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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Documentos da Idade Média: Das três ordens ao comércio com a China

"Não há terra sem senhor nem senhor sem terra."

O período medieval foi um marco na história europeia que legou para a história mundial diversas relações econômicas, culturais, políticas, sociais e religiosas. É impossível deixar de falar na Idade Média na escola, pois o nosso cotidiano está marcado por usos e costumes do período como retratado no texto "Somos todos da Idade Média" de Hilário Franco Junior.

Com isso, iremos retratar através destes textos, dois momentos do período medieval com histórias contadas por quem viveu na época. O primeiro texto será de Adalberto, o Bispo de Laon escrito em plena Idade Média, descreve as três ordens ou estamentos da sociedade europeia centro-ocidental à época do apogeu do feudalismo: o clero, a nobreza e os camponeses. Leia:

Iluminura que representa as três ordens medievais
"A ordem eclesiástica forma um corpo só, mas a divisão da sociedade compreende três ordens. A lei humana distingue duas condições. O nobre e o não-livre não são governados por uma lei idêntica. Os nobres são os guerreiros, os protetores das igrejas. Defendem a todos os homens do povo, grandes e modestos, e também a si mesmos. A outra classe é a dos não-livres. Esta desgraçada raça nada possui sem sofrimento. Provisões, vestimentas são fornecidas para todos pelos não-livres, pois nenhum homem livre é capaz de viver sem eles. 

Por tanto a cidade de Deus, que se crê única, está dividida em três ordens: uns rezam, outros combatem e outros trabalham. Estas três ordens vivem juntas e não suportam uma separação. Os serviços de um permitem os trabalhos dos outros dois. Cada um, alternativamente, presta seu apoio a todos." 

ADALBERTO, bispo de Laon, na França, nos finais do século 10.
In: BOUTRUCHE, R. Señorio y Feudalismo. Madri: Sigilo Veintiuno, 1972.

O segundo texto tem datação aproximada de 1340, escrito por Francisco Balducci Pegolotti, que era um agente da família Bardis, banqueiros de Florença, que elaborou um manual para mercadores viajantes, demonstrando a existência de um comércio florescente. Neste documento, encontramos informações sobre o comércio com a China, entre elas a utilização de papel-moeda a importância de um dragomano (intérprete).


"Em primeiro lugar, deveis deixar a barba crescer e não vos barbeardes. E em Tana deveis contratar os serviços de um dragomano (intérprete). E não deveis tentar poupar dinheiro no que respeita a dragomanos escolhendo um mau em vez de um bom. Pois os honorários adicionais do bom não vos custarão tanto quanto poupareis por tê-lo. E além do dragomano será conveniente contratar pelo menos dois bons criados conhecedores da língua cumana. E se o mercardor gostar de levar uma mulher com ele de Tana, pode fazê-lo; se não gostar de levar, não será a tal obrigado, mas levando-a será tratado muito mais confortavelmente do que não a levando. Não obstante, se a levar, será conveniente que ela conheça a língua cumana, como os homens. [...]"
"Toda a quantidade de prata que os mercadores levarem com eles até Catai, o senhor de Catai lhes tirará e guardará no seu tesouro. E aos mercadores que assim levam prata dão aquele dinheiro de papel deles em troca. Este é de papel amarelo, com o selo do senhor atrás mencionado. E chama-se dinheiro; e com este dinheiro podeis comprar sem dificuldade seda e outra mercadoria que tiverdes desejo de comprar. E todas as pessoas do país são obrigadas a recebê-lo. E não pagareis um preço mais elevado pelas vossas mercadorias por o vosso dinheiro ser de papel. [...]"
"(E não esqueçais que se tratardes os funcionários de casa da alfândega com respeito e lhes oferecerdes um presente qualquer em mercadorias ou dinheiro, assim como aos seus empregados e dragomanos, eles se comportarão com grande civilidade e estarão sempre dispostos a avaliar os vossos produtos abaixo do seu valor real.)"

PEGOLOTTI, Francisco Baldussi. IN: BOORSTIN, Daniel J. Os descobridores: de como o homem procurou conhecer-se a si mesmo e ao mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989. p.137.

