Por Zevaldo Sousa
Segundo Osvaldo Cogiolla “a classe
operária moderna é o produto do desenvolvimento do modo de produção capitalista”
(COGGIOLLA, p.7). Pra que essa classe fosse formada, precisou ter condições
econômicas necessárias, para que, houvesse uma mudança nas formas de
apropriação privada do trabalho. Essa mudança implicava na obrigação de
trabalhar para outrem, ou seja, a essência do moderno sistema econômico do
capitalismo é a compra/venda da força de trabalho em troca de um salário. Foi
aproximadamente na segunda metade do século XVI e começo do XVII, que esse
sistema nasceu e começou a crescer e se fixar. O crescimento decisivo desse
sistema ocorrerá, a partir do século XVIII, quando a “Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, com a qual o capitalismo
consolidaria seu domínio da produção e criaria as bases da sua expansão em
escala mundial” (COGGIOLLA, p.11). Esse momento será transitório, de uma
fase mais imatura e primitivo do capitalismo, para uma outra, em que, irá ser
criada sua própria forma de produção, levando em conta a divisão do trabalho
para o interior da fábrica. A partir desse momento, existirá a fábrica, o
operário e os meios de produção.
As bases para a incorporação dos progressos técnicos à produção em larga
escala só estariam lançadas quando além de tudo isso, a população começasse a
crescer, e com a diminuição do índice de mortalidade infantil, controle de
doenças epidêmicas, generalização de práticas higiênicas, etc. O sistema
estaria definitivamente implantado.
“É dentro das fábricas que surgem a
nove classe social, a classe operária, submetida nesta fase inicial a
esgotantes jornadas de trabalho” (COGGIOLLA, p.15). Michelle Perrot, irá
dizer que, nesta fase, os donos estariam muito preocupados em combater o furto
de matérias-primas e controle de qualidade de seus produtos. Várias regras
surgiriam, ela citará três princípios básicos que regiam a organização de uma
fábrica: O político, denotaria poder; o técnico, racionalidade na industria e
por fim, a vigilância constante, tanto de pessoas, como de produtos. A fábrica
precisa de regras, e regulamentos com proibições tanto para que a fábrica
tivesse um bom funcionamento, quanto morais, evitando confusões, para isso, as
penalidades não eram leves, e cada caso, tinha a sua especificidade na hora de
punir.
A família aqui neste momento era fundamental, o chefe, segundo Perrot,
era o próprio pai, pois se os empregados se revoltassem, estariam se revoltando
contra seu próprio pai, e todos seriam punidos, era tudo ou nada, a união para
não morrer de fome, levava todos da família a trabalhar. O paternalismo já
estava se firmando, e grande parte dos funcionários queria esse sistema, mas
este tinha seus problemas, e logo perderiam seu lugar. Até porque, leis contra
o trabalho infantil, começariam a ser criadas.
Hobsbawn descreverá que a Revolução Industrial será o processo de
transformação mais radical das condições de vida e afetará a todos os níveis da
sociedade, inclusive a família. Serão homens e mulheres “livres” e despojados
de toda posse, que seriam obrigados a trabalhar, vender sua força,
transformando-se em operários modernos. Aliás, não somente homens e mulheres
adultos, mais jovens e crianças, o que gerará uma grande quantidade de
mão-de-obra, que levariam ao crescimento da indústria têxtil e metalúrgica. Há
neste momento um processo de disciplinamento constante. Alguns trabalhadores
ganharam certa autonomia, principalmente os metarlúrgicos, devido uma questão
prática, que só era revelada para os seus filhos, como forma de mantê-los empregados,
e também como forma de refrear a produção. Sendo assim, diversas leis
começariam a ser criadas, para controlar essas classes “ditas” perigosas, havia
uma preocupação com a subsistência dessas. A consolidação do sistema
capitalista, dará com a absorção da mão-de-obra de reserva por parte das
inovações tecnológicas, principalmente com construções de navios e estradas de
ferro, que transformará esse operariado em fixo e hereditário.
Mas quando surgiu o movimento operário? E o que é movimento operário?
Cogiolla cita palavras de Blanqui, revolucionário democrático francês, “É a profissão de 30 milhões de franceses que
vivem do seu trabalho e são despojados de seus direitos públicos”
(COGIOLLA, p.23). Aqui esse conceito aparecerá, no seu antigo sentido, no da
república romana. Segundo Cogiolla, se seguirmos esse sentido, podemos estar de
acordo com Thompson, que afirmará que: “a
classe operária formou-se a si própria tanto quanto foi formada”.
(COGGIOLA, p.23).
Segundo
Cogiolla, “o erro desse autor foi
enfatizar unilateralmente o primeiro termo (o “fazer-se” da classe operária),
operando uma cisão improcedente entre a existência e a consciência da classe:
“a experiência da classe é determinada pelas relações de produção nas quais os
homens nasceram, ou entraram involutariamente.” (COGIOLLA, p. 23-4)
Tanto Perrot, como Cogiolla, irão enfatizar que foi no século XIX que
surgiram rebeliões, greves, inclusive com destruição de fábricas, lutas. A
situação tornaria insustentável e criou as possibilidades para o surgimento de
movimentos trabalhistas e socialistas.
Marx irá dizer que os operários são a única potência social, devido o seu
número, contudo a sua desorganização e desunião, é quem atrapalha no processo
de modificação. Todavia esse processo mudaria, ao poucos, em 1838, foi lançado
a Carta, também conhecida como cartismo, lançará pois, um programa democrático,
organizando massas de trabalhadores. Em 1847, segundo Cogiolla “a primeira vitória histórica da classe
operária foi produto de um movimento claramente político.” (COGIOLLA, p.36)
eles conquistariam a jornada de 10 horas.
Em 1864, quando aconteceu a Primeira Internacional Operária, a questão do
sufrágio universal, que já existia desde o cartismo, seria componente central
dessa onda revolucionária. Já na Internacional Socialista ou Segunda
Internacional, será a redução da jornada de trabalho, a grande campanha.
O pensamento operário, surgirá principalmente de duas correntes, o
socialismo e o comunismo. O Socialismo “foi
uma palavra para designar aqueles que acreditam na origem contratual de uma
sociedade de homens livres e iguais” (COGIOLLA, p.39-40). Três utopistas
surgiriam: Saint Simon, Fourier, e Owen, cada um buscará meios para resolver os
problemas da sociedade, de maneiras diferenciadas, tendo como traço comum,
agirem como representantes do operariado, que segundo Cogiolla, já haviam
surgido como produto histórico.
O comunismo seria segundo Cogiolla, “a
tendência radical das revoluções democráticas, caracterizada pelas suas
propostas igualitárias.” (COGIOLLA, p.50). Engels, dirá que o comunismo “é
um sistema segundo o qual a terra deve ser bem comum dos homens. Cada um deve
trabalhar e produzir de acordo com as suas capacidades, e gozar e consumir de
acordo com as suas forças” (COGIOLLA, p.51). O Socialismo segundo Marx e
Engels, será a primeira fase do sistema comunista, essa é mais moderada.
Engels escreverá que a democracia é o comunismo e que essa se tornou em
principio proletário, de massas. A Liga dos Justos, em 1847, lançará programa
redigido por Marx e Engels, o Manifesto Comunista, “nascia assim como movimento político organizado e internacional.”
(COGIOLLA, p.58)
Referências:
COGIOLLA,
Osvaldo. “Movimento e pensamento operário antes de Marx”. Editora
Brasiliense,1991.
PERROT,
Michelle. “As três eras da disciplina
industrial na França do século XIX”. In: Os Excluídos da História,
operário, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1988


























