Mostrando postagens com marcador Monarquia Maragogipana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Monarquia Maragogipana. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Censo de 1872 revela dados da população em Maragogipe e paróquias

Mapa de Maragogipe extraído do Mapa da Bahia disponível no site
Ter uma ideia histórica saindo do senso comum, de como era a vida nas cidades do interior é um pouco difícil, principalmente, para aqueles que não estão preocupados com o passado, nem muito menos, em possíveis respostas para indagações do presente. A vida de aparências é muito disponível nos dias atuais, mas no passado, não tínhamos como negar nossas origens.

Se a pessoa tinha a cor parda ou negra, poderia ou não ser tratada como escrava, apesar de na sua maioria, ser tratada desta forma indigna. A pele branca definia quem mandava em quem no Brasil Colônia e Imperial, e em Maragogipe, no Recôncavo da Bahia, não era diferente.

Segundo dados do Censo de 1872, único no Brasil a registrar população escrava, que está disponível na internet, através do site "Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfia" (UFMG), Maragogipe contava com quatro paróquias, sendo elas: São Bartholomeo de Maragogipe, São Fellipe de Maragogipe, Santanna do Rio da Dona e Nossa Senhora da Conceição do Almeida e contava com 46.614 habitantes, entre livres e escravos. Vale ressaltar, que este censo constitui uma das fontes mais importantes para o conhecimento da história demográfica, social e econômica do Brasil no século XIX

Este é considerado o primeiro censo demográfico realizado em território brasileiro, à época imperial. A partir de 1890, os censos começaram a ser realizados pela então Direção Geral de Estatística. Desde entãoos censos ocorreram de dez em dez anos, em média, ainda que em 1910 e 1930 impedimentos políticos tenham impedido a realização. Entre no site e confira o Censo de 1872 completo. Como você não tem cadastro, clique em Cadastro e pegue o email e senha que já está disponível.

Aparecerá um software de consulta, chamado Pop-72, que elaborado para extrair todos os dados contidos no Recenseamento Geral do Império do Brasil de 1872. O Pop-72 foi produzido no âmbito da pesquisa “Publicação Crítica do Recenseamento Geral do Império do Brasil de 1872”, contando com o apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).

Única contagem da população que, durante o período imperial e escravista, cobriu todo o território nacional, o censo de 1872 arrolou quase 10 milhões de habitantes, que estavam distribuídos em 21 províncias e o Município Neutro. Cada província se subdividia em municípios e estes em paróquias, 1.440, ao todo, sendo estas as unidades mínimas de informação. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Prefeitos de Maragogipe, do final do Império à Atualidade

Durante os períodos de Colônia e Império, aos presidentes da Câmaras de Vereadores atribuíam se-lhes as disposições executivas. O plenário votava a matéria e o presidente executava a proposição aprovada. Dos presidentes da Câmara de Vereadores de Maragogipe, os que exerceram por mais vezes o cargo, foram o Pe. Inácio Aniceto de Sousa e Antônio Filipe de Melo. O primeiro, no meado do século XIX, eleito deputado à Assembléia Provincial, renunciou ao mandato, porque optou pelo de Vereador à Câmara de Maragogipe, e se elegeu presidente desta.

Como Presidentes do Conselho Municipal
  1. Manuel Pereira Guedes      (1871 - 1874)
  2. Artur Rodrigues Seixas      (1875 - 1878)
  3. Antonio Filipe de Melo      (1879 - 1882)
  4. Dr. João Câncio de Alcântara (1883 - 1886)
  5. Silvano da Costa Pestana   (1887-1890)
Com a República, cindiu-se o poder, adotando a corporação o nome de Conselho, e o executivo o de Intendente. Com este nome, em Maragogipe, ocuparam o poder executivo, em ordem cronológica:

Com Intendentes
  1. Engenheiro Flaviano Amado de Sousa (1891 -1894)
  2. Dr. Pompílio Borges (1895 - 1898)
  3. Luís Próspero Ratton  (1899 - 1902)
  4. Dr. Joaquim Gonzalves (1903 - 1906)
  5. Manuel Pereira Rebouças (1907 - 1910)
  6. João Primo Guerreiro (1911-1914)
  7. Engenheiro Júlio dos Santos Sá (1915 - 1918)
  8. Manoel Astrogildo Bandeira (15 dias)
  9. Elpídio da Paz Guerreiro (1920)
  10. Alexandre Alves Peixoto (1920 - 1921)
  11. Porfírio Sicopira Filho (Por força de habeas-corpus 4 meses)
  12. Alexandre Alves Peixoto (1921 - 1926)
  13. Getúlio de Góis Tourinho (1926)
  14. Alexandre Alves Peixoto (1927 - 1930)

Por motivo de licença ou vaga de titulares, na qualidade de presidente do Legislativo, passaram por alguns meses pelo Executivo:
  • Artur Rodrigues Seixas
  • João Câncio de Alcântara
  • Silvano Pestana
A partir de 1930, com as modificações introduzidas pela Revolução Liberal, voltou o legislativo ao antigo nome, Câmara de Vereadores, e o Intendente a chamar-se Prefeito, contudo muitos foram nomeados, chamando-se de Interventores.

Como Interventores
  1. Anísio Malaquias (1930-1935)
  2. Oscar de Araújo Guerreiro (1936 - 1943)
  3. Dr. Abilio Alves Peixoto (1943 - 1946)
  4. Dr. Perminio Alves Maia Amorim (poucos meses)
  5. Dr. Alberto da Cunha Veloso (idem)
  6. Dr. Abilio ALves Peixoto (idem)
  7. Bartolomeu de Brito Sousa (11 meses)
  8. Ermezindo Mendes (poucos meses)
Como Prefeitos eleitos
  1. Juarez Bartolomeu Guerreiro (1947 - 1950)
  2. Ariston Pimentel Vieira (1951 - 1954)
  3. Juarez Bartolomeu Guerreiro (1955 - 1958)
  4. Plínio Pereira Guedes (1959 - 1962)
  5. Isaac Guedes Armede (1963 - 1966)
  6. Plínio Pereira Guedes (1967 - 1970)
  7. Cid Seixas Fraga (1971- 1972)
  8. Francisco Guedes Vieira (1973 - 1976)
  9. Antomeu Brito Souza (1977 -1982)
  10. Bartolomeu de Ataíde Teixeira (1983 - 1988)
  11. Plínio Pereira Guedes (1989 - 1990)
  12. Domingos de Mello e Albuquerque (1991 - 1992)
  13. Rubens Guerra Armede (1993 - 1996)
  14. Bartolomeu de Ataíde Teixeira (1997 - 2000)
  15. Raimundo Gabriel de Oliveira (2001 - 2003) Afastado
  16. Carlos Hermano (2003 - 2004)
  17. Silvio José Santana Santos (2005 - 2008)
  18. Silvio José Santana Santos (2009 - 2012)
  19. Vera Lucia Maria dos Santos (2013 - ....)
Nomeado Prefeito, no ínicio de 1920, Manuel Astrogildo Bandeira, após 15 dias de mandato, solicitou a sua demissão, por dissidência com o chefe político local. E Porfírio Sicopira Filho, por força de "habeas corpus", em 1921, permaneceu no cargo quatro meses, em competição com Alexandre Alves Peixoto, vencendo este afinal.
  
De 10 de agosto à 18 de agosto de 2011, por motivos de afastamento do prefeito Silvio José Santana Santos, seu vice-prefeito Romario Costa da Silva assumiu o mandato.

Osvaldo Sá, in: Histórias Menores, Vol. 3, p. 162-3; Salvador-BA; 1983
Fernando Sá, in: Coleção Cultura de Maragojipe, 2001

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Visita da Família Real a Maragogipe

DO BLOG: Este é um fragmento do Jornal Cachoeira exposto no livro de Fernando Sá descrevendo a solene recepção que os maragogipanos fizeram ao Imperador Dom Pedro II, em 09 de novembro de 1859, depois que os mesmos chegaram no vapor Pirajá.

Vale ressaltar que, no livro de Fernando Sá, ele troca o nome Maragogipe, com o grafema "G", para Maragojpe com o grafema "J" e essa troca é um erro. Em minhas pesquisas, descobri que parte desse texto está no livro "Diário da Viagem ao Norte do Brasil" escrito pelo próprio D. Pedro II. E lá, Maragogipe está escrito com o grafema "G". Outros detalhes vou preferi que o leitor descubra por si, pois vale a análise do documento. Por fim, será interessante ler alguns comentários sobre o mesmo.

