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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Cultura e Gastronomia Brasileira é tema da Feira de Conhecimentos do CESF



Amanhã, dia 26 de setembro, acontecerá a Feira de Conhecimentos no Centro Educacional "Simões Filho" que discutirá sobre a cultura e a gastronomia brasileira em todos os sentidos. 

Os estudantes prepararam seus stands como muito zelo e dedicação e aguardam ansiosamente pelos visitantes.

Como degustação, postamos um aperitivo do que está esperando por você:
STAND MARAGOGIPE (Alunos do 1º ao 5º ano)
STAND REGIÃO CENTRO OESTE (Alunos do 6º ano)
STAND REGIÃO NORDESTE (Alunos do 7º ano)
STAND REGIÃO SUDESTE (Alunos do 8º ano)
STAND REGIÃO NORTE (Alunos do 9º ano)
STAND REGIÃO SUL (Alunos do 1º e 2º EM)
STAND INFLUÊNCIAS ESTRANGEIRAS (Alunos do 3º ano)

Confira a programação:
Manhã
08h - Hasteamento da Bandeira e Apresentação da FANCESF
10h - Apresentação dos Stands

Tarde:
14h - Apresentação dos Stands

sábado, 13 de julho de 2013

Mateus Aleluia faz abertura do projeto “OURUA Cultura, Arte e Educação” no Recôncavo Baiano


Projeto “OURUA – Cultura, Arte, Educação” inicia atividades com Mateus Aleluia e Palestra Musical Afro-Barroca em Cachoeira

A fim de contribuir com o desenvolvimento humano e cultural no Recôncavo Baiano a Casa de Barro iniciará no dia 15 de Julho o projeto Ourua - Cultura, Arte, Educação. O lançamento será marcado pela Palestra Musical Afro-Barroca com Mateus Aleluia, no auditório da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira, às nove horas.

OURUA trata de uma tribo africana que era rica e se destacava dentre as demais pela sua arte e cultura. Numa analogia a esta “tribo do desenvolvimento”, esta iniciativa atuará com diversas ações tendo a formação e fruição artístico-cultural como instrumentos de transformação social. Serão desenvolvidas formações, oficinas de arte e cultura, além de uma programação artística periódica nas comunidades de Cachoeira, Maragogipe e São Félix. Ao final será publicado um livro de socialização da experiência e reflexão da cultura, da arte e da educação como potenciais para a promoção do desenvolvimento de territórios. O público alvo são crianças, adolescentes, educadores (formais e não formais) e a comunidade em geral.

A abertura com Mateus Aleluia marca o propósito da sensibilização da comunidade para o patrimônio cultural do Recôncavo Baiano. A Palestra Musical Afro-Barroca faz uma abordagem sobre a história do povo oriundo do continente africano e seu legado para o Brasil, trazendo de forma evidente no seu repertório mensagens de cidadania. Aborda também o sincretismo cultural e religioso das culturas indígena, barroca e africana e o perfil cultural que hoje confere à Bahia a condição de poder afirmar que o Estado é a maior expressão afro-descendente fora da África.

A abertura será gratuita, aberta ao público.

Este projeto conta com o apoio financeiro do Fundo de Cultura da Bahia / Secretaria de Cultura / Secretaria da Fazenda / Governo do Estado da Bahia.

SERVIÇO
O que: Abertura OURUA com Palestra Musical Afro-Barroca de Mateus Aleluia
Data: 15 de julho de 2013 (segunda-feira)
Hora: 9h
Onde: Auditório do CAHL/UFRB, Cachoeira/BA
Custo: Gratuito
Mais informações: www.casadebarro.org / casadebarro@gmail.com / (75) 3425-5396

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Zé Trindade - Um maragogipano que Maragogipe não pode esquecer

Cena do Filme "Entrei de Gaiato"
O maragogipano Zé Trindade, até hoje é muito conhecido em todo o país pela grande popularidade nas décadas de 50 e 60 por sua participação em 36 chanchadas, que o marcaram como o primeiro personagem assumidamente mulherengo do cinema nacional, autor de piadas ingênuas que fizeram rir as platéias brasileiras de norte a sul. Filho de um boêmio deserdado pela família (casou-se com uma menina de treze anos), durante a infância Trindade passou fome em Salvador. Aos nove anos, teve publicado seu primeiro poema pelo jornal A Tarde, na Bahia. Para ajudar a mãe, arranjou emprego no Hotel Meridional, em Salvador, como boy e ascensorista. Dessa maneira, travou relações com intelectuais da época, ainda desconhecidos do grande público, como Dorival Caymmi e Jorge Amado. Acabou tendo um poema musicado por Antonio Maltez (parceiro de Caimmy) e com essa música ingressou na vida artística para nunca mais sair. Contando piadas e fazendo trovas, ganhou um programa de rádio, mas teve que trocar de nome para não chocar os conservadores da família com seu humor. Ídolo popular na Bahia, ele decidiu migrar para o sul e o sucesso nacional não tardou.

Sua estréia no Rio de Janeiro aconteceu em 1945, quando passou a integrar o elenco de comediantes da Rádio Mayrink Veiga. Durante quinze anos seguidos, a emissora concedeu-lhe o prêmio de Melhor Cômico. No cinema, Nilton da Silva Bittencourt iniciou em 1949 participando da comédia O Malandro e a Grã-Fina, fazendo uma ponta atrás das grades de uma chefatura de polícia. Sete entre dez chanchadas produzidas pela Herbert Richers ou pela Atlântida levavam seu nome no elenco. Em 1959, interpretava um falso massagista no filme O Massagista de Madame, explicando a uma dondoca Renata Fronzi que não aprendera a massagear madames na Escandinávia, mas numa padaria do subúrbio carioca. Padaria era um dos eufemismos de nádegas, em evidência na época. A partir da década de 70 foi contratado pela Rede Globo, ganhando um quadro permanente nos programas Balança Mas não Cai e Chico Anysio Show. Não gostou desta última participação, afirmando na época que preferia o humor de Jô Soares, apesar de amigo do Chico.

