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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Maragogipe: Escrituras, Cartas de Alforria e Contratos de 1804 a 1970, encontram-se no NUDOC/UFRB

O Núcleo de Memória e Documentação (NUDOC) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) recebeu, no último dia 30 de novembro de 2012, 108 livros de notas do tabelionato do Fórum Professor Raul Chaves, da Comarca de Maragojipe. 

São livros que abarcam o período de 1804 a 1970 e trazem registros de escrituras de compra e venda de imóveis, cartas de alforria e contratos diversos que revelam facetas ainda desconhecidas da história do Recôncavo. Este raro e valioso acervo se juntará a nove livros cartoriais de registros de casamentos e óbitos e 324 caixas de processos crimes e cíveis. 

Contrato de Conceição do Almeida, no termo de Maragogipe (Clique para ampliar)
Após o recebimento deste acervo, o NUDOC e o TJ-BA, conforme termo de cooperação técnica, concluiu a transferência dos documentos históricos da Comarca de Maragojipe, totalizando 441 documentos. Os próximos acervos que serão transferidos são os das comarcas de Cachoeira, São Félix, Santo Amaro, Cruz das Almas e São Sebastião do Passé. 

Este acervo já se encontra disponível para consulta de pesquisadores e demais interessados. O NUDOC está localizado na Rua Anna Nery, nº 9, Centro, Cachoeira-BA.

Fonte: UFRB

sábado, 11 de agosto de 2012

As belas litografias dos exportadores de fumo do recôncavo baiano


Em finais do século XIX o recôncavo baiano era um dos mais importantes centros produtores de fumo do mundo. Empreendores alemães e holandeses plantavam a folha em Cruz das Almas, Cachoeira, São Felix, Santo Amaro, Maragogipe e na região instalavam fábricas de charutos, um dos maiores itens de exportação da Bahia em aqueles idos. Exportavamos fardos de fumo, cigarros e charutos.

Stender & Cia era uma das marcas de maior aceitação entre os consumidores, garantia de qualidade, a exemplo de outras também reconhecidas nesse quesito como Dannemann, Suerdieck, Pook & Cia, Rodemburg, Jezler & Hoening, R. Gaeschlin, Costa & Ferreira, dentre outras. A imagem que ilustra este post é um rotulo dos charutos “A Bella Africana” de Stender & Cia, imagem trabalhada em litografia e impressa na alemanhã com referências visuais da região onde era plantada a matéria prima do produto, ou seja, o recôncavo. Era comum esses rótulos serem utilizados como anúncios, não é o caso.

O que chama a atenção nesse rótulo é primeiro o nome do produto que destaca o fumo como plantado e manipulado por africanos, ou seja mão de obra escrava, originária ou descendente desse continente, como sinônimo de qualidade. Algo assim como fumo produzido por negros é outra coisa. Mas reparem também na indumentária da modelo. O ilustrador caprichou com o detalhe do pano da costa, dos adereços de ouro, colar e braceletes, e imprimiu à imagem um ar de nobreza que o título potencializa mais ainda com a referência de ”bella”.

Para o apreciador de bons charutos esta imagem significava muito. A garantia de um produto final trabalhado nos detalhes por prendadas mulheres negras do recôncavo, boas de fazer charuto nas coxas, que essa era forma ideal e diferenciada de enrolar a folha.

sábado, 30 de julho de 2011

Pequeno Histórico do Distrito de Guapira, em Maragogipe


Coordenadas: 12°44'7.59"S/ 39° 4'41.01"O

Povoados: Oitizero; Palmar/São Roque do Cumbe; Palmar de Cima; Batatan de Baixo (Serraria 2).

Histórico:
Dos pouquíssimos documentos encontrados sobre o distrito de Guapira, alguns trazem uma característica particular. Esse distrito sempre teve sua economia voltada para produtos de primeira necessidade. Em 29 de maio de 1880, pela lei provincial de no 1953 foi criado o distrito sob denominação de Caveiras. Acontece que em 30 de novembro de 1938, pelo decreto estadual no 11089, o distrito de Caveiras passa a ser chamado de Guapira e assim permanece até nossos dias. Os motivos da troca tão repentina de nomes, ainda não foram encontrados. Pois, na história do município nada foi encontrado sob essa denominação atual. Aliás, a história do distrito precisa ser melhor analisada devido ao pouco conhecimento que se tem de documentos, um pouco de história oral caberia bem para resolver esse problema, ou pelo menos, uma parte dele.

O seu potencial agrícola é conhecido desde o início do século XIX e até hoje, o distrito, que na época chamava-se Caveiras, dedicava especial importância a esse tipo de produção. Em um documento encontrado, registra-se uma sessão da Câmara de Vereadores do dia 20 de março de 1839, por exemplo, os juízes de paz (que eram eleitos na própria vila) de Caveiras, assim como Nagé, Coqueiro, São Felipe, Capela do Almeida e de Maragogipe, reuniram para ouvir ordenação e publicação de manual para melhor aproveitamento racional da agricultura.

A economia da vila foi centralizada na produção de farinha de mandioca, assim como em outros distritos. Maragogipe sempre foi obrigado a produzir o que a capital baiana queria, de acordo com os interesses também, de cachoeiranos e santamarenses. Nenhum investimento foi feito na região, até 1982, quando foi registrada uma casa de farinha modernizada, em Batatã, fundada através de financiamento do Banco do Brasil. O processo era automatizado através de quatro máquinas: duas para torrar, uma para cevar e um moedor. A produção aumentou dez vezes com relação à casa de farinha rudimentar. Essa farinha produzida no distrito abastecia encomendas de supermercados em Candeias e da CEASA.

A religiosidade do distrito de Guapira é marcada por dois momentos especiais, como a maioria dos seus habitantes são católicos, percebemos a devoção a Nossa Senhora de Santana e ao Deus Menino, todos dois na vila Guapira.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Licenciado em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Pequeno Histórico do Distrito de Nagé, em Maragogipe


Coordenadas: 12°43'31.43"S/ 38°55'59.15"O

Povoados: Santo Antônio de Aldeia; Encruzilhada; Brinco; Sobradinho; Tabuleiro das Navalhas; Bacalhau; Lagamar; Rio dos Paus de Baixo; Ponta de Souza; Serraria (Baixa Rica); Pinho.

Histórico:
A vila morena surgiu, no século XVII, em torno do porto que servia de atracadouro para os nativos e representantes de Santo Antônio de Aldeia, principal comunidade religiosa desta região naquele momento. Dois são os fatores preponderantes para que a vila criasse raiz, a sua proximidade com o rio Paraguaçu, principal via de acesso à capital do Império e, os perigos do século XVII, ou seja, as constantes guerras contra os indígenas e contra os negros fugidos que já formavam diversos quilombos e mocambos pela região. Um importante quilombo que tornou-se Terreiro, foi o do Pinho. Ele é o único de nação Jêje em Maragogipe e foi originado de um antigo quilombo, alguns dizem ser o terreiro mais antigo da Bahia, embora não existam registros para comprovação.

Já em 1724, com a elevação da Freguesia de São Bartolomeu de Maragogipe à categoria de vila, Nagé aos poucos começou a crescer, ganhando importância na produção de alimentos de primeira necessidade. Em, 13 de agosto de 1880, foi decretada lei provincial no 2077 criando o distrito de Nagé, e assim continuou até os dias atuais, mesmo depois de todas as novas leis, decretos e divisões territoriais.

Vila de pescador situada a quatro quilômetros de Maragogipe, com bela implantação paisagística e algumas construções interessantes. Nagé construiu sua história, não só com o pescado e com seu porto comercial, praticamente inativo, atualmente, devido à implantação da estrada e o fim da rota comercial marítima que ligou essa região durante quase quatro séculos de história. Desde o aparecimento da indústria fumageira até aproximadamente a década de oitenta do século passado, que o distrito de Nagé se voltou ao plantio do fumo e a fabricação de charutos. Porém quando houve um declínio devido ao fechamento das indústrias de fumo na região, as mulheres nageenses sem meios para conseguir seu sustento, colocaram em prática tudo o que aprenderam durante o auge da charutaria, e com isso, ficaram conhecidas como as “charuteiras domésticas”. Ex-operárias da indústria Suerdieck, que trabalhavam em casa, nos intervalos das tarefas domésticas, chegando a confeccionar até 100 unidades por dia. Mas novamente devido várias dificuldades, essa economia rudimentar, praticamente extinguiu-se.

Um tocante religioso-cultural de Nagé é a Festa do Senhor do Bonfim que por si só, é um atrativo a parte. Ela acontece no segundo domingo depois do Dia de Reis, no mês de Janeiro, com novenário solene e exposição do Santíssimo Sacramento pelo capelão na Igreja do Bonfim em Nagé. A população, esbanja-se em festa na “Lavagem da “Glória” ou Popular de caráter afro-religioso com grande participação do povo e uma característica marcante que todo maragogipano tem em seu jeito de festejar. Vale ressaltar, que nesta lavagem, toda rivalidade entre a vila morena e o distrito do Coqueiros do Paraguaçu é posta de lado, para que todos, louvem ao Santíssimo Sacramento.

Hoje, o potencial turístico que a vila morena possui é extraordinário, a Praia de Ponta de Sousa e do Pina e os veleiros e saveiros são os verdadeiros representantes de um passado não tão longínquo. No distrito de Nagé predomina a salga do xangô e em coqueiros o da petitinga. É um trabalho executado pela mão de obra feminina. As mulheres ficam sentadas nas portas de suas casas, tratam, salgam, enfiam em varetas e estendem ao chão os peixes para secarem ao sol. Depois são vendidos a litro ou em espetos no próprio município, em Santo Amaro e Salvador, atingindo preços insignificantes em épocas de grande produção. Os peixes maiores são vendidos frescos nas feiras livres, ou conservados em gelo e levados para serem vendidos em Salvador. Alguns mariscos são aferventados antes de serem comercializados, o que facilita a sua conservação.