Eram três horas mais ou menos, quando avistou-se o vapor que conduzia os augustos visitantes; indo ao seu encontro, em uma canoa ricamente preparada, o juiz municipal, para receber as determinações imperiais; voltou pouco depois que a boa nova de que S.S.M.M. desembarcariam já.

Logo que o escaler imperial chegou ao lugar Cajá, foi passado por entre alas de canoas todas embandeiradas e tripuladas por homens vestidos de alvo, cintos escarlates e bonéis azuis, os quis não cessavam de dar vivas e atirar foguetes.

Chegado este cortejo marítimo ao porto do mesmo nome, foi recebido por música que tocava o hino nacional, havendo por essa ocasião uma salva de 101 granadas que simulavam perfeitamente tiros de canhão.

O escaler seguiu rio acima até o Porto Grande, onde ao aproximar-se S.M. o Imperador mostrou-se de pé, o que produziu no imenso povo que o esperava a mais incompreensível emoção, o mais frenético entusiasmo, traduzido perfeitamente pelo grito uníssono de – Viva o Imperador – Viva a Imperatriz – que soava de todos os lados.

Este lugar estava elegantemente preparado. Em toda extensão da ponte que se prolonga até o Porto das Vagas se viam tremular das diversas nações aliadas e envolta com outras nacionais, o que produzia um não sei que de majestoso ao completar-se o matiz que faziam ao espaço com o alvor da mesma ponte, toda caiada de novo.

No centro do cais estendia-se até o meio do rio, uma larga escadaria tapetizada de amarelo, havendo ao lado desta escada corrimões de gradaria que espaçados por bonitos pedestais, onde descansavam vasos bem talhados plantados de craveiros naturais que se curvam com o peso da flor pendentes de todas as hastes. O mesmo se via em toda frente do cais, no qual balançavam-se bandeiras imperiais. Terminada a escada, elevava-se pouco adiante, um arco de cetim carmesim semeado de rosas brancas, tendo no centro uma coroa imperial descansada sobre um losango, no meio do qual se lia o seguinte:

De Maragogipe o povo
Com respeito o mais profundo
Saúda a Imperatriz
Saúda a Pedro Segundo

Em seguida a este arco estavam formadas em alas vinte meninas vestidas de alvo, com cestinhas cheias de flores, as quais representavam as vinte províncias, como se via na fita verde que cada uma trazia a tiracolo com o nome da província em letras de ouro. Uma delas, a Bahia, aproximou-se de S.M. a Imperatriz lhe espargiu flores, o que imitaram as outras, recitando aquela, com voz firme e maviosa, o seguinte soneto:

Submissão, respeito, amor, saudade,
Guiam meus passos nessa doce empresa:
Venho oferta-vos, ínclita Princesa,
Este raminho, símbolo de amizade.

Despido da lisonja e da vaidade,
Nele achareis somente singeleza:
É sem ornato e pobre de beleza,
Mas rica de infantil simplicidade.

Simples raminho, pura gratidão,
Vai sumisso, segue sem receio
Para, ante o trono, beijar a augusta mão

Acolhei-o Senhora, em vosso seio,
Daí-lhe, benigna, vossa aceitação
Que em vossos gestos já contemplo e vejo.

Mais adiante estavam meninos vestidos também de alvo e com fitas escarlates e tiracolo lendo-se nela os nomes dos rios mais notáveis do Império. Um deles, o Paraguaçu, chegando-se a S.M. o Imperador, entregou-lhe um ramalhete de cravos, enquanto os mais o cobriam de rosas dizendo aquele a poesia que segue:

Eis, Senhor, vassalos vossos
Que para vos defender
Brasileiros pequeninos
Estão aprendendo a ler.

S.S.M.M. receberam estas demonstrações de inocência com a mais cordial satisfação. A seis passos de distância estava o pavilhão para a cerimônia do Pax Tecum – para onde S.S.M.M. se encaminharam e depois de beijarem a Cruz, o Presidente da Câmara passou a entregar as chaves da cidade, recitando um bem elaborado discurso que atentamente foi ouvido por S.S.M.M., ao qual dignou-se responder, S.M. o Imperador: “Agradeço sobremaneira à Câmara da cidade de Maragogipe”.

Este barracão estava muito bem preparado. Sustentava o seu teto forrado de cetim branco, seis colunas dóricas, forradas de cetim azul claro, tomadas por festões de flores artificiais. No frontispício estavam dois anjos que sustentavam uma bandeira com a inscrição: “Viva o Imperador do Brasil”. Daí seguiram S.S.M.M. em baixo do palio, levados pelos membros da Câmara, para a Igreja Matriz. Em todo este trânsito as flores caíam constantemente sobre S.S.M.M. e os vivas confundidos com os repiques dos sinos, o estoirar dos foguetes e a melodia da música faziam o que há de mais belo e majestoso.

S.S.M.M. fizeram oração na capela do S.S. Sacramento. A igreja estava decente; o trono do altar-mor todo aceso, e do mesmo modo todos os altares. Voltaram depois para o Paço da Câmara, onde estava arvorado o pavilhão imperial. Logo que aí chegaram, S.M. o Imperador, disse para os da sua comitiva: “Maragogipe é uma cidade importante, não é possível ser vista em hora e meia, portanto está alterado o programa por culpa de quem me iludiu; durmo aqui.

O regozijo que causou esta resolução não é possível explicar. Não se via senão o povo correr cheio de entusiasmo pelas ruas repetindo a notícia agradável de que S.M. tinha resolvido dormir nesta cidade! Era uma confusão, era um labirinto de alegria.

Dez cavalos ricamente ajaezados esperavam S.M. e a sua comitiva, além de outros menos enfeitados. S.M. montando, seguiu caminho do hospital. Na extremidade de uma rua que abre caminho para o mesmo hospital havia um arco todo alvo, ornado de folhas e flores naturais, tendo seu frontispício o seguinte:

Das Secílias a – Estrela
Veio ao Norte do Brasil
Prodigalizar bondade
Dar a nós venturas mil

Chegando ao hospital, encaminhou-se à capela que estava ricamente coberta de cetim e galões, sendo recebido pelo provedor e mais membros da mesa. Fez oração, percorrendo depois toda a casa, no que mostrou-se satisfeito. Consolou e conversou com os doentes e, especialmente com um preto velho de cento e tantos anos, a quem S.M. ouviu por muito tempo. Entregou ao provedor, para esmola da casa, um conto de réis. Daí foi ao lugar que serve de cemitério. O seu coração paternal enterneceu-se à vista deste lugar coberto de mato que serve de asilo aos mortos e sabendo que havia um projeto para construir-se um cemitério decente, deu 500$000 para a obra; e o Presidente da Província aí se achava prometeu satisfazer essa necessidade pública.

Voltando para a cidade, visitou as aulas públicas de primeiras letras e latim, demorando-se algum tempo na do ensino primário do sexo masculino, onde, ao entrar os meninos entoaram o – Viva a S.S.M.M. -. Pediu o livro de matrícula, no qual estavam matriculados 60 meninos. Exigiu as escritas, que lhe foram presentes, examinando-as minuciosamente; mandou ler a dois meninos; ditou uma conta de repartir que foi feita pelos alunos; mandou o professor interrogá-los em doutrina, e este o fez na História Sagrada, tomando por ponto o Dilúvio, o nome do primeiro homem, etc. Findo o que S.M. perguntou a um dos meninos: ”- Onde está Jesus Cristo?” que lhe foi respondido belamente. S.M. dando mostra de inteira satisfação deu por finda a visita neste lugar.

Foi a capela do Cajá, à qual deu 200$000, fazendo o mesmo no altar do S. Coração de Jesus. É escusado dizer que nuvens de povo se achavam apinhadas em todos os caminhos vitoriando os augustos visitantes.

Foi também à coletoria geral que estava toda iluminada e cheia de bandeiras imperiais; porém, sendo já noite determinou ao Exmo Presidente para exigir do coletor um relatório do seu movimento.

Eram mais de 7 horas quando voltava ao – Paço - onde chegando a uma das janelas contemplou o bonito dêste lugar. 

De feito, a praça de Maragogipe estava elegante. Aplainada, como ainda está, se via nos quatro ângulos do seu quadrado, elevarem-se arcos triunfais cobertos de cetim e flores artificiais, suspendendo-se no centro de todos eles a bandeira nacional que garbosa se balançava para aqui e ali côo que mais orgulhosa, afrontando rajadas de vento sul que não cessavam de soprar com alguma intensidade.