Nádia Maria e Zé Trindade
Fez o personagem Buster Keaton na minissérie Memórias de Um Gigolô, aparecendo em sete capítulos. Zé Trindade foi um criador de tipos. Ou, mais precisamente, de um tipo: o malandro que veio do nordeste e descobriu a fórmula de levar vantagem em quase tudo na então capital da República - um Macunaíma do desenvolvimentismo da década de 50. Ficou famoso com as frases: É lamentável!, Papelão!, O negócio é mulher!, Meu pudim vai bem?, Meu doce de coco, Minha jujuba! Apesar de feio e baixinho, consagrou-se com o tipo gostosão e cafajeste que não podia ver saia, nem dinheiro. Assim se explicam títulos de filmes como Pra Lá de Boa, Garotas e Samba, Mulheres a Vista e Mulheres Cheguei, este último de 1961. Tornava-se hilariante pelo ódio que nutria pelas sogras e mulher feia, aplicando-lhes apelidos como jararaca, cascavel de chocalho grande ou usando respostas como Eu ainda não estou apanhando xepa, minha filha. Com nomes como Anacleto, Isidoro, Polidoro, Mão Leve, Zeferino e Januário Jaboatão, participou também de filmes como Tem Boi na Linha (1957), Maluco por Mulher (1957), Espírito de Porco (1957), O Camelô da Rua Larga (1958), Mulheres À Vista (1958), Na Corda Bamba (com Ema D'Ávila e Arrelia, em 1959), Entrei de Gaiato (1960), Marido de Mulher Boa (1960) e Assim era a Atlântida (1975). Em 1987, ele atuaria em Um Trem para as Estrelas, de Cacá Diegues.


Cena do Filme Jesus Cristo, Eu estou aqui
Além do cinema, Trindade teve importante passagem pela música, chegando a gravar 25 LPs, sempre canções nordestinas e a maioria composições de sua autoria. Recebeu mais de 300 troféus e títulos, como o melhor cantor de música nordestina. Foi também o criador da palavra paquera, que vem de uma gíria de caçador, que significa caçar paca. Durante cinco anos foi dono do restaurante O Vatapá do Zé Trindade, em Ipanema, e publicou um livro de poemas, O Poeta Zé Trindade, com prefácio de Jorge Amado e capa de Caribé. Casado durante 50 anos com Dona Cleusa, tiveram um filho, Ricardo, responsável pela Zé Trindade Produtos Alimentícios da Bahia Ltda. Trindade faleceu aos 75 anos, em 4 de maio de 1990. (Fonte: Memorial da Fama)

Dercy e Zé Trindade
Filmografia
1946: O Cavalo 13
1947: O Malandro e a Grã-Fina
1948: Fogo na Canjica
1949: Pra Lá de Boa
1949: Inocência
1951: Agüenta Firme, Isidoro
1951: Tocaia
1951: O Meu Dia Chegará
1951: Anjo do Lodo
1952: O Rei do Samba
1954: Rei do Movimento
1955: Trabalhou Bem, Genival
1955: O Primo do Cangaceiro
1956: Tira a Mão Daí!
1956: Depois Eu Conto (Filme em DVD - expirados.com.br)
1956: Genival É De Morte
1956: O Negócio Foi Assim
1957: Rico Rí a Toa (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1957: Tem Boi na Linha
1957: Maluco por Mulher
1957: Espírito de Porco
1957: Garotas e Samba (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1957: Treze Caldeiras (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1958: Aguenta o Rojão
1958: O Batedor de Carteiras
1958: O Camelô da Rua Larga (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1958: Agüenta o Rojão
1958: Mulheres À Vista (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1959: Na Corda Bamba (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1959: O Massagista de Madame
1960: Entrei de Gaiato (Filme em DVD  - expirados.com.br)


Esse foi sem sombras de dúvidas, um merecedor.
1960: Marido de Mulher Boa (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1960: O Viúvo Alegre
1961: Mulheres Cheguei
1962: Bom Mesmo É Carnaval (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1970: Jesus Cristo, Eu Estou Aqui (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1971: Cômicos e Mais Cômicos
1975: Assim era a Atlântida
1975: Tem Folga na Direção (Filme em DVD  - expirados.com.br)
1987: Um Trem para as Estrelas (Filme em DVD  - expirados.com.br)

E como este blogueiro gosta de trazer a notícia por completo, reservei esta última parte especialmente para alguns filmes do Youtube para você:









quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Feira do Caijá, uma feira de saveiros e de tudo que você imaginar


Uma fileira de 20 saveiros de vários calados, aguardavam a maré cheia para levantarem suas velas em direção a salvador, enquanto os mestres orientavam os estivadores no embarque de farinha, frutas, cerâmica, legumes, a produção do recôncavo baiano.

Esta feira que era antigamente dia de sexta-feira e passou para dia de quinta-feira nas suas primeiras horas em todas as semanas e o prédio do mercado municipal Alexandre Alves Peixoto, uma construção de 1959, ficava cheia de gente, mercadores de todos os tipos, velhos lobos do mar e biscateiros de toda parte. Era a Feira do Cajá, em Maragogipe, Bahia.


