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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pequeno Histórico da Fábrica de Charutos Dannemann

Fundação: Segunda metade do século XIX
Fábrica: Dannemann
Procedência do Tabaco: Bahia - Brasil


Fundada na segunda metade do século XIX pelo alemão Gerhard Dannemann, a mais antiga fábrica de charutos do Brasil iniciou sua produção com apenas seis funcionários. Geraldo Dannemann - como passou a ser chamado - chegou ao País em 1873, quando comprou a então falida empresa de charutos Schnarrenbruch e mudou-se para São Félix, na região do Recôncavo Baiano.

A escolha baseou-se na conhecida qualidade dos fumos produzidas na Bahia. Nos primeiros anos de funcionamento, a empresa teve um espantoso crescimento, chegando a ser a maior produtora de charutos do País, além de uma importante exportadora, tendo na Europa seu principal mercado e na Alemanha, sua porta de entrada. Nesta época, seis fábricas da Dannemann empregavam cerca de 4 mil pessoas na Bahia.


Em 1906, Geraldo Dannemann saiu da empresa, mas só depois da I Guerra Mundial que começaram a surgir os primeiros problemas financeiros, quando a Europa já não tinha estrutura para ser um comprador tão bom. As dificuldades forçaram a fusão com a Stender, dando origem à Companhia de Charutos Dannemann, em 1922, um ano após a morte de Geraldo Dannemann. A II Guerra Mundial agravou os problemas na Europa e, conseqüentemente, as dificuldades da Dannemann.

O governo brasileiro, então, através do Banco do Brasil, responsabilizou-se pela empresa, que passou a se chamar Companhia Brasileira de Charutos Dannemann. Em 1945, ela foi devolvida a seus proprietários, mas não resistiu e acabou falindo nove anos depois. O grupo suíço Burger adquiriu a licença do nome Dannemann em 1976, e produz até hoje os charutos da marca, que não perdeu seu prestígio na Europa. Atualmente, a empresa produz os charutos Salvador, Menudo, Maduro, Especial, nº 1 e São Félix, além da linha Artist Line e as cigarrilhas Reynitas e Bahianos.


Charuto e Arte

Que o charuto é uma arte todos concordamos, que se pode gerar arte a partir dele já é uma novidade. Foi pensando nisto que o tradicional fabricante de charutos Dannemann localizado na cidade de São Félix, na Bahia, abriu as portas para a VI Bienal do Recôncavo no Centro Cultural Dannemann, no último dia 9 de novembro, reunindo artistas, turistas, admiradores de arte e imprensa.

Artistas do Brasil, Argentina e Holanda foram os responsáveis pela enorme quantidade de temas e formas artísticas expostas. Dos mais de dois mil inscritos, 119 artistas foram selecionados para concorrer aos prêmios. O júri foi composto pelos artistas plásticos Sérgio Rabinovitz e Justino Marinho, pelo fotografo Kabá Gaudenzi, pela crítica de arte Matilde Mattos além do presidente da Cia. Brasileira de Charutos Dannemann, Hans Leusen e o diretor do Centro Cultural Dannemann, Pedro Achanjo.

O Grande Prêmio Viagem à Europa foi para o artista plástico Florisvaldo Nascimento Filho, da cidade de Valença (Bahia), escolhido por unanimidade por suas duas obras, esculturas em madeira, metal e vidro, Articulando I e Articulando II. A viagem será para a Alemanha pelo período de um mês. Judite Pimentel de Feira de Santana (Bahia) e Georges Rechberger de Berna (Suíça) foram outros artistas premiados tendo suas obras adquiridas pelo Centro Cultural.

Na abertura do evento a Filarmônica União Sanfelista tocou diversas músicas antes do lançamento do CD do IX Festival de Filarmônicas do Recôncavo, outro projeto do Centro Cultural Dannemann, gravado ao vivo no encerramento do IX Festfir - realizado em dezembro de 2001 no mesmo local. Após o lançamento o público pode apreciar a performance Corposcaos do coreógrafo e bailarino Itamar Sampaio.

Hans Leusen, Presidente da tradicional Fábrica de Charutos Dannemann e fundador do Centro Cultural Dannemann criado em 1989 com a restauração da fábrica estava muito contente com os resultados pois o Centro Cultural é mencionado em todos lugares que vai como um marco na arte da Bahia. Apoiada pelo Ministério da Cultura e pela Unesco, a Bienal do Recôncavo vai até dia 18 de Janeiro de 2003. Para maiores inforamações visite o site www.centroculturaldannemann.com.br

Centro Cultural Dannemann
Tel: 75-425.2208 / Sr. Pedro Arcanjo.
Av. Salvador Pinto, 29 Centro
Cep: 44.360-000 São Félix - BA

sábado, 11 de agosto de 2012

As belas litografias dos exportadores de fumo do recôncavo baiano


Em finais do século XIX o recôncavo baiano era um dos mais importantes centros produtores de fumo do mundo. Empreendores alemães e holandeses plantavam a folha em Cruz das Almas, Cachoeira, São Felix, Santo Amaro, Maragogipe e na região instalavam fábricas de charutos, um dos maiores itens de exportação da Bahia em aqueles idos. Exportavamos fardos de fumo, cigarros e charutos.

