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domingo, 25 de novembro de 2012

Em defesa do caranguejo-uçá - Ucides cordatus

Não podemos negar que o Caranguejo-Uçá, além de outros animais, são de extrema importância para a fauna marítima maragogipana, com isso, este portal não se preocupa apenas com a parte histórica da humanidade, mas também, com seus deslizes ambientais. Hoje, a nossa fauna está praticamente extinta, e é preciso atenção das autoridades que estão implantando o Estaleiro Enseada do Paraguaçu, a história não nega o que aconteceu com este símbolo do manguezal, em outras regiões do Brasil com o contato de micro-organismos de outras partes do globo que chegaram as águas brasileiras nos lastros dos navios. Sendo assim, vale o artigo.


Pós-graduando Bruno Sampaio Sant’Ana (santana@csv.unesp.br), regularmente matriculado no Curso de Pós-graduação do Instituto de Pesca, participa de esforço interinstitucional de pesquisa em defesa do caranguejo-uçá, conforme citado no artigo de Júlio Zanella para o Jornal da UNESP, no. 212, junho de 2006, transcrito a seguir.

Pesquisas ajudam na preservação do crustáceo, que é fundamental para sobrevivência de outras espécies em manguezais e está ameaçado por exploração desordenada no Nordeste.

Estudos sobre alimentação, densidade populacional e reprodução do caranguejo-uçá, desenvolvidos por pesquisadores do Campus Experimental do Litoral Paulista, em São Vicente, poderão contribuir para a estratégia que vem sendo adotada para a preservação do animal. O crustáceo está em processo de extinção em algumas áreas do Nordeste do País, onde é bastante consumido e comercializado, sendo a principal fonte de renda para algumas comunidades ribeirinhas.

“A preservação desse caranguejo é importante porque ele contribui para a sobrevivência de outros animais marinhos, aves e pequenos mamíferos, já que desempenha um papel fundamental na reciclagem de nutrientes dentro do seu hábitat, o mangue”, diz o biólogo Marcelo Pinheiro, coordenador do Grupo de Pesquisa em Biologia de Crustáceos (Crusta).

Conhecido também como “jardineiro-do-mangue”, o caranguejo-uçá, por triturar as folhas, ajuda na sua decomposição por fungos e bactérias, processo que gera nutrientes que são acrescentados ao solo, à água e à vegetação no manguezal. “A atividade alimentar dele auxilia a liberação de nitrogênio, fósforo e potássio no ambiente, elementos que serão absorvidos pelos peixes de água doce e animais marinhos, como outros crustáceos, camarões, mexilhões, berbigões, caramujos e ostras”, explica o docente. “E quanto maior o número de peixes, maior a quantidade de aves no ambiente.”

Em oito anos, o caranguejo-uçá atinge o tamanho médio de 8 a 10 cm. “Como a maioria dos pescadores não espera esse tempo todo, muitos são consumidos precocemente, o que causa impacto em todo o ecossistema local, em prejuízo da vegetação e da reprodução e crescimento de peixes”, diz Pinheiro, orientador dos estudos. O pesquisador investiga a espécie desde 1997 e ajudou na elaboração de uma portaria do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), válida para as Regiões Sul e Sudeste do País, que estabeleceu o tamanho mínimo de 6 cm para a captura desse animal.


Fontes de alimento

O primeiro passo dado pelos pesquisadores para garantir a preservação do caranguejo-uçá foi conhecer como ele se alimenta em seu ambiente. O estudo de doutorado do biólogo Ronaldo Adriano Christofoletti identificou, no mangue de Iguape, próximo a Cananéia, no litoral sul paulista, as folhas das espécies das árvores Avicennia schaueriana e Rhizophora mangle, que são consumidas pelo animal. “A disponibilidade e o valor nutricional das folhas no mangue apresentaram forte influência sobre o ciclo de vida do caranguejo-uçá, podendo também ser um fator limitante ao seu crescimento”, afirma o pesquisador.

A Avicennia possui a maior quantidade de nutrientes, contendo carbono, nitrogênio, cálcio, fósforo e potássio. “Nas áreas com predomínio dessas folhas, os animais apresentaram maior taxa de engorda”, conclui Christofoletti. “Por outro lado, descobrimos que a folha da Laguncularia racemosa possui maior concentração de tanino, substância inibidora de crescimento, que deveria ser evitada pelo crustáceo.” Ele ressalta que as descobertas serão de grande valia para estudos futuros relacionados ao manejo e conservação da espécie, inclusive para a produção de uma ração destinada à sua criação em cativeiro.
Densidade populacional

Se não é adequada para a alimentação do caranguejo-uçá, a Laguncularia racemosa mostrou-se importante para garantir a distribuição espacial dessa espécie, de acordo com outro doutorando da equipe. O estudo apontou as condições que determinam a densidade populacional do caranguejo-uçá através do método de quantificação e mensuração das galerias que ele ocupa. Os dados levantados indicam que a espécie se mostrou mais populosa quando havia abundância da Laguncularia racemosa, registrando-se em média dez galerias por metro quadrado de manguezal com maior presença do vegetal.

O pesquisador Gustavo Yomar Hattori relacionou fatores ambientais como solo, água das galerias escavadas pelo animal, tipo de vegetação e áreas com diferentes níveis de água na maré cheia. “Descobrimos que o teor de cálcio do local e a elevada salinidade foram as principais variáveis positivas para a abundância do caranguejo-uçá”, revela Hattori. “O número de animais foi maior nas áreas de manguezal sujeitas a um regime de pouca inundação.”

De acordo com o pesquisador, os resultados são relevantes para os órgãos fiscalizadores e programas de preservação do caranguejo. “Eles podem indicar que áreas com predominância de Laguncularia racemosa e elevada abundância de indivíduos de pequeno porte devem ser preservadas e consideradas como reserva de estoques naturais”, avalia.

Época de reprodução

Já o biólogo Bruno Sampaio Sant’Anna, em sua dissertação de mestrado, relacionou as condições ideais de reprodução dos caranguejos-uçá com fatores ambientais como temperatura, quantidade de chuva, salinidade, luminosidade, fase lunar, amplitude de marés e densidade populacional. O objetivo foi fornecer dados aos órgãos governamentais para avaliação do período de proibição da captura do caranguejo.

Sant’Anna observou que a reprodução se inicia entre novembro e dezembro, sendo menos acentuada em janeiro, com decréscimo da densidade nos meses subseqüentes. Ele constatou que, na área analisada no litoral paulista, durante as épocas mais quentes do ano, centenas de caranguejos da espécie saem das tocas e caminham pelo manguezal em busca de parceiros para acasalar. Nesse momento, eles ficam mais vulneráveis à captura por pescadores e turistas. “É nessa época, conhecida pelas comunidades ribeirinhas como ‘carnaval’, ‘andança’ ou ‘andada’, que os animais estão mais ativos”, afirma.

O pesquisador lembra que a proibição da captura durante a “andada” tem sido utilizada com sucesso em alguns Estados, como o Espírito Santo. “Isso está ocorrendo apesar de a fiscalização ser problemática, requerendo a conscientização da comunidade e dos catadores que extraem esse recurso pesqueiro”, afirma.
Após 12 meses de trabalho, Sant’Anna – que foi orientado por Pinheiro e pelo Pesquisador Científico do Instituto de Pesca Evandro Severino Rodrigues (evansero@pesca.sp.gov.br) – concluiu que a elevação da densidade da espécie pode ser influenciada pelo aumento da luminosidade, da temperatura e pelas condições de salinidade da água.