Um dos pontos que abasteciam os saveiros que levavam o de comer e beber do Recôncavo para a Feira de São Joaquim, em Salvador, por volta de uma hora da tarde os saveiristas já começavam a pensar em partir. Se o vento estivesse bom, ás 10 horas da noite estariam em Salvador. Se o tempo estivesse bom, sem ameaças de temporal, você poderia voltar a Salvador de saveiro, vindo de Maragogipe. Bastava uma permissão da capitania dos portos, em Maragogipe, agência orientadora e protetora dos direitos do povo do mar.

Desta forma você poderia viajar sobre a carga de saveiros como o vendaval, do mestre Nute e Daniel, ou o paraíso com cacau e frutos dourando o sol. Podia velejar ouvindo o barulho das ondas da baía de todos os santos, ou desfrutarem dos cantos de passarinhos nas gaiolas levava o saveiro tudo com deus. Carroças puxadas por bois e ao fundo os mastros do filho do sol e do capricho do destino. Pescadores arrastando a rede no braço do Paraguaçu e macaxeiras (aipim, mandioca) embarcando no Camacan e no Navegante Feliz. Milho verde para o Bom Jesus, quiabos e maxixe para o quero ver. Alto falantes com repertório rural, o rio novo, tupy no cais. Assim era a feira do cajá. Uma feira de saveiros e de tudo que você imaginar.

Viver bahia/. Publicado em 21 /12/1975

sábado, 30 de julho de 2011

Pequeno Histórico do Distrito de Nagé, em Maragogipe


Coordenadas: 12°43'31.43"S/ 38°55'59.15"O

Povoados: Santo Antônio de Aldeia; Encruzilhada; Brinco; Sobradinho; Tabuleiro das Navalhas; Bacalhau; Lagamar; Rio dos Paus de Baixo; Ponta de Souza; Serraria (Baixa Rica); Pinho.

Histórico:
A vila morena surgiu, no século XVII, em torno do porto que servia de atracadouro para os nativos e representantes de Santo Antônio de Aldeia, principal comunidade religiosa desta região naquele momento. Dois são os fatores preponderantes para que a vila criasse raiz, a sua proximidade com o rio Paraguaçu, principal via de acesso à capital do Império e, os perigos do século XVII, ou seja, as constantes guerras contra os indígenas e contra os negros fugidos que já formavam diversos quilombos e mocambos pela região. Um importante quilombo que tornou-se Terreiro, foi o do Pinho. Ele é o único de nação Jêje em Maragogipe e foi originado de um antigo quilombo, alguns dizem ser o terreiro mais antigo da Bahia, embora não existam registros para comprovação.

Já em 1724, com a elevação da Freguesia de São Bartolomeu de Maragogipe à categoria de vila, Nagé aos poucos começou a crescer, ganhando importância na produção de alimentos de primeira necessidade. Em, 13 de agosto de 1880, foi decretada lei provincial no 2077 criando o distrito de Nagé, e assim continuou até os dias atuais, mesmo depois de todas as novas leis, decretos e divisões territoriais.

Vila de pescador situada a quatro quilômetros de Maragogipe, com bela implantação paisagística e algumas construções interessantes. Nagé construiu sua história, não só com o pescado e com seu porto comercial, praticamente inativo, atualmente, devido à implantação da estrada e o fim da rota comercial marítima que ligou essa região durante quase quatro séculos de história. Desde o aparecimento da indústria fumageira até aproximadamente a década de oitenta do século passado, que o distrito de Nagé se voltou ao plantio do fumo e a fabricação de charutos. Porém quando houve um declínio devido ao fechamento das indústrias de fumo na região, as mulheres nageenses sem meios para conseguir seu sustento, colocaram em prática tudo o que aprenderam durante o auge da charutaria, e com isso, ficaram conhecidas como as “charuteiras domésticas”. Ex-operárias da indústria Suerdieck, que trabalhavam em casa, nos intervalos das tarefas domésticas, chegando a confeccionar até 100 unidades por dia. Mas novamente devido várias dificuldades, essa economia rudimentar, praticamente extinguiu-se.

Um tocante religioso-cultural de Nagé é a Festa do Senhor do Bonfim que por si só, é um atrativo a parte. Ela acontece no segundo domingo depois do Dia de Reis, no mês de Janeiro, com novenário solene e exposição do Santíssimo Sacramento pelo capelão na Igreja do Bonfim em Nagé. A população, esbanja-se em festa na “Lavagem da “Glória” ou Popular de caráter afro-religioso com grande participação do povo e uma característica marcante que todo maragogipano tem em seu jeito de festejar. Vale ressaltar, que nesta lavagem, toda rivalidade entre a vila morena e o distrito do Coqueiros do Paraguaçu é posta de lado, para que todos, louvem ao Santíssimo Sacramento.

Hoje, o potencial turístico que a vila morena possui é extraordinário, a Praia de Ponta de Sousa e do Pina e os veleiros e saveiros são os verdadeiros representantes de um passado não tão longínquo. No distrito de Nagé predomina a salga do xangô e em coqueiros o da petitinga. É um trabalho executado pela mão de obra feminina. As mulheres ficam sentadas nas portas de suas casas, tratam, salgam, enfiam em varetas e estendem ao chão os peixes para secarem ao sol. Depois são vendidos a litro ou em espetos no próprio município, em Santo Amaro e Salvador, atingindo preços insignificantes em épocas de grande produção. Os peixes maiores são vendidos frescos nas feiras livres, ou conservados em gelo e levados para serem vendidos em Salvador. Alguns mariscos são aferventados antes de serem comercializados, o que facilita a sua conservação.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Formado em História na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

terça-feira, 26 de julho de 2011

Somos todos da Idade Média, por Hilário Franco Júnior

Pouca gente se dá conta, mas muitos hábitos, conceitos e objetos tão presentes no nosso dia-a-dia, inclusive o próprio idioma que falamos, vêm daquela época.

