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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fichamento: A guerra civil americana: a última revolução capitalista de Barrington Moore


Por Zevaldo Sousa

MOORE Jr., Barrington. “A guerra civil americana: a última revolução capitalista”. In: As origens sociais da ditadura e da democracia, 1913; Tradução de Maria Ludovina F. Couto. São Paulo, Martins Fontes, 1983.

Barrington Morre Jr. é considerado o precursor da sociologia histórica comparada. Em seu livro As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, Senhores e Camponeses na Construção do Mundo Moderno, ele desenvolve um nexo entre democracia e liberdade nas sociedades que entraram para a modernidade através de grandes rupturas revolucionárias ou de padrões de acomodação de uma ordem conservadora da propriedade rural.

O autor começa seu texto, falando das diferenças da sociedade americana e da sociedade européia, como forma de explicar que nos Estados Unidos da América, não houve uma Revolução, como na Inglaterra (Puritana) e na França (Francesa). Que a moderna democracia capitalista começa tardiamente e que os Estados Unidos não tiveram problemas para desmantelar uma sociedade agrária complexa.

A guerra civil americana é uma guerra que cindia a nação, entre as classes comerciantes e industriais do norte liberal, contra o sul escravocrata. A escravidão era o ponto de divergência que obstaculizava a unidade nacional. Do sul escravista vinha a maior parte dos integrantes das câmaras de representação, impondo um padrão conservador ao congresso.

Contrariando a visão tradicional, que considera “geralmente a Guerra Civil como um marco que dividiu violentamente as épocas agrárias e industrial da história americana.” (p. 116), o historiador Barrington Moore mostra que, apesar de divergentes, os dois sistemas econômicos foram desde a Independência complementares, sendo muito do desenvolvimento do capitalismo industrial devido aos lucros da economia agrária sulista. Se esses lucros eram provenientes de um sistema escravista e, ainda assim, beneficiavam a economia do Norte, nota-se que o escravismo não era o entrave econômico que anteriormente se via.

Por volta de 1860, teremos três regiões diferenciadas, cada uma com suas especificidades próprias. Desenvolvendo-se a partir de sistemas distintos, mas que se completavam. O Norte, segundo Moore, tem uma economia industrial capitalista, e vê um rápido avanço no processo de industrialização da região, principalmente, na indústria têxtil. Tornando-se, portanto, competidor da Inglaterra no setor que colocou a Inglaterra, como principal agente da industrialização, através da Revolução Industrial e que vê no Sul, um consumidor dos seus produtos.

Em contraposição o Sul era baseado numa economia agrária escravista, tem como principal produto o algodão, produto esse que o norte tanto deseja, para alimentar suas indústrias, como o Sul tem uma ligação com a Inglaterra muito forte, torna-se portanto, alvo de embargos econômicos dos empresários nortistas, que pressionam o governo. Como é no Norte, segundo Moore que se têm os principais portos da região, o sul fica, em certo ponto relacionado com o Norte, não havendo portanto, grandes problemas.

Só que nesse momento, o Oeste começa a ganhar peso, lá se desenvolve uma economia agrária familiar, em que as terras são tomadas por agricultores livres. Sendo assim, essas terras são vista pelos trabalhadores, como um meio para conquistar sua terra, seu pedacinho de chão. Os empresários do Norte vêem uma oportunidade de ganhar com o Oeste, mercado para seus produtos, e o Sul vêem no Oeste mais uma oportunidade de ampliação de suas terras e culturas. Nessa batalha o Norte “vence” devido suas articulações.

Todavia, tanto o Norte, quanto o Sul, tinha receio de perder sua mão-de-obra para essa nova região. Os primeiros queriam a libertação dos escravos no Sul, para que não sofressem tanto com essa perda, que estava acontecendo. E o Sul, não queria perder sua mão-de-obra, escrava e que já estava sendo perdido, devido às intervenções do governo inglês no comércio e no tráfico de escravos, não ter escravidão numa sociedade estava, portanto, se tornando uma questão moral.