A cor amarela com que estavam caiadas todas as casas da praça harmonizava-se otimamente com o verde das bandeiras das janelas e portas; e esse quadro mais resplandecia quando, à noite, todas se iluminaram bem como o resto da cidade. A praça de Maragogipe estava verdadeiramente imperial. S.S.M.M. se dignaram dar beija-mão, seguindo-se depois o jantar, para o qual tiveram a honra de ser convidados, o deputado e suplente deste círculo, Câmara Municipal, comandante superior juiz municipal e senhoras que se achavam no Paço.

Findo o jantar, S.M. procurou saber do Presidente da Câmara e estado da sua receita e despesa, determinando-lhe que fizesse disto um relatório e nele declarasse quais os melhoramentos que precisava este município. Mandou vir à sua presença o carcereiro, do qual indagou sobre as prisões, asseio e conservação delas, número de presos, sexos, crimes tempos de prisão, se estavam todos processados, quando teve lugar a última visita; procurando o livro respectivo que lhe foi apresentado, S.M. mostrou-se insatisfeito, pois via ter-se visitando no último de julho, quando há obrigação de ser todos os meses.

Indagou do comandante do batalhão no 34 quantas praças tinha o seu corpo, quantas se apresentaram naquele dia, se havia armamento. Ouvindo em resposta à primeira pergunta: 575, a segunda 144 1 a última: nenhum. Mandou entregar ao Presidente da Câmara e Juiz Municipal 500$000 para os pobres. S.M. a Imperatriz, determinou que se levasse para bordo água de Maragogipe, pois muito tinha gostado dela.

A Sociedade Filarmônica de S. Felipe veio da roça render homenagem aos augustos hospedes, postando-se na praça e tocando diversas de harmonia até alta noite. O mesmo fez a música do Batalhão no 52 que estava de guarda de honra. Houve muitas poesias; S.M. o Imperador assistia a este regozijo do povo em uma das janelas do Paço com muita satisfação. A cidade, nesta noite, ficou em completo dia; não se dormiu, animando mas prazer a lua estava brilhando.

Às quatro horas da madrugada, de 10, foi anunciada a partida de S.S.M.M. Poucas pessoas tiveram de aprontar-se. S.S.M.M., depois de tomarem café, seguiram, acompanhadas da mesma forma do dia anterior, para o embarque, onde deixaram este povo envolto na mais pungente saudade. Muitas lágrimas foram vertidas nestas ocasião. Tiveram a honra de acompanhar S.S.M.M. até a bordo do vapor, a Câmara Municipal, Juiz Municipal, comandante do Corpo do Exército e várias pessoas gradas.

Fonte: Fernando Sá. In: Maragogipe no tempo e no espaço. 2000

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Histórico do Forte de Santa Cruz do Paraguaçu, em Maragogipe

Foto: Zevaldo Sousa
O Forte de Santa Cruz do Paraguaçu localiza-se na margem direita da foz do rio Paraguaçu, na altura da atual cidade de Maragojipe, no estado da Bahia, dominando o acesso ao Recôncavo baiano.

Antecedentes
Foto: Zevaldo Sousa
Um documento datado de 1659 dá conta da existência de três fortes na região, o mais importante dos quais o Forte Real de Paraguaçu (SOUZA, 1983:105). Também conhecido como Forte de Santa Cruz do Paraguaçu, Forte da Barra do Paraguaçu ou Fortinho do Paraguaçu, não existe consenso entre os estudiosos quanto aos seus construtores. A sua forma atual data provávelmente do início do século XVIII, erguido sobre uma estrutura anterior, remontando à primeira metade do século XVII.

No contexto da segunda das Invasões holandesas do Brasil (1630-1654), em conjunto com o Fortim da Forca na margem oposta do rio, com quem cruzava fogos, tinha a função de impedir o acesso de invasores ao sertão do Iguape e seus engenhos de açúcar, e às vilas de Maragojipe e Cachoeira. Fortificação tipicamente de marinha, era flanqueado por água em três dos seus seis lados, levantada em alvenaria de pedra com guaritas de tijolos nos vértices. 

O século XVIII
Foto: Zevaldo Sousa
Um levantamento efetuado pelo Engenheiro José Antônio Caldas, informa que, em 1759, o forte possuía sete peças de artilharia desmontadas, e os seus quartéis em ruínas (SOUZA, 1983:105). O mesmo profissional nos legou iconográfia da estrutura (Planta e fachada do forte de Sta. Cruz do Paraguasû. in: Cartas topográficas contem as plantas e prospectos das fortalezas que defendem a cidade da Bahia de Todos os Santos e seu reconcavo por mar e terra, c. 1764. Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa), que apresenta planta no formato de um polígono hexagonal irregular, com cinco ângulos salientes e um reentrante e parapeitos à barbeta. Sobre o terrapleno, pelo lado da entrada, edificação de um pavimento abrigava as dependências de serviço (Casa de Comando, Quartel da Tropa, Casa de Palamenta, e outras). Estava guarnecido por um Capitão (BARRETTO, 1958:182), acredita-se que neste período.

Foi restaurado em 1762 pelo governo da Capitania da Bahia, provavelmente por João de Abreu de Carvalho Contreiras. Após nova inspeção, em 1772, pelo mesmo Engenheiro José Antônio Caldas, procedeu-se à restauração da Casa do Comando, do Quartel da Tropa e da Casa da Pólvora.

O século XIX
Foto: Zevaldo Sousa
No contexto da Guerra Peninsular, diante da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, com receio de uma possível retaliação francesa, procederam-se trabalhos de limpeza nas instalações do forte (1809).

A partir de 1816 foi considerado sem importância militar, tendo sido desativado e entrando em processo de ruína (SOUZA, 1983:105). Foi percebido em 1859 pelo Imperador D. Pedro II (1840-1889), que registrou em seu diário de viagem:
"4 de Novembro - (...) 2 e 40' - Na margem esquerda [do rio Paraguaçu] vê-se a antiga bica d'água, onde os navios da Bahia vinham fazer aguada. Na margem direita um pouco adiante estão sobre uma ponta de terra as ruínas do fortim chamado de Paraguaçu.
2 3/4 - Na margem esquerda o sítio do Alemão (...)" (PEDRO II, 2003:191) Estando omitidos os dias de 7 a 19 de novembro no Diário do Imperador, existe uma outra referência a esta estrutura na "Narração dos preparativos, festejos e felicitações que tiveram lugar na província da Bahia", publicada por Epiphanio Pessoa ainda em 1859, relativos a essa Viagem:"(...) Às 9 1/2 [do dia 10 de novembro de 1859] passou a esquadrilha pelo 'Fortim', pequeno reduto hoje em abandono, situado à margem direita do rio, e célebre por ter impedido nas lutas da Independência que fosse retomado pelos portugueses um navio de que os cachoeiranos se haviam apoderado." (PEDRO II, 2003:304)
SOUZA (1885) atribui-lhe planta pentagonal, artilhado com sete peças, e em estado de ruína à época (1885) (op. cit., p. 98).

O século XX
Foto: Zevaldo Sousa
Bem imóvel de propriedade da União, as suas ruínas encontram-se tombadas desde 1938 pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Em 1959 foi elaborado um projeto para estabilização e restauração do monumento, porém não chegou a ser implementado. Atualmente restam os vestígios dos muros de pedra do terrapleno e de uma guarita de forma circular, recoberta com cúpula, e um velho canhão (SOUZA, 1983:105).

Existiu um outro forte, à época, na região, com o nome de Forte do Paraguaçu.

Bibliografia:
BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368 p.
FALCÃO, Edgard de Cerqueira. Relíquias da Bahia (Brasil). São Paulo: Of. Gráficas Romili e Lanzara, 1940. 508 p. il. p/b
GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
OLIVEIRA, Mário Mendonça de. As Fortificações Portuguesas de Salvador quando Cabeça do Brasil. Salvador: Omar G., 2004. 264 p. il.
PEDRO II, Imperador do Brasil. Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe, Alagoas, 1859-1860 (2ª ed.). Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras e Expressões, 2003. 340 p. il.
ROHAN, Henrique de Beaurepaire. Relatorio do Estado das Fortalezas da Bahia, pelo Coronel de Engenheiros Henrique de Beaurepaire Rohan, ao Presidente da Província da Bahia, Cons. Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, em 3 de Agosto de 1863. RIGHB. Bahia: Vol. III, nr. 7, mar/1896. p. 51-63.
SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.