Um site interessante em que você poderá visualizar vários documentos antigos e medievais é Idade Média, mantido por Ricardo Costa.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Visita da Família Real a Maragogipe

DO BLOG: Este é um fragmento do Jornal Cachoeira exposto no livro de Fernando Sá descrevendo a solene recepção que os maragogipanos fizeram ao Imperador Dom Pedro II, em 09 de novembro de 1859, depois que os mesmos chegaram no vapor Pirajá.

Vale ressaltar que, no livro de Fernando Sá, ele troca o nome Maragogipe, com o grafema "G", para Maragojpe com o grafema "J" e essa troca é um erro. Em minhas pesquisas, descobri que parte desse texto está no livro "Diário da Viagem ao Norte do Brasil" escrito pelo próprio D. Pedro II. E lá, Maragogipe está escrito com o grafema "G". Outros detalhes vou preferi que o leitor descubra por si, pois vale a análise do documento. Por fim, será interessante ler alguns comentários sobre o mesmo.

Eram três horas mais ou menos, quando avistou-se o vapor que conduzia os augustos visitantes; indo ao seu encontro, em uma canoa ricamente preparada, o juiz municipal, para receber as determinações imperiais; voltou pouco depois que a boa nova de que S.S.M.M. desembarcariam já.

Logo que o escaler imperial chegou ao lugar Cajá, foi passado por entre alas de canoas todas embandeiradas e tripuladas por homens vestidos de alvo, cintos escarlates e bonéis azuis, os quis não cessavam de dar vivas e atirar foguetes.

Chegado este cortejo marítimo ao porto do mesmo nome, foi recebido por música que tocava o hino nacional, havendo por essa ocasião uma salva de 101 granadas que simulavam perfeitamente tiros de canhão.

O escaler seguiu rio acima até o Porto Grande, onde ao aproximar-se S.M. o Imperador mostrou-se de pé, o que produziu no imenso povo que o esperava a mais incompreensível emoção, o mais frenético entusiasmo, traduzido perfeitamente pelo grito uníssono de – Viva o Imperador – Viva a Imperatriz – que soava de todos os lados.

Este lugar estava elegantemente preparado. Em toda extensão da ponte que se prolonga até o Porto das Vagas se viam tremular das diversas nações aliadas e envolta com outras nacionais, o que produzia um não sei que de majestoso ao completar-se o matiz que faziam ao espaço com o alvor da mesma ponte, toda caiada de novo.

No centro do cais estendia-se até o meio do rio, uma larga escadaria tapetizada de amarelo, havendo ao lado desta escada corrimões de gradaria que espaçados por bonitos pedestais, onde descansavam vasos bem talhados plantados de craveiros naturais que se curvam com o peso da flor pendentes de todas as hastes. O mesmo se via em toda frente do cais, no qual balançavam-se bandeiras imperiais. Terminada a escada, elevava-se pouco adiante, um arco de cetim carmesim semeado de rosas brancas, tendo no centro uma coroa imperial descansada sobre um losango, no meio do qual se lia o seguinte:

De Maragogipe o povo
Com respeito o mais profundo
Saúda a Imperatriz
Saúda a Pedro Segundo

Em seguida a este arco estavam formadas em alas vinte meninas vestidas de alvo, com cestinhas cheias de flores, as quais representavam as vinte províncias, como se via na fita verde que cada uma trazia a tiracolo com o nome da província em letras de ouro. Uma delas, a Bahia, aproximou-se de S.M. a Imperatriz lhe espargiu flores, o que imitaram as outras, recitando aquela, com voz firme e maviosa, o seguinte soneto:

Submissão, respeito, amor, saudade,
Guiam meus passos nessa doce empresa:
Venho oferta-vos, ínclita Princesa,
Este raminho, símbolo de amizade.

Despido da lisonja e da vaidade,
Nele achareis somente singeleza:
É sem ornato e pobre de beleza,
Mas rica de infantil simplicidade.

