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domingo, 20 de novembro de 2011

A eleição mais disputada de Maragogipe, Histórias curtas, curta as histórias


Por Francisco Gomes

No dia 15 de novembro de 1988 às 19h, na Associação Atlética Maragojipana começava a contagem dos votos da eleição mais disputada da história da política de Maragojipe. Eram sete os candidatos a prefeito: Plínio Guedes (PFL), Rubinho Armede (PMB), Betuca (PDC), Arivaldo Vieira (PL), Cid Seixas (PMDB), José Carlos Charlê (PT) e Mamede Xander, que na época chamava-se, Mamedinho (PDT).

Apesar dos vários candidatos, a disputa acirrou-se entre o jovem Rubem Guerra Armede, que pela primeira vez candidatou-se a um cargo eletivo, e o veterano político Plinio Pereira Guedes.

Naquela época os eleitores votavam marcando com um X na cédula eleitoral de papel, no nome e número do candidato da sua preferência e a contagem dos votos era feita pelos escrutinadores, pessoas da comunidade escolhidas pela justiça eleitoral que contavam os votos de um em um. Esse processo era muito lento e levava dias para se saber o resultado final das Eleições. Primeiro eram abertas as urnas da sede depois as distritais sempre começando por Coqueiros e finalizando por São Roque.

Nas eleições de 88 aconteceram fatos marcantes que nos servem de exemplo até hoje. Em agosto era certa a vitória do candidato Betuca, nos quatro cantos da cidade só se ouvia a frase: FUTUCA, FUTUCA, SÓ DA BETUCA. Bel disparou na frente convicto que venceria não aceitou o convite para ser vice de Plínio e seguiu seu caminho, quando entrou setembro e a boa nova andou nos campos, Betuca começou a declinar emergindo as candidaturas do joven Rubinho apoiado pelo então governador Waldir Pires e da “velha raposa política” Plínio Guedes, que tinha apoio do Prefeito da época Bartolomeu Teixeira que dividiu para reinar.

Betuca acabou ficando em terceiro lugar e Arivaldo em quarto, este último empolgou a massa jovem tendo a frente da sua campanha o trio Transas Mil arrastando multidões para os seus comícios. Cid ficou em quinto mas, venceu as eleições no distrito de Nagé, Charlê em sexto e Mamede em sétimo, estes foram fundamentais para a vitória de Plínio sobre Rubinho por 38 votos de frente.

Isso mesmo! 38 votos em um eleitorado de mais de 20 mil eleitores. Plínio venceu Rubinho nas Eleições de 1988, a mais disputada até hoje em nosso município, o 25 venceu tomou posse e pouco antes de completar um ano a frente da prefeitura nas proximidades do Natal de 1989, Maragojipe perdia seu Prefeito e maior líder político Plínio Pereira Guedes que falecera em Capanema. Assumia em seu lugar o vice-prefeito Profº Domingos de Melo e Albuquerque que governou Maragojipe por três anos.

O povo comenta até hoje que vários políticos maragojipanos não aceitaram ser vice de Plínio e assim deixaram de ser prefeito e que se fosse realizada a recontagem dos votos Rubinho venceria aquela eleição. Será?

A música do milhão - Histórias curtas, curta as histórias


Por Francisco Gomes

Vários amigos tem me solicitado que eu aproveite o espaço que é gentilmente cedido por Zevaldo neste blog, para além das histórias selecionadas de grandes autores e anônimos que reproduzo para os leitores, que também contasse passagens da política maragojipana, que sempre lhes conto em momentos de descontração e que eles consideram interessantes e acham que deveria compartilhar com todos através da net, como sempre prefiro ficar com os conceitos e conselhos dos meus amigos, a partir de hoje estarei escrevendo algumas histórias da nossa política.

Para iniciar, vou contar a história da MÚSICA DO MILHÃO, sucesso nas Eleições para prefeito de 2000.

A MÚSICA DO MILHÃO

Nas Eleições de 2000, cinco candidatos concorriam a Prefeitura de Maragojipe: Arivaldo Vieira pelo PL, Digal pelo PT, Gabriel pelo PSC, Luizinho K-Lavar pelo PTB na época conhecido como a zebrinha e Rita Nunes pelo PDT. Apesar de estar concorrendo cinco candidatos, a disputa verdadeiramente se resumia a Gabriel e Arivaldo. O prefeito da época era Bartolomeu Teixeira e este não apresentou oficialmente um candidato. No mês de junho foram realizadas as convenções e as pesquisas só davam Arivaldo, o qual realizou na Terpsícore Popular uma grande festa com a presença de milhares de pessoas. Enquanto isso, a convenção do Gabriel foi realizada modestamente na Rádio Clube, embora o candidato tivesse a fama de ser o homem do milhão.

Durante a corrida para prefeitura o compositor Gilson Labaia fez um jingle para a campanha de Arivaldo, em que o refrão dizia o seguinte: “O MILHÃO NÃO, O MILHÃO NÃO, EU NÃO QUERO SEU DINHEIRO PRA FICAR NA SUA MÃO”, uma música bonitinha que logo caiu na boca do povo.

E aí? Arivaldo que estava bem nas pesquisas e com o povo cantando o jingle começava se desenhar a vitória do 22!

No mês de agosto, meu amigo Jota de Vital, que fazia parte da campanha de Gabriel, preparou uma festa muito bonita para alavancar a campanha. Realmente foi um belo evento, consequentemente, era o primeiro grande passo do 20 rumo a vitória, mas o jingle do milhão da campanha de Arivaldo não parava de tocar, e seus seguidores animados pelo embalo do som, não paravam de cantar e gesticular com os dedos pra lá e pra cá dizendo ao povo que o milhão não, estava montada a estratégia da campanha do 22.  Do tostão contra o milhão. Arivaldo, como o candidato filho da terra, era o tostão e Gabriel, o candidato forasteiro, era o milhão que queria comprar todo mundo. 