Texto retirado: Wikipédia

domingo, 14 de agosto de 2011

LIVRO: Boa Morte - Das memórias de filhinha às Litogravuras de Maragogipe, por Sebastião Heber Vieira Costa


Clique AQUI para Baixar livro
Em seu Livro BOA MORTE - Das memórias de filhinhas às Litogravuras de Maragogipe, Sebastião Heber Vieira Costa explica como se deu uma das Festas mais populares da Bahia, no município de Maragogipe. Leia um texto-resumo que fiz baseado nos escritos de Sebastião Costa.

Na Terra de São Bartolomeu e da Boa Morte, na Igreja da Matriz de São Bartolomeu de Maragogipe há um altar com a imagem dessa devoção, isto é Maria está deitada num esquife mortuário.

A Irmandade da Boa Morte se constituíu de mulheres negras, escravas alforriadas, o que fez com que, pouco a pouco, as Filhas de Maria ocupassem esses lugares na Irmandade.

E a posse de determinados objetos em mãos de descendentes das antigas integrantes da Boa Morte, confirmam a antiga presença daquela irmandade em Maragogipe. Por outro lado, o “achamento” dessas duas gravuras do século XIX, confirma a existência pregressa da Irmandade no local.

O Pe. Sadoc foi o primeiro a falar com Sebastião Costa sobre importância histórica de Maragogipe, da bela e grandiosa igreja que tem como patrono São Bartolomeu, pois a cada 24 de agosto ele é convidado para pregar no dia daquele santo.

A convite do Pe. Mateus de Lima Leal, vigário paroquial, Sebastião Costa foi chamado para passar o carnaval deste ano. "Fui com minha mãe e ficamos hospedados na casa paroquial que é uma construção de
1875. E fiquei encantado com a cidade. Lá tudo cheira à história." diz Sebastião Costa.

A paróquia indicou o estudante de pedagogia, Sócrates Fernandes de Araújo, que é restaurador de imagens antigas e que conhece bem os meandros da história da cidade. A igreja matriz foi construída de 1630 a 1753. Aliás, o nome do patrono foi dado em homenagem ao proprietário da sesmaria, Bartolomeu Gato. A
cidade foi elevada à categoria de Vila em 16/06/1724 e recebeu o título de Patriótica Cidade em 08/03/1860. A Santa Casa de Misericórdia é de 1850. 

A cidade foi sede de muitas Irmandades e há algumas que estão ainda em pleno funcionamento. A Irmandade do Santíssimo Sacramento foi fundada em 31/01/1700 e ainda está atuante. A Irmandade de Nossa Senhora da Conceição é de 1704. A de S. Bartolomeu é de 1851. A das Santas Almas Benditas é de 1667 (esses dados estão no Arquivo Público da Cidade). 

A cidade é ainda enriquecida por duas Filarmônicas: há a Terpsícore Popular, fundada em 13/08/1880 – na mitologia grega, Terpsícore é a musa da poesia lírica, da dança e dos coros, e ela toca a lira para animar a alma. Também há a antiga Filarmônica Menimosina – na mitologia grega é a deusa da memória – e teve como fundador o professor Teodoro Borges da Silva.

Também o estudante-pesquisador, Sócrates, apresentou um quadro, uma litogravura, que precisava ser restaurado, com uma estampa referente a Nossa Senhora da Boa Morte, com os dizeres: ”Nossa Senhora da Boa Morte que se venera na cidade de Maragogipe - 1879”, e que pertence a Conceição Maria Cardoso. Há ainda uma outra gravura que pertence a Luis Cláudio Nunes Laranjeiras, que herdou do avô, Manuel Lucas Laranjeiras, conhecido como Bibi. Ambas foram restauradas e estão sendo apresentadas nesse trabalho.



O autor descreve que "Ambas as gravuras foram restauradas pela Oficina AM Restauro, a cargo da Drª Ana Maria Villar e Natalie Roth, auxiliadas por Igor Souza e Larissa Barros. A primeira gravura foi feita pela técnica da litogravura e tem como autor Jourian e é datada de 1879. Na base do trabalho há uma inscrição: Lith a vapor (que também poderia ser: a vaper ou, a vapir – refere-se isso à técnica?) de Jourian. Também se vê dois números: 238 e 316. Como hipótese, pode-se perguntar se eles se referem à quantidade de litogravuras que foram feitas. A segunda tem na parte inferior um titulo em italiano: Sepolcro di Maria e a técnica é a de reprodução serigráfica sobre papel, não tem data, mas contém um número (5005), que, certamente indica a quantidade de cópias reproduzidas. A restauração foi feita por Natalie Roth e auxiliada por Igor Souza." Sebastião Costa

O professor Sócrates, jovem pesquisador deu informações preciosas sobre o desaparecimento dessa devoção naquela cidade. O Pe. Manoel de Oliveira Lopes, que se tornou Bispo, em 1887 fundou a Pia União das Filhas de Maria. Este foi substituído pelo Cônego Adolfo José da Costa Cerqueira, falecido em 11/04/1929. Ele era um homem que tinha fama de santidade, usava cilício e todos os seus irmãos e irmãs se tornaram padres e freiras.

Mas ele repudiava o candomblé. O contexto histórico da Igreja Católica, na época, era o do Ultramontanismo, movimento da segunda metade do século XIX que refletia a tendência centralizadora do Catolicismo, com tendência a controlar com mão forte, sob a égide dela (Papa, Bispos e Padres/Vigários) todos os movimentos. As Irmandades sempre representaram uma tendência leiga, de independência e sempre houve conflitos entre “os administradores oficiais do sagrado” (HOONAERT, 2001,p.39) com elas.

DO BLOG: Espero ter contribuído para que você leia esse livro maravilhoso sobre a História da Boa Morte no Recôncavo Baiano, em especial, em Maragogipe.

Para quem ficou interessado, o IPAC disponibilizou gratuitamente outro livro BOA MORTE - Clique AQUI para baixar.



sábado, 30 de julho de 2011

Pequeno Histórico do Distrito de Guapira, em Maragogipe


Coordenadas: 12°44'7.59"S/ 39° 4'41.01"O

Povoados: Oitizero; Palmar/São Roque do Cumbe; Palmar de Cima; Batatan de Baixo (Serraria 2).

Histórico:
Dos pouquíssimos documentos encontrados sobre o distrito de Guapira, alguns trazem uma característica particular. Esse distrito sempre teve sua economia voltada para produtos de primeira necessidade. Em 29 de maio de 1880, pela lei provincial de no 1953 foi criado o distrito sob denominação de Caveiras. Acontece que em 30 de novembro de 1938, pelo decreto estadual no 11089, o distrito de Caveiras passa a ser chamado de Guapira e assim permanece até nossos dias. Os motivos da troca tão repentina de nomes, ainda não foram encontrados. Pois, na história do município nada foi encontrado sob essa denominação atual. Aliás, a história do distrito precisa ser melhor analisada devido ao pouco conhecimento que se tem de documentos, um pouco de história oral caberia bem para resolver esse problema, ou pelo menos, uma parte dele.

O seu potencial agrícola é conhecido desde o início do século XIX e até hoje, o distrito, que na época chamava-se Caveiras, dedicava especial importância a esse tipo de produção. Em um documento encontrado, registra-se uma sessão da Câmara de Vereadores do dia 20 de março de 1839, por exemplo, os juízes de paz (que eram eleitos na própria vila) de Caveiras, assim como Nagé, Coqueiro, São Felipe, Capela do Almeida e de Maragogipe, reuniram para ouvir ordenação e publicação de manual para melhor aproveitamento racional da agricultura.

A economia da vila foi centralizada na produção de farinha de mandioca, assim como em outros distritos. Maragogipe sempre foi obrigado a produzir o que a capital baiana queria, de acordo com os interesses também, de cachoeiranos e santamarenses. Nenhum investimento foi feito na região, até 1982, quando foi registrada uma casa de farinha modernizada, em Batatã, fundada através de financiamento do Banco do Brasil. O processo era automatizado através de quatro máquinas: duas para torrar, uma para cevar e um moedor. A produção aumentou dez vezes com relação à casa de farinha rudimentar. Essa farinha produzida no distrito abastecia encomendas de supermercados em Candeias e da CEASA.

