Por Zevaldo Sousa
MOORE Jr., Barrington. “A guerra civil americana: a última revolução
capitalista”. In: As origens sociais da ditadura e da democracia, 1913;
Tradução de Maria Ludovina F. Couto. São Paulo, Martins Fontes, 1983.
Barrington Morre Jr. é considerado o precursor da sociologia histórica
comparada. Em seu livro As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia,
Senhores e Camponeses na Construção do Mundo Moderno, ele desenvolve
um nexo entre democracia e liberdade nas sociedades que entraram para a
modernidade através de grandes rupturas revolucionárias ou de padrões de
acomodação de uma ordem conservadora da propriedade rural.
O autor começa seu texto, falando das diferenças da sociedade americana e
da sociedade européia, como forma de explicar que nos Estados Unidos da
América, não houve uma Revolução, como na Inglaterra (Puritana) e na França
(Francesa). Que a moderna democracia capitalista começa tardiamente e que os
Estados Unidos não tiveram problemas para desmantelar uma sociedade agrária
complexa.
A
guerra civil americana é uma guerra que cindia a nação, entre as classes
comerciantes e industriais do norte liberal, contra o sul escravocrata. A
escravidão era o ponto de divergência que obstaculizava a unidade nacional. Do
sul escravista vinha a maior parte dos integrantes das câmaras de
representação, impondo um padrão conservador ao congresso.
Contrariando
a visão tradicional, que considera “geralmente a Guerra Civil como um marco que
dividiu violentamente as épocas agrárias e industrial da história americana.”
(p. 116), o historiador Barrington Moore mostra que, apesar de divergentes, os
dois sistemas econômicos foram desde a Independência complementares, sendo
muito do desenvolvimento do capitalismo industrial devido aos lucros da
economia agrária sulista. Se esses lucros eram provenientes de um sistema
escravista e, ainda assim, beneficiavam a economia do Norte, nota-se que o
escravismo não era o entrave econômico que anteriormente se via.
Por volta de 1860, teremos três regiões diferenciadas, cada uma com suas
especificidades próprias. Desenvolvendo-se a partir de sistemas distintos, mas
que se completavam. O Norte, segundo Moore, tem uma economia industrial
capitalista, e vê um rápido avanço no processo de industrialização da região,
principalmente, na indústria têxtil. Tornando-se, portanto, competidor da
Inglaterra no setor que colocou a Inglaterra, como principal agente da
industrialização, através da Revolução Industrial e que vê no Sul, um
consumidor dos seus produtos.
Em contraposição o Sul era baseado numa economia agrária escravista, tem
como principal produto o algodão, produto esse que o norte tanto deseja, para
alimentar suas indústrias, como o Sul tem uma ligação com a Inglaterra muito
forte, torna-se portanto, alvo de embargos econômicos dos empresários
nortistas, que pressionam o governo. Como é no Norte, segundo Moore que se têm
os principais portos da região, o sul fica, em certo ponto relacionado com o
Norte, não havendo portanto, grandes problemas.
Só que nesse momento, o Oeste começa a ganhar peso, lá se desenvolve uma
economia agrária familiar, em que as terras são tomadas por agricultores
livres. Sendo assim, essas terras são vista pelos trabalhadores, como um meio
para conquistar sua terra, seu pedacinho de chão. Os empresários do Norte vêem
uma oportunidade de ganhar com o Oeste, mercado para seus produtos, e o Sul
vêem no Oeste mais uma oportunidade de ampliação de suas terras e culturas.
Nessa batalha o Norte “vence” devido suas articulações.
Todavia, tanto o Norte, quanto o Sul, tinha receio de perder sua mão-de-obra
para essa nova região. Os primeiros queriam a libertação dos escravos no Sul,
para que não sofressem tanto com essa perda, que estava acontecendo. E o Sul,
não queria perder sua mão-de-obra, escrava e que já estava sendo perdido,
devido às intervenções do governo inglês no comércio e no tráfico de escravos,
não ter escravidão numa sociedade estava, portanto, se tornando uma questão
moral.
