência da qualidade de todas as marcas.

Na crise de 1970, quando tudo parecia perdido, pois o Governo Federal prendia a liberação de um empréstimo salvador e a falência da Suerdieck parecia irreversível, Bartolomeu Paranhos, vereador de Maragojipe, apelou para dom Eugênio Sales, de quem era amigo e fornecedor de charutos da marca Florinha, a preferida do arcebispo de São Salvador da Bahia e primaz do Brasil.

Em nome do povo maragojipano, Paranhos foi pedir a intervenção de dom Eugênio, que em poucos dias teria um encontro com o Presidente da República. Em Brasília, o cardeal expôs a dramática situação da empresa e as sérias implicações de ordem social em Maragojipe, cuja economia dependia 80% da Suerdieck. O Presidente Médici, visivelmente contrariado com a notícia da demora na liberação do empréstimo, desabafou dizendo as seguintes palavras ao cardeal:

Num país onde se joga tanto dinheiro fora, essa questão não ficará engavetada!

Poucos dias depois, chegou de Brasília um telefonema solicitando a presença de Geraldo Suerdieck no Banco Central, para a assinatura do contrato do empréstimo que saiu imediatamente, por ordem expressa do Presidente da República.

Essa e muitas outras histórias reais estão registradas no livro em que também investi recursos próprios na sua editoração eletrônica, última etapa técnica antes da impressão gráfica. E para viabilizar essa parte final e mais onerosa, inscrevi o livro no Fazcultura, programa estadual de incentivo à cultura.

A obra foi muito elogiada e aprovada por unanimidade dos membros da comissão gerenciadora dos projetos. Porém, não foi possível obter a captação de recursos, uma vez que nenhuma empresa quis associar a sua imagem ao fumo, temendo os reflexos da vigorosa campanha movida pela sociedade civil contra os cigarros e charutos.

Eu já tinha perdido a esperança de ver o livro publicado quando conheci o maragojipano Luiz Carlos Flores Ramos, produtor cultural, que logo se interessou em tentar viabilizar a obra pelo próprio poder público de Maragojipe.

Em contrapartida, eu disse ao Luiz Flores que se ele conseguisse isso eu faria a doação de todo o valioso material da Suerdieck que se encontra em meu poder há mais de dez anos, entregue pelo senhor Geraldo Meyer Suerdieck, para compor um museu da Suerdieck aonde eu julgasse conveniente. Eu sempre quis atrelar a doação do acervo ao patrocínio do livro, pois as duas partes se complementam. Não devem ficar separadas.

Finalmente, após oito anos de concluído, surge agora a esperança concreta de que o livro será publicado pela Câmara Municipal de Maragojipe, que está reconhecendo o valor da obra no processo do resgate de parte da memória da antiga “Cidade das Palmeiras”.

E Maragojipe poderá também ganhar um museu com objetos, caixas de charutos, documentos, álbuns fotográficos e publicações sobre a empresa que esteve entre as mais famosas do mundo no setor de charutos e que sempre divulgou Maragojipe em todo o Brasil e no exterior, no tempo em que no nome da cidade figuravam duas letras g - Maragogipe.

A luz verde foi acesa quando recebi na minha residência, em Salvador, a honrosa visita da ilustre comitiva da Câmara Municipal de Maragojipe, liderada pelo seu Presidente, Themístocles Antônio Santos Guerreiro, e integrada por Antônio Jorge Cerqueira Malaquias, Vice-Presidente, Dércio Lima de Souza, 1º Secretário, Rosalvo Sicopira da Silva, 2º Secretário, e por Francisco Gomes da Silva Filho, Assessor Especial da Presidência. Foram conhecer o material que estou disponibilizando gratuitamente para a cidade de Maragojipe.

Eu concordo plenamente com o desejo do Presidente desta Egrégia Casa Legislativa, de que o histórico Paço Municipal, atual sede da Câmara Municipal de Maragojipe, é o melhor local para abrigar o valioso material da Suerdieck, que foi salvo da destruição pelo maragojipano Geraldo Meyer Suerdieck, que levou para casa o referido acervo, antes de entregar o comando da Suerdieck ao Grupo Melitta, em fevereiro de 1975.