A religiosidade do distrito de Guapira é marcada por dois momentos especiais, como a maioria dos seus habitantes são católicos, percebemos a devoção a Nossa Senhora de Santana e ao Deus Menino, todos dois na vila Guapira.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito do Guaí (Capanema), em Maragogipe


Coordenadas: 12°50'36.87"S/ 38°56'6.70"O

Povoados: Lagoa; Samambaia do Meio; Tamancas; Topa de Cima; Topa de Baixo; Piedade; Baixão do Guaí; Mutamba; Guarucú; Bom Jardim; Terra Seca; Carobas; Rio Grande; Fanu Leite; Tabatinga 1 e 2; Cascalheira; Quilombo; Salaminas; Porto da Pedra; Enseadinha; Gerém ; Sítio Gramador; Palma de Cima; Quizanga/Socorro; Entrada Rural de Capanema; Rio Grande (Piedade); Água Boa; Traíras/Rio das Pedras/ Tijuca; Santa Ângela; Fanu Leite; Camarão de Baixo.

Histórico:
Desde o tempo de Álvaro Dias que essa região do Guaí-São Roque começou a ser habitada e esse detalhe é demonstrado no mapa quinhentista que cita uma comunidade no baixo do rio Icagaçu, que atualmente, chamamos de Guaí. Portanto, se o rio Paraguaçu, foi o fator especial do desenvolvimento da região, o rio Guaí também pode ser considerado de fundamental importância por ter sido o primeiro a ser habitado devido a sua tranquilidade e por propiciar a madeira desejada pelos portugueses naquele momento histórico.

Reza a lenda, e é bom que registre-se isso, que habitavam nestas plagas nativos indígenas, que tinham a cultura particular do canibalismo. Por volta de 1520, exploradores portugueses chegaram até o Rio Paraguaçu e subiram o rio Cachoeirinha, no atual distrito do Guaí, às margens dos quais habitavam esses indígenas  Osvaldo Sá diz que os portugueses que aqui aportaram, vislumbraram com a riqueza das matas e a acessibilidade que o rio proporcionava a qualquer embarcação, essa era a condição necessária para que os primeiros habitantes europeus destas terras tivessem acesso a outros locais. A destruição daquela gente foi brutal, os indígenas foram expulsos ou escravizados e logo após os portugueses começaram a criar suas primeiras povoações. Os índios escravizados misturaram-se rapidamente aos negros trazidos do continente africano e por isso, essa região se tornou o foco principal das revoltas que ocorreram nos séculos XVI e XVII no município  espalhando o terror por diversas outras comunidades. Negros fugidos que não aceitavam viver daquela forma cruel montaram diversos quilombos e mocambos para reagir a cultura européia e os índios lutavam pela retomada de suas terras.

Uma outra luta travada por essas terras foi a Invasão Batava, holandeses destruíram diversos engenhos. A maioria não conseguiu se reabilitar ao longo do tempo.

A vila de Capanema é uma das mais antigas da região e por diversas vezes, teve a sua alçada de distrito abolida e restaurada. Em 1853, o atual distrito do Guaí foi restaurado à jurisdição de distrito, sob o nome de Capanema, depois de ter sido extinto pela Resolução de no 43, de 27 de abril de 1846.

Todavia, segundo Osvaldo Sá, em 20 de julho de 1881, foi criado o distrito de Paz de São Roque, e neste Capanema passaria a ser apenas um arraial, contudo isso só veio há ocorrer sete anos depois, em 10 de setembro de 1898.

Em 1933 com a nova Divisão Administrativa do Brasil, é criado definitivamente, o distrito de Paz de Santo Antônio de Capanema desmembrado-o do de São Roque do Paraguaçu e anexando-o ao município do Maragogipe. Em 01 de junho de 1944, sob o decreto estadual no 12978, retificando o decreto-lei no 141, o distrito de Santo Antonio de Capanema passou a ser chamado de Guaí e assim permanece até os dias atuais.


Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito de Coqueiros do Paraguaçu, em Maragogipe


Coordenadas: 12°43'6.41"S/ 38°56'5.39"O

Povoados: Serraria; Pedrinhas 2; Pitinga Seca; Cajazeiras; Olho D’água; Campinas; Santana; Rios dos Paus; Batatan; Cumbe; Bento Sardinha; Manguinho; Boa Vista; Carro Quebrado; Pau Seco; Irriquitiá; Rio Grande; Guaruçu; Giral Grande.

Histórico:
Em quase todo seu período histórico o distrito do Coqueiros do Paraguaçu, como é chamado atualmente para diferir de seus homônimos brasileiros, sempre foi nomeado pela palavra Coqueiro, no singular, poderia até representar unidade com a vila da qual foi originada, neste caso, Nagé, mas esse fato não ocorre, devido a fatores do coração.

Não há como saber, porém, quando suas primeiras casas de taipa surgiram, mas segundo as documentações existentes, desde o século XVIII, o vilarejo já florescia à proporção do desenvolvimento de seu ancoradouro, por onde se fazia a baldeação das pessoas e mercadorias que se destinavam da capital para o interior, ao sertão ou vice-versa. Foi, portanto, o “fator Paraguaçu” causa predominante para o desenvolvimento da vila, como explica Osvaldo Sá, em suas Histórias Menores.

Tanto Coqueiros, como Nagé cresceram em torno da cultura agrícola de produtos de primeira necessidade, a única autorizada pela Capital Baiana, pois no período colonial, não era permitido à instalação de indústrias, nestas regiões. A Farinha de Mandioca sempre foi à cultura principal dessa região. As raras intenções do plantio do fumo, sempre foram barradas pelo poderio dos fazendeiros Cachoeiranos, assim como, do controle social que os líderes da Câmara Municipal exerciam sobre os habitantes da terra.

Com o tempo a vila começou a ganhar importância e em 17 de julho de 1893, foi elevada a categoria de distrito policial, sob jurisdição do Distrito de Paz de Nagé e sob essa tutela permaneceu até o dia 13 de agosto de 1926, em conformidade com a lei no 1922 que criou o distrito de Coqueiros e anexou ao município de Maragogipe. Apesar do IBGE considerá-lo como distrito de paz desde 1911, o desmembramento só se deu em 1926 e assim continuou a ser até os dias atuais. Pelo decreto-lei estadual no 10724, de 30 de novembro de 1938, o distrito de Coqueiros passou a se grafar, novamente, Coqueiro. Até 2007, o IBGE registrava o distrito desse jeito, hoje porém, registra-se como Coqueiros do Paraguaçu, devido o apego popular.

O mangue sempre foi o grande potencial de Coqueiros, assim como as outras vilas do município, era o alimento extra dos escravos que trabalhavam nas fazendas instaladas na região: Ostras, siris, caranguejos e mapés sempre foram os frutos do mar mais catados. Hoje, a mariscagem é praticada principalmente por mulheres. O salgamento de peixes miúdos (xangô e petitinga) e a defumação de camarões são as duas formas de beneficiamento do pescado na região.

O potencial turístico e histórico de Coqueiros do Paraguaçu pode ser aproveitado, através da navegação em Saveiros, que de meados do século XIX até meados do século XX inham grande importância no transporte de cargas e pessoas;

A produção de Cerâmica de Coqueiros é outro atrativo à parte, sua principal representante é a Dona Cadu. O saber-fazer passado de geração a geração, transformou essa arte rudimentar, numa das principais fontes de sobrevivência do povo coqueirense. Outros atrativos são de fundamental importância, a exploração de sítios importantes, como a Capela de Nossa Senhora do Rosário, datada do século XVIII; a festa de Bom Jesus dos Navegantes em Janeiro e da praia de Coqueiros, muito visitada por turistas devido à tranquilidade da região.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito de São Roque do Paraguaçu, em Maragogipe


Coordenadas: 12°51'22.04"S/ 38°50'27.90"O

Povoados: Quilombo das Salaminas, Enseada do Paraguaçu.

Histórico:
A história de São Roque do Paraguaçu, assim como a de Capanema ou Guaí, é uma das mais antigas da região, muito mais até, que a sede do município. A presença portuguesa nessa região foi importantíssima, devido à presença de um ancoradouro natural, e nos primeiros anos de sua história, marca-se pelo conflito entre portugueses, franceses e ingleses, na busca pela exploração da madeira tintoreira, e logo após a vitória portuguesa, com a instalação de diversos engenhos de açúcar que logo perderiam espaço comercial para outras regiões da Bahia, que tinham um terreno com a qualidade necessária exigida pelo governo português e outros interesses mais. Os poucos engenhos que sobreviveram foi através das muitas lutas travadas, tanto internamente, na busca pelos melhores compradores, quanto na invasão batava, em que muitos sucumbiram e não conseguiram mais retornar às atividades.