Simples raminho, pura gratidão,
Vai sumisso, segue sem receio
Para, ante o trono, beijar a augusta mão

Acolhei-o Senhora, em vosso seio,
Daí-lhe, benigna, vossa aceitação
Que em vossos gestos já contemplo e vejo.

Mais adiante estavam meninos vestidos também de alvo e com fitas escarlates e tiracolo lendo-se nela os nomes dos rios mais notáveis do Império. Um deles, o Paraguaçu, chegando-se a S.M. o Imperador, entregou-lhe um ramalhete de cravos, enquanto os mais o cobriam de rosas dizendo aquele a poesia que segue:

Eis, Senhor, vassalos vossos
Que para vos defender
Brasileiros pequeninos
Estão aprendendo a ler.

S.S.M.M. receberam estas demonstrações de inocência com a mais cordial satisfação. A seis passos de distância estava o pavilhão para a cerimônia do Pax Tecum – para onde S.S.M.M. se encaminharam e depois de beijarem a Cruz, o Presidente da Câmara passou a entregar as chaves da cidade, recitando um bem elaborado discurso que atentamente foi ouvido por S.S.M.M., ao qual dignou-se responder, S.M. o Imperador: “Agradeço sobremaneira à Câmara da cidade de Maragogipe”.

Este barracão estava muito bem preparado. Sustentava o seu teto forrado de cetim branco, seis colunas dóricas, forradas de cetim azul claro, tomadas por festões de flores artificiais. No frontispício estavam dois anjos que sustentavam uma bandeira com a inscrição: “Viva o Imperador do Brasil”. Daí seguiram S.S.M.M. em baixo do palio, levados pelos membros da Câmara, para a Igreja Matriz. Em todo este trânsito as flores caíam constantemente sobre S.S.M.M. e os vivas confundidos com os repiques dos sinos, o estoirar dos foguetes e a melodia da música faziam o que há de mais belo e majestoso.

S.S.M.M. fizeram oração na capela do S.S. Sacramento. A igreja estava decente; o trono do altar-mor todo aceso, e do mesmo modo todos os altares. Voltaram depois para o Paço da Câmara, onde estava arvorado o pavilhão imperial. Logo que aí chegaram, S.M. o Imperador, disse para os da sua comitiva: “Maragogipe é uma cidade importante, não é possível ser vista em hora e meia, portanto está alterado o programa por culpa de quem me iludiu; durmo aqui.

O regozijo que causou esta resolução não é possível explicar. Não se via senão o povo correr cheio de entusiasmo pelas ruas repetindo a notícia agradável de que S.M. tinha resolvido dormir nesta cidade! Era uma confusão, era um labirinto de alegria.

Dez cavalos ricamente ajaezados esperavam S.M. e a sua comitiva, além de outros menos enfeitados. S.M. montando, seguiu caminho do hospital. Na extremidade de uma rua que abre caminho para o mesmo hospital havia um arco todo alvo, ornado de folhas e flores naturais, tendo seu frontispício o seguinte:

Das Secílias a – Estrela
Veio ao Norte do Brasil
Prodigalizar bondade
Dar a nós venturas mil

Chegando ao hospital, encaminhou-se à capela que estava ricamente coberta de cetim e galões, sendo recebido pelo provedor e mais membros da mesa. Fez oração, percorrendo depois toda a casa, no que mostrou-se satisfeito. Consolou e conversou com os doentes e, especialmente com um preto velho de cento e tantos anos, a quem S.M. ouviu por muito tempo. Entregou ao provedor, para esmola da casa, um conto de réis. Daí foi ao lugar que serve de cemitério. O seu coração paternal enterneceu-se à vista deste lugar coberto de mato que serve de asilo aos mortos e sabendo que havia um projeto para construir-se um cemitério decente, deu 500$000 para a obra; e o Presidente da Província aí se achava prometeu satisfazer essa necessidade pública.