Sendo assim, temos o Norte produzindo os produtos que tanto o Sul e o Oeste queriam, protegendo-se cada vez mais. O Sul perderá importância para o Oeste, dependendo cada vez mais do Norte. Já o Oeste, nasce com dependência dos produtos e políticas nortistas.

Mesmo visto como questão moral, não havia no Norte uma total repulsa pela escravidão. A nova perspectiva de Moore vai além desses conflitos específicos para olhar as causas políticas da Guerra Civil.

Para esse historiador, a questão chave do conflito se dá quando o aparelho de política federal se vê obrigado a favorecer somente um dos sistemas, nesse caso, o sistema econômico do Norte. Tal obrigação decorre do rompimento do equilíbrio anterior a partir da entrada dos novos estados do Oeste. Num primeiro momento se manteve a proporção na representatividade dos modelos escravista e não escravista. Porém, a aproximação Norte e Oeste deslocou o eixo de prioridades governamentais, que acabaram por favorecer o sistema dessas áreas. Também foi colocada em questão a autonomia dos estados frente à federação, uma vez que os interesses gerais não eram os mesmos.

O papel do político moderno é um questionamento importante visualizado neste texto de Moore, para ele o “político moderno democrático é especialmente paradoxal, pelo menos superficialmente. Faz aquilo que faz, para que a maior parte das pessoas não tenha de preocupar-se com a política.” Isso me remeteu, ao nosso caso, bem atual até. Aqui no Brasil se age muito assim, e os políticos vão muito mais além, de fazer com que as pessoas fiquem sem se preocupar com a política, cria-se sistemas, meios para não se ter um discurso político entre a população, tornando-os analfabetos políticos, que na maioria das vezes, são também, analfabetos funcionais e outros termos mais.

Para Moore, os pontos principais que causaram, em última instância a guerra foram:
  1. Desenvolvimento de sistemas econômicos diferentes que levaram a civilizações diferentes (mas sempre capitalistas) com posições incompatíveis em relação à escravatura. (p. 144)
  2. A ligação entre o capitalismo do Norte e a agricultura do Oeste ajudou a tornar desnecessária, durante algum tempo, a coligação reacionária característica entre as elites urbanas e as proprietárias de terra e, portanto, o único compromisso que poderia ter evitado a guerra. (p. 144)
  3. O futuro do Oeste surgia incerto, de modo a tornar incerta a distribuição do poder central, intensificando e aumentando, assim, todas as causas de desconfiança e disputa.
  4. As principais forças de coesão da sociedade americana, embora estivessem se consolidando, eram ainda muito fracas.

Em relação ao Impulso Revolucionário, O autor falará que não houve um levante radical na Guerra Civil Americana, diferente das revoluções francesa e puritana, por dois motivos:
  1. A existência de terras no Oeste reduziu o potencial explosivo.
  2. faltavam os elementos para uma conflagração de camponeses.

O que se pode considerar como um impulso revolucionário, provém do Capitalismo do Norte, especificamente em grupos republicanos radicais, que fundiram seus ideais abolicionistas com interesses fabris.

Ao terminar a Guerra, a discussão será: o que fazer com os derrotados? Várias serão os questionamentos e possíveis soluções. Todavia, o questionamento mais importante será: O que fazer com os negros libertos? Esses apesar de terem tido um acesso a terra, um tempo depois, perderiam logo em seguida, devido a vários fatores, os direitos civis dessas pessoas não serão dados em sua totalidade. A democracia plena, que abrange toda população (se considerarmos que tal democracia realmente existe) é um feito somente do século XX, com suas exceções particulares. Mas suas bases foram, em certa medida, lançadas com a Guerra Civil. Conflito que, apesar de não tornar todos cidadãos, conseguiu fazer com que todas as pessoas tivessem igualdade na categoria de “livres”.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Revolução Iraniana foi uma revolução Islâmica?