Escrito por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Formado em História na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

sábado, 23 de julho de 2011

Dia 26 de junho de 1822, Maragogipe aclama D. Pedro único representante e exige fim das hostilidades portuguesas

Antes de qualquer explicação histórica gostaria de agradecer aos leitores Augusto Lopes e Hélio Tomita, é por causa do questionamento de vocês que estou escrevendo esse texto, para completar o artigo anterior.

Sou professor de História e estou me especializando em História de Maragogipe e do Recôncavo, discordo de muitas histórias que foram criadas movidas a interesses políticos por estas terras e sempre que puder eu estarei aqui para desconstruí-las. 

Como professor, digo sempre aos meus alunos que NUNCA concordem plenamente com a idéia ou a fala de outra pessoa, inclusive da minha, pois o que todas as pessoas fazem é escrever ou falar sobre uma verdade que elas entendem que é a verdade. Contudo, sabemos que NÃO EXISTE VERDADE ABSOLUTA e logo não existe imparcialidade em notícia, com isso, eles devem começar a pensar, refletir e buscar pelo saber, sem contudo desprezar o conhecimento do outro, afinal de contas, as descobertas só surgem partindo de uma contradição. Me diga quem não tem tendência e eu direi que ele estará morto, pois em vida ele tinha suas preferências. Com isso, viso ser verdadeiro, somente, não faço questão de defender A ou B, faço questão de dizer a verdade, aquela que eu entendo como verdade, e a que os documentos me remetem como verdade, através da interpretação rigorosa de fatos e acontecimentos ocorridos ao longo da história.

Sendo assim, posso primeiramente citar que a História de Maragogipe é uma das mais belas e mais vibrantes de todos os tempos e aos poucos eu vou contando neste blog, e guardo outras para meu Livro que estou escrevendo. Se eu tivesse recursos suficientes, esse estudo seria mais acelerado, mas como não tenho, sigo como a maioria dos historiadores seguem, sem patrocínio, pois o que a maioria das pessoas entendem somente que a História é Passado, eu entendo que a História é Presente - é somente com questões do presente que interrogamos o passado

"A história é o estudo dos homens no tempo e no espaço."
Marc Bloch

Agora que fiz essa introdução farei o detalhamento da seguinte questão, expressa na lei:
Art. 1 - Fica instituído feriado o dia 29 de junho tendo como motivo principal a data em que a Câmara de Vereadores aderiu a pedido de Cachoeira à atender ao pedido vindo do Rio de Janeiro para aclamar Dom Pedro de Alcântara, príncipe regente do Brasil, consolidando assim, um marco da independência do Brasil e posteriormente da Bahia. 
Art. 2 - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação. Revoga-se as disposições em contrário. Veja o vídeo.

Todos nós sabemos que a luta pela Independência tem como marco o dia 25 de junho de 1822, mas antes de tudo acontecer, os ânimos já acirravam a um bom tempo. Todavia, o dia 29 de setembro de 1821, quando Portugal decreta que o Brasil estaria subordinado ao Reino Português e marca o retorno do príncipe Regente, os brasileiros sentiram a oportunidade.

A partir daí, diversas situações ocasionaram um situação de conflito entre portugueses e brasileiros e Madeira de Melo conseguiu ocupar militarmente a cidade de Salvador. Madeira de Melo, inclusive, adota uma política que visava obter apoio local na Bahia unida a Portugal. No dia 18 de março de 1822 chega à Bahia o reforço português, esta tinha sido expulsa do Rio de Janeiro pelos acontecimentos do Fico e ordem do príncipe dom Pedro.

Diversas famílias começaram então a abandonar Salvador, direcionando-se para São Francisco do Conde, Cachoeira, Santo Amaro e Maragogipe. Em abril já existiam várias conspirações contra o brigadeiro Madeira de Melo.

De março a junho de 1822, atos direcionaram diversos proprietários de engenho e plantações de cana-de-açúcar, oficiais militares e intelectuais na posição a favor do reconhecimento da regência deixada no Rio de Janeiro pelo rei dom João VI e aceitação da autoridade do príncipe dom Pedro. Esse partidários tentaram, no dia 12 de junho de 1822 reconhecer a autoridade do príncipe na Câmara da cidade de Salvador, mas houve bloqueio das tropas portuguesas e a reunião foi proibida. Dois dias depois, em Santo Amaro reuniram-se diversas pessoas e a Câmara decidiu "Que haja no Brazil hum centro de Poder Executivo; que este Poder seja exercido por sua Alteza Real e Príncipe Regente".

A partir desse momento, é possível encontrar uma sequencia de preparativos em reconhecimento da autoridade do príncipe dom Pedro. No dia 24, em Belém, Cachoeira houve uma reunião secreta. O ato seguinte, no dia 25 de junho, foi a oficialização na Câmara de Cachoeira que decidiu aclamar S.A.R. por regente e Perpétuo defensor e protetor do Reino do Brasil. Foi lavrada a ata e quando celebravam o Te Deum a escuna canhoneira enviada por Madeira de Melo disparou o primeiro tiro contra a vila.

No dia 26 de junho, formou-se a primeira junta Interina, Conciliatória e de Defesa e nela Antônio Pereira Rebouças, maragogipano, já se fazia presente. Enviou-se mensageiros para todas as vilas e povoações para informa-lhes a aclamação do príncipe e as hostilidades portuguesas já declaradas pela escuna canhoneira. Neste mesmo dia, a Câmara de Maragogipe já ciente dos atos de hostilidades decidiu que "No reino do Brazil deve residir hum único Centro de Poder Executivo na Pessoa do Príncipe Real" (TAVARES, cap. XVI do livro História da Bahia) e como mostra o documento abaixo. Que demonstra inclusive, a insatisfação dos maragogipanos e o desejo de separação da vila de Jaguaripe, institui diversos artigos a serem colocados em prática pelo príncipe Regente e exige a retirada das hostilidades portuguesas e outros pontos mais. Leiam documento abaixo, depositado no site objdigital, nº 108 (Clique aqui para visualizá-lo completo):



No dia 29 de junho de 1822, os diversos representantes das vilas enviaram documento à Câmara da vila de Cachoeira propondo a ampliação das atribuições da Junta e se transformassem em governo militar e civil legítimo para todas as vilas do Recôncavo e neste dia aclamaram dom Pedro como regente constitucional do Brasil as Câmara de São Francisco do Conde e Santo Amaro.

O que o Blog Vapor de Cachoeira fez foi com base nos documentos que dispunha em mãos, colocar Maragogipe em evidência no dia 29, acontece que o documento reproduzido no blog, e depositado no site objdigital, nº 109 (Clique aqui para visualizar o documento completo) descreve:

  1. um pedido da Câmara de Maragogipe, e não o contrário, para que a Câmara da vila de Cachoeira aderisse ao pedido de aclamação do príncipe regente. E como todos já sabem, o mesmo já tinha ocorrido no dia 24 em reunião secreta e no dia 25 na Câmara de Cachoeira, em que se instalou a primeira junta a qual esse pedido foi anexado.
  2. ainda com referência a primeira ata, (perceba que o Blog Vapor de Cachoeira reproduz duas atas que estão localizadas na Gazeta do Rio, nº 109) a Câmara diz: "e por este foi dito que as instâncias do povo desta vila tinhão, e vinhão a requerer que se fizesse vereação, para o fim de que com a assistencia deste Senado se aclamasse S.A.R. o senhor príncipe D. Pedro Regente e Perpétuo defensor e Protetor do Brasil, na forma já aclamado no Rio de Janeiro". Perceba a marcação em vermelho, e leia bem, tinhão, e vinhão. Ou seja, a Câmara Maragogipana tinha tomado sua decisão antes do acontecimento e requeria que a Câmara de Cachoeira tomasse uma decisão, já tomada, claro e óbvio.
  3. a segunda ata, é novo pedido da Câmara de Maragogipe, e do povo presente na praça pública que se faça uma junta conciliatória de defesa para cuidar dos habitantes destas terras.
Percebe-se portanto, com a leitura dos dois documentos, apesar desta postagem só citar um, o outro está redirecionado. Que é a Câmara de Maragogipe que requereu da Câmara de Cachoeira uma tomada de decisão, acontece que naqueles tempos, a demora na entrega de documentos, faz com que decisões tomadas por um, choquem-se com as tomados por outra cidade, sendo assim, houve quase que simultaneamente o pedido entre Maragogipe e Cachoeira, o primeiro com um certo atraso, mas a sua importância foi tanta que ficou registrado nos autos da Gazeta do Rio (Clique aqui para visualizar todos os jornais do acervo digital do jornal Carioca de 1822)

Sendo assim, é no dia 26 de junho e não no dia 29 que Maragogipe aderiu a independência, exigindo inclusive, o fim das hostilidades portuguesas que já vinham bem antes do dia 25 de junho em Cachoeira.


Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa
Professor de História e estudante de história da UFRB
Especializando-se em História Reginal, 
focando seus estudos na cidade de Maragogipe

A história da Suerdieck, Epopéia do Gigante, por Ubaldo Marques Porto Filho

Discurso de Ubaldo Marques Porto Filho na Câmara - Maragojipe e a Suerdieck


A Suerdieck não parou mais de crescer. Foi então idealizado um novo prédio, edificado em 1920, pelo engenheiro Emílio Odebrecht, pioneiro das construções de cimento armado na Bahia. A interligação da fábrica nova com a antiga, separadas pela Rua das Flores, fez-se através de uma passarela de concreto, uma novidade em Maragojipe.

Mas essa novidade custou muito caro ao prefeito Elpídio da Paz Guerreiro, que sofreu uma campanha popular muito forte, por ter permitido a construção da “ponte da Suerdieck”, como o povo passou a chamar a passarela. É que o povo da zona rural acreditava numa crendice popular que assegurava dar azar a quem passasse por baixo de pontes. E durante muitos anos, os produtores que traziam produtos de suas roças, para vender na feira livre semanal, fizeram um longo rodeamento para evitar a “ponte da Suerdieck”.