Stender & Cia era uma das marcas de maior aceitação entre os consumidores, garantia de qualidade, a exemplo de outras também reconhecidas nesse quesito como Dannemann, Suerdieck, Pook & Cia, Rodemburg, Jezler & Hoening, R. Gaeschlin, Costa & Ferreira, dentre outras. A imagem que ilustra este post é um rotulo dos charutos “A Bella Africana” de Stender & Cia, imagem trabalhada em litografia e impressa na alemanhã com referências visuais da região onde era plantada a matéria prima do produto, ou seja, o recôncavo. Era comum esses rótulos serem utilizados como anúncios, não é o caso.

O que chama a atenção nesse rótulo é primeiro o nome do produto que destaca o fumo como plantado e manipulado por africanos, ou seja mão de obra escrava, originária ou descendente desse continente, como sinônimo de qualidade. Algo assim como fumo produzido por negros é outra coisa. Mas reparem também na indumentária da modelo. O ilustrador caprichou com o detalhe do pano da costa, dos adereços de ouro, colar e braceletes, e imprimiu à imagem um ar de nobreza que o título potencializa mais ainda com a referência de ”bella”.

Para o apreciador de bons charutos esta imagem significava muito. A garantia de um produto final trabalhado nos detalhes por prendadas mulheres negras do recôncavo, boas de fazer charuto nas coxas, que essa era forma ideal e diferenciada de enrolar a folha.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O fumo no recôncavo baiano e a pobreza

Victor Rocha é médico do Posto de Saude Familia de São Roque - Maragogipe BA

“Nas fábricas de charutos não havia trabalho (para homem). Ali quase só mulheres pálidas e macilentas [...] fabricavam charutos caros para fins de banquetes ministeriais [...] .Mas eis que elas saem e são tristes e cansadas. Elas vêm tontas daquele cheiro de fumo que já impregnou nelas, que está nas suas mãos, nos seus vestidos, nos seus corpos, nos seus sexos [...] passam silenciosas como se estivessem bêbadas [...] entram pelas ruas estreitas que já escurecem e rumam para os becos sem iluminação no fundo da cidade.

São [...] fábricas brancas que tomam quarteirões inteiros , onde operárias sofriam no trabalho minucioso e dedicado da produção dos charutos, enquanto, no hotel, por outro lado, os filhos dos donos das fábricas, que eram alemães, divertiam-se.”

Jubiabá – Jorge Amado

Em meados do século XIX, a guerra civil nos EUA e em Cuba geram oportunidades de concorrência internacional no mercado do fumo. Inicialmente fumo servia para troca por escravos na áfrica e confecção artesanal de charutos. Associado a estes conflitos nos principais produtores da folha de fumo, estavam os comerciantes de Bremen-alemanha, que concorriam com os comerciantes dos EUA e viram no Brasil a possibilidade de avançar.

Dentro de um contexto de aumento do consumo mundial (charutos), a Bahia desponta como grande produtora a partir desta parceria com os alemães de Bremen e hamburgo. No início do Sec. XX eram 60 milhoes de charutos produzidos no Brasil, grande parte na Bahia. A situação de recém abolida escravidão singular do brasil, tratamento “igual” para segmentos sociais desiguais, condicionou que agricultores ex-escravos meeiros, e pequenos produtores fossem mão de obra para esta aposta comercial alemã. Estes comerciantes tinham o exato conhecimento dos preços internacionais, lucratividade , etc; para regularem os preços.


Desta forma, os produtores rurais, fortemente constituidos por mulheres e crianças recebiam baixa remuneração, desconhecendo a magnitude dos lucros que viabilizavam no porto de Bremen. Aos poucos, pequenas fábricas são montadas para produzir charutos (a exemplo da Suerdick e CIA, dentre vários outros). Cruz das almas se destaca pela produção fumageira agrícola e Maragogipe pela presença de fábrica suerdick e co e pela saída ao mar, através do rio Paraguaçu. Como se vê, tratavam-se de relações pre-capitalistas, onde o setor agrário era um anexo do setor comercial, não chegando a se constituir uma elite agrária voltada ao fumo. Os comerciantes baianos tem papel secundário.