Os resultados do projeto como um todo vão auxiliar na melhor adequação do período de defeso determinado pelo Ibama na Região Sudeste e também na conscientização das populações ribeirinhas. Os estudos, vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Zootecnia, área de Produção Animal, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, campus de Jaboticabal, receberam financiamentos da Fapesp, do CNPq e da Fundação Biodiversitas.


INSTITUTO DE PESCA
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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Brasão Oficial do Município de Maragojipe e erros históricos

por Zevaldo Sousa

Foi com a lei municipal nº 006/1973 de 27 de janeiro que foi criado e instituído o Brasão Oficial do Município de Maragojipe, vale ressaltar que é com grafema "J". O Brasão, tem um escudo azul que contém seis estrelas referindo-se aos distritos do Município: (Coqueiros, Nagé, Guapira, Guaí, São Roque e Maragogipe).

No campo vermelho, ao lado da faixa branca que significa o rio Quelembe, existe a figura de um índio com um flecha, indicando a formação nativa na formação do município e, do lado direito, a Igreja de São Bartolomeu, Patrono e Padroeiro de Maragojipe.

Centralizado, na área esverdeada, uma palmeira a simbolizar o título que o povo outorgou, Cidade das Palmeiras, seguindo da legenda "Cidade Patriótica" título conferido pelo imperador ao Bravo Povo Maragogipano pela participação heróica nas lutas da Independência e Guerra do Paraguai.

Há dois ramos, um do lado esquerdo, representando o café e outro do lado direito representando o fumo, segundo a lei, eles representam a economia da região na época do império. Existe também a coroa imperial de prata com quatro torres de município.

Por fim, um listral vermelho em letras brancas escrito "MARAGOJIPE" e em letras pretas "8 de maio de 1850", que segundo a lei refere-se a emancipação política do município.

DO BLOG: Contudo, vale ressaltar que erros históricos são pontuados e expressados neste Brasão. Por um simples motivo, na escola em que esses vereadores aprenderam prevalecia a História Positivista em que detalhes nacionais merecem mais destaque que os regionais, grandes fatos, grandes políticos e num último caso a ideia da mestiçagem. Sendo assim, posso lhe afirmar que:

Como citei em postagem anterior, o nosso título é o de Patriótica Cidade, e não o contrário como está no Brasão e o 8 de maio de 1850 refere-se somente a elevação de Maragogipe à categoria de cidade, visto que sua emancipação se deu em 9 de fevereiro de 1725. Naquele tempo o presidente da Câmara também executava as leis e tanto o IBGE, quanto o IPAC pode comprovar isso. 

Há também a ideia de que o Café e o Fumo engrandeceram à economia de Maragogipe. Segundo estudos feitos por diversos historiadores, Maragogipe não passou de uma região em que se produziu alimentos de primeira necessidade e a mandioca sempre foi o seu potencial. Tanto o Café, quanto o Fumo, como também a Cana que apesar não ter sido citada no brasão é lembrada em livros que trazem a ideia de diversos engenhos na região não passaram de segundo plano na economia Maragogipana na época da Colônia e do Império, visto que houve diversas leis que protegiam os plantadores dessas variedades nas outras vilas. Cachoeira com o fumo, Santo Amaro com a cana e o café na Bahia não conseguiu prosperar. Mas em Maragogipe, houve um safra vencedora de um concurso na Itália que fez com que existisse até hoje, tal variedade que herda nosso nome, mas não é mas plantado aqui.

Quanto às questões de "raça" e religiosa, prefiro não me atrever a escrever, visto que muito deve ser discutido ainda sobre o tema. Todavia, é importante ressaltar que foi no Governo de Cid Seixas Fraga que tal Brasão foi constituído, assim como a Bandeira e a troca do nome de Maragogipe com o grafema "G" por Maragojipe com o grafema "J", tudo por picuinhas políticas da época em que Comunistas não se bicavam com membros do PSD (Partido Social Democrata) e Integralistas desde o início do século XX.

Foi nesse período em que debates acerca da história começaram e quando um comunista, estudioso e conhecedor da história de Maragogipe estava no poder, junto com Cid Seixas recebeu essa incrível missão e no meu entender, pecou ao fazer seu amor literário, suplantar à história real do município, como uma forma de construir, desconstruindo o que foi construído a diversos séculos de história.

Publicado em 10 de julho de 2011, por Zevaldo Sousa

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A minha experiência como professor de história num Curso de Turismo-Étnico em Maragogipe

Por Zevaldo Sousa

Tratar sobre temas como Identidade, Cidadania, Diversidade, Tolerância e Respeito num curso de História é de extrema importância para a formação do “cidadão crítico”, e essa formação conduz ao que historiador André Segal afirmava que a História “forma cidadãos comuns, indivíduos que vivem em presente contraditório, de violência, desemprego, greves, congestionamentos, que recebe informações simultâneas sobre acontecimentos internacionais, como as guerras, que deve escolher seu representante para ocupar cargos políticos instituicionais”. Esse indivíduo que vive o presente deve, pelo ensino de História, ainda segundo Segal “ter as condições de refletir sobre tais acontecimentos, localizá-los em tempo conjuntural e estrutural, estabelecer relações entre os diversos fatos de ordem política, econômica e cultural, de maneira que fique preservado das reações primárias: a cólera impotente e confusa contra patrões, estrangeiros, sindicatos ou o abandono fatalista da força do destino.” (“In Ensino de História” por CIRCE BITTENCOURT, 2008, p. 121-2).

Com isso, preparamos o cidadão com a finalidade de ter uma formação política, intelectual, e humanística. Todavia, essa base da História, enquanto disciplina, que deveria ter existido, ou melhor, e ter sido aplicada no ensino regular dos alunos que ingressaram no Curso de Turismo Étnico-Afro (Empreendedorismo - Vespertino) não ocorreu, ou pelo menos, não aparentou nos discursos de grande parte dos estudantes.

Primeiro, porque vieram para o curso com um preconceito muito grande com questões relativas à vida em sociedade, ao coletivo, às religiões de modo geral, e à sua condição social. Mas mesmo assim, estes estudantes, trouxeram para dentro da sala de aula, vivências que contribuíram e muito para o debate da História e da sua condição de cidadão. Apesar de ter ciência de que com 40 horas de ensino, eu não teria condições, de formar nos alunos uma opinião crítica dos assuntos tratados em sala de aula, esperei criar, pelo menos, as bases para o sucesso deles, enquanto empreendedores. Para isso, coloquei meus conhecimentos de História na mesa de discussões, assim como o meu exemplo ter sido um Empreendedor em Maragogipe com uma lanchonete na Praça da Matriz, e com os diversos cursos de Empreendedorismo que fiz, a exemplo da Oficina promovida pela Ethos Humanus, empresa que está fazendo da interação comunidade de Maragogipe com o Estaleiro Enseada do Paraguaçu, em São Roque.