Em 1928, a Vieira de Mello & Companhia, primeira fabricante de charutos em Maragojipe, foi arrendada à Suerdieck, que em 1942 comprou todas as instalações. Em 1949, ao comprar o acervo da Dannemann em Maragojipe, a Suerdieck passou a ser a única fabricante de charutos no município e emergiu como a maior produtora de charutos nacionais.

A Suerdieck tornou-se uma gigante, sendo a maior produtora mundial de charutos artesanais e Maragojipe a dona da maior fábrica de charutos do mundo. Na fase desse apogeu, Maragojipe muito se beneficiou do império charuteiro, por onde gravitava cerca de 80% da economia municipal. Somente na cidade de Maragojipe, a Suerdieck chegou a ter 2.052 empregados, fora a mão-de-obra temporária.

Como estava totalmente dependente da Suerdieck, a cidade sofreu muito quando adveio a grande crise de 1970, que quase provocou a falência da empresa. Maragojipe também entrou em período de grave crise socioeconômica. O ano de 1970, que marca o fim de um império charuteiro, registra igualmente o início do fim das riquezas geradas pela Suerdieck e o início de um processo que foi retirando de Maragojipe a condição de cidade símbolo dos charutos brasileiros, muito divulgada e conhecida no exterior, entre milhares e milhares de consumidores dos charutos Suerdieck espalhados por cinco continentes.

Mas todos os que aqui se encontram devem estar querendo saber quem sou eu, um não-maragojipano que vem à Câmara Municipal para falar da maior empresa que esta cidade teve em toda a sua história. Eu fui empregado da Suerdieck, onde trabalhei de agosto de 1965 até fevereiro de 1969, justamente no período final de um império formado por 16 empresas, que atuavam em todos os segmentos da escala produtiva: na cultura e beneficiamento do fumo, na confecção dos charutos, na produção das caixas de cedro e na distribuição dos charutos.


Das 16 empresas, quatro ficavam na Europa e uma, a Companhia Maragogipana de Eletricidade, foi a responsável pela chegada da energia elétrica, gerada na Usina de Bananeiras, até à fabrica de Maragojipe, um benefício que a Suerdieck logo estendeu para todas as casas comerciais e residenciais dessa cidade.

Fui admitido na Suerdieck aos 20 anos de idade, para trabalhar em seu escritório na sede de Salvador. Entrei como simples escriturário, e dentre as atribuições que me foram delegadas eu seria o responsável pelo balanço periódico de um depósito de charutos que ficava no subsolo do Edifício Suerdieck, a majestosa sede da empresa na Avenida Estados Unidos, no centro comercial e financeiro da capital baiana. Deram-me uma relação contendo o estoque do último balanço.

O diretor ao qual fiquei subordinado, senhor José Ruas Boureau, orientou-me dizendo: “Faça o balanço físico e devolva a lista assinada por você, atestando o que encontrou”. No depósito, na verdade uma enorme câmara frigorífica, cabiam milhares de caixas de charutos em tamanhos variados, de centenas de marcas. Após dois dias de contagem, a minha lista não bateu com a que havia recebido. A diferença era muito grande, indicativa de um desvio milionário. O senhor Boureau ficou atônito e não quis acreditar nos números encontrados por mim, com menos de trinta dias na empresa.

Fui obrigado a repetir o trabalho, desta vez acompanhado de um outro preposto da empresa. A nova contagem demonstrou que a primeira estava corretíssima. Levado o resultado ao conhecimento do presidente, senhor Geraldo Meyer Suerdieck, este determinou que a polícia fosse imediatamente acionada para descobrir o autor ou autores da fraude. As investigações chegaram a conclusão que os roubos de charutos vinham sendo praticados há cinco anos.

Agora, vejam vocês a potência que era a Suerdieck, pois o gigantismo dos números na produção dos charutos permitia manipulações sem que as fraudes fossem sentidas nos controles de produção das fábricas e saídas para as comercializações.

Com a descoberta e estancamento nos desvios, ganhei imediata projeção na empresa. Ganhei também um aumento no volume de serviços e virei controller estatístico, com a responsabilidade pela elaboração de uma estatística final, não apenas do depósito em Salvador, mas de toda a produção e vendas dos charutos, nos mercados nacional e internacional.

Enfim, fui transformado num empregado da confiança do alto escalão, passando a ter acesso direto ao Presidente. Passei inclusive a ter acesso aos dados confidenciais da empresa. Enfim, passei a conhecer as entranhas do gigante.

Passei inclusive a visitar com frequência as fábricas de charutos, para proceder os ajustes necessários aos novos controles determinados pelo Presidente, para possibilitar que ele tivesse balancetes de produção e vendas de charutos sem grande defasagens de tempo.

E dentro dessa nova missão na empresa, estive pela primeira vez em Maragojipe no final de 1965. Fiquei impressionado com o que vi. Era uma cidade dinâmica, rica e onde em cada esquina se respirava o ar da Suerdieck, o esteio da economia local.

Eu nunca havia pisado nessa cidade. Conhecia apenas a silueta de Maragojipe, vista à distância, de bordo dos navios da Bahiana, da linha Salvador-Cachoeira e vice-versa. Na minha adolescência, quando morei e estudei em Cachoeira, sempre viajava para passar os feriadões e as férias escolares de julho e do verão em Salvador, onde meu pai possuía uma casa, no bairro do Rio Vermelho.

O “Vapor de Cachoeira”, como era chamado pelo povo, fazia escalas nos portos de Maragojipe e São Roque, para desembarque e embarque de passageiros e cargas. Eram paradas rápidas e festivas, com o cais cheio de vendedores de peixe frito, milho assado, rolete de cana, frutas, doces, bolos e outras guloseimas. E nas paradas em Maragojipe eu não dispensava um sanduíche muito delicioso, de pão cacetinho com recheio de camarão cozido.

Tenho também a lembrança de que numa dessas viagens meu pai disse: “Temos um ancestral que nasceu em Maragojipe”. Tempos depois, consultando a árvore genealógica da nossa família, descobri que o ancestral maragojipano se chamava João Carlos Marques Porto. Nascido no dia 18 de julho de 1823, era filho do santamarense Manuel Marques de Souza Porto e da cachoeirana Maria Theodora das Virgens de Souza Porto, falecida em 12 de novembro de 1843, no Engenho Sinunga, de seu irmão, Manoel Maurício Coelho. Ela foi sepultada na Igreja Matriz de Maragojipe.

Depois de três anos e sete meses na Suerdieck, quando visitei Maragojipe diversas vezes, inclusive durante a Festa de São Bartolomeu, pedi demissão e fui cuidar dos estudos em tempo integral, na Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia.

Logo depois de formado, saiu o resultado do I Concurso Nacional de Turismo, certame promovido pela Embratur em 1970. Como obtive o primeiro lugar, senti-me no dever escrever um livro técnico, que denominei de “Turismo, Realidade Baiana e Nacional”. Para concluí-lo, levei cinco anos trabalhando, tendo viajado por todo o interior baiano. Estive em Maragojipe estudando o seu potencial turístico e dediquei-lhe um capítulo inteiro, o de número 17, onde relacionei sugestões para o desenvolvimento do turismo no município. O livro foi publicado em 1976.

Os analistas econômicos sabiam que a crise de 1970 na Suerdieck tinha sido o sinal de que o ciclo do fumo e dos charutos na Bahia estava chegando ao fim e que Maragojipe deveria procurar novos rumos para a sustentabilidade da sua economia.

E eu sabia que o turismo era uma das alternativas. Maragojipe tinha tudo para se transformar num centro de grande visitação, fundamentada em sua história, nos monumentos arquitetônicos, nos bens culturais, na história dos charutos e, sobretudo, em seus recursos naturais. Privilegiadamente localizada, num eixo fluvial navegável, Maragojipe possuía uma grande potencialidade náutica.

Infelizmente, Maragojipe encontra-se num Estado que nunca soube explorar os recursos turísticos dos municípios da Bacia do Paraguaçu, de forma organizada e empresarialmente falando. Se Maragojipe estivesse em qualquer país da Europa, ou nos Estados Unidos, a realidade seria outra. Não tenho nenhuma dúvida, Maragojipe seria hoje um grande centro turístico, visitada por milhares de turistas durante todos os meses. Está também provado e comprovado que o turismo é uma poderosa arma geradora de emprego e renda.

Digo isso com convicção profissional, de quem trabalhou durante três períodos na Bahiatursa, de quem foi gerente de marketing de produtos turísticos no Grupo Banco Econômico e de quem é autor de um segundo livro sobre turismo, “Bahia, Terra da Felicidade”, publicado em 2006.

Como administrador de empresas, trabalhei em diversas outras empresas importantes, sem jamais esquecer a Suerdieck, que foi uma escola no meu aprendizado prático. E prometi, a mim mesmo, que quando me aposentasse iria escrever a história da inesquecível Suerdieck, associada com a história da querida Maragojipe.

E foi o que fiz, a partir de 1997. Foram seis anos de trabalhos, pesquisando e entrevistando pessoas que trabalharam na Suerdieck. Nesse período, todo sábado pela manhã encontrava-me com o senhor Geraldo Meyer Suerdieck, o homem que comandou a Suerdieck durante 27 anos. O antigo “rei dos charutos” fraqueou-me o seu bem organizado arquivo de importantes documentos e contou tudo, inclusive os segredos profissionais, familiares e pessoais. O resultado foi o livro “Suerdieck, Epopéia do Gigante”.

Nascida em 1892, em Cruz das Almas, a Suerdieck agigantou-se em Maragojipe, a partir de julho de 1905, quando entrou na fabricação de charutos. Em novembro de 1992 fechou a sua grande fábrica nessa cidade e voltou a ficar restrita a Cruz das Almas, onde sete anos depois, em dezembro de 1999, encerrou totalmente suas atividades.

Toda a trajetória da Suerdieck, de 107 anos de vida, com 94 dedicados aos charutos e 87 com fábrica em Maragojipe, encontra-se no livro que há oito anos espera por um patrocínio para a sua impressão gráfica.