Riqueza em Bremen e fome na Bahia, é a consequencia direta da produção do fumo baiano. Em 1924, um grande truste anglo americado chamado British-american tabaco co. Chega à Bahia e rapidamente leva os concorrentes baianos e alemães à falência. Os alemães ainda ficam com a exportação de fumo e fabricação de charutos, mas este produto já tinha entrado em desuso com o advento do cigarro. O Cigarro advem de produção industrial, por tanto, maior lucrativadade e potencial de distribuição. O Brasil não acompanha a mudança da preferência mundial pelo cigarro, e hoje só são produzidos 3 milhões de charutos, dos 60 mi do início do seculo XX. Em 1930, a Bahia, já sem a conexão alemã, perde a liderança no fumo para o Rio Grande do Sul e o Cacau surge como principal produto, produzido ao sul do estado.

A região do recôncavo hoje ainda padece de grande pobreza, o que foi agravada com o fim do ciclo do fumo. Cruz das Almas, por ser uma cidade passsagem para a BR 101 tem maiores potenciais no comércio do que Maragogipe, que fica expremida entre uma BA em regular estado de conservação e uma saída ao mar atualmente com pouco uso, seja para turismo seja para escoamento de produções. Discutir alternativas econômicas com enfoque na distribuição efetiva de renda é um desafio para a saúde das pessoas.

A construção do Estaleiro de São Roque, prevendo a construção de plataformas da Petrobrás (P 59 e P60), lança no ar qual seria esse desenvolvimento como pergunta já feita e repondida na contrução no novo plano diretor, por várias mãos. Resta fazer valer.

sábado, 23 de julho de 2011

A história da Suerdieck, Epopéia do Gigante, por Ubaldo Marques Porto Filho

Discurso de Ubaldo Marques Porto Filho na Câmara - Maragojipe e a Suerdieck


A Suerdieck não parou mais de crescer. Foi então idealizado um novo prédio, edificado em 1920, pelo engenheiro Emílio Odebrecht, pioneiro das construções de cimento armado na Bahia. A interligação da fábrica nova com a antiga, separadas pela Rua das Flores, fez-se através de uma passarela de concreto, uma novidade em Maragojipe.

Mas essa novidade custou muito caro ao prefeito Elpídio da Paz Guerreiro, que sofreu uma campanha popular muito forte, por ter permitido a construção da “ponte da Suerdieck”, como o povo passou a chamar a passarela. É que o povo da zona rural acreditava numa crendice popular que assegurava dar azar a quem passasse por baixo de pontes. E durante muitos anos, os produtores que traziam produtos de suas roças, para vender na feira livre semanal, fizeram um longo rodeamento para evitar a “ponte da Suerdieck”.


Em 1928, a Vieira de Mello & Companhia, primeira fabricante de charutos em Maragojipe, foi arrendada à Suerdieck, que em 1942 comprou todas as instalações. Em 1949, ao comprar o acervo da Dannemann em Maragojipe, a Suerdieck passou a ser a única fabricante de charutos no município e emergiu como a maior produtora de charutos nacionais.

A Suerdieck tornou-se uma gigante, sendo a maior produtora mundial de charutos artesanais e Maragojipe a dona da maior fábrica de charutos do mundo. Na fase desse apogeu, Maragojipe muito se beneficiou do império charuteiro, por onde gravitava cerca de 80% da economia municipal. Somente na cidade de Maragojipe, a Suerdieck chegou a ter 2.052 empregados, fora a mão-de-obra temporária.

Como estava totalmente dependente da Suerdieck, a cidade sofreu muito quando adveio a grande crise de 1970, que quase provocou a falência da empresa. Maragojipe também entrou em período de grave crise socioeconômica. O ano de 1970, que marca o fim de um império charuteiro, registra igualmente o início do fim das riquezas geradas pela Suerdieck e o início de um processo que foi retirando de Maragojipe a condição de cidade símbolo dos charutos brasileiros, muito divulgada e conhecida no exterior, entre milhares e milhares de consumidores dos charutos Suerdieck espalhados por cinco continentes.

Mas todos os que aqui se encontram devem estar querendo saber quem sou eu, um não-maragojipano que vem à Câmara Municipal para falar da maior empresa que esta cidade teve em toda a sua história. Eu fui empregado da Suerdieck, onde trabalhei de agosto de 1965 até fevereiro de 1969, justamente no período final de um império formado por 16 empresas, que atuavam em todos os segmentos da escala produtiva: na cultura e beneficiamento do fumo, na confecção dos charutos, na produção das caixas de cedro e na distribuição dos charutos.