Para fazer esse resumo sobre a Revolução Iraniana, trabalharemos com o décimo livro da Coleção Revoluções do Século 20 que é organizada e dirigida pela historiadora Emília Viotti da Costa. O livro intitulado Revolução Iraniana é escrito por Osvaldo Cogiolla que é graduado em História pela Universite de Paris VIII (1977) e em Economia também pela Universite de Paris VIII (1979). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e professor nos cursos de jornalismo e economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Essa coleção pretende montar um quadro amplo das revoluções contemporâneas e já conta com títulos: A Revolução Boliviana, A Revolução Salvadorenha, A Revolução Alemã, A Revolução Chinesa, A Revolução Cubana, A Revolução Guatemalteca, As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético, A Revolução Nicaragüense e A Revolução Vietnamita.

Todos os livros da coleção tem uma orientação marxista. Aborda muito bem o tema trabalhado e traz uma visão da revolução iraniana que ainda não tinha visto em lugar nenhum, demonstrando clareza e podendo ser usado, tanto como forma de instrução ou apenas de conhecimento sobre esse fato que marca a história. Devido a fácil linguagem, explicando cada momento e internacionalizando o acontecimento, demonstrando que a história de um lugar, não está sintetizada no mesmo, principalmente, no século XX, com todo esse contexto, industrialização, globalização, informatização e maior espaço de sociabilização dos acontecimentos por parte dos meios de comunicações.

A Revolução Iraniana foi, no final do ano de 1978, a primeira revolução televisionada ao vivo em um Irã espremido entre a autocracia, a corrupção e anseios modernizadores. O mundo assistia perplexo a um espetáculo surpreendente: as ruas das principais cidades do Irã eram inundadas por uma população enfurecida que exigia a saída do Xá Reza Pahlevi. (Veja abaixo o mapa interativo do Irã atual - Google Maps)


Além das intervenções russa e britânica, no começo do século XX, e posteriormente da norte-americana, Coggiola elenca os motivos que a população iraniana tinha para derrubar o regime comandado pelo Xá, entre eles, a vertiginosa desigualdade social, seu posicionamento frente a questões religiosas e a repressão selvagem levada a cabo pela polícia política, a Savak. No entanto, o que mais chama a atenção é como o processo é modificado quando a ação passa da burguesia nativa para o proletariado: na revolução passada em “tempo real” para o mundo, o povo que oferecia seu peito às balas era inspirado pelos ensinamentos de um personagem religioso do século VII, o profeta Maomé.

Entendo que a religião é a característica principal da revolução, mas sinto falta da mesma no livro de Osvaldo Cogiolla, não vejo um aprofundamento acerca da questão religiosa, que acredito que deveria ser melhor aproveitada. Vale ressaltar que o simples fato de termos um país, em que a maioria da população é islâmica, não fundamenta a tese de que uma revolução neste país tenha sido Islâmica, por mais que tenha se desejado a todo o custo uma República Islâmica. Devemos estar atentos aos processos que ocorreram antes mesmo da revolução. Acredito que antes deveria ter pelo menos um capítulo com algumas explicações básicas de como o Islã entrou naquele país, o que é xiismo, sunismo e o que representa suas respectivas seitas dentro do mundo islã, até como forma de explicar, exemplo o porque do Irã estar apoiando EUA e Israel na guerra do Yom-Kippur, em que a maioria dos países árabes apoiaram a invasão de Israel. O Irã é o país que tem a maior população islâmica (xiitas), e esses acreditam que somente os descendentes do genro de Maomé, Ali, com sua filha Fátima, podem governar. Cabe ressaltar que apenas 9% das pessoas que tem o islamismo por religião, são xiitas, enquanto que no Irã mais da metade da população é xiita. Essa é uma das explicações para essa união. Aliás o Irã, quer dominar a região, e é um ponto estratégico para os EUA, esses aliás estavam envolvidos diretamente, com a venda de armas e o comércio do petróleo.