Em formato grande, o livro contém 400 páginas e tem como prefaciador o consagrado historiador Cid Teixeira, membro da Academia de Letras da Bahia. Conta também com uma apresentação de autoria de Mário Amerino Portugal, empresário do ramo de fumos e charutos e primeiro presidente da Câmara do Charuto da Bahia, que pôs o seguinte registro:
Além da excelência do conteúdo, que resgata a memória de uma das mais importantes empresas na história mundial dos charutos, o livro, que contém 611 citações de pessoas físicas, é também riquíssimo na programação visual. Encontra-se valorizado por 375 imagens e ilustrações contidas em vinhetas, mapas, tabelas e quadros.
Com tantas virtudes, a obra credencia-se a obter premiações nacionais e internacionais. E a primeira delas chega através da Câmara do Charuto da Bahia, que lhe confere um Selo de Qualidade Editorial.

Enfim, o livro “Suerdieck, Epopéia do Gigante” é também um retrato de Maragojipe, no período talvez da sua maior opulência econômica, em que teve a presença ativa da Suerdieck em sua vida.

Com recursos próprios, banquei todas as despesas na fase das pesquisas, quando realizei várias viagens pelos municípios da região fumageira do Recôncavo, onde ficavam os armazéns de fumo e as fábricas de charutos, localizadas em Maragojipe, Cruz das Almas e Cachoeira. Nessa fase das pesquisas contei com a inestimável colaboração de Bartolomeu Borges Paranhos, o mestre dos mestres charuteiros. Ele chefiou a fabricação de charutos em Maragojipe, sendo por décadas o responsável pela excelência da qualidade de todas as marcas.

Na crise de 1970, quando tudo parecia perdido, pois o Governo Federal prendia a liberação de um empréstimo salvador e a falência da Suerdieck parecia irreversível, Bartolomeu Paranhos, vereador de Maragojipe, apelou para dom Eugênio Sales, de quem era amigo e fornecedor de charutos da marca Florinha, a preferida do arcebispo de São Salvador da Bahia e primaz do Brasil.

Em nome do povo maragojipano, Paranhos foi pedir a intervenção de dom Eugênio, que em poucos dias teria um encontro com o Presidente da República. Em Brasília, o cardeal expôs a dramática situação da empresa e as sérias implicações de ordem social em Maragojipe, cuja economia dependia 80% da Suerdieck. O Presidente Médici, visivelmente contrariado com a notícia da demora na liberação do empréstimo, desabafou dizendo as seguintes palavras ao cardeal:

Num país onde se joga tanto dinheiro fora, essa questão não ficará engavetada!

Poucos dias depois, chegou de Brasília um telefonema solicitando a presença de Geraldo Suerdieck no Banco Central, para a assinatura do contrato do empréstimo que saiu imediatamente, por ordem expressa do Presidente da República.

Essa e muitas outras histórias reais estão registradas no livro em que também investi recursos próprios na sua editoração eletrônica, última etapa técnica antes da impressão gráfica. E para viabilizar essa parte final e mais onerosa, inscrevi o livro no Fazcultura, programa estadual de incentivo à cultura.

A obra foi muito elogiada e aprovada por unanimidade dos membros da comissão gerenciadora dos projetos. Porém, não foi possível obter a captação de recursos, uma vez que nenhuma empresa quis associar a sua imagem ao fumo, temendo os reflexos da vigorosa campanha movida pela sociedade civil contra os cigarros e charutos.

Eu já tinha perdido a esperança de ver o livro publicado quando conheci o maragojipano Luiz Carlos Flores Ramos, produtor cultural, que logo se interessou em tentar viabilizar a obra pelo próprio poder público de Maragojipe.

Em contrapartida, eu disse ao Luiz Flores que se ele conseguisse isso eu faria a doação de todo o valioso material da Suerdieck que se encontra em meu poder há mais de dez anos, entregue pelo senhor Geraldo Meyer Suerdieck, para compor um museu da Suerdieck aonde eu julgasse conveniente. Eu sempre quis atrelar a doação do acervo ao patrocínio do livro, pois as duas partes se complementam. Não devem ficar separadas.

Finalmente, após oito anos de concluído, surge agora a esperança concreta de que o livro será publicado pela Câmara Municipal de Maragojipe, que está reconhecendo o valor da obra no processo do resgate de parte da memória da antiga “Cidade das Palmeiras”.

E Maragojipe poderá também ganhar um museu com objetos, caixas de charutos, documentos, álbuns fotográficos e publicações sobre a empresa que esteve entre as mais famosas do mundo no setor de charutos e que sempre divulgou Maragojipe em todo o Brasil e no exterior, no tempo em que no nome da cidade figuravam duas letras g - Maragogipe.

A luz verde foi acesa quando recebi na minha residência, em Salvador, a honrosa visita da ilustre comitiva da Câmara Municipal de Maragojipe, liderada pelo seu Presidente, Themístocles Antônio Santos Guerreiro, e integrada por Antônio Jorge Cerqueira Malaquias, Vice-Presidente, Dércio Lima de Souza, 1º Secretário, Rosalvo Sicopira da Silva, 2º Secretário, e por Francisco Gomes da Silva Filho, Assessor Especial da Presidência. Foram conhecer o material que estou disponibilizando gratuitamente para a cidade de Maragojipe.

Eu concordo plenamente com o desejo do Presidente desta Egrégia Casa Legislativa, de que o histórico Paço Municipal, atual sede da Câmara Municipal de Maragojipe, é o melhor local para abrigar o valioso material da Suerdieck, que foi salvo da destruição pelo maragojipano Geraldo Meyer Suerdieck, que levou para casa o referido acervo, antes de entregar o comando da Suerdieck ao Grupo Melitta, em fevereiro de 1975.

O ciclo da Melitta na Suerdieck foi de 11 anos. Em 1986, a multinacional com sede na Alemanha repassou o controle acionário da Suerdieck à empresária alemã Gisela Huch Suerdieck, ex-esposa de Geraldo Meyer Suerdieck. Em mãos dela a fábrica de Maragogipe foi desativada em 1992 e a empresa teria um final triste sete anos depois, fechada por falência financeira.

Ao tempo em que me coloco à disposição, para quaisquer esclarecimentos adicionais, agradeço pela gentileza da atenção de todos.

Muito obrigado!



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Ubaldo Marques Porto Filho é escritor
e tem 14 livros publicados
umpf_ba@yahoo.com.br
ubaldo@acirv.org

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Maragogipe e a Independência da Bahia, o Dois de Julho

Por: Osvaldo Sá
Fotos: Zevaldo Sousa
Retirado do Livro Histórias Menores

A luta pela Independência, na Bahia, foi movimento genuinamente popular, iniciado nas Câmaras de Vereadores de todo o Recôncavo. O combate se processou símile ao dos gregos em Tróia, até, na época, o aspeto de Salvador lembrava a xilogravura da cidade de Príamo, exibida em 1493, na edição de Koberger. Os Heróis de Agámenon iam à recuperação de Helena - a formosa mulher, e os baianos à conquista da Liberdade - a adorável deusa.

O bloqueio da Bahia, pelas forças libertárias, se fez em forma de hemiciclo, de São Francisco do Conde a Jaguaripe. Itaparica foi um ponto avançado, onde se desencadearam grandes pelejas, com o heroísmo de seus bravos marujos improvisados.

As Câmaras, ainda naqueles dias épicos, eram poder excepcional, conquanto houvessem já perdido parte dele para que se fortalecesse, na colônia, o ímpeto controlador da Metrópole.

Logo, porém, que os santamarenses se rebelaram e jorrou generoso o sangue dos cachoeiranos, as Câmaras das demais vilas da circuvizinhança, secundando o anseio do povo, também se insurgiram contra a Côrte Lisbonense, representada na Bahia, pela arrogância militar do general Madeira de Melo, que ali arrotava braveza amparado pela burra dos altos comerciantes lusos, balofos e endinheirados.

Já no início de 1822, os deputados baianos em Lisboa, se não curvaram ao poder colonizador e, às Câmaras desta então Província, enviaram mensagem, indagando delas qual o governo que preferiam, e foi a resposta imediata de que um autônomo e, destarte, logo apoiaram o príncipe regente, quando se insurbodinara este contra os que, no longínquo Portugal, tentavam promover a continuação do Brasil-Colônia, com as mesmas ganas de antes da chegada, aqui, da família real apavorada com a arrancada, na velha Europa, da soldadesca napoleônica.

No governo brasileiro que se constitui em Cachoeira, lá estava o representante da Câmara maragogipana, Capitão-mor Manuel da Silva Coimbra, depois que se decidiu o nosso povo, incondicionalmente, pela emancipação brasileira. Mas, muito mais do que isso, foi a atuação daquele modesto e talentoso, preclaro e bravo, Antonio Pereira Rebouças, na época simples escrevente de cartório, e elevado a Secretário da Junta de Defesa que se constitui na Cachoeira Heróica. E foi ele, sem dúvida, a mola maestra daquela Corporação, com a sua atividade incansável em aliciar elementos para a gloriosa batalha, inclusive de vários maragogipanos seus conterrâneos. Dentre estes, merece relevo Manuel Maurício Rebouças, valoroso até a consumação da guerra e que, consoante notícias veiculadas em velhos jornais, dirigiu um comando a desoras, que assaltou posto inimigo nas imediações da Barra Falsa, defronte à Itaparica, e ali aprendeu diversos barris de pólvora depositados por contingente do birrento Madeira.

Também em território maragogipano, na Barra do Paraguaçu, instalara-se um forte de emergência e, na ação ou vigilância constante que se desenvolveu nesta região, o Fortinho do Paraguaçu, ou Santa Cruz, que se mantinha atento, impossibilitara, na hora precisa, com o pipocar de seu canhoneio, que pressurosa escuna lusa socorresse àquela derrotada em Cachoeira, momentos em que o maragogipano José Pereira de Brito, orientando canoeiros e pescadores nossos, se sobressai em auxílio à comunicação entre comandos da Liberdade.


Fortinho do Paraguaçu - Visão interna do Forte
A vila era toda um frêmito em favor da pátria que nascia. Armas se preparavam, tronchas mas úteis, de feitios vários e primitivos, nas mãos dos brasileiros que se aprimoravam nas oficinas de engenhos de cana e em tendas de ferreiros, que caprichavam na feitura delas.

