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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Uma região que já foi Estádio, seria Hospital, virou favela do Carandiru e agora será Distrito Policial

A História de Maragogipe é muito rica, e em certos momentos, complicada. E uma dessas histórias complicadas é a de uma região localizada na rua Nossa Senhora das Graças, na divisa das comunidades da Boiada e Cabaceiras. Um lugar que muito intitulavam como: Carandiru.

Conheçam um pouco da sua história:


História de Maragogipe: A região do Carandiru seria Estádio, seria Hospital, hoje é Favela

A pedido de um leitor, estamos republicando a sessão do Tribuna Popular em que escrevemos sobre o Carandiru, um pouco de sua história. Em primeiro lugar gostaríamos de dizer que o título desta postagem tem como intuito retratar a realidade da comunidade que estava, naquele ano, pronta para explodir devido aos múltiplos casos de violência extremada. Hoje, a realidade é outra, mas também não podemos negligenciar tal ato.

O Tribuna Popular em sua primeira edição com uma sessão especial para esse assunto tão importante para as comunidades do Recôncavo. Como este é o aniversário de Maragogipe, não poderíamos deixar de lembrar a população local que nesta cidade, problemas gravíssimos ainda tem para ser enfrentados. Começaremos agora a série: OBRAS INACABADAS NO RECÔNCAVO - O CASO, CARANDIRU, A FAVELA DINAMITE.


Você se lembra da Ilha de Dr. Abílio? Não, e se eu falar de Rafaelão, você lembra de alguma coisa? Também não, agora se eu falar de Carandiru você se lembra da alguma coisa? Talvez sim, você deve estar pensando agora em drogas, tráfico, tiroteios, condições desumanas e deploráveis.

Pois bem, todos os três locais acima citados, são o mesmo. Único, exclusivo e abandonado pelas autoridades. Contar anos talvez não seja a questão, mas narrar o que aconteceu e está acontecendo é a melhor forma de estarmos cobrando algo das nossas autoridades.

As informações obtidas pela equipe de reportagem são comprometedoras, contudo o que a sociedade deseja, é que aquele foco de destruição acabe o mais breve possível, mas com inteligência.

Histórico:
Tudo começou quando no primeiro governo do já falecido prefeito Bartolomeu de Ataíde Teixeira um deputado conseguira um verba para a construção de um Estádio, que carinhosamente a população chamou de Rafaelão em homenagem ao primeiro nome do deputado.

Por motivos da obra não ter sido concluída, moradores organizaram-se e fizeram um conjunto de casas atrás da muralha que cercava o Estádio e deram-lhe o nome de Vila Feliz. Logo em seguida, criaram a Associação Esperança com objetivos de conseguir benefícios para a comunidade recém -criada.

Vale ressaltar que essa área, também chamada de Ilha do Dr. Abílio, tinha uma quantidade muito grande de manguezais e para se construir o Estádio foi gasto muito dinheiro.

Moradores falam que no começo não tinham energia e nem água, muitos tinham medo de construir sua casa naquele local, por pertencer a Marinha. Só que a vontade de ter uma casa foi muito mais forte, e correr o risco foi inevitável. Como uma das moradoras tinha um terreno logo na entrada da rua que estava se formando, ela cedeu durante três anos, energia e água para toda comunidade da Vila Feliz.

No segundo mandato do prefeito Bartolomeu de Ataíde Teixeira foi construído conseguida verba pelo Deputado Luiz Alberto para a construção de um hospital na cidade, muitas pessoas desejaram que essa verba fosse destinada à Santa Casa de Misericórdia que na época já tinha seus problemas. Acontece que ficou acordado que a verba seria destinada para a construção de um novo hospital e esse foi construído justamente, no mesmo local em que o Estádio de Futebol Rafaelão, uma obra que não tinha sido sequer concluída.

Em 2000 ao assumir o mandato de prefeito, Raimundo Gabriel pediu que os moradores deixassem tudo limpo e organizado que ele conseguiria água e energia. As duas partes fizeram um acordo e tudo foi encaminhado, inclusive o saneamento. Segundo os moradores, o ex-prefeito prometeu logo em seguida o calçamento, mas isso só iria ser feito no próximo mandato.