Com isso, resolvi extrapolar o material enviado pelo Instituto, e usar a criatividade, até porque, todo empreendedor deve ser criativo e como escrevo sobre a História de Maragogipe há quase quatro anos, explorei bem a ideia que o MEC oferece nos Parâmetros Curriculares para o Ensino Médio (PCNEM), além da interdisciplinaridade, procurando desenvolver nesses alunos competências e habilidades para que os mesmos percebam o quão é importante do estudo de História na construção de suas vidas, e até porque o empreendedor deve de maneira holística, pensar e agir, sempre com obsessão pelas oportunidades, balanceando por um espírito de liderança.

A questão que norteou o aprendizado, portanto, foi: Como fazer com que esses alunos, que não tinham uma bagagem robusta, entenderem que a História é importante para o curso que escolheram?

Com base nesses princípios fui à sala de aula, convidá-los para um estudo mais aprimorado e instigador. Nas primeiras aulas, como sempre, precisei fazê-los refletir sobre as questões fundamentais para o estudo de História, para isso, apresentei através de explanações os conceitos sobre Tempo, Espaço, Humanidade e Cultura. Até porque, nestas primeiras aulas, os estudantes não tinham nenhum material de estudo, mas logo nas aulas subseqüentes, já com o material didático do Instituto, tratei sobre pontos importantes para o entendimento e formação do cidadão crítico, citado no início do texto.

Com isso tratei sobre temas importantíssimos no ensino de História como: Identidade, Cidadania, Diversidade, Tolerância e Respeito, além de outras aulas que tratei sobre os conteúdos que estavam no material. Que considero de extrema importância para o conhecimento da história da Bahia, mas que preferi colocá-los num segundo plano, pois entendia que para àquele curso em questão, e para àqueles estudantes seria interessante focarmos nos assuntos relevantes para a formação do senso crítico.

A questão da Identidade é exemplo, e sei que foi de extrema importância para os alunos o reconhecimento da sua Identidade Individual, que está dentro de um contexto Identitário Coletivo. Para isso, é preciso respeito ao outro que não conheço, não sei das suas dificuldades e problemas, mas que julgo sem lhe dar ao menos, o direito de se defender. Nesse caso, debatemos questões religiosas e as relações e visões que o Candomblé, o Catolicismo e o Protestantismo têm um do outro, explicando que muitas dessas visões são preconceituosas e só gera intolerâncias e guerras.

Outro caso, que foi de extrema importância para o debate em sala de aula, foi a questão da discussão do Gênero, Diversidade e da Homossexualidade, tema esse que gerou debates controversos, mas que chegaram a um denominador comum, quando lembrei aos estudantes que não podemos ser intolerantes e devemos respeitar a opinião do outro, por não conhecer quais são as suas dificuldades e problemas.

Com esse pressuposto teórico-metodológico acredito que fiz os alunos continuarem em sala de aula e realmente ter um interesse no curso que escolheram, mas que por ironia do destino, não vingou.

Carnaval
Vale ressaltar a importância que dei ao estudo da História de Maragogipe passei diversos filmes e documentários que ilustram bem a história do município e seus produtos, neste momento pensando historicamente com uma maneira empreendedora. O Carnaval de Maragogipe, a Festa de São Bartolomeu e Os Veleiros do Recôncavo foram temáticas pertinentes ao contexto turístico-histórico do curso. Neste momento, mostrei para eles a importância da visão que o frânces Dimitri Ganzelovich tinha sobre o Carnaval de Maragogipe e que era praticamente a mesma de outros turistas que chegam ao município, neste momento, e que era preciso, para eles como empreendedores, estarem atentos e usando sua criatividade poderiam ser bem sucedidos. Na visão do Dimitri, o carnaval, as máscaras e identidade do maragogipano, por si só, ganham qualquer pessoa, ele não aceitava trios elétricos e outros tipos de investimentos na cultura maragogipana, mas queria preservar o modo antigo de se divertir. Para quem é empreendedor, o Dimitri dá a grande sacada do Carnaval de Maragogipe e de outras festas como o São João e a Festa de São Bartolomeu, e o cidadão que reconhece a identidade coletiva da cidade poderá viver tranquilamente bem, explorando essa cultura, não importando, neste caso, religião, raça, cor, partido político, ou posição social.

Outro ponto importante que tratei foi sobre a questão dos Veleiros de Maragogipe, e da oportunidade que os mesmos podiam ganhar se souber explorar, de modo aliado ao pescador, dos passeios sobre o rio Paraguaçu. Enquanto ele teria o conhecimento histórico do local, servindo de Guia Turístico, o pescador teria sua habilidade com o mar. Quem ganharia com isso? Todos. O turista, o pescador e o estudante que resolveu investir na exploração da História de Maragogipe e do Recôncavo que é rica e engenhosa.

Fiz um breve apanhado sobre a formação do município de Maragogipe, Cachoeira e Santo Amaro e busquei de forma integrada, conciliar com o conteúdo programático do material didático ofertado pelo Instituto.

Suerdieck
Neste ínterim, levei os estudantes para fazermos uma rápida visita, com olhar histórico, pela cidade de Maragogipe, local que conheciam bem, mas que desconheciam detalhes pequenos que poderiam ser grandiosos quando bem explorados. Partindo do Porto Pequeno, fui apresentei a eles, o caminho pelo qual Dom Pedro II passou, junto com a rainha em Maragogipe, apresentei também um pouco da história dos prédios históricos da Suerdieck, Dannemann, das Filarmônicas Terpsícore Popular e Dois de Julho, do Coreto, da Igreja de São Bartolomeu, das doações diversas feitas pelos Suerdieck a Maragogipe, do Mercado do Areal e do Hospital. Foi uma experiência enriquecedora, que os alunos gostaram muito e que desejaram outra, mas o tempo era curto e não deixou.

No retorno pedi para os alunos escreverem no seu caderno, o que foi de novo que aprenderam com aquela aula ao ar livre e quais foram às oportunidades que visualizaram para eles ingressarem dentro de um empreendimento.

A partir daqui, já finalizando o curso, entreguei alguns materiais, livros e experiências que descobri na internet e que acreditei ser de extrema importância para o conhecimento dos mesmos, pois estava aliada ao contexto do curso. Despedi-me da turma com um desejo imenso do sucesso fazer parte da vida deles e na certeza de ter contribuído e muito para a sua formação crítica e tenaz da história.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A problemática da valorização da Educação Brasileira - Final

Por fim, gostaria de salientar esta última problemática que se refere muito mais a Educação do que ao próprio professor. Como falei no primeiro artigo, é muito mais fácil começarmos a valorizar a Educação do que o individuo educador. Nós, os educadores, fazemos parte de um sistema maior e se esse sistema é desvalorizado, nunca seremos valorizados.

É por esse motivo que não privilegiei o problema da política salarial e de valorização do professor. Que me remetia à assuntos como os baixos salários, o descaso, o desrespeito, a imposição de políticas pedagógicas e carga horária; tudo isso somado têm reflexos de um péssimo sistema de ensino. 

Michel Souza fala que "Os bons salários de alguns grupos de funcionários públicos, como os de juízes, promotores e políticos é provocado pelo subdesenvolvimento de outros grupos, como o de professores. Para que alguns grupos possam receber melhores salários e acumular patrimônios outros grupos necessitam ser explorados e sacrificados. O acesso aos benefícios está desigualmente repartido. Em conseqüência dos baixos salários e dos descasos com a classe, o professor perde a motivação, não tem prazer em dar aulas, resigna-se, não fazendo um bom trabalho."


