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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

RESENHA: Movimento e pensamento operário antes de Marx, na obra de Osvaldo Coggiola

Por Zevaldo Sousa

Segundo Osvaldo Cogiolla “a classe operária moderna é o produto do desenvolvimento do modo de produção capitalista” (COGGIOLLA, p.7). Pra que essa classe fosse formada, precisou ter condições econômicas necessárias, para que, houvesse uma mudança nas formas de apropriação privada do trabalho. Essa mudança implicava na obrigação de trabalhar para outrem, ou seja, a essência do moderno sistema econômico do capitalismo é a compra/venda da força de trabalho em troca de um salário. Foi aproximadamente na segunda metade do século XVI e começo do XVII, que esse sistema nasceu e começou a crescer e se fixar. O crescimento decisivo desse sistema ocorrerá, a partir do século XVIII, quando a “Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, com a qual o capitalismo consolidaria seu domínio da produção e criaria as bases da sua expansão em escala mundial” (COGGIOLLA, p.11). Esse momento será transitório, de uma fase mais imatura e primitivo do capitalismo, para uma outra, em que, irá ser criada sua própria forma de produção, levando em conta a divisão do trabalho para o interior da fábrica. A partir desse momento, existirá a fábrica, o operário e os meios de produção.

As bases para a incorporação dos progressos técnicos à produção em larga escala só estariam lançadas quando além de tudo isso, a população começasse a crescer, e com a diminuição do índice de mortalidade infantil, controle de doenças epidêmicas, generalização de práticas higiênicas, etc. O sistema estaria definitivamente implantado.

É dentro das fábricas que surgem a nove classe social, a classe operária, submetida nesta fase inicial a esgotantes jornadas de trabalho” (COGGIOLLA, p.15). Michelle Perrot, irá dizer que, nesta fase, os donos estariam muito preocupados em combater o furto de matérias-primas e controle de qualidade de seus produtos. Várias regras surgiriam, ela citará três princípios básicos que regiam a organização de uma fábrica: O político, denotaria poder; o técnico, racionalidade na industria e por fim, a vigilância constante, tanto de pessoas, como de produtos. A fábrica precisa de regras, e regulamentos com proibições tanto para que a fábrica tivesse um bom funcionamento, quanto morais, evitando confusões, para isso, as penalidades não eram leves, e cada caso, tinha a sua especificidade na hora de punir.

A família aqui neste momento era fundamental, o chefe, segundo Perrot, era o próprio pai, pois se os empregados se revoltassem, estariam se revoltando contra seu próprio pai, e todos seriam punidos, era tudo ou nada, a união para não morrer de fome, levava todos da família a trabalhar. O paternalismo já estava se firmando, e grande parte dos funcionários queria esse sistema, mas este tinha seus problemas, e logo perderiam seu lugar. Até porque, leis contra o trabalho infantil, começariam a ser criadas.

Hobsbawn descreverá que a Revolução Industrial será o processo de transformação mais radical das condições de vida e afetará a todos os níveis da sociedade, inclusive a família. Serão homens e mulheres “livres” e despojados de toda posse, que seriam obrigados a trabalhar, vender sua força, transformando-se em operários modernos. Aliás, não somente homens e mulheres adultos, mais jovens e crianças, o que gerará uma grande quantidade de mão-de-obra, que levariam ao crescimento da indústria têxtil e metalúrgica. Há neste momento um processo de disciplinamento constante. Alguns trabalhadores ganharam certa autonomia, principalmente os metarlúrgicos, devido uma questão prática, que só era revelada para os seus filhos, como forma de mantê-los empregados, e também como forma de refrear a produção. Sendo assim, diversas leis começariam a ser criadas, para controlar essas classes “ditas” perigosas, havia uma preocupação com a subsistência dessas. A consolidação do sistema capitalista, dará com a absorção da mão-de-obra de reserva por parte das inovações tecnológicas, principalmente com construções de navios e estradas de ferro, que transformará esse operariado em fixo e hereditário.

Mas quando surgiu o movimento operário? E o que é movimento operário? Cogiolla cita palavras de Blanqui, revolucionário democrático francês, “É a profissão de 30 milhões de franceses que vivem do seu trabalho e são despojados de seus direitos públicos” (COGIOLLA, p.23). Aqui esse conceito aparecerá, no seu antigo sentido, no da república romana. Segundo Cogiolla, se seguirmos esse sentido, podemos estar de acordo com Thompson, que afirmará que: “a classe operária formou-se a si própria tanto quanto foi formada”. (COGGIOLA, p.23).

Segundo Cogiolla, “o erro desse autor foi enfatizar unilateralmente o primeiro termo (o “fazer-se” da classe operária), operando uma cisão improcedente entre a existência e a consciência da classe: “a experiência da classe é determinada pelas relações de produção nas quais os homens nasceram, ou entraram involutariamente.” (COGIOLLA, p. 23-4)

Tanto Perrot, como Cogiolla, irão enfatizar que foi no século XIX que surgiram rebeliões, greves, inclusive com destruição de fábricas, lutas. A situação tornaria insustentável e criou as possibilidades para o surgimento de movimentos trabalhistas e socialistas.