O ciclo da Melitta na Suerdieck foi de 11 anos. Em 1986, a multinacional com sede na Alemanha repassou o controle acionário da Suerdieck à empresária alemã Gisela Huch Suerdieck, ex-esposa de Geraldo Meyer Suerdieck. Em mãos dela a fábrica de Maragogipe foi desativada em 1992 e a empresa teria um final triste sete anos depois, fechada por falência financeira.

Ao tempo em que me coloco à disposição, para quaisquer esclarecimentos adicionais, agradeço pela gentileza da atenção de todos.

Muito obrigado!



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Ubaldo Marques Porto Filho é escritor
e tem 14 livros publicados
umpf_ba@yahoo.com.br
ubaldo@acirv.org

domingo, 1 de junho de 2008

Análise da História Econômica através de Fragoso

Em seu texto, “Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil”, João Fragoso expõe a público que a sua avaliação sobre a história econômica nacional e internacional mudou um pouco. Ele dirá que “na época, apresentamos (Fragoso e Florentino, 1997: 27-43) um balanço bastante cético sobre os destinos das pesquisas neste campo.” (Fragoso, 2002: 1). Através de uma crítica avassaladora como ele mesmo diz, e em alguns casos injustamente, que foram feitas à “história serial francesa, os modismos da historiografia brasileira e, com eles, a redução brutal do número de investigações econômicas feitas nas pós-graduações.” (Fragoso, 2002: 1).

Realmente em seu primeiro texto feito em conjunto com Manolo Florentino eles estavam prevendo uma derrocada da história econômica, pelo simples fato da redução brutal do número de investigações econômicas. No entanto, eles buscaram fundamentar sua tese, através de variações percentuais, o que difere em muito das variações quantitativas de textos produzidos. O que eles não viram ou não quiseram ver neste momento é que o número de artigos produzidos de história econômica aumentou ou se manteve estável, não obstante o que se percebe, e eles têm razão nisso, é que havia “uma preocupação com a longa duração e a ênfase nas estruturas econômicos-sociais para a compreensão das sociedades, locus privilegiado até mesmo para a compreensão da política e da cultura.” (Fragoso e Florentino, 1997: 29) Completando o texto dizendo que “Do ponto de vista da praxeologia histórica, daí derivava a constante preocupação com a utilização de fontes propícias à quantificação e à seriação” (Fragoso e Florentino, 1997: 29). Percebe-se, portanto, uma forte influência da Escola dos Annales e da historiografia marxista.

O que Florentino e Fragoso sentiram foi o aparecimento contínuo de críticas ao modo como a história econômica abordava os conteúdos históricos e ao tipo de reflexão em meio ao qual era produzido. O que eles não queriam entender neste momento, é o surgimento de novos problemas, novos paradigmas, novos interesses que apareciam naquela sociedade e que a história econômica não tinha as ferramentas para tal explicação, contudo ele não concordará com esse fato.

O artigo de Fragoso “Para que serve a história econômica?” fará um rápido balanço das tendências recentes da história econômica nacional e internacional, em particular, das pesquisas sobre as sociedades pré-industriais. Em seguida, analisará a concentração de renda no Brasil contemporâneo e abordará as possíveis contribuições da história econômica para o entendimento desse fenômeno.

Nele ele irá perceber que “as críticas à história social e econômica feita na tradição de Labrousse (1933-1955) continuaram. Insiste-se em duvidar das investigações que procuram apreender as regularidades observáveis e, com isso, construir quadros explicativos. Acredita-se, ainda, que essa ‘decrépita’ abordagem deixaria os comportamentos e o acaso, isto é, a experiência social, de fora.” (Fragoso, 2002: 1). Para os críticos da história econômica, cujo eixo original são os Annales, a investigação quantitativa pode obscurecer ou distorcer os fatos, o que se percebe neste tipo de explicação é que “a vida real é largamente posta à margem e a visão de longo período pode gerar uma abstrata e homogeneizada história social desprovida de carne e sangue, e não convincente apesar de seu estatuto científico” (Fragoso e Florentino, 1997: 30). O que eles não percebem ou não queriam ver, segundo Fragoso é “que a apreensão de tais conflitos e solidariedades como características da vida dos grupos sociais pressupõe o estudo da regularidade daqueles fenômenos. Somente com isso seria possível elaborar teorias, explicar o porquê dos conflitos, e do acaso no ‘cotidiano’ dos grupos sociais” (Fragoso, 2002: 1). Com isso, Fragoso reforça o caráter crítico a história serial francesa feita no primeiro texto, e ainda pergunta-se sobre a utilidade da história serial nos dias atuais.