Voltando para a cidade, visitou as aulas públicas de primeiras letras e latim, demorando-se algum tempo na do ensino primário do sexo masculino, onde, ao entrar os meninos entoaram o – Viva a S.S.M.M. -. Pediu o livro de matrícula, no qual estavam matriculados 60 meninos. Exigiu as escritas, que lhe foram presentes, examinando-as minuciosamente; mandou ler a dois meninos; ditou uma conta de repartir que foi feita pelos alunos; mandou o professor interrogá-los em doutrina, e este o fez na História Sagrada, tomando por ponto o Dilúvio, o nome do primeiro homem, etc. Findo o que S.M. perguntou a um dos meninos: ”- Onde está Jesus Cristo?” que lhe foi respondido belamente. S.M. dando mostra de inteira satisfação deu por finda a visita neste lugar.

Foi a capela do Cajá, à qual deu 200$000, fazendo o mesmo no altar do S. Coração de Jesus. É escusado dizer que nuvens de povo se achavam apinhadas em todos os caminhos vitoriando os augustos visitantes.

Foi também à coletoria geral que estava toda iluminada e cheia de bandeiras imperiais; porém, sendo já noite determinou ao Exmo Presidente para exigir do coletor um relatório do seu movimento.

Eram mais de 7 horas quando voltava ao – Paço - onde chegando a uma das janelas contemplou o bonito dêste lugar. 

De feito, a praça de Maragogipe estava elegante. Aplainada, como ainda está, se via nos quatro ângulos do seu quadrado, elevarem-se arcos triunfais cobertos de cetim e flores artificiais, suspendendo-se no centro de todos eles a bandeira nacional que garbosa se balançava para aqui e ali côo que mais orgulhosa, afrontando rajadas de vento sul que não cessavam de soprar com alguma intensidade.

A cor amarela com que estavam caiadas todas as casas da praça harmonizava-se otimamente com o verde das bandeiras das janelas e portas; e esse quadro mais resplandecia quando, à noite, todas se iluminaram bem como o resto da cidade. A praça de Maragogipe estava verdadeiramente imperial. S.S.M.M. se dignaram dar beija-mão, seguindo-se depois o jantar, para o qual tiveram a honra de ser convidados, o deputado e suplente deste círculo, Câmara Municipal, comandante superior juiz municipal e senhoras que se achavam no Paço.

Findo o jantar, S.M. procurou saber do Presidente da Câmara e estado da sua receita e despesa, determinando-lhe que fizesse disto um relatório e nele declarasse quais os melhoramentos que precisava este município. Mandou vir à sua presença o carcereiro, do qual indagou sobre as prisões, asseio e conservação delas, número de presos, sexos, crimes tempos de prisão, se estavam todos processados, quando teve lugar a última visita; procurando o livro respectivo que lhe foi apresentado, S.M. mostrou-se insatisfeito, pois via ter-se visitando no último de julho, quando há obrigação de ser todos os meses.

Indagou do comandante do batalhão no 34 quantas praças tinha o seu corpo, quantas se apresentaram naquele dia, se havia armamento. Ouvindo em resposta à primeira pergunta: 575, a segunda 144 1 a última: nenhum. Mandou entregar ao Presidente da Câmara e Juiz Municipal 500$000 para os pobres. S.M. a Imperatriz, determinou que se levasse para bordo água de Maragogipe, pois muito tinha gostado dela.

A Sociedade Filarmônica de S. Felipe veio da roça render homenagem aos augustos hospedes, postando-se na praça e tocando diversas de harmonia até alta noite. O mesmo fez a música do Batalhão no 52 que estava de guarda de honra. Houve muitas poesias; S.M. o Imperador assistia a este regozijo do povo em uma das janelas do Paço com muita satisfação. A cidade, nesta noite, ficou em completo dia; não se dormiu, animando mas prazer a lua estava brilhando.

Às quatro horas da madrugada, de 10, foi anunciada a partida de S.S.M.M. Poucas pessoas tiveram de aprontar-se. S.S.M.M., depois de tomarem café, seguiram, acompanhadas da mesma forma do dia anterior, para o embarque, onde deixaram este povo envolto na mais pungente saudade. Muitas lágrimas foram vertidas nestas ocasião. Tiveram a honra de acompanhar S.S.M.M. até a bordo do vapor, a Câmara Municipal, Juiz Municipal, comandante do Corpo do Exército e várias pessoas gradas.

