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sábado, 26 de janeiro de 2013

Da Associação Atlética Maragogipana à Fundação Vovó do Mangue (1954 a 2013)

Por Zevaldo Sousa


A Associação Atlética Maragojipana foi fundada em 16 de março de 1952 e, como toda instituição teve ótimos administradores, mas no final da década de 90 entrou no período de crise profunda, tendo seu fim decretado, todavia teve um recomeço.

Neste texto, procuraremos retratar um pouco da Associação Atlética, pois a história-problema se preocupa e muito com detalhes que intrigam a sociedade e que continua ligada, mesmo que sentimentalmente, a determinado órgão ou instituição que pertenceu.

Atualmente, o antigo prédio da Associação Atlética Maragogipana que estava caindo aos pedaços, e foi restaurado (fotos abaixo) no início do século XXI, estando sob responsabilidade de um grupo de maragogipanos que se organizaram em torno da Fundação Vovó do Mangue, e que apesar de ter preservado o nome da antiga instituição durante quase todo período, no final de abril de 2010 a mudança na fachada do prédio colocando o nome da Fundação causou novo debate.




A sociedade prontamente reagiu, o presidente da Câmara de Vereadores falou seu posicionamento em plenário na Câmara de Maragogipe como antigo sócio, assim como outras pessoas da sociedade. Ocorreu um pequeno debate no mural do Blog do Zevaldo Sousa, e nele, havia opiniões contrárias e a favor do fim decretado, como forma de amenizar a situação, membros da Vovó do Mangue resolveram colocar o símbolo da Associação Atlética Maragogipana na frente do prédio.

A mudança caso um novo debate
Desde o início do funcionamento da Associação Atlética Maragogipana parte da comunidade tinha direitos a participar das atividades. A instituição sempre se preocupou em servir de entretenimento para essa parcela da sociedade maragogipana, que servia-se de jogos esportivos, assim como bailes eram realizados durante o ano, em momentos festivos, a exemplo do carnaval de Maragogipe, blocos carnavalescos divertiam a sociedade mas nem todo mundo poderia entrar no ambiente, era preciso estar trajado com certos padrões de etiqueta para entrar no recinto, e como a grande maioria da população maragogipana não tinha condições financeiras para cobrir os custos do entretenimento no espaço, o ambiente se tornou centralizado e elitizado. No carnaval, assim como em outros clubes sociais, como a Rádio Club Maragogipano (antigo Clube dos Alemães), a Terpsícore Popular e a Dois de Julho, locais que se tornaram patrimônios culturais dos maragojipanos, blocos carnavalescos eram realizado como parte da cultura da instituição.

Na década de 1990, a Associação Atlética Maragogipana viveu momento de crises profundas, com administrações que não conseguiam manter o equilíbrio financeiro, e acabavam vendendo o patrimônio público para particulares. Diversos objetos também foram saqueados, o prédio da instituição estava caindo, o telhado e a madeira que o sustentava estavam apodrecidos, a água da chuva penetrava com facilidade e não havia de onde tirar recursos para a manutenção da instituição, nem muito menos havia pessoas interessadas em manter aquele padrão. A situação no município estava mudando junto com o novo período de Democratização da sociedade brasileira.

A seguir, esboçaremos um pouco da situação através de resumos das atas de reuniões que quase inexistiam devido ao desinteresse dos associados.

[1] Ata da página 154 relata que o clube estava em "péssimos condições financeiras", evidenciando a falta de participação dos sócios e de pagamento das mensalidades (1996).

[2] Ata da página 159 menciona prejuízo nas operações financeiras do carnaval de (1997).

[3] Ata da página 161 fala sobre problemas financeiros, negociações para pagamento de dívida trabalhista. Fala também sobre as constantes locações para terceiros como fonte de renda (1997)

[4] Ata da página 163 - Eleições 98/99 ressalta que somente 37 associados participaram das eleições. (1998)

[5] Ata da página 164 cita a proposta de anistia dos sócios em atraso (aceito pela diretoria) indo de encontro ao estatuto que diz que o sócio que não pagasse 03 meses consecutivos e 06 meses automaticamente eliminados (segundo o Estatuto deveria haver Assembléia Geral, mas esta não aconteceu). Cita que era costume terceiros locarem o clube pagando uma taxa abaixo do valor real e oferecendo benefícios aos diretores (camisetas, ingressos e cerveja na festa) - 1998.

[6] Ata da página 165 cita que a diretoria do clube solicita ajuda da Prefeitura como funcionários, reparos na estrutura e bandas para as festas. Cita que somente a prefeitura ajuda para demonstrar aos sócios que se está fazendo alguma coisa (1998)

[7] Ata da página 167 cita as dificuldades financeiras do clube, a ausência dos sócios e os esforços da diretoria em realizar atividades, porém sendo evidente a falta de interesse dos associados em frequentar o clube (1998)

[8] Ata da página 168 fala sobre o fraco movimento no carnaval de 1998 e as dificuldades financeiras (1998)

[9] Ata da página 170 afirma que são poucos os associados a pagarem suas mensalidades (1999)

[10] Ata da página 171 somente 36 sócios participaram das eleições (2000)

Cabe aqui uma observação, o intervalo entre as 03 últimas atas 03/98 - 01/99 - 01/2000.

[11] Ata de julgamento do processo nº 40.01.01.0920-01 - processo trabalhista contra a AAM assinada pelo Dr. Humberto Machado - Juiz do Trabalho, relata que documentos juntados ao processo revelam que a AAM esteve totalmente abandonada a partir de 1998 (2002)

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Associação Atlética Maragojipana - Fundada em 16 de março de 1952

Breve relato da atual situação física, financeira e jurídica do clube, conforme listado a seguir: condições totalmente precárias de todas as dependências físicas do clube, telhado e forro do salão principal totalmente degradados, com precárias condições de segurança, forçando sua interdição por tempo indeterminado; o espaço do bar sem condições adequadas de higiene; toda a parte elétrica com graves riscos de causa de acidentes; salas de diretoria e secretaria e demais dependências com paredes sujas e portas estragadas; equipamentos de som e demais equipamentos de escritório sucateados; equipamentos esportivos sem condições de uso; quadra esportiva e redes de proteção com péssimas condições. Na parte financeira verificou-se a seguinte situação: dívida com a empresa de água e saneamento Embasa no valor de R$ 1050,36 estando o fornecimento de água cortado; dívida com a empresa de telefonia Telemar no valor aproximado de R$ 300,00 do telefone de número 726-1028, pertencente ao clube; recibo de energia elétrica da empresa Coelba no valor de R$ 20,14, com vencimento em 06/12/1999 pendente de pagamento; situação de recolhimento de FGTS e INSS não declarada pela administração anterior; sete cheques cadastrados no CCF do Banco do Brasil, agência 2271-3 (Agência de Maragogipe), conta corrente de número 45.767-1, sendo que cinco cheques foram inclusos em 08/05/1996, não constando seus dados mais no sistema do referido banco (vlor e número do cheque), e dois constam conforme se segue - nº 563150, no valor R$ 255,00, incluso a 06/03/1996 e outro de número 712249, no valor de R$ 463,00, incluso em 09/05/1996. Não foram constatadas outras restrições ou pendências financeiras,constando Certidão Negativa emitida pelo Cartório de Protesto de Títulos. Somente 37 sócios estavam em dias até dezembro de 1999. Encontra-se também uma pendência trabalhista com os funcionários Bartolomeu Barbosa dos Santos, admitido em janeiro de 1990 e Rosana Reis Guerreiro Miranda, admitida em janeiro de 1994, sendo que os últimos salários pagos no dia 30/12/1998, no valor de R$ 150,00 para a funcionária Rosana Reis Guerreiro Miranda, e R$ 130,00 para o funcionário Bartolomeu Barbosa dos Santos, registrados no balancete de abril a dezembro de 1998. O balancete de janeiro a março de 1998 não foi repassado pela administração anterior. Quatro livros de atas foram extraviados.

Maragojipe, 15 de janeiro de 2000
Marcos Antonio Barbosa Pereira
Presidente

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A partir daqui, instala-se uma nova administração, ao longo deste período, jovens vão se unir em prol da reconstrução deste prédio abandonado, e irão transformar o espaço. Como nas imagens abaixo relacionadas.



