Desde tempos imemoriais a região na qual, localiza-se São Roque do Paraguaçu foi cobiçada. Em tempo, a Câmara de Maragogipe estava sempre em litígio com a de Jaguaripe. Esta última enviou diversos pedidos de anexação do território para a Assembléia Legislativa, um deles data de 23 de setembro de 1843 e esse processo durou até 1889 quando ficou acordado que prevalecessem os antigos limites. Antes mesmo da confirmação, em 20 de julho de 1881, foi criado o distrito de Paz de São Roque. O ato foi uma das jogadas políticas que fez com que São Roque continuasse sob jurisdição do município do Maragogipe.

Apesar dos diversos conflitos pela posse desta terra e de sua antiga história, São Roque demorou para se constituir, enquanto vila, pois a maioria de suas terras estava composta por grandes fazendas. Somente em 15 de fevereiro de 1933, pelo decreto estadual no 8311 que foi criado o distrito de São Roque do Paraguassu, desmembrando-o, novamente, do então distrito de Santo Antonio de Capanema e anexando-o ao município de Maragogipe. Em 1938 São Roque do Paraguassu, passou a ser chamado apenas de São Roque e recentemente passou a ser chamado de São Roque de Paraguaçu.

Em 1976 foi construído o Canteiro de Obras de São Roque do Paraguaçu, de propriedade da Petrobrás devido às condições favoráveis do acesso marítimo, entre outros fatores. A maior parte do canteiro, é destinada a montagem de plataformas, em outras partes funcionam oficinas de pré-montagem, estocagem, montagem de estacas, pinturas, etc... Foram dois anos de elaboração e implantação deste canteiro, que se tornou um dos mais importantes do país. Em 1978 ele foi arrendado ao consórcio Ítalo-Brasileiro Montreal-Micoperi, que construiu três plataformas de aço para a Bacia de Campos.

O setor off-shore absorveu grande quantidade da mão-de-obra, e em 1980 o número de empregados diretos chegou à 2420. Um ano depois esse número foi reduzido para 1420, estagnando-se ao longo do tempo. Nessa última década, o setor novamente esquentou, primeiro com a montagem de duas plataformas e, recentemente, com a liberação da construção do Estaleiro Enseada do Paraguaçu que é a esperança por um melhor condição de vida de todas as comunidades que está em torno do maior empreendimento aplicado nessa região nos últimos tempos.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito de Nagé, em Maragogipe


Coordenadas: 12°43'31.43"S/ 38°55'59.15"O

Povoados: Santo Antônio de Aldeia; Encruzilhada; Brinco; Sobradinho; Tabuleiro das Navalhas; Bacalhau; Lagamar; Rio dos Paus de Baixo; Ponta de Souza; Serraria (Baixa Rica); Pinho.

Histórico:
A vila morena surgiu, no século XVII, em torno do porto que servia de atracadouro para os nativos e representantes de Santo Antônio de Aldeia, principal comunidade religiosa desta região naquele momento. Dois são os fatores preponderantes para que a vila criasse raiz, a sua proximidade com o rio Paraguaçu, principal via de acesso à capital do Império e, os perigos do século XVII, ou seja, as constantes guerras contra os indígenas e contra os negros fugidos que já formavam diversos quilombos e mocambos pela região. Um importante quilombo que tornou-se Terreiro, foi o do Pinho. Ele é o único de nação Jêje em Maragogipe e foi originado de um antigo quilombo, alguns dizem ser o terreiro mais antigo da Bahia, embora não existam registros para comprovação.

Já em 1724, com a elevação da Freguesia de São Bartolomeu de Maragogipe à categoria de vila, Nagé aos poucos começou a crescer, ganhando importância na produção de alimentos de primeira necessidade. Em, 13 de agosto de 1880, foi decretada lei provincial no 2077 criando o distrito de Nagé, e assim continuou até os dias atuais, mesmo depois de todas as novas leis, decretos e divisões territoriais.

Vila de pescador situada a quatro quilômetros de Maragogipe, com bela implantação paisagística e algumas construções interessantes. Nagé construiu sua história, não só com o pescado e com seu porto comercial, praticamente inativo, atualmente, devido à implantação da estrada e o fim da rota comercial marítima que ligou essa região durante quase quatro séculos de história. Desde o aparecimento da indústria fumageira até aproximadamente a década de oitenta do século passado, que o distrito de Nagé se voltou ao plantio do fumo e a fabricação de charutos. Porém quando houve um declínio devido ao fechamento das indústrias de fumo na região, as mulheres nageenses sem meios para conseguir seu sustento, colocaram em prática tudo o que aprenderam durante o auge da charutaria, e com isso, ficaram conhecidas como as “charuteiras domésticas”. Ex-operárias da indústria Suerdieck, que trabalhavam em casa, nos intervalos das tarefas domésticas, chegando a confeccionar até 100 unidades por dia. Mas novamente devido várias dificuldades, essa economia rudimentar, praticamente extinguiu-se.

Um tocante religioso-cultural de Nagé é a Festa do Senhor do Bonfim que por si só, é um atrativo a parte. Ela acontece no segundo domingo depois do Dia de Reis, no mês de Janeiro, com novenário solene e exposição do Santíssimo Sacramento pelo capelão na Igreja do Bonfim em Nagé. A população, esbanja-se em festa na “Lavagem da “Glória” ou Popular de caráter afro-religioso com grande participação do povo e uma característica marcante que todo maragogipano tem em seu jeito de festejar. Vale ressaltar, que nesta lavagem, toda rivalidade entre a vila morena e o distrito do Coqueiros do Paraguaçu é posta de lado, para que todos, louvem ao Santíssimo Sacramento.

Hoje, o potencial turístico que a vila morena possui é extraordinário, a Praia de Ponta de Sousa e do Pina e os veleiros e saveiros são os verdadeiros representantes de um passado não tão longínquo. No distrito de Nagé predomina a salga do xangô e em coqueiros o da petitinga. É um trabalho executado pela mão de obra feminina. As mulheres ficam sentadas nas portas de suas casas, tratam, salgam, enfiam em varetas e estendem ao chão os peixes para secarem ao sol. Depois são vendidos a litro ou em espetos no próprio município, em Santo Amaro e Salvador, atingindo preços insignificantes em épocas de grande produção. Os peixes maiores são vendidos frescos nas feiras livres, ou conservados em gelo e levados para serem vendidos em Salvador. Alguns mariscos são aferventados antes de serem comercializados, o que facilita a sua conservação.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Formado em História na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

sábado, 14 de agosto de 2010

No Brasil Império, toma lá dá cá garantia vitória do governo

Fonte: Terra
Rosane Soares Santana

O uso da máquina pública para garantir a vitória do partido do governo foi um dos aspectos mais marcantes das eleições no Brasil Império, além da fraude e da violência. A distribuição de cargos, a substituição de juízes, o aumento de salários de servidores e a nomeação de novos presidentes de província - aos quais cabia comandar, com mão de ferro, o processo eleitoral - foram rituais repetidos nas 18 eleições ocorridas durante todo o Segundo Reinado (1840-1889).

Um dos mais destacados estudiosos do Brasil Império, o brasilianista Richard Graham (Clientelismo e Política no Século XIX, Editora UFRJ) observou que a troca de favores entre os políticos e suas clientelas locais e regionais foi o caminho para a realização de eleições pacíficas, sem uso da força. A distribuição de cargos públicos, inclusive na cooptação de lideranças-chave da oposição, foi fundamental para garantir a ordem e assegurar uma aparência de legalidade ao processo eleitoral, possibilitando inserir o País no contexto das nações civilizadas e adeptas da democracia representativa.

O presidente da província era figura estratégica no processo eleitoral, cabendo a ele garantir a vitória do governo no pleito. Com o poder de afastar, substituir e até determinar a aposentadoria antecipada de juízes, anular resultado das apurações e preencher atas eleitorais com nomes de sua preferência, eles conseguiam, quase sempre, garantir a vitória de parlamentares afinados com o poder central.

"O gabinete esforçava-se nomeando presidentes (de província) e chefes de polícia de sua confiança, removendo juízes de direito e dando as comarcas aos seus protegidos, demitindo alguns empregados, reintegrando outros (...) procedendo a todos os atos preparatórios, necessários ao bom êxito da eleição", observa Graham.