Fonte: Fernando Sá. In: Maragogipe no tempo e no espaço. 2000

domingo, 24 de julho de 2011

2 Processos Inquisitoriais com moradores de Maragogipe na Torre do Tombo

Pesquisando no Arquivo Nacional da Torre do Tombo descobri 2 Processos Inquisitoriais com moradores de Maragogipe, do século XVII e XVIII. Mesmo sem registro, deu para visualizar os documentos, mas é interessante que você se registre no site.

Veja os Processos:

PROCESSO 1: MANUEL LEME DA SILVA

NÍVEL DE DESCRIÇÃO: Documento composto
CÓDIGO DE REFERÊNCIA: PT/TT/TSO-IL/028/10018
DATAS DE PRODUÇÃO: 1694-12-11 a 1701-07-19
DIMENSÃO E SUPORTE: 111 fl.; papel
ÂMBITO E CONTEÚDO:
Idade: 30 anos
Crime/Acusação: bigamia
Cargos, funções, actividades: oleiro, vaqueiro
Naturalidade: ilha de Porto Santo, bispado do Funchal
Morada: freguesia de São Bartolomeu de Maragogipe, arcebispado da Baía de Todos-os-Santos, Brasil
Pai: Bartolomeu de Cabreira
Mãe: Gregória da Silva
Estado civil: casado
Cônjuge: Catarina de Sousa
Data da prisão: 27/10/1699
Sentença: auto-de-fé de 11/08/1700. Abjuração de leve, cárcere a arbítrio dos inquisidores, instrução na fé católica, açoitado publicamente, degredo para as galés, onde serviria ao remo, sem soldo, por sete anos, penitências espirituais, pagamento de custas.
O réu casou segunda vez com Maria Rodrigues, terceira vez com Catarina Martins e, já no Brasil, casou quarta vez com Luzia Ferreira.
Por despacho de 17/06/1701, foi-lhe comutada a pena de degredo nas galés para Castro Marim.

PROCESSO 2: JOÃO PINTO COELHO

NÍVEL DE DESCRIÇÃO: Documento composto
CÓDIGO DE REFERÊNCIA: PT/TT/TSO-IL/028/08573
DATAS DE PRODUÇÃO: 1727-07-03 a 1729-03-30
DIMENSÃO E SUPORTE: 84 fl.; papel
ÂMBITO E CONTEÚDO:
Estatuto social: cristão-velho
Idade: 30 anos
Crime/Acusação: abuso do sacramento da Ordem
Cargos, funções, actividades: clérigo "in minoribus", mestre de capelas
Naturalidade: Porto
Morada: Maragogipe, arcebispado da Baía, Brasil
Pai: Manuel Pinto Coelho, procurador de causas
Mãe: Isabel Francisca
Estado civil: solteiro
Data da prisão: 03/07/1727
Sentença: auto-de-fé de 25/07/1728. Abjuração de leve, inabilitado para ser promovido a qualquer Ordem, ser açoitado publicamente, degredo para as galés, por oito anos, instrução na fé católica, penitências espirituais, pagamento de custas.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 8573

sábado, 23 de julho de 2011

Dia 26 de junho de 1822, Maragogipe aclama D. Pedro único representante e exige fim das hostilidades portuguesas

Antes de qualquer explicação histórica gostaria de agradecer aos leitores Augusto Lopes e Hélio Tomita, é por causa do questionamento de vocês que estou escrevendo esse texto, para completar o artigo anterior.

Sou professor de História e estou me especializando em História de Maragogipe e do Recôncavo, discordo de muitas histórias que foram criadas movidas a interesses políticos por estas terras e sempre que puder eu estarei aqui para desconstruí-las. 