A FUNDAÇÃO VOVÓ DO MANGUE
A Fundação Vovó do Mangue inicia um trabalho neste ambiente, e além do espaço ser revitalizado  como nas imagens abaixo relacionadas. Trabalhos socioambientais são desenvolvidos pela instituição.

Fundada em 1997, em Maragogipe, a Fundação Vovó do Mangue (FVM) desenvolveu diversas atividades nas áreas culturais, sociais e ambientais. O trabalho da Fundação é sempre buscar o equilíbrio entre a natureza e a sociedade. Dessa maneira, a entidade age no município com um direcionamento socioambiental e sociocultural bastante relevante.

Temos consciência de que a fundação, nos últimos anos, desenvolveu trabalhos como:

  • Projeto brasileirinho com a prática de esporte, promoção da cidadania e da educação ambiental. Dezenas de famílias são atendidas pelo Projeto que contribui para a formação de jovens com idade entre 10 e 17 anos;
  • Projeto Abrinq que atendeu aproximadamente mais de 180 crianças;
  • Projeto Viva o Mangue por intermédio do cultivo e do plantio de 20 mil mudas de mangue e da capacitação técnica de membros da comunidade para atuarem como multiplicadores, objetivava recuperar cerca de 10.000m2 de manguezal na Reserva Extrativista Baía do Iguape.

Além disso, a Fundação Vovó do Mangue mantinha parcerias com a Petrobrás, Deten Química S/A, Fundação Abrinq e o Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e Adolescentes, com os pais das crianças, em sua maioria, pescadores e marisqueiras.

O projeto da Fundação estava dividido em duas áreas:

  • Educação ambiental que visava a formação de agentes multiplicadores e Horto de mangue, que visa a manutenção do ecossistema de manguezal, tanto em Maragogipe como em outras localidades que sejam propícias a recuperação.
  • Projeto “Viva o mangue”, que era firmado em parceria com Deten Química S/A, que visa a reprodução de mudas de manguezal, das espécies mais comuns encontradas na Baía do Iguape. Conta também com pesquisas e estudos voltados a área ambiental. E com um intuito maior de educar para preservação do meio ambiente.
Educação ambiental

A realização da “Semana do Meio Ambiente” e a “Semana Estudantil” (Fotos abaixo) eram eventos realizados pela instituição em que seu ápice de divulgação entre a comunidade maragogipana era atingido. Eram voltadas para a criação de consciência de preservação, onde contam com gincana ecológica, jogos esportivos, mostra de vídeo, palestras, plantio de mudas do mangue.




Em 2012, observamos a perda significativa dos projetos conquistados com muita luta e a fundação deixou, muito a desejar, nas questões sociais e ambientais do município. Envolvimentos com políticos municipais travaram e diminuíram a independência da instituição que demonstrou perda de força perante a sociedade que já não via com bons olhos devido à manutenção de um espaço social que antes “pertencia” a sociedade elitizada de Maragogipe e que houve uma inversão drástica de valores, para incluir a população mais carente, nos diversos âmbitos da sociedade, o que garantiu um saldo positivo entre as populações do entorno da cidade, e um saldo negativo com as pessoas do centro da cidade.

Com isso, a instituição foi alvo constantes de críticas e necessitou de urgente renovação na roupagem da sua diretoria e de seus membros, está precisando de atividade, buscando de novas parcerias e novos projetos. Neste momento, Antônio Marcos e Jorge Dias estão na frente da Fundação e pensam em reabrir a Associação para a comunidade.



A todos aqueles que desejam declarar sobre este texto ou apenas emitir sua opinião: Envie mensagem para nosso e-mail: zevaldo.sousa@gmail.com ou utilize a caixa de comentários.

domingo, 25 de novembro de 2012

Em defesa do caranguejo-uçá - Ucides cordatus

Não podemos negar que o Caranguejo-Uçá, além de outros animais, são de extrema importância para a fauna marítima maragogipana, com isso, este portal não se preocupa apenas com a parte histórica da humanidade, mas também, com seus deslizes ambientais. Hoje, a nossa fauna está praticamente extinta, e é preciso atenção das autoridades que estão implantando o Estaleiro Enseada do Paraguaçu, a história não nega o que aconteceu com este símbolo do manguezal, em outras regiões do Brasil com o contato de micro-organismos de outras partes do globo que chegaram as águas brasileiras nos lastros dos navios. Sendo assim, vale o artigo.


Pós-graduando Bruno Sampaio Sant’Ana (santana@csv.unesp.br), regularmente matriculado no Curso de Pós-graduação do Instituto de Pesca, participa de esforço interinstitucional de pesquisa em defesa do caranguejo-uçá, conforme citado no artigo de Júlio Zanella para o Jornal da UNESP, no. 212, junho de 2006, transcrito a seguir.

Pesquisas ajudam na preservação do crustáceo, que é fundamental para sobrevivência de outras espécies em manguezais e está ameaçado por exploração desordenada no Nordeste.

Estudos sobre alimentação, densidade populacional e reprodução do caranguejo-uçá, desenvolvidos por pesquisadores do Campus Experimental do Litoral Paulista, em São Vicente, poderão contribuir para a estratégia que vem sendo adotada para a preservação do animal. O crustáceo está em processo de extinção em algumas áreas do Nordeste do País, onde é bastante consumido e comercializado, sendo a principal fonte de renda para algumas comunidades ribeirinhas.

“A preservação desse caranguejo é importante porque ele contribui para a sobrevivência de outros animais marinhos, aves e pequenos mamíferos, já que desempenha um papel fundamental na reciclagem de nutrientes dentro do seu hábitat, o mangue”, diz o biólogo Marcelo Pinheiro, coordenador do Grupo de Pesquisa em Biologia de Crustáceos (Crusta).

Conhecido também como “jardineiro-do-mangue”, o caranguejo-uçá, por triturar as folhas, ajuda na sua decomposição por fungos e bactérias, processo que gera nutrientes que são acrescentados ao solo, à água e à vegetação no manguezal. “A atividade alimentar dele auxilia a liberação de nitrogênio, fósforo e potássio no ambiente, elementos que serão absorvidos pelos peixes de água doce e animais marinhos, como outros crustáceos, camarões, mexilhões, berbigões, caramujos e ostras”, explica o docente. “E quanto maior o número de peixes, maior a quantidade de aves no ambiente.”

Em oito anos, o caranguejo-uçá atinge o tamanho médio de 8 a 10 cm. “Como a maioria dos pescadores não espera esse tempo todo, muitos são consumidos precocemente, o que causa impacto em todo o ecossistema local, em prejuízo da vegetação e da reprodução e crescimento de peixes”, diz Pinheiro, orientador dos estudos. O pesquisador investiga a espécie desde 1997 e ajudou na elaboração de uma portaria do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), válida para as Regiões Sul e Sudeste do País, que estabeleceu o tamanho mínimo de 6 cm para a captura desse animal.


Fontes de alimento

O primeiro passo dado pelos pesquisadores para garantir a preservação do caranguejo-uçá foi conhecer como ele se alimenta em seu ambiente. O estudo de doutorado do biólogo Ronaldo Adriano Christofoletti identificou, no mangue de Iguape, próximo a Cananéia, no litoral sul paulista, as folhas das espécies das árvores Avicennia schaueriana e Rhizophora mangle, que são consumidas pelo animal. “A disponibilidade e o valor nutricional das folhas no mangue apresentaram forte influência sobre o ciclo de vida do caranguejo-uçá, podendo também ser um fator limitante ao seu crescimento”, afirma o pesquisador.

A Avicennia possui a maior quantidade de nutrientes, contendo carbono, nitrogênio, cálcio, fósforo e potássio. “Nas áreas com predomínio dessas folhas, os animais apresentaram maior taxa de engorda”, conclui Christofoletti. “Por outro lado, descobrimos que a folha da Laguncularia racemosa possui maior concentração de tanino, substância inibidora de crescimento, que deveria ser evitada pelo crustáceo.” Ele ressalta que as descobertas serão de grande valia para estudos futuros relacionados ao manejo e conservação da espécie, inclusive para a produção de uma ração destinada à sua criação em cativeiro.
Densidade populacional

Se não é adequada para a alimentação do caranguejo-uçá, a Laguncularia racemosa mostrou-se importante para garantir a distribuição espacial dessa espécie, de acordo com outro doutorando da equipe. O estudo apontou as condições que determinam a densidade populacional do caranguejo-uçá através do método de quantificação e mensuração das galerias que ele ocupa. Os dados levantados indicam que a espécie se mostrou mais populosa quando havia abundância da Laguncularia racemosa, registrando-se em média dez galerias por metro quadrado de manguezal com maior presença do vegetal.