Das 16 empresas, quatro ficavam na Europa e uma, a Companhia Maragogipana de Eletricidade, foi a responsável pela chegada da energia elétrica, gerada na Usina de Bananeiras, até à fabrica de Maragojipe, um benefício que a Suerdieck logo estendeu para todas as casas comerciais e residenciais dessa cidade.

Fui admitido na Suerdieck aos 20 anos de idade, para trabalhar em seu escritório na sede de Salvador. Entrei como simples escriturário, e dentre as atribuições que me foram delegadas eu seria o responsável pelo balanço periódico de um depósito de charutos que ficava no subsolo do Edifício Suerdieck, a majestosa sede da empresa na Avenida Estados Unidos, no centro comercial e financeiro da capital baiana. Deram-me uma relação contendo o estoque do último balanço.

O diretor ao qual fiquei subordinado, senhor José Ruas Boureau, orientou-me dizendo: “Faça o balanço físico e devolva a lista assinada por você, atestando o que encontrou”. No depósito, na verdade uma enorme câmara frigorífica, cabiam milhares de caixas de charutos em tamanhos variados, de centenas de marcas. Após dois dias de contagem, a minha lista não bateu com a que havia recebido. A diferença era muito grande, indicativa de um desvio milionário. O senhor Boureau ficou atônito e não quis acreditar nos números encontrados por mim, com menos de trinta dias na empresa.

Fui obrigado a repetir o trabalho, desta vez acompanhado de um outro preposto da empresa. A nova contagem demonstrou que a primeira estava corretíssima. Levado o resultado ao conhecimento do presidente, senhor Geraldo Meyer Suerdieck, este determinou que a polícia fosse imediatamente acionada para descobrir o autor ou autores da fraude. As investigações chegaram a conclusão que os roubos de charutos vinham sendo praticados há cinco anos.

Agora, vejam vocês a potência que era a Suerdieck, pois o gigantismo dos números na produção dos charutos permitia manipulações sem que as fraudes fossem sentidas nos controles de produção das fábricas e saídas para as comercializações.

Com a descoberta e estancamento nos desvios, ganhei imediata projeção na empresa. Ganhei também um aumento no volume de serviços e virei controller estatístico, com a responsabilidade pela elaboração de uma estatística final, não apenas do depósito em Salvador, mas de toda a produção e vendas dos charutos, nos mercados nacional e internacional.

Enfim, fui transformado num empregado da confiança do alto escalão, passando a ter acesso direto ao Presidente. Passei inclusive a ter acesso aos dados confidenciais da empresa. Enfim, passei a conhecer as entranhas do gigante.

Passei inclusive a visitar com frequência as fábricas de charutos, para proceder os ajustes necessários aos novos controles determinados pelo Presidente, para possibilitar que ele tivesse balancetes de produção e vendas de charutos sem grande defasagens de tempo.

E dentro dessa nova missão na empresa, estive pela primeira vez em Maragojipe no final de 1965. Fiquei impressionado com o que vi. Era uma cidade dinâmica, rica e onde em cada esquina se respirava o ar da Suerdieck, o esteio da economia local.

Eu nunca havia pisado nessa cidade. Conhecia apenas a silueta de Maragojipe, vista à distância, de bordo dos navios da Bahiana, da linha Salvador-Cachoeira e vice-versa. Na minha adolescência, quando morei e estudei em Cachoeira, sempre viajava para passar os feriadões e as férias escolares de julho e do verão em Salvador, onde meu pai possuía uma casa, no bairro do Rio Vermelho.

O “Vapor de Cachoeira”, como era chamado pelo povo, fazia escalas nos portos de Maragojipe e São Roque, para desembarque e embarque de passageiros e cargas. Eram paradas rápidas e festivas, com o cais cheio de vendedores de peixe frito, milho assado, rolete de cana, frutas, doces, bolos e outras guloseimas. E nas paradas em Maragojipe eu não dispensava um sanduíche muito delicioso, de pão cacetinho com recheio de camarão cozido.

Tenho também a lembrança de que numa dessas viagens meu pai disse: “Temos um ancestral que nasceu em Maragojipe”. Tempos depois, consultando a árvore genealógica da nossa família, descobri que o ancestral maragojipano se chamava João Carlos Marques Porto. Nascido no dia 18 de julho de 1823, era filho do santamarense Manuel Marques de Souza Porto e da cachoeirana Maria Theodora das Virgens de Souza Porto, falecida em 12 de novembro de 1843, no Engenho Sinunga, de seu irmão, Manoel Maurício Coelho. Ela foi sepultada na Igreja Matriz de Maragojipe.