Na época eu era o vocalista da Banda Café Pilado, uma banda que vez sucesso no início dos anos 2000, e tocava todas as quintas no Pelourinho em Salvador. Numa dessas apresentações do Café, conheci uma professora de sociologia chamada Maria Clara, amiga da galera da banda e como eu gostava de música e política, conversamos muito e logo estávamos discutindo política, falei sobre as eleições de Maragojipe. Ela se colocou como defensora da candidatura do 22,  eu por outro lado, defendendo o 20, comecei a dizer que para se ter educação, saúde, estradas entre  outros benefícios era preciso de milhão e não de tostão.

Acabando a conversa todos fomos embora, quando cheguei em casa, comecei a passar na cabeça a fita do dia e quando cheguei na parte da conversa com Maria Clara,  vi que dali poderia nascer uma música, como resposta ao Milhão de Labaia. Não deu outra, bingo! Fiz o jingle que ficou conhecido como a resposta do milhão, foi um grande sucesso, os gabrielistas assumiram que para realizar era preciso do milhão, a campanha, que já vinha bem, deu um salto e o resultado da eleição não poderia ser diferente Gabriel 10.753 votos (55,24% os votos válidos), Arivaldo 7.748 (39.80%), Digal 606 votos (3.11%), Rita 284 votos (1.46%) e a zebrinha 74 votos (0.38%) .

Quem não se lembra desses versos: EMPRESAS PARA O POVO SÓ COM O MILHÃO, SAÚDE E EDUCAÇÃO SÓ COM O MILHÃO, ESTRADAS BEM CONSERVADAS E ELETRIFICAÇÃO TUDO ISSO SÓ COM O MILHÃO...

NÃO ADIANTA ESSA CONVERSA DE TOSTÃO PORQUE O POVO TÁ QUERENDO É SOLUÇÃO.

O engraçado veio depois na próxima edição tem mais história.

sábado, 30 de julho de 2011

Pequeno Histórico do Distrito de Guapira, em Maragogipe


Coordenadas: 12°44'7.59"S/ 39° 4'41.01"O

Povoados: Oitizero; Palmar/São Roque do Cumbe; Palmar de Cima; Batatan de Baixo (Serraria 2).

Histórico:
Dos pouquíssimos documentos encontrados sobre o distrito de Guapira, alguns trazem uma característica particular. Esse distrito sempre teve sua economia voltada para produtos de primeira necessidade. Em 29 de maio de 1880, pela lei provincial de no 1953 foi criado o distrito sob denominação de Caveiras. Acontece que em 30 de novembro de 1938, pelo decreto estadual no 11089, o distrito de Caveiras passa a ser chamado de Guapira e assim permanece até nossos dias. Os motivos da troca tão repentina de nomes, ainda não foram encontrados. Pois, na história do município nada foi encontrado sob essa denominação atual. Aliás, a história do distrito precisa ser melhor analisada devido ao pouco conhecimento que se tem de documentos, um pouco de história oral caberia bem para resolver esse problema, ou pelo menos, uma parte dele.

O seu potencial agrícola é conhecido desde o início do século XIX e até hoje, o distrito, que na época chamava-se Caveiras, dedicava especial importância a esse tipo de produção. Em um documento encontrado, registra-se uma sessão da Câmara de Vereadores do dia 20 de março de 1839, por exemplo, os juízes de paz (que eram eleitos na própria vila) de Caveiras, assim como Nagé, Coqueiro, São Felipe, Capela do Almeida e de Maragogipe, reuniram para ouvir ordenação e publicação de manual para melhor aproveitamento racional da agricultura.

A economia da vila foi centralizada na produção de farinha de mandioca, assim como em outros distritos. Maragogipe sempre foi obrigado a produzir o que a capital baiana queria, de acordo com os interesses também, de cachoeiranos e santamarenses. Nenhum investimento foi feito na região, até 1982, quando foi registrada uma casa de farinha modernizada, em Batatã, fundada através de financiamento do Banco do Brasil. O processo era automatizado através de quatro máquinas: duas para torrar, uma para cevar e um moedor. A produção aumentou dez vezes com relação à casa de farinha rudimentar. Essa farinha produzida no distrito abastecia encomendas de supermercados em Candeias e da CEASA.

A religiosidade do distrito de Guapira é marcada por dois momentos especiais, como a maioria dos seus habitantes são católicos, percebemos a devoção a Nossa Senhora de Santana e ao Deus Menino, todos dois na vila Guapira.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito do Guaí (Capanema), em Maragogipe


Coordenadas: 12°50'36.87"S/ 38°56'6.70"O

Povoados: Lagoa; Samambaia do Meio; Tamancas; Topa de Cima; Topa de Baixo; Piedade; Baixão do Guaí; Mutamba; Guarucú; Bom Jardim; Terra Seca; Carobas; Rio Grande; Fanu Leite; Tabatinga 1 e 2; Cascalheira; Quilombo; Salaminas; Porto da Pedra; Enseadinha; Gerém ; Sítio Gramador; Palma de Cima; Quizanga/Socorro; Entrada Rural de Capanema; Rio Grande (Piedade); Água Boa; Traíras/Rio das Pedras/ Tijuca; Santa Ângela; Fanu Leite; Camarão de Baixo.