Muitos professores consideram especialmente árdua a tarefa de ensinar História Medieval. A distância que separa os alunos de época tão remota, argumentam alguns, seria um dos principais obstáculos. Como despertar seu interesse por tema tão antigo? Como passar às novas gerações conceitos, idéias e fatos que, aparentemente, têm tão pouco a ver com o mundo de hoje? Mas seria bem diferente se eles mostrassem a seus discípulos que, como veremos a seguir, e embora muita gente não se dê conta, nosso próprio cotidiano está impregnado de hábitos, costumes e objetos que vêm de muito mais longe do que se pode imaginar.

Ao tratarmos da História do Brasil, por exemplo, a tendência é começar no dia 22 de abril de 1500, quando Pedro Álvares Cabral e os tripulantes de sua esquadra “descobriram” nossa terra. Mas aqueles homens não traziam atrás de si, dentro de si, toda uma história? Não trouxeram para cá amplo conjunto de instituições, comportamentos e sentimentos? Aquilo que é até hoje o Brasil não tem boa parte da sua identidade definida pela longa história anterior de seus “descobridores”? Dizendo de outro modo, nossas raízes são medievais, percebamos ou não este fato.

Calças do século IV,
encontradas no pântano
Thorsberg, Alemanha
Pensemos num dia comum de uma pessoa comum. Tudo começa com algumas invenções medievais: ela põe sua roupa de baixo (que os romanos conheciam mas não usavam), veste calças compridas (antes, gregos e romanos usavam túnica, peça inteiriça, longa, que cobria todo o corpo), passa um cinto fechado com fivela (antes ele era amarrado). A seguir, põe uma camisa e faz um gesto simples, automático, tocando pequenos objetos que também relembram a Idade Média, quando foram inventados, por volta de 1204: os botões. Então ela põe os óculos (criados em torno de 1285, provavelmente na Itália) e vai verificar sua aparência num espelho de vidro (concepção do século XIII). Por fim, antes de sair olha para fora através da janela de vidro (outra invenção medieval, de fins do século XIV) para ver como está o tempo.

Ao chegar na escola ou no trabalho, ela consulta um calendário e verifica quando será, digamos, a Páscoa este ano: 23 de março de 2008. Assim fazendo, ela pratica sem perceber alguns ensinamentos medievais. Foi um monge do século VI que estabeleceu o sistema de contar os anos a partir do nascimento de Cristo. Essa data (25 de dezembro) e o dia de Páscoa (variável) também foram estabelecidos pelos homens da Idade Média. Mais ainda, ao escrever aquela data – 23/3/2008 –, usamos os chamados algarismos arábicos, inventados na Índia e levados pelos árabes para a Europa, onde foram aperfeiçoados e difundidos desde o começo do século XIII. O uso desses algarismos permitiu progressos tanto nos cálculos cotidianos quanto na matemática, por serem bem mais flexíveis que os algarismos romanos anteriormente utilizados. Por exemplo, podemos escrever aquela data com apenas sete sinais, mas seria necessário o dobro em algarismos romanos (XXIII/III/MMVIII).

Livro Medieval: Bridwell Library
Para começar a trabalhar, a pessoa possivelmente abrirá um livro para procurar alguma informação, e assim homenageará de novo a Idade Média, época em que surgiu a idéia de substituir o incômodo rolo no qual os romanos escreviam. Com este, quando se queria localizar certa passagem do texto, era preciso desenrolar metros de folhas coladas umas nas outras. Além disso, o rolo desperdiçava material e espaço, pois nele se escrevia apenas de um lado das folhas. O formato bem mais interessante do livro ficou ainda melhor com a invenção da imprensa, em meados do século XV, que permitiu multiplicar os exemplares e assim barateá-los. Tendo encontrado o que queria, a pessoa talvez pegue uma folha em branco para anotar e, outra vez, faz isso graças aos medievais. Deles recebemos o papel, inventado anteriormente na China, mas popularizado na Europa a partir do século XII. Mesmo ao passar suas idéias para o computador, a pessoa não abandona a herança medieval. O formato das letras que ali aparecem, assim como em jornais, revistas, livros e na nossa caligrafia, foi criado por monges da época de Carlos Magno.

Relógio Medieval de Praga,
 por Emilia Duarte
Sentindo fome, a pessoa levanta os olhos e consulta o relógio na parede da sala, imitando gesto inaugurado pelos medievais. Foram eles que criaram, em fins do século XIII, um mecanismo para medir o passar do tempo, independentemente da época do ano e das condições climáticas. Sendo hora do almoço, a pessoa vai para casa ou para o restaurante e senta-se à mesa. Eis aí outra novidade medieval! Na Antiguidade, as pessoas comiam recostadas numa espécie de sofá, apoiadas sobre o antebraço. Da mesma forma que os medievais, pegamos os alimentos com colher (criada aproximadamente em 1285) e garfo (século XI, de uso difundido no XIV). Terminada a refeição, a pessoa passa no banco, que, como atividade laica, nasceu na Idade Média. Depois, para autenticar documentos, dirige-se ao cartório, instituição que desde a Alta Idade Média preservava a memória de certos atos jurídicos (“escritura”), fato importante numa época em que pouca gente sabia escrever.