O pesquisador Gustavo Yomar Hattori relacionou fatores ambientais como solo, água das galerias escavadas pelo animal, tipo de vegetação e áreas com diferentes níveis de água na maré cheia. “Descobrimos que o teor de cálcio do local e a elevada salinidade foram as principais variáveis positivas para a abundância do caranguejo-uçá”, revela Hattori. “O número de animais foi maior nas áreas de manguezal sujeitas a um regime de pouca inundação.”

De acordo com o pesquisador, os resultados são relevantes para os órgãos fiscalizadores e programas de preservação do caranguejo. “Eles podem indicar que áreas com predominância de Laguncularia racemosa e elevada abundância de indivíduos de pequeno porte devem ser preservadas e consideradas como reserva de estoques naturais”, avalia.

Época de reprodução

Já o biólogo Bruno Sampaio Sant’Anna, em sua dissertação de mestrado, relacionou as condições ideais de reprodução dos caranguejos-uçá com fatores ambientais como temperatura, quantidade de chuva, salinidade, luminosidade, fase lunar, amplitude de marés e densidade populacional. O objetivo foi fornecer dados aos órgãos governamentais para avaliação do período de proibição da captura do caranguejo.

Sant’Anna observou que a reprodução se inicia entre novembro e dezembro, sendo menos acentuada em janeiro, com decréscimo da densidade nos meses subseqüentes. Ele constatou que, na área analisada no litoral paulista, durante as épocas mais quentes do ano, centenas de caranguejos da espécie saem das tocas e caminham pelo manguezal em busca de parceiros para acasalar. Nesse momento, eles ficam mais vulneráveis à captura por pescadores e turistas. “É nessa época, conhecida pelas comunidades ribeirinhas como ‘carnaval’, ‘andança’ ou ‘andada’, que os animais estão mais ativos”, afirma.

O pesquisador lembra que a proibição da captura durante a “andada” tem sido utilizada com sucesso em alguns Estados, como o Espírito Santo. “Isso está ocorrendo apesar de a fiscalização ser problemática, requerendo a conscientização da comunidade e dos catadores que extraem esse recurso pesqueiro”, afirma.
Após 12 meses de trabalho, Sant’Anna – que foi orientado por Pinheiro e pelo Pesquisador Científico do Instituto de Pesca Evandro Severino Rodrigues (evansero@pesca.sp.gov.br) – concluiu que a elevação da densidade da espécie pode ser influenciada pelo aumento da luminosidade, da temperatura e pelas condições de salinidade da água.

Os resultados do projeto como um todo vão auxiliar na melhor adequação do período de defeso determinado pelo Ibama na Região Sudeste e também na conscientização das populações ribeirinhas. Os estudos, vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Zootecnia, área de Produção Animal, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, campus de Jaboticabal, receberam financiamentos da Fapesp, do CNPq e da Fundação Biodiversitas.


INSTITUTO DE PESCA
Atendimento a usuários
Telefones: (011) 3871-7530 e 3871-7569; fax: (011) 3872-5035
E-mail: mailto:instituto@pesca.sp.gov.br

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Documentos da Idade Média: Das três ordens ao comércio com a China

"Não há terra sem senhor nem senhor sem terra."

O período medieval foi um marco na história europeia que legou para a história mundial diversas relações econômicas, culturais, políticas, sociais e religiosas. É impossível deixar de falar na Idade Média na escola, pois o nosso cotidiano está marcado por usos e costumes do período como retratado no texto "Somos todos da Idade Média" de Hilário Franco Junior.

Com isso, iremos retratar através destes textos, dois momentos do período medieval com histórias contadas por quem viveu na época. O primeiro texto será de Adalberto, o Bispo de Laon escrito em plena Idade Média, descreve as três ordens ou estamentos da sociedade europeia centro-ocidental à época do apogeu do feudalismo: o clero, a nobreza e os camponeses. Leia:

Iluminura que representa as três ordens medievais
"A ordem eclesiástica forma um corpo só, mas a divisão da sociedade compreende três ordens. A lei humana distingue duas condições. O nobre e o não-livre não são governados por uma lei idêntica. Os nobres são os guerreiros, os protetores das igrejas. Defendem a todos os homens do povo, grandes e modestos, e também a si mesmos. A outra classe é a dos não-livres. Esta desgraçada raça nada possui sem sofrimento. Provisões, vestimentas são fornecidas para todos pelos não-livres, pois nenhum homem livre é capaz de viver sem eles. 

Por tanto a cidade de Deus, que se crê única, está dividida em três ordens: uns rezam, outros combatem e outros trabalham. Estas três ordens vivem juntas e não suportam uma separação. Os serviços de um permitem os trabalhos dos outros dois. Cada um, alternativamente, presta seu apoio a todos." 

ADALBERTO, bispo de Laon, na França, nos finais do século 10.
In: BOUTRUCHE, R. Señorio y Feudalismo. Madri: Sigilo Veintiuno, 1972.

O segundo texto tem datação aproximada de 1340, escrito por Francisco Balducci Pegolotti, que era um agente da família Bardis, banqueiros de Florença, que elaborou um manual para mercadores viajantes, demonstrando a existência de um comércio florescente. Neste documento, encontramos informações sobre o comércio com a China, entre elas a utilização de papel-moeda a importância de um dragomano (intérprete).


"Em primeiro lugar, deveis deixar a barba crescer e não vos barbeardes. E em Tana deveis contratar os serviços de um dragomano (intérprete). E não deveis tentar poupar dinheiro no que respeita a dragomanos escolhendo um mau em vez de um bom. Pois os honorários adicionais do bom não vos custarão tanto quanto poupareis por tê-lo. E além do dragomano será conveniente contratar pelo menos dois bons criados conhecedores da língua cumana. E se o mercardor gostar de levar uma mulher com ele de Tana, pode fazê-lo; se não gostar de levar, não será a tal obrigado, mas levando-a será tratado muito mais confortavelmente do que não a levando. Não obstante, se a levar, será conveniente que ela conheça a língua cumana, como os homens. [...]"
"Toda a quantidade de prata que os mercadores levarem com eles até Catai, o senhor de Catai lhes tirará e guardará no seu tesouro. E aos mercadores que assim levam prata dão aquele dinheiro de papel deles em troca. Este é de papel amarelo, com o selo do senhor atrás mencionado. E chama-se dinheiro; e com este dinheiro podeis comprar sem dificuldade seda e outra mercadoria que tiverdes desejo de comprar. E todas as pessoas do país são obrigadas a recebê-lo. E não pagareis um preço mais elevado pelas vossas mercadorias por o vosso dinheiro ser de papel. [...]"
"(E não esqueçais que se tratardes os funcionários de casa da alfândega com respeito e lhes oferecerdes um presente qualquer em mercadorias ou dinheiro, assim como aos seus empregados e dragomanos, eles se comportarão com grande civilidade e estarão sempre dispostos a avaliar os vossos produtos abaixo do seu valor real.)"

PEGOLOTTI, Francisco Baldussi. IN: BOORSTIN, Daniel J. Os descobridores: de como o homem procurou conhecer-se a si mesmo e ao mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989. p.137.

Um site interessante em que você poderá visualizar vários documentos antigos e medievais é Idade Média, mantido por Ricardo Costa.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

HISTÓRIA: Infraestrutura de Maragogipe (Abastecimento de Água, Esgotamento Sanitário e Aterro Sanitário)

Na história de todo e qualquer município, a infraestrutura básica é parte fundamental no processo de reconhecimento da humanidade e das suas relações com meio ambiente e do que nós, enquanto pesquisadores, chamamos de sócio-ambiental. Como se sabe, as cidades pensadas sob essa égide, tem a oportunidade de resolver mais rápido os problemas existentes com relação a esse tema. Todavia, Maragogipe, assim como a maioria das cidades brasileiras não teve sua estrutura pensada e resolver esse problema, passou a ser uma grande dificuldade para os administradores atuais e todas as discussões acerca dessa problemática.