Histórico:
Desde o tempo de Álvaro Dias que essa região do Guaí-São Roque começou a ser habitada e esse detalhe é demonstrado no mapa quinhentista que cita uma comunidade no baixo do rio Icagaçu, que atualmente, chamamos de Guaí. Portanto, se o rio Paraguaçu, foi o fator especial do desenvolvimento da região, o rio Guaí também pode ser considerado de fundamental importância por ter sido o primeiro a ser habitado devido a sua tranquilidade e por propiciar a madeira desejada pelos portugueses naquele momento histórico.

Reza a lenda, e é bom que registre-se isso, que habitavam nestas plagas nativos indígenas, que tinham a cultura particular do canibalismo. Por volta de 1520, exploradores portugueses chegaram até o Rio Paraguaçu e subiram o rio Cachoeirinha, no atual distrito do Guaí, às margens dos quais habitavam esses indígenas  Osvaldo Sá diz que os portugueses que aqui aportaram, vislumbraram com a riqueza das matas e a acessibilidade que o rio proporcionava a qualquer embarcação, essa era a condição necessária para que os primeiros habitantes europeus destas terras tivessem acesso a outros locais. A destruição daquela gente foi brutal, os indígenas foram expulsos ou escravizados e logo após os portugueses começaram a criar suas primeiras povoações. Os índios escravizados misturaram-se rapidamente aos negros trazidos do continente africano e por isso, essa região se tornou o foco principal das revoltas que ocorreram nos séculos XVI e XVII no município  espalhando o terror por diversas outras comunidades. Negros fugidos que não aceitavam viver daquela forma cruel montaram diversos quilombos e mocambos para reagir a cultura européia e os índios lutavam pela retomada de suas terras.

Uma outra luta travada por essas terras foi a Invasão Batava, holandeses destruíram diversos engenhos. A maioria não conseguiu se reabilitar ao longo do tempo.

A vila de Capanema é uma das mais antigas da região e por diversas vezes, teve a sua alçada de distrito abolida e restaurada. Em 1853, o atual distrito do Guaí foi restaurado à jurisdição de distrito, sob o nome de Capanema, depois de ter sido extinto pela Resolução de no 43, de 27 de abril de 1846.

Todavia, segundo Osvaldo Sá, em 20 de julho de 1881, foi criado o distrito de Paz de São Roque, e neste Capanema passaria a ser apenas um arraial, contudo isso só veio há ocorrer sete anos depois, em 10 de setembro de 1898.

Em 1933 com a nova Divisão Administrativa do Brasil, é criado definitivamente, o distrito de Paz de Santo Antônio de Capanema desmembrado-o do de São Roque do Paraguaçu e anexando-o ao município do Maragogipe. Em 01 de junho de 1944, sob o decreto estadual no 12978, retificando o decreto-lei no 141, o distrito de Santo Antonio de Capanema passou a ser chamado de Guaí e assim permanece até os dias atuais.


Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito de Coqueiros do Paraguaçu, em Maragogipe


Coordenadas: 12°43'6.41"S/ 38°56'5.39"O

Povoados: Serraria; Pedrinhas 2; Pitinga Seca; Cajazeiras; Olho D’água; Campinas; Santana; Rios dos Paus; Batatan; Cumbe; Bento Sardinha; Manguinho; Boa Vista; Carro Quebrado; Pau Seco; Irriquitiá; Rio Grande; Guaruçu; Giral Grande.

Histórico:
Em quase todo seu período histórico o distrito do Coqueiros do Paraguaçu, como é chamado atualmente para diferir de seus homônimos brasileiros, sempre foi nomeado pela palavra Coqueiro, no singular, poderia até representar unidade com a vila da qual foi originada, neste caso, Nagé, mas esse fato não ocorre, devido a fatores do coração.

Não há como saber, porém, quando suas primeiras casas de taipa surgiram, mas segundo as documentações existentes, desde o século XVIII, o vilarejo já florescia à proporção do desenvolvimento de seu ancoradouro, por onde se fazia a baldeação das pessoas e mercadorias que se destinavam da capital para o interior, ao sertão ou vice-versa. Foi, portanto, o “fator Paraguaçu” causa predominante para o desenvolvimento da vila, como explica Osvaldo Sá, em suas Histórias Menores.

Tanto Coqueiros, como Nagé cresceram em torno da cultura agrícola de produtos de primeira necessidade, a única autorizada pela Capital Baiana, pois no período colonial, não era permitido à instalação de indústrias, nestas regiões. A Farinha de Mandioca sempre foi à cultura principal dessa região. As raras intenções do plantio do fumo, sempre foram barradas pelo poderio dos fazendeiros Cachoeiranos, assim como, do controle social que os líderes da Câmara Municipal exerciam sobre os habitantes da terra.

Com o tempo a vila começou a ganhar importância e em 17 de julho de 1893, foi elevada a categoria de distrito policial, sob jurisdição do Distrito de Paz de Nagé e sob essa tutela permaneceu até o dia 13 de agosto de 1926, em conformidade com a lei no 1922 que criou o distrito de Coqueiros e anexou ao município de Maragogipe. Apesar do IBGE considerá-lo como distrito de paz desde 1911, o desmembramento só se deu em 1926 e assim continuou a ser até os dias atuais. Pelo decreto-lei estadual no 10724, de 30 de novembro de 1938, o distrito de Coqueiros passou a se grafar, novamente, Coqueiro. Até 2007, o IBGE registrava o distrito desse jeito, hoje porém, registra-se como Coqueiros do Paraguaçu, devido o apego popular.