À noite, enfim, a pessoa vai à universidade, instituição que em pleno século XXI ainda guarda as características básicas do século XII, quando surgiu. As aulas, com freqüência, são dadas a partir de um texto que é explicado pelo professor e depois debatido pelos alunos. Alguns deles recebem um auxílio financeiro para poderem estudar, como no colégio fundado pelo cônego Roberto de Sorbon (1201-1274) e que se tornaria o centro da Universidade de Paris. Depois de mais um dia de trabalho e estudo, algumas pessoas querem relaxar um pouco e passam na casa de amigos para jogar cartas, divertimento criado em fins do século XIV, como lembram os desenhos dos naipes e a existência de reis, rainhas e valetes. Outros preferem manter a mente bem ativa e vão praticar xadrez, jogo muito apreciado pela nobreza feudal, daí a presença de peças como os bispos, as torres e as rainhas.

Peças de jogo de xadrez de Carlos Magno
Durante todas essas atividades, pensamos, falamos, lemos e escrevemos em português, sem, na maioria das vezes, nos darmos conta de que esse elemento central do patrimônio cultural brasileiro vem da Idade Média. E não só porque a nossa língua nasceu em Portugal medieval. Como qualquer língua, com o passar do tempo o português falado na sua terra de origem foi se alterando bastante. Muitas características do idioma falado hoje em dia em Portugal – inclusive o que chamamos de sotaque daquele povo – são do século XIX. Mas no Brasil aquele idioma foi introduzido no século XVI por colonos que falavam da mesma forma que cem ou duzentos anos antes, isto é, como em Portugal medieval. Além disso, sendo o Brasil muito vasto e muito distante da metrópole portuguesa, as lentas transformações na língua demoravam mais para chegar aqui. Em resumo, falamos hoje um português mais parecido com o da Idade Média do que com o de Portugal moderno.

Estudos recentes mostraram que idosos analfabetos do interior de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo usavam, em fins do século XX, formas do português dos séculos XIII-XVI. Essas pessoas ainda falam esmolna em vez de “esmola”, pessuir e não “possuir”, despois no lugar de “depois”, preguntar para dizer “perguntar”. Contudo, não se trata propriamente de erros, e sim de exemplos de manutenção de formas antigas, levadas àqueles locais pelos bandeirantes nos séculos XVI e XVII. Devido ao isolamento e à pobreza daquelas regiões, esse modo de falar prolongou-se pelos séculos seguintes.

Basta uma rápida olhada em qualquer aglomerado humano no Brasil, seja no metrô, num estádio de futebol ou simplesmente nas ruas, para se constatar o que todos sabemos: a população brasileira tem alto grau de mestiçagem. Nada estranho, já que a terra era habitada por diferentes tribos indígenas quando os portugueses aqui chegaram, e logo foram introduzidos muitos escravos africanos. O que se ignora com freqüência, porém, é que se os dominadores portugueses aceitaram com facilidade a mestiçagem, é porque ela fazia parte da sua prática social havia muito tempo. Eles resultavam da mistura entre celtas, romanos, germanos, berberes (população do norte africano), árabes, judeus e negros. Importantes historiadores já afirmaram que, pelo menos até o século XIV, os mouros não devem ser considerados uma etnia, e sim uma minoria religiosa, porque, em termos raciais, não havia diferença entre portugueses cristãos e portugueses muçulmanos. Portanto, os portugueses já eram mestiços ao chegarem à América, o que facilitou a mistura racial na colônia.

Estudar História – de qualquer época e de qualquer local – não deve ser tarefa utilitarista, não deve “servir” para alguma coisa específica. A função de seu estudo é mais ampla e importante; é desenvolver o espírito crítico, é exercitar a cidadania. Ninguém pode atingir plenamente a maturidade sem conhecer a própria história, e isso inclui, como não poderia deixar de ser, as fases mais recuadas do nosso passado. Assim, estudar História Medieval é tão legítimo quanto optar por qualquer outro período. Mas não se deve, é claro, desprezar pedagogicamente a relação existente entre a realidade estudada e a realidade do estudante. Neste sentido, pode ser estimulante mostrar que, mesmo no Brasil, a Idade Média, de certa forma, continua viva.


Hilário Franco Júnior é professor da Universidade de São Paulo e autor de A Idade Média, nascimento do Ocidente (Brasiliense, 2006) e de “Raízes medievais do Brasil” (Revista USP, 2008). 
Texto retirado de “Revista de História da Biblioteca Nacional”, publicado em 01/03/2008.

sábado, 10 de abril de 2010

Orun-aiyê: imagens e (re) leituras da cultura africana por meio da mitologia afro-brasileira de José Carlos Limeira e Landê Onawale

Por: Leandro Alves de Araújo

 “Cada ancião que morre na África é uma biblioteca que se perde.”
 (Hampate Bá, 1977).2
O presente trabalho insere-se na discussão sobre a essencial questão dos estudos afro-brasileiros na atualidade: quais as imagens da poética negra hoje? Quais os seus construtos contemporâneos? Quem são seus autores e autoras? E de qual cotidiano falariam? Sendo assim, tal comunicação, por meio da pesquisa e estudo de certas obras literárias que não pertencem ao cânone, e que ainda não estão incluídas no currículo escolar, tenta estabelecer uma relação com outras linguagens e figurações de sentidos revisitados em memórias, oralidade, tradições, militância e ancestralidade que se expressem em torno de aspectos étnicos e identitários.

Os anos cinqüenta do Século XX retratou, no campo da pesquisa acadêmica, o nascimento de um período especial, no que diz respeito à construção de estudos voltados para a identidade e valorização da cultura negra, principalmente dirigida às questões afro-brasileiras. Desenvolveu-se a historiografia que privilegiava a valorização dos ritos, o resgate das tradições africanas, a oralidade, as memórias e as influências do negro nos costumes brasileiros. As novas temáticas transcenderam as questões que durante muito tempo caracterizaram as concepções sobre temas afro-brasileiros, voltados exclusivamente para a construção da sociedade escravista. 