Sendo assim, estou me propondo a traçar um panorama histórico da infraestrutura do município de Maragogipe, com um viés muito mais opinativo que histórico. Há necessidade, portanto, de reavaliação deste texto, sob a perspectiva e ótica profissional, visto que, eu estou mais interessado no trato com o público, do que com os profissionais da área posta em questão. Por fim, vale ressaltar que esse texto, apesar de terser longo, ele visa relatar um período da história maragogipana pouco estudada pelos historiadores atuais.

INTRODUÇÃO

Um dos projetos de extrema importância para o município de Maragogipe, e para diversas cidades da Bahia foi o Bahia Azul e este visava mudar o quadro de degradação ambiental existente, tanto na Baía de Todos os Santos como nos centros urbanos que a circundam.

O projeto começou em 1970, na grande Salvador e depois seguiu para o interior do Estado. Na Baía de Todos os Santos, o projeto ocorreu por causa dos reflexos da expansão demográfica e territorial no processo de desenvolvimento das cidades do seu entorno, como Salvador, Itaparica, Vera Cruz, Santo Amaro, Cachoeira, Maragogipe e Madre de Deus que contribuíram para a poluição de rios e cursos de água que passam próximos, além de ocuparem desordenadamente o solo, o esgoto, o lixo e os desmatamentos que  também contribuíram para o desequilíbrio ecológico, degradando a fauna e a flora do local.

Essas cidades não possuíam sistemas de esgotamento sanitário. Em Salvador, apenas 26% da população era atendida. Desse total 13% através de sistemas isolados de conjuntos habitacionais. Milhões de metros cúbicos de esgotos domésticos eram lançados por ano nos rios, nas praias e na baía. O Bahia Azul visou a implantação de redes coletoras, interceptores, estações elevatórias e de tratamento em Salvador, Candeias, Simões Filho, Itaparica, Vera Cruz, Madre de Deus, Santo Amaro, São Francisco do Conde, Cachoeira, São Félix e Maragogipe. (Fonte: Bahia Azul)

Dentre os objetivos do projeto, estavam inclusos
  • Esgotamento Sanitário (Havia planos para Maragogipe e foram implantados)
  • Esgotos  céu aberto lançados ao mar
  • Resolução do problema das praias poluídas, principalmente, em Salvador
  • Proteção Ambiental
  • Abastecimento de Água
  • Resíduos Sólidos - Aterros Sanitários (Havia planos para Maragogipe e o Aterro foi implantado)
  • e outros...
As políticas estatais de Saneamento Básico da Bahia se tornaram fatores de engrandecimento e promoção nos programas do Governo do Estado, mas na prática a população em geral não recebeu os benefícios e hoje, em diversas partes do Estado, já há uma necessidade de renovação e reestruturação do sistema concluído, além da implantação e ampliação dos já existentes sistemas de Abastecimento de Água, Saneamento Básico de resíduos sólidos, líquidos e gasosos que visem o benefício de milhares de pessoas.

O CASO MARAGOGIPE

ETE de Maragogipe destrói o meio ambiente e leva doenças para a população
Como o nosso estudo está voltado para a cidade de Maragogipe, começaremos a esboçar a partir deste momento algumas características gerais do município. Mas antes, gostaria de citar o documento oficial emitido pela Seplan que fala sobre diversos pontos que precisam ser revistos e analisados de outras formas, devido a defasagem do atual sistema.

Com relação ao Saneamento Básico, o documento diz que
"As obras estão concluídas, prosseguindo a efetivação das ligações intradomiciliares, e os sistemas já estão em operação. Foram contempladas as seguintes cidades: Simões Filho, Candeias, Santo Amaro, Madre de Deus, Maragogipe, Itaparica, Vera Cruz, São Francisco do Conde, Cachoeira e São Félix, sendo que os sistemas destas três últimas localidades tiveram suas obras encerradas em 2004."
Contudo, o que se percebe é que existe um grande problema em Maragogipe, com relação ao sistema de Saneamento Básico atual. Basta citarmos o caso da ETE da Comissão-Baixinha e as péssimas condições de manutenção e tratamento do esgotamento maragogipano. Por várias vezes aquela comunidade se manifestou, em favor do fechamento deste empreendimento que polui o meio ambiente da localidade e está agravando o número de doenças para toda comunidade.

Acontece que, a população maragogipana paga na sua conta de água, a famosa "Taxa de Esgotamento Sanitário" e a parte da Embasa, não está sendo cumprida. Cabe portanto revermos essa cobrança, pois a Embasa está poluindo o meio ambiente e não está cumprindo sua parte que seria tratar o esgotamento sanitário, além do recolhimento, visto que a população está pagando para que esse processo de saneamento seja completo e efetivo.

Vale ressaltar que foram investidos, até 2004, em Maragogipe, 999 mil reais nas localidades da Comissão, Baixinha, Cabaceiras e Angolá, beneficiando apenas 5860 pessoas, no sistema de esgotamento sanitário.

Em outro ponto do documento, ao falar do sistema de abastecimento de água, a Seplan diz que
"Todas as ações desse componente já foram concluídas até o exercício de 2003. No total, abrangendo as localidades de Maragogipe, Najé, Coqueiros, Candeias, São Francisco do Conde, Madre de Deus, Monte Recôncavo, Paramirim, Ilha de Maré, Santo Amaro, Itaparica e Vera Cruz, foram implantados 66 km de adutoras, 111 km de redes de distribuição e 7.565 m3 de reservação, em obras destinadas à melhoria e ampliação de sistemas já existentes."
Todavia, já há uma necessidade de ampliação desse sistema de abastecimento de água, afinal de contas, já existe o Programa Água Para Todos e visto que a população do município cresceu, e por mais que o IBGE emita alguns números, relevantes por sinal, percebe-se que existe uma outra realidade que precisa ser revista e cobrada pelos atuais gestores municipais, tanto o executivo, quanto o legislativo.


Com relação aos resíduos sólidos, e neste caso, estou a falar do Aterro Sanitário. O referido tema é assim tratado pelo Governo do Estado:
"As ações referentes ao componente de resíduos sólidos inseridas no Programa Bahia Azul, realizadas pela Conder, estão concluídas e englobaram a elaboração e implantação de Planos Diretores de Limpeza Urbana e a execução das obras de implantação dos aterros sanitários de Maragogipe, Santo Amaro e Recôncavo Sul (compartilhado entre os municípios de Cachoeira, São Félix, Muritiba e Governador Mangabeira), além da recuperação dos lixões existentes. Para operação dos aterros sanitários foram adquiridos, e repassados às respectivas prefeituras, equipamentos de coleta de lixo e tratores. Essas ações complementam as ações executadas pelo Projeto Metropolitano, já concluídas anteriormente."
Bem, se esses equipamentos vieram, nós não temos como saber, mas por diversas vezes, algumas pessoas comentaram que no Governo Raimundo Gabriel existia diversas máquinas na cidade, cabe ressaltar agora, que se existia foi fruto do investimento do Governo do Estado. Atualmente, há diversas máquinas, contudo já há o que se questionar pois estão em estado deplorável.

Todavia podemos muito bem dizer que: O Programa Bahia Azul deixou muito a desejar no município de Maragogipe, além claro de outros municípios. Talvez seja por isso, que atualmente e em anos anteriores houve a necessidade de uma reestruturação do sistema. O Aterro Sanitário de Maragogipe, por diversas vezes, teve sua licença ambiental negada ou colocada sob revisão, mas as administrações continuavam a depositar o lixo de parte da população nele. Digo parte da população e irei comprovar com documentos mais adiante.

Em janeiro de 2004, na segunda etapa da Educação Ambiental do Bahia Azul foram formados 380 agentes comunitários de saúde nos municípios de Maragogipe, Santo Amaro, São Félix, São Francisco do Conde, Simões Filho, Itaparica e Vera Cruz. Os objetivos eram levar à população uma consciência mais ecológica, mas será que a própria empresa pratica essa ecologia? Onde está a famosa Gestão Ambiental da Embasa e dos órgãos que promovem a manipulação e manutenção desse tipo de tratamento sanitário, seja ele sólido, líquido ou gasoso?