O professor, portanto, não é motivado. A educação muito menos, apesar da educação ter o maior investimento nos recursos públicos, os mandatários não conseguem sequer investir no incentivo. Pois como já disse, a educação é para o futuro, as obras visíveis são para as eleições.

Os investimentos são raros e escassos, quase imperceptíveis o que acarreta na desvalorização da área que deveria ser a mais valorizada por todos os que vivem nesta terra.

Somos assim, mudos numa terra de falantes, àqueles que deveriam trazer a voz para as multidões, a liberdade e a esperança, estão amordaçados pelo sistema político e social. A cultura ainda ajuda nesse processo de desvalorização e, por fim toda a estrutura escolar não é agradável. Vivemos sinceramente num mundo distante do ideal. Distante do básico.

Não temos uma escola ideal, não temos uma família que incentive, nem vizinhos e amigos, não temos um governo que valorize a educação, nem um quarto poder que incentive essa área. Estamos reféns de nós mesmos. 

Sendo assim, proponho que cada um faça a sua parte e que não espere pelos outros, pois se assim permanecermos, nada mudará.

A problemática da estrutura da Educação Brasileira


Sei que a maioria das pessoas devem estar se perguntando. Porque ficar discutindo educação, não vai adiantar nada. E por este motivo, poucos são aqueles que estão lendo estes artigos. Então, para quê me desejar felicidades por este dia? Para quê desejar felicidades para o professor? Sinta-se a vontade para continuar vendo às desgraças alheias e continuem com os três efes de suas vidas. Festa, Fuxico e Foguetes.

Agora, para aqueles que reconhecem o trabalho do professor e gostam de uma discussão sobre o assunto, que fique ciente que estes são artigos de abertura, mas não de fim. Como já disse, não sou nenhum especialista, mas trago minha experiência e a de muitos autores que li e continuo lendo para o atual contexto.

Sendo assim, a pergunta para esta problemática seria: Qual é o modelo estrutural de escola ideal?

Se olharmos bem às nossas escolas elas parecem, literalmente, como prisões. Michel Foucault, já havia estudados os males que este tipo de arquitetura causa ao indivíduo. Para ele, este tipo de arquitetura é uma arquitetura de esquadrinhamento, da observação, da disciplina, do controle, cujo único objetivo e controlar os indivíduos criando seres dóceis e serviçais ao mercado de trabalho. Todavia, como estamos tratando de seres humanos, e como gosto de citar que em ciências humanas, nada é total. Muitos jovens acabam com um sentimento de repulsa à este sistema.

O aluno da escola pública vive numa prisão, não pode sair pois o porteiro não deixa, se chega atrasado não entra na escola, e não interessa qual o motivo, este é o verdadeiro treinamento capitalista do indivíduo para a vida e àqueles que não se adequam terão ou irão ver outro tipo de estrutura prisional, e neste caso, estou a falar dos verdadeiros sistemas de "exclusão" do indivíduo da sociedade. 

O que este sistema prisional acarreta na vida do estudante?
Além dos outros fatores citados anteriormente, a estrutura escolar afeta na falta de comprometimento nos estudos, na desmotivação, na falta de interesse do aluno. As aulas tornam-se monótonas e chatas. Falta a escola pública uma estrutura material para que o aluno goste de estudar, como áreas verdes, quadras, equipamentos, salas de estudo, salas de teatro, salas de vídeo, salas de ginástica, biblioteca, materiais para uso em sala de aula, etc. Um ambiente agradável com uma estrutura impecável é imprescindível para que o aluno aprenda.

Mas quando teremos isso? Quando aprendermos a cobrar.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A problemática social da Educação Brasileira

Após relatar sobre a nossa problemática cultural da Educação Brasileira, partiremos para o nosso lado social. Pensemos o quanto é difícil para pais e responsáveis viver com um salário minimo, procurar trabalho extra e ainda por cima ter cabeça, porque tempo tem, para incentivar seus filhos e crianças à estudar.

Aliás, se pararmos para analisar bem, nossas crianças e adolescentes passam a maior parte do seu tempo longe de pais e mães do que perto, devido à diversos fatores, e um deles inclusive é a péssima influência que vem sendo bombardeada de todos os lados, desde às próprias amizades dos responsáveis, até a televisão e do traficante que fica na porta da escola, quando não dentro.

Segundo Michel Souza "Os problemas educacionais refletem as contradições da própria sociedade. Na base da educação há uma família geralmente carente material e intelectualmente. Pobreza, fome, falta de trabalho e falta de perspectiva são fatores que minam a educação. O Brasil é um das dez maiores economias do mundo, mas em indicadores sociais ela está ao lado de Botsuana e Moçambique: 30 milhões vivem em estado de miséria; 80 milhões não conseguem consumir as 2240 calorias mínimas exigidas para uma vida normal; 60% dos trabalhadores no Brasil ganham até um salário mínimo. 50% da riqueza concentram-se nas mãos de 10% da população que ganham mais de dez salários."

A Bahia não foge a estes dados. O subemprego é uma realidade da grande maioria das famílias baianas: faxineiras, camelos, lavadores de carro, pedreiros, pintores, eletricistas ocasionais são comuns. Tais pessoas apresentam baixo nível de consumo e renda e baixo nível educacional sendo incapazes de acompanhar seus filhos e dar uma boa assistência a eles.

Sendo assim, como poderemos agir para que esse problema seja resolvido urgentemente, para que no futuro próximo comecemos a almejar novos rumos para a educação? 

Acredito, realmente que a problemática social da educação deve ser neste primeiro momento combatida por uma mídia mais eficiente, e a partir daqui gostaria de salientar a importância desta nas vidas dessas pessoas carentes que estão começando a ter oportunidades, mas não estão sabendo aproveitar devido ao seu baixo nível educacional. Aliás, esse é o motivo da permanência de políticos sujos nas nossas vidas e a maioria das pessoas não conseguem perceber esse fator como algo predominante em nossas vidas. Sempre digo, que a mudança surgirá quando a sociedade entender que a educação deve ser prioridade!

Com isso, quero salientar que a mídia, principalmente a televisiva e aberta deveria ser a mola propulsora para esse caminho da educação do futuro, e durante a sua programação, a ÉTICA, a EDUCAÇÃO e a VIDA deveriam ser a tônica. Devemos sim começarmos a censurar o que é passado na televisão, pois sabemos muito bem que nas nossas vidas há censura para tudo o que se pratica. A exemplo gostaria de dizer que quando um artista de televisão passa uma mensagem não emburradora da vida, ele consegue trazer maiores chances de esperança na vida das pessoas que o assistem.

Mas como tudo na vida é DESTRUIÇÃO e MORTE, e o ser humano desde tempos imemoriais já gosta do SANGUE e do SEXO, a promiscuidade toma conta da televisão brasileira e passa uma mensagem deturpada à nossa juventude. A desculpa de mostrar a realidade, não se encaixa perfeitamente em mentes que estão em formação, que são frágeis e que são facilmente manipuladas.

A televisão emburrou grande parte da população, a nossa sociedade está altamente deturpada, com valores invertidos e razões irracionais. Preferimos matar aquele que nos dá a nossa verdadeira nota, do que nos posicionar e nos perguntar: Onde foi que eu errei?