Entrementes, destituído do comando das forças rebeladas, já em 20 de maio de 1823, foi, procedente do Engenho Canguruçu, em Pirajá, conduzido preso a esta então vila, o general Pedro Labatut, que algum tempo permaneceu na masmorra local, demonstrando isso o alto crédito que o novo comandante das forças de libertação depositava no patriotismo e na bravura dos maragogipanos pela causa da Independência.

É de notar que, mais distante, nos campos de Pirajá, bem jovem ainda, Domingos Rodrigues Seixas, lídima vocação de patriota, se empenhava com denodo, nas batalhas decisivas, acompanhando diversos conterrâneos seus, maragogipanos de sangue forte, que residiam em Nagé. Foi ele, pela sua disposição de luta, agraciado com várias comendas do Império, como também, posteriormente, pelo seu valoroso desempenho na guerra contra o ditador López.

Reportando-nos a tais acontecimentos da pugna memorável, cortejamos que Maragogipe não se inferioriza no quadro verde-amarelo das vilas que mais se valorizaram na luta pela nossa emancipação política. Do pujante ardor de nosso povo, veio-lhe mais tarde à cidade, o título honorífico de "Patriótica". Nenhum mais belo e mais expressivo. O Patriotismo é o heroísmo continuado, permanente. O Heroísmo pode ser o ato de bravura impetuosa de um momento, rápido, fulminante. Já o patriotismo nasce de ação continua e consciente, e, por isto, subsiste, perdura.

Não se devem os baianos do Recôncavo, degladiar em contendas pelo galardão de primeiros libertadores. Primazia de que? Se nas batalhas todos se irmanavam para viver a hora apoteótica da Liberdade! Se o 2 de Julho, o dia em que o general Madeira se mandou do Brasil para Portugal, pertence a todos os baianos, muito mais aos habitantes das então vilas do Recôncavo, e se nos dias da sangrenta epopéia mais vilas houvera mais se rebelariam. O 2 de Julho não é privilégio, é sim um símbolo vivo, agora e sempre, para a conquista de novos triunfos à Liberdade, "a peregrina esposa do Porvir - a noiva do Sol", do hino eterno cantado pelo genial Poeta da Raça.

ESPECIAL: Independência da Bahia, o 2 de Julho

ESPECIAL do A TARDE recria jornal de um ano depois da data histórica.


2 de Julho - Revolta nas ruas da cidade

Um caboclo sobre uma carroça, armado com lança, representando o bravo lutador da guerra, seguido dos ex-combatentes e do povo, abrirá alas ao longo do mesmo percurso do ano passado, quando entraram pela Estrada das Boiadas, passando pela Lapinha, Pelourinho, até o Terreiro de Jesus. Este ano, porém, o que deveria ser motivo de comemoração será manifesto de insatisfação. Quem assistiu à entrada do Exército de Libertação há exato um ano viu um bando de soldados maltrapilhos e famintos — muitos, inclusive, em más condições de saúde —, eufóricos pela liberdade, depois de tanta labuta e derramamento de sangue. Mas, agora, o cortejo é uma forma de reivindicar aquilo que acreditam lhes ser de direito. Refazendo o trajeto da “vitória”, querem “gritar” que, na verdade, para eles, nada mudou. Há rumores, também, de que o movimento não deve parar por aí. Os mais radicais pretendem finalizar o dia com um mata-marotos* , por isso, os portugueses devem estar prevenidos para possíveis emboscadas.

Traição

A revolta dos brasileiros não é ao acaso. O clima na cidade, deste o 2 de julho do ano passado é de revolução e convulsão social. A imagem da capital da Província em paz e alegre logo se desfez, como todos sabem. Enquanto se formava um governo, reiniciaram a tensão e insubordinação do povo. Em média acontece um motim ou sublevação por mês e os mata-marotos são cada vez mais freqüentes. A realidade da população não mudou em nada: brancos pobres, negros escravos e soldados cobram o que lhes foi prometido, sentem-se traídos.

Aqueles que lutaram, porém, não se calam diante dessa realidade. Treinados durante a guerra e armados, representam para o poder instituído um perigo constante e têm feito por onde atemorizá-lo. A maioria civil deseja que o comércio da capital, dominado pelos portugueses que aqui permaneceram, seja comandado por brasileiros. Afinal, dizem, não foi contra os portugueses que lutamos?

Os soldados baianos, a maioria de voluntários, querem ser incorporados às tropas de primeira linha, onde podem ter garantia de certa inserção social do Exército. No caso das tropas arregimentadas sertão afora, como a Encourados do Pedrão, cujo papel na luta foi fundamental, nada de terra ou outros benefícios.

Escravos

Já os escravos exigem a alforria prometida por seus senhores. Como foi noticiado ao longo de todos esses meses, alguns chegaram até a matar seus proprietários. Essa é apenas uma parte da dívida adquirida por aqueles que patrocinaram ideais de liberdade na vida da população, convencendo-os a entrar na guerra.

Para se ter uma idéia, fomos informados por alguns escravos de que muitos senhores de engenho do Recôncavo, por exemplo, durante a guerra, fardaram e armaram multidões de negros e gente do povo, prometendo-lhes terras e/ou alforria. A grande maioria, porém, nada viu até agora. No caso dos escravos, a situação parece ser pior: o Brasil ficou independente, mas a escravidão continua firme por aqui. O ideal de liberdade de quem patrocinou a guerra certamente não é igual ao dos cativos. Estes, afinal, lutaram dos dois lados: dependeu de quem lhes ofereceram melhores vantagens. Mas grande parte, sem dúvida, lutou ao lado dos brasileiros.

A população de brancos pobres, revoltada, crê que a independência chegou para os comerciantes ricos da capital e as elites do Recôncavo. Acertaram e deixaram o povo de fora. Os que participarão do protesto do 2 de Julho, hoje, pretendem expressar a indignação diante de todo esse quadro.

Resumindo a situação: o contingente de soldados baianos, a maioria negra-mestiça, pressiona constantemente as autoridades para garantir sua efetivação. Insubordinações, deserções e rebeldia são constantes. Por sua vez, fatos indicam que as autoridades, logo após o 2 de julho do ano passado, estão interessadas em desmobilizá-los. Por esse motivo, também, mantêm por aqui tropas vindas de outras províncias, causando intranqüilidades entre ambas.

Interior

O clima de inquietação após a Independência não se limita à capital baiana. Desde o início do ano, por exemplo, é de conhecimento de todos as dificuldades pelas quais estão passando o povo do Recôncavo e cercanias, com malfeitores, ladrões e saqueadores. Alguns casos dão conta de ações cometidas por ex-combatentes.

Tivemos acesso à uma carta assinada pelo presidente Francisco Vianna, enviada ao Ouvidor Geral do Crime, datada de 11 de fevereiro deste ano, na qual cita a ação de ex-combatentes em Itaparica. Diz o seguinte: “Na Ilha de Itaparica tem havido algumas desordens das quais podem seguir-se grandes incovenientes e desassossego aos moradores daquela Ilha por se acharem divididos em partidos os habitantes dela, fomentados por oficiais de segunda Linha de sua guarnição”. O trecho deixa claro a participação dos soldados.

O atraso no pagamento dos soldos levou muitos dos soldados ex-combatentes a desertar. Esses desertores, debandados, também acabam sendo fonte de temores para a população das vilas dos interiores. Outro documento que chegou ao conhecimento deste jornal, é datado de 30 de janeiro também assinado pelo presidente Vianna, endereçado ao Capitão-Mor das Ordenanças da Vila de Cachoeira. Nesta correspondência ele responde à reclamação do Capitão, “de falta de gente que tem de ordenanças”, para conter a desordem.

Por aí se vê que a Independência da Bahia e do Brasil — como se sabe, os baianos crêem no 7 de setembro do Imperador D. Pedro como gesto burocrático —, no 2 de julho passado, ainda não trouxe benefícios efetivos a grande parte da população. Por isso, brancos pobres, negros, escravos e demais lutadores durante a guerra protestam.

2 de Julho - Entenda o caso

Do fatídico 3 de novembro de 1821, quando Madeira de Melo tomou o poder da cidade, até o aclamado 2 de julho do ano passado, a população da Cidade da Bahia e aqueles que vivem no Recôncavo e sertão foram testemunhas de uma guerra sangrenta. A guerra pela independência pode ser contada através de acontecimentos marcantes, os quais relembramos a seguir...

Fevereiro de 1822

Uma Carta Régia datada de 9 de dezembro de 1821 chegou a Salvador nomeando o Governador das Armas, o brigadeiro Luís Madeira de Melo, que assumiu plenos poderes na Província, em substituição ao brasileiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães. Madeira exigiu que todos os comandantes reconhecessem sua autoridade. O clima na cidade tornou-se tenso e ameaçador. Muitos migram para o interior.

junho de 1822

Batalha de Cachoeira. Enquanto celebravam o Te Deum na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a canhoeira de Madeira de Melo disparou o primeiro tiro contra a Vila.

Foi criada uma Junta Conciliadora de Defesa Interina para dirigir a reação nacionalista.

São convocados, a todo instante, pessoas de outras vilas para a criação de um Exército Brasileiro. São organizadas companhias como a Encourados e Voluntários do Príncipe, mais conhecida como Periquito, na qual luta a soldado Maria Quitéria.

Setembro e Outubro de 1822

No dia 7, D . Pedro I declara, em São Paulo, a Independência do Brasil, mas sabe que ainda há, na Bahia, forte resistência portuguesa.

O general francês Pedro Labatut, comandante do Exército Pacificador, chega à Bahia, a mando de D. Pedro I, com o intuito de organizar o Exército Brasileiro. Saiu do Rio a 14 de julho, junto com 38 oficiais, 260 soldados, seis canhões, cinco mil espingardas, 500 clavonetes, 500 pistolas, duas mil lanças e cinco mil sabres. Antes de chegar à Bahia, passou por Alagoas, Pernambuco e Sergipe, recrutando homens e armas. Logo na chegada, assumiu o comando do quartel improvisado de Pirajá. Tentou negociar paz com Madeira de Melo, sem êxito.