INVESTIMENTOS DA EMBASA EM MARAGOGIPE

Eu não poderia deixar de falar sobre a questão dos investimentos aplicados no município de Maragogipe. Pois eu estaria omitindo este fato na busca dos meus objetivos, que é mostrar que a infraestrutura de Maragogipe está um caos e desabilitada para contemplar os ideais do discurso sócio-ambiental aplicado pelo Governo do Estado, Municipal e Empresas Públicas, sem falar nas omissões de ONG´s diversas que já fazem um tempo que não tratam dessas questões em público.

Segundo o estudo, depositado no site do Banco do Nordeste (BNB), sob o título de PDITS, tratando de Salvador e seu entorno. No capítulo de Infraestrutura, encontramos diversos pontos sobre o tema posto em questão nesse momento.

SISTEMA DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA
Descobrimos que em 1998, Maragogipe recebeu o investimento que girou em torno de 1,5 milhões de reais; em 2000, o valor chegou a 4,4 milhões de reais, totalizando quase 6 milhões de reais em investimentos da Embasa nos sistemas de água e esgoto. Na época, em 2002, a Embasa avaliou que dos 4 pontos do Sistema de Abastecimento de Água do município tinha sua situação satisfatória e que 2 não eram operados pela Embasa. Maragogipe tinha 6463 residenciais ligadas ao sistema, 4 industriais e 275 comerciais.

Apesar da Embasa considerar satisfatório, o IBGE divulgou que em 2000, apenas 54% da população maragogipana estava ligada a rede de abastecimento de águas, 10% a mais que 1991.

Segundo documento do BNB, Maragogipe apresenta as seguintes características:
De acordo com o Censo de 2000, realizado pelo IBGE, o município de Maragojipe tinha um total de 9.711 domicílios, dos quais 5.204 estavam ligados à rede geral de abastecimento de água. O Censo revelou que 89,2% da população urbana do município eram atendidos pelo sistema de abastecimento de água tratada, enquanto apenas 2,5% usavam o sistema de poço ou nascente. Como já visto em outros casos dentro do Pólo Salvador e Entorno, a situação da zona rural era sensivelmente inferior, com apenas 9,1% das pessoas atendidas pela rede geral de abastecimento de água e 75,7% usando o sistema de poço ou nascente. Maragojipe apresenta cerca de metade da população sem atendimento de água tratada e uma situação preocupante no que se refere à destinação do esgoto. Essa combinação de fatores é potencialmente de risco para a população e visitantes, já que grande parte da água consumida pode estar vindo de fontes contaminadas.

Maragojipe apresentou o seguinte quadro evolutivo:

Para destrinchar melhor o significado desses 89,2% da população urbana que recebe o Sistema de Abastecimento de Água, a EMBASA traz documento de análise de 2003 que explica: Coqueiros tem 93% da população no sistema, Guaí 0%, Guapira, 0%, Maragogipe 90%, Nagé 93% e São Roque 94%. Esses números modificaram-se consideravelmente, mas vale pontuar que tanto no Guaí, quanto em Guapira inexiste qualquer tipo de tratamento, pois essas áreas não trazem lucros para a EMBASA.

SANEAMENTO BÁSICO

O documento continua e desta vez irá tratar da questão do Saneamento Básico, da situação em 2002 e de suas intervenções e uma situação assustadora é revelada.

No ano 2000, apenas 25,8% da população tem algum tipo de coleta de efluentes, 1% da população eram atendidas por um sistema de esgoto em 2002. Em 2000, 5,2% tinha fossas sépticas; 8,6% da população usavam fossas rudimentares; 40,4% da população não tinha sequer banheiro em suas residências e 20,1 lançavam seu dejetos em valas e rios. Essa situação pode muito bem ser considerada caótica. (Censo 2000 e Embasa 2002). Vale ressaltar que em 2002, o Sistema de Esgotamento Sanitário da Embasa em Maragogipe foi considerado concluído, e só tinha 1% da população atendidas.

O documento ainda diz que "na análise do índice de cobertura, o IBGE utiliza uma metodologia que considera qualquer tipo de coleta, inclusive os casos em que o esgoto é lançado em dutos de drenagem pluvial. Isso resolve grande parte do problema de saúde pública representado pelo esgoto, já que os efluentes são afastados das residências onde são produzidos, mas está longe de representar uma solução adequada do ponto de vista ambiental."


COLETA DE LIXO
Em 2000, dos 40 mil moradores de Maragogipe, apenas 12757 eram atendidos por um sistema de coleta de lixo, em que a responsável era a Prefeitura Municipal. Apesar do crescimento no número de atendidos com relação a 1991 que atendia 17% da população, esse número ainda era pouco, apresentando índices muito abaixo dos demais municípios do Recôncavo com apenas 35% da sua população total. (IBGE)

O Aterro Sanitário de Maragogipe começou a operar em fevereiro de 2001, e tinha uma expectativa de vida de 15 anos. Com apenas 10 anos de funcionamento, ele já apresenta uma série de irregularidades devido às péssimas administrações no tratamento do lixo e manutenção do aterro. Ele suportaria 17,6 toneladas de lixo por dia, que equivaleria a 6347 toneladas por ano. Vale ressaltar que esses cálculos valeriam para o atendimento de aproximadamente 20 mil pessoas. Metade da população total. Vale ressaltar que até hoje, diversos locais do município não são atendidos pelo sistema de Coleta do Lixo.

Segundo informações do “Relatório de Acompanhamento do Programa de Saneamento Ambiental da BTS”, foram entregues à Prefeitura de Maragojipe diversos equipamentos que auxiliam a coleta e disposição final do lixo e esses equipamentos foram : tratores, caçambas basculantes, caminhões coletores e compactadores, contenedores e carros pipa. Para utilização nos aterros sanitários foram oferecidos os seguintes equipamentos: retro-escavadeiras, tratores de esteira e caçambas.

Quando há intervenção estadual para implantação de um aterro, o pacote de serviços que a CONDER oferece às prefeituras atendidas inclui:
  • Planos diretores de limpeza urbana (PDLU);
  • Educação ambiental;
  • Aterros construídos;
  • Treinamento de pessoal operacional;
  • Treinamento técnico para órgãos municipais;
  • Assistência operacional nos primeiros meses de funcionamento do aterro.
Após um período inicial denominado de pré-operacional, as prefeituras assumem a gestão do serviço de coleta e operação do aterro instalado. É nesse momento que se faz importante uma maior assistência aos municípios, uma vez que a maior parte deles não possui equipes técnicas preparadas para conduzir uma eficiente gestão dos resíduos sólidos. (Fonte: BNB)

No caso de Maragogipe, o projeto de implantação incluiu também a recuperação ambiental da área do antigo “lixão”, no momento de visita à área, essas intervenções estavam em fase bastante adiantada, restando apenas a re-vegetação das áreas recuperadas. Acontece que deveria ser implantado um sistema de coleta seletiva baseado nos PDLU. O que não houve, por isso, o aterro não teve a sustentabilidade desejada.

Em 2001, as condições do Aterro de Maragogipe foram consideradas boas, obtendo uma nota de 78,1 no ano. Para a construção desse aterro foram gastos R$ 517.855,13, nos anos de 2000 e 2001. Valores muito inferiores aos que foram gastos em outras localidades.

CONCLUSÃO
Depois de todas essas colocações, concluímos que a infraestrutura maragogipana com relação ao Abastecimento de Água, até 2001 tinha seu estado precário e o índice de coleta era abaixo do esperado, mesmo assim, havia problemas na aplicação e no tratamento do mesmo. Com relação ao Esgotamento Sanitário, não é preciso nem citar, visto que pouquíssimas são as pessoas beneficiadas e a grande maioria da população ainda precisa estar dentro desse sistema.