Depois de três anos e sete meses na Suerdieck, quando visitei Maragojipe diversas vezes, inclusive durante a Festa de São Bartolomeu, pedi demissão e fui cuidar dos estudos em tempo integral, na Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia.

Logo depois de formado, saiu o resultado do I Concurso Nacional de Turismo, certame promovido pela Embratur em 1970. Como obtive o primeiro lugar, senti-me no dever escrever um livro técnico, que denominei de “Turismo, Realidade Baiana e Nacional”. Para concluí-lo, levei cinco anos trabalhando, tendo viajado por todo o interior baiano. Estive em Maragojipe estudando o seu potencial turístico e dediquei-lhe um capítulo inteiro, o de número 17, onde relacionei sugestões para o desenvolvimento do turismo no município. O livro foi publicado em 1976.

Os analistas econômicos sabiam que a crise de 1970 na Suerdieck tinha sido o sinal de que o ciclo do fumo e dos charutos na Bahia estava chegando ao fim e que Maragojipe deveria procurar novos rumos para a sustentabilidade da sua economia.

E eu sabia que o turismo era uma das alternativas. Maragojipe tinha tudo para se transformar num centro de grande visitação, fundamentada em sua história, nos monumentos arquitetônicos, nos bens culturais, na história dos charutos e, sobretudo, em seus recursos naturais. Privilegiadamente localizada, num eixo fluvial navegável, Maragojipe possuía uma grande potencialidade náutica.

Infelizmente, Maragojipe encontra-se num Estado que nunca soube explorar os recursos turísticos dos municípios da Bacia do Paraguaçu, de forma organizada e empresarialmente falando. Se Maragojipe estivesse em qualquer país da Europa, ou nos Estados Unidos, a realidade seria outra. Não tenho nenhuma dúvida, Maragojipe seria hoje um grande centro turístico, visitada por milhares de turistas durante todos os meses. Está também provado e comprovado que o turismo é uma poderosa arma geradora de emprego e renda.

Digo isso com convicção profissional, de quem trabalhou durante três períodos na Bahiatursa, de quem foi gerente de marketing de produtos turísticos no Grupo Banco Econômico e de quem é autor de um segundo livro sobre turismo, “Bahia, Terra da Felicidade”, publicado em 2006.

Como administrador de empresas, trabalhei em diversas outras empresas importantes, sem jamais esquecer a Suerdieck, que foi uma escola no meu aprendizado prático. E prometi, a mim mesmo, que quando me aposentasse iria escrever a história da inesquecível Suerdieck, associada com a história da querida Maragojipe.

E foi o que fiz, a partir de 1997. Foram seis anos de trabalhos, pesquisando e entrevistando pessoas que trabalharam na Suerdieck. Nesse período, todo sábado pela manhã encontrava-me com o senhor Geraldo Meyer Suerdieck, o homem que comandou a Suerdieck durante 27 anos. O antigo “rei dos charutos” fraqueou-me o seu bem organizado arquivo de importantes documentos e contou tudo, inclusive os segredos profissionais, familiares e pessoais. O resultado foi o livro “Suerdieck, Epopéia do Gigante”.

Nascida em 1892, em Cruz das Almas, a Suerdieck agigantou-se em Maragojipe, a partir de julho de 1905, quando entrou na fabricação de charutos. Em novembro de 1992 fechou a sua grande fábrica nessa cidade e voltou a ficar restrita a Cruz das Almas, onde sete anos depois, em dezembro de 1999, encerrou totalmente suas atividades.

Toda a trajetória da Suerdieck, de 107 anos de vida, com 94 dedicados aos charutos e 87 com fábrica em Maragojipe, encontra-se no livro que há oito anos espera por um patrocínio para a sua impressão gráfica.

Em formato grande, o livro contém 400 páginas e tem como prefaciador o consagrado historiador Cid Teixeira, membro da Academia de Letras da Bahia. Conta também com uma apresentação de autoria de Mário Amerino Portugal, empresário do ramo de fumos e charutos e primeiro presidente da Câmara do Charuto da Bahia, que pôs o seguinte registro:
Além da excelência do conteúdo, que resgata a memória de uma das mais importantes empresas na história mundial dos charutos, o livro, que contém 611 citações de pessoas físicas, é também riquíssimo na programação visual. Encontra-se valorizado por 375 imagens e ilustrações contidas em vinhetas, mapas, tabelas e quadros.
Com tantas virtudes, a obra credencia-se a obter premiações nacionais e internacionais. E a primeira delas chega através da Câmara do Charuto da Bahia, que lhe confere um Selo de Qualidade Editorial.

Enfim, o livro “Suerdieck, Epopéia do Gigante” é também um retrato de Maragojipe, no período talvez da sua maior opulência econômica, em que teve a presença ativa da Suerdieck em sua vida.