Traçando um rápido quadro explicativo sobre a historiografia brasileira e internacional, procurando revelar “as conseqüências interpretativas sobre as sociedades ultramarinas” (Fragoso, 2002: 5). Ele procurará revelar que a exclusão social no Brasil atual é resultado de uma série de políticas, mudanças sociais e econômicas que a sociedade brasileira escravista nos legou e que nós mantivemos e ampliamos com o término da estrutura escravista.

Na conclusão de seu texto Fragoso abordará as possíveis contribuições da história econômica para o entendimento desse fenômeno, constatando que “a permanência das fortes desigualdades sociais ao longo de quinhentos anos de Brasil é compreender que, nesses séculos, a sociedade brasileira viveu mudanças..., porém o fosso entre os mais ricos e os mais pobres permaneceu. Cabe, portanto, ao historiador, estudar os diferentes mecanismos – econômicos, culturais, etc. – que resultaram nesse fosso. E nisso a pesquisa econômica teria um papel decisivo, com suas séries de preços e faixas de fortuna.” (Fragoso, 2002: 19).

O que se percebe nestes dois textos é que apesar dele no início do segundo texto está se retratando vendo que foi injusto em certos pontos, ele continua defendendo a história econômica como forma explicativa da história. Uma mudança ocorrida foi a sua percepção que a história econômica não estava decadente como ele diz no primeiro artigo, mas ainda permanece, através da incorporação de novos métodos, resultado do embate com a história econômica e social, cujo eixo principal seria a escola dos Annales, sentindo-se, portanto capaz de poder explicar as variações que a sociedade traz. Um exemplo disso seria seu artigo sobre a exclusão social.

FRAGOSO, J. L. R. Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil. Revista de Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 29, p. 3-28, 2002.
FRAGOSO, J. L. R. & FLORENTINO, Manolo. “História Econômica”, em CARDOSO, Ciro & VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História. Rio de Janeiro, Campus, 1997.

História: análise do passado e projeto social de Josep Fontana


Segundo Josep Fontana, para entender a formação da “nova história econômica” é preciso acompanhar uma dupla linha evolutiva. De um lado temos o reencontro da história econômica e da teoria econômica e de outro temos a crise da história progressista norte-americana pós-segunda guerra mundial. A partir de então Josep Fontana vai traçar essa dupla linha que se seguiu até a chamada “novíssima história econômica”.

Na sua primeira citação, Fontana irá referir-se a Simon Kuznets adepto da primeira linha, “ele propunha a necessidade de voltar à análise do crescimento econômico, esquecido pelos economistas marginalistas, que se haviam limitado aos problemas que propõe a explicação de um equilíbrio estático.” (p. 187). No final da Segunda Guerra, surge Gunnar Myrdal, Celso Furtado e W.W. Rostow que levaram um novo casamento da história e teoria, por causa das suas preocupações com os problemas do crescimento econômico. O primeiro procurou estudar os problemas econômicos no contexto demográfico, social e político; o segundo dedicou-se ao "enfoque histórico uma parte inteira da sua teoria e política do desenvolvimento econômico" (p. 188) e por fim, Rostow procurou desenvolver "uma espécie de modelo universal de crescimento, como arma de luta contra o marxismo" (p. 188). O autor fala que "mais além dessa utilização instrumental da história pelos economistas tem-se que assinalar um terreno de coincidência mais amplo, do que é um bom exemplo o economista norte-americano" (p. 188-9), Alexander Gerschenkron que escreveu "sobre os problemas metodológicos e filosóficos da História e fez afirmações explicitas sobre o valor do enfoque histórico para o estudo dos problemas econômicos" (p. 189).