Vale ressaltar, que os planos e práticas do governo anterior, estão refletindo no governo atual, tanto no nível municipal, quanto no estadual que ainda sente a dificuldade de estar tratando com mecanismos de infraestrutura e suas relações com o sócio-ambiental, isso sem falar na dita cultura política e suas relações interpessoais. A dificuldade maior estar no medo com que o primeiro pode estar causando nas relações que o governo tem com a população, sobretudo carente e necessitada de meios para se estabelecer enquanto cidadãos. A contradição desse panorama esboça-se no entendimento da manutenção de poder e do exercício com que as atuais lideranças tem com a comunidade, que está muito mais atrelada à característica do comprometimento dito "social", arraigado nos interesses e nos favores dos governantes, esquecendo que seria através da construção de uma nova sociedade, um novo modelo, que mudaremos toda a base social.

Quando as pessoas tiverem mais tempo para se dedicar à questões relativas a sua comunidade, pensando bem menos nos seus interesses infraestruturais, visto que, eles já deveriam ter sido sanados e já deveriam fazer parte do inconsciente dessas pessoas, a mudança será real e verdadeira e quem ganhará com isso, será a população e não o Governo e as Empresas que prestam serviços, sejam públicas ou privadas.


Fonte:
Cidades do Brasil
Analgesi
Seplan - BA
BNB
Artigo Políticas de Saneamento na Bahia

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Feira do Caijá, uma feira de saveiros e de tudo que você imaginar


Uma fileira de 20 saveiros de vários calados, aguardavam a maré cheia para levantarem suas velas em direção a salvador, enquanto os mestres orientavam os estivadores no embarque de farinha, frutas, cerâmica, legumes, a produção do recôncavo baiano.

Esta feira que era antigamente dia de sexta-feira e passou para dia de quinta-feira nas suas primeiras horas em todas as semanas e o prédio do mercado municipal Alexandre Alves Peixoto, uma construção de 1959, ficava cheia de gente, mercadores de todos os tipos, velhos lobos do mar e biscateiros de toda parte. Era a Feira do Cajá, em Maragogipe, Bahia.


Um dos pontos que abasteciam os saveiros que levavam o de comer e beber do Recôncavo para a Feira de São Joaquim, em Salvador, por volta de uma hora da tarde os saveiristas já começavam a pensar em partir. Se o vento estivesse bom, ás 10 horas da noite estariam em Salvador. Se o tempo estivesse bom, sem ameaças de temporal, você poderia voltar a Salvador de saveiro, vindo de Maragogipe. Bastava uma permissão da capitania dos portos, em Maragogipe, agência orientadora e protetora dos direitos do povo do mar.

Desta forma você poderia viajar sobre a carga de saveiros como o vendaval, do mestre Nute e Daniel, ou o paraíso com cacau e frutos dourando o sol. Podia velejar ouvindo o barulho das ondas da baía de todos os santos, ou desfrutarem dos cantos de passarinhos nas gaiolas levava o saveiro tudo com deus. Carroças puxadas por bois e ao fundo os mastros do filho do sol e do capricho do destino. Pescadores arrastando a rede no braço do Paraguaçu e macaxeiras (aipim, mandioca) embarcando no Camacan e no Navegante Feliz. Milho verde para o Bom Jesus, quiabos e maxixe para o quero ver. Alto falantes com repertório rural, o rio novo, tupy no cais. Assim era a feira do cajá. Uma feira de saveiros e de tudo que você imaginar.

Viver bahia/. Publicado em 21 /12/1975

sábado, 30 de julho de 2011

Pequeno Histórico do Distrito do Guaí (Capanema), em Maragogipe


Coordenadas: 12°50'36.87"S/ 38°56'6.70"O

Povoados: Lagoa; Samambaia do Meio; Tamancas; Topa de Cima; Topa de Baixo; Piedade; Baixão do Guaí; Mutamba; Guarucú; Bom Jardim; Terra Seca; Carobas; Rio Grande; Fanu Leite; Tabatinga 1 e 2; Cascalheira; Quilombo; Salaminas; Porto da Pedra; Enseadinha; Gerém ; Sítio Gramador; Palma de Cima; Quizanga/Socorro; Entrada Rural de Capanema; Rio Grande (Piedade); Água Boa; Traíras/Rio das Pedras/ Tijuca; Santa Ângela; Fanu Leite; Camarão de Baixo.

Histórico:
Desde o tempo de Álvaro Dias que essa região do Guaí-São Roque começou a ser habitada e esse detalhe é demonstrado no mapa quinhentista que cita uma comunidade no baixo do rio Icagaçu, que atualmente, chamamos de Guaí. Portanto, se o rio Paraguaçu, foi o fator especial do desenvolvimento da região, o rio Guaí também pode ser considerado de fundamental importância por ter sido o primeiro a ser habitado devido a sua tranquilidade e por propiciar a madeira desejada pelos portugueses naquele momento histórico.

Reza a lenda, e é bom que registre-se isso, que habitavam nestas plagas nativos indígenas, que tinham a cultura particular do canibalismo. Por volta de 1520, exploradores portugueses chegaram até o Rio Paraguaçu e subiram o rio Cachoeirinha, no atual distrito do Guaí, às margens dos quais habitavam esses indígenas  Osvaldo Sá diz que os portugueses que aqui aportaram, vislumbraram com a riqueza das matas e a acessibilidade que o rio proporcionava a qualquer embarcação, essa era a condição necessária para que os primeiros habitantes europeus destas terras tivessem acesso a outros locais. A destruição daquela gente foi brutal, os indígenas foram expulsos ou escravizados e logo após os portugueses começaram a criar suas primeiras povoações. Os índios escravizados misturaram-se rapidamente aos negros trazidos do continente africano e por isso, essa região se tornou o foco principal das revoltas que ocorreram nos séculos XVI e XVII no município  espalhando o terror por diversas outras comunidades. Negros fugidos que não aceitavam viver daquela forma cruel montaram diversos quilombos e mocambos para reagir a cultura européia e os índios lutavam pela retomada de suas terras.

Uma outra luta travada por essas terras foi a Invasão Batava, holandeses destruíram diversos engenhos. A maioria não conseguiu se reabilitar ao longo do tempo.

A vila de Capanema é uma das mais antigas da região e por diversas vezes, teve a sua alçada de distrito abolida e restaurada. Em 1853, o atual distrito do Guaí foi restaurado à jurisdição de distrito, sob o nome de Capanema, depois de ter sido extinto pela Resolução de no 43, de 27 de abril de 1846.

Todavia, segundo Osvaldo Sá, em 20 de julho de 1881, foi criado o distrito de Paz de São Roque, e neste Capanema passaria a ser apenas um arraial, contudo isso só veio há ocorrer sete anos depois, em 10 de setembro de 1898.

Em 1933 com a nova Divisão Administrativa do Brasil, é criado definitivamente, o distrito de Paz de Santo Antônio de Capanema desmembrado-o do de São Roque do Paraguaçu e anexando-o ao município do Maragogipe. Em 01 de junho de 1944, sob o decreto estadual no 12978, retificando o decreto-lei no 141, o distrito de Santo Antonio de Capanema passou a ser chamado de Guaí e assim permanece até os dias atuais.


Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito de Coqueiros do Paraguaçu, em Maragogipe


Coordenadas: 12°43'6.41"S/ 38°56'5.39"O

Povoados: Serraria; Pedrinhas 2; Pitinga Seca; Cajazeiras; Olho D’água; Campinas; Santana; Rios dos Paus; Batatan; Cumbe; Bento Sardinha; Manguinho; Boa Vista; Carro Quebrado; Pau Seco; Irriquitiá; Rio Grande; Guaruçu; Giral Grande.

Histórico:
Em quase todo seu período histórico o distrito do Coqueiros do Paraguaçu, como é chamado atualmente para diferir de seus homônimos brasileiros, sempre foi nomeado pela palavra Coqueiro, no singular, poderia até representar unidade com a vila da qual foi originada, neste caso, Nagé, mas esse fato não ocorre, devido a fatores do coração.

Não há como saber, porém, quando suas primeiras casas de taipa surgiram, mas segundo as documentações existentes, desde o século XVIII, o vilarejo já florescia à proporção do desenvolvimento de seu ancoradouro, por onde se fazia a baldeação das pessoas e mercadorias que se destinavam da capital para o interior, ao sertão ou vice-versa. Foi, portanto, o “fator Paraguaçu” causa predominante para o desenvolvimento da vila, como explica Osvaldo Sá, em suas Histórias Menores.