Marx irá dizer que os operários são a única potência social, devido o seu número, contudo a sua desorganização e desunião, é quem atrapalha no processo de modificação. Todavia esse processo mudaria, ao poucos, em 1838, foi lançado a Carta, também conhecida como cartismo, lançará pois, um programa democrático, organizando massas de trabalhadores. Em 1847, segundo Cogiolla “a primeira vitória histórica da classe operária foi produto de um movimento claramente político.” (COGIOLLA, p.36) eles conquistariam a jornada de 10 horas.

Em 1864, quando aconteceu a Primeira Internacional Operária, a questão do sufrágio universal, que já existia desde o cartismo, seria componente central dessa onda revolucionária. Já na Internacional Socialista ou Segunda Internacional, será a redução da jornada de trabalho, a grande campanha.

O pensamento operário, surgirá principalmente de duas correntes, o socialismo e o comunismo. O Socialismo “foi uma palavra para designar aqueles que acreditam na origem contratual de uma sociedade de homens livres e iguais” (COGIOLLA, p.39-40). Três utopistas surgiriam: Saint Simon, Fourier, e Owen, cada um buscará meios para resolver os problemas da sociedade, de maneiras diferenciadas, tendo como traço comum, agirem como representantes do operariado, que segundo Cogiolla, já haviam surgido como produto histórico.

O comunismo seria segundo Cogiolla, “a tendência radical das revoluções democráticas, caracterizada pelas suas propostas igualitárias.” (COGIOLLA, p.50). Engels, dirá que o comunismo “é um sistema segundo o qual a terra deve ser bem comum dos homens. Cada um deve trabalhar e produzir de acordo com as suas capacidades, e gozar e consumir de acordo com as suas forças” (COGIOLLA, p.51). O Socialismo segundo Marx e Engels, será a primeira fase do sistema comunista, essa é mais moderada.

Engels escreverá que a democracia é o comunismo e que essa se tornou em principio proletário, de massas. A Liga dos Justos, em 1847, lançará programa redigido por Marx e Engels, o Manifesto Comunista, “nascia assim como movimento político organizado e internacional.” (COGIOLLA, p.58)

Referências:
COGIOLLA, Osvaldo. “Movimento e pensamento operário antes de Marx”. Editora Brasiliense,1991.
PERROT, Michelle. “As três eras da disciplina industrial na França do século XIX”. In: Os Excluídos da História, operário, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1988

Fichamento: A guerra civil americana: a última revolução capitalista de Barrington Moore


Por Zevaldo Sousa

MOORE Jr., Barrington. “A guerra civil americana: a última revolução capitalista”. In: As origens sociais da ditadura e da democracia, 1913; Tradução de Maria Ludovina F. Couto. São Paulo, Martins Fontes, 1983.

Barrington Morre Jr. é considerado o precursor da sociologia histórica comparada. Em seu livro As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, Senhores e Camponeses na Construção do Mundo Moderno, ele desenvolve um nexo entre democracia e liberdade nas sociedades que entraram para a modernidade através de grandes rupturas revolucionárias ou de padrões de acomodação de uma ordem conservadora da propriedade rural.

O autor começa seu texto, falando das diferenças da sociedade americana e da sociedade européia, como forma de explicar que nos Estados Unidos da América, não houve uma Revolução, como na Inglaterra (Puritana) e na França (Francesa). Que a moderna democracia capitalista começa tardiamente e que os Estados Unidos não tiveram problemas para desmantelar uma sociedade agrária complexa.

A guerra civil americana é uma guerra que cindia a nação, entre as classes comerciantes e industriais do norte liberal, contra o sul escravocrata. A escravidão era o ponto de divergência que obstaculizava a unidade nacional. Do sul escravista vinha a maior parte dos integrantes das câmaras de representação, impondo um padrão conservador ao congresso.

Contrariando a visão tradicional, que considera “geralmente a Guerra Civil como um marco que dividiu violentamente as épocas agrárias e industrial da história americana.” (p. 116), o historiador Barrington Moore mostra que, apesar de divergentes, os dois sistemas econômicos foram desde a Independência complementares, sendo muito do desenvolvimento do capitalismo industrial devido aos lucros da economia agrária sulista. Se esses lucros eram provenientes de um sistema escravista e, ainda assim, beneficiavam a economia do Norte, nota-se que o escravismo não era o entrave econômico que anteriormente se via.

Por volta de 1860, teremos três regiões diferenciadas, cada uma com suas especificidades próprias. Desenvolvendo-se a partir de sistemas distintos, mas que se completavam. O Norte, segundo Moore, tem uma economia industrial capitalista, e vê um rápido avanço no processo de industrialização da região, principalmente, na indústria têxtil. Tornando-se, portanto, competidor da Inglaterra no setor que colocou a Inglaterra, como principal agente da industrialização, através da Revolução Industrial e que vê no Sul, um consumidor dos seus produtos.