PROPOSTAS PARA A MUDANÇA SOCIAL:
  1. Exigirmos uma melhor programação da televisão, rádio e jornal impresso;
  2. A internet é atualmente o pior, assim como o melhor meio para transmissão de dados e informações, sendo assim, todo o cuidado é pouco com seu filho;
  3. Tenha tempo para seu filho ou criança que está cuidando, pratique esportes e leia livros, incentive sempre o seu filho a ter e querer o melhor e ele só terá isso com a educação;
  4. Tenha sempre cuidados com as péssimas companhias, prefira ter amigos do que colegas. Passe esse exemplo ao seu filho;

Relatos da experiência de uma vida de 15 anos de ensino, por Zevaldo Sousa

Hoje, dia 15 de outubro de 2011, resolvi fazer textos de referência a minha verdadeira profissão. Uma profissão que foi forçada em minha vida, mas que por motivos de ética e de respeito, exerço-a com todo amor e devoção. Continuo aprendendo a cada dia que passa, a amar a História, disciplina que faz parte da minha vida, desde esse dia em que você está lendo este texto, até o início daquilo que chamamos por Humanidade. Não estou escrevendo ao contrário, escrevo na direção correta, pois nenhum ser humano é fruto de sua contemporaneidade, mas sim do seu passado e esse é longínquo.

Tem 30 anos de idade e 15 anos de ensino, posso sem sombras de dúvidas dizer que já ensinei em todo e qualquer tipo de instituição, desde a escolar particular, o cursinho pré-vestibular pago e gratuito, a escola pública municipal e estadual, assim como no ensino fundamental I e II e médio, só não ensinei nas escolas federais, mas acredito que esse não será grande problema, pois o que estou propondo escrever está nas nossas bases e essa eu conheço muito bem.

Nas minhas aulas, gosto sempre de citar que todos vivemos do passado e nós somos museus vivos, pois a cada segundo que se passou, interagimos com objetos que não foram criados por nós, mas por alguém, no passado e, se analisarmos bem até as nossas criações estão no passado. A história, portanto, está presente em nossa vida, e nós precisamos conhecê-la, mas o fato que mais marca na educação é que a nossa identidade não é esboçada, nem tampouco tratada nos bancos escolares e, o que percebo é que grande parte dos professores não tem a mínima vontade de aprender novidades, nem tampouco de sair da sua própria rotina. Isso vale para todas as disciplinas e não só para o ensino de História.

Percebe-se, portanto, que na educação brasileira existem vários problemas, e eu gostaria de tratar sobre cinco grandes problemas:  O Cultural, o Social, o Político Pedagógico, o Estrutural e de Valorização da Educação. Todas essas situações se encaixam perfeitamente no maior problema de todos que é político e este terá como referência o retorno a longo prazo, e por esse motivo, nenhum mandatário deseja investir na educação como deveria, pois eles precisam de resultados para as próximas eleições, então negligenciam a educação para investirem em obras que darão visibilidade imediata, ou quando fazem um projeto para a educação, é algo mirabolante, que enche os olhos, mas não dá resultado. Nas últimas décadas, o governo criou diversos mecanismos que deram um novo sentido ao papel do Coordenador - que na maioria das vezes é um agente político infiltrado dentro da escola, servindo muito mais como dedo-duro do que como coordenador -, como exemplos cito a progressão continuada, os ciclos, a avaliação contínua, a recuperação paralela, que sem sombras de dúvidas deram um novo sentido ao conceito de escola, mas não trouxe grandes resultados. Enquanto isso, a educação continua sendo desvalorizada e com ela o professor continua sendo idem, e continua tendo que lidar com pessoas (alunos) que não entendem ou não querem entender o sentido de se educar.

Outros problemas são uma constante nas nossas vidas, os livros didáticos são exemplos e como a maioria das pessoas não valorizam os livros, nossos filhos fazem o mesmo. 

Temos também na nossa educação, professores não capacitados para exercer tal profissão, assim como também temos professores capacitados em uma área, exercendo sua profissão em outra área. E tudo isso está envolvido principalmente, com a política municipal. Por esse motivo, a classe fica desvalorizada, e o político tem a desculpa em dizer que não investirá em educação se não se tem profissionais capacitados, gabaritados na área e sobretudo, se não temos uma sociedade que faça a cobrança e que se posicione. Calados ficamos e por esse motivo, os nossos representantes fazem o que querem.

Nas escolas da rede pública de educação básica, faltam bibliotecas, laboratórios de ciência e de informática, falta constantemente merenda escolar e transporte. A ausência de recursos didáticos é outro paradigma e isso dificulta o aprendizado, acontecendo a decadência da escolaridade. Sendo assim, o cidadão acaba dizendo que a escola pública não presta. Com toda certeza, é frequente o descaso com o ensino público e por esse motivo, não há esperança, não há mudança.

Além de tudo isso, o problema ainda surge dentro da própria família, fazendo com que crianças e adolescentes não tenham vontade em aprender. É com essa temática que exercitaremos nosso debate na próxima postagem.

sábado, 23 de julho de 2011

Dia 26 de junho de 1822, Maragogipe aclama D. Pedro único representante e exige fim das hostilidades portuguesas

Antes de qualquer explicação histórica gostaria de agradecer aos leitores Augusto Lopes e Hélio Tomita, é por causa do questionamento de vocês que estou escrevendo esse texto, para completar o artigo anterior.

Sou professor de História e estou me especializando em História de Maragogipe e do Recôncavo, discordo de muitas histórias que foram criadas movidas a interesses políticos por estas terras e sempre que puder eu estarei aqui para desconstruí-las. 

Como professor, digo sempre aos meus alunos que NUNCA concordem plenamente com a idéia ou a fala de outra pessoa, inclusive da minha, pois o que todas as pessoas fazem é escrever ou falar sobre uma verdade que elas entendem que é a verdade. Contudo, sabemos que NÃO EXISTE VERDADE ABSOLUTA e logo não existe imparcialidade em notícia, com isso, eles devem começar a pensar, refletir e buscar pelo saber, sem contudo desprezar o conhecimento do outro, afinal de contas, as descobertas só surgem partindo de uma contradição. Me diga quem não tem tendência e eu direi que ele estará morto, pois em vida ele tinha suas preferências. Com isso, viso ser verdadeiro, somente, não faço questão de defender A ou B, faço questão de dizer a verdade, aquela que eu entendo como verdade, e a que os documentos me remetem como verdade, através da interpretação rigorosa de fatos e acontecimentos ocorridos ao longo da história.

Sendo assim, posso primeiramente citar que a História de Maragogipe é uma das mais belas e mais vibrantes de todos os tempos e aos poucos eu vou contando neste blog, e guardo outras para meu Livro que estou escrevendo. Se eu tivesse recursos suficientes, esse estudo seria mais acelerado, mas como não tenho, sigo como a maioria dos historiadores seguem, sem patrocínio, pois o que a maioria das pessoas entendem somente que a História é Passado, eu entendo que a História é Presente - é somente com questões do presente que interrogamos o passado

"A história é o estudo dos homens no tempo e no espaço."
Marc Bloch

Agora que fiz essa introdução farei o detalhamento da seguinte questão, expressa na lei:
Art. 1 - Fica instituído feriado o dia 29 de junho tendo como motivo principal a data em que a Câmara de Vereadores aderiu a pedido de Cachoeira à atender ao pedido vindo do Rio de Janeiro para aclamar Dom Pedro de Alcântara, príncipe regente do Brasil, consolidando assim, um marco da independência do Brasil e posteriormente da Bahia. 
Art. 2 - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação. Revoga-se as disposições em contrário. Veja o vídeo.