Tanto Coqueiros, como Nagé cresceram em torno da cultura agrícola de produtos de primeira necessidade, a única autorizada pela Capital Baiana, pois no período colonial, não era permitido à instalação de indústrias, nestas regiões. A Farinha de Mandioca sempre foi à cultura principal dessa região. As raras intenções do plantio do fumo, sempre foram barradas pelo poderio dos fazendeiros Cachoeiranos, assim como, do controle social que os líderes da Câmara Municipal exerciam sobre os habitantes da terra.

Com o tempo a vila começou a ganhar importância e em 17 de julho de 1893, foi elevada a categoria de distrito policial, sob jurisdição do Distrito de Paz de Nagé e sob essa tutela permaneceu até o dia 13 de agosto de 1926, em conformidade com a lei no 1922 que criou o distrito de Coqueiros e anexou ao município de Maragogipe. Apesar do IBGE considerá-lo como distrito de paz desde 1911, o desmembramento só se deu em 1926 e assim continuou a ser até os dias atuais. Pelo decreto-lei estadual no 10724, de 30 de novembro de 1938, o distrito de Coqueiros passou a se grafar, novamente, Coqueiro. Até 2007, o IBGE registrava o distrito desse jeito, hoje porém, registra-se como Coqueiros do Paraguaçu, devido o apego popular.

O mangue sempre foi o grande potencial de Coqueiros, assim como as outras vilas do município, era o alimento extra dos escravos que trabalhavam nas fazendas instaladas na região: Ostras, siris, caranguejos e mapés sempre foram os frutos do mar mais catados. Hoje, a mariscagem é praticada principalmente por mulheres. O salgamento de peixes miúdos (xangô e petitinga) e a defumação de camarões são as duas formas de beneficiamento do pescado na região.

O potencial turístico e histórico de Coqueiros do Paraguaçu pode ser aproveitado, através da navegação em Saveiros, que de meados do século XIX até meados do século XX inham grande importância no transporte de cargas e pessoas;

A produção de Cerâmica de Coqueiros é outro atrativo à parte, sua principal representante é a Dona Cadu. O saber-fazer passado de geração a geração, transformou essa arte rudimentar, numa das principais fontes de sobrevivência do povo coqueirense. Outros atrativos são de fundamental importância, a exploração de sítios importantes, como a Capela de Nossa Senhora do Rosário, datada do século XVIII; a festa de Bom Jesus dos Navegantes em Janeiro e da praia de Coqueiros, muito visitada por turistas devido à tranquilidade da região.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito de Nagé, em Maragogipe


Coordenadas: 12°43'31.43"S/ 38°55'59.15"O

Povoados: Santo Antônio de Aldeia; Encruzilhada; Brinco; Sobradinho; Tabuleiro das Navalhas; Bacalhau; Lagamar; Rio dos Paus de Baixo; Ponta de Souza; Serraria (Baixa Rica); Pinho.

Histórico:
A vila morena surgiu, no século XVII, em torno do porto que servia de atracadouro para os nativos e representantes de Santo Antônio de Aldeia, principal comunidade religiosa desta região naquele momento. Dois são os fatores preponderantes para que a vila criasse raiz, a sua proximidade com o rio Paraguaçu, principal via de acesso à capital do Império e, os perigos do século XVII, ou seja, as constantes guerras contra os indígenas e contra os negros fugidos que já formavam diversos quilombos e mocambos pela região. Um importante quilombo que tornou-se Terreiro, foi o do Pinho. Ele é o único de nação Jêje em Maragogipe e foi originado de um antigo quilombo, alguns dizem ser o terreiro mais antigo da Bahia, embora não existam registros para comprovação.

Já em 1724, com a elevação da Freguesia de São Bartolomeu de Maragogipe à categoria de vila, Nagé aos poucos começou a crescer, ganhando importância na produção de alimentos de primeira necessidade. Em, 13 de agosto de 1880, foi decretada lei provincial no 2077 criando o distrito de Nagé, e assim continuou até os dias atuais, mesmo depois de todas as novas leis, decretos e divisões territoriais.

Vila de pescador situada a quatro quilômetros de Maragogipe, com bela implantação paisagística e algumas construções interessantes. Nagé construiu sua história, não só com o pescado e com seu porto comercial, praticamente inativo, atualmente, devido à implantação da estrada e o fim da rota comercial marítima que ligou essa região durante quase quatro séculos de história. Desde o aparecimento da indústria fumageira até aproximadamente a década de oitenta do século passado, que o distrito de Nagé se voltou ao plantio do fumo e a fabricação de charutos. Porém quando houve um declínio devido ao fechamento das indústrias de fumo na região, as mulheres nageenses sem meios para conseguir seu sustento, colocaram em prática tudo o que aprenderam durante o auge da charutaria, e com isso, ficaram conhecidas como as “charuteiras domésticas”. Ex-operárias da indústria Suerdieck, que trabalhavam em casa, nos intervalos das tarefas domésticas, chegando a confeccionar até 100 unidades por dia. Mas novamente devido várias dificuldades, essa economia rudimentar, praticamente extinguiu-se.

Um tocante religioso-cultural de Nagé é a Festa do Senhor do Bonfim que por si só, é um atrativo a parte. Ela acontece no segundo domingo depois do Dia de Reis, no mês de Janeiro, com novenário solene e exposição do Santíssimo Sacramento pelo capelão na Igreja do Bonfim em Nagé. A população, esbanja-se em festa na “Lavagem da “Glória” ou Popular de caráter afro-religioso com grande participação do povo e uma característica marcante que todo maragogipano tem em seu jeito de festejar. Vale ressaltar, que nesta lavagem, toda rivalidade entre a vila morena e o distrito do Coqueiros do Paraguaçu é posta de lado, para que todos, louvem ao Santíssimo Sacramento.

Hoje, o potencial turístico que a vila morena possui é extraordinário, a Praia de Ponta de Sousa e do Pina e os veleiros e saveiros são os verdadeiros representantes de um passado não tão longínquo. No distrito de Nagé predomina a salga do xangô e em coqueiros o da petitinga. É um trabalho executado pela mão de obra feminina. As mulheres ficam sentadas nas portas de suas casas, tratam, salgam, enfiam em varetas e estendem ao chão os peixes para secarem ao sol. Depois são vendidos a litro ou em espetos no próprio município, em Santo Amaro e Salvador, atingindo preços insignificantes em épocas de grande produção. Os peixes maiores são vendidos frescos nas feiras livres, ou conservados em gelo e levados para serem vendidos em Salvador. Alguns mariscos são aferventados antes de serem comercializados, o que facilita a sua conservação.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Formado em História na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

terça-feira, 26 de julho de 2011

Somos todos da Idade Média, por Hilário Franco Júnior

Pouca gente se dá conta, mas muitos hábitos, conceitos e objetos tão presentes no nosso dia-a-dia, inclusive o próprio idioma que falamos, vêm daquela época.

Muitos professores consideram especialmente árdua a tarefa de ensinar História Medieval. A distância que separa os alunos de época tão remota, argumentam alguns, seria um dos principais obstáculos. Como despertar seu interesse por tema tão antigo? Como passar às novas gerações conceitos, idéias e fatos que, aparentemente, têm tão pouco a ver com o mundo de hoje? Mas seria bem diferente se eles mostrassem a seus discípulos que, como veremos a seguir, e embora muita gente não se dê conta, nosso próprio cotidiano está impregnado de hábitos, costumes e objetos que vêm de muito mais longe do que se pode imaginar.

Ao tratarmos da História do Brasil, por exemplo, a tendência é começar no dia 22 de abril de 1500, quando Pedro Álvares Cabral e os tripulantes de sua esquadra “descobriram” nossa terra. Mas aqueles homens não traziam atrás de si, dentro de si, toda uma história? Não trouxeram para cá amplo conjunto de instituições, comportamentos e sentimentos? Aquilo que é até hoje o Brasil não tem boa parte da sua identidade definida pela longa história anterior de seus “descobridores”? Dizendo de outro modo, nossas raízes são medievais, percebamos ou não este fato.