Os estudos sistematizados sobre a cultura africana, suas formas de organização social e a chegada desses costumes ao cotidiano brasileiro, revelaram a possibilidade de novas temáticas e formas de expressão para o resgate da cultura negra brasileira. A literatura brasileira debruçou-se nesta oportunidade, nascendo na Bahia uma significativa produção literária voltada para as questões e situações dos grupos raciais de origem africana no Brasil, os afro-descendentes brasileiros ou afro-brasileiros. Neste contexto nasce a sustentável produção de autores baianos dedicados ao tema em questão, tendo, como principais expoentes, nomes como Jônatas Conceição da Silva, José Carlos Limeira, Landê Onawale, Hamilton Borges, Edson Conceição e Nelson Maca. 
  
        “É, pois, nas sociedades orais que não apenas a função da memória é mais desenvolvida, mas também a ligação entre o homem e a Palavra é mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado à palavra que profere. Está
        comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo que ele é. A própria coesão da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra.” (Hampate Bá, 1977). 
Conjecturar a respeito de tradições na história africana significa, a priori, falar de tradição oral. Para Hampaté nenhuma tentativa de penetrar na história e na alma dos povos africanos é válida, se não se apóia nessa herança de conhecimentos de tal espécie, transmitida pacientemente de boca a ouvido e de mestre a discípulo através dos tempos.

As formas de expressão se consolidaram como elementos característicos das resistências do negro no Brasil. A oralidade foi à primeira forma e a mais representativa ação de resistência do negro no Brasil, numa sociedade na qual lhe tomou o direito de ter conhecimento dos processos de alfabetização. Somente após a crise do modelo escravista, o negro, mesmo de forma restrita e por “viagens solitárias”, teve acesso à expressão escrita. A literatura negra brasileira passou a desempenhar a função de resistência, balanceando a conservação da cultura oral sobre a forma da palavra escrita. A literatura afro-brasileira no Brasil, principalmente a desenvolvida por autores soteropolitanos, dedicou-se ao ideal de igualdade de gêneros e respeito na expressão das suas particularidades religiosas, ultrapassando os espaços do público e privado; os espaços da casa e da rua. A literatura de Landê Onawale se configura como um dos principais exemplos dessa contínua literatura afro-brasileira na contemporaneidade, marcada como expressão dissonante e metafórica do mundo, constituída por sentimento ávidos que corroboram na captação de relatos, fragmentos e imagens do cotidiano desse mundo negro.

A virada nos estudos referentes aos relatos da importância memorial do negro na formação da cultura brasileira iniciou-se com o trabalho de Pierre Verger, fotógrafo e posteriormente escritor de obras voltadas para o rigor antropológico.  Na década de 30, o francês Pierre Verger passou dedicar a sua vida ao ofício da fotografia, viajando por diferentes partes do mundo.  A fase mais significativa do trabalho de Verger deu-se com a sua chegada ao Brasil, especificamente na Bahia, no ano de 1949, enveredando-se por um intenso estudo, com a proposta de retratar a cultura e os ritos afros, existentes no Brasil.

Os estudos de Pierre Fatumbi Verger iniciaram-se em 1948, por meio de inúmeras viagens à África Ocidental, em terras Iorubas, durante dezessete anos. A profundidade dos estudos de Verger se mostra com a sua inserção religiosa aos cultos africanos. Tornou-se babalaô em Kêtu no ano de 1950, recebendo de seu mestre Oluwo, o nome de Fatumbi, “aquele que nasceu de novo (pela graça de Ifá)”. O trabalho de Pierre Fatumbi Verger se dedicou ao conhecimento dos fundamentos históricos, mitológicos, a descrição de rituais e explicação da profunda afinidade cultural entre a África, na região do Golfo de Benin, com o Brasil, referenciando a cidade de Salvador na Bahia. 3

A obra de Verger tem como objeto de estudo e investigação relatar o culto dos orixás, deuses dos Iorubas em seus lugares de origem, na África, principalmente na Nigéria e no Novo Mundo, no Brasil e nas Antilhas. A pesquisa foi desenvolvida pelas observações que relatavam à trajetória de grupos negros arrebatados do seu meio natural e trazidos para a América, para serem a mão-de-obra explorada do sistema escravista. 4 A obra “Os Orixás”, narra com profundidade aspectos esquecidos referentes à cultura negra no cenário acadêmico. A cosmologia vergeriana dedica-se aos ritos de iniciação africana e afro-brasileira, as cerimônias, suas memórias ancestrais, aos princípios da hierarquia e perpetuação do conhecimento mediante a oralidade, bem como suas construções mitológicas e representações religiosas (Exu, Ogum, Oxossi, Ossain, Orunmilá, Oranian, Iansã, Oxum, Obá, Oxumaré, Obaluaê, Nana, Xangô, Yemanjá e Oxalá.

Os estudos históricos, sociológicos e principalmente antropológicos se aprofundaram na questão voltada para as identidades da cultura africana. Pesquisas desenvolvidas em períodos recentes acentuaram a proximidade entre Brasil e África, ressaltando a semelhança entre “costumes tradicionais dos Iorubas, (independente de religião) e as cerimônias de Candomblés Kêtu no Brasil”. 5 Observaram-se as semelhanças entre antigos hábitos, o comportamento dos adeptos das religiões de matriz africana e valores religiosos presentes tanto na África como no Brasil, a exemplo dos sentimentos de temor, profundo respeito e cuidado com a sua cultura.  