O mangue sempre foi o grande potencial de Coqueiros, assim como as outras vilas do município, era o alimento extra dos escravos que trabalhavam nas fazendas instaladas na região: Ostras, siris, caranguejos e mapés sempre foram os frutos do mar mais catados. Hoje, a mariscagem é praticada principalmente por mulheres. O salgamento de peixes miúdos (xangô e petitinga) e a defumação de camarões são as duas formas de beneficiamento do pescado na região.

O potencial turístico e histórico de Coqueiros do Paraguaçu pode ser aproveitado, através da navegação em Saveiros, que de meados do século XIX até meados do século XX inham grande importância no transporte de cargas e pessoas;

A produção de Cerâmica de Coqueiros é outro atrativo à parte, sua principal representante é a Dona Cadu. O saber-fazer passado de geração a geração, transformou essa arte rudimentar, numa das principais fontes de sobrevivência do povo coqueirense. Outros atrativos são de fundamental importância, a exploração de sítios importantes, como a Capela de Nossa Senhora do Rosário, datada do século XVIII; a festa de Bom Jesus dos Navegantes em Janeiro e da praia de Coqueiros, muito visitada por turistas devido à tranquilidade da região.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito de São Roque do Paraguaçu, em Maragogipe


Coordenadas: 12°51'22.04"S/ 38°50'27.90"O

Povoados: Quilombo das Salaminas, Enseada do Paraguaçu.

Histórico:
A história de São Roque do Paraguaçu, assim como a de Capanema ou Guaí, é uma das mais antigas da região, muito mais até, que a sede do município. A presença portuguesa nessa região foi importantíssima, devido à presença de um ancoradouro natural, e nos primeiros anos de sua história, marca-se pelo conflito entre portugueses, franceses e ingleses, na busca pela exploração da madeira tintoreira, e logo após a vitória portuguesa, com a instalação de diversos engenhos de açúcar que logo perderiam espaço comercial para outras regiões da Bahia, que tinham um terreno com a qualidade necessária exigida pelo governo português e outros interesses mais. Os poucos engenhos que sobreviveram foi através das muitas lutas travadas, tanto internamente, na busca pelos melhores compradores, quanto na invasão batava, em que muitos sucumbiram e não conseguiram mais retornar às atividades.

Desde tempos imemoriais a região na qual, localiza-se São Roque do Paraguaçu foi cobiçada. Em tempo, a Câmara de Maragogipe estava sempre em litígio com a de Jaguaripe. Esta última enviou diversos pedidos de anexação do território para a Assembléia Legislativa, um deles data de 23 de setembro de 1843 e esse processo durou até 1889 quando ficou acordado que prevalecessem os antigos limites. Antes mesmo da confirmação, em 20 de julho de 1881, foi criado o distrito de Paz de São Roque. O ato foi uma das jogadas políticas que fez com que São Roque continuasse sob jurisdição do município do Maragogipe.

Apesar dos diversos conflitos pela posse desta terra e de sua antiga história, São Roque demorou para se constituir, enquanto vila, pois a maioria de suas terras estava composta por grandes fazendas. Somente em 15 de fevereiro de 1933, pelo decreto estadual no 8311 que foi criado o distrito de São Roque do Paraguassu, desmembrando-o, novamente, do então distrito de Santo Antonio de Capanema e anexando-o ao município de Maragogipe. Em 1938 São Roque do Paraguassu, passou a ser chamado apenas de São Roque e recentemente passou a ser chamado de São Roque de Paraguaçu.

Em 1976 foi construído o Canteiro de Obras de São Roque do Paraguaçu, de propriedade da Petrobrás devido às condições favoráveis do acesso marítimo, entre outros fatores. A maior parte do canteiro, é destinada a montagem de plataformas, em outras partes funcionam oficinas de pré-montagem, estocagem, montagem de estacas, pinturas, etc... Foram dois anos de elaboração e implantação deste canteiro, que se tornou um dos mais importantes do país. Em 1978 ele foi arrendado ao consórcio Ítalo-Brasileiro Montreal-Micoperi, que construiu três plataformas de aço para a Bacia de Campos.

O setor off-shore absorveu grande quantidade da mão-de-obra, e em 1980 o número de empregados diretos chegou à 2420. Um ano depois esse número foi reduzido para 1420, estagnando-se ao longo do tempo. Nessa última década, o setor novamente esquentou, primeiro com a montagem de duas plataformas e, recentemente, com a liberação da construção do Estaleiro Enseada do Paraguaçu que é a esperança por um melhor condição de vida de todas as comunidades que está em torno do maior empreendimento aplicado nessa região nos últimos tempos.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um pouco do Coronelismo em Maragogipe

Por: Zevaldo Sousa

Eul Soo Pang fala em seu texto “Coronelismo: Um Enfoque Oligárquico da Política Brasileira”, que o coronelismo vai desde a queda do Império até 1930 com a revolução de Vargas. Em Maragogipe, entre Políticos e Coronéis, encontramos uma população que ficou dividida no novo paradigma da economia maragogipana, ou ia para a cidade tentar a sorte nas grandes fábricas de charuto da Suerdieck e da Dannemann que estavam aparecendo naquele momento ou continuavam trabalhando na zona rural mantendo antigas relações de escravidão. 

O presidente Campos Salles fundou um sistema de troca de favores que, partindo do executivo federal, espalhou-se pelo pais inteiro. Essa política, de certa forma, é conhecida de "Política dos Governadores", implementada em 1902, lembra, na sua simplicidade, o toma lá, dá cá. O presidente da república exigia que os governadores lhes enviassem bancadas concordes com a sua política. Em troca, ele sustentava as propostas regionais dos governadores. Estes por sua volta articulavam-se com os coronéis do seu estado, fazendo com que também eles mandassem para a assembléia legislativa na capital do estado, deputados acertados com os interesses políticos do governador.