Calças do século IV,
encontradas no pântano
Thorsberg, Alemanha
Pensemos num dia comum de uma pessoa comum. Tudo começa com algumas invenções medievais: ela põe sua roupa de baixo (que os romanos conheciam mas não usavam), veste calças compridas (antes, gregos e romanos usavam túnica, peça inteiriça, longa, que cobria todo o corpo), passa um cinto fechado com fivela (antes ele era amarrado). A seguir, põe uma camisa e faz um gesto simples, automático, tocando pequenos objetos que também relembram a Idade Média, quando foram inventados, por volta de 1204: os botões. Então ela põe os óculos (criados em torno de 1285, provavelmente na Itália) e vai verificar sua aparência num espelho de vidro (concepção do século XIII). Por fim, antes de sair olha para fora através da janela de vidro (outra invenção medieval, de fins do século XIV) para ver como está o tempo.

Ao chegar na escola ou no trabalho, ela consulta um calendário e verifica quando será, digamos, a Páscoa este ano: 23 de março de 2008. Assim fazendo, ela pratica sem perceber alguns ensinamentos medievais. Foi um monge do século VI que estabeleceu o sistema de contar os anos a partir do nascimento de Cristo. Essa data (25 de dezembro) e o dia de Páscoa (variável) também foram estabelecidos pelos homens da Idade Média. Mais ainda, ao escrever aquela data – 23/3/2008 –, usamos os chamados algarismos arábicos, inventados na Índia e levados pelos árabes para a Europa, onde foram aperfeiçoados e difundidos desde o começo do século XIII. O uso desses algarismos permitiu progressos tanto nos cálculos cotidianos quanto na matemática, por serem bem mais flexíveis que os algarismos romanos anteriormente utilizados. Por exemplo, podemos escrever aquela data com apenas sete sinais, mas seria necessário o dobro em algarismos romanos (XXIII/III/MMVIII).

Livro Medieval: Bridwell Library
Para começar a trabalhar, a pessoa possivelmente abrirá um livro para procurar alguma informação, e assim homenageará de novo a Idade Média, época em que surgiu a idéia de substituir o incômodo rolo no qual os romanos escreviam. Com este, quando se queria localizar certa passagem do texto, era preciso desenrolar metros de folhas coladas umas nas outras. Além disso, o rolo desperdiçava material e espaço, pois nele se escrevia apenas de um lado das folhas. O formato bem mais interessante do livro ficou ainda melhor com a invenção da imprensa, em meados do século XV, que permitiu multiplicar os exemplares e assim barateá-los. Tendo encontrado o que queria, a pessoa talvez pegue uma folha em branco para anotar e, outra vez, faz isso graças aos medievais. Deles recebemos o papel, inventado anteriormente na China, mas popularizado na Europa a partir do século XII. Mesmo ao passar suas idéias para o computador, a pessoa não abandona a herança medieval. O formato das letras que ali aparecem, assim como em jornais, revistas, livros e na nossa caligrafia, foi criado por monges da época de Carlos Magno.

Relógio Medieval de Praga,
 por Emilia Duarte
Sentindo fome, a pessoa levanta os olhos e consulta o relógio na parede da sala, imitando gesto inaugurado pelos medievais. Foram eles que criaram, em fins do século XIII, um mecanismo para medir o passar do tempo, independentemente da época do ano e das condições climáticas. Sendo hora do almoço, a pessoa vai para casa ou para o restaurante e senta-se à mesa. Eis aí outra novidade medieval! Na Antiguidade, as pessoas comiam recostadas numa espécie de sofá, apoiadas sobre o antebraço. Da mesma forma que os medievais, pegamos os alimentos com colher (criada aproximadamente em 1285) e garfo (século XI, de uso difundido no XIV). Terminada a refeição, a pessoa passa no banco, que, como atividade laica, nasceu na Idade Média. Depois, para autenticar documentos, dirige-se ao cartório, instituição que desde a Alta Idade Média preservava a memória de certos atos jurídicos (“escritura”), fato importante numa época em que pouca gente sabia escrever.

À noite, enfim, a pessoa vai à universidade, instituição que em pleno século XXI ainda guarda as características básicas do século XII, quando surgiu. As aulas, com freqüência, são dadas a partir de um texto que é explicado pelo professor e depois debatido pelos alunos. Alguns deles recebem um auxílio financeiro para poderem estudar, como no colégio fundado pelo cônego Roberto de Sorbon (1201-1274) e que se tornaria o centro da Universidade de Paris. Depois de mais um dia de trabalho e estudo, algumas pessoas querem relaxar um pouco e passam na casa de amigos para jogar cartas, divertimento criado em fins do século XIV, como lembram os desenhos dos naipes e a existência de reis, rainhas e valetes. Outros preferem manter a mente bem ativa e vão praticar xadrez, jogo muito apreciado pela nobreza feudal, daí a presença de peças como os bispos, as torres e as rainhas.

Peças de jogo de xadrez de Carlos Magno
Durante todas essas atividades, pensamos, falamos, lemos e escrevemos em português, sem, na maioria das vezes, nos darmos conta de que esse elemento central do patrimônio cultural brasileiro vem da Idade Média. E não só porque a nossa língua nasceu em Portugal medieval. Como qualquer língua, com o passar do tempo o português falado na sua terra de origem foi se alterando bastante. Muitas características do idioma falado hoje em dia em Portugal – inclusive o que chamamos de sotaque daquele povo – são do século XIX. Mas no Brasil aquele idioma foi introduzido no século XVI por colonos que falavam da mesma forma que cem ou duzentos anos antes, isto é, como em Portugal medieval. Além disso, sendo o Brasil muito vasto e muito distante da metrópole portuguesa, as lentas transformações na língua demoravam mais para chegar aqui. Em resumo, falamos hoje um português mais parecido com o da Idade Média do que com o de Portugal moderno.

Estudos recentes mostraram que idosos analfabetos do interior de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo usavam, em fins do século XX, formas do português dos séculos XIII-XVI. Essas pessoas ainda falam esmolna em vez de “esmola”, pessuir e não “possuir”, despois no lugar de “depois”, preguntar para dizer “perguntar”. Contudo, não se trata propriamente de erros, e sim de exemplos de manutenção de formas antigas, levadas àqueles locais pelos bandeirantes nos séculos XVI e XVII. Devido ao isolamento e à pobreza daquelas regiões, esse modo de falar prolongou-se pelos séculos seguintes.

Basta uma rápida olhada em qualquer aglomerado humano no Brasil, seja no metrô, num estádio de futebol ou simplesmente nas ruas, para se constatar o que todos sabemos: a população brasileira tem alto grau de mestiçagem. Nada estranho, já que a terra era habitada por diferentes tribos indígenas quando os portugueses aqui chegaram, e logo foram introduzidos muitos escravos africanos. O que se ignora com freqüência, porém, é que se os dominadores portugueses aceitaram com facilidade a mestiçagem, é porque ela fazia parte da sua prática social havia muito tempo. Eles resultavam da mistura entre celtas, romanos, germanos, berberes (população do norte africano), árabes, judeus e negros. Importantes historiadores já afirmaram que, pelo menos até o século XIV, os mouros não devem ser considerados uma etnia, e sim uma minoria religiosa, porque, em termos raciais, não havia diferença entre portugueses cristãos e portugueses muçulmanos. Portanto, os portugueses já eram mestiços ao chegarem à América, o que facilitou a mistura racial na colônia.

Estudar História – de qualquer época e de qualquer local – não deve ser tarefa utilitarista, não deve “servir” para alguma coisa específica. A função de seu estudo é mais ampla e importante; é desenvolver o espírito crítico, é exercitar a cidadania. Ninguém pode atingir plenamente a maturidade sem conhecer a própria história, e isso inclui, como não poderia deixar de ser, as fases mais recuadas do nosso passado. Assim, estudar História Medieval é tão legítimo quanto optar por qualquer outro período. Mas não se deve, é claro, desprezar pedagogicamente a relação existente entre a realidade estudada e a realidade do estudante. Neste sentido, pode ser estimulante mostrar que, mesmo no Brasil, a Idade Média, de certa forma, continua viva.


Hilário Franco Júnior é professor da Universidade de São Paulo e autor de A Idade Média, nascimento do Ocidente (Brasiliense, 2006) e de “Raízes medievais do Brasil” (Revista USP, 2008). 
Texto retirado de “Revista de História da Biblioteca Nacional”, publicado em 01/03/2008.