A cultura negra no Brasil, em períodos contemporâneos foi marcada pela incessante busca de reconhecimento de valores étnicos e demonstração de plena consciência das relações sociais que envolvem o negro na sociedade brasileira. A cultura negra passa a cada dia por um processo de reconhecimento conquistado por grupos comprometidos com reflexões cada vez mais amplas. Pode-se citar em relação ao reconhecimento social que:
         “Com certeza, se é verdade que qualquer atividade humana possa ser cultura, dela não o é necessariamente ou não é ainda forçosamente reconhecida como tal. Para que haja verdadeiramente cultura, não basta ser autor de práticas sociais; é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza”. 6
As reflexões do cientista social francês, Michel Certeau contribui ao entendimento de como se poderia tornar realidade à concretização e reconhecimento da cultura negra. A formação de uma cultura negra, o seu reconhecimento, não se resume na autoria de práticas sociais e a produção de bens culturais (autores de livros, depoimentos ou obras de arte). O reconhecimento da cultura negra passa por um processo de reconhecimento da sua riqueza, os próprios grupos raciais brasileiros reconhecerem a necessidade de preservação da sua cultura e desenvolver a partir desta ideologia a sua militância e atuação em diversos campos do conhecimento.

Os anos 70 representaram no Brasil, o momento de nascimento de uma consciência voltada para a reflexão do negro na sociedade brasileira. Nasce neste período uma literatura engajada, consciente, motivada pelo ideal de independência dos países africanos, que passariam a ter como língua oficial o português, ampliando as relações entre brasileiros e o continente africano. 7 O outro exemplo de inovação ocorrido nos anos 70 foi o nascimento dos Cadernos Negros, pioneiro nos movimentos de militância, consciência política, visibilidade e oportunidade de trabalho para autores negros brasileiros. 8

A década de 70 marcou o início dos escritores negros que proclamaram a sua africanidade. A cultura afro-brasileira passou a não se pautar nos modelos de cultura dominante, de uma sociedade que foi norteada pela ideologia do branqueamento. 9 Os autores desse período expressaram por meio da literatura a afirmação cultural dos grupos afro-brasileiros. Constituiu-se o ideal no qual, refletia-se “não somente o pão de comer, mas o pão de ser”. 10

O contexto abordado criou metáforas para falar do negro no cenário econômico e social, refletindo sobre longa data, quando se iniciou o processo de coisificação do escravo quando “A Princesa esqueceu-se de assinar nossas carteiras de trabalho”. 11 Relataram-se dados importantes sobre a escravidão e a situação dos escravizados, mesmo após o processo de abolição, em 1888. Tal período foi acentuadamente marcado pela retomada das idéias e, sobretudo das discussões a cerca da identidade ancestral de raízes africanas. 

Eu sou a África
uma bandeira negra
 a tremular no espaço
Eu sou a África
o esteio do Universo
e a confiança no porvir
Eu sou a terra virgem
que todos beijarão amanhã
  Eu sou a África
uma bandeira a tremular no espaço12 

A África passava a espelhar a origem, o troco ancestral que com suas profundas raízes, reafirmavam não apenas um local, mas uma história que se tentou apagar por inúmeras maneiras. A bandeira que balança os versos de Bésilva é mesma que aponta para uma identidade que foi esquecida durante séculos, como marca de uma sociedade escravista que excluiu o negro por pelo menos três séculos, de atuar efetivamente na construção da identidade brasileira. A poesia negra do Brasil contemporâneo resgatou o orgulho e as origens africanas, como forma de se definir o seu lugar de fala frente aos demais grupos raciais que constituem o povo brasileiro.

Os relatos sobre a efetivação de uma negritude ganham uma amplitude cada vez maior, principalmente pelo comprometimento de um grupo cada vez mais extenso, engajados nas lutas sociais pelo o direito de oportunidades. A África torna-se tema constante e Oliveira Silveira canta:
      Tuas tetas - vulcão,
       leite-lava,  unhas e dentes - tuas feras,
  tuas veias Zambeze, Níger, Congo,
      cascatas - gargalhadas.
      Tua savana - ventre
       e a selva - cabelos, pentelhos.
  Bem ai, mãe, eu quero me repor dentro de ti.13

Se consolida por Oliveira Silveira a proposta de uma narrativa, de uma poesia enaltecedora, resgatando a África como um local de notável exuberância natural. Inicia-se uma poesia descritiva voltada para relatar a beleza e riqueza de um continente que, com o passar dos séculos, torna-se problemático, devido às ações do colonizador. A África, durante a década de 70, a descolonização e as lutas pela independência, na concepção de Oliveira Silveira, resgataria a formosura da sua beleza original. A beleza do seu povo passa a ser valorizada e comparada ao belo continente, com olhos e dentes fortes, como a terra que resistiu ao processo de exploração.  

A identidade afro-brasileira é por vezes revisitada através da poética negra; realçando características culturais especificamente africanas como os instrumentos de percussão, os batuques, tambores e a ginga. Mas é, sobretudo, através dos ritos ancestrais que permeiam a religião do candomblé (culto de matriz africana), que os mesmos mantiveram viva e dinâmica a sua memória, concomitantemente a sua ligação com a África.

Podemos perceber tal ligação por meio do fragmento, reproduzido aqui, do poema Kalunga de Landê Onawale14:

A memória do mar me atravessa...
Está cravada em mim
Como os ferros da grande árvore inesquecível,
São meus poros,
São as voltas da muzenza contornando os cemitérios
- e, é  claro, são mistérios. 
Balança o mar...balança numa jinga interminável
Das florestas de Matamba aos serrados dos brasis.
Balança o mar...balança numa dança incansável com o futuro
(exercício da destreza necessária). 
Balança o mar...balança...
É o colo de Kayala que me embala,
São os braços de Kyanda
- onde entrego minhas forças para sair tão renovado! 