Moradores dizem que esse hospital era para ser de primeiro mundo, pois o material utilizado era muito bom, acontece que moradores do Bóreu e da própria Boiada roubaram esse material para construir suas casas, já que a construção novamente tinha sido abandonada, por falta de verbas. 

Anos depois, já no governo de Gabriel, o Deputado Luiz Alberto conseguiu uma verba para que o hospital fosse concluído, contudo devido o estado precário que o prédio encontrava-se, foi conseguido desmembrar a verba para quatro postos de saúde: Piedade, Batatã, Capagato e Inss.

A partir daqui, moradores perceberam o descaso com aquele prédio e viram nele um ótimo “hotel”. Começou a invasão da construção inacabada do Hospital e recentemente a invasão da parte externa do hospital. Muros internos foram quebrados, externamente, algumas partes dos muros foram quebradas e hoje, quando olhamos aquele local de fora. Imaginamos uma grande fortaleza, dominada pelo tráfico de drogas.

Muitos daqueles moradores que começaram a invadir num primeiro momento já saíram de lá, hoje em sua maioria, as pessoas que lá moram são de outras localidades. Moradores desejam ardentemente uma morada em outro local. Pois no Carandiru, como é chamado atualmente, não se tem condições nenhuma de higiene e nem de segurança. 

O descaso com a coisa pública transformou aquele lugar que no primeiro momento serviria para entreter a população e num segundo para suavizar os males do corpo, num barril de pólvora, ou melhor, numa favela dinamite pronta para explodir nas mãos daqueles que tiverem coragem para enfrentar o problema de maneira inteligível.

Retirada da 1ª Edição do Tribuna Popular
Escrita por: Zevaldo Sousa

TEXTO COMPLEMENTAR:
No dia 18 de novembro de 2013, a Prefeitura de Maragogipe tomou posse de uma área de 10.758,38m², localizada no bairro da Boiada, conhecido como Carandiru. A demolição do prédio foi realizada e, segundo a Prefeitura, as famílias que residiam na edificação foram acolhidas e encaminhadas através da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social para novas moradias.

Ainda segundo informações da Prefeitura, na área serão implantados novos projetos em benefício da população, como o Distrito Integrado de Segurança Pública (DISEP) que faz parte do Programa Pacto pela Vida do Governo do Estado, Academia da Saúde, pavimentação e praça.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Da Associação Atlética Maragogipana à Fundação Vovó do Mangue (1954 a 2013)

Por Zevaldo Sousa


A Associação Atlética Maragojipana foi fundada em 16 de março de 1952 e, como toda instituição teve ótimos administradores, mas no final da década de 90 entrou no período de crise profunda, tendo seu fim decretado, todavia teve um recomeço.

Neste texto, procuraremos retratar um pouco da Associação Atlética, pois a história-problema se preocupa e muito com detalhes que intrigam a sociedade e que continua ligada, mesmo que sentimentalmente, a determinado órgão ou instituição que pertenceu.

Atualmente, o antigo prédio da Associação Atlética Maragogipana que estava caindo aos pedaços, e foi restaurado (fotos abaixo) no início do século XXI, estando sob responsabilidade de um grupo de maragogipanos que se organizaram em torno da Fundação Vovó do Mangue, e que apesar de ter preservado o nome da antiga instituição durante quase todo período, no final de abril de 2010 a mudança na fachada do prédio colocando o nome da Fundação causou novo debate.




A sociedade prontamente reagiu, o presidente da Câmara de Vereadores falou seu posicionamento em plenário na Câmara de Maragogipe como antigo sócio, assim como outras pessoas da sociedade. Ocorreu um pequeno debate no mural do Blog do Zevaldo Sousa, e nele, havia opiniões contrárias e a favor do fim decretado, como forma de amenizar a situação, membros da Vovó do Mangue resolveram colocar o símbolo da Associação Atlética Maragogipana na frente do prédio.

A mudança caso um novo debate
Desde o início do funcionamento da Associação Atlética Maragogipana parte da comunidade tinha direitos a participar das atividades. A instituição sempre se preocupou em servir de entretenimento para essa parcela da sociedade maragogipana, que servia-se de jogos esportivos, assim como bailes eram realizados durante o ano, em momentos festivos, a exemplo do carnaval de Maragogipe, blocos carnavalescos divertiam a sociedade mas nem todo mundo poderia entrar no ambiente, era preciso estar trajado com certos padrões de etiqueta para entrar no recinto, e como a grande maioria da população maragogipana não tinha condições financeiras para cobrir os custos do entretenimento no espaço, o ambiente se tornou centralizado e elitizado. No carnaval, assim como em outros clubes sociais, como a Rádio Club Maragogipano (antigo Clube dos Alemães), a Terpsícore Popular e a Dois de Julho, locais que se tornaram patrimônios culturais dos maragojipanos, blocos carnavalescos eram realizado como parte da cultura da instituição.