O caso baiano

Na Bahia esta prática é anterior ao Segundo Reinado. Em 1835, por exemplo, após a proclamação dos resultados da primeira eleição para a Assembléia Provincial, o presidente da província Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, mandou proceder uma recontagem de votos, que acabou com a inclusão, entre os deputados eleitos, dos nomes dos bacharéis André Corsino Pinto Chichorro da Gama, parente de Antonio Pinto Chichorro da Gama, ex-ministro do Império, e Luiz Barbalho Muniz Fiúza Barreto, futuro Barão de Monjardim. Ambos filhos de famílias proprietárias de engenho no recôncavo baiano, nata da elite política imperial.

Outro exemplo claro de uso da máquina pública nas eleições para favorecimento de aliados governistas, na Bahia imperial, foi o caso de Ignácio Anicleto de Souza, padre, proprietário de engenho, presidente da Câmara de Vereadores(1835) e juiz de paz na localidade de Maragogipe, também na região do recôncavo. Ele concentrava em suas mãos, a um só tempo, poder eclesiástico, econômico, judicial e político, sendo, portanto, peça-chave para garantir a vitória do governo em qualquer eleição.

Em 1838, já secretário da Câmara de Vereadores, quatro meses depois da eleição para a terceira legislatura da Assembléia Provincial, solicitou e teve seu salário equiparado aos salários dos secretários das Câmara de Feira de Santana, segunda vila mais importante da província, e Santo Amaro, que, seguramente, auferiam maiores rendas do que a vila de Maragogipe.

Seu salário simplesmente dobrou, passando para 500 mil réis anuais, cerca de 50% das despesas da Câmara, orçadas em 1.180 mil réis. Isso atesta o imenso poder de barganha do padre-mandão junto à presidência da província, porque possuía poderes para controlar fatia significativa do eleitorado local.

A política de favorecimento era praticada em todos os escalões do governo imperial, com a nomeação de apadrinhados políticos para os cargos da burocracia. Fazia parte da cultura política e não havia quem pudesse vencer uma eleição sem o "toma lá dá cá". Sem alternativa e para manter a longa paz no Império, durante todo o seu reinado D. Pedro II permitiu que, para posições de confiança, fossem negligenciadas as qualificações.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Uma Breve História de Maragojipe, por Osvaldo Sá

Osvaldo Sá, 1952 - Aos 44 anos
A origem do município de Maragojipe, como a de tantos outros municípios do Recôncavo Baiano, remonta ao período do Brasil Colonial, durante o ciclo da cana-de-açucar. Conta a tradição popular que a origem do município deveu-se à existência de uma tribo indígena denominada “Marag-gyp”, que se estabeleceu em meados do século XVI às margens do Rio Paraguaçu. Destemidos e inteligentes, mas adversos à vida nômade, esses indígenas dedicavam-se ao cultivo do solo, à pesca e a caça de subsistência, manejando com maestria o arco e flecha e também o tarayra (espécie de machado pesado feito de pau-ferro), com o qual eram capazes de decepar de um só golpe a cabeça do inimigo.

Segundo a tradição da tribo, os mais velhos contavam que suas primeiras mulheres teriam sido raptada pelo cacique Itapecerica numa terra muito distante onde as mulheres eram belas, de pele clara, olhos meio azuis e cabelos sedosos e fartos (provavelmente de origem européia), sendo necessário viajar “três luas” para alcançá-lo.

Por volta de 1520, duas décadas após o descobrimento do Brasil, quando das suas excursões pelo Rio Paraguaçu, fixaram-se na região os primeiros desbravadores portugueses, atraídos pela riqueza das matas e pela acessibilidade de suas águas, que comportavam embarcações de pequeno e grande calado. Após sua chegada as margens do Rio Paraguaçu subiram até o Rio Cachoeirinha às margens dos quais habitavam os índigenas. Desde já ocorreram os primeiros combates entre os colonizadores e a população autoctone, marcados pela resistência indígena à escravização e pela defesa das mulheres da comunidade. A evolução daquele conflito foi determinando a expulsão dos grupos índigenas para áreas mais longínquas e a ocupação das terras ribeirinhas pelo colono português. Foi aí que Bartolomeu Gato descobriu um rio límpido e perene, o Rio Quelembe. Nas suas imediações começou a nascer uma povoação que usava a água pura do rio para beber, cozinhar e lavar. Assim, na “Rua do Rio”, a primeira povoação, nascia o núcleo original da cidade de Maragogipe. Esta povoação fazia parte da Sesmaria de Peroaçu, criada no tempo do segundo governador-geral, Dom Duarte da Costa. Posteriormente, esta sesmaria foi transformada em capitania pelo Cardeal Regente Dom Henrique, no reinado de Dom Sebastião. O nono Donatário, Dom José da Costa vendeu a capitania, da qual Maragogipe era a principal localidade, à coroa de Portugal.

A história da produção de riquezas em Maragogipe é marcada, dos tempos da descoberta aos da abolição, pela agro-indústria açucareira que se integrava no conjunto de atividades econômicas estabelecidas em torno da Baía de Todos os Santos. A pujança da economia açucareira em Maragogipe é demonstrada com exatidão pela erudita e elegante pena do Historiador maragogipano Osvaldo Sá. Diz ele em suas “histórias menores”: durante a invasão batava, em 1640, e a destruição que praticou no recôncavo, de engenhos de açúcar e, também, de templos católicos, o território que ora se compõe o nosso município, sofreu em sua orla ribeirinha, a conseqüencia predatória dos invasores, segundo nos revela Varnhagen e, depois, com minudência, Gustavo Barroso, apontando os Engenhos de Tapiranda, Novo e Capanema. Do primeiro nao nos restam sequer notícias, mas, dos outros dois, resistem ainda as suas ruínas ou partes dos aquedutos, com os seus arcos bem edificados, por onde a água deslizava a fim de pô-los em movimento. Não há que duvidar, funcionavam, depois de restaurados, até o crepúsculo do século XIX, época em que coexistiram vários outros nestas plagas, no “topá”, no “Barreiro”, em “Água Fria”, na “Serra dágua”, na “Lagoa”, no Riquitiá”. (Sá Osvaldo. “Ainda os Engenhos”, in Histórias Menores, vol 1 pg. 63, São Félix - 1983)

Graças a excelência do seu ancoradouro e pela sua localização estratégica, Maragogipe desenvolveu durante o período colonial um importante núcleo urbano o qual desempenhou importantes atividades comerciais servindo de entreposto comercial e centro manufatureiro. O crescimento de Maragojipe foi tão vertiginoso que esta já se constituía a principal localidade da “Capitania do Paraguaçu” no final do século XVI.

A povoação se desenvolveu através da extração madeireira, do cultivo da cana-de-açucar e da mandioca, além da construção de engenhos e casas de farinha nesta faixa de terra da então “Sesmaria do Paraguaçu” (ou Paroaçu), doada a Dom Álvaro da Costa por seu pai, Dom Duarte da Costa, 2º Governador Geral do Brasil, em 16 de janeiro de 1557, com doação confirmada por Álvaro Régio de 12 de março de 1562. A Sesmaria foi transformada posteriormente em Capitania por Dom Henrique, Cardeal Regente, por Carta de 20 de novembro de 1565, confirmada numa carta posterior, de 28 de março de 1566. O território de D. Álvaro tinha 4 léguas de costa, da parte sul do Rio Paraguaçu até a barra do Rio Jaguaripe, incluindo todas as ilhas ao longo da costa, e 10 léguas sertão a dentro. Ao falecer, em 1575, D. Álvaro deixou 7 filhos, sendo o primogênito Dom Duarte, que tornou-se o segundo donatário das terras. Em 1640, a povoação cuja capela era dedicada a São Bartolomeu foi elevada à categoria de freguesia pelo Bispo Dom Pedro da Silva Sampaio, por proposta do Vice-Rei Dom Jorge de Mascarenhas, o Marquês de Montalvão, com o topônimo de “São Bartolomeu de Maragojipe”

Sua emancipação política foi obtida somente 85 anos depois, após a Provisão Régia de 09 de fevereiro de 1725, ao atingir o status de vila, com a simples denominação de “Maragojipe”. Em virtude da avassaladora seca que devastava a Bahia no inicio do ano de 1724, o Conde de Sabugosa, 4º Vice-Rei à época, fez uma viagem de inspeção pelo interior do Estado da Bahia. Ao chegar a essa freguesia, seus habitantes solicitaram sua elevação à vila, no que foram atendidos pelo Conde. Por sua ordem, através de Portaria de 16 de fevereiro de 1724, é criada a “Vila de Maragojipe” (com território desmembrado de Jaguaripe), no dia 22 do mesmo mês e ano, pelo Ouvidor-Geral Pedro Gonçalves. Como prova de gratidão, os maragojipanos ofertaram ao Conde 2.000 alqueires de farinha de primeira qualidade para o sustento da tropa, dádiva aceita com muito apreço, devido á grande escassez existente. A Capitania do Paraguaçu foi comprada de seu 9º donatário, D. José da Costa, pelo Rei de Portugal, D. José I, através da Provisão Régia de 17 de junho de 1733, passando, então, a pertencer à Coroa portuguesa, por força da Carta do Conselho Ultramarino, de 12 de dezembro de 1732. O Recôncavo Baiano foi a região pioneira no movimento emancipador do país, de onde partiram os primeiros levantes de revolta contra a opressão lusitana instalada na colônia.