Todos nós sabemos que a luta pela Independência tem como marco o dia 25 de junho de 1822, mas antes de tudo acontecer, os ânimos já acirravam a um bom tempo. Todavia, o dia 29 de setembro de 1821, quando Portugal decreta que o Brasil estaria subordinado ao Reino Português e marca o retorno do príncipe Regente, os brasileiros sentiram a oportunidade.

A partir daí, diversas situações ocasionaram um situação de conflito entre portugueses e brasileiros e Madeira de Melo conseguiu ocupar militarmente a cidade de Salvador. Madeira de Melo, inclusive, adota uma política que visava obter apoio local na Bahia unida a Portugal. No dia 18 de março de 1822 chega à Bahia o reforço português, esta tinha sido expulsa do Rio de Janeiro pelos acontecimentos do Fico e ordem do príncipe dom Pedro.

Diversas famílias começaram então a abandonar Salvador, direcionando-se para São Francisco do Conde, Cachoeira, Santo Amaro e Maragogipe. Em abril já existiam várias conspirações contra o brigadeiro Madeira de Melo.

De março a junho de 1822, atos direcionaram diversos proprietários de engenho e plantações de cana-de-açúcar, oficiais militares e intelectuais na posição a favor do reconhecimento da regência deixada no Rio de Janeiro pelo rei dom João VI e aceitação da autoridade do príncipe dom Pedro. Esse partidários tentaram, no dia 12 de junho de 1822 reconhecer a autoridade do príncipe na Câmara da cidade de Salvador, mas houve bloqueio das tropas portuguesas e a reunião foi proibida. Dois dias depois, em Santo Amaro reuniram-se diversas pessoas e a Câmara decidiu "Que haja no Brazil hum centro de Poder Executivo; que este Poder seja exercido por sua Alteza Real e Príncipe Regente".

A partir desse momento, é possível encontrar uma sequencia de preparativos em reconhecimento da autoridade do príncipe dom Pedro. No dia 24, em Belém, Cachoeira houve uma reunião secreta. O ato seguinte, no dia 25 de junho, foi a oficialização na Câmara de Cachoeira que decidiu aclamar S.A.R. por regente e Perpétuo defensor e protetor do Reino do Brasil. Foi lavrada a ata e quando celebravam o Te Deum a escuna canhoneira enviada por Madeira de Melo disparou o primeiro tiro contra a vila.

No dia 26 de junho, formou-se a primeira junta Interina, Conciliatória e de Defesa e nela Antônio Pereira Rebouças, maragogipano, já se fazia presente. Enviou-se mensageiros para todas as vilas e povoações para informa-lhes a aclamação do príncipe e as hostilidades portuguesas já declaradas pela escuna canhoneira. Neste mesmo dia, a Câmara de Maragogipe já ciente dos atos de hostilidades decidiu que "No reino do Brazil deve residir hum único Centro de Poder Executivo na Pessoa do Príncipe Real" (TAVARES, cap. XVI do livro História da Bahia) e como mostra o documento abaixo. Que demonstra inclusive, a insatisfação dos maragogipanos e o desejo de separação da vila de Jaguaripe, institui diversos artigos a serem colocados em prática pelo príncipe Regente e exige a retirada das hostilidades portuguesas e outros pontos mais. Leiam documento abaixo, depositado no site objdigital, nº 108 (Clique aqui para visualizá-lo completo):



No dia 29 de junho de 1822, os diversos representantes das vilas enviaram documento à Câmara da vila de Cachoeira propondo a ampliação das atribuições da Junta e se transformassem em governo militar e civil legítimo para todas as vilas do Recôncavo e neste dia aclamaram dom Pedro como regente constitucional do Brasil as Câmara de São Francisco do Conde e Santo Amaro.

O que o Blog Vapor de Cachoeira fez foi com base nos documentos que dispunha em mãos, colocar Maragogipe em evidência no dia 29, acontece que o documento reproduzido no blog, e depositado no site objdigital, nº 109 (Clique aqui para visualizar o documento completo) descreve:

  1. um pedido da Câmara de Maragogipe, e não o contrário, para que a Câmara da vila de Cachoeira aderisse ao pedido de aclamação do príncipe regente. E como todos já sabem, o mesmo já tinha ocorrido no dia 24 em reunião secreta e no dia 25 na Câmara de Cachoeira, em que se instalou a primeira junta a qual esse pedido foi anexado.
  2. ainda com referência a primeira ata, (perceba que o Blog Vapor de Cachoeira reproduz duas atas que estão localizadas na Gazeta do Rio, nº 109) a Câmara diz: "e por este foi dito que as instâncias do povo desta vila tinhão, e vinhão a requerer que se fizesse vereação, para o fim de que com a assistencia deste Senado se aclamasse S.A.R. o senhor príncipe D. Pedro Regente e Perpétuo defensor e Protetor do Brasil, na forma já aclamado no Rio de Janeiro". Perceba a marcação em vermelho, e leia bem, tinhão, e vinhão. Ou seja, a Câmara Maragogipana tinha tomado sua decisão antes do acontecimento e requeria que a Câmara de Cachoeira tomasse uma decisão, já tomada, claro e óbvio.
  3. a segunda ata, é novo pedido da Câmara de Maragogipe, e do povo presente na praça pública que se faça uma junta conciliatória de defesa para cuidar dos habitantes destas terras.
Percebe-se portanto, com a leitura dos dois documentos, apesar desta postagem só citar um, o outro está redirecionado. Que é a Câmara de Maragogipe que requereu da Câmara de Cachoeira uma tomada de decisão, acontece que naqueles tempos, a demora na entrega de documentos, faz com que decisões tomadas por um, choquem-se com as tomados por outra cidade, sendo assim, houve quase que simultaneamente o pedido entre Maragogipe e Cachoeira, o primeiro com um certo atraso, mas a sua importância foi tanta que ficou registrado nos autos da Gazeta do Rio (Clique aqui para visualizar todos os jornais do acervo digital do jornal Carioca de 1822)

Sendo assim, é no dia 26 de junho e não no dia 29 que Maragogipe aderiu a independência, exigindo inclusive, o fim das hostilidades portuguesas que já vinham bem antes do dia 25 de junho em Cachoeira.


Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Professor de História e estudante de história da UFRB
Especializando-se em História Reginal, 
focando seus estudos na cidade de Maragogipe

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pão e circo, ou a morte do outro

Recebi e-mail de Antonio Gregoria de Matos, desejando a publicação deste artigo.

JUSSEMAR WEISS GONÇALVES

Este texto busca mostrar o significado da política do pão e circo, não apenas durante sua existência no período imperial. O artigo mostra que as raízes dessas práticas estão já na República romana na figura do clientelismo. Palavras-chaves: política, império, igualdade, coisa pública, democracia, deliberação. espetáculo.