Labatut organizou o Exército em brigadas posicionadas numa espécie de triângulo, fechando o cerco às entradas de Salvador: Cabrito-Pirajá; Armações (depois de Itapuã) e Centro. Esta última comandada pelo tenente-coronel Joaquim José de Lima e Silva. A idéia era deixar padecer o Exército português nos limites da cidade. Labatut ganha a simpatia dos soldados, mas a aristocracia rural brasileira sabe que ele obedece a ordens de D. Pedro.

Novembro de 1822

No dia 8, Batalha de Pirajá. O conflito entre portugueses e o exército brasileiro (formado por negros livres, escravos, sertanejos, índios e portugueses “vira-casaca”) foi o mais sangrento até então. Para Madeira de Melo, derrubar Pirajá abriria caminhos para a Estrada das Boaiadas, que desemboca no Recôncavo.

A Batalha de Pirajá foi decisiva para o desfecho da guerra. Foi a partir dela que o cerco à cidade ficou completo. Isolados, os portugueses começaram a ter sérios problemas para o abastecimento de comida. Não se sabe ao certo detalhes da luta, mas a versão mais aceita é a da superação do Exército brasileiro. O que faltava em números às tropas nacionais sobrou em entusiasmo que lhes permitiu a vitória.

Março de 1823

Chega à Bahia o almirante Lord Cochrane, para comandar um exército mercantil. Ele foi enviado por José Bonifácio de Andrada e Silva. A esquadra era formada por uma nau, uma fragata, duas corvetas e dois brigues. Na capital da Bahia, o povo passa fome e privação de todo tipo, inclusive os portugueses.

Maio de 1823

General Labatut foi preso na noite do dia 20 de maio, pelo próprios brasileiros, depois de uma reunião entre comandantes das brigadas. O verdadeiro motivo para a deposição de Labatut foi o de impedi-lo de governar a Província tão logo os portugueses fossem derrotados — uma manobra da elite da cana-de-açúcar. Mas a alegação foi a de que ele estava usando de violência e brutalidade com seu exército. Ele ficou detido na Casa da Câmara para ser enviado ao Rio. O comando do Exército foi assumido por Lima e Silva, que criou batalhões de negros libertos e índios, em nome da liberdade do Brasil.

Junho de 1823

Negociações diplomáticas entre o Exército Brasileiro e Madeira de Melo, intermediadas por meio do rico industrial de óleo de baleia Inácio Cunha Menezes, o Visconde do Rio Vermelho, são freqüentes. Tanto os que vivem nos limites da capital da Bahia quanto o Exército Brasileiro passam por privações. Os brasileiros contam com 10 mil 139 homens; os portugueses não chegam a cinco mil homens e não têm suprimentos para mais de 40 dias.

julho de 1823

Madeira de Melo deixa a capital da Bahia na madrugada do dia 2 de julho, rumo ao Atlântico Sul. As tropas, companhias e batalhões, enfim, o Exército de Libertação Brasileiro, eufórico, rumou para Salvador e tomou a cidade, comandado por Lima e Silva. A cidade, efusiva e alegre, embora os tempos de privação, comemorou a saída dos portugueses e a entrada de seus heróis: índios, negros, caboclos, sertanejos. Passaram pela Lapinha, Soledade, Barbalho, Praça Barão do Triunfo, Carmo, Pelourinho até o Terreiro de Jesus.


2 de Julho - O fuxico

Portugal

Não estranhe se o seu vizinho que antes se chamava Manuel Pereira declarar-se agora Ubiraci Paraguaçu. Desde o ano passado vem sendo notado um fenômeno curioso, fruto do nacionalismo que toma conta da jovem pátria brasileira. Sobrenomes e nomes que lembrem o colonizador português estão sendo abandonados. Em seu lugar prevalecem, agora, denominações da geografia, fauna e flora brasileiras. Nomes indígenas são campeões. Faz-se apelo ao bom senso, principalmente na hora de honrar compromissos anteriormente assumidos.

Quando será?

A Bahia está em festa comemorando, hoje, a sua participação decisiva para que o Brasil consolidasse sua independência. Sangue baiano regou o solo, semeando os frutos de liberdade que se colhem agora. Pois bem! Quando a cidade do Salvador será, então, premiada com a visita da augusta pessoa do imperador? Nos bastidores da política baiana já correm rumores de que essa demora pode se desenrolar em crise séria.

Quem avisa...

Aliás, a tão respeitada imagem do imperador anda arranhada depois da publicação da Constituição em março deste ano. A magna carta da nação, que se esperava ser o espelho dos ideais libertários que sedimentaram a independência, acabou tomando a forma absolutista, inclusive, sem a participação da assembléia constituinte, dissolvida por sua majestade. A insatisfação que culminou na saída de José Bonifácio do governo tem crescido rapidamente.

Amigo é

Sua majestade precisa de melhores conselheiros. A corte tem sido sacudida por boatos da falta de atenção de D. Pedro com a sua esposa legítima, a imperatriz dona Leopoldina. Parece que a coroa imperial não suprimiu o gosto por variadas companhias do então princípe herdeiro. Há três anos, a casa de Bragança quase vai à loucura em busca da noiva ideal, afinal as monarquias européias não viam com bons olhos a união com a casa de Bragança, que não tinha lá uma biografia tão à altura do que eles consideravam hábitos típicos de sangue azul. Uma figura com muito trânsito na corte afirma que a situação está ficando insustentável.

A bela da serra

Diz-se na corte que o coração imperial tem batido mais forte quando apenas se menciona uma certa senhora. Os comentários venenosos, informa uma fonte palaciana, não têm razão de ser. Explica que os maldosos de plantão não se acostumaram ainda a hábitos novos, vindo de alguém de espírito liberal como o imperador que não vê mal algum em privar em seu círculo de amigos mais próximo de companhias femininas. Desde a sua visita a São Paulo, em cujo retorno deu o brado libertador, D. Pedro tem fortalecido seus laços de amizade com uma jovem senhora de 25 anos chamada Domitilia de Castro e Mello, a quem pensa seriamente em nomear Marquesa de Santos, devido à sua nobreza de caráter. O mais, afirma o informante, é fofoca.

Moderação

Os poderes absolutos dados ao imperador pela Constituição estão assanhando ânimos perigosos. Chega a notícia que em Pernambuco há risco de se repetir situação parecida com a de 1817, quando aconteceu um levante separatista por lá. Fala-se que, hoje, deve estourar um movimento fincado em ideais liberais que os descontentes dizem ter sido esquecido depois da consolidação da Independência. Eles investem em constituir uma República.


2 de Julho - Bravos de nossa pátria amada

Senhoras e senhores que conquistaram lugar cativo no diz-que-diz do meio social

Por onde anda Luís Lopes?

A Batalha de Pirajá, ocorrida em 8 de novembro de 1822, foi um dos conflitos mais importantes da guerra contra os portugueses. Foi essa vitória que consolidou o cerco a Salvador, pressionando o general português Madeira de Mello a deixar a cidade com suas tropas, no 2 de julho do ano passado. A notícia que chegou aos ouvidos do povo, repassada pelo conhecido poeta Titara, testemunha ocular do conflito, foi a da figura do corneteiro Luís Lopes. O corneta, segundo Titara, confundiu-se ou desobecedeu às ordens do general Barros Falcão, que pediu que desse o toque de recolher.

Lopes, porém, tocou os toques de “cavalaria avançar” e “cavalaria degolar”. Os portugueses fugiram. De vontade própria ou não, Lopes acabou por ser a peça fundamental na batalha. Tentamos contato com o general Barros Falcão, para esclarecer o episódio, mas ele se recusa a falar sobre o assunto. Depois de muito procurar, encontramos o corneteiro Luis Lopes morando em local recluso, o qual nos pede para não identificar. Com ele conversamos para tentar elucidar as dúvidas.

Perguntamos se ele desobedeceu às ordens de Barros Falcão ou se, na verdade, confundiu-se na hora de tocar sua corneta. Mas Lopes foi evasivo. Disse que o importante, de fato, foi a fuga dos portugueses, o que determinou, meses depois, a vitória do Exército de Libertação. Disse, também, que dá de ombros às pilhérias envolvendo seu nome e que o povo, afinal, acredita no que lhe soa melhor aos ouvidos.

Sentado numa cadeira, ao lado de sua companheira brasileira — o corneteiro é português, convertido aos ideiais brasileiros — e tomando água, Lopes finalizou nossa conversa com bom humor, dizendo que o juízo que dele fazem pouco importa, pois certamente ele, um mero corneteiro, será lembrado, nos próximos anos, quando o assunto for Independência da Bahia. Para um simples corneteiro, disse ainda, ser imortalizado ou até mesmo virar uma lenda será uma honra.

Moda feminina no Exército

Terror de pais e maridos, que temem ver seu exemplo de abraçar um ofício típico de homens vir a ser copiado por senhoras e senhoritas, dona Maria Quitéria de Jesus, heroína das guerras de independência, não segue todo o tempo o modelo militar. A leonina, que fará daqui a duas semanas 27 anos, revelou durante a própria batalha sua essência feminina por baixo da bravura do soldado.

Se a princípio usou a farda do cunhado para se alistar na frente de batalha, pois não havia precedentes de mulheres envolvidas em tais feitos, dona Quitéria, ao ser revelada sua verdadeira identidade, providenciou um uniforme diferente.

Ela deu um toque especial ao fardamento oficial. Criou um saiote, além de ter enfeitado seu capacete com um vistoso penacho. A moça, em agosto do ano passado, foi condecorada no Rio de Janeiro por sua majestade o imperador, Dom Pedro I, como “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro” e desde aquela data passou a receber o soldo de “alferes de linha”.

Embora muito reservada e de poucas palavras, ela deixou escapar, durante a cerimônia, que tem um noivo de nome Gabriel Pereira de Brito, o que significa um casamento à vista.