Na década de 1990, a Associação Atlética Maragogipana viveu momento de crises profundas, com administrações que não conseguiam manter o equilíbrio financeiro, e acabavam vendendo o patrimônio público para particulares. Diversos objetos também foram saqueados, o prédio da instituição estava caindo, o telhado e a madeira que o sustentava estavam apodrecidos, a água da chuva penetrava com facilidade e não havia de onde tirar recursos para a manutenção da instituição, nem muito menos havia pessoas interessadas em manter aquele padrão. A situação no município estava mudando junto com o novo período de Democratização da sociedade brasileira.

A seguir, esboçaremos um pouco da situação através de resumos das atas de reuniões que quase inexistiam devido ao desinteresse dos associados.

[1] Ata da página 154 relata que o clube estava em "péssimos condições financeiras", evidenciando a falta de participação dos sócios e de pagamento das mensalidades (1996).

[2] Ata da página 159 menciona prejuízo nas operações financeiras do carnaval de (1997).

[3] Ata da página 161 fala sobre problemas financeiros, negociações para pagamento de dívida trabalhista. Fala também sobre as constantes locações para terceiros como fonte de renda (1997)

[4] Ata da página 163 - Eleições 98/99 ressalta que somente 37 associados participaram das eleições. (1998)

[5] Ata da página 164 cita a proposta de anistia dos sócios em atraso (aceito pela diretoria) indo de encontro ao estatuto que diz que o sócio que não pagasse 03 meses consecutivos e 06 meses automaticamente eliminados (segundo o Estatuto deveria haver Assembléia Geral, mas esta não aconteceu). Cita que era costume terceiros locarem o clube pagando uma taxa abaixo do valor real e oferecendo benefícios aos diretores (camisetas, ingressos e cerveja na festa) - 1998.

[6] Ata da página 165 cita que a diretoria do clube solicita ajuda da Prefeitura como funcionários, reparos na estrutura e bandas para as festas. Cita que somente a prefeitura ajuda para demonstrar aos sócios que se está fazendo alguma coisa (1998)

[7] Ata da página 167 cita as dificuldades financeiras do clube, a ausência dos sócios e os esforços da diretoria em realizar atividades, porém sendo evidente a falta de interesse dos associados em frequentar o clube (1998)

[8] Ata da página 168 fala sobre o fraco movimento no carnaval de 1998 e as dificuldades financeiras (1998)

[9] Ata da página 170 afirma que são poucos os associados a pagarem suas mensalidades (1999)

[10] Ata da página 171 somente 36 sócios participaram das eleições (2000)

Cabe aqui uma observação, o intervalo entre as 03 últimas atas 03/98 - 01/99 - 01/2000.

[11] Ata de julgamento do processo nº 40.01.01.0920-01 - processo trabalhista contra a AAM assinada pelo Dr. Humberto Machado - Juiz do Trabalho, relata que documentos juntados ao processo revelam que a AAM esteve totalmente abandonada a partir de 1998 (2002)

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Associação Atlética Maragojipana - Fundada em 16 de março de 1952