É importante ressaltar que a população maragogipana, desde o período imperial é tipicamente rural, fruto de antigos sistemas econômicos que colocavam Maragogipe como região produtora de produtos de primeira necessidade, tendo sua produção voltada para localidades com economia de exportação e/ou a capital baiana.

As novidades acarretadas pelo crescimento econômico e a vontade de libertação do antigo sistema, faz com que grande parte da população, principalmente negra, volte-se para a cidade e mude as relações existentes no sistema, marcando com isso, a vida na cidade maragogipana.

Um novo integrante, com forte poderio econômico, entrou em cena, os alemães. Sendo assim, Políticos e Coronéis já existentes usaram o seu poder político e o pouco poder econômico e social que tinham para controlar parte da produção do fumo, como também, parte da população. Assim como “usariam” a Política dos Governadores com objetivo de garantir a sua manutenção no poder com a troca de votos. Vale ressaltar que não existia eleições municipais, os Intendentes eram nomeados pelo governador, após indicação dos coronéis e políticos que faziam aliança com o governador vencedor, os derrotados eram “degolados” do sistema.

O Engenheiro Flaviano Amado de Souza (1891-1894) foi o primeiro intendente do município na República e era um dos grandes coronéis do Município, herdeiro do Padre Aniceto (religioso, político e dono de grandes áreas de cultivo, muito influente nos assuntos do Estado no período imperial, inclusive, pelo sua característica de manda-chuva), Flaviano herdou suas terras e um pouco do seu jeito político de agir.

Os anos da República Velha serão marcados por mudanças na estrutura física da cidade, é nesse momento que duas cidades estarão englobadas em uma. Uma feita com tijolos e outra de taipa, fruto do processo de êxodo rural instaurado no período. Apesar de certa perda na dominação econômica do município, os coronéis entenderam que necessitavam mudar seus interesses com objetivo de manter-se no poder.

O último dos intendentes foi Getúlio de Góis Tourinho (1930) e coincidências a parte, o fato é que, o seu famoso xará, Getúlio Vargas tomará o poder em trinta e a partir daí, uma nova fase é instaurada no Brasil e em Maragogipe. O cargo de intendente é abolido e no seu lugar é instaurado o cargo de Interventor, sendo o primeiro Anísio Malaquias (1930-1935). Vale ressaltar que o interventor também é nomeado através de indicação, ocorrendo uma eleição municipal, em que poucos eram os participantes e sua maioria era composta por integrantes do PSD, partido juracisista que apoia o Governo Vargas na Bahia e quem faz a indicação dos interventores.

Vale ressaltar, que apesar de Anísio Malaquias ser considerado um coronel, assim como seus sucessores, não se pode usar o conceito de “Coronelismo”, pois o interesse agora é partidário.

sábado, 14 de agosto de 2010

No Brasil Império, toma lá dá cá garantia vitória do governo

Fonte: Terra
Rosane Soares Santana

O uso da máquina pública para garantir a vitória do partido do governo foi um dos aspectos mais marcantes das eleições no Brasil Império, além da fraude e da violência. A distribuição de cargos, a substituição de juízes, o aumento de salários de servidores e a nomeação de novos presidentes de província - aos quais cabia comandar, com mão de ferro, o processo eleitoral - foram rituais repetidos nas 18 eleições ocorridas durante todo o Segundo Reinado (1840-1889).

Um dos mais destacados estudiosos do Brasil Império, o brasilianista Richard Graham (Clientelismo e Política no Século XIX, Editora UFRJ) observou que a troca de favores entre os políticos e suas clientelas locais e regionais foi o caminho para a realização de eleições pacíficas, sem uso da força. A distribuição de cargos públicos, inclusive na cooptação de lideranças-chave da oposição, foi fundamental para garantir a ordem e assegurar uma aparência de legalidade ao processo eleitoral, possibilitando inserir o País no contexto das nações civilizadas e adeptas da democracia representativa.

O presidente da província era figura estratégica no processo eleitoral, cabendo a ele garantir a vitória do governo no pleito. Com o poder de afastar, substituir e até determinar a aposentadoria antecipada de juízes, anular resultado das apurações e preencher atas eleitorais com nomes de sua preferência, eles conseguiam, quase sempre, garantir a vitória de parlamentares afinados com o poder central.

"O gabinete esforçava-se nomeando presidentes (de província) e chefes de polícia de sua confiança, removendo juízes de direito e dando as comarcas aos seus protegidos, demitindo alguns empregados, reintegrando outros (...) procedendo a todos os atos preparatórios, necessários ao bom êxito da eleição", observa Graham.

O caso baiano

Na Bahia esta prática é anterior ao Segundo Reinado. Em 1835, por exemplo, após a proclamação dos resultados da primeira eleição para a Assembléia Provincial, o presidente da província Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, mandou proceder uma recontagem de votos, que acabou com a inclusão, entre os deputados eleitos, dos nomes dos bacharéis André Corsino Pinto Chichorro da Gama, parente de Antonio Pinto Chichorro da Gama, ex-ministro do Império, e Luiz Barbalho Muniz Fiúza Barreto, futuro Barão de Monjardim. Ambos filhos de famílias proprietárias de engenho no recôncavo baiano, nata da elite política imperial.

Outro exemplo claro de uso da máquina pública nas eleições para favorecimento de aliados governistas, na Bahia imperial, foi o caso de Ignácio Anicleto de Souza, padre, proprietário de engenho, presidente da Câmara de Vereadores(1835) e juiz de paz na localidade de Maragogipe, também na região do recôncavo. Ele concentrava em suas mãos, a um só tempo, poder eclesiástico, econômico, judicial e político, sendo, portanto, peça-chave para garantir a vitória do governo em qualquer eleição.