Como professor, digo sempre aos meus alunos que NUNCA concordem plenamente com a idéia ou a fala de outra pessoa, inclusive da minha, pois o que todas as pessoas fazem é escrever ou falar sobre uma verdade que elas entendem que é a verdade. Contudo, sabemos que NÃO EXISTE VERDADE ABSOLUTA e logo não existe imparcialidade em notícia, com isso, eles devem começar a pensar, refletir e buscar pelo saber, sem contudo desprezar o conhecimento do outro, afinal de contas, as descobertas só surgem partindo de uma contradição. Me diga quem não tem tendência e eu direi que ele estará morto, pois em vida ele tinha suas preferências. Com isso, viso ser verdadeiro, somente, não faço questão de defender A ou B, faço questão de dizer a verdade, aquela que eu entendo como verdade, e a que os documentos me remetem como verdade, através da interpretação rigorosa de fatos e acontecimentos ocorridos ao longo da história.

Sendo assim, posso primeiramente citar que a História de Maragogipe é uma das mais belas e mais vibrantes de todos os tempos e aos poucos eu vou contando neste blog, e guardo outras para meu Livro que estou escrevendo. Se eu tivesse recursos suficientes, esse estudo seria mais acelerado, mas como não tenho, sigo como a maioria dos historiadores seguem, sem patrocínio, pois o que a maioria das pessoas entendem somente que a História é Passado, eu entendo que a História é Presente - é somente com questões do presente que interrogamos o passado

"A história é o estudo dos homens no tempo e no espaço."
Marc Bloch

Agora que fiz essa introdução farei o detalhamento da seguinte questão, expressa na lei:
Art. 1 - Fica instituído feriado o dia 29 de junho tendo como motivo principal a data em que a Câmara de Vereadores aderiu a pedido de Cachoeira à atender ao pedido vindo do Rio de Janeiro para aclamar Dom Pedro de Alcântara, príncipe regente do Brasil, consolidando assim, um marco da independência do Brasil e posteriormente da Bahia. 
Art. 2 - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação. Revoga-se as disposições em contrário. Veja o vídeo.

Todos nós sabemos que a luta pela Independência tem como marco o dia 25 de junho de 1822, mas antes de tudo acontecer, os ânimos já acirravam a um bom tempo. Todavia, o dia 29 de setembro de 1821, quando Portugal decreta que o Brasil estaria subordinado ao Reino Português e marca o retorno do príncipe Regente, os brasileiros sentiram a oportunidade.

A partir daí, diversas situações ocasionaram um situação de conflito entre portugueses e brasileiros e Madeira de Melo conseguiu ocupar militarmente a cidade de Salvador. Madeira de Melo, inclusive, adota uma política que visava obter apoio local na Bahia unida a Portugal. No dia 18 de março de 1822 chega à Bahia o reforço português, esta tinha sido expulsa do Rio de Janeiro pelos acontecimentos do Fico e ordem do príncipe dom Pedro.

Diversas famílias começaram então a abandonar Salvador, direcionando-se para São Francisco do Conde, Cachoeira, Santo Amaro e Maragogipe. Em abril já existiam várias conspirações contra o brigadeiro Madeira de Melo.

De março a junho de 1822, atos direcionaram diversos proprietários de engenho e plantações de cana-de-açúcar, oficiais militares e intelectuais na posição a favor do reconhecimento da regência deixada no Rio de Janeiro pelo rei dom João VI e aceitação da autoridade do príncipe dom Pedro. Esse partidários tentaram, no dia 12 de junho de 1822 reconhecer a autoridade do príncipe na Câmara da cidade de Salvador, mas houve bloqueio das tropas portuguesas e a reunião foi proibida. Dois dias depois, em Santo Amaro reuniram-se diversas pessoas e a Câmara decidiu "Que haja no Brazil hum centro de Poder Executivo; que este Poder seja exercido por sua Alteza Real e Príncipe Regente".

A partir desse momento, é possível encontrar uma sequencia de preparativos em reconhecimento da autoridade do príncipe dom Pedro. No dia 24, em Belém, Cachoeira houve uma reunião secreta. O ato seguinte, no dia 25 de junho, foi a oficialização na Câmara de Cachoeira que decidiu aclamar S.A.R. por regente e Perpétuo defensor e protetor do Reino do Brasil. Foi lavrada a ata e quando celebravam o Te Deum a escuna canhoneira enviada por Madeira de Melo disparou o primeiro tiro contra a vila.