Quem viu Maria Quitéria de perto, como a inglesa Maria Graham, que fez questão de registrar o acontecimento em diário, ficou impressionado com a sua beleza de traços marcantes, típica do sertão da Bahia. Mas a discrição da heroína fala mais alto e, atualmente, ela anda recolhida, sem aparições dignas de registro.

Tambor Soledade

Neste primeiro aniversário da Independência, vale lembrar exemplos de heroísmo, como o do soldado
Soledade, que tinha por função passar ordens à tropa por meio dos toques do tambor. Caiu atingido por uma canhoneira portuguesa, em Cachoeira, enquanto as autoridades locais se refugiavam no prédio da Câmara Municipal.

Fica a lição do Tambor Soledade, como ficou conhecido o herói popular, que terminou servindo de escudo humano.

João das Botas

Outro bravo, o almirante João das Botas. Durante a batalha, ele sabia que tinha poucas chances contra a Marinha portuguesa, famosa por suas estratégias militares. No entanto, acreditava no chamado elemento surpresa. Armou alguns aparentemente inofensivos saveiros com canhoneiras e mandou bomba nos lusitanos, que sairam corridos pela flotilha itaparicana, como ficou conhecido o conjunto heróico de pequenas embarcações a vela.

Joana Angélica

A memória popular já reserva um espaço especial para manter acesa a admiração aos mártires da conquista da liberdade. Personagem de uma das mais tocantes histórias dessa saga, a religiosa Joana Angélica está envolta em mistério. Não se sabe ao certo se esse seria realmente o seu nome de batismo, pois as religiosas tinham o costume de assumir um outro depois de consagradas. Nem a Igreja, nem a Ordem das Religiosas Concepcionistas manifestaram-se sobre o assunto. A abadessa morreu tentando impedir a entrada de soldados portugueses no Convento da Lapa em 19 de fevereiro de 1822. Os lusitanos imaginavam conseguir uma passagem para atacar o quartel da Mouraria, vizinho ao claustro, que estava em poder brasileiro. A morte heróica da freira ainda hoje comove a cidade.

Thomas Cochrane

O termo Lord usado à frente do nome do almirante Thomas Cochrane não é de enfeite, mas real. O responsável pelo sucesso da estratégia brasileira no mar, durante a guerra da Independência na Bahia, tem o título de duque em seu país natal. Mas nem por isso ele exita em cumprir seu papel de guerreiro à risca. Diferentemente do francês Labatut, não se envolveu com as questões nacionais, nem criou nenhum tipo de laço com os brasileiros.

Inclusive, seguiu até Lisboa o séquito fugitivo do comandante português Madeira de Melo com a justificativa de que tinha parte no que os navios portugueses tivessem de valor, bem semelhante às pilhagens piratas.

Cipriano Barata

O baiano Cipriano José Barata de Almeida sabe realmente o que é incomodar. Embora esteja preso por ordem do imperador, ele é apontado como um dos idealistas que influenciam o levante que dizem estar pronto para explodir, hoje, na província de Pernambuco.

Ao seu lado estaria um ardoroso admirador das suas idéias, o frei carmelita Joaquim do Amor Divino, conhecido como frei Caneca (ele vendia esse objeto na infância). Cipriano Barata é um intelectual, tendo estudado em Coimbra onde recebeu as influências liberais que nortearam os revolucionários da França. Por aqui esteve metido na Conjuração Baiana de 1798, conhecida como “Revolução dos Alfaiates”. Em Pernambuco, participou ativamente do movimento separatista de 1817.

Chegou a ser deputado nas Cortes de Lisboa e na Assembléia Constituinte, dissolvida em novembro do ano passado por Dom Pedro I. Tem se destacado como um jornalista combativo na defesa dos valores liberais e já é chamado de “o homem de todas as revoluções”.

A briga de um general

Responsável pela estratégia que deu vitória às tropas do Exército Libertador na Bahia, o francês Pedro Labatut tem lutado para ser reincorporado ao Exército brasileiro e receber proventos de acordo com a posição de general que ocupou à frente das tropas desde novembro de 1822.

A briga promete ser longa, pois Labatut é visto como pessoa não grata junto às autoridades militares. É a história de um herói que virou vilão em questão de meses.

Labatut veio ao Brasil contratado pelo imperador Dom Pedro I, pois na Bahia sobrava fervor de batalha e faltavam estratégia e treino militar. Conhecido por impor rigor e disciplina, assim que chegou organizou o Exército em três brigadas.

Além de ter vencido uma batalha em 8 de novembro de 1822, a estratégia de Labatut submeteu as tropas do português Madeira de Melo às dificuldades de abastecimento o que o obrigou a abandonar a cidade em 2 de julho de 1823.

Mas Labatut não pôde ver o resultado do seu trabalho. Estava preso, em Maragogipe, desde maio, quando foi deposto de sua função de comandante. Dentre as acusações de ser rigoroso com a tropa à beira da violência, estava até a de que ele incitava a rebelião de escravos por ter comandado pelotões onde havia a presença de negros. Mas há quem diga que o seu afastamento foi apenas para que um estrangeiro não entrasse à frente dos brasileiros na cidade vitoriosa.

Passado um ano das lutas da Independência, já há na cidade quem demonstre uma certa simpatia pelo francês que, diferentemente do Lord Cochrane, também contratado por Dom Pedro para ajudar na guerra organizando a esquadra, acabou envolvido emocionalmente com a causa.


2 de Julho - Estamos à beira de uma guerra civil

Asituação política na cidade da Bahia é preocupante. Bem diferente do ano passado, quando se chegava ao término da gloriosa campanha pela liberdade, há muita tensão e crescimento de boatos sobre a possível eclosão de uma guerra civil

CLEIDIANA RAMOS

As lideranças que tornaram possível a independência da Bahia já não se entendem. Tanto no poder militar, como no civil, formados por grandes proprietários rurais — donos de engenho e plantadores de fumo, cana e algodão — sobram ainda divergências que têm como ponto central a posição que a Bahia deve ter em relação ao poder sediado no Rio de Janeiro.

Para muitos que militaram pela causa da Independência, as províncias deveriam fazer parte de uma só nação, mas manter sua autonomia. Os que têm esse entendimento são minoria, é certo, mas não se conformam com os rumos tomados pelo Império do Brasil, onde as decisões são cada vez mais centralizadas na corte, sediada no Rio.

A proclamação da Constituição há quatro meses aumentou o descontentamento dos que pensam dessa forma. Por meio do Poder Moderador, sua majestade imperial está dotada de uma força política absoluta*.

Já uma outra parte das lideranças considera que a união do Império é o melhor remédio contra o risco sempre presente de levantes populares. As lutas da Independência acenderam anseios, como a libertação dos escravos, que têm preocupado muito as autoridades em relação à manutenção da ordem pública.

A tropa que deveria ser motivo de sossego é a maior preocupação. Muitos dos militares residentes em Salvador são de outras províncias e aguardam o retorno para as suas terras de origem, mas o governo não abre mão da sua presença, considerada um seguro contra a insatisfação dos soldados nativos. Muitos desses são mestiços e querem que as autoridades lhes dêem os mesmos direitos que os outros têm.

É uma situação de risco, pois ao mesmo tempo em que as tropas de outras províncias são usadas pelas autoridades como segurança, há o temor de que ocorram tumultos entre elas e as formadas por nativos.

O pior é que os problemas não se resumem à capital, mas se estendem pelas vilas circunvizinhas O presidente da província, Francisco Vicente Viana, tem enviado correspondências a locais como Maragogipe e Cachoeira exortando as autoridades locais a adotarem providências contra atos de desordem que, inclusive, envolvem ex-combatentes.

O meio militar baiano é um setor onde a agitação já é rotina e de onde, a qualquer momento, pode eclodir um movimento de conotações políticas graves.

Crescem os rumores de que Portugal, comandado pelo governo absolutista de dom Miguel, tem planos de invadir a Bahia. A decisão do imperador de chamar de volta ao Rio de Janeiro uma esquadra que bloqueava a entrada do porto do Recife tem sido interpretada, em Pernambuco e na Bahia, como um certo auxílio de Dom Pedro à idéia de invasão. Já começa a incomodar a nacionalidade portuguesa do imperador, num clima em que a animosidade contra lusitanos tem gerado vários tumultos na cidade desde a entrada das tropas libertadoras.

Na província de Pernambuco, essa notícia de uma possível invasão portuguesa, somada ao descontentamento pelo formato constitucional que dá plenos poderes a sua majestade imperial, transformou-se num barril de pólvora. Há rumores de que, ainda hoje, pode eclodir por lá um movimento que é estruturado sobre uma palavra que causa calafrios nas autoridades brasileiras: República.

Neste levante, inclusive, estaria envolvido o baiano e conhecido participante de várias agitações, Cipriano Barata, e o frei carmelita, que participou do movimento separatista registrado naquela localidade em 1817, Joaquim do Amor Divino, mais conhecido como Frei Caneca.

Medo

Na cidade da Bahia, já não é necessária uma desculpa como invasão para que portugueses que aqui ficaram depois da partida de Madeira de Melo e nativos troquem insultos.

Essas ofensas não ficam apenas no campo verbal, mas muitas vezes terminam em quebra-quebra de lojas e pancadaria.

Os tumultos se repetem nos quartéis onde a agitação política junta-se ao descontentamento por motivos vários, inclusive atraso de soldos. O 3º Batalhão de Caçadores começa a se transformar numa crescente fonte de preocupação para o governo da província.

Já incomoda a fidelidade incondicional da tropa ao comandante José Antônio da Silva Castro, seu líder na guerra da Independência. Na avaliação das autoridades, um comando militar forte numa tropa surgida do meio do povo (inclusive sua denominação anterior era a de Voluntários do Princípe Dom Pedro) é um risco. Conhecidos como Periquitos, devido à farda verde, depois da Guerra eles foram incorporados ao Exército com o nome de Batalhão de Caçadores.

Comenta-se que o 3º Batalhão tem força para arregimentar outros e que só aguardam um pretexto para promover uma rebelião, o que pode acontecer caso o governador de armas Felisberto Gomes Caldeira insista num propósito que dizem já ter como firme, o de destituir o comandante Castro.