Contudo, Josep Fontana falará que para melhor compreensão das razões que explicam o auge da "nova história econômica" tem que voltar-se para a segunda questão e para isso Fontana citará Frederick Jackson Turner que falará “do significado da fronteira na história norte-americana” (p. 189), para ele “a fronteira tornou possível que os imigrantes se americanizassem rapidamente e forjou o caráter do pioneiro: independente do resto do mundo, auto-suficiente, capaz de criar as suas próprias instituições à margem do governo central.” (p. 189). Turner seria, portanto um dos primeiros a utilizar da nova história econômica para firmar a ascensão da história progressista.

Nesta linha do progressismo houve uma tentativa de construir uma “interpretação econômica da história”. Tal será o caso de Edwin R.A. Seligman, segundo Fontana ele sustenta “que o fator econômico foi da maior importância na história” (p. 190), outro autor citado por Fontana é Charles A. Beard que defendeu uma interpretação econômica da constituição norte-americana. Para Fontana “a obra de Beard ficava numa posição equívoca, entre a sociologia política e um determinismo econômico grosseiro, que sustentava que ‘aquele que deixa as pressões econômicas fora da História, ou fora da discussão das questões políticas, está em perigo mortal de substituir a realidade por uma mitologia’” (p. 191).
Outros dois autores Alfred H. Conrad e John R. Meyer atacaram a “distinção que pretendia separar a História da teoria econômica e do que pode ser qualificado como ciência, em geral, assim como a tese de que o objeto da História é o único e individual, e mostravam que também o historiador ocupa-se da busca de nexos causais, usando algumas regras científicas semelhantes às de outras disciplinas” (p. 192). Esses dois autores utilizariam suas técnicas na investigação sobre a economia do escravismo no sul dos Estados Unidos. Segundo Fontana, Robert W Fogel faria um espetacular estudo na mesma linha de Conrad e Meyer em que irá por a “prova a tese de que a ferrovia tinha sido um elemento indispensável para o crescimento da economia norte-americana” (p. 193).

Uma outra questão que Fontana põe a amostra é o isolamento que a história econômica teve e seu desejo e tentativas de aproximação com o resto dos historiadores. Para isso ele falará do Journal Of Economic History e de Ralph W Hidy, além de Fogel e Engerman que produziriam um projeto que resultaria um livro chamado de Time on the cross que tinha o propósito de aproximar e em certo sentido “pertubar” o leitor, contudo este não foi o caso e na realidade ele limitou-se aos meios profissionais.

Fontana a partir de então resumirá os postulados que definem a metodologia da nova história econômica, para isso ele utilizará as palavras de Fogel “a sua ênfase sobre a medição e o reconhecimento da íntima relação que existe entre medição e teoria” (p. 195). A medição exigiria, portanto métodos matemáticos, enquanto a teoria conduziria o uso de modelos econométricos. Contudo o autor irá flar que “alguns de seus cultivadores quiseram fazer da nova história econômica uma mera disciplina auxiliar da teoria econômica” (p.196), alegando que a disciplina não teria capacidade de oferecer “uma visão global satisfatória da evolução social” (p. 196), porém isso não quer dizer que ela não contribuiu em nada para a questão, cabe ressaltar que não importa a orientação teórica do historiador, o que deve ser realçado é o seu papel no tratamento da aplicação de modelos econométricos à investigação histórico-econômica, resultando na melhor da hipóteses – e aqui vai depender de como o historiador e ou economicista eira tratar a fontes por ele estudadas -, um trabalho mais elaborado e detalhado.

O surgimento da novíssima história econômica irá marcar uma distinção entre a nova história econômica, a primeira procurou “explicar a totalidade da mudança social em termos de esquemas elementares de teoria econômica neo-clássica, resolveria o problema, ao permitir-se prescindir de contribuições externas à própria disciplina e oferecer-se, em contrapartida, como explicação universal que resolve todos os enigmas da evolução humana” (p. 199) e terá como exemplos citados por Fontana, Hartwell, Douglas C. North, Henri Lepage e outros.

FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. “A Reconstrução. II: A Nova História Econômica”. Trad. Luiz Roncari. Bauru, SP: EDUSC, 1998