Breve relato da atual situação física, financeira e jurídica do clube, conforme listado a seguir: condições totalmente precárias de todas as dependências físicas do clube, telhado e forro do salão principal totalmente degradados, com precárias condições de segurança, forçando sua interdição por tempo indeterminado; o espaço do bar sem condições adequadas de higiene; toda a parte elétrica com graves riscos de causa de acidentes; salas de diretoria e secretaria e demais dependências com paredes sujas e portas estragadas; equipamentos de som e demais equipamentos de escritório sucateados; equipamentos esportivos sem condições de uso; quadra esportiva e redes de proteção com péssimas condições. Na parte financeira verificou-se a seguinte situação: dívida com a empresa de água e saneamento Embasa no valor de R$ 1050,36 estando o fornecimento de água cortado; dívida com a empresa de telefonia Telemar no valor aproximado de R$ 300,00 do telefone de número 726-1028, pertencente ao clube; recibo de energia elétrica da empresa Coelba no valor de R$ 20,14, com vencimento em 06/12/1999 pendente de pagamento; situação de recolhimento de FGTS e INSS não declarada pela administração anterior; sete cheques cadastrados no CCF do Banco do Brasil, agência 2271-3 (Agência de Maragogipe), conta corrente de número 45.767-1, sendo que cinco cheques foram inclusos em 08/05/1996, não constando seus dados mais no sistema do referido banco (vlor e número do cheque), e dois constam conforme se segue - nº 563150, no valor R$ 255,00, incluso a 06/03/1996 e outro de número 712249, no valor de R$ 463,00, incluso em 09/05/1996. Não foram constatadas outras restrições ou pendências financeiras,constando Certidão Negativa emitida pelo Cartório de Protesto de Títulos. Somente 37 sócios estavam em dias até dezembro de 1999. Encontra-se também uma pendência trabalhista com os funcionários Bartolomeu Barbosa dos Santos, admitido em janeiro de 1990 e Rosana Reis Guerreiro Miranda, admitida em janeiro de 1994, sendo que os últimos salários pagos no dia 30/12/1998, no valor de R$ 150,00 para a funcionária Rosana Reis Guerreiro Miranda, e R$ 130,00 para o funcionário Bartolomeu Barbosa dos Santos, registrados no balancete de abril a dezembro de 1998. O balancete de janeiro a março de 1998 não foi repassado pela administração anterior. Quatro livros de atas foram extraviados.

Maragojipe, 15 de janeiro de 2000
Marcos Antonio Barbosa Pereira
Presidente

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A partir daqui, instala-se uma nova administração, ao longo deste período, jovens vão se unir em prol da reconstrução deste prédio abandonado, e irão transformar o espaço. Como nas imagens abaixo relacionadas.



















A FUNDAÇÃO VOVÓ DO MANGUE
A Fundação Vovó do Mangue inicia um trabalho neste ambiente, e além do espaço ser revitalizado  como nas imagens abaixo relacionadas. Trabalhos socioambientais são desenvolvidos pela instituição.

Fundada em 1997, em Maragogipe, a Fundação Vovó do Mangue (FVM) desenvolveu diversas atividades nas áreas culturais, sociais e ambientais. O trabalho da Fundação é sempre buscar o equilíbrio entre a natureza e a sociedade. Dessa maneira, a entidade age no município com um direcionamento socioambiental e sociocultural bastante relevante.

Temos consciência de que a fundação, nos últimos anos, desenvolveu trabalhos como:

  • Projeto brasileirinho com a prática de esporte, promoção da cidadania e da educação ambiental. Dezenas de famílias são atendidas pelo Projeto que contribui para a formação de jovens com idade entre 10 e 17 anos;
  • Projeto Abrinq que atendeu aproximadamente mais de 180 crianças;
  • Projeto Viva o Mangue por intermédio do cultivo e do plantio de 20 mil mudas de mangue e da capacitação técnica de membros da comunidade para atuarem como multiplicadores, objetivava recuperar cerca de 10.000m2 de manguezal na Reserva Extrativista Baía do Iguape.

Além disso, a Fundação Vovó do Mangue mantinha parcerias com a Petrobrás, Deten Química S/A, Fundação Abrinq e o Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e Adolescentes, com os pais das crianças, em sua maioria, pescadores e marisqueiras.

O projeto da Fundação estava dividido em duas áreas:

  • Educação ambiental que visava a formação de agentes multiplicadores e Horto de mangue, que visa a manutenção do ecossistema de manguezal, tanto em Maragogipe como em outras localidades que sejam propícias a recuperação.
  • Projeto “Viva o mangue”, que era firmado em parceria com Deten Química S/A, que visa a reprodução de mudas de manguezal, das espécies mais comuns encontradas na Baía do Iguape. Conta também com pesquisas e estudos voltados a área ambiental. E com um intuito maior de educar para preservação do meio ambiente.
Educação ambiental

A realização da “Semana do Meio Ambiente” e a “Semana Estudantil” (Fotos abaixo) eram eventos realizados pela instituição em que seu ápice de divulgação entre a comunidade maragogipana era atingido. Eram voltadas para a criação de consciência de preservação, onde contam com gincana ecológica, jogos esportivos, mostra de vídeo, palestras, plantio de mudas do mangue.