Sendo assim, temos o Norte produzindo os produtos que tanto o Sul e o
Oeste queriam, protegendo-se cada vez mais. O Sul perderá importância para o
Oeste, dependendo cada vez mais do Norte. Já o Oeste, nasce com dependência dos
produtos e políticas nortistas.
Mesmo
visto como questão moral, não havia no Norte uma total repulsa pela escravidão.
A nova perspectiva de Moore vai além desses conflitos específicos para olhar as
causas políticas da Guerra Civil.
Para esse historiador, a
questão chave do conflito se dá quando o aparelho de política federal se vê
obrigado a favorecer somente um dos sistemas, nesse caso, o sistema econômico
do Norte. Tal obrigação decorre do rompimento do equilíbrio anterior a partir
da entrada dos novos estados do Oeste. Num primeiro momento se manteve a
proporção na representatividade dos modelos escravista e não escravista. Porém,
a aproximação Norte e Oeste deslocou o eixo de prioridades governamentais, que
acabaram por favorecer o sistema dessas áreas. Também foi colocada em questão a
autonomia dos estados frente à federação, uma vez que os interesses gerais não
eram os mesmos.
O papel do político moderno
é um questionamento importante visualizado neste texto de Moore, para ele o
“político moderno democrático é especialmente paradoxal, pelo menos
superficialmente. Faz aquilo que faz, para que a maior parte das pessoas não
tenha de preocupar-se com a política.” Isso me remeteu, ao nosso caso, bem
atual até. Aqui no Brasil se age muito assim, e os políticos vão muito mais
além, de fazer com que as pessoas fiquem sem se preocupar com a política,
cria-se sistemas, meios para não se ter um discurso político entre a população,
tornando-os analfabetos políticos, que na maioria das vezes, são também,
analfabetos funcionais e outros termos mais.
Para Moore, os pontos
principais que causaram, em última instância a guerra foram:
- Desenvolvimento de sistemas econômicos diferentes que levaram a civilizações diferentes (mas sempre capitalistas) com posições incompatíveis em relação à escravatura. (p. 144)
- A ligação entre o capitalismo do Norte e a agricultura do Oeste ajudou a tornar desnecessária, durante algum tempo, a coligação reacionária característica entre as elites urbanas e as proprietárias de terra e, portanto, o único compromisso que poderia ter evitado a guerra. (p. 144)
- O futuro do Oeste surgia incerto, de modo a tornar incerta a distribuição do poder central, intensificando e aumentando, assim, todas as causas de desconfiança e disputa.
- As principais forças de coesão da sociedade americana, embora estivessem se consolidando, eram ainda muito fracas.
Em relação ao Impulso
Revolucionário, O autor falará que não houve um levante radical na Guerra Civil
Americana, diferente das revoluções francesa e puritana, por dois motivos:
- A existência de terras no Oeste reduziu o potencial explosivo.
- faltavam os elementos para uma conflagração de camponeses.
O que se pode considerar
como um impulso revolucionário, provém do Capitalismo do Norte, especificamente
em grupos republicanos radicais, que fundiram seus ideais abolicionistas com
interesses fabris.
Ao terminar a Guerra, a
discussão será: o que fazer com os derrotados? Várias serão os questionamentos
e possíveis soluções. Todavia, o questionamento mais importante será: O que
fazer com os negros libertos? Esses apesar de terem tido um acesso a terra, um
tempo depois, perderiam logo em seguida, devido a vários fatores, os direitos
civis dessas pessoas não serão dados em sua totalidade. A democracia plena, que
abrange toda população (se considerarmos que tal democracia realmente existe) é
um feito somente do século XX, com suas exceções particulares. Mas suas bases
foram, em certa medida, lançadas com a Guerra Civil. Conflito que, apesar de
não tornar todos cidadãos, conseguiu fazer com que todas as pessoas tivessem
igualdade na categoria de “livres”.






