Em contraposição o Sul era baseado numa economia agrária escravista, tem como principal produto o algodão, produto esse que o norte tanto deseja, para alimentar suas indústrias, como o Sul tem uma ligação com a Inglaterra muito forte, torna-se portanto, alvo de embargos econômicos dos empresários nortistas, que pressionam o governo. Como é no Norte, segundo Moore que se têm os principais portos da região, o sul fica, em certo ponto relacionado com o Norte, não havendo portanto, grandes problemas.

Só que nesse momento, o Oeste começa a ganhar peso, lá se desenvolve uma economia agrária familiar, em que as terras são tomadas por agricultores livres. Sendo assim, essas terras são vista pelos trabalhadores, como um meio para conquistar sua terra, seu pedacinho de chão. Os empresários do Norte vêem uma oportunidade de ganhar com o Oeste, mercado para seus produtos, e o Sul vêem no Oeste mais uma oportunidade de ampliação de suas terras e culturas. Nessa batalha o Norte “vence” devido suas articulações.

Todavia, tanto o Norte, quanto o Sul, tinha receio de perder sua mão-de-obra para essa nova região. Os primeiros queriam a libertação dos escravos no Sul, para que não sofressem tanto com essa perda, que estava acontecendo. E o Sul, não queria perder sua mão-de-obra, escrava e que já estava sendo perdido, devido às intervenções do governo inglês no comércio e no tráfico de escravos, não ter escravidão numa sociedade estava, portanto, se tornando uma questão moral.

Sendo assim, temos o Norte produzindo os produtos que tanto o Sul e o Oeste queriam, protegendo-se cada vez mais. O Sul perderá importância para o Oeste, dependendo cada vez mais do Norte. Já o Oeste, nasce com dependência dos produtos e políticas nortistas.

Mesmo visto como questão moral, não havia no Norte uma total repulsa pela escravidão. A nova perspectiva de Moore vai além desses conflitos específicos para olhar as causas políticas da Guerra Civil.

Para esse historiador, a questão chave do conflito se dá quando o aparelho de política federal se vê obrigado a favorecer somente um dos sistemas, nesse caso, o sistema econômico do Norte. Tal obrigação decorre do rompimento do equilíbrio anterior a partir da entrada dos novos estados do Oeste. Num primeiro momento se manteve a proporção na representatividade dos modelos escravista e não escravista. Porém, a aproximação Norte e Oeste deslocou o eixo de prioridades governamentais, que acabaram por favorecer o sistema dessas áreas. Também foi colocada em questão a autonomia dos estados frente à federação, uma vez que os interesses gerais não eram os mesmos.

O papel do político moderno é um questionamento importante visualizado neste texto de Moore, para ele o “político moderno democrático é especialmente paradoxal, pelo menos superficialmente. Faz aquilo que faz, para que a maior parte das pessoas não tenha de preocupar-se com a política.” Isso me remeteu, ao nosso caso, bem atual até. Aqui no Brasil se age muito assim, e os políticos vão muito mais além, de fazer com que as pessoas fiquem sem se preocupar com a política, cria-se sistemas, meios para não se ter um discurso político entre a população, tornando-os analfabetos políticos, que na maioria das vezes, são também, analfabetos funcionais e outros termos mais.

Para Moore, os pontos principais que causaram, em última instância a guerra foram:
  1. Desenvolvimento de sistemas econômicos diferentes que levaram a civilizações diferentes (mas sempre capitalistas) com posições incompatíveis em relação à escravatura. (p. 144)
  2. A ligação entre o capitalismo do Norte e a agricultura do Oeste ajudou a tornar desnecessária, durante algum tempo, a coligação reacionária característica entre as elites urbanas e as proprietárias de terra e, portanto, o único compromisso que poderia ter evitado a guerra. (p. 144)
  3. O futuro do Oeste surgia incerto, de modo a tornar incerta a distribuição do poder central, intensificando e aumentando, assim, todas as causas de desconfiança e disputa.
  4. As principais forças de coesão da sociedade americana, embora estivessem se consolidando, eram ainda muito fracas.

Em relação ao Impulso Revolucionário, O autor falará que não houve um levante radical na Guerra Civil Americana, diferente das revoluções francesa e puritana, por dois motivos:
  1. A existência de terras no Oeste reduziu o potencial explosivo.
  2. faltavam os elementos para uma conflagração de camponeses.

O que se pode considerar como um impulso revolucionário, provém do Capitalismo do Norte, especificamente em grupos republicanos radicais, que fundiram seus ideais abolicionistas com interesses fabris.

Ao terminar a Guerra, a discussão será: o que fazer com os derrotados? Várias serão os questionamentos e possíveis soluções. Todavia, o questionamento mais importante será: O que fazer com os negros libertos? Esses apesar de terem tido um acesso a terra, um tempo depois, perderiam logo em seguida, devido a vários fatores, os direitos civis dessas pessoas não serão dados em sua totalidade. A democracia plena, que abrange toda população (se considerarmos que tal democracia realmente existe) é um feito somente do século XX, com suas exceções particulares. Mas suas bases foram, em certa medida, lançadas com a Guerra Civil. Conflito que, apesar de não tornar todos cidadãos, conseguiu fazer com que todas as pessoas tivessem igualdade na categoria de “livres”.