Em 2012, observamos a perda significativa dos projetos conquistados com muita luta e a fundação deixou, muito a desejar, nas questões sociais e ambientais do município. Envolvimentos com políticos municipais travaram e diminuíram a independência da instituição que demonstrou perda de força perante a sociedade que já não via com bons olhos devido à manutenção de um espaço social que antes “pertencia” a sociedade elitizada de Maragogipe e que houve uma inversão drástica de valores, para incluir a população mais carente, nos diversos âmbitos da sociedade, o que garantiu um saldo positivo entre as populações do entorno da cidade, e um saldo negativo com as pessoas do centro da cidade.

Com isso, a instituição foi alvo constantes de críticas e necessitou de urgente renovação na roupagem da sua diretoria e de seus membros, está precisando de atividade, buscando de novas parcerias e novos projetos. Neste momento, Antônio Marcos e Jorge Dias estão na frente da Fundação e pensam em reabrir a Associação para a comunidade.



A todos aqueles que desejam declarar sobre este texto ou apenas emitir sua opinião: Envie mensagem para nosso e-mail: zevaldo.sousa@gmail.com ou utilize a caixa de comentários.

domingo, 25 de novembro de 2012

Documentário 'Casa de Santo' mostra história do Terreiro do Pinho, em Maragogipe



CASA DE SANTO

Documentário dirigido por Antonio Pastori mostra, pela primeira vez, 
terreiro fundado no século XVII em Maragojipe, no Recôncavo da Bahia

O documentário premiado Casa de Santo, dirigido por Antonio Pastori, leva ao telespectador a uma grandiosa e empolgante viagem pelos terreiros de candomblé de Maragojipe, no Recôncavo da Bahia. O diretor registra, pela primeira vez, o interior de terreiros que nunca haviam permitido a presença das câmeras e descobre indícios que podem mudar a forma como a História descreve a diáspora africana para o Brasil.

Um pouco de Casa de Santo
Poucas regiões brasileiras possuem a característica religiosa do Recôncavo da Bahia. A terra que circunda Baía de Todos os Santos e bate às portas do Sertão tem forte influência do Candomblé, religião trazida ao Brasil pelos africanos escravizados na época da colonização brasileira.

Casa de Santo, documentário dirigido por Antonio Pastori, traz como tema chave esta influência a partir dos rituais desses terreiros de Candomblé, preservados pelo povo negro que acredita na força de sua religião. As quatro nações da religiosidade de matriz africana estão retratadas com fidelidade e emoção. O filme percorre os principais terreiros das nações Jeje, Ketu e Angola e registra uma Festa de Caboclo, onde a raiz africana se mistura a influências indígenas e européias. Uma engenhosa tradução da diversidade étnica e cultural desta região da Bahia.

O filme tem cenas inéditas de rituais que nunca haviam sido mostradas de forma tão fiel, em uma reconstituição histórica. Terreiros que não haviam aberto as portas mesmo para os fotógrafos, deram licença para as câmeras deste documentário que mostra como os segmentos de cada nação são diferenciados pelo dialeto utilizado nos rituais, a liturgia e o toque dos atabaques.

É em Casa de Santo que Pastori documenta pela primeira vez, o Terreiro do Pinho, que segue os preceitos Jeje e foi fundado em 25 de dezembro de 1658 numa área que hoje pertence ao município de Maragojipe, a 133 km de Salvador. A equipe pôde registrar o lugar onde fica o que pode ser o terreiro mais antigo do Brasil, de linhagem Jeje – o que muda a forma de contar a história da diáspora africana.

“Na verdade, o Jeje é o povo Ewe Fon. Nós nos acostumamos a relacioná-los a como eles eram chamados na época, pela expressão Jeje, que na verdade significa ‘estrangeiro’. Era um povo altivo e conquistador, o que explica esta espécie de apelido”, explica Pastori.

O candomblé assume um importante papel na formação da identidade cultural, étnica e religiosa do Recôncavo, é fortemente marcado pelo ritmo e pela música que embala cada Orixá. Casa de Santo mostra esta essência só encontrada no Recôncavo, a sua origem derivada dos candomblés implantados lá desde muito tempo com a chegada dos escravos, e como isto influência na vida das pessoas de lá, transporta-nos a um ambiente mágico através dos toques inspiradores e contagiantes, da música africana.