Em 1838, já secretário da Câmara de Vereadores, quatro meses depois da eleição para a terceira legislatura da Assembléia Provincial, solicitou e teve seu salário equiparado aos salários dos secretários das Câmara de Feira de Santana, segunda vila mais importante da província, e Santo Amaro, que, seguramente, auferiam maiores rendas do que a vila de Maragogipe.

Seu salário simplesmente dobrou, passando para 500 mil réis anuais, cerca de 50% das despesas da Câmara, orçadas em 1.180 mil réis. Isso atesta o imenso poder de barganha do padre-mandão junto à presidência da província, porque possuía poderes para controlar fatia significativa do eleitorado local.

A política de favorecimento era praticada em todos os escalões do governo imperial, com a nomeação de apadrinhados políticos para os cargos da burocracia. Fazia parte da cultura política e não havia quem pudesse vencer uma eleição sem o "toma lá dá cá". Sem alternativa e para manter a longa paz no Império, durante todo o seu reinado D. Pedro II permitiu que, para posições de confiança, fossem negligenciadas as qualificações.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pão e circo, ou a morte do outro

Recebi e-mail de Antonio Gregoria de Matos, desejando a publicação deste artigo.

JUSSEMAR WEISS GONÇALVES

Este texto busca mostrar o significado da política do pão e circo, não apenas durante sua existência no período imperial. O artigo mostra que as raízes dessas práticas estão já na República romana na figura do clientelismo. Palavras-chaves: política, império, igualdade, coisa pública, democracia, deliberação. espetáculo.