Parece ser um fato aceito por especialistas que após o século IV a.C. até a Revolução Francesa, a prática e a reflexão sobre a política não envolveu nenhum tipo de consideração quanto à democracia. Nesse longo período, a prática democrática, se não foi totalmente esquecida, passou por um processo de negação violenta. Essa negação se estendia desde a atitude de Platão, que considerava o fim da democracia não como uma questão histórica, mas como uma questão de princípio. Para esse autor, a democracia não terminou porque esgotou seu modelo, mas por ter sido um erro. A democracia acabou por uma questão de direito, já que ela, na verdade, não deveria ter existido. Passava pela visão de Cícero, que considerava essa forma de organização do espaço público como simplesmente desordem, sem princípios louváveis e dominada na prática por homens despreparados para a vida civil. A reflexão sobre o que devia ser, quais seus princípios e quem deveria exercer a autoridade pública não abandonou o horizonte da preocupação clássica com a política; o que é certo, no entanto, é que essa preocupação pautou-se, após a experiência ateniense com a democracia, em trazer sempre uma crítica ao alargamento do espaço de ação dos cidadãos na gestão dos negócios públicos. O certo é que, embora a filosofia tenha a partir do século I V inaugurado a reflexão sobre a política, esta não se fazia a partir de uma teoria da democracia, mas daquilo que era caro à prática tradicional nas cidades clássicas, ou seja, definir de forma excludente a possibilidade de ação na cidade. Não era apenas uma discussão sobre a participação ligada a uma definição da natureza humana como natureza política, como diz Aristóteles, mas era, de certa forma, construir argumentos que levassem à exclusão da maioria, mediante a criação de um processo de seleção daqueles que dentre os cidadãos poderiam exercer a autoridade na cidade. Assim, com o século IV a. C. a prática da democracia em Atenas se transforma em demagogia, na qual a cidadania perde sua eficácia, já que a participação se transforma em uma ação marcada por troca de favores, na qual a elite, mediante presentes, comprava o voto do demos. A crítica levada a efeito por Demóstenes mostra como a assembléia é utilizada como massa de manobra na concretização dos interesses dos grupos aristocráticos que dominam a cidade. Negando a participação alargada, reduzindo o universo dos partícipes na assembléia, a elite política do século IV em Atenas excluía o demos e dirigia a cidade a partir de seus interesses. A oligarquia domina e através do predomínio de uma postura conservadora exclui a democracia como prática política. A grande reforma que construiu a democracia no século V a. C. e que se fundou no alargamento da participação e na igualdade perante a lei levou à constituição de uma ação política na quais os cidadãos se identificavam uns com os outros na ágora, já que acreditavam que sua palavra marcava a ação do outro. Dessa forma, a democracia se realizava como um concerto no qual os cidadãos a partir da isonomia e da isegoria construíam a si como humanos. A condição humana se realizava como condição política e cada homem se encontrava consigo à medida que participava da assembléia. Nessa dança política, o outro, o sujeito, é reconhecido e necessário ao andamento da democracia, já que cada cidadão se completa na ação do outro. A deliberação estudada por Aristóteles revela esse movimento de reconhecimento da figura do outro como alguém que participa e intervém na vida política do outro. Não democracia sem essa mediação das vozes que se cruzam no espaço da agora. Ora, é isso que o Ocidente negou por vários séculos: a igualdade política, o entrecruzamentos das vozes na assembléia, pois, após os duzentos anos de democracia ateniense, a experiência oligárquica tornou-se dominante. Essa experiência oligárquica retoma a noção de participação aristocrática, na qual apenas o chefe das famílias nobres tem acesso à direção dos negócios da cidade. O que se nota é que, enquanto na democracia ateniense as regalias aristocráticas ligadas ao genos, ao clã, são definitivamente superadas, como demonstram as reformas de Clistenes, o modelo oligárquico realiza não uma superação da tradição, mas um alargamento dela, na medida em que introduz nessa tradição elementos políticos que levam a uma adaptação do modelo patriarcal à organização política da cidade. Assim, retomando o título deste trabalho: como podemos entender a experiência do pão e circo no império? O que temos em Roma enquanto centro de um império é o desenvolvimento de uma pragmática na qual as relações de clientelismo são repostas em uma situação nova. Essa situação nova é o império, com sua forma específica de governar, que traz em si a marca da herança do modelo da república romana. Essa república nunca atingiu o nível de igualdade política semelhante a Atenas, já que a cidade não era entendida como a reunião dos cidadãos, mas como um arcabouço jurídico-político no qual os cidadãos participam mediante leis específicas e práticas que dividem os cidadãos em ordens. É a grande família patrícia que governa o império, ou seus representantes, não existe espaço para a democracia direta como em Atenas. Ora o que temos de diferente no império é o clientelismo se tornando uma forma de mediação entre o império e o povo. Se na república o clientelismo era uma prática que ligava a família patriarcal aristocrática a um grupo de dependentes, famílias pobres e servis, no império essa relação se constitui entre o próprio estado e o povo. É o imperador que assume o lugar do aristocrata; é ele que azeita a relação de dependência que se estabelece, mediante a doação de alimentos e diversão. O espetáculo assume um caráter de unidade, no qual o povo, cliente, se encontra com o seu pai, o imperador, que por meio da apresentação pública recebe a gratificação da festa. O que o espetáculo faz é atualizar a relação de clientelismo, experiência conhecida e característica da política romana, e que no império se fortalece a partir da ação do estado. O povo romano, que em outros tempos distribuía magistraturas, cargos e legiões, agora é mais modesto, não reclama mais do que duas ações: pão e circo. Nesses versos famosos de Juvenal aparece de forma clara como o autor deplora a situação política durante o império. Não há mais ação política, iniciativa dos cidadãos, mas eles, os cidadãos, são governados a partir da premiação vil, concretizada em diversão e alimento. Os versos famosos de Juvenal se tornaram proverbiais em dois sentidos. Primeiro: a prática do “pão e circo” resulta de uma troca entre o povo e a classe dominante. Ela fornece festas e alimentos, e o povo, o consentimento. Segundo: essa troca privilegia a classe dominante e revela uma idéia de despolitização. Em que sentido o ditado de Juvenal deve ser pensado? Juvenal diz: “as satisfações materiais colocam o povo em um sórdido materialismo, no qual as preocupações com a liberdade são esquecidas”. O circo e o alimento fazem com que o povo abandone sua ação política e que, estando satisfeito, deixe de lado a luta pela igualdade. O que faz Juvenal? Mais do que uma explicação, o autor nos brinda com um julgamento, pois coloca o ideal humano como sendo aquele de um ser humano autônomo. Para ele, todo homem deveria fazer política, e não deixar o governo, os políticos, fazer por ele. Ora, o modelo de Juvenal não é o romano, mas o grego ateniense, já que nunca, nem mesmo na república, o povo participou da forma como Juvenal pretende, pois a prática da política do pão e circo é um desdobramento do clientelismo que lubrificava as relações entre elite e povo na cidade republicana. Juvenal lamenta que os homens não agem segundo o ideal, mas segundo um código de custo e beneficio, ou seja, apoio em troca alimento e diversão. Argumentando a partir do ideal, Juvenal vê na ação das elites imperiais uma maquinação, já que aceita a premissa de que todos os homens se interessam de forma apaixonada por política em vez de deixar esta em mãos dos especialistas, ou que os homens fazem da igualdade uma questão de princípio e que não admitem a desigualdade. De novo Juvenal voa para além da experiência romana, que Cícero, em sua obra República, explica de forma clara. Ele diz que o problema da república é uma mudança de mentalidade das elites que abandonaram a velha tradição aristocrática de assumir a direção moral e política da cidade. Para Cícero, a questão está em uma aristocracia que perdeu o sentido da tradição e abandonou o seu preceito de mantenedora de ordem. Em suma, os aristocratas, em troca das riquezas produzidas no último século a. C., deixaram de dar importância a sua função específica de fazer política. Assim, na verdade, Juvenal confunde o seu ideal com a prática romana que nunca pressupôs um ideal democrático. A prática política imperial recupera o ideal republicano do cidadão cliente, já que atualiza a relação hierárquica de participação política da Roma republicana. Quanto à questão da igualdade, Juvenal esquece que em Roma essa igualdade não pressupunha como em Atenas uma ação direta, mas era uma igualdade formal, produzindo mais uma participação seletiva do que universal. Como bem explica Cícero, a participação política era dever para a aristocracia.