Musicalidade
A cultura do lugar, basicamente negra misturada aos toques do atabaque e do bongô componentes da música africana e presentes em todo o decorrer do documentário, nos faz observar o quanto é essencial a relação entre música e imagem no cinema. No documentário, o relato da religiosidade da cidade de Maragojipe traz precisão e comunhão com esta musicalidade.

A equipe extraiu da cultura do povo de santo, a essência da sua religiosidade com elementos desse próprio meio com destaque para os instrumentos utilizados nas casas de santo o Rum, o Rumpi e o Le, atabaques sagrados e tocados por alabês.

A técnica de combinar os sons, é o que leva o espectador a “participar” dessa cultura, entender e compreender a sua linguagem. A dita casa de santo é onde está a mistura da natureza que se junta com a mistura de raças, onde o povo negro escravizado busca até hoje manter e viver fielmente a sua religião, o candomblé.


A cultura afro-brasileira está expressa também pela capoeira. “O Canto dos Escravos” aguça a sensibilidade do espectador diante das imagens mostradas no documentário. Ecoam as vozes benguelas em um arranjo com apenas voz e percussão. Além disso, contribui para o clima de proximidade evocado pelo canto, contrastando, assim, com a idéia de diversas manifestações culturais de matriz africana que constituem a raiz da cultura popular brasileira.

Em Casa de Santo, a trilha tem justamente esse papel, de nos aproximar daquela realidade, de passar um pouco da energia e da sensação de estar imerso em um ritual do candomblé, e cumpre maravilhosamente bem seu papel de fazer do cinema o resultado de um emaranhado de expressões artísticas, potencializando aquilo que talvez seja mais significativo em sua existência, nos tocar de alguma maneira.

É no terreiro, com luz iluminando a Mãe de Santo, que gira e dança. Que recebe e trabalha. É ali: os orixás se manifestam, a energia pulsa ao som dos tambores, a casa é de santo. Imperdível.

Documentário Completo
Agora que você leu, poderá assistir ao documentário completo e compartilhar essas informações para seus amigos.


FICHA TÉCNICA
Casa de Santo
Duração: 44 minutos
Fotografia: Aristides Jr. e Antonio Pastori Assistência de Produção: Jomar Lima
Roteiro, Pesquisa, Edição e Narração: Antonio Pastori
Pesquisa e Produção: Manoel Passos Pereira
Direção: Antonio Pastori

TV E Bahia
Domingo, 13 de maio
Horário 19 horas

Contatos para entrevista
(71) 9182 5063
ou mandando perguntas para
casadoverso@gmail.com

domingo, 1 de junho de 2008

Análise da História Econômica através de Fragoso

Em seu texto, “Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil”, João Fragoso expõe a público que a sua avaliação sobre a história econômica nacional e internacional mudou um pouco. Ele dirá que “na época, apresentamos (Fragoso e Florentino, 1997: 27-43) um balanço bastante cético sobre os destinos das pesquisas neste campo.” (Fragoso, 2002: 1). Através de uma crítica avassaladora como ele mesmo diz, e em alguns casos injustamente, que foram feitas à “história serial francesa, os modismos da historiografia brasileira e, com eles, a redução brutal do número de investigações econômicas feitas nas pós-graduações.” (Fragoso, 2002: 1).

Realmente em seu primeiro texto feito em conjunto com Manolo Florentino eles estavam prevendo uma derrocada da história econômica, pelo simples fato da redução brutal do número de investigações econômicas. No entanto, eles buscaram fundamentar sua tese, através de variações percentuais, o que difere em muito das variações quantitativas de textos produzidos. O que eles não viram ou não quiseram ver neste momento é que o número de artigos produzidos de história econômica aumentou ou se manteve estável, não obstante o que se percebe, e eles têm razão nisso, é que havia “uma preocupação com a longa duração e a ênfase nas estruturas econômicos-sociais para a compreensão das sociedades, locus privilegiado até mesmo para a compreensão da política e da cultura.” (Fragoso e Florentino, 1997: 29) Completando o texto dizendo que “Do ponto de vista da praxeologia histórica, daí derivava a constante preocupação com a utilização de fontes propícias à quantificação e à seriação” (Fragoso e Florentino, 1997: 29). Percebe-se, portanto, uma forte influência da Escola dos Annales e da historiografia marxista.