No poema citado, o poeta Landê Onawale nos apresenta, por meio das lembranças que compõem a sua memória, fotografias do seu universo sagrado - talvez mítico – comprometido com as vivências, representações e imagens que se dissipam em palavras e formam no mar um espectro cultural e identitário de um povo.

Pertence ao saudoso poeta Jônatas Conceição, a “faca afiada”, que instiga por uma militância literária e que penetra as entranhas de uma sociedade ainda racista, abrindo e demarcando espaços por uma proposta de equidade de direitos ao seu povo preto.

Segundo o poeta Jônatas Conceição (Vozes Quilombolas, 2006) "Forjado não mais para guerrear com armas bélicas, o quilombo
contemporâneo e urbano cumpre a função de, a partir de referenciais
históricos, promover um debate permanente no seio da sociedade”.

O mesmo vai pensar o conceito de Quilombo na contemporaneidade a partir de um debate discursivo travado nos mais diversos espaços da sociedade.

É de fato, tênue, a linha que separa os espaços utilizados e/ou reinventado pelos sujeitos em questão. Até que ponto a literatura negra é ficção ou a ficcionalização destes autores/sujeitos não seria real? Como pode estar completamente comprometida e vinculada a construção da identidade, nessa trama de relações subjetivas?

Trazendo tal discussão para a luz dos estudos da identidade em Stuart Hall (Da Diáspora, Identidade e Mediações Culturais/2003), o mesmo vai partir de um questionamento a cerca de que tipo de momento é este para se colocar a questão da identidade negra? Para o autor, esses momentos são sempre conjunturais. Eles têm sua especificidade histórica; e embora sempre exibam semelhanças e continuidades com outros momentos, eles nunca são os mesmos momentos.

A reinvenção desses sujeitos - poetas negros e negras - se transmite nas multiplicidades de “artimanhas” ou habilidades em dar um novo sentido, as suas práticas, as suas ações, e por fim a sua história de vida. São homens e mulheres que emprestam as suas sensibilidades para transmitirem os anseios, queixas e toda a sorte de (des) assistência que as periferias sociais da Bahia e do Brasil se encontram. São poemas que falam de verdades, da dor e do drama cotidiano a que são acometidos. Falam também das delícias e peculiaridades desses lugares. Mas há o poeta, também, que crê na força alentadora e contagiante dos seus versos para desalienar seus semelhantes do conformismo, do complexo de inferioridade, da negação de si próprio.

A liberdade e sua discussão tornam-se temas de constantes reflexões, na poesia afro-brasileira. Valorizou-se como expressão metafórica das transformações que estavam ocorrendo no Brasil e no mundo, descrevendo-se no exemplo representativo, que sintetiza a liberdade na poesia afro-brasileira como: 

Quando você  acreditar
 Que é livre e pode
     Empreender o vôo da realidade
 Procure não pensar
 Nas correntes da consciência.15

Os relatos de José Carlos Limeira revelam uma dualidade de relações que interliga dois continentes; Brasil e África. De um lado, na África reflete-se sobre as amarras da escravidão ainda existentes. As amarras africanas iniciam-se com o período da colonização, no decorrer do Século XV, se estendendo aos dias atuais, movidos pelas violentas ditaduras e regimes opressores. As semelhanças poéticas entre América e África declaram que ao longo dos anos 70 e iniciar dos anos 80, ambos os continentes estão marcados por violentas ditaduras que suprimem as liberdades individuais e coletivas.

O ideal de liberdade simboliza o vôo, a aspiração de um sonho de liberdade que se deve a todo instante resgatar os ideais políticos e sociais, com o intuito de transformar a sociedade vigente no país; transformar as heranças da escravidão e inserir o negro com oportunidades iguais. A liberdade seria a ruptura com o passado escravista que aplicou sérias penas e castigos aos grupos marginalizados afro-brasileiros, ao longo da história brasileira, por pelo menos três Séculos de escravidão efetiva, perpetuando as suas heranças, ao Brasil do tempo presente. É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.

É bastante relevante discutir sobre tais sistemas, para que possamos avaliar os diversos meios de exclusão legitimados por discursos ideológicos oriundos de uma sociedade branca, racista, eurocentrica e homofóbica. Não precisa grandes análises para perceber que os negros são minorias na tradição literária do país. Quando os mesmos são retratados, são introjetados em papéis cômicos, de pouca relevância ou ainda, o que julgo pior, caricaturados de forma inferiorizantes. É fácil perceber que os autores e autoras negras no Brasil, travam uma luta desigual para fazerem ecoar as suas vozes no cenário literário e social.

A poética negra contemporânea na Bahia tem um compromisso com a valorização da cultura negra e com os valores que corroboram para afirmação das identidades negras que assumem em tempos atuais, diversas formas de expressões literárias, passando pela estética da poesia, da prosa, bem como da relação entre música e poesia através do Hip Hop. A expressão escrita e a sua relação com a oralidade negra, é uma forma de registro e resistência da cultura negra, em diferentes momentos históricos.

Destarte, percebe-se que a poética negra contemporânea situa-se no entre – lugar da realidade e da ficção. Não se trata da arte pela arte, nem de escritos evasivos ou ainda manuais de conduta cívica e moral. A literatura negra é uma arma pungente, viva, latente e denunciadora das “faltas” e das irreparações sofridas pelo povo negro. A poesia negra ficcionaliza o cotidiano desses sujeitos, aproximando-os da tênue linha divisória entre o real e o irreal. Trata-se de uma escrita comprometida com a sua verdade, a sua lógica, as suas ideologias. Não se pode fazer poesia negra de fora do gueto. Mesmo sendo preto. A literatura negra fala de um lugar específico, pois nasce em um lugar estratégico. Ainda que a mesma se propague por outros espaços – e, é essa a proposta. 

Referências
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