Assim, parece que essas duas suposições não são corretas se levarmos em conta a experiência romana que se caracteriza pela apatia política da maior parte dos homens. O que deseja um homem comum é que o governo faça uma boa administração, já que ele, o homem comum, reconhece seu lugar nesse império. Assim, ao reclamar do povo romano, que no império vive comendo e se divertindo, Juvenal coloca, mesmo que de forma não muito correta, uma verdade. A política do pão e circo, embora não seja fruto de um maquiavelismo dos governantes, na verdade revela, e nisso Juvenal tem razão, que a política do ponto de vista dos governantes consiste em evitar que os governados participem ou que participem o menos possível das atividades políticas. Ao afirmar isso, Juvenal mostra uma visão mais real da prática imperial, e reafirma Cícero, que defendia a ação política como uma ação de natureza aristocrática, ou seja, realizada por um grupo de famílias tradicionalmente ligadas à direção da cidade. Dessa forma o governo faz ações a partir das quais apenas ele realiza o ato político, deixando espontaneamente o povo livre da responsabilidade de agir na cidade, para gozar o seu tempo em espetáculos. Também a frase de Juvenal acerta ao revelar que essa visão excludente da ação política imperial despolitiza a cidade, a partir de uma ação que desenvolve uma cultura do apoliticismo. Inegavelmente o provérbio de Juvenal sublinha cruelmente que um dois lados do binômio governo-governado tira mais proveito das coisas que o outro. Não há uma relação de reciprocidade entre governo e governado, intercalando-se no exercício do poder, mas a permanente predomínio da elite na direção do império. Não existe uma relação simétrica. A política imperial, reconhece Juvenal, serve aos senhores do império, militares, aristocratas e homens ricos, que governam para si o mundo. Partindo de um pressuposto-não romano do que seja a política, Juvenal, no entanto, acerta ao detectar o problema: o pão e circo é uma ação de uma elite que governa dispensando o povo da responsabilidade de governar junto. Quem é o governo, pergunta Juvenal? É uma monarquia que retira o populus da res publica, da coisa pública, fazendo com que cada um perceba que daquele momento em diante a política é uma atividade somente da monarquia. A vida cotidiana, diz Juvenal, se esgota em uma rotina fútil de espetáculos. O circo, que era uma velha paixão aristocrática, se transforma em uma mania do povo, que passa a exigir que cada vez mais espetáculos mais elaborados mais eloqüentes. Artistas do império se dirigem a Roma, pois a grande cidade é o lugar de convergência dos melhores. Saídos dos confins do império, gladiadores, mágicos chegam a Roma para propiciar um direito aos cidadãos – o direito ao espetáculo. Assim, diz Juvenal, de política não se fala mais e o cidadão vira espectador, a assistir ao circo. O espetáculo se torna o lugar central do acontecer público, no qual o povo é chamado a participar enquanto sujeito de uma emoção. Essa emoção se realiza de duas maneiras: uma, específica do espetáculo, que liga cada um e todos ao desenvolvimento do trabalho feito na arena, que o catalisa. A outra diz respeito à presença do imperador, que marca de forma indelével o próprio ritual da corte imperial, já que nesses momentos especiais se realiza uma troca, uma simbiose, na qual a grande massa de homens e mulheres sem rosto se encontra com o único individuo, encontra o pai e recebe o seu amor. O imperador volta ao povo, mergulha em seu seio e recebe o clamor de reconhecimento. Ele volta, no sentido em que está distanciado politicamente, pois a política, como já vimos, dispensou a população de seu trato cotidiano. O espetáculo propicia essa volta original que a assembléia realizava na praça pública. Assim, sem a praça, sem a ágora e, portanto, sem ligação de natureza política, o elo entre o imperador e o seu povo se concretiza através do espetáculo, que pela sua grandiosidade revela o caráter quase sagrado dessa visualização do Pai. Juvenal não pára por aí, pois, se os homens romanos não se importam com as desigualdades, em viver nelas, e têm uma atitude apática em relação a ela, o provérbio coloca uma outra ilusão: que a sociedade é justa. O povo se submete com uma docilidade quase igual em regimes diferentes que lhe dão satisfações diferentes. Se os governantes não são justos, não se preocupam com as desigualdades e, portanto, a sociedade é também injusta, o que seria a relação pão e circo? Podemos aceitar que a relação constituída por pão e circo é uma troca? O imperador lhes dá prazer e a si mesmo e o povo devolve passividade política? O pressuposto dessa pergunta é a existência de um acordo, se não claro e objetivo, obscuro, opaco, entre governo e governado, mas não é assim, pois, vista dessa forma, ou seja, como emanação da vontade do dirigente e que se ordena a partir de uma lógica hierárquica, política não é um contrato que os governados podem aceitar ou recusar. Não existe uma assembléia, um lugar central e acessível a todos, no qual todos se colocam como iguais politicamente, e de onde as decisões brotariam e para onde toda e qualquer divergência poderia voltar. Nesse sistema hierárquico e assimétrico, toda recusa é revolta. Não existe uma relação de homologia entre imperador e povo; eles não se encontram em lugar no qual todos são idênticos, mas, ao contrário, a presença do monarca marca a diferença, o outro não-igual e o espetáculo como sua marca. Assim é o imperador que escolhe e determina a direção do futuro; é ele que anuncia o possível e conclama o povo a segui-lo. Dessa forma, em uma relação desigual, o povo faz a sua parte, ou seja, aceita o pão e circo. Assim, pão e circo adquirem o conteúdo pedagógico de uma política na qual a submissão é o único caminho. É uma forma de governo dos espíritos, levando-os em direção aos desejos do imperador. A morte do outro, como aparece no título, se realiza nesse sentido em que não há nenhum tipo de reciprocidade, de valorização da voz de um sobre a ação de outro. O espetáculo imperial, ao encher os olhos dos espectadores com artifícios, esvazia suas almas da faculdade da deliberação tão cara ao ato da liberdade política e da construção do outro.

REFERÊNCIAS:
ARISTOTELES. Politique. Paris: Flammarion, 1998.
CASTORIADIS, Cornelius. Sobre o Político de Platão. São Paulo: Loyola, 2004. CICÉRON. République. Paris: Belle Lettres, 1986.
CICÉRON, Quintus Tullius. Petit manuel de campagne électorale. Traduit du Latin par J. Y. Boriaud. Paris, 1999.
JUVENAL. Ecrits. Paris: Garnier, 1947. PLATON. Le sofiste. Paris: Gallimard, 1987. _____. Le politique. Paris: Belles Lettres, 1976. VEYNE, Paul. Le pain et le cirque. Paris: Seuil, 1976.


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