Com recursos próprios, banquei todas as despesas na fase das pesquisas, quando realizei várias viagens pelos municípios da região fumageira do Recôncavo, onde ficavam os armazéns de fumo e as fábricas de charutos, localizadas em Maragojipe, Cruz das Almas e Cachoeira. Nessa fase das pesquisas contei com a inestimável colaboração de Bartolomeu Borges Paranhos, o mestre dos mestres charuteiros. Ele chefiou a fabricação de charutos em Maragojipe, sendo por décadas o responsável pela excelência da qualidade de todas as marcas.

Na crise de 1970, quando tudo parecia perdido, pois o Governo Federal prendia a liberação de um empréstimo salvador e a falência da Suerdieck parecia irreversível, Bartolomeu Paranhos, vereador de Maragojipe, apelou para dom Eugênio Sales, de quem era amigo e fornecedor de charutos da marca Florinha, a preferida do arcebispo de São Salvador da Bahia e primaz do Brasil.

Em nome do povo maragojipano, Paranhos foi pedir a intervenção de dom Eugênio, que em poucos dias teria um encontro com o Presidente da República. Em Brasília, o cardeal expôs a dramática situação da empresa e as sérias implicações de ordem social em Maragojipe, cuja economia dependia 80% da Suerdieck. O Presidente Médici, visivelmente contrariado com a notícia da demora na liberação do empréstimo, desabafou dizendo as seguintes palavras ao cardeal:

Num país onde se joga tanto dinheiro fora, essa questão não ficará engavetada!

Poucos dias depois, chegou de Brasília um telefonema solicitando a presença de Geraldo Suerdieck no Banco Central, para a assinatura do contrato do empréstimo que saiu imediatamente, por ordem expressa do Presidente da República.

Essa e muitas outras histórias reais estão registradas no livro em que também investi recursos próprios na sua editoração eletrônica, última etapa técnica antes da impressão gráfica. E para viabilizar essa parte final e mais onerosa, inscrevi o livro no Fazcultura, programa estadual de incentivo à cultura.

A obra foi muito elogiada e aprovada por unanimidade dos membros da comissão gerenciadora dos projetos. Porém, não foi possível obter a captação de recursos, uma vez que nenhuma empresa quis associar a sua imagem ao fumo, temendo os reflexos da vigorosa campanha movida pela sociedade civil contra os cigarros e charutos.

Eu já tinha perdido a esperança de ver o livro publicado quando conheci o maragojipano Luiz Carlos Flores Ramos, produtor cultural, que logo se interessou em tentar viabilizar a obra pelo próprio poder público de Maragojipe.

Em contrapartida, eu disse ao Luiz Flores que se ele conseguisse isso eu faria a doação de todo o valioso material da Suerdieck que se encontra em meu poder há mais de dez anos, entregue pelo senhor Geraldo Meyer Suerdieck, para compor um museu da Suerdieck aonde eu julgasse conveniente. Eu sempre quis atrelar a doação do acervo ao patrocínio do livro, pois as duas partes se complementam. Não devem ficar separadas.

Finalmente, após oito anos de concluído, surge agora a esperança concreta de que o livro será publicado pela Câmara Municipal de Maragojipe, que está reconhecendo o valor da obra no processo do resgate de parte da memória da antiga “Cidade das Palmeiras”.

E Maragojipe poderá também ganhar um museu com objetos, caixas de charutos, documentos, álbuns fotográficos e publicações sobre a empresa que esteve entre as mais famosas do mundo no setor de charutos e que sempre divulgou Maragojipe em todo o Brasil e no exterior, no tempo em que no nome da cidade figuravam duas letras g - Maragogipe.

A luz verde foi acesa quando recebi na minha residência, em Salvador, a honrosa visita da ilustre comitiva da Câmara Municipal de Maragojipe, liderada pelo seu Presidente, Themístocles Antônio Santos Guerreiro, e integrada por Antônio Jorge Cerqueira Malaquias, Vice-Presidente, Dércio Lima de Souza, 1º Secretário, Rosalvo Sicopira da Silva, 2º Secretário, e por Francisco Gomes da Silva Filho, Assessor Especial da Presidência. Foram conhecer o material que estou disponibilizando gratuitamente para a cidade de Maragojipe.

Eu concordo plenamente com o desejo do Presidente desta Egrégia Casa Legislativa, de que o histórico Paço Municipal, atual sede da Câmara Municipal de Maragojipe, é o melhor local para abrigar o valioso material da Suerdieck, que foi salvo da destruição pelo maragojipano Geraldo Meyer Suerdieck, que levou para casa o referido acervo, antes de entregar o comando da Suerdieck ao Grupo Melitta, em fevereiro de 1975.