Parece ser um fato aceito por especialistas que após o século IV a.C. até a Revolução Francesa, a prática e a reflexão sobre a política não envolveu nenhum tipo de consideração quanto à democracia. Nesse longo período, a prática democrática, se não foi totalmente esquecida, passou por um processo de negação violenta. Essa negação se estendia desde a atitude de Platão, que considerava o fim da democracia não como uma questão histórica, mas como uma questão de princípio. Para esse autor, a democracia não terminou porque esgotou seu modelo, mas por ter sido um erro. A democracia acabou por uma questão de direito, já que ela, na verdade, não deveria ter existido. Passava pela visão de Cícero, que considerava essa forma de organização do espaço público como simplesmente desordem, sem princípios louváveis e dominada na prática por homens despreparados para a vida civil. A reflexão sobre o que devia ser, quais seus princípios e quem deveria exercer a autoridade pública não abandonou o horizonte da preocupação clássica com a política; o que é certo, no entanto, é que essa preocupação pautou-se, após a experiência ateniense com a democracia, em trazer sempre uma crítica ao alargamento do espaço de ação dos cidadãos na gestão dos negócios públicos. O certo é que, embora a filosofia tenha a partir do século I V inaugurado a reflexão sobre a política, esta não se fazia a partir de uma teoria da democracia, mas daquilo que era caro à prática tradicional nas cidades clássicas, ou seja, definir de forma excludente a possibilidade de ação na cidade. Não era apenas uma discussão sobre a participação ligada a uma definição da natureza humana como natureza política, como diz Aristóteles, mas era, de certa forma, construir argumentos que levassem à exclusão da maioria, mediante a criação de um processo de seleção daqueles que dentre os cidadãos poderiam exercer a autoridade na cidade. Assim, com o século IV a. C. a prática da democracia em Atenas se transforma em demagogia, na qual a cidadania perde sua eficácia, já que a participação se transforma em uma ação marcada por troca de favores, na qual a elite, mediante presentes, comprava o voto do demos. A crítica levada a efeito por Demóstenes mostra como a assembléia é utilizada como massa de manobra na concretização dos interesses dos grupos aristocráticos que dominam a cidade. Negando a participação alargada, reduzindo o universo dos partícipes na assembléia, a elite política do século IV em Atenas excluía o demos e dirigia a cidade a partir de seus interesses. A oligarquia domina e através do predomínio de uma postura conservadora exclui a democracia como prática política. A grande reforma que construiu a democracia no século V a. C. e que se fundou no alargamento da participação e na igualdade perante a lei levou à constituição de uma ação política na quais os cidadãos se identificavam uns com os outros na ágora, já que acreditavam que sua palavra marcava a ação do outro. Dessa forma, a democracia se realizava como um concerto no qual os cidadãos a partir da isonomia e da isegoria construíam a si como humanos. A condição humana se realizava como condição política e cada homem se encontrava consigo à medida que participava da assembléia. Nessa dança política, o outro, o sujeito, é reconhecido e necessário ao andamento da democracia, já que cada cidadão se completa na ação do outro. A deliberação estudada por Aristóteles revela esse movimento de reconhecimento da figura do outro como alguém que participa e intervém na vida política do outro. Não democracia sem essa mediação das vozes que se cruzam no espaço da agora. Ora, é isso que o Ocidente negou por vários séculos: a igualdade política, o entrecruzamentos das vozes na assembléia, pois, após os duzentos anos de democracia ateniense, a experiência oligárquica tornou-se dominante. Essa experiência oligárquica retoma a noção de participação aristocrática, na qual apenas o chefe das famílias nobres tem acesso à direção dos negócios da cidade. O que se nota é que, enquanto na democracia ateniense as regalias aristocráticas ligadas ao genos, ao clã, são definitivamente superadas, como demonstram as reformas de Clistenes, o modelo oligárquico realiza não uma superação da tradição, mas um alargamento dela, na medida em que introduz nessa tradição elementos políticos que levam a uma adaptação do modelo patriarcal à organização política da cidade. Assim, retomando o título deste trabalho: como podemos entender a experiência do pão e circo no império? O que temos em Roma enquanto centro de um império é o desenvolvimento de uma pragmática na qual as relações de clientelismo são repostas em uma situação nova. Essa situação nova é o império, com sua forma específica de governar, que traz em si a marca da herança do modelo da república romana. Essa república nunca atingiu o nível de igualdade política semelhante a Atenas, já que a cidade não era entendida como a reunião dos cidadãos, mas como um arcabouço jurídico-político no qual os cidadãos participam mediante leis específicas e práticas que dividem os cidadãos em ordens. É a grande família patrícia que governa o império, ou seus representantes, não existe espaço para a democracia direta como em Atenas. Ora o que temos de diferente no império é o clientelismo se tornando uma forma de mediação entre o império e o povo. Se na república o clientelismo era uma prática que ligava a família patriarcal aristocrática a um grupo de dependentes, famílias pobres e servis, no império essa relação se constitui entre o próprio estado e o povo. É o imperador que assume o lugar do aristocrata; é ele que azeita a relação de dependência que se estabelece, mediante a doação de alimentos e diversão. O espetáculo assume um caráter de unidade, no qual o povo, cliente, se encontra com o seu pai, o imperador, que por meio da apresentação pública recebe a gratificação da festa. O que o espetáculo faz é atualizar a relação de clientelismo, experiência conhecida e característica da política romana, e que no império se fortalece a partir da ação do estado. O povo romano, que em outros tempos distribuía magistraturas, cargos e legiões, agora é mais modesto, não reclama mais do que duas ações: pão e circo. Nesses versos famosos de Juvenal aparece de forma clara como o autor deplora a situação política durante o império. Não há mais ação política, iniciativa dos cidadãos, mas eles, os cidadãos, são governados a partir da premiação vil, concretizada em diversão e alimento. Os versos famosos de Juvenal se tornaram proverbiais em dois sentidos. Primeiro: a prática do “pão e circo” resulta de uma troca entre o povo e a classe dominante. Ela fornece festas e alimentos, e o povo, o consentimento. Segundo: essa troca privilegia a classe dominante e revela uma idéia de despolitização. Em que sentido o ditado de Juvenal deve ser pensado? Juvenal diz: “as satisfações materiais colocam o povo em um sórdido materialismo, no qual as preocupações com a liberdade são esquecidas”. O circo e o alimento fazem com que o povo abandone sua ação política e que, estando satisfeito, deixe de lado a luta pela igualdade. O que faz Juvenal? Mais do que uma explicação, o autor nos brinda com um julgamento, pois coloca o ideal humano como sendo aquele de um ser humano autônomo. Para ele, todo homem deveria fazer política, e não deixar o governo, os políticos, fazer por ele. Ora, o modelo de Juvenal não é o romano, mas o grego ateniense, já que nunca, nem mesmo na república, o povo participou da forma como Juvenal pretende, pois a prática da política do pão e circo é um desdobramento do clientelismo que lubrificava as relações entre elite e povo na cidade republicana. Juvenal lamenta que os homens não agem segundo o ideal, mas segundo um código de custo e beneficio, ou seja, apoio em troca alimento e diversão. Argumentando a partir do ideal, Juvenal vê na ação das elites imperiais uma maquinação, já que aceita a premissa de que todos os homens se interessam de forma apaixonada por política em vez de deixar esta em mãos dos especialistas, ou que os homens fazem da igualdade uma questão de princípio e que não admitem a desigualdade. De novo Juvenal voa para além da experiência romana, que Cícero, em sua obra República, explica de forma clara. Ele diz que o problema da república é uma mudança de mentalidade das elites que abandonaram a velha tradição aristocrática de assumir a direção moral e política da cidade. Para Cícero, a questão está em uma aristocracia que perdeu o sentido da tradição e abandonou o seu preceito de mantenedora de ordem. Em suma, os aristocratas, em troca das riquezas produzidas no último século a. C., deixaram de dar importância a sua função específica de fazer política. Assim, na verdade, Juvenal confunde o seu ideal com a prática romana que nunca pressupôs um ideal democrático. A prática política imperial recupera o ideal republicano do cidadão cliente, já que atualiza a relação hierárquica de participação política da Roma republicana. Quanto à questão da igualdade, Juvenal esquece que em Roma essa igualdade não pressupunha como em Atenas uma ação direta, mas era uma igualdade formal, produzindo mais uma participação seletiva do que universal. Como bem explica Cícero, a participação política era dever para a aristocracia.