Retirada de AFP
Vemos, pois, um povo tão agitado que quando o Xá Reza Pahlevi, toma decisão de tornar o Estado laico, ele não consegue enxergar, os sofrimentos de uma população que, além de sofrer, por causa da economia e dos mandos e desmandos políticos. Aliás, esse não fazia questão nenhuma de enxergar essa população, chegando ao ponto de perguntar ao chefe do Instituto Pesquisa Social de Teerã Elisam Narighi sobre as origens das agitações. Esse respondera que a origem estaria... no próprio Xá. Este ficou surpreso com a resposta, pois acreditava piamente, que ele iria dizer que eram comunistas, palestinos, americanos, Khomeini, ou qualquer outro. Isso significa dizer que o xá Reza Pahlevi, não estava nem aí, para a população, cada vez mais sem previsão de um futuro. Somente a religião, era seu aporte, o seu lugar.

Sendo assim, as diversas promessas de República Islâmica oferecidas, pelas cópias de fitas contrabandeadas, estavam iludindo toda uma população, inclusive sunita. O que estava por vir, ninguém esperava, nem mesmo os revolucionários. As várias ondas, as greves do operariado, me faz pensar naquilo que Marx dizia, e que o próprio Cogiolla em seu livro “Movimento e pensamento operário antes de Marx” citará “a única potência social que operários possuem é seu numero. Mas a quantidade é anulada pela desunião, que se engendra e se perpetua por uma concorrência inevitável” (COGIOLLA, 1991, p.31). Na primeira fase, essa frase se encaixaria muito bem, depois os rumos da revolução irão mudar e aí, não cabe dizer que é uma revolução islâmica, já que vários islâmicos estarão fora do processo, principalmente os curdos, que em sua maioria é sunita. As eleições marcadas para dezembro de 1979, mostraria que parte da população não queria o regime do Aiatolá Khomeini, mujahedeem, fedayin e frente nacional, boicotaram o plebiscito para a nova constituição, que colocava no parlamento, as minorias religiosas (cristãos, judeus e zoroastrisnos) e excluiria do processo os sunitas. É essa que é uma revolução islâmica?

A primeira fase da revolução é também uma parte importante do nosso questionamento. Cogiolla poderia dar também, mais ênfase ao papel dos grupos marxistas-leninistas Fedayin. O próprio citará que o “seu quartel-general era a Universidade de Teerã e foram eles, na verdade, os que tomaram a dianteira nos combates de rua. Também conquistaram posições entre os trabalhadores dos campos petrolíferos.” (COGIOLLA, 2008, p.83). O papel dos estudantes e dos professores da universidade de Teerã era tanto, que os xiitas, matariam depois da primeira fase, todos que se manifestassem contra o regime. A ação do Partido Republicano Iraniano, seria cruel contra todos aqueles que eram contra o regime que estava sendo implantado.

Retirada do Brasil Escola
Todo esse processo abriu o caminho para a ascensão do aiatolá Khomeini e alterou o equilíbrio no Oriente Médio, gerando resquícios em outros países como a Arábia Saudita. Coggiola chama atenção para as múltiplas raízes históricas e políticas que ficam ocultas quando a simplificação racionalista qualifica a revolução iraniana de islâmica, apresentando-a como um evento basicamente reacionário. Por isso, a necessidade também de se entender as contradições de um pais complexo, assim como uma visão geopolítica mais abrangente, oferecendo por fim um contraponto à atual visão apresentada na cruzada mundial contra o “terrorismo islâmico”.

Mostrar, também o papel da mídia e dos EUA no processo revolucionário e, logo depois dele, colocando todos os muçulmanos, árabes e islâmicos no mesmo saco, fazendo com que a maioria das pessoas olhe esses paises de maneira diferenciada, não conseguindo entender suas particularidades e ver que os principais agentes destruidores dessa cultura, e do modo como eles estão vendo o ocidente, foi a política aplicada, principalmente, pelos americanos.

Concluo, dizendo que este livro é muito importante para o entendimento da revolução iraniana, e depois da ditadura xiita, acredito que esse último conceito, está mais próximo da realidade esboçada na segunda fase.



Referências:
COGIOLLA, Osvaldo. A Revolução Iraniana. Editora UNESP, 2008. In: Revoluções do Século 20/Emília Viotti da Costa.
COGIOLLA, Osvaldo. Movimento e pensamento operário antes de Marx. Editora Brasiliense,1991.