O que Florentino e Fragoso sentiram foi o aparecimento contínuo de críticas ao modo como a história econômica abordava os conteúdos históricos e ao tipo de reflexão em meio ao qual era produzido. O que eles não queriam entender neste momento, é o surgimento de novos problemas, novos paradigmas, novos interesses que apareciam naquela sociedade e que a história econômica não tinha as ferramentas para tal explicação, contudo ele não concordará com esse fato.

O artigo de Fragoso “Para que serve a história econômica?” fará um rápido balanço das tendências recentes da história econômica nacional e internacional, em particular, das pesquisas sobre as sociedades pré-industriais. Em seguida, analisará a concentração de renda no Brasil contemporâneo e abordará as possíveis contribuições da história econômica para o entendimento desse fenômeno.

Nele ele irá perceber que “as críticas à história social e econômica feita na tradição de Labrousse (1933-1955) continuaram. Insiste-se em duvidar das investigações que procuram apreender as regularidades observáveis e, com isso, construir quadros explicativos. Acredita-se, ainda, que essa ‘decrépita’ abordagem deixaria os comportamentos e o acaso, isto é, a experiência social, de fora.” (Fragoso, 2002: 1). Para os críticos da história econômica, cujo eixo original são os Annales, a investigação quantitativa pode obscurecer ou distorcer os fatos, o que se percebe neste tipo de explicação é que “a vida real é largamente posta à margem e a visão de longo período pode gerar uma abstrata e homogeneizada história social desprovida de carne e sangue, e não convincente apesar de seu estatuto científico” (Fragoso e Florentino, 1997: 30). O que eles não percebem ou não queriam ver, segundo Fragoso é “que a apreensão de tais conflitos e solidariedades como características da vida dos grupos sociais pressupõe o estudo da regularidade daqueles fenômenos. Somente com isso seria possível elaborar teorias, explicar o porquê dos conflitos, e do acaso no ‘cotidiano’ dos grupos sociais” (Fragoso, 2002: 1). Com isso, Fragoso reforça o caráter crítico a história serial francesa feita no primeiro texto, e ainda pergunta-se sobre a utilidade da história serial nos dias atuais.

Traçando um rápido quadro explicativo sobre a historiografia brasileira e internacional, procurando revelar “as conseqüências interpretativas sobre as sociedades ultramarinas” (Fragoso, 2002: 5). Ele procurará revelar que a exclusão social no Brasil atual é resultado de uma série de políticas, mudanças sociais e econômicas que a sociedade brasileira escravista nos legou e que nós mantivemos e ampliamos com o término da estrutura escravista.

Na conclusão de seu texto Fragoso abordará as possíveis contribuições da história econômica para o entendimento desse fenômeno, constatando que “a permanência das fortes desigualdades sociais ao longo de quinhentos anos de Brasil é compreender que, nesses séculos, a sociedade brasileira viveu mudanças..., porém o fosso entre os mais ricos e os mais pobres permaneceu. Cabe, portanto, ao historiador, estudar os diferentes mecanismos – econômicos, culturais, etc. – que resultaram nesse fosso. E nisso a pesquisa econômica teria um papel decisivo, com suas séries de preços e faixas de fortuna.” (Fragoso, 2002: 19).

O que se percebe nestes dois textos é que apesar dele no início do segundo texto está se retratando vendo que foi injusto em certos pontos, ele continua defendendo a história econômica como forma explicativa da história. Uma mudança ocorrida foi a sua percepção que a história econômica não estava decadente como ele diz no primeiro artigo, mas ainda permanece, através da incorporação de novos métodos, resultado do embate com a história econômica e social, cujo eixo principal seria a escola dos Annales, sentindo-se, portanto capaz de poder explicar as variações que a sociedade traz. Um exemplo disso seria seu artigo sobre a exclusão social.

FRAGOSO, J. L. R. Para que serve a história econômica? Notas sobre a história da exclusão social no Brasil. Revista de Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 29, p. 3-28, 2002.
FRAGOSO, J. L. R. & FLORENTINO, Manolo. “História Econômica”, em CARDOSO, Ciro & VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História. Rio de Janeiro, Campus, 1997.