No dia 26 de junho, formou-se a primeira junta Interina, Conciliatória e de Defesa e nela Antônio Pereira Rebouças, maragogipano, já se fazia presente. Enviou-se mensageiros para todas as vilas e povoações para informa-lhes a aclamação do príncipe e as hostilidades portuguesas já declaradas pela escuna canhoneira. Neste mesmo dia, a Câmara de Maragogipe já ciente dos atos de hostilidades decidiu que "No reino do Brazil deve residir hum único Centro de Poder Executivo na Pessoa do Príncipe Real" (TAVARES, cap. XVI do livro História da Bahia) e como mostra o documento abaixo. Que demonstra inclusive, a insatisfação dos maragogipanos e o desejo de separação da vila de Jaguaripe, institui diversos artigos a serem colocados em prática pelo príncipe Regente e exige a retirada das hostilidades portuguesas e outros pontos mais. Leiam documento abaixo, depositado no site objdigital, nº 108 (Clique aqui para visualizá-lo completo):



No dia 29 de junho de 1822, os diversos representantes das vilas enviaram documento à Câmara da vila de Cachoeira propondo a ampliação das atribuições da Junta e se transformassem em governo militar e civil legítimo para todas as vilas do Recôncavo e neste dia aclamaram dom Pedro como regente constitucional do Brasil as Câmara de São Francisco do Conde e Santo Amaro.

O que o Blog Vapor de Cachoeira fez foi com base nos documentos que dispunha em mãos, colocar Maragogipe em evidência no dia 29, acontece que o documento reproduzido no blog, e depositado no site objdigital, nº 109 (Clique aqui para visualizar o documento completo) descreve:

  1. um pedido da Câmara de Maragogipe, e não o contrário, para que a Câmara da vila de Cachoeira aderisse ao pedido de aclamação do príncipe regente. E como todos já sabem, o mesmo já tinha ocorrido no dia 24 em reunião secreta e no dia 25 na Câmara de Cachoeira, em que se instalou a primeira junta a qual esse pedido foi anexado.
  2. ainda com referência a primeira ata, (perceba que o Blog Vapor de Cachoeira reproduz duas atas que estão localizadas na Gazeta do Rio, nº 109) a Câmara diz: "e por este foi dito que as instâncias do povo desta vila tinhão, e vinhão a requerer que se fizesse vereação, para o fim de que com a assistencia deste Senado se aclamasse S.A.R. o senhor príncipe D. Pedro Regente e Perpétuo defensor e Protetor do Brasil, na forma já aclamado no Rio de Janeiro". Perceba a marcação em vermelho, e leia bem, tinhão, e vinhão. Ou seja, a Câmara Maragogipana tinha tomado sua decisão antes do acontecimento e requeria que a Câmara de Cachoeira tomasse uma decisão, já tomada, claro e óbvio.
  3. a segunda ata, é novo pedido da Câmara de Maragogipe, e do povo presente na praça pública que se faça uma junta conciliatória de defesa para cuidar dos habitantes destas terras.
Percebe-se portanto, com a leitura dos dois documentos, apesar desta postagem só citar um, o outro está redirecionado. Que é a Câmara de Maragogipe que requereu da Câmara de Cachoeira uma tomada de decisão, acontece que naqueles tempos, a demora na entrega de documentos, faz com que decisões tomadas por um, choquem-se com as tomados por outra cidade, sendo assim, houve quase que simultaneamente o pedido entre Maragogipe e Cachoeira, o primeiro com um certo atraso, mas a sua importância foi tanta que ficou registrado nos autos da Gazeta do Rio (Clique aqui para visualizar todos os jornais do acervo digital do jornal Carioca de 1822)

Sendo assim, é no dia 26 de junho e não no dia 29 que Maragogipe aderiu a independência, exigindo inclusive, o fim das hostilidades portuguesas que já vinham bem antes do dia 25 de junho em Cachoeira.


Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Professor de História e estudante de história da UFRB
Especializando-se em História Reginal, 
focando seus estudos na cidade de Maragogipe