O ciclo da Melitta na Suerdieck foi de 11 anos. Em 1986, a multinacional com sede na Alemanha repassou o controle acionário da Suerdieck à empresária alemã Gisela Huch Suerdieck, ex-esposa de Geraldo Meyer Suerdieck. Em mãos dela a fábrica de Maragogipe foi desativada em 1992 e a empresa teria um final triste sete anos depois, fechada por falência financeira.

Ao tempo em que me coloco à disposição, para quaisquer esclarecimentos adicionais, agradeço pela gentileza da atenção de todos.

Muito obrigado!



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Ubaldo Marques Porto Filho é escritor
e tem 14 livros publicados
umpf_ba@yahoo.com.br
ubaldo@acirv.org

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um pouco do Coronelismo em Maragogipe

Por: Zevaldo Sousa

Eul Soo Pang fala em seu texto “Coronelismo: Um Enfoque Oligárquico da Política Brasileira”, que o coronelismo vai desde a queda do Império até 1930 com a revolução de Vargas. Em Maragogipe, entre Políticos e Coronéis, encontramos uma população que ficou dividida no novo paradigma da economia maragogipana, ou ia para a cidade tentar a sorte nas grandes fábricas de charuto da Suerdieck e da Dannemann que estavam aparecendo naquele momento ou continuavam trabalhando na zona rural mantendo antigas relações de escravidão. 

O presidente Campos Salles fundou um sistema de troca de favores que, partindo do executivo federal, espalhou-se pelo pais inteiro. Essa política, de certa forma, é conhecida de "Política dos Governadores", implementada em 1902, lembra, na sua simplicidade, o toma lá, dá cá. O presidente da república exigia que os governadores lhes enviassem bancadas concordes com a sua política. Em troca, ele sustentava as propostas regionais dos governadores. Estes por sua volta articulavam-se com os coronéis do seu estado, fazendo com que também eles mandassem para a assembléia legislativa na capital do estado, deputados acertados com os interesses políticos do governador.

É importante ressaltar que a população maragogipana, desde o período imperial é tipicamente rural, fruto de antigos sistemas econômicos que colocavam Maragogipe como região produtora de produtos de primeira necessidade, tendo sua produção voltada para localidades com economia de exportação e/ou a capital baiana.

As novidades acarretadas pelo crescimento econômico e a vontade de libertação do antigo sistema, faz com que grande parte da população, principalmente negra, volte-se para a cidade e mude as relações existentes no sistema, marcando com isso, a vida na cidade maragogipana.

Um novo integrante, com forte poderio econômico, entrou em cena, os alemães. Sendo assim, Políticos e Coronéis já existentes usaram o seu poder político e o pouco poder econômico e social que tinham para controlar parte da produção do fumo, como também, parte da população. Assim como “usariam” a Política dos Governadores com objetivo de garantir a sua manutenção no poder com a troca de votos. Vale ressaltar que não existia eleições municipais, os Intendentes eram nomeados pelo governador, após indicação dos coronéis e políticos que faziam aliança com o governador vencedor, os derrotados eram “degolados” do sistema.

O Engenheiro Flaviano Amado de Souza (1891-1894) foi o primeiro intendente do município na República e era um dos grandes coronéis do Município, herdeiro do Padre Aniceto (religioso, político e dono de grandes áreas de cultivo, muito influente nos assuntos do Estado no período imperial, inclusive, pelo sua característica de manda-chuva), Flaviano herdou suas terras e um pouco do seu jeito político de agir.

Os anos da República Velha serão marcados por mudanças na estrutura física da cidade, é nesse momento que duas cidades estarão englobadas em uma. Uma feita com tijolos e outra de taipa, fruto do processo de êxodo rural instaurado no período. Apesar de certa perda na dominação econômica do município, os coronéis entenderam que necessitavam mudar seus interesses com objetivo de manter-se no poder.

O último dos intendentes foi Getúlio de Góis Tourinho (1930) e coincidências a parte, o fato é que, o seu famoso xará, Getúlio Vargas tomará o poder em trinta e a partir daí, uma nova fase é instaurada no Brasil e em Maragogipe. O cargo de intendente é abolido e no seu lugar é instaurado o cargo de Interventor, sendo o primeiro Anísio Malaquias (1930-1935). Vale ressaltar que o interventor também é nomeado através de indicação, ocorrendo uma eleição municipal, em que poucos eram os participantes e sua maioria era composta por integrantes do PSD, partido juracisista que apoia o Governo Vargas na Bahia e quem faz a indicação dos interventores.