Além disso, Caldeira é tido não só por soldados, mas também por oficiais, como um homem chegado ao despotismo e tirania. Enfim, não será surpresa se essa cidade da Bahia terminar o ano mergulhada em um levante de proporções, das quais só o Senhor do Bonfim poderá nos proteger.


2 de Julho - A Constituição de 1824

O repúdio à Carta vem, principalmente, dos grupos que esperavam maior autonomia para as 19 províncias que formam agora o Brasil. Esse princípio perdeu qualquer chance de se tornar realidade já em novembro do ano passado, quando o imperador dissolveu a Assembléia Constituinte. Ali estava a deixa de que uma centralização do poder estava a caminho.

Embora Dom Pedro I tenha declarado que o conteúdo seria duas vezes mais liberal do que o proposto pela constituinte, o que se viu foi o resultado do trabalho dos integrantes de um Conselho de Estado totalmente nomeado por ele.

O que mais tem incomodado, principalmente os proprietários rurais de províncias como Bahia e Pernambuco, é o sentimento de que estão sendo deixados de lado na, cada vez maior centralização do poder no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Não custa lembrar que o Brasil ainda está começando seu caminho como uma nação e que ainda são muito fortes as identidades regionais, principalmente no Nordeste. Há, por exemplo, aqueles que se sentem bem mais baianos do que propriamente brasileiros.

O poder no Brasil

Poder Moderador

Representado pelo imperador Dom Pedro I. Tem função de árbitro sobre os outros três e plenos poderes sobre eles

Poder Executivo

Formado pelos ministros de Estado é chefiado pelo imperador

Poder Legislativo

Formado por duas Câmaras- dos Deputados e Senadores- tem como principal função fazer as leis

Poder Judicial

Formado pelos Tribunais de Justiça e seus juízes

A Pessoa do Imperador é inviolável, e Sagrada: Ele não está sujeito a responsabilidade alguma”.

Poder

A nova Constituição dá plenos poderes ao imperador. Sua majestade imperial conseguiu recuperar o que em sua augusta avaliação a constituinte queria lhe tomar. E ganhou muito mais do que sonhou.

Pela nova carta, além dos poderes Executivo, Legislativo e Judicial, foi criado o Poder Moderador. Ele é exercido por Dom Pedro. Em teoria, deve ser exercido com neutralidade para garantir que os outros três trabalhem em harmonia.

Mas, na prática, se houver uma questão envolvendo Legislativo e Executivo, à qual o imperador, que exerce o segundo citado, dará razão? Enfim, o Moderador é de fato o núcleo do poder, o que dá a Dom Pedro um instrumento, para o exercício da sua vontade pessoal ou, melhor, do seu absolutismo.

Cabe ao Poder Moderador aprovar ou não as medidas do Legislativo, dissolver a Câmara dos Deputados e nomear senadores vitalícios, bem como escolher e demitir os presidentes das províncias. É ainda de competência do imperador nomear ou demitir os juízes, o que coloca o Judicial sob o seu controle.

Uma outra questão de profundo desagrado é o comando do Exército. Uma parcela considerável do Legislativo gostaria de ter ingerência sobre ele, mas é o imperador quem tem esse poder.

Até os homens da religião estão submetidos a Dom Pedro, pois a Constituição, que declarou o catolicismo como religião oficial do Estado brasileiro, estabeleceu o regime de padroado. Dessa forma, os clérigos são pagos pelo governo, o que os torna funcionários públicos. O imperador pode nomear sacerdotes para cargos eclesiásticos e lhes dar consentimento prévio para a aplicação das decisões que vierem do papado.

Cidadãos

É certo que a Constituição desagradou e muito. Mas também há aqueles que consideram a Lei um grande avanço ao menos para a concessão de algumas garantias aos cidadãos brasileiros. Há, por exemplo, a determinação de respeito à inviolabilidade dos direitos civis e políticos, instituindo a segurança individual e a propriedade.

A Constituição estabelece uma religião oficial para o império — a Católica, Apostólica Romana — mas dá liberdade de convicção religiosa e do culto privado contanto que haja respeito à crença oficial do Estado e respeito à moral pública.

Está assegurada a liberdade de pensamento e sua expressão, inclusive por meio da imprensa, sem censura, devendo os excessos ser respondidos na forma da Lei. A prisão só acontecerá por ordem escrita de autoridade legítima, exceto em caso de flagrante delito, inclusive com punição para abuso de poder.

O lar do cidadão brasileiro é inviolável e todos são considerados iguais perante a lei. Estão proibidas penas cruéis como açoites, tortura e marca de ferro quente. As penalidades de cada pessoa são próprias, não existindo a possibilidade de que elas passem para os seus familiares.

Nenhum tipo de trabalho, cultura, indústria ou comércio pode ser proibido desde que não ofenda os costumes públicos, segurança e saúde dos cidadãos. O segredo das cartas é inviolável e a Administração dos
Correios passa a ser responsabilizada por qualquer infração a esse princípio.

À primeira vista, pode parecer um grande avanço para a incipiente cidadania brasileira, mas há que se levar em consideração o que significa, atualmente, ser cidadão. Nesta categoria, segundo a própria Constituição, são os nascidos no Brasil, mas escravos — a não ser os já nascidos livres ou aqueles com liberdade assegurada — não estão reconhecidos nesse particular.

Os escravos perdem nesse quesito até para os nascidos em Portugal e suas possessões. Estes são considerados cidadãos brasileiros desde que à época da Independência já tivessem com residência em território brasileiro e adesão à causa libertadora de forma explícita ou implícita, neste último caso, pela sua permanência.

Não custa lembrar que muitos negros aderiram às lutas sonhando com a liberdade, o que não aconteceu até agora. Pelo contrário, os proprietários rurais defendem um sistema que mantenha a situação dessa categoria exatamente como estava antes da Independência.

A Constituição assegura, por exemplo, o voto para escolha de deputados, mas o exercício desse direito é limitadíssimo. Primeiro porque a escolha é indireta. Elege-se inicialmente um corpo eleitoral que, posteriormente, vai escolher os membros da Câmara.

O principal critério para votar e ser votado é a renda, o que já exclui de forma considerável a população brasileira. No Brasil, não há meio termo entre elite e povo. Ou se é de um ou de outro. A primeira categoria é formada por quem tem considerável renda. Já a segunda é composta por homens livres e pobres. Os escravos não são sequer levados em consideração.

Se, formalmente, a Constituição estabelece cidadãos, na prática, diante da configuração política que ela oferece, o que existe de fato são os súditos de um império absolutista. Resta saber como se dará a relação entre essa realidade e as idéias de maior liberdade que estão longe de ter se acomodado no Brasil.

O brasil segundo a constituição

O Império do Brasil é associação política dos cidadãos brasileiros. Eles formam uma nação livre e independente.

O território do Brasil está dividido em províncias na forma em que atualmente se acha. Elas podem ser subdivididas a bem do Estado.

O governo é monárquico*, hereditário, constitucional e representativo.

A dinastia imperante é a do Senhor Dom Pedro I atual Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil

A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras têm culto permitido, desde que seja doméstico ou particular em casas para isso destinadas e que não tenham forma exterior de templo.


2 de Julho - A cidade

1824

Porto das Américas. Nossa Cidade da Bahia é parada obrigatória para o abastecimento, aguada, estaleiro e hospital para todas as embarcações que partem da Europa para o Oriente. Daqui partem com os nossos açúcar, fumo, café, algodão. Aqui se encontra gente vinda de todas as partes, o que faz o fervilhar das ruas, vielas ou grandes bailes nobres. A cidade dos ricos comerciantes, negros escravos ou forros, mestiços, baianos.

"A gente fina e rica (ingleses, franceses, parte dos portugueses) estendia-se em direção a São Bento, à Vitória,ao Desterro, à Saúde e a Santo Antônio Além do Carmo"

"A grandeza da povoação não consistia no corpo dela, mas em seis famosos bairros, de ruas largas e asseadas, o principal dos quais, o maior e mais aprazível era o de S. Bento. A Vila Velha e a Vitória eram cheias de quintas de residência e veraneio, rodeadas de casinhas humildes dos pescadores e roceiros"

"Os pescadores faziam as suas casas no salgado, perto da ermida de N. Sra. da Conceição"

"Em torno das fontes, situadas no sopé das numerosas ladeiras, surgiam as hortas, as ruas habitadas pelos sapateiros, pelos ourives, pelos algibebes"

"A gentinha adensava-se, com os mercadores, que não ocupavam uma posição social importante, na Praia (...). A Praia, embora habitada por muitos ricos mercadores (...), era um labirinto de vielas estreitas e sujas; na parte eminente é que ficava a dilatada cidade, com capacíssimas ruas, grandes edifícios, templos e casas públicas"

Diário de viagem

"O comércio da Bahia é muito ativo; essa cidade serve de entreposto para os produtos do sertão, que por ela se exportam para as diversas partes do mundo; motivo pelo qual se encontram em seu porto navios de todas as nacionalidades" 
Príncipe de Wied-Neuwied Maximiliano, "Viagens ao Brasil nos anos de 1815 a 1817"

"Há um ativo e colorido comércio de lojas sortidas, de fazendas inglesas, chapéus, cutelaria, artigos franceses de moda, linhos alemães, ferragens, produtos de Nuremberg e tecidos de algodão grosseiro"
Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich Phillip von Martius, "Viagem ao Brasil"

"Os portugueses que ganharam dinheiro no negócio do açúcar, do fumo, do gado, os altos funcionários públicos, os magistrados, os mercadores de logea, os reis do tráfico negreiro, os chefes das grandes casas de importação, todos os que não quiseram atirar-se à aventura do ouro e dos diamantes, à fundação dos novos currais, à abertura de caminhos para o oeste, faziam da "povoação grande forte" de Tomé de Souza, um centro aristocrático de imperturbável estabilidade"
Povoamento da Cidade do Salvador - Thales de Azevedo

Fonte: "Povoamento da Cidade do Salvador", Thales de Azevedo, 1949.