E Maragojipe também deu importantes contribuições para a libertação da pátria, tendo, juntamente com outras vilas do Recôncavo e do Sertão, participando da Junta Conciliatória liderada por Cachoeira, que contou com a presença de um ilustre maragojipano, o Conselheiro Imperial Antônio Rebouças.

Além da participação na Junta, os maragojipanos fizeram parte do IV Regimento de Milícias da Bahia, ajudando a expulsar as canhoneiras portuguesas fundeadas no Rio Paraguaçu. Em virtude de seus importantes feitos para a consolidação da Independência do Brasil, durante os embates regionais que se travaram após7 de setembro de 1822 para a Independência da Bahia (data a 02 de julho de 1823), Maragojipe finalmente torna-se cidade pela Lei Provincial nº 389, de 08 de maio de 1850, sendo agraciada com o titulo honorifico de “Patriótica”.

É no século XIX que também desenvolve-se um comércio atacadista que abastecia cidades e vilarejos do Recôncavo Sul, segundo o historiador Osvaldo Sá, “...o comércio que se movimentava através de Maragogipe, em seus portos com os da Cidade de Salvador, para Cruz das Almas, Conceição do Almeida, Sapatuí, Jenipapo, Santana do Rio da Dona, Curralino e várias outras localidades...”(Sá, Osvaldo. “Anos de Decadência”, in Histórias Menores, vol. 3, pg. 25, São Félix - 1983). O meio de transporte utilizado eram as tropas de mulas que atravessavam os precários caminhos para o interior. Nos fins do século XIX, Maragogipe perde as funções de entreposto comercial por força de sua preterição na instalação das linhas férreas no recôncavo. Recorrendo ainda ao relato preciso do historiador, percebemos nitidamente o processo de abandono e insulamento que por pouco não destruiu a cidade. “As cidades do Recôncavo coevas de Maragogipe, como Cachoeira, Santo Amaro e Nazaré, conseguiram expandir-se, no último quartel do século XIX, graças às vias férreas que delas partiram para outras localidades que se formavam já no interior, não havendo assim solução de continuidade ao seu comércio que, de antes, se efetuava por meio de tropas, ininterruptamente, de muitas alimárias, e que, à chuva e ao sol, transportavam produtos de umas e outras terras, por invios caminhos.

Não conseguiu Maragogipe a sua via férrea, apesar de vários projetos, e insulou-se. Perdeu, como é evidente, o intercâmbio com diversas vilas e povoados, que iam também surgindo em conseqüência da locomotiva, a qual fretenindo, caatiga e sertão adentro, seu estridulante silvo, convidava o homem do campo ao trabalho, comunicando pelo refolgar da máquina, que havia já transporte fácil às suas colheitas, fácil, relativamente à época e ao que antes existia.

Muitos daqueles vilarinhos cujos negociantes tinham em Maragogipe a praça de suas transações, de suas vendas e compras, se transferiram para outras, por falta de linha férrea que não chegou até aqui. Destante, perdemos, talvez, 60 ou 70% de nossa comercialização.

Cacheira e São Félix se comunicavam, sem embaraços naquele tempo, com Cruz das Almas, Capela do Almeida, Jenipapo, Curralino e localidades outras que antes do trem, muitas delas, comercializavam com Maragogipe. Por outro lado, Nazaré se expandia do Rio da Dona para o Sul, ganhando de Maragogipe parte de uma região florescente para o seu comércio. Ficamos restritos aos nossos distritos e povoados, inclusive São Filipe, que logo se emanciparia, não deixando de ser, todavia, o nosso porto do Cai-já por vários anos, o escoamento de seus produtos.

O movimento de pequena cabotagem, saveiros e lanchas a vela, crescia assim em outras vilas e cidades, em ancoradouros à margem da estrada de ferro, ante a facilidade de um comércio mais positivo e proveitoso, mais rápido e menos dispendioso do que o de bestas de carga em estradas nem sempre bem cuidadas”(Sá Osvaldo, “30 anos de estagnação”, in Histórias Menores, vol 3, pg 65, São Félix, 1983)

Foi então no final do século XIX, que o município sofreu seu primeiro período de decadência econômica, motivado pelo declínio da atividade açucareira, bastante afetada pela extinção do trabalho escravo e pelo surgimento de entrepostos comerciais mais bem localizados em relação ao sistema de transportes.

O comércio do Recôncavo, que antes era movimentado através do porto de Maragojipe, foi deslocado para os municípios de São Felix e Nazaré, que haviam sido beneficiados, na ocasião, com ramais da estrada de ferro. Fora do principal eixo de transportes do Estado, as relações comerciais de Maragojipe se restringiram ao município de São Felipe, e sua comunicação com Cachoeira e Salvador se fazia por meio de barcos a vela e uma unidade da Companhia Baiana de Navegação, que não possuía a mesma agilidade dos trens de ferro.

O declínio da atividade mercantil foi superada na virada do século XX pela instalação de filiais das fábricas de charutos Dannemann e Suerdieck, dando novo impulso à economia local e gerando um novo ciclo de desenvolvimento para o município.

“Veio então já nos últimos anos do século XIX, a filial da fábrica de charutos Danneman e, mais tarde, em 1905, a Suerdick, que nasceu de experiência auspiciosa do industrial Augusto Suerdick. Daí, eclodiu propícia nossa atividade fabril. Concomitantemente, cresceu a demanda de mão-de-obra. Mão-de-obra acessível e menos cara à incipiente manufatura e, destarte, os empregadores encheram suas empresas de mulheres-operárias.

Nessa época houve constante migração da zona rural para a urbana. A cidade cresceu com relativa rapidez, porém, se expandiu em pletora de moradias simples, cobertas de palhas e de paredes de taipa. Via-se a cidade distintamente dividida em duas parte, a antiga de casas de telhas e a nova de casas de palhas. Só depois, de várias décadas, com o seu desenvolvimento industrial consolidado, entre as décadas de 20 e 40 do século fluente, foi a cidade tomando novo aspecto, bem melhor, lentamente embora, com seus habitantes, na maioria, já em condições econômicas de corrigirem ou melhorarem suas residências. Destarte, a partir de 1940, quase desapareceram as casas de palha da cidade, até mesmo em sua zona suburbana. Pode-se a partir dái considerar restabelecida dos golpes que recebera com a extinção do braço escravo e com o insulamento em que permanecera após terem sido inauguradas as ferrovias de Nazaré e de São Félix.” (Sá, Osvaldo, “Anos de Decadência III”, in Histórias Menores, vol. 3 pg. 24 e 25, São Félix, 1983).

A indústria fumageira se transformou no alicerce da economia de Maragojipe, mas com o fechamento das fábricas, há alguns anos, grande parte da população que lhes servia como mão-de-obra ficou desempregada, dando início a um novo período de decadência econômica que prossegue até os dias de hoje.

Maragojipe, atualmente, não apresenta a mesma importância econômica de outrora, porém possui áreas naturais de extrema beleza cênica que, aliadas a uma expressiva arquitetura do período colonial e a um rico conjunto de manifestações culturais, propiciam o desenvolvimento do turismo como alternativa ao fomento de um novo ciclo de crescimento do município.

(SÁ, Osvaldo, “Maragogipe, uma proposta de ação”, IPAC – Salvador, 1984)