Vale ressaltar, que apesar de Anísio Malaquias ser considerado um coronel, assim como seus sucessores, não se pode usar o conceito de “Coronelismo”, pois o interesse agora é partidário.

domingo, 11 de abril de 2010

História da Suerdieck em Maragogipe de 1892 a 1913

Pisou a terra baiana, no ano de 1888, o fundador da organização o Sr. August Suerdieck, como empregado da firma alemã F. H. Ottens, que o enviara a Cruz das Almas a fim de fiscalizar o enfardamento de fumo.


Quatro anos depois, em 1892, relacionado com a firma Joh. Achelis & Soehne, de Bremen, iniciou o Sr. August Suerdieck as suas atividades por conta própria, como enfardador e comprador de fumo, na localidade de Cruz das Almas. Em 1894, o Sr. August Suerdieck adquiriu da própria firma F. H. Ottens o seu primeiro armazém e ainda ao mesmo ano uma casa ao Tenente Frederico Tedgue Ottens, à Rua ottens.

Em 1899, com sua firma já registrada sob a razão social de A. Suerdieck, o Sr. August Suerdieck ampliou seus negócios até Maragojipe, onde edificou seu primeiro prédio, o Armazém situado à Praça Sebastião Pinho (também denominada Caijá). Ainda no mesmo ano chegava à Bahia Ferdinand Suerdieck, irmão do Sr. August Suerdieck, a fim de auxiliar este no sempre crescente desenvolvimento da exportação de fumo. Nasceu, principalmente da iniciativa de Ferdinand Suerdieck, a idéia de que, além da exportação de fumo, fosse montada também a fabricação de charutos que, embora vacilante de início, foi pouco a pouco se desenvolvendo e tomando forma, chegando a constituir-se um objetivo sério na sua vida industrial, e para realização do qual, não pouparam esforços e nem mediram sacrifícios. Projeto corajoso e desassombrado, dada à existência, naquela época, de já poderosas fábricas de charutos que bem poderiam anular as primeiras tentativas dos irmãos Suerdieck. Definitivamente consumada essa idéia, August Suerdieck transferiu seu irmão para Maragojipe, onde foi instalada, finalmente, em 1905, no Armazém Caijá (Largo S. Sebastião), a primeira fabricação de charutos, contando apenas com cinco operários, e na qual o chefe era escolhedor de fumo, mestre de seção, encarregado de embalagem, enfim, tudo ao mesmo tempo. Em pouco tempo havia reais apreciadores para os charutos Suerdieck e o número de fregueses crescia cada dia. Caminhavam assim, a passos tímidos, os charutos Suerdieck, ao lado das já tão grandes e afamadas marcas da concorrência.


Dois anos depois, em 1907, a fábrica foi transferida para edifício próprio, à Rua Macedo Costa, nº 67, conhecida como Rua do Fogo, ocupando nessa época já treze operários, sob a gerência do Sr. Carl Gerles, técnico vindo da Europa especialmente para este cargo. Chegando em Maragojipe no dia 2 de maio de 1909, o Sr. Gerhard Meyer Suerdieck ficou como chefe da organização, encarregado da fábrica de Maragojipe como gerente. Em 1910, foi adquirido do Sr. Elpídio Barbosa um sobrado situado à Rua Pedra Branca (atual Fernando Suerdieck) que servia , até então, de cinema e teatro. Neste mesmo ano, deu-se a transferência da fábrica do prédio situado à Rua Macedo Costa, para o da Rua da Pedra Branca junto ao qual, em 1913, foi construído, em terreno baldio, ali existente, um prédio próprio onde foi instalada uma nova seção complementar – a Repartição de Encaixe, ampliando-se assim a fábrica. Daí em diante, com novas e adequadas instalações, apresenta-se a fábrica como um estabelecimento já organizado, tendo a seu serviço cerca de duzentos operários. Dedicou-se então, a firma, ao cultivo do fumo, em vastos campos apropriados, no que foi bem sucedido, visto ter conseguido obter as melhores e mais finas qualidades de fumo até hoje produzidas no Brasil.


Viu a firma os seus esforços coroados de êxito em 1908, quando lhe foi conferido, por ocasião da Exposição Nacional do Rio de Janeiro, UM GRANDE PRÊMIO ESPECIAL, pela cultura aperfeiçoada do fumo, o único prêmio, aliás, concedido no Brasil. Os negócios na firma expandiram-se e aumentaram rapidamente, elevando-se, naquela época, a sua exportação de fumos de qualidade a 20.000 fardos anuais, aproximadamente. Estava assim assegurada a posição da organização dos irmãos Suerdieck e firmado o seu conceito como uma das maiores firmas exportadoras de fumo Bahia-Brasil.