Assim, parece que essas duas suposições não são corretas se levarmos em conta a experiência romana que se caracteriza pela apatia política da maior parte dos homens. O que deseja um homem comum é que o governo faça uma boa administração, já que ele, o homem comum, reconhece seu lugar nesse império. Assim, ao reclamar do povo romano, que no império vive comendo e se divertindo, Juvenal coloca, mesmo que de forma não muito correta, uma verdade. A política do pão e circo, embora não seja fruto de um maquiavelismo dos governantes, na verdade revela, e nisso Juvenal tem razão, que a política do ponto de vista dos governantes consiste em evitar que os governados participem ou que participem o menos possível das atividades políticas. Ao afirmar isso, Juvenal mostra uma visão mais real da prática imperial, e reafirma Cícero, que defendia a ação política como uma ação de natureza aristocrática, ou seja, realizada por um grupo de famílias tradicionalmente ligadas à direção da cidade. Dessa forma o governo faz ações a partir das quais apenas ele realiza o ato político, deixando espontaneamente o povo livre da responsabilidade de agir na cidade, para gozar o seu tempo em espetáculos. Também a frase de Juvenal acerta ao revelar que essa visão excludente da ação política imperial despolitiza a cidade, a partir de uma ação que desenvolve uma cultura do apoliticismo. Inegavelmente o provérbio de Juvenal sublinha cruelmente que um dois lados do binômio governo-governado tira mais proveito das coisas que o outro. Não há uma relação de reciprocidade entre governo e governado, intercalando-se no exercício do poder, mas a permanente predomínio da elite na direção do império. Não existe uma relação simétrica. A política imperial, reconhece Juvenal, serve aos senhores do império, militares, aristocratas e homens ricos, que governam para si o mundo. Partindo de um pressuposto-não romano do que seja a política, Juvenal, no entanto, acerta ao detectar o problema: o pão e circo é uma ação de uma elite que governa dispensando o povo da responsabilidade de governar junto. Quem é o governo, pergunta Juvenal? É uma monarquia que retira o populus da res publica, da coisa pública, fazendo com que cada um perceba que daquele momento em diante a política é uma atividade somente da monarquia. A vida cotidiana, diz Juvenal, se esgota em uma rotina fútil de espetáculos. O circo, que era uma velha paixão aristocrática, se transforma em uma mania do povo, que passa a exigir que cada vez mais espetáculos mais elaborados mais eloqüentes. Artistas do império se dirigem a Roma, pois a grande cidade é o lugar de convergência dos melhores. Saídos dos confins do império, gladiadores, mágicos chegam a Roma para propiciar um direito aos cidadãos – o direito ao espetáculo. Assim, diz Juvenal, de política não se fala mais e o cidadão vira espectador, a assistir ao circo. O espetáculo se torna o lugar central do acontecer público, no qual o povo é chamado a participar enquanto sujeito de uma emoção. Essa emoção se realiza de duas maneiras: uma, específica do espetáculo, que liga cada um e todos ao desenvolvimento do trabalho feito na arena, que o catalisa. A outra diz respeito à presença do imperador, que marca de forma indelével o próprio ritual da corte imperial, já que nesses momentos especiais se realiza uma troca, uma simbiose, na qual a grande massa de homens e mulheres sem rosto se encontra com o único individuo, encontra o pai e recebe o seu amor. O imperador volta ao povo, mergulha em seu seio e recebe o clamor de reconhecimento. Ele volta, no sentido em que está distanciado politicamente, pois a política, como já vimos, dispensou a população de seu trato cotidiano. O espetáculo propicia essa volta original que a assembléia realizava na praça pública. Assim, sem a praça, sem a ágora e, portanto, sem ligação de natureza política, o elo entre o imperador e o seu povo se concretiza através do espetáculo, que pela sua grandiosidade revela o caráter quase sagrado dessa visualização do Pai. Juvenal não pára por aí, pois, se os homens romanos não se importam com as desigualdades, em viver nelas, e têm uma atitude apática em relação a ela, o provérbio coloca uma outra ilusão: que a sociedade é justa. O povo se submete com uma docilidade quase igual em regimes diferentes que lhe dão satisfações diferentes. Se os governantes não são justos, não se preocupam com as desigualdades e, portanto, a sociedade é também injusta, o que seria a relação pão e circo? Podemos aceitar que a relação constituída por pão e circo é uma troca? O imperador lhes dá prazer e a si mesmo e o povo devolve passividade política? O pressuposto dessa pergunta é a existência de um acordo, se não claro e objetivo, obscuro, opaco, entre governo e governado, mas não é assim, pois, vista dessa forma, ou seja, como emanação da vontade do dirigente e que se ordena a partir de uma lógica hierárquica, política não é um contrato que os governados podem aceitar ou recusar. Não existe uma assembléia, um lugar central e acessível a todos, no qual todos se colocam como iguais politicamente, e de onde as decisões brotariam e para onde toda e qualquer divergência poderia voltar. Nesse sistema hierárquico e assimétrico, toda recusa é revolta. Não existe uma relação de homologia entre imperador e povo; eles não se encontram em lugar no qual todos são idênticos, mas, ao contrário, a presença do monarca marca a diferença, o outro não-igual e o espetáculo como sua marca. Assim é o imperador que escolhe e determina a direção do futuro; é ele que anuncia o possível e conclama o povo a segui-lo. Dessa forma, em uma relação desigual, o povo faz a sua parte, ou seja, aceita o pão e circo. Assim, pão e circo adquirem o conteúdo pedagógico de uma política na qual a submissão é o único caminho. É uma forma de governo dos espíritos, levando-os em direção aos desejos do imperador. A morte do outro, como aparece no título, se realiza nesse sentido em que não há nenhum tipo de reciprocidade, de valorização da voz de um sobre a ação de outro. O espetáculo imperial, ao encher os olhos dos espectadores com artifícios, esvazia suas almas da faculdade da deliberação tão cara ao ato da liberdade política e da construção do outro.

REFERÊNCIAS:
ARISTOTELES. Politique. Paris: Flammarion, 1998.
CASTORIADIS, Cornelius. Sobre o Político de Platão. São Paulo: Loyola, 2004. CICÉRON. République. Paris: Belle Lettres, 1986.
CICÉRON, Quintus Tullius. Petit manuel de campagne électorale. Traduit du Latin par J. Y. Boriaud. Paris, 1999.
JUVENAL. Ecrits. Paris: Garnier, 1947. PLATON. Le sofiste. Paris: Gallimard, 1987. _____. Le politique. Paris: Belles Lettres, 1976. VEYNE, Paul. Le pain et le cirque. Paris: